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Os quatro temperamentos e nossa vida interior
Espiritualidade

Os quatro temperamentos
e nossa vida interior

Os quatro temperamentos e nossa vida interior

Como a descoberta e o trabalho do nosso temperamento pode ajudar no caminho de nossa santificação? É o que explica neste texto o grande tomista espanhol Pe. Antonio Royo Marín.

Pe. Antonio Royo MarínTradução: S.O.S. Família/Equipe CNP15 de Janeiro de 2019Tempo de leitura: 16 minutos
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Além dos grandes recursos psicológicos de caráter natural e sobrenatural, podemos aproveitar-nos também, no caminho da nossa santificação, de um auxílio de caráter puramente fisiológico — o nosso próprio temperamento —, melhorando suas boas disposições e corrigindo, dentro do possível, os seus defeitos. Naturalmente, trata-se de algo que contribui em pouca medida para a nossa santificação, num plano puramente dispositivo e meramente natural, mas não deixa de ter sua importância, ao menos negativa, removendo obstáculos (ut removens prohibens).

Vamos, pois, estudar a natureza, a classificação e os meios de aperfeiçoar o próprio temperamento.

1. Natureza. — Há uma grande diversidade de opiniões entre os autores sobre a natureza e a classificação dos temperamentos. Vamos expor aqui a doutrina mais comumente admitida, dando-lhe uma orientação eminentemente prática.

Noção. — O temperamento é o conjunto de inclinações íntimas que brotam da constituição fisiológica de um homem. É a característica dinâmica de cada indivíduo, que resulta do predomínio fisiológico de um sistema orgânico (sistema nervoso, sistema sanguíneo) ou de um humor (bílis, linfa).

Como se vê por essas noções, o temperamento é algo inato no indivíduo. É a índole natural, ou seja, algo que a natureza nos impõe. Por isso mesmo, ele nunca desaparece inteiramente: genio y figura hasta la sepultura — “gênio e figura permanecem até a sepultura”. Mas uma educação oportuna e, sobretudo, a força sobrenatural da graça podem, se não transformá-lo totalmente, ao menos reduzir ao mínimo suas estridências, e ainda suprir de todo suas manifestações exteriores. É testemunha disso — entre outros mil — São Francisco de Sales, que passou para a posteridade com o nome de “Santo da doçura”, apesar de seu temperamento fortemente colérico.

2. Classificação. — Depois de mil tentativas e ensaios, os tratadistas modernos voltam à classificação dos antigos clássicos, que parece remontar em sua origem ao próprio Hipócrates, maior médico da Antiguidade (460-377 a.C.). Segundo ele, os temperamentos fundamentais são quatro: sanguíneo, melancólico (nervoso), colérico (belicoso) e fleumático, conforme predomine neles a constituição fisiológica que seu nome mesmo indica.

Vejamos as características principais de cada um deles. Antes, porém, é preciso advertir que nenhum dos temperamentos que vamos descrever existe “quimicamente puro” na realidade. Geralmente, apresentam-se mesclados e, além disso, apresentam graus muito diversos. Assim, os fleumáticos nunca o são de todo, pois se encontram neles muitos traços de sensibilidade. Os sanguíneos têm, às vezes, qualidades próprias dos melancólicos, etc. Trata-se unicamente de algo predominante na constituição fisiológica de um indivíduo. É preciso levar muito em conta esta observação, ao descobrir alguns traços próprios de um determinado temperamento, para evitar um juízo prematuro, que poderia estar muito longe da realidade objetiva.

Passemos agora à descrição detalhada de cada um deles. Seguimos principalmente Conrado Hock e Guibert. É deles que citamos, vez por outra, suas próprias palavras.

a) Temperamento sanguíneo. — Características essenciais com relação à excitabilidade: O sanguíneo se excita fácil e fortemente por qualquer impressão. A reação pode ser também imediata e forte, mas a impressão ou duração pode ser curta. A lembrança de coisas passadas não provoca tão facilmente novas emoções.

“O Êxtase de Santa Teresa”, uma sanguínea. Quadro do séc. XVIII.

Boas qualidades. — O sanguíneo é afável e alegre, simpático e prestativo, dócil e submisso para com seus superiores, sincero e espontâneo (às vezes até à inconveniência). É verdade que, ante a injúria, raciocina às vezes com violência e prorrompe em expressões ofensivas; mas esquece rapidamente tudo, sem guardar rancor de ninguém. Desconhece a teimosia e a obstinação. Sacrifica-se com desinteresse. Seu entusiasmo é contagioso e arrebatador. Seu bom coração cativa e apaixona, exercendo uma espécie de sedução em torno de si.

Por ter uma concepção serena da vida, é fundamentalmente otimista, não o arredam as dificuldades, confia sempre no bom êxito. Surpreende-se muito de que os outros se incomodem com uma brincadeira pouco agradável, que lhe parece a coisa mais natural e simpática do mundo. Tem grande sentido prático da vida e é mais inclinado a idealizar do que a criticar.

Dotado de uma exuberante riqueza afetiva, é fácil e ágil para a amizade e se entrega a ela com ardor, às vezes apaixonadamente.

Sua inteligência é viva, rápida, assimila facilmente, mas sem muita profundidade. Dotado de uma memória feliz e uma imaginação ardente, triunfa facilmente na arte, na poesia e na oratória, mas não poderá alcançar a eminência do sábio. Os sanguíneos seriam muito freqüentemente espíritos superiores se tivessem tanta profundidade como sutileza, tanta tenacidade no trabalho como facilidade nas concepções.

Más qualidades. — Ao lado dessas boas qualidades, o temperamento sanguíneo apresenta sérios inconvenientes.

Seus principais defeitos são a superficialidade, a inconstância e a sensualidade. A primeira se deve principalmente à rapidez de suas concepções. Julga haver compreendido logo qualquer problema que se lhe proponha, quando na realidade o percebeu tão-somente de maneira superficial e incompleta. Daí procedem seus juízos apressados, ligeiros, freqüentemente inexatos, quando não inteiramente falsos. É mais amigo da amplitude fácil e brilhante do que da profundidade.

A inconstância do sanguíneo é fruto da pouca duração de suas impressões. Em um instante passa do riso ao pranto, do gozo delirante a uma negra tristeza. Arrepende-se pronta e verdadeiramente de seus pecados, mas volta a eles na primeira ocasião que se lhe apresenta. Os sanguíneos são vítimas de impressões de momento, sucumbem facilmente à tentação. São inimigos dos sacrifícios, da abnegação e do esforço duro e contínuo. São preguiçosos no estudo. Torna-se-lhes quase impossível refrear a vista, os ouvidos e a língua. Distraem-se facilmente na oração. A épocas de grande fervor sucedem-se outras de languidez e desalento.

A sensualidade encontra terreno abonado na natureza ardente do sanguíneo. Deixa-se arrastar facilmente pelos prazeres sensuais da gula e da luxúria. Raciocina prontamente contra suas quedas e as deplora com sinceridade. Mas faltam-lhe energia e coragem para dominar a paixão quando torna a levantar a cabeça.

Santo Agostinho, outro sanguíneo, retratado por Philippe de Champaigne.

Educação do sanguíneo. — A educação e canalização de qualquer temperamento deve consistir em fomentar suas boas qualidades e em reprimir os defeitos. Por isso, o sanguíneo deverá procurar canalizar a sua exuberante vida afetiva por um meio nobre e elevado. Se conseguir amar fortemente a Deus, chegará a ser um santo de primeira categoria. Sanguíneos cem por cento foram o Apóstolo São Pedro, Santo Agostinho, Santa Teresa e São Francisco Xavier.

Mas é preciso que lute tenazmente contra seus defeitos, até tê-los vencido totalmente. Há de combater sua superficialidade, adquirindo o hábito da reflexão e ponderação em tudo o que fizer. Deve aprender a lidar com os problemas examinando-os por todos os lados, prevendo as dificuldades que poderão surgir, dominando o otimismo demasiado confiante e irreflexivo.

Contra a inconstância, tomará sérias medidas. Não bastarão os propósitos e resoluções, que violará na primeira ocasião que se lhe apresente, apesar de sua sinceridade e boa fé. É preciso pôr sua vontade num plano de vida, convenientemente revisado, aprovado por seu diretor espiritual e no qual esteja tudo previsto e anotado, e que nada se deixe ao arbítrio da sua vontade fraca e caprichosa. Há de praticar seriamente o exame de consciência, aplicando-se fortes penitências pelas transgressões que sejam fruto de sua inconstância e volubilidade. Há de pôr-se em mãos de um experiente diretor espiritual e obedecer-lhe em tudo. Na oração, há de lutar contra sua tendência aos consolos sensíveis, perseverando nela apesar da aridez e secura.

À sensualidade deverá opor-se com uma vigilância constante e uma luta tenaz. Deve fugir como da peste a todas as ocasiões perigosas, nas quais sucumbirá facilmente, ao se aliar sua sensualidade com sua inconstância. Deve ter particular cuidado na guarda da vista, recordando-se das suas dolorosas experiências. Nele, mais do que em ninguém, cumpre-se aquilo de que “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. Deve guardar o recolhimento e praticar a mortificação dos sentidos externos e internos. Deve, enfim, pedir humilde e constantemente a Deus o dom da perfeita pureza de alma e corpo, que só do Céu nos pode vir (Sb 8, 21).

b) Temperamento melancólico. — Características essenciais com relação à excitabilidade: a do melancólico é débil e difícil ao princípio, mas forte e profunda por repetidas impressões. Sua reação apresenta estes mesmos caracteres. Quanto à duração, pode ser larga. O melancólico não esquece facilmente.

Boas qualidades. — Os melancólicos têm uma sensibilidade menos viva do que a dos sanguíneos, mas mais profunda. São naturalmente inclinados à reflexão, à solidão, ao silêncio, à piedade e vida interior. Compadecem-se facilmente das misérias do próximo, são benfeitores da humanidade, sabem levar a abnegação até o heroísmo, sobretudo ao lado dos enfermos.

Sua inteligência pode ser aguda e profunda, maturando suas idéias com a reflexão e a calma. É pensador e gosta do silêncio e da solidão. Pode ser um intelectual seco e egoísta, encerrando-se na sua torre de marfim, ou um contemplativo que se ocupe das coisas de Deus e do espírito. Sente atração pela arte e tem aptidão para as ciências.

Seu coração é de uma grande riqueza sentimental. Quando ama, dificilmente se desprende de suas afeições, porque nele as impressões se arraigam com muita profundidade. Sofre com a frieza ou a ingratidão. A vontade segue a vicissitude de suas forças físicas: débil e quase nula quando o trabalho o tenha esgotado; forte e generosa quando desfruta de saúde ou quando um raio de alegria ilumina seu espírito. É sóbrio e não sente a desordem passional, que tanto atormenta os sanguíneos. É o temperamento oposto ao sanguíneo, como o colérico é oposto ao fleumático.

Foram de temperamento melancólico o Apóstolo São João, São Bernardo, São Luís Gonzaga, Santa Teresinha do Menino Jesus, Pascal.

Santa Teresinha do Menino Jesus tinha um temperamento melancólico.

Más qualidades. — O lado desfavorável deste temperamento é a tendência exageradamente inclinada à tristeza e à melancolia. Quando recebem alguma forte impressão, ela penetra-lhes profundamente a alma e lhes produz uma ferida sangrante. Não possuem o coração na mão como o sanguíneo, mas, sim, muito no fundo, e aí saboreiam a sós sua amargura. Sentem-se inclinados ao pessimismo, ao ver sempre o lado difícil das coisas, ao exagerar as dificuldades. Isto os torna retraídos e tímidos, propensos à desconfiança em suas próprias forças, ao desalento, à indecisão, aos escrúpulos e a certa espécie de misantropia.

São irresolutos por medo de fracassar em suas empresas. O melancólico “nunca sabe acabar”, como dizia Santa Teresa. É o homem das oportunidades perdidas. Enquanto os demais estão do outro lado do rio, ele está pensando e refletindo, sem se atrever a atravessá-lo. Sofrem muito e fazem sofrer aos demais sem querê-lo, porque, no fundo, são bons. Santa Teresa não os julgava aptos à vida religiosa, sobretudo quando a melancolia está arraigada (cf. Fundações, c. 7. Tenha-se em conta que a “melancolia”, sobre a qual havia se pronunciado, refere-se somente ao temperamento melancólico, e não aos extravios de um caráter voluntariamente neurastênico).

Educação do melancólico. — O educador deverá ter muito em conta a forte inclinação do melancólico à concentração sobre si mesmo. Do contrário, expõe-se a não compreendê-lo e a tratá-lo com grande injustiça e falta de tato. O sanguíneo é franco e aberto na confissão; o melancólico, pelo contrário, quer desafogar-se por meio de um colóquio espiritual, mas não pode; o colérico pode expressar-se, mas não quer; o fleumático não pode nem quer fazê-lo. Deve-se ter muito em conta tudo isto, para não intentar procedimentos educativos contraproducentes.

É preciso infundir no melancólico uma grande confiança em Deus e um sereno otimismo da vida. Deve-se inspirar-lhe uma suma confiança em si mesmo, ou seja, na amplitude de sua alma para as grandes empresas. É preciso aproveitar a sua inclinação à reflexão para fazê-lo compreender que não há motivo algum para ser suscetível, desconfiado e retraído. Se for preciso, deve-se submetê-lo a um regime de repouso e sobrealimentação (Santa Teresa curava muitas monjas melancólicas proibindo a longa oração, as vigílias e jejuns e “fazendo-as divertir-se” — cf. Quartas moradas, 3, 12 e 13; Fundações, 6, 14). Acima de tudo, deve-se combater a sua indecisão e covardia, fazendo-o tomar resoluções firmes e lançar-se a grandes empresas com ânimo e otimismo.

c) Temperamento colérico. — Características essenciais com relação à excitabilidade: o colérico se excita pronta e violentamente. Raciocina num instante. Mas a impressão lhe fica na alma por muito tempo.

Boas qualidades. — Atividade, entendimento agudo, vontade forte, concentração, constância, magnanimidade, liberalidade. Eis aí as excelentes prendas deste temperamento riquíssimo.

Os coléricos (ou belicosos) são apaixonados e voluntariosos. Práticos, desembaraçados, são mais inclinados a obrar do que a pensar. O repouso e a inação repugnam à sua natureza. Sempre estão acariciando o seu espírito com um grande projeto. Apenas acabam de conceber um fim, põem mãos à obra, sem desistir por causa das dificuldades. Entre eles abundam os chefes, os conquistadores, os grandes apóstolos. São homens de governo. Não são daqueles que deixam para amanhã o que deveriam fazer hoje; antes, preferem fazer hoje o que deveriam deixar para amanhã. Se surgem obstáculos e inconvenientes, esforçam-se para os superar e vencer. Apesar do seu ímpeto irascível, quando conseguem reprimi-lo pela virtude, alcançam uma suavidade e doçura da melhor cepa. Tais foram São Jerônimo, Santo Inácio de Loyola e São Francisco de Sales.

São Jerônimo, um colérico, pintado por Luca Giordano.

Más qualidades. — A tenacidade do seu caráter os faz propensos à dureza, obstinação, insensibilidade, ira e orgulho. Se lhes opomos resistência ou os contradizemos, tornam-se violentos e cruéis, a menos que a virtude cristã modere as suas inclinações. Vencidos, guardam o ódio no coração até que soe a hora da vingança. Geralmente são ambiciosos e tendem ao mando e à glória. São mais pacientes do que o sanguíneo, mas não conhecem tanto a delicadeza de sentimento, compreendem menos a dor das outras pessoas, têm em suas relações um trato menos fino.

Suas paixões fortes e impetuosas sufocam essas afeições doces e esses sacrifícios desinteressados que brotam espontaneamente de um coração sensível. Sua febre de atividade e seu ardente desejo de conseguir o que se propõem os faz pisotearem violentamente tudo o que os impede, e aparecem ante os demais como uns egoístas sem coração. Tratam os outros com uma altaneria que pode chegar à crueldade. Tudo deve curvar-se diante deles. O único direito que reconhecem é a satisfação dos seus apetites e a realização de seus desígnios.

Educação do colérico. — Tais homens seriam de um preço inestimável se soubessem dominar-se e governar suas energias. Com relativa facilidade chegariam aos mais altos cumes da perfeição cristã. Muitíssimos santos canonizados pela Igreja possuíam este temperamento. Em suas mãos, as obras mais difíceis chegam a feliz termo. Por isso, quando conseguem processar suas energias, são tenazes e perseverantes nos caminhos do bem e não cessam em seus empenhos até alcançar os píncaros mais elevados.

Deve-se aconselhá-los a que sejam donos de si mesmos, que não atuem precipitadamente, que desconfiem de seus primeiros movimentos. Deve-se levá-los à verdadeira humildade de coração, a se compadecerem dos fracos, a não humilhar nem atropelar a ninguém, a não deixarem sentir sua violência, sua própria superioridade, a tratarem a todos com suavidade e doçura.

d) Temperamento fleumático. — Características essenciais com relação à excitabilidade: o fleumático não se excita nunca, ou o faz tão só debilmente. A reação é também débil, quando não chega a faltar por completo. As impressões recebidas desaparecem logo e não deixam vestígios em sua alma.

Boas qualidades. — O fleumático trabalha devagar, mas assiduamente, contanto que não se exija dele um esforço intelectual demasiadamente grande. Não se irrita facilmente por insultos, fracassos ou enfermidades. Permanece tranqüilo, sossegado, discreto e criterioso. É sóbrio e tem um bom sentido prático da vida. Não conhece as paixões vivas do sanguíneo, nem as profundas do nervoso, nem as ardentes do colérico. Dir-se-ia que carece por completo de paixões. Sua linguagem é clara, ordenada, justa, positiva; mais do que brilho, tem energia e atrativo.

O trabalho científico, fruto de uma larga paciência e de investigações conscienciosas, lhe convém melhor do que grandes produções originais. O coração é bom, mas parece frio. Falta-lhe entusiasmo e espontaneidade, porque sua natureza é indolente e reservada. É prudente, sensato, reflexivo, obra com segurança, chega aos fins sem violência, porque afasta os obstáculos em lugar de os romper. Às vezes a sua inteligência é muito clara. Fisicamente, o fleumático é de rosto amável, de corpo robusto, de andar lento e vagaroso. Santo Tomás de Aquino possuiu os melhores elementos deste temperamento, levando a cabo um trabalho colossal com serenidade e calma imperturbáveis.

O grande Doutor Angélico possuía os melhores elementos de um fleumático.

Más qualidades. — Sua calma e lentidão lhe fazem perder boas ocasiões, porque tarda muitíssimo em pôr-se em ação. Não se interessa nada pelo que se passa fora de si. Vive para si mesmo, em uma espécie de concentração egoísta. Não vale para o mando e o governo. Não é afeiçoado a penitências e mortificações; se é religioso, não abusará dos cilícios. É deles que Santa Teresa descreve com tanta graça: “As penitências que fazem estas almas são coerentes com sua própria vida. Não tenhais medo de que se matem, porque sua razão está muito em si” (Santa Teresa, Terceiras moradas, 2, 7). Em casos mais agudos, convertem-se em homens átonos, mortiços e vagos, completamente insensíveis às vozes de ordem que poderiam tirá-los da sua inércia.

Educação do fleumático. — Pode-se tirar muito partido do fleumático, se lhe forem incutidas convicções profundas e lhe forem exigidos esforços metódicos e constantes em ordem à perfeição. Lentamente chegará muito longe. Deve-se sacudi-lo de sua inércia e indolência, empurrando-o às alturas, acender em seu coração apático a labareda de um grande ideal. Deve-se estimulá-lo ao pleno domínio de si mesmo, excitando-o e pondo em uso suas forças adormecidas; não como ao colérico, que deve obtê-lo contendo-se e moderando-se.

Conclusão geral sobre os temperamentos. — Repetimos o que dissemos mais acima: nenhum destes temperamentos existe em estado “quimicamente puro”. O leitor que tenha percorrido estas páginas poderá não ter encontrado em nenhuma delas os traços completos de sua particular fisionomia. A realidade é mais complexa do que todas as categorias especulativas. Com freqüência encontramos na prática, reunidos em um só indivíduo, elementos pertencentes aos temperamentos mais díspares. Isso explica, em boa parte, a diversidade de teorias e classificações entre os autores que se preocupam com estas coisas.

Contudo, é indubitável que em cada indivíduo predominam certos traços temperamentais que permitem catalogá-lo, com as devidas reservas e precauções, em algum dos quadros tradicionais. Por outro lado, sem negar a grande influência do temperamento fisiológico sobre o conjunto da psicologia humana, dadas as íntimas relações e interdependências entre a alma e o corpo, não devemos conceder-lhe uma importância exageradasobretudo no que diz respeito à moralidade de nossos atos —, à maneira de certos racionalistas, que atribuem ao temperamento nativo a responsabilidade única de nossas desordens.

O temperamento ideal. — Se quisermos estabelecer, em sintética visão de conjunto, as características do temperamento ideal, tomaríamos algo de cada um dos que acabamos de descrever. Ao sanguíneo pediríamos sua simpatia, seu grande coração e sua vivacidade; ao melancólico, a profundidade e a delicadeza de sentimentos; ao colérico, sua atividade inesgotável e sua tenacidade; ao fleumático, o domínio de si mesmo, a prudência e a perseverança.

Conseguir pelo esforço sistemático e inteligente este ideal humano, que a natureza não pode conceder a quase ninguém, conduz à difícil empresa do aperfeiçoamento e melhora do próprio temperamento, juntamente com o rude trabalho da formação do caráter.

Referências

  • Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. 2.ª ed., Madrid: BAC, 2015, pp. 784-790. A tradução portuguesa foi retirada do site S.O.S. Família e levemente adaptada para esta publicação.

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Como os americanos estão mudando o debate sobre o aborto
Sociedade

Como os americanos estão
mudando o debate sobre o aborto

Como os americanos estão mudando o debate sobre o aborto

Um movimento que começou tímido agora é uma das principais forças políticas dos Estados Unidos. Entenda como a Marcha pela Vida mudou o rumo do debate sobre o aborto e o que temos a aprender com ela no Brasil.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 10 minutos
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Neste dia 24 de janeiro, milhares de pessoas estão nas ruas de Washington D.C., para participarem da Marcha pela Vida, um evento que acontece todos os anos na capital americana, desde 1973, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos lamentavelmente aprovou o aborto em todo o país, pelo julgamento “Roe vs. Wade”. A ocasião é propícia para refletirmos um pouco sobre o movimento pró-vida no Brasil e aprendermos de nossos irmãos americanos a como derrotar a “cultura da morte”.

A legalização do aborto nos Estados Unidos foi toda baseada numa peça teatral com a “protagonista perfeita”. Norma McCorvey, a famosa Jane Roe do processo que foi parar na Suprema Corte, queria interromper a gravidez, mas esbarrava na legislação do Texas, que só permitia o aborto em situação de risco para a mãe. Com 22 anos apenas, ela inventou que havia sido violentada. Daí para frente, as suas duas advogadas, Sarah Weddington e Linda Coffe, que já militavam pelos chamados “direitos reprodutivos”, fizeram o trabalho de levar o caso até as últimas instâncias, obtendo dos ministros da Suprema Corte um parecer positivo, sob um questionável argumento de “privacidade” da mulher.

A partir disso, as clínicas de aborto logo se espalharam por todo o território americano, tornando-se uma indústria altamente lucrativa. Estima-se que, de 1973 até os dias atuais, os Estados Unidos já tenham assistido a mais de 60 milhões de abortos. A poderosa Planned Parenthood, fundada pela infame Margaret Sanger, é a principal clínica no ramo, destacando-se desde então pela barbaridade de seus métodos. Em 2015, a empresa se envolveu numa grande polêmica após o vazamento de vários vídeos em que seus funcionários delatavam a existência de uma rede de tráfico de órgãos dentro da própria Planned Parenthood.

Ao fim e ao cabo, a militância pró-aborto teve uma vitória incrível nos Estados Unidos, que surtiu um efeito cascata em todo o mundo. No Brasil, a estratégia tem sido praticamente idêntica, com os mesmos slogans e técnicas para ganhar do Supremo Tribunal Federal a tão desejada legalização. Eles já conseguiram a aprovação do uso de células-tronco embrionárias e o aborto em caso de anencefalia. Atualmente, outros dois casos se encontram nas mãos dos nossos ministros (um sobre o aborto em casos de Zika e outro que pede a legalização da prática até a 12.ª semana da gestação), aguardando a oportunidade de serem julgados. 

Como em “Roe vs. Wade”, os militantes daqui também encontraram alguém para lhes servir como “protagonista perfeito”. O precedente foi aberto pelo ministro Luís Roberto Barroso, que absolveu uma quadrilha de médicos aborteiros, a fim de introduzir um falso direito na Constituição.

“Nós somos a geração pró-vida”. Foto da Marcha pela Vida, dos EUA.

Mas enganar-se-ia quem pensasse que a situação é irreversível. A partir de 1973, o movimento pró-vida americano iniciou a Marcha pela Vida, na garagem da senhora Nellie Gray. Aos poucos, aquela tímida reação foi ganhando corpo e hoje é um dos principais agentes políticos dos Estados Unidos, determinando até as eleições federais. 

Em 2013, início do segundo mandato de Barack Obama, um ardente militante do direito ao aborto, a Marcha pela Vida colocou mais de 600 mil pessoas para marcharem até o Capitólio (na maior edição da história do evento), com uma mensagem clara ao presidente. Com efeito, a última pesquisa a respeito da intenção de voto dos americanos mostra que a maior parte deles está decidida a escolher candidatos contrários ao aborto. Não bastasse isso, o número de estados com legislações mais pró-vida vem aumentando todos os anos.

A invertida da causa pró-vida desperta, obviamente, o medo dos seus adversários. Naquele mesmo ano de 2013, a revista Time publicou toda uma edição dedicada a analisar como “o movimento pró-aborto (pro-choice) vem perdendo” após a farsa de “Roe vs. Wade”. “Conseguir um aborto é mais difícil hoje do que em qualquer época desde a década de 1970”, admitiu a revista. De fato, o número de médicos que se dispõe a fazer a operação diminuiu de lá para cá, porque a série de restrições impostas pelos estados mais pró-vida tem dificultado a permanência de clínicas abertas. E a situação deve piorar ainda mais para eles agora que o presidente Donald Trump colocou na Suprema Corte mais dois juízes conservadores, diminuindo a resistência dos progressistas. 

É uma questão de tempo até que a absurda decisão do caso “Roe vs. Wade” seja finalmente sepultada. Até porque, a própria senhora McCorvey passou para o movimento pró-vida, em 1995, e desde então até a sua morte, em 2017, ela lutou para reverter o desfecho do seu julgamento. McCorvey explicava assim a razão da sua nova postura:

Pura e simplesmente, eu fui usada. Eu não era ninguém para elas (as advogadas). Elas apenas precisavam de uma mulher grávida para usá-la no caso, e era só isso. Elas estavam preocupadas, não comigo, mas apenas com a legalização do aborto. Mesmo depois do caso, eu nunca fui respeitada — provavelmente porque eu não era nenhuma feminista liberal, educada nas universidades mais prestigiadas, como elas eram.

Todo esse sucesso do movimento pró-vida se deve, segundo a revista Time, a duas coisas: por um lado, uma organizada e bem-executada estratégia, que conseguiu formar uma geração de militantes jovens e dispostos a lutar pela causa; e por outro, o avanço da ciência em técnicas de pré-natal, que permitiu a identificação do feto como alguém verdadeiramente humano. “Graças ao ultrassom pré-natal”, diz a revista, “os americanos agora sabem com o que o feto se parece, e que um bebê nascido por volta da 24.ª semana pode sobreviver”. 

Essas informações foram decisivas para que grande parte dos americanos (principalmente jovens) migrasse para o lado oposto da “cultura da morte”, apesar de toda a campanha midiática e da pressão das grandes fundações internacionais. Enquanto isso, a malfadada Marcha das Mulheres, um dos braços do movimento pró-aborto, sofre para não minguar e desaparecer de vez.

A defesa da vida é uma questão de lei natural. Está no sangue de qualquer ser vivo o desejo de preservar a própria espécie, sobretudo a prole. Por isso, quando ficamos sabendo de pais que abandonaram o filho, ou mesmo de algum animal que se desfez da cria, isso nos causa bastante estranheza. Parece que há algo de errado, algo bastante contrário à natureza das coisas.

O trabalho do movimento pró-vida, nesse sentido, consiste em manter vivo esse sadio “senso comum”, acolhendo as mães em situação de risco, como fazem as várias casas de apoio, e promovendo formações permanentes sobre o valor da vida humana, desde a concepção até a morte natural. Com a ajuda da ciência, esse trabalho tem sido ainda mais fecundo, porque qualquer um pode identificar o ser humano em pleno desenvolvimento no ventre da mulher. Como dizia o doutor Jérôme Lejeune: “Não há diferença [substancial] entre a pessoa que você era no momento da fecundação do óvulo de sua mãe e a pessoa que você é hoje”. Trata-se de um fato que salta aos olhos.

O movimento pró-aborto, por outro lado, precisa remar contra a maré e fazer de tudo para cancelar do espírito humano a sua própria natureza. Na audiência pública para discutir a descriminalização do aborto no Brasil, a antropóloga Débora Diniz fez um discurso muito revelador. Em linhas gerais, a argumentação dela baseou-se em duas premissas: i) a de que não devemos ter “expectativas morais” sobre as mulheres, mas apenas respeitar o desejo delas de abortar; ii) a negação de qualquer aspecto de humanidade ao feto que, para ela, seria apenas uma “bola de sangue”, como já disse em outros momentos. É incrível que em 15 minutos de exposição ela não tenha mencionado o bebê uma única vez. Para o pensamento de Débora Diniz, “abortar ou não” é como a decisão sobre o fumo: usa quem quer.

Mas se concordássemos com esse argumento de que não devemos ter “expectativas morais” sobre as mulheres, mas apenas respeitar a vontade delas de interromper a gestação de uma “bola de sangue”, deveríamos então nos perguntar que tipo de expectativas podemos ter por parte dos homens. Afinal de contas, toda essa celeuma não se baseia na “igualdade de direitos”? Imaginem, portanto, a seguinte situação: o Supremo Tribunal Federal convoca uma audiência pública para discutir o problema do estupro no Brasil. Um renomado antropólogo resolve então defender a ideia do “estupro legal”, com base na premissa de que todo homem é um estuprador em potencial e vai acabar cometendo essa barbaridade mais cedo ou mais tarde.

Para esse antropólogo, o estupro é um caso de “saúde pública”, e o Estado não deveria discutir sobre a moralidade dos “direitos reprodutivos” de ninguém. O antropólogo propõe, então, a descriminalização do estupro para assegurar o direito ao “sexo legal”, a fim de que os homens não precisem recorrer a relações clandestinas, que lhes possam causar sérias doenças, nem corram o risco de terminar atrás das grades, simplesmente por satisfazerem suas necessidades sexuais. Do lado de fora do STF, militantes do coletivo “Marcha dos Vadios” discursam palavras de ordem do tipo “meu corpo, minhas regras” e “estupro legal e seguro”.

Algo assim seria um completo disparate e só a mínima hipótese deve nos causar asco. Todavia, se trocarmos os substantivos “homem” e “estupro” por “mulher” e “aborto”, nós teremos exatamente o discurso de Débora Diniz e de praticamente todo o movimento pró-aborto. A simples ideia de que não devemos criar “expectativas morais” sobre uma pessoa, qualquer que seja, mas apenas aceitar as suas escolhas, mesmo que isso implique um assassinato, é abrir as portas para a insanidade. 

Se só o que vale é a vontade, e sou eu que decido arbitrariamente que vida tem ou não mais valor e dignidade, ninguém deve se espantar com a barbárie; ninguém deve se espantar se uma mãe arranca o filho da barriga para ganhar o Globo de Ouro, como sugeriu a atriz Michelle Willians recentemente, ou se um diretor de cinema assedia as atrizes de seus filmes. Ambos foram igualmente acostumados a não ter “expectativas morais” sobre nada e a simplesmente olhar os outros como objetos descartáveis.

Sabiamente, o movimento pró-vida dos Estados Unidos tem conseguido desmascarar toda a estupidez dos argumentos pró-aborto, mostrando justamente as consequências nefastas que essa ideologia causa à mulher. Baseados na natureza das coisas, eles têm convencido até grandes figurões do lado oposto, como também foi o caso do doutor Bernard Nathanson, um dos fundadores da National Association for Repel of Abortion Laws (NARAL), que se arrependeu após ter assistido ao ultrassom que mostrava a agonia de uma criança durante a sucção. Depois disso, Nathanson veio a público denunciar como os números divulgados pelos defensores do aborto eram falsos, num documentário que ficou famoso no mundo todo: “O Grito Silencioso”.

O movimento pró-vida dos Estados Unidos está organizado em associações de leigos, casas de apoio e grupos de oração que trabalham conjuntamente para esclarecer a opinião pública e dar a ajuda que as gestantes precisam. Uma parte desse trabalho já foi apresentada em filmes como Blood Money, Em busca de um lar e, mais recentemente, no sucesso Unplanned, que devido à grande repercussão, acabou banido de algumas salas de cinema por medo da militância pró-aborto. Porque é só isso que esse grupo consegue fazer: mentir e calar seus oponentes. Mas a tática não está dando certo, como vimos.

O movimento pró-vida brasileiro deve, pois, seguir a mesma agenda, com militância tanto na política, quanto no dia a dia, auxiliando as gestantes e esclarecendo a população, sobretudo os mais jovens, acerca das mentiras do movimento pró-aborto. 

Trata-se de algo que já Bento XVI pedia, lembrando que, nesse campo, “a Igreja lutará pelas respostas que melhor correspondam à justa medida do ser humano”, devendo “fazer todo o possível por criar uma convicção que possa depois traduzir-se em ação política”. Tudo isso porque a defesa da vida não é simplesmente uma questão religiosa, mas também um direito natural, inscrito no coração de cada ser humano; um direito que deve ser promovido, tutelado e preservado a todo custo, desde a concepção até a morte natural, para todas as pessoas, sejam homens, mulheres ou crianças.

E assim também surgirá no Brasil uma geração que porá fim à “cultura da morte”.

Notas

  • A imagem acima é da Marcha pela Vida ocorrida em 22 de janeiro de 1995, na mesma capital americana, Washington.

Comentários

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Guido Schäffer: o médico surfista que decidiu ser santo
Testemunhos

Guido Schäffer:
o médico surfista que decidiu ser santo

Guido Schäffer: o médico surfista que decidiu ser santo

“Todo santo é homem antes de ser santo, e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem”. Essas palavras de Chesterton se aplicam perfeitamente à vida de Guido Schäffer, cujo testemunho tem atraído muitíssimos jovens para a Igreja Católica.

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Janeiro é o mês em que boa parte das universidades divulga a lista de aprovados no vestibular. Jovens de todo o país aguardam ansiosos a notícia de que finalmente poderão cursar o ensino superior. A rigor, a entrada na universidade representa, para muitos, uma espécie de redenção, que marca o início da maior idade, pois é nesse período que os filhos saem de casa, mudam-se para outras cidades e assumem algumas responsabilidades básicas que todo adulto deve ter.

Com todas essas mudanças, a universidade também é o lugar onde muitos abandonam a religião. E isso se deve à ideia absurda de que a fase universitária é o tempo das grandes experiências, não só no campo científico, mas especialmente no campo moral. Longe dos olhares dos pais — e consequentemente do que lhes freava os impulsos juvenis —,  quantos jovens se perdem por achar que agora, na universidade, têm toda chance de viver conforme lhes der na telha, sem qualquer “moralismo” ou “superstição”? É como se imaginassem que a vida acadêmica é um grande besteirol, como daqueles filmes hollywoodianos. Daí tantos “trotes”, “cervejadas” e outras recreações que costumam pautar os jornais todos os anos com as bizarrices dos nossos estudantes.

Mas o sistema universitário é, na verdade, uma grande ilusão. Trata-se, no mais das vezes, de um lugar onde o aluno não é incentivado a descobrir a substância das coisas, como na educação clássica, mas a mergulhar nas mais loucas abstrações, que o prendem num mundo absolutamente paralelo. Afinal de contas, a causa final de todo esse sistema é o título, a chancela, o diploma; ou seja, algo um tanto superficial. E a consequência disso não poderia ser outra senão a mesquinhez: a única preocupação dos estudantes é a de estarem na média no fim do semestre.

Há, porém, alguns jovens que não se iludem com o diploma e buscam manter-se acima da linha da mediocridade, preservando em seus corações aqueles valores inegociáveis da fé e da razão. É o caso de Guido Schäffer, cujo testemunho cristão no exercício da medicina atraiu muitas almas para a grei do Senhor. Atualmente, a Arquidiocese do Rio de Janeiro promove a causa de beatificação do jovem, que também foi seminarista e morreu em 2009, em odor de santidade.

Guido Schäffer nasceu em 22 de maio de 1974, no município de Volta Redonda (RJ). É da pena de G. K. Chesterton a afirmação muito sábia de que “todo santo é homem antes de ser santo, e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem”. Essas palavras se aplicam perfeitamente à vida de Guido, que, como muitos santos da Igreja, teve também um passado miserável. De início, ele viveu boa parte de sua vida como aquele tipo de homem dado às paixões. Em suas memórias, ele confessa como precisou de muita oração e penitência para corrigir os erros de uma adolescência dissoluta: faltou à Missa, roubou, usou drogas [1], viu pornografia, teve relações sexuais... Era, afinal, apenas mais um rapaz “comum”, que gostava de surf e, vez ou outra, rendia-se aos impulsos do pecado.

Mas a graça de Deus tinha planos maiores. Aos seis anos, Guido havia sonhado com Nosso Senhor, que lhe dizia para ser obediente aos pais e participar da Missa todos os dias, porque, um dia, ele haveria de chamar muitos amigos para Jesus. E foi o que realmente aconteceu após a sua conversão. Guido começou a frequentar os encontros da Renovação Carismática e ali pôde fazer as primeiras experiências de oração, que despertaram nele a vontade de ser santo. Mais tarde, o jovem conheceu os exercícios espirituais de Santo Inácio, o desentortador de vidas, e entendeu que poderia ser amigo íntimo de Cristo, buscando a Deus em todas as circunstâncias e lugares, inclusive dentro da faculdade.

A vantagem de ser católico é que tudo pode ser convertido num caminho para Cristo. Foi a fé católica que fez Guido ver a medicina não como um fim, mas como um meio para a própria santificação. O estudo, em especial, era uma tarefa diária que ele teria de fazer com o coração aberto a Deus, em espírito de oração, para melhor servir o próximo. “A santidade”, explica o cardeal Saraiva, “não consiste certamente em fazer coisas extraordinárias, mas em fazer de maneira extraordinária as coisas de todos os dias”. Na oração, abrimos nossos olhos para a presença extraordinária de Deus nas coisas mais comuns. Guido Schäffer entendeu isso perfeitamente, de modo que procurou unir a vida ativa à contemplativa, fazendo tudo com atenção e diligência.

Guido mesmo dava testemunho da importância da oração. Certa vez, escreve ele em seu diário, “senti uma desolação por conta dos inúmeros trabalhos e provas que terei essa semana. Fui tentado pela impaciência a terminar minha oração antes do tempo”. A constância, todavia, ajudou-o a passar por tudo isso com tranquilidade, unindo-se ao Coração de Jesus.

Depois de formado, Guido decidiu dar uma resposta mais generosa a Deus. Ele havia meditado sobre a história do jovem rico e notara que precisava entregar seu diploma —  a única riqueza que tinha — a serviço dos pobres, a exemplo de São Francisco de Assis. Assim, Guido iniciou um trabalho junto às Missionárias da Caridade, de Santa Teresa de Calcutá, assistindo os irmãos de rua, enquanto ainda atendia na Santa Casa de Misericórdia, onde ajudou na Pastoral da Saúde e acompanhou todo tipo de pacientes. Esse trabalho era tão extraordinário que, mesmo como seminarista, Guido pôde continuar nos hospitais, com a licença do arcebispo do Rio de Janeiro.

A esse respeito, a irmã Caritas, que o auxiliou em várias ocasiões, dá o seguinte testemunho: “Muitas vezes usava dos carismas com que o Senhor o agraciava. Presenciei várias vezes, sobretudo o carisma da Palavra de Ciência. A todos tratava com delicadeza, paciência e compreensão”. Para quem acompanhou nosso curso sobre a Engenharia da Santidade, sabe que um dos sinais mais notáveis da santidade é a virtude da paciência (hypomoné), que se conquista apenas nas quartas moradas, a custo de muita penitência e oração. Deus vê a generosidade da alma e faz a passagem dela para um estágio no qual a caridade cresce com todas as demais virtudes. Vemos isso em Guido Schäffer, e não deve demorar muito para que a Igreja também o chame venerável.

O título de venerável é dado a “todos aqueles que pelo singular exercício das virtudes cristãs e dos carismas divinos suscitaram a devoção e a imitação dos fiéis” (João Paulo II, Divinus Perfectionis Magister). Sem a pretensão de antecipar o juízo de nossos pastores, os inúmeros testemunhos a respeito de Guido Schäffer não deixam dúvidas de que ele foi mesmo um herói da fé, seja pelo trabalho como médico, seja pelo seu apostolado nos grupos de jovens. Só isso pode justificar as várias homenagens e memoriais que já lhe foram dedicados pela piedade popular. “Em todo o tempo, dava testemunho de sua fé, no seu proceder irrepreensível com os outros. Vivia conforme os valores cristãos da cordialidade, temperança, caridade e justiça”, disse o professor de Guido, Clementino Fraga, numa homenagem após a sua morte.

A entrada no seminário talvez tenha sido o ponto decisivo nesse progresso espiritual que talvez leve Guido à glória dos altares. Tudo aconteceu no ano 2000, quando ele, durante uma oração, ouviu a voz de Deus, que lhe dizia: “Levanta-te, e serás sacerdote da minha Igreja”. Sabiamente, Dom Karl Romer, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, matriculou-o no mosteiro dos beneditinos, para que Guido pudesse continuar o trabalho nos hospitais. Desse modo, ele teve a chance de dedicar-se tanto à formação sacerdotal como ao serviço caritativo. Estudava filosofia, atendia na Santa Casa, liderava grupos de oração e ainda levava os jovens para cuidar dos mendigos, juntos às Missionárias da Caridade. E o que o fortalecia era a certeza de que Deus estava sempre ao seu lado.

Alguns testemunhos sobre o trabalho de Guido nos hospitais são mesmo surpreendentes. Conta-se, por exemplo, o caso de um policial cadeirante que voltou a andar após ter recebido a oração de Guido, durante um grupo de oração na Santa Casa de Misericórdia. Outros relatam como apenas a sua presença trazia paz e esperança aos pacientes mais angustiados. Além disso, ele tinha a grande preocupação de levar os doentes para a recepção dos sacramentos como a Unção dos Enfermos, a Confissão e, especialmente, a Santíssima Eucaristia. Até porque, a principal responsabilidade de um verdadeiro médico de Deus é salvar a alma dos seus pacientes. Não foi por menos que Guido Schäffer recebeu a alcunha de apóstolo da palavra e da paz.

Guido Schäffer morreu em 2009 num acidente, quando surfava com uns amigos. Pouco antes, ele já havia recebido alguns “avisos” de Deus, que o chamava para avançar a águas mais profundas. Também já confessara que “se pudesse escolher, gostaria de morrer no mar, surfando”. A prancha que Guido usava naquele dia 1.º de maio era dividida por um versículo do Evangelho de São Mateus: “Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram” (7, 14). Não deixa de ser significativo porque, em sua vida, Guido preferiu esforçar-se para passar pelo mais difícil dos vestibulares, pela mais estreita das portas, que é a entrada do Céu. Após sua morte, não demorou muito para que as pessoas reconhecessem nele os sinais claros de uma grande santidade.

Certamente, Guido Schäffer deve ser proposto como modelo para todos os jovens que aguardam a entrada na universidade. Nesse ambiente onde a religião é tantas vezes ofendida e desprezada, ele soube seguir o caminho de Cristo, fugindo da tentação e dos convites à mediocridade, fugindo da ilusão do diploma, a fim de ser um médico de verdade, que servisse aos outros, mormente os mais pobres. E fez isso com tanta convicção e amor que muitos já não hesitam em chamá-lo santo. Porque, de verdade, o real diploma que devemos buscar é a “coroa da salvação”.

Notas

  1. A mãe de Guido explica, porém, que ao confessar, ele fez como fazem muitos santos, carregando nas tintas sobre os próprios pecados. Os roubos de que ele fala eram balas que furtava nas lojas quando criança. Depois, o relato das drogas se resume a dois cigarros de maconha que amigos surfistas lhe deram uma única vez. Em todo caso, ele precisou reparar tais ofensas a Nosso Senhor. Agradecemos à senhora Nazaré Schaffer pelos esclarecimentos.

Recomendações

  • As citações do diário de Guido estão contidas neste livro: D. Justino de Almeida Bueno. Guido Schaffer: apóstolo da palavra e da paz. 3.ª ed. Juiz de Fora: Subiaco, 2016.

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A teologia por trás do uso do véu na Igreja
Espiritualidade

A teologia por trás
do uso do véu na Igreja

A teologia por trás do uso do véu na Igreja

O véu assinala a mulher como uma pessoa de oração, que sabe por que e por quem vai à igreja. As pessoas podem até chamá-la de carola e ultrapassada pelas costas, mas seu coração permanece em paz: seu esforço é feito por amor, e essa é a única coisa que importa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 16 minutos
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A nobre língua latina, que alimentou a piedade durante séculos; a serenidade do canto gregoriano; o esplendor dos paramentos sacerdotais e a visível ênfase na natureza sacrificial da Missa, em que o Senhor da glória torna presente de novo sua oferenda na Cruz em benefício dos vivos e dos mortos — em maior ou menor grau, todas essas coisas e outras mais desapareceram rapidamente depois do Concílio Vaticano II, sob o ilusório pretexto de que o “homem moderno” precisava de algo mais imediatamente acessível do que solenidade, silêncio e sacralidade. Isso foi sem dúvida um grande erro, como leigos, sacerdotes e até bispos têm afirmado de modo cada vez mais franco nas últimas décadas. Em grande medida, o trabalho de restauração tem sido relegado ao nível das bases.

Em debates sobre as reformas pós-conciliares, católicos tradicionais muitas vezes insistem no banimento do latim, do canto gregoriano, da celebração ad orientem e da recepção da Comunhão de joelhos. Isso não surpreende, já que essas mudanças são as mais perceptíveis, e foi muito profundo seu crescente efeito sobre a natureza do culto católico. Porém, houve outras mudanças sutis que com o passar do tempo também afetaram nosso modo de compreender a Fé. Um exemplo é o abandono da genuflexão na seguinte passagem do Credo: Et incarnatus est de Spiritu Sancto, ex Maria Virgine, et homo factus est. Da mesma forma, a maioria das pessoas já não curva a cabeça por reverência quando é pronunciado o santíssimo nome de Jesus.

Corte de uma pintura de José Gallegos y Arnosa.

Uma dessas mudanças foi a extinção quase completa do uso do véu pelas mulheres nas igrejas, quando estão em momento de oração. Antes do Concílio, quando alguém entrava numa igreja para assistir à Missa, via todas as mulheres com a cabeça coberta, fosse por boinas, gorros, véus ou toalhas de renda. Embora ocasionalmente possamos ver hoje mulheres de véu ou chapéu numa Missa Novus Ordo (esse número é maior em países não ocidentais que ainda não foram tomados pelo espírito moderno), em geral, o costume desapareceu fora de locais em que a Missa tradicional em latim sobreviveu ou retornou. E mesmo nestes locais o costume não é de modo algum praticado universalmente. Mulheres que adotam uma postura defensiva podem afirmar que o direito canônico não exige o uso do véu, que o bispo não o autoriza e que o pároco não o menciona. Na verdade, aqueles que olham para o uso do véu como sinal de uma era em que (creem eles) as mulheres eram consideradas cidadãs de segunda classe alegram-se com o fato de o véu ter sido marginalizado.  

Porém, antes de descartarmos a mudança como exemplo de algo ultrapassado que foi deixado de lado por não ser mais relevante, temos de analisar o que significava o costume em si e se ele simboliza uma verdade importante, tão válida para nós como para nossos predecessores. Os costumes de piedade popular muitas vezes carregam consigo raízes religiosas e humanas mais profundas do que podemos pensar inicialmente. Neste mundo agitado, coisas boas do passado são muitas vezes abandonadas porque as pessoas se esqueceram de uma verdade fundamental que precisa, mais do que nunca, ser escutada e seguida.

O ensinamento do Apóstolo

A tradição do uso do véu pelas mulheres nas igrejas tem como fundamento as palavras de São Paulo: 

Quanto ao homem, não deve cobrir sua cabeça, porque é imagem e esplendor de Deus; a mulher é o reflexo do homem. Com efeito, o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado para a mulher, mas sim a mulher para o homem. Por isso, a mulher deve trazer o sinal da submissão sobre sua cabeça, por causa dos anjos (1Cor 11, 7-10). 

A palavra costumeiramente traduzida por “véu” é exousia, que significa “poder” ou “autoridade” [1]. Uma tradução bem literal da passagem ficaria assim: “a mulher deve ter um poder [ou autoridade] sobre sua cabeça”. Ocasionalmente, vemos o texto transformado numa paráfrase: “um poder sobre sua cabeça, simbolizado por um véu”. Isso está mais claro, mas ainda podemos nos perguntar: por que um véu? Temos de voltar à tradição da Igreja para encontrar a resposta.

De acordo com alguns Padres e Doutores da Igreja, essa passagem se refere aos anjos que encobrem seu rosto quando estão na presença de Deus adorando-o diante de seu trono [2]:

Eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas de seu manto enchiam o templo. Os serafins se mantinham junto dele. Cada um deles tinha seis asas; com um par de asas velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam. Suas vozes se revezavam e diziam: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama a sua glória!” (Is 6, 1-3).

Os anjos cobrem ou vendam seu rosto como sinal de reverência perante o poder e a majestade gloriosos de Deus; estão sob sua autoridade. São Paulo estaria dizendo, então, que assim como os anjos cobrem seu rosto diante do trono de Deus, também as mulheres deveriam cobrir sua cabeça para adorar. Mas por que apenas as mulheres? Os homens não estão também na presença de Deus? A resposta pode ser encontrada numa série de analogias que São Paulo realiza numa passagem anterior do mesmo capítulo. “Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem, senhor de Cristo é Deus” (1Cor 11, 3). Isto é, Cristo está para o Pai como o marido está para Cristo, e o marido está para Cristo assim como a mulher está para o marido — numa sequência de autoridade decrescente. Observemos como é notável a última parte dessa analogia: em seu relacionamento com o marido, a mulher cristã é comparada à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade em sua relação com o Pai. Portanto, o sentido último da vocação de uma mulher como esposa e mãe é participar, imitar e manifestar o mistério da missão de Cristo: sua entrega é um reflexo do sacrifício de Cristo. 

Uma imitação específica de Cristo e da Igreja

Para esclarecer ainda mais o sentido dessa passagem, temos de levar em conta o que São Paulo diz aos Efésios ao acrescentar outra dimensão ao simbolismo. “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos” (Ef 5, 22-24). O marido está para a mulher assim como Cristo está para a Igreja. A partir disso, vemos que do mesmo modo uma esposa é chamada a imitar e participar do trabalho da Igreja, que segue Cristo e este segue o Pai. Um grande mistério sobrenatural é prefigurado nas coisas terrenas: a obediência das esposas está enraizada na obediência de Cristo ao Pai e na submissão da Igreja ao Senhor, e brota delas.

A obediência a que uma mulher se submete no matrimônio é uma escolha, uma resposta do seu coração a um dom do Senhor; assim como uma religiosa promete obediência a seus superiores como parte da vocação de servir a um só Senhor. A obediência da esposa está inserida no contexto de um sacramento; não é uma questão de dependência natural ou de inferioridade. Uma esposa se submete ao seu marido principalmente por amor a Deus e em obediência ao chamado dele. O sacrifício de si, mantido pela graça de Deus e corretamente entendido pela esposa, não ameaça sua condição de igualdade em relação ao marido [3].

O Filho é igual ao Pai (como afirmou Orígenes e foi posteriormente definido); no entanto, o Filho é obediente ao Pai. Uma coisa tão suavemente conhecida em muitas relações de amor humano está, além da imaginação, presente nos segredos centrais do céu. Pois o Filho em seu eterno agora deseja a subordinação, e ela lhe pertence. Ele quer que sejam assim; com obediência e de modo filial Ele é inseparável do Pai, assim como o Pai é, com autoridade e modo paternal, inseparável dele. E todas as três Pessoas são eternamente inseparáveis — e iguais [4].

No interior da Santíssima Trindade, a distinção de Pessoas não põe em perigo a unidade da Divindade, compartilhada igual e essencialmente por Pai, Filho e Espírito Santo. Na Trindade, essa hierarquia-na-igualdade é refletida na ordem da salvação ocasionada pelo envio de Cristo pelo Pai, na relação esponsal entre Cristo e a Igreja e, novamente, na ordem do matrimônio.

“A Virgem da Anunciação”, por Antonello de Saliba.

A ferida da rebelião pecaminosa foi curada pela morte de Cristo e a salvação da homem foi obtida precisamente por meio da obediência à vontade de Deus, que teve início com o fiat da Virgem Maria (“Faça-se em mim segundo a vossa palavra”). De modo semelhante, visto como uma participação no mistério de Cristo e de sua Igreja, o relacionamento da esposa com seu marido é salvífico; para ser mais preciso, é um sacrifício livremente consagrado ao único sacrifício de Cristo e inserido nele. Todos os cristãos são chamados a imitar a Virgem, a se unirem a Cristo e mutuamente nele, mas essa vocação tem naturezas distintas para homens e mulheres. Embora Maria seja o arquétipo para todos os cristãos, a vida dela como modelo da verdadeira feminilidade apresenta certas verdades aplicáveis particularmente às mulheres. O véu e qualquer outro símbolo associado às mulheres deve ser considerado à luz do fiat da Virgem, seu abandono à vontade de Deus, o ato por meio do qual ela esmagou a cabeça da serpente — assim como a submissão de Cristo à vontade do Pai “até a morte” significou a derrota de Satanás. “Eis aqui a escrava do Senhor.” “Não a minha, mas a vossa vontade seja feita.” Ao se oferecer, a Virgem se tornou a “ajudante” necessária para que o novo Adão, o grande Sumo Sacerdote, oferecesse o único sacrifício por todos: seu Corpo e Sangue. 

A corresponsabilidade do marido

Para obtermos um quadro completo, temos de nos lembrar do referido ensinamento que São Paulo transmite aos maridos no capítulo 5 da Carta aos Efésios. O Apóstolo diz que os maridos devem representar Cristo; devem servir como cabeça da igreja doméstica. O que isso significa? A verdadeira autoridade vinda dos sacramentos vivificantes tem pouco a ver com a compreensão que o homem caído tem do poder e do governo sobre outros em benefício próprio. 

Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir (Mt 20, 25-28). 

Os maridos devem agir como Cristo Rei — o Rei entronizado na Cruz: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5, 25). A autoridade do marido é legítima quando exercida segundo a imitação de Cristo. Santo Tomás de Aquino apreende bem esse ponto: “A esposa sujeita-se a Deus submetendo-se ao seu marido sob Deus” [subiicitur viro sub Deo], ou seja, ela é submissa ao marido na medida em que ele mesmo está “sob Deus”, isto é, governando de acordo com os mandamentos de Deus [5].

Portanto, em todo matrimônio marido e mulher são chamados a imitar e manifestar um ao outro e ao mundo o amor de Cristo e da Igreja, ele mesmo moldado pelo mistério de amor que existe no interior da Santíssima Trindade. Essa imitação e manifestação só pode ocorrer pela graça de Deus, o Deus que é Amor; ela requer oração constante, além de discernimento, paciência e perseverança. O equilíbrio entre hierarquia-na-igualdade e igualdade-na-hierarquia só pode ser mantido pela consciência permanente de nossa vocação para amar — governar e servir mediante o amor e pelo amor. O relacionamento adequado entre marido e mulher e o precioso dom da procriação foram afetados pela Queda (cf. Gn 3, 16), como podemos ver nos homens que abusam de sua autoridade como maridos e em homens que são muito tímidos ou efeminados para assumir suas responsabilidades. Podemos ver todo tipo de problema: homens que governam para satisfazer seu egoísmo; homens que se recusam a governar pelo bem de qualquer pessoa; mulheres que se recusam taxativamente a ser governadas; mulheres que agem como capachas e não questionam abusos de autoridade. Creio que esse é o motivo pelo qual achamos tão estimulante e encorajador o exemplo de um bom casamento no qual os cônjuges vivem em paz e alegria. Ele mostra que isso pode realmente ser feito por meio do esforço humano determinado e a graça de Deus resultante de nossas súplicas.

Deste modo, na teologia de São Paulo o véu é um símbolo de consagração e autossacrifício. Assim como a Igreja se submete a Cristo e Cristo Filho obedece ao Pai, uma esposa está “sob” o poder e a proteção de seu marido. Do ponto de vista litúrgico, faz sentido que a mulher porte um sinal exterior dessa verdade interior, um símbolo público e visível de sua vocação como esposa, especialmente quando está perante o Senhor em adoração. O véu dá testemunho silencioso da dignidade e poder dela em sua submissão ao marido. Em sentido lato, ele é sacramental: um simples objeto que simboliza uma profunda realidade espiritual. Assim como as religiosas dão testemunho ao mundo por meio de seu hábito (incluindo o véu), da mesma forma as esposas dão testemunho da natureza especial do matrimônio cristão ao cobrirem sua própria cabeça na Missa. Esse belo símbolo dá à esposa uma oportunidade de viver sua vocação de modo mais pleno por fazer com que ela e outras pessoas, inclusive suas filhas, recordem seu traço de humildade mariana. Podemos ir mais longe: esse delicado símbolo daquilo que é exemplo perfeito da “pequenez” teresiana pode ser um meio poderoso de reparação para aqueles que se rebelam contra sua identidade ou são infiéis ao seu chamado.

Tradição codificada em símbolos

Considerando o que vimos, é possível explicar outro detalhe de 1Cor 11 que pode passar despercebido. No início do capítulo, o Apóstolo insiste em que os cristãos de Corinto devem preservar as instruções que ele lhes transmitira. “Eu vos felicito, porque em tudo vos lem­brais de mim, e guardais as minhas instruções, tais como eu vo-las transmiti. Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem, e o senhor de Cristo é Deus.”

Parte da sagrada tradição que ele transmitiu a eles é o ensino sobre as esposas e a submissão delas aos maridos, e é nesse contexto que o “poder” simbolizado pelo véu entra em sua exortação. Em outras palavras, São Paulo exorta todos a se esforçarem para “imitar Cristo” (1Cor 11, 1) a fim de preservar as tradições que contêm e confirmam a boa doutrina e uma vida santa. “Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa” (2Ts 2, 15). Esse é com certeza um ensinamento ao qual devemos nos aferrar no mundo moderno. A atual desintegração da vida familiar ocorre, até certo ponto, porque a tradição apostólica da hierarquia familiar não tem sido preservada nem pela família nem pela própria hierarquia eclesiástica.

O ensinamento de São Paulo parece deixar claro que o uso de algo que sirva para cobrir a cabeça só possui sentido “sacramental” pleno para mulheres casadas ou comprometidas  (incluindo religiosas que são casadas com Cristo e noviças que estão se preparando para esse casamento místico). Quando a estudamos de modo contextualizado, vemos que a recomendação segundo a qual “a mulher deve ter um véu sobre sua cabeça”, entendida  como símbolo do poder do homem (exousia), refere-se não ao homem e à mulher enquanto tais, mas às mulheres casadas relativamente aos seus maridos. (Também notamos, porém, que o mesmo capítulo dá instruções aplicáveis a todas as mulheres; São Paulo alterna entre as mulheres em geral e as casadas, dizendo coisas diferentes apropriadas a cada grupo.) Por essa razão, o costume tradicional de todas as mulheres usarem véu na igreja parece se justificar no chamado natural e sobrenatural de cada mulher a ser esposa — seja de Cristo, na vida religiosa, seja de um marido em um casamento cristão. Mesmo antes de esse chamado ser atualizado, e ainda que isso jamais ocorra, trata-se de uma realidade ontológica e espiritual que precisa ser reconhecida, honrada e inserida no grande mysterium fidei celebrado na Santa Missa.

Razões práticas

Também há razões práticas para o uso do véu, e como elas se aplicam tanto às mulheres casadas como às solteiras, corroboram a antiga convenção que prescrevia o uso do véu por todas as mulheres na igreja.

Antes de mais nada, o uso do véu pode evitar a distração tanto para quem o usa como para outras pessoas. Quantas vezes não nos pegamos olhando para outras pessoas na igreja, em vez de nos concentrarmos na oração? O véu pode ser útil às mulheres. Aquelas que estão protegidas e cobertas por ele podem se concentrar melhor [6], recordando-se qual é a principal razão pela qual estão na igreja: trata-se de um momento sagrado, e estou aqui para adorar a Deus.

Outra razão para o uso do véu na igreja é certa “privacidade”, uma necessidade de estar a sós com Deus, em vez de manter uma postura de intimidade e sociabilidade com outras pessoas. Na Missa, o divino Esposo visita a alma cristã esponsal; deveríamos estar preparados para a visita dele. A moderna ênfase desmedida na dimensão social do culto frequentemente leva a uma perda de contato com a única realidade que torna todo o resto real: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que deveria ser recebido com plena e absoluta atenção da alma. O véu assinala a mulher como uma pessoa de oração, que sabe por que e por quem vai à igreja. As pessoas podem até chamá-la de carola e ultrapassada pelas costas, mas seu coração permanece em paz: seu esforço é feito por amor, e essa é a única coisa que importa.

Uma mulher que usa véu diz ao seu próximo: estamos aqui reunidos para adorar a Deus. Assim, ela presta um serviço aos outros, ajudando-os a se lembrarem o que é realmente a Missa. No final das contas, outras mulheres podem seguir-lhe o exemplo.

Portanto, há muitas razões que mostram a conveniência do uso do véu. Para as esposas, sobretudo, tem a mesma natureza que o hábito tem para as religiosas: é um sinal de seu chamado à consagração ao Senhor, com e por meio de seu marido. Em vez de ser um sinal de opressão das mulheres, é sinal de um amor genuíno e comprometido, assim como a Cruz é o maior sinal de amor já dado à humanidade.

Até esse modesto costume de nossos ancestrais é, então, parte de uma renovação litúrgica mais ampla e bem-sucedida que incorpora o passado adequadamente, compreende as verdadeiras necessidades do presente e preserva a beleza e o simbolismo do culto católico para os séculos vindouros. 

