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Os quatro temperamentos e nossa vida interior
Espiritualidade

Os quatro temperamentos
e nossa vida interior

Os quatro temperamentos e nossa vida interior

Como a descoberta e o trabalho do nosso temperamento pode ajudar no caminho de nossa santificação? É o que explica neste texto o grande tomista espanhol Pe. Antonio Royo Marín.

Pe. Antonio Royo MarínTradução: S.O.S. Família/Equipe CNP15 de Janeiro de 2019Tempo de leitura: 16 minutos
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Além dos grandes recursos psicológicos de caráter natural e sobrenatural, podemos aproveitar-nos também, no caminho da nossa santificação, de um auxílio de caráter puramente fisiológico — o nosso próprio temperamento —, melhorando suas boas disposições e corrigindo, dentro do possível, os seus defeitos. Naturalmente, trata-se de algo que contribui em pouca medida para a nossa santificação, num plano puramente dispositivo e meramente natural, mas não deixa de ter sua importância, ao menos negativa, removendo obstáculos (ut removens prohibens).

Vamos, pois, estudar a natureza, a classificação e os meios de aperfeiçoar o próprio temperamento.

1. Natureza. — Há uma grande diversidade de opiniões entre os autores sobre a natureza e a classificação dos temperamentos. Vamos expor aqui a doutrina mais comumente admitida, dando-lhe uma orientação eminentemente prática.

Noção. — O temperamento é o conjunto de inclinações íntimas que brotam da constituição fisiológica de um homem. É a característica dinâmica de cada indivíduo, que resulta do predomínio fisiológico de um sistema orgânico (sistema nervoso, sistema sanguíneo) ou de um humor (bílis, linfa).

Como se vê por essas noções, o temperamento é algo inato no indivíduo. É a índole natural, ou seja, algo que a natureza nos impõe. Por isso mesmo, ele nunca desaparece inteiramente: genio y figura hasta la sepultura — “gênio e figura permanecem até a sepultura”. Mas uma educação oportuna e, sobretudo, a força sobrenatural da graça podem, se não transformá-lo totalmente, ao menos reduzir ao mínimo suas estridências, e ainda suprir de todo suas manifestações exteriores. É testemunha disso — entre outros mil — São Francisco de Sales, que passou para a posteridade com o nome de “Santo da doçura”, apesar de seu temperamento fortemente colérico.

2. Classificação. — Depois de mil tentativas e ensaios, os tratadistas modernos voltam à classificação dos antigos clássicos, que parece remontar em sua origem ao próprio Hipócrates, maior médico da Antiguidade (460-377 a.C.). Segundo ele, os temperamentos fundamentais são quatro: sanguíneo, melancólico (nervoso), colérico (belicoso) e fleumático, conforme predomine neles a constituição fisiológica que seu nome mesmo indica.

Vejamos as características principais de cada um deles. Antes, porém, é preciso advertir que nenhum dos temperamentos que vamos descrever existe “quimicamente puro” na realidade. Geralmente, apresentam-se mesclados e, além disso, apresentam graus muito diversos. Assim, os fleumáticos nunca o são de todo, pois se encontram neles muitos traços de sensibilidade. Os sanguíneos têm, às vezes, qualidades próprias dos melancólicos, etc. Trata-se unicamente de algo predominante na constituição fisiológica de um indivíduo. É preciso levar muito em conta esta observação, ao descobrir alguns traços próprios de um determinado temperamento, para evitar um juízo prematuro, que poderia estar muito longe da realidade objetiva.

Passemos agora à descrição detalhada de cada um deles. Seguimos principalmente Conrado Hock e Guibert. É deles que citamos, vez por outra, suas próprias palavras.

a) Temperamento sanguíneo. — Características essenciais com relação à excitabilidade: O sanguíneo se excita fácil e fortemente por qualquer impressão. A reação pode ser também imediata e forte, mas a impressão ou duração pode ser curta. A lembrança de coisas passadas não provoca tão facilmente novas emoções.

“O Êxtase de Santa Teresa”, uma sanguínea. Quadro do séc. XVIII.

Boas qualidades. — O sanguíneo é afável e alegre, simpático e prestativo, dócil e submisso para com seus superiores, sincero e espontâneo (às vezes até à inconveniência). É verdade que, ante a injúria, raciocina às vezes com violência e prorrompe em expressões ofensivas; mas esquece rapidamente tudo, sem guardar rancor de ninguém. Desconhece a teimosia e a obstinação. Sacrifica-se com desinteresse. Seu entusiasmo é contagioso e arrebatador. Seu bom coração cativa e apaixona, exercendo uma espécie de sedução em torno de si.

Por ter uma concepção serena da vida, é fundamentalmente otimista, não o arredam as dificuldades, confia sempre no bom êxito. Surpreende-se muito de que os outros se incomodem com uma brincadeira pouco agradável, que lhe parece a coisa mais natural e simpática do mundo. Tem grande sentido prático da vida e é mais inclinado a idealizar do que a criticar.

Dotado de uma exuberante riqueza afetiva, é fácil e ágil para a amizade e se entrega a ela com ardor, às vezes apaixonadamente.

Sua inteligência é viva, rápida, assimila facilmente, mas sem muita profundidade. Dotado de uma memória feliz e uma imaginação ardente, triunfa facilmente na arte, na poesia e na oratória, mas não poderá alcançar a eminência do sábio. Os sanguíneos seriam muito freqüentemente espíritos superiores se tivessem tanta profundidade como sutileza, tanta tenacidade no trabalho como facilidade nas concepções.

Más qualidades. — Ao lado dessas boas qualidades, o temperamento sanguíneo apresenta sérios inconvenientes.

Seus principais defeitos são a superficialidade, a inconstância e a sensualidade. A primeira se deve principalmente à rapidez de suas concepções. Julga haver compreendido logo qualquer problema que se lhe proponha, quando na realidade o percebeu tão-somente de maneