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Os quatro temperamentos e nossa vida interior
Espiritualidade

Os quatro temperamentos
e nossa vida interior

Os quatro temperamentos e nossa vida interior

Como a descoberta e o trabalho do nosso temperamento pode ajudar no caminho de nossa santificação? É o que explica neste texto o grande tomista espanhol Pe. Antonio Royo Marín.

Pe. Antonio Royo MarínTradução: S.O.S. Família/Equipe CNP15 de Janeiro de 2019
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Além dos grandes recursos psicológicos de caráter natural e sobrenatural, podemos aproveitar-nos também, no caminho da nossa santificação, de um auxílio de caráter puramente fisiológico — o nosso próprio temperamento —, melhorando suas boas disposições e corrigindo, dentro do possível, os seus defeitos. Naturalmente, trata-se de algo que contribui em pouca medida para a nossa santificação, num plano puramente dispositivo e meramente natural, mas não deixa de ter sua importância, ao menos negativa, removendo obstáculos (ut removens prohibens).

Vamos, pois, estudar a natureza, a classificação e os meios de aperfeiçoar o próprio temperamento.

1. Natureza. — Há uma grande diversidade de opiniões entre os autores sobre a natureza e a classificação dos temperamentos. Vamos expor aqui a doutrina mais comumente admitida, dando-lhe uma orientação eminentemente prática.

Noção. — O temperamento é o conjunto de inclinações íntimas que brotam da constituição fisiológica de um homem. É a característica dinâmica de cada indivíduo, que resulta do predomínio fisiológico de um sistema orgânico (sistema nervoso, sistema sanguíneo) ou de um humor (bílis, linfa).

Como se vê por essas noções, o temperamento é algo inato no indivíduo. É a índole natural, ou seja, algo que a natureza nos impõe. Por isso mesmo, ele nunca desaparece inteiramente: genio y figura hasta la sepultura — “gênio e figura permanecem até a sepultura”. Mas uma educação oportuna e, sobretudo, a força sobrenatural da graça podem, se não transformá-lo totalmente, ao menos reduzir ao mínimo suas estridências, e ainda suprir de todo suas manifestações exteriores. É testemunha disso — entre outros mil — São Francisco de Sales, que passou para a posteridade com o nome de “Santo da doçura”, apesar de seu temperamento fortemente colérico.

2. Classificação. — Depois de mil tentativas e ensaios, os tratadistas modernos voltam à classificação dos antigos clássicos, que parece remontar em sua origem ao próprio Hipócrates, maior médico da Antiguidade (460-377 a.C.). Segundo ele, os temperamentos fundamentais são quatro: sanguíneo, melancólico (nervoso), colérico (belicoso) e fleumático, conforme predomine neles a constituição fisiológica que seu nome mesmo indica.

Vejamos as características principais de cada um deles. Antes, porém, é preciso advertir que nenhum dos temperamentos que vamos descrever existe “quimicamente puro” na realidade. Geralmente, apresentam-se mesclados e, além disso, apresentam graus muito diversos. Assim, os fleumáticos nunca o são de todo, pois se encontram neles muitos traços de sensibilidade. Os sanguíneos têm, às vezes, qualidades próprias dos melancólicos, etc. Trata-se unicamente de algo predominante na constituição fisiológica de um indivíduo. É preciso levar muito em conta esta observação, ao descobrir alguns traços próprios de um determinado temperamento, para evitar um juízo prematuro, que poderia estar muito longe da realidade objetiva.

Passemos agora à descrição detalhada de cada um deles. Seguimos principalmente Conrado Hock e Guibert. É deles que citamos, vez por outra, suas próprias palavras.

a) Temperamento sanguíneo. — Características essenciais com relação à excitabilidade: O sanguíneo se excita fácil e fortemente por qualquer impressão. A reação pode ser também imediata e forte, mas a impressão ou duração pode ser curta. A lembrança de coisas passadas não provoca tão facilmente novas emoções.

“O Êxtase de Santa Teresa”, uma sanguínea. Quadro do séc. XVIII.

Boas qualidades. — O sanguíneo é afável e alegre, simpático e prestativo, dócil e submisso para com seus superiores, sincero e espontâneo (às vezes até à inconveniência). É verdade que, ante a injúria, raciocina às vezes com violência e prorrompe em expressões ofensivas; mas esquece rapidamente tudo, sem guardar rancor de ninguém. Desconhece a teimosia e a obstinação. Sacrifica-se com desinteresse. Seu entusiasmo é contagioso e arrebatador. Seu bom coração cativa e apaixona, exercendo uma espécie de sedução em torno de si.

Por ter uma concepção serena da vida, é fundamentalmente otimista, não o arredam as dificuldades, confia sempre no bom êxito. Surpreende-se muito de que os outros se incomodem com uma brincadeira pouco agradável, que lhe parece a coisa mais natural e simpática do mundo. Tem grande sentido prático da vida e é mais inclinado a idealizar do que a criticar.

Dotado de uma exuberante riqueza afetiva, é fácil e ágil para a amizade e se entrega a ela com ardor, às vezes apaixonadamente.

Sua inteligência é viva, rápida, assimila facilmente, mas sem muita profundidade. Dotado de uma memória feliz e uma imaginação ardente, triunfa facilmente na arte, na poesia e na oratória, mas não poderá alcançar a eminência do sábio. Os sanguíneos seriam muito freqüentemente espíritos superiores se tivessem tanta profundidade como sutileza, tanta tenacidade no trabalho como facilidade nas concepções.

Más qualidades. — Ao lado dessas boas qualidades, o temperamento sanguíneo apresenta sérios inconvenientes.

Seus principais defeitos são a superficialidade, a inconstância e a sensualidade. A primeira se deve principalmente à rapidez de suas concepções. Julga haver compreendido logo qualquer problema que se lhe proponha, quando na realidade o percebeu tão-somente de maneira superficial e incompleta. Daí procedem seus juízos apressados, ligeiros, freqüentemente inexatos, quando não inteiramente falsos. É mais amigo da amplitude fácil e brilhante do que da profundidade.

A inconstância do sanguíneo é fruto da pouca duração de suas impressões. Em um instante passa do riso ao pranto, do gozo delirante a uma negra tristeza. Arrepende-se pronta e verdadeiramente de seus pecados, mas volta a eles na primeira ocasião que se lhe apresenta. Os sanguíneos são vítimas de impressões de momento, sucumbem facilmente à tentação. São inimigos dos sacrifícios, da abnegação e do esforço duro e contínuo. São preguiçosos no estudo. Torna-se-lhes quase impossível refrear a vista, os ouvidos e a língua. Distraem-se facilmente na oração. A épocas de grande fervor sucedem-se outras de languidez e desalento.

A sensualidade encontra terreno abonado na natureza ardente do sanguíneo. Deixa-se arrastar facilmente pelos prazeres sensuais da gula e da luxúria. Raciocina prontamente contra suas quedas e as deplora com sinceridade. Mas faltam-lhe energia e coragem para dominar a paixão quando torna a levantar a cabeça.

Santo Agostinho, outro sanguíneo, retratado por Philippe de Champaigne.

Educação do sanguíneo. — A educação e canalização de qualquer temperamento deve consistir em fomentar suas boas qualidades e em reprimir os defeitos. Por isso, o sanguíneo deverá procurar canalizar a sua exuberante vida afetiva por um meio nobre e elevado. Se conseguir amar fortemente a Deus, chegará a ser um santo de primeira categoria. Sanguíneos cem por cento foram o Apóstolo São Pedro, Santo Agostinho, Santa Teresa e São Francisco Xavier.

Mas é preciso que lute tenazmente contra seus defeitos, até tê-los vencido totalmente. Há de combater sua superficialidade, adquirindo o hábito da reflexão e ponderação em tudo o que fizer. Deve aprender a lidar com os problemas examinando-os por todos os lados, prevendo as dificuldades que poderão surgir, dominando o otimismo demasiado confiante e irreflexivo.

Contra a inconstância, tomará sérias medidas. Não bastarão os propósitos e resoluções, que violará na primeira ocasião que se lhe apresente, apesar de sua sinceridade e boa fé. É preciso pôr sua vontade num plano de vida, convenientemente revisado, aprovado por seu diretor espiritual e no qual esteja tudo previsto e anotado, e que nada se deixe ao arbítrio da sua vontade fraca e caprichosa. Há de praticar seriamente o exame de consciência, aplicando-se fortes penitências pelas transgressões que sejam fruto de sua inconstância e volubilidade. Há de pôr-se em mãos de um experiente diretor espiritual e obedecer-lhe em tudo. Na oração, há de lutar contra sua tendência aos consolos sensíveis, perseverando nela apesar da aridez e secura.

À sensualidade deverá opor-se com uma vigilância constante e uma luta tenaz. Deve fugir como da peste a todas as ocasiões perigosas, nas quais sucumbirá facilmente, ao se aliar sua sensualidade com sua inconstância. Deve ter particular cuidado na guarda da vista, recordando-se das suas dolorosas experiências. Nele, mais do que em ninguém, cumpre-se aquilo de que “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. Deve guardar o recolhimento e praticar a mortificação dos sentidos externos e internos. Deve, enfim, pedir humilde e constantemente a Deus o dom da perfeita pureza de alma e corpo, que só do Céu nos pode vir (Sb 8, 21).

b) Temperamento melancólico. — Características essenciais com relação à excitabilidade: a do melancólico é débil e difícil ao princípio, mas forte e profunda por repetidas impressões. Sua reação apresenta estes mesmos caracteres. Quanto à duração, pode ser larga. O melancólico não esquece facilmente.

Boas qualidades. — Os melancólicos têm uma sensibilidade menos viva do que a dos sanguíneos, mas mais profunda. São naturalmente inclinados à reflexão, à solidão, ao silêncio, à piedade e vida interior. Compadecem-se facilmente das misérias do próximo, são benfeitores da humanidade, sabem levar a abnegação até o heroísmo, sobretudo ao lado dos enfermos.

Sua inteligência pode ser aguda e profunda, maturando suas idéias com a reflexão e a calma. É pensador e gosta do silêncio e da solidão. Pode ser um intelectual seco e egoísta, encerrando-se na sua torre de marfim, ou um contemplativo que se ocupe das coisas de Deus e do espírito. Sente atração pela arte e tem aptidão para as ciências.

Seu coração é de uma grande riqueza sentimental. Quando ama, dificilmente se desprende de suas afeições, porque nele as impressões se arraigam com muita profundidade. Sofre com a frieza ou a ingratidão. A vontade segue a vicissitude de suas forças físicas: débil e quase nula quando o trabalho o tenha esgotado; forte e generosa quando desfruta de saúde ou quando um raio de alegria ilumina seu espírito. É sóbrio e não sente a desordem passional, que tanto atormenta os sanguíneos. É o temperamento oposto ao sanguíneo, como o colérico é oposto ao fleumático.

Foram de temperamento melancólico o Apóstolo São João, São Bernardo, São Luís Gonzaga, Santa Teresinha do Menino Jesus, Pascal.

Santa Teresinha do Menino Jesus tinha um temperamento melancólico.

Más qualidades. — O lado desfavorável deste temperamento é a tendência exageradamente inclinada à tristeza e à melancolia. Quando recebem alguma forte impressão, ela penetra-lhes profundamente a alma e lhes produz uma ferida sangrante. Não possuem o coração na mão como o sanguíneo, mas, sim, muito no fundo, e aí saboreiam a sós sua amargura. Sentem-se inclinados ao pessimismo, ao ver sempre o lado difícil das coisas, ao exagerar as dificuldades. Isto os torna retraídos e tímidos, propensos à desconfiança em suas próprias forças, ao desalento, à indecisão, aos escrúpulos e a certa espécie de misantropia.

São irresolutos por medo de fracassar em suas empresas. O melancólico “nunca sabe acabar”, como dizia Santa Teresa. É o homem das oportunidades perdidas. Enquanto os demais estão do outro lado do rio, ele está pensando e refletindo, sem se atrever a atravessá-lo. Sofrem muito e fazem sofrer aos demais sem querê-lo, porque, no fundo, são bons. Santa Teresa não os julgava aptos à vida religiosa, sobretudo quando a melancolia está arraigada (cf. Fundações, c. 7. Tenha-se em conta que a “melancolia”, sobre a qual havia se pronunciado, refere-se somente ao temperamento melancólico, e não aos extravios de um caráter voluntariamente neurastênico).

Educação do melancólico. — O educador deverá ter muito em conta a forte inclinação do melancólico à concentração sobre si mesmo. Do contrário, expõe-se a não compreendê-lo e a tratá-lo com grande injustiça e falta de tato. O sanguíneo é franco e aberto na confissão; o melancólico, pelo contrário, quer desafogar-se por meio de um colóquio espiritual, mas não pode; o colérico pode expressar-se, mas não quer; o fleumático não pode nem quer fazê-lo. Deve-se ter muito em conta tudo isto, para não intentar procedimentos educativos contraproducentes.

É preciso infundir no melancólico uma grande confiança em Deus e um sereno otimismo da vida. Deve-se inspirar-lhe uma suma confiança em si mesmo, ou seja, na amplitude de sua alma para as grandes empresas. É preciso aproveitar a sua inclinação à reflexão para fazê-lo compreender que não há motivo algum para ser suscetível, desconfiado e retraído. Se for preciso, deve-se submetê-lo a um regime de repouso e sobrealimentação (Santa Teresa curava muitas monjas melancólicas proibindo a longa oração, as vigílias e jejuns e “fazendo-as divertir-se” — cf. Quartas moradas, 3, 12 e 13; Fundações, 6, 14). Acima de tudo, deve-se combater a sua indecisão e covardia, fazendo-o tomar resoluções firmes e lançar-se a grandes empresas com ânimo e otimismo.

c) Temperamento colérico. — Características essenciais com relação à excitabilidade: o colérico se excita pronta e violentamente. Raciocina num instante. Mas a impressão lhe fica na alma por muito tempo.

Boas qualidades. — Atividade, entendimento agudo, vontade forte, concentração, constância, magnanimidade, liberalidade. Eis aí as excelentes prendas deste temperamento riquíssimo.

Os coléricos (ou belicosos) são apaixonados e voluntariosos. Práticos, desembaraçados, são mais inclinados a obrar do que a pensar. O repouso e a inação repugnam à sua natureza. Sempre estão acariciando o seu espírito com um grande projeto. Apenas acabam de conceber um fim, põem mãos à obra, sem desistir por causa das dificuldades. Entre eles abundam os chefes, os conquistadores, os grandes apóstolos. São homens de governo. Não são daqueles que deixam para amanhã o que deveriam fazer hoje; antes, preferem fazer hoje o que deveriam deixar para amanhã. Se surgem obstáculos e inconvenientes, esforçam-se para os superar e vencer. Apesar do seu ímpeto irascível, quando conseguem reprimi-lo pela virtude, alcançam uma suavidade e doçura da melhor cepa. Tais foram São Jerônimo, Santo Inácio de Loyola e São Francisco de Sales.

São Jerônimo, um colérico, pintado por Luca Giordano.

Más qualidades. — A tenacidade do seu caráter os faz propensos à dureza, obstinação, insensibilidade, ira e orgulho. Se lhes opomos resistência ou os contradizemos, tornam-se violentos e cruéis, a menos que a virtude cristã modere as suas inclinações. Vencidos, guardam o ódio no coração até que soe a hora da vingança. Geralmente são ambiciosos e tendem ao mando e à glória. São mais pacientes do que o sanguíneo, mas não conhecem tanto a delicadeza de sentimento, compreendem menos a dor das outras pessoas, têm em suas relações um trato menos fino.

Suas paixões fortes e impetuosas sufocam essas afeições doces e esses sacrifícios desinteressados que brotam espontaneamente de um coração sensível. Sua febre de atividade e seu ardente desejo de conseguir o que se propõem os faz pisotearem violentamente tudo o que os impede, e aparecem ante os demais como uns egoístas sem coração. Tratam os outros com uma altaneria que pode chegar à crueldade. Tudo deve curvar-se diante deles. O único direito que reconhecem é a satisfação dos seus apetites e a realização de seus desígnios.

Educação do colérico. — Tais homens seriam de um preço inestimável se soubessem dominar-se e governar suas energias. Com relativa facilidade chegariam aos mais altos cumes da perfeição cristã. Muitíssimos santos canonizados pela Igreja possuíam este temperamento. Em suas mãos, as obras mais difíceis chegam a feliz termo. Por isso, quando conseguem processar suas energias, são tenazes e perseverantes nos caminhos do bem e não cessam em seus empenhos até alcançar os píncaros mais elevados.

Deve-se aconselhá-los a que sejam donos de si mesmos, que não atuem precipitadamente, que desconfiem de seus primeiros movimentos. Deve-se levá-los à verdadeira humildade de coração, a se compadecerem dos fracos, a não humilhar nem atropelar a ninguém, a não deixarem sentir sua violência, sua própria superioridade, a tratarem a todos com suavidade e doçura.

d) Temperamento fleumático. — Características essenciais com relação à excitabilidade: o fleumático não se excita nunca, ou o faz tão só debilmente. A reação é também débil, quando não chega a faltar por completo. As impressões recebidas desaparecem logo e não deixam vestígios em sua alma.

Boas qualidades. — O fleumático trabalha devagar, mas assiduamente, contanto que não se exija dele um esforço intelectual demasiadamente grande. Não se irrita facilmente por insultos, fracassos ou enfermidades. Permanece tranqüilo, sossegado, discreto e criterioso. É sóbrio e tem um bom sentido prático da vida. Não conhece as paixões vivas do sanguíneo, nem as profundas do nervoso, nem as ardentes do colérico. Dir-se-ia que carece por completo de paixões. Sua linguagem é clara, ordenada, justa, positiva; mais do que brilho, tem energia e atrativo.

O trabalho científico, fruto de uma larga paciência e de investigações conscienciosas, lhe convém melhor do que grandes produções originais. O coração é bom, mas parece frio. Falta-lhe entusiasmo e espontaneidade, porque sua natureza é indolente e reservada. É prudente, sensato, reflexivo, obra com segurança, chega aos fins sem violência, porque afasta os obstáculos em lugar de os romper. Às vezes a sua inteligência é muito clara. Fisicamente, o fleumático é de rosto amável, de corpo robusto, de andar lento e vagaroso. Santo Tomás de Aquino possuiu os melhores elementos deste temperamento, levando a cabo um trabalho colossal com serenidade e calma imperturbáveis.

O grande Doutor Angélico possuía os melhores elementos de um fleumático.

Más qualidades. — Sua calma e lentidão lhe fazem perder boas ocasiões, porque tarda muitíssimo em pôr-se em ação. Não se interessa nada pelo que se passa fora de si. Vive para si mesmo, em uma espécie de concentração egoísta. Não vale para o mando e o governo. Não é afeiçoado a penitências e mortificações; se é religioso, não abusará dos cilícios. É deles que Santa Teresa descreve com tanta graça: “As penitências que fazem estas almas são coerentes com sua própria vida. Não tenhais medo de que se matem, porque sua razão está muito em si” (Santa Teresa, Terceiras moradas, 2, 7). Em casos mais agudos, convertem-se em homens átonos, mortiços e vagos, completamente insensíveis às vozes de ordem que poderiam tirá-los da sua inércia.

Educação do fleumático. — Pode-se tirar muito partido do fleumático, se lhe forem incutidas convicções profundas e lhe forem exigidos esforços metódicos e constantes em ordem à perfeição. Lentamente chegará muito longe. Deve-se sacudi-lo de sua inércia e indolência, empurrando-o às alturas, acender em seu coração apático a labareda de um grande ideal. Deve-se estimulá-lo ao pleno domínio de si mesmo, excitando-o e pondo em uso suas forças adormecidas; não como ao colérico, que deve obtê-lo contendo-se e moderando-se.

Conclusão geral sobre os temperamentos. — Repetimos o que dissemos mais acima: nenhum destes temperamentos existe em estado “quimicamente puro”. O leitor que tenha percorrido estas páginas poderá não ter encontrado em nenhuma delas os traços completos de sua particular fisionomia. A realidade é mais complexa do que todas as categorias especulativas. Com freqüência encontramos na prática, reunidos em um só indivíduo, elementos pertencentes aos temperamentos mais díspares. Isso explica, em boa parte, a diversidade de teorias e classificações entre os autores que se preocupam com estas coisas.

Contudo, é indubitável que em cada indivíduo predominam certos traços temperamentais que permitem catalogá-lo, com as devidas reservas e precauções, em algum dos quadros tradicionais. Por outro lado, sem negar a grande influência do temperamento fisiológico sobre o conjunto da psicologia humana, dadas as íntimas relações e interdependências entre a alma e o corpo, não devemos conceder-lhe uma importância exageradasobretudo no que diz respeito à moralidade de nossos atos —, à maneira de certos racionalistas, que atribuem ao temperamento nativo a responsabilidade única de nossas desordens.

O temperamento ideal. — Se quisermos estabelecer, em sintética visão de conjunto, as características do temperamento ideal, tomaríamos algo de cada um dos que acabamos de descrever. Ao sanguíneo pediríamos sua simpatia, seu grande coração e sua vivacidade; ao melancólico, a profundidade e a delicadeza de sentimentos; ao colérico, sua atividade inesgotável e sua tenacidade; ao fleumático, o domínio de si mesmo, a prudência e a perseverança.

Conseguir pelo esforço sistemático e inteligente este ideal humano, que a natureza não pode conceder a quase ninguém, conduz à difícil empresa do aperfeiçoamento e melhora do próprio temperamento, juntamente com o rude trabalho da formação do caráter.

Referências

  • Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. 2.ª ed., Madrid: BAC, 2015, pp. 784-790. A tradução portuguesa foi retirada do site S.O.S. Família e levemente adaptada para esta publicação.

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Tchau, moral! Adeus, virtude!
Sociedade

Tchau, moral! Adeus, virtude!

Tchau, moral! Adeus, virtude!

O ser humano não consegue viver sem um critério de como agir. Como o homem moderno rejeitou o cristianismo herdado de seus antepassados, restou-lhe apenas uma opção: eliminar a moral e a virtude da vida pública e substituí-las por simulacros.

David G. Bonagura Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Novembro de 2019
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Faz muito tempo que nossa nação renunciou ao ensino da moralidade [1]. Hoje, a palavra “moral” é pouco pronunciada, pois foi substituída por “valores”, um termo mais subjetivo e agradável aos ouvidos do que seu predecessor, que evoca padrões objetivos e um comportamento ordenado. A sorrateira mudança para “valores” ocorreu quase sem esforço depois que forças seculares expulsaram Deus de nossos sistemas escolares e da esfera pública.

Compreende-se melhor a moral quando uma ordem estabelecida confere a ela uma finalidade, e essa necessidade durante muito tempo foi suprida pela crença no Deus criador de um universo ordenado. Ora, não é de admirar que o comportamento humano tenha sofrido desvios preocupantes, uma vez que secularistas proeminentes passaram a negar a existência de qualquer finalidade no mundo ou na vida humana.

Agora a sociedade secular está presa numa armadilha criada por ela mesma. Por um lado, defende com ferocidade o direito de um indivíduo a “definir seu próprio conceito de existência, de sentido, de universo e do mistério da vida humana”, segundo as infames palavras do juiz Anthony Kennedy [2]. Se uma pessoa quiser matar um bebê in utero, redefinir o matrimônio ou remodelar sua sexualidade, nenhuma lei ou instituição poderá impedi-la

Por outro lado, deve haver um código para regular o comportamento até certo ponto, a fim de evitar a anarquia. Portanto, no lugar da moral, que (aliada ao seu outro complemento esquecido: a virtude) outrora moldou o comportamento humano adequado desde dentro, os secularistas impõem leis externas para regular nosso comportamento a partir de fora.

Essas leis são de dois tipos: leis de consentimento e de controle. 

Atualmente, as leis de consentimento governam as relações sexuais, e agora que o matrimônio não é mais o território adequado para a sexualidade, elas têm se tornado cada vez mais necessárias. Sendo o consentimento o único padrão, os atos sexuais já não podem mais ser considerados certos ou errados. A única coisa que importa é saber se as partes envolvidas estão de acordo com o ato. A sexualidade humana é hoje governada por decisões subjetivas de indivíduos, e não por padrões objetivos preservados por uma ordem criada. Isso explica por que atualmente todo tipo de atividade sexual é permitido. Em nosso mundo secular, só pode haver crime quando uma pessoa não está de acordo com tal atividade. 

Leis de controle não limitam uma pessoa, mas uma situação, tal como a competência para possuir uma arma ou aumentar o preço do aluguel. Naturalmente, sempre houve leis desse tipo, e elas não são más em si mesmas. Porém, a versão atual delas se tornou imperativa para secularistas que, por causa de seus princípios, não podem dizer a uma pessoa como viver de acordo com a moral.

Consequentemente, a única alternativa deles é controlar situações potenciais, limitando a oportunidade que uma pessoa tem para prejudicar outra. Pela lógica secularista, não podemos ensinar a um homem o mandamento: “Não matarás”. Em vez disso, temos de dizer: “Não possuirás uma arma”. Negligencia-se discretamente o fato de as leis de controle serem uma imposição da vontade de uma pessoa sobre outra.

Em nosso mundo secular, há apenas uma forma de proteger os seres humanos de ações escandalosas: uma lei externa que obriga a pessoa a obedecer ou a sofrer as consequências. Se as pessoas aderissem aos padrões de consentimento e controle, viveríamos em harmonia. Ao menos é o que se espera. 

Na tradição católica, em contrapartida, a lei e as consequências penais são o último recurso para reprimir uma conduta imoral. Segundo essa tradição, há muitas ações imorais em si mesmas, para além da violação de consentimento. Sem dúvida alguma, o código moral cristão, tal como a lei civil, contém diversas formas negativas: “Não farás [isto ou aquilo]”. Não obstante, essas normas fazem parte de uma visão mais ampla a respeito do sentido da vida humana e, consequentemente, do modo como os seres humanos devem e não devem se comportar. 

Em vez de simplesmente coagir a vontade, tal como o faz a lei civil, o código moral cristão recorre ao intelecto, persuadindo-nos a aceitar como verdadeira uma visão a respeito da maneira como deveríamos viver. A obediência a esse código também tem uma recompensa positiva: a vida eterna com Deus no Céu. A lei civil subsiste para reprimir aqueles que rejeitam esse código.

A moralidade cristã se fortalece ainda mais quando as pessoas religiosas se esforçam para adquirir virtudes, ou o hábito de realizar boas ações. Tornamo-nos virtuosos ao realizar atos de virtude repetidas vezes, enraizando-os em nosso próprio ser. Pessoas realmente virtuosas não dependem mais de proibições negativas porque estão sempre motivadas a fazer a coisa certa em todas as situações. Pessoas virtuosas atingem um nível ainda mais elevado quando amam Nosso Senhor Jesus Cristo. Então, escreve São Paulo: “Se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a Lei… Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança” (Gl 5, 18.22-23).

Além da moral, nosso mundo secular descartou também a virtude, já que esta também implica um modo correto de viver. Em seu lugar, temos hoje campanhas de autoestima e exortações insípidas em prol da amabilidade. Essa defesa é bem-intencionada, mas é ineficaz porque carece de um fundamento razoável que explique por que as pessoas deveriam agir desta ou daquela maneira. O apelo não é direcionado ao intelecto, nem mesmo à vontade, mas às emoções, o que equivale a edificar a própria casa sobre a areia.

O ensino da moralidade e da virtude não é — nem jamais foi — uma garantia de que todas as pessoas se tornarão santas e jamais agirão de forma equivocada. Porém, o ensino delas aumenta a probabilidade de os indivíduos escolherem viver de forma íntegra, porque eles recebem de três fontes (as virtudes, a moral e a lei), e não apenas de uma, a motivação para agirem assim. Quando reduzimos nossas defesas, nos tornamos mais vulneráveis ao ataque.

Não podemos esperar que a lei civil faça o trabalho realizado outrora por uma ordem moral razoável e por uma formação virtuosa do caráter. O experimento norte-americano [3] deu certo porque essas coisas estavam presentes durante a formação do país e em sua expansão, mesmo antes da chegada do primado do direito a algumas localidades anteriormente instáveis. A rejeição da moralidade e da virtude pela América secular pode bem ser o passo que arruinará nosso grande experimento.

Notas

  1. O autor fala desde os Estados Unidos. Mas, de modo geral, as considerações feitas por ele se encaixam como uma luva também em nossa situação (Nota da Equipe CNP).
  2. Anthony Kennedy foi, até 2018, juiz associado da Suprema Corte dos Estados Unidos, função equivalente à dos ministros de nosso Supremo Tribunal Federal (Nota da Equipe CNP).
  3. Como já dito, o autor fala a partir do lugar onde vive. A expressão “experimento norte-americano” (em inglês, the American experiment) faz referência a um conjunto de ideias que orientou a independência dos Estados Unidos em 1776, e que pode ser encontrado principalmente nos escritos dos chamados “pais fundadores” dos EUA (os Founding Fathers). À parte, porém, essa particularidade, o que aqui vai escrito se aplica perfeitamente bem a qualquer sociedade. Nenhuma nação pode prosperar, no verdadeiro sentido do termo, se não estiver edificada sobre “uma ordem moral razoável” e “uma formação virtuosa do caráter” (Nota da Equipe CNP).

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Nem uma sequer de nossas amizades é por acaso
Espiritualidade

Nem uma sequer
de nossas amizades é por acaso

Nem uma sequer de nossas amizades é por acaso

“Nunca é por acaso que duas almas imortais se encontram”. Se temos bons companheiros na jornada desta vida, então temos o próprio Deus, visível e encarnado, caminhando conosco.

Equipe Christo Nihil Praeponere13 de Novembro de 2019
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É consequência quase que natural, de um processo sério, maduro e verdadeiro de conversão, afastar-se das más amizades que se tinha antes e aproximar-se de outras pessoas que tenham em comum a vida de oração e a busca das virtudes. 

A razão disso é muito simples e consta na própria Sagrada Escritura: “Más companhias corrompem bons costumes” (1Cor 15, 33). Não é possível começar a seguir a Cristo e continuar levando a vida do mesmo modo, de mãos dadas com o mundo e com os mundanos. Os que se fazem amigos de Deus devem fazer-se, isto sim, inimigos do mundo — porque o contrário também é verdadeiro: quem se entrega ao mundo, a última coisa que quer ouvir falar é de Deus, de sua Igreja e dos Mandamentos (cf. Tg 4, 4).

Numa sociedade pagã como a nossa, então, é cada vez mais contrastante o modo como o mundo se comporta com o que nos manda o simples Decálogo. Está tudo estampado, às claras, na maneira como as pessoas se vestem, na linguagem com que falam, nas músicas que escutam, nas coisas que admiram…

Só para dar um exemplo muito concreto: as músicas mais ouvidas nos serviços de streaming de música (e também nas rádios), o que se tornaram senão pornografia auditiva pura e simples? As referências abertas ao que deveria ser o mais íntimo dos atos humanos, a incitação ao adultério, à degradação da mulher e ao próprio abuso de menores... nunca foram tão virulentas. E as pessoas não estão escutando isso (como se fosse pouco…); elas estão “curtindo” também, e divulgando, e colocando essas músicas para serem tocadas nas festas de família, de formatura e de casamento, de modo que também seus filhos são colocados, na maior tranquilidade, para cantar e dançar as baixarias que lhes vão aos ouvidos. 

Ora, quando o pecado se torna assim público, como não exigir dos cristãos um rompimento igualmente público com determinados ambientes e grupos de pessoas, de “amigos” ou até mesmo de parentes próximos? Não se trata justamente daquela “fuga das ocasiões perigosas”, básica para vivermos não só, mas principalmente a delicada virtude da castidade cristã? Não vale aqui o ditado segundo o qual é “impossível não queimar-se no meio de uma fogueira” [1]?

À parte a roupagem nova de que o problema se reveste hoje, também Santa Teresa d’Ávila podia se interrogar, em seu tempo, a respeito das más amizades (Caminho de Perfeição, c. 6): “Quando dois não pensam do mesmo modo, como poderão amar-se por muito tempo? É amor que há de acabar com a vida, pois, se um não guarda a lei divina, e, por conseguinte, não ama a Deus, diferentes hão de ser os seus destinos” [2].

Palavras difíceis de escutar estas, especialmente para uma época que deixou de acreditar na eternidade e no Inferno: “Diferentes hão de ser os seus destinos”. Mas a boa-nova de Cristo comporta essa divisão: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa” (Mt 10, 34-36). 

Radical essa divisão, alguém poderá objetar. E, no entanto, como já dito, essa inimizade não é invenção de nenhum ser humano, tampouco da Igreja; trata-se de um decreto divino mesmo, inscrito na própria natureza das coisas, tal como se apresentaram após a Queda. Na célebre frase de Santo Agostinho: “Dois amores fizeram as duas cidades: o amor de si até ao desprezo de Deus — a terrestre; o amor de Deus até ao desprezo de si — a celeste” [3].

Comentando a passagem de Gn 3, 15: “Porei ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela”, São Luís Maria Grignion de Montfort ainda diz o seguinte em seu Tratado sobre a verdadeira devoção à Santíssima Virgem (n. 52):

Deus estabeleceu apenas uma inimizade — porém irreconciliável —, que haverá de durar e chegará mesmo a aumentar na razão mesma em que o mundo se for aproximando do fim. Esta inimizade é entre Maria, Sua Mãe imaculada, e o diabo; entre os filhos e os servos da Santíssima Virgem e os filhos e seguidores de Lúcifer [4].

Desenganemo-nos, portanto, tentando conciliar o inconciliável. “Quando dois não pensam do mesmo modo, como poderão amar-se por muito tempo?” É inevitável, entre os amigos de Deus e os que não querem saber dele, o distanciamento, a separação e, tantas vezes, até o ódio. (Não de nossa parte, porquanto Nosso Senhor nos pede que amemos inclusive nossos inimigos. Além disso, por mais afundada no pecado que esteja uma pessoa, sua alma imortal também foi comprada pelo Sangue de Cristo, e é nosso dever trabalhar por seu resgate, com oração, sacrifícios e, se houver esperança de emenda, também com apelos e “chamadas de atenção” [5].)

Mas também é verdade uma coisa: as pessoas que não estão na graça de Deus geralmente são as primeiras a não quererem para si a companhia dos justos. E por quê? Porque o comportamento destes é uma reprovação visível do modo como elas procedem. A roupa modesta da moça católica é a condenação explícita da roupa indecente da moça mundana, ainda que não lhe saia uma palavra da boca sequer. O católico que sai de um grupo de WhatsApp porque não concorda com a pornografia que seus contatos lhe mandam, excita o ódio destes mesmo sem fazer alarde algum. A família numerosa gerada por um casal católico aberto à vida é o “escândalo” da paróquia, e por aí vai. 

É lamentável, de fato, que tantos de nosso convívio, e até de nossa casa, estejam tão próximos de nós fisicamente, mas ao mesmo tempo tão distantes espiritualmente… Como já dito, porém, é isso o que acontece naturalmente quando se amam e se querem coisas opostas. Não adianta “forçar a barra” e querer estabelecer uma amizade a todo custo, pois nem os laços de sangue nem a proximidade física podem sanar o problema da discórdia, isto é, quando duas pessoas não têm o coração no mesmo lugar.

Por outro lado, que alegria não experimentamos quando fazemos um amigo, um único que seja, com o qual temos a graça de compartilhar os mesmos amores e as mesmas aversões (idem velle, idem nolle, como diz o adágio latino, “querer as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas”). C. S. Lewis escreve que “a expressão típica de começo de amizade seria esta: ‘O quê? Você também? Eu pensava que era o único!’” [6]. Se o que os amigos têm em comum, então, é a busca por Deus, essa alegria é potenciada pela graça, e desde já o que se experimenta é um verdadeiro prelúdio da glória celeste, pois é este o destino comum para o qual eles caminham juntos

Para falar a verdade, o único modo de os amores humanos não descambarem para a idolatria é estando constantemente permeados pelo sobrenatural; a única forma de ordenarmos nossos afetos da forma devida é colocando-os sempre diante da Cruz de Cristo; a única maneira de amarmos retamente as pessoas neste mundo é procurando amar a Deus de todo o coração, com toda a nossa alma e com todo o nosso entendimento (cf. Dt 6, 5; Lc 10, 27).  

Do contrário, assim como com qualquer coisa deste mundo, ficaremos sempre insatisfeitos e “saturados” de algum modo, porque nossa alma foi criada para um outro tipo de amizade, a amizade com Deus, fora da qual todas as nossas amizades não passam de “parcerias”, “coleguismos”, destinadas ao mesmo fim das coisas materiais: o túmulo. É por isso que Santa Catarina de Sena aconselhava: “Se quiserdes que uma amizade dure, se quiserdes beber por muito tempo neste copo, deixai que ele se encha sempre na fonte de água viva; de outro modo, não podereis mais saciar vossa sede” [7]. 

Aqui mora o cuidado, também, de não deixarmos as boas amizades que temos se perderem por falta de referência a Cristo, nosso Amigo primeiro e fundamental, com “a” maiúsculo. Assim como na vida de perfeição, não basta que deixemos de lado as más companhias, que nos levam para o pecado; é preciso que transformemos o convívio com nossos amigos de fé em um desejo comum cada vez mais intenso pelas coisas celestes, em uma doação mútua cada vez mais generosa de bens espirituais… E isso exige esforço, luta constante e sabe-se lá quantas “doses” (tantas vezes dolorosas) de correção fraterna!

O importante é não nos esquecermos da miséria de nossa condição e da meta para a qual caminhamos. Estamos numa peregrinação difícil, é verdade, a montanha íngreme que queremos subir tantas vezes se agiganta à nossa frente e parece impossível subir… Mas, se temos bons companheiros para nos ajudar nessa jornada, que nos encorajam a seguir adiante, que não nos deixam desanimar quando tudo já parece estar perdido, que não nos deixam voltar atrás quando teimamos em confiar menos na graça que em nossas próprias debilidades, então temos o próprio Deus, visível, encarnado, caminhando conosco

Pois também Ele não desiste de nós; o que Ele mais quer é a nossa salvação eterna; e é Ele quem, em sua providência, nos presenteia com boas amizades:

Do ponto de vista de Deus, [...] nunca é por acaso que duas almas imortais se encontram, quer se encontrem ambas em estado de graça, quer só uma tenha a vida divina e possa por sua orações, sua atitude e seu exemplo levar a outra a retomar o caminho reto da eternidade. Não foi por acaso que José foi vendido por seus irmãos aos mercadores ismaelitas; Deus tinha decidido desde toda a eternidade que eles passariam ali a tal hora, nem mais cedo, nem mais tarde. Não foi por acaso que Jesus encontrou Madalena, ou Zaqueu, ou que o centurião romano se encontrava no Calvário [8].

Assim também, (não duvide!) não é por acaso nem um sequer de seus amigos!

Referências

  1. Pe. Antonio Royo Marín. Teología moral para seglares, v. 1. Madri: BAC, 1996, p. 446.
  2. Santa Teresa d’Ávila. Caminho de Perfeição (c. 6). Trad. das Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro. Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 53.
  3. Santo Agostinho, De Civitate Dei, XIV, 28.
  4. São Luís M. Grignion de Montfort. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. Trad. de Raul Martins. Dois Irmãos: Minha Biblioteca Católica, 2018, p. 36.
  5. Falamos de “esperança de emenda” porque, se previrmos que nossa correção fraterna será inútil ou, ainda, virá a causar mais prejuízo do que benefício a outra pessoa, Santo Tomás de Aquino ensina que é melhor abster-se (cf. STh II-II, 33).
  6. C. S. Lewis. Os quatro amores. Trad. de Estevan Kirschner. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017, p. 92.
  7. Pe. Reginald Garrigou-Lagrange. O homem e a eternidade: a vida eterna e a profundidade da alma. Trad. de José Eduardo Câmara de Barros Carneiro. Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 26.
  8. Ibid., p. 33.

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Marido e mulher, vocês pertencem um ao outro!
Família

Marido e mulher,
vocês pertencem um ao outro!

Marido e mulher, vocês pertencem um ao outro!

Embora, no amor humano, traição ou morte possam intervir, a vontade de amar é mais forte do que qualquer outra coisa, porque nasce das profundezas espirituais do coração humano.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Novembro de 2019
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Nas rubricas da celebração do matrimônio presente no Book of Common Prayer [1], o homem, ao colocar a aliança no dedo da mulher, é orientado a dizer: “Com esta aliança, eu te desposo; com meu corpo, eu te venero; e com todos os meus bens terrenos, eu te provejo: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.”

Os cônjuges doam-se a si mesmos porque pertencem um ao outro. O respeito mútuo entre eles e sua união ao longo da vida são uma ratificação da aliança escrita, naquele dia, em seus corações pelo dedo ardente do Espírito Santo; escrita com a palavra de todo seu ser e o peso absoluto do passado, do presente e do futuro, testemunhando a imortalidade da alma humana e a origem divina do seu amor. Se votos como esse não são possíveis, os seres humanos não podem ser considerados animais racionais, muito menos filhos de Deus.

O voto nupcial é uma imitação da fé da Virgem Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Essa declaração perpétua — dita por Eva a Adão, por Sara a Abraão, por Rebeca a Isaac, por Raquel a Jacó, por Maria a José, por Cristo a seu Pai, e pela Igreja a Cristo — é o atestado solene de amor eterno, o triunfo do amor sobre a morte. “Eu sou do meu amado, e meu amado é meu” (Ct 6, 3).

É por isso que, para o cristão, o divórcio não é apenas cruel e errado, mas impossível e inconcebível. Tornar-se a vida e o destino de alguém, por meio de um “sim”, e depois dizer “não”, é apagar a liberdade genuína da vontade e aniquilar a própria identidade enquanto portadora de promessas. A liberdade só pode sobreviver em uma atmosfera de amor, e o amor em um contexto de compromisso incondicional; do contrário, em uma tempestade de acaso ou em um deserto de incerteza, eles não sobrevivem. 

Nos votos matrimoniais seriamente intencionados, o homem torna-se da mulher e a mulher torna-se do homem — nas palavras de São Paulo, “já não vos pertenceis” (1Cor 6, 19). Como pai e filho, esposo e esposa são interdependentes. Se o pai nunca tivesse existido, a possibilidade do filho também desapareceria. O divórcio do que é intrinsecamente unido é tão impossível quanto separar a racionalidade da humanidade. Nesse sentido, a rejeição do amor prometido (divórcio) é como a negação da fé religiosa (apostasia), que, por sua vez, é uma imagem da rejeição da razão (niilismo).

Pensemos na dedicação da Virgem Maria ao seu Filho. Ele pediu tudo a ela, e ela em nada lhe faltou. Quando um homem e uma mulher se comprometem diante de Deus, eles o fazem em vista de uma bem-aventurança futura da qual não desfrutamos no presente. A grandeza da fé consiste nessa entrega livre e incondicional a um amor que não vemos, mas em cuja palavra solene confiamos.

Imaginemos a esposa de um jovem que partiu para a guerra. Ela sabe que pode não tornar a vê-lo nunca mais; ela sabe que nada pode lhe dar certeza de sua fidelidade no exterior. Mas, se ela o ama, manterá o compromisso assumido na expectativa do reencontro

A Escritura diz que Jacó “serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram alguns dias, tão grande era o amor que lhe tinha” (Gn 29, 20). Embora, no amor humano, traição ou morte possam intervir, a vontade de amar é mais forte do que qualquer outra coisa, porque nasce das profundezas espirituais do coração humano.

No caso de nosso Divino Amado, Ele deseja se tornar conhecido por nós: Ele não nos deixou órfãos. Para compreender essa realidade, basta nos perguntarmos: por que a Encarnação? Por que as parábolas e a Paixão de Jesus Cristo? Por que milagres? Por que santos e estudiosos? Não são esses os buquês, as cartas de amor, as manifestações apaixonadas de Deus ao homem? Além disso, se Deus cria o universo em um transbordar fecundo de sua perfeita bondade, acaso tornará impossível para nós encontrá-lo? E quando for encontrado, acaso tornará impossível para nós permanecer com Ele?

Ao contrário dos sonhos efêmeros e das trágicas quedas do amor humano — que, por sua própria natureza, permanece sujeito à mudança —, o amor de Deus é imutável e eterno: Ele é fiel, Ele não trairá seus filhos. Estes lhe pertencem, e Deus quer que retornem a Ele, como o pai quer o filho pródigo de volta em seus braços, sob seu teto. Começamos nossa vida mortal em um estado de alienação em relação a Deus, de modo que toda a nossa vida é uma peregrinação para encontrar o caminho de volta para Ele. O Pai espera por nós com um banquete e, por nossa causa, Ele permitiu o sacrifício, não de um bezerro gordo, mas de seu próprio Filho, a fim de que possamos retornar a Ele com confiança e descansar a cabeça fatigada em seu peito, como o pobre mendigo Lázaro repousando no seio de Abraão.

Neste mundo, só o que nos resta é procurar a estrela e segui-la: precisamos seguir qualquer que seja a luz visível para nós com a fé inabalável dos Magos. Thomas Valpy French, avô do monsenhor Ronald Knox, escreveu estas palavras sobre suas batalhas espirituais: “Confesso que tenho estado bastante perplexo... só posso concluir que, quando a luz total não é dada, é preciso aceitar a melhor luz que se tem, e seguir em frente lentamente, com alguma hesitação, mas com confiança ainda maior”. É também nisso que consiste a atitude de permanecer na esperança e ser fiel às promessas de alguém, exspectantes beatam spem et adventum Salvatoris nostri Iesu Christi, “esperando com alegria a vinda de Nosso Salvador Jesus Cristo”.

Notas

  1. Nota de tradução: o Book of Common Prayer é o livro de orações e celebrações utilizado pela Igreja Anglicana. Embora não seja um rito católico, o texto citado expressa de modo bem explícito a realidade da entrega mútua que se realiza no matrimônio.

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Obrigado, padre, porque o senhor escolheu morrer!
Padre Paulo Ricardo

Obrigado, padre, porque
o senhor escolheu morrer!

Obrigado, padre, porque o senhor escolheu morrer!

Neste dia em que nos alegramos pelo dom da sua vida, do seu sacerdócio e da sua paternidade, o que nós queremos mesmo celebrar, Padre Paulo Ricardo, é a sua morte.

Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Novembro de 2019
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Reverendíssimo Padre Paulo Ricardo,

Às vésperas que estamos deste dia 7 de novembro de 2019, no qual teremos a alegria de celebrar o seu 52.º aniversário natalício, queremos mais uma vez agradecer a Deus pelo dom da sua vida, do seu sacerdócio e da sua paternidade...

Mas, parando para pensar um pouco, o que nós queremos mesmo celebrar, padre, é a sua morte.

Obviamente, não estamos falando de sua morte física, tampouco sugerindo que sua vida não seja importante (o leitor entenda bem)... Acontece que, assim como uma vela não pode iluminar um cômodo sem se consumir, assim como uma árvore não pode crescer e dar fruto sem que antes a semente caia no chão e morra (cf. Jo 12, 24), a nossa alegria pelo dom da sua vida é ainda maior porque o senhor, um dia, escolheu morrer

O senhor escolheu morrer, padre, quando desde muito cedo abandonou as próprias opiniões para crer “em tudo o que crê e ensina a Santa Igreja Católica” e, assim, manter a fé que o senhor depois cuidaria de transmitir fielmente a nós, seus filhos. 

O senhor escolheu morrer, padre, quando desde pequeno pensou no sacerdócio e quis fazer-se padre, renunciando a todos os projetos que o mundo tinha para si e preferindo a eles o altar do Sacrifício.

O senhor escolheu morrer, padre, quando se prostrou diante do altar do Senhor, no dia da sua ordenação e abraçou o santo celibato como caminho de santificação.

O senhor escolheu morrer, padre, quando tomou a decisão de usar sempre sua batina preta, como mortalha e sinal do “sacrifício de um homem” que deve ser todo sacerdote.

O senhor escolheu morrer, padre, quando, ao invés de se obstinar em seus erros passados, sempre fez questão de reconhecer as próprias culpas e fraquezas, preferindo voltar atrás a trair o “mistério da fé” que lhe foi confiado. 

O senhor escolheu morrer, padre, sempre que preferiu a palavra da Igreja à sua, a sabedoria dos santos à sua, cumprindo com isso o lema de nosso site: Christo nihil praeponere, “nada antepor a Cristo”.

O senhor escolheu morrer, padre, quando trocou uma “carreira” pela árdua missão de anunciar a verdade aos bárbaros da sombria era digital, que somos nós.

E por que o senhor escolheu isso?

O senhor escolheu morrer, padre, para que tantos de nós pudéssemos viver, tornando-se com isso imagem do próprio Cristo, que veio non ministrari, sed ministrare, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em favor de muitos. 

Por tudo isso, muito obrigado, padre! Obrigado pelo dom da sua vida e por gastá-la conosco! Obrigado por ter escolhido morrer e por continuar a fazê-lo, dia após dia, no seu ministério! 

E obrigado por nos ensinar que é assim, morrendo, que a nossa vida ganha verdadeiro sentido… Graças a esse ensinamento, também nós, seus filhos, queremos morrer.

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