Notas

  1. Segundo Ronald Knox, alguns comentadores afirmam que Paulo está tentando, por meio dessa palavra grega, cunhar uma palavra hebraica que signifique o véu usado tradicionalmente por uma mulher judia.
  2. Esses anjos, usualmente identificados como querubins, são descritos dessa forma por Isaías, Ezequiel e o Apocalipse de São João, e sistematicamente em toda a tradição rabínica judaica. Para referências bíblicas, ver Cornélio a Lápide, Commentaria in Scripturam Sacram (Paris: Vives, 1868), 18: 355-56.
  3. A doutrina segundo a qual as mulheres não são iguais aos homens é herética e análoga à heresia do subordinacionismo, que nega a igualdade entre o Filho e o Pai. Isso está claro na encíclica Casti Connubii, do Papa Pio XI, que ensina que homens e mulheres possuem “igualdade na diferença” e “igualdade em chefia e subordinação”.
  4. Charles Williams, citado em Mary McDermott Shideler, The Theology of Romantic Love, Grand Rapids: William B. Erdmans Publishing Co., 1962, 81-82.
  5. Cf. Lectura super primam epistolam ad Corinthios, c. XI, l. 3, n. 612.
  6. Obviamente, estou falando de um véu mais longo, e não da versão estilo “toalhinha” que vemos às vezes. Não precisa ser feito de renda (embora esse tecido tenha a conveniência de poder ser afixado ao cabelo), mas pode ter o comprimento de um lenço comum de um material leve. Há também a questão dos chapéus. Embora seja verdade que chapéus possam cumprir a função de cobrir a cabeça (e de fato já cumpriram), pertencem mais ao mundo da moda do que à esfera da vida sacramental e litúrgica. Eles não possuem o peso simbólico pleno do véu.

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Eu estava indo para o Inferno!
Testemunhos

Eu estava indo para o Inferno!

Eu estava indo para o Inferno!

Com uma Igreja muda a respeito do pecado, foi preciso que, via internet, Deus “ressuscitasse” um santo de quatro séculos atrás para me tirar do Inferno ao qual eu caminhava tranquila e despreocupadamente…

Pedro Penitente16 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Eu ainda me lembro do dia da minha conversão. Era julho, e eu estava de férias, na casa de alguns parentes, sentado diante de uma tela de notebook e lendo o livro “Preparação para a morte”, de Santo Afonso Maria de Ligório. Como fui me deparar com essa obra eu já não me lembro mais. Sei que o trecho que mexeu comigo estava num capítulo sobre os maus hábitos, e ele dizia o seguinte:

...o mau hábito os privou da luz. Diz Santo Anselmo que o demônio procede com certos pecadores como aquele que tem um passarinho preso por um cordel.

Ele o deixa voar, mas, quando quer, o faz cair por terra. Tal semelhança — afirma o santo — é aplicável àqueles que são dominados pelo mau hábito. Alguns há, acrescenta São Bernardino de Sena, que pecam sem que a ocasião se apresente. Compara-os este grande santo aos moinhos de vento que qualquer aragem faz girar e que continuam em movimento mesmo que não haja grão para moer, e, às vezes, até rodam contra a vontade do dono. Estes pecadores, observa São João Crisóstomo, vão forjando maus pensamentos, sem ocasião, sem prazer, quase contra sua vontade, tiranizados pela força do mau hábito.

Porque, segundo disse Santo Agostinho, o mau hábito se converte logo em necessidade. O costume, segundo nota São Bernardo, se muda em natureza. Daqui se segue que, assim como ao homem é necessário respirar, assim parece que o pecado se torna necessário para aqueles que habitualmente pecam e se fazem escravos do demônio.

Quando li aquelas palavras, senti-me perdido. Era a mim que elas se referiam! A mim, mais um infeliz fruto da educação liberal desta época; a mim, que tive um contato muito precoce com pornografia e ainda no começo da minha juventude aprendi a me masturbar, e a achar que não havia mal nenhum naquilo; a mim, que já olhava para todas as mulheres à minha volta como objetos sexuais à disposição, como as prostitutas dos filmes pornográficos a que eu assistia… 

Eis que eu estava ali. O “passarinho preso por um cordel”, o viciado que peca “sem que a ocasião se apresente”, o infeliz atormentado por “maus pensamentos”, o escravo do demônio… era eu, era eu

Que vergonha a minha, mas ao mesmo tempo… “eu preciso mudar”, disse a mim mesmo, “não posso continuar nessa situação”, “tem de haver uma saída”. Daquele dia em diante lembro-me de ter tomado a peito a batalha pela castidade. Eu não acreditava de verdade que aquilo fosse possível, porque, desde que meu corpo se tinha despertado para a sexualidade, eu a havia vivido de forma distorcida e depravada. Mas decidi “pagar pra ver” e, com a graça de Deus, pouco a pouco fui sendo transformado e redimido.  

De lá para cá muitos anos se passaram, muitas recaídas eu experimentei, mas hoje estou de pé e buscando dia após dia forças, nos sacramentos e na oração, para não voltar a essa situação terrível com que comecei minha juventude. Minha juventude, que poderia ter sido muito pior, que poderia ter sido arruinada, não fosse este santo do século XVII chamado Afonso me alertar, através de um arquivo “pdf”, que eu, com meu mau hábito, estava sendo escravizado por Satanás… 

Por isso, esse testemunho é, em primeiro lugar, um canto de gratidão a Deus e a Santo Afonso, instrumento dEle em minha vida. 

Mas esse testemunho também é um grito de socorro: foi preciso que, via internet, Deus “ressuscitasse” um santo de quatro séculos atrás para me tirar do Inferno ao qual eu caminhava tranquila e despreocupadamente… Sim, porque esse “puxão de orelhas”, ou melhor, esse verdadeiro “chacoalhão”, eu não o iria receber jamais do pároco da minha cidade, nem no púlpito, nem no confessionário. Se eu me aconselhasse com ele para saber o que fazer, talvez ele me dissesse para “não me preocupar” com isso, para aproveitar a minha juventude ou algo do tipo. 

A começar pelo fato de que muitos padres hoje, infelizmente, não pregam nem atendem confissões: o púlpito foi abandonado pela transformação do sacerdote em “mais um” do povo, e o confessionário foi substituído pelas “salinhas” de consulta psicológica (e nelas, talvez, a gente escute com mais facilidade justamente o contrário do que ensina a doutrina de sempre da Igreja). Na Missa, o que temos são as homilias “motivacionais”, cheias de obviedades humanas e vazias de fé divina, cuja mensagem central você acha em um livro de autoajuda qualquer. Combinadas com a eloquência, essas palavras “bonitas” talvez até arranquem aplausos e lágrimas da “plateia” que as escuta; conversão, porém, verdadeiro arrependimento dos próprios pecados e confissão… disso nada se fala. Alguns padres hoje estão mais para coaches que verdadeiros curas de almas.

Como consequência disso, o que temos em nossas igrejas é um punhado de gente que, ou por ignorância ou por malícia mesmo, leva a vida como “escravos do demônio”. As pessoas vivem afundadas em seus maus hábitos, não se sentem minimamente incomodadas com o estilo de vida mundano que têm, e vão à igreja por puro hobby, como quem vai a um clube (às vezes até trajados a rigor). A conversão que eles conhecem é a do “bom-mocismo”: importa comportar-se, ter boas maneiras, não usar drogas e ser amigo de todo o mundo. No restante cada um é livre para fazer o que bem entende, desde que não incomode ninguém.

Esse infelizmente é o cenário de muitas paróquias Brasil e mundo afora. Como em muitas delas a Tradição da Igreja simplesmente desapareceu, como o vínculo que nos une — a nós, católicos do século XXI — com os fiéis católicos de todos os séculos anteriores, com os santos dos tempos passados, foi dissolvido sem que ninguém desse notícia, o que restou a muitas pessoas foi buscar recursos na internet e descobrir ali o que anos de frequência paroquial lhes sonegaram. 

Entenda-me bem: não se trata de defender aqui uma espécie de “catolicismo de internet”. (A imagem que vem à mente, com a expressão, é a de um indivíduo egoísta, sentado em frente a uma tela de computador, disposto a apontar o dedo para o mundo inteiro, exceto para si mesmo; a convocar uma “cruzada” contra os infiéis dentro da Igreja, ao mesmo tempo que evita “cruzar” com os próprios defeitos para mudá-los.) Nesse campo todo cuidado é pouco. Não podemos esquecer que a Igreja é uma realidade viva ainda hoje, na sua hierarquia, nos sacramentos e nos sacerdotes que os administram. Continua sendo verdade que unus Christianus, nullus Christianus, “um cristão sozinho não é cristão nenhum”. 

Mas eu também preciso pensar na grande providência que é a internet para a formação dos católicos hoje. Com ela, hoje, temos acesso fácil, instantâneo e gratuito a uma verdadeira biblioteca de bons livros católicos, que nos põem em contato com a fé de sempre e nos dão uma lufada de ar fresco, uma verdadeira libertação da falta de catequese, e até mesmo da má formação, que tantos de nós recebemos em nossa infância, seja dentro de casa, seja nas nossas paróquias. 

Não fosse esse instrumento, eu muito provavelmente ainda estaria deitando e rolando nos vícios do meu começo de juventude… Em outras palavras, eu estaria indo para o Inferno

Esse drama que eu estava vivendo, no entanto, é o drama atual de muitíssimas pessoas (católicas batizadas!), que se encontram na mesmíssima situação de miséria em que eu estava dez anos atrás. Quando elas ouvirão a voz da verdade (se é que terão a chance de ouvi-la)? Quando procurarão o sacramento da Confissão e voltarão para a amizade de Deus (se é que o farão)? Até que despertemos de nossa letargia, de nossa mudez e de nossa covardia em pregar a doutrina de sempre da Igreja, para salvar os vivos, talvez Deus precise continuar ressuscitando os mortos...

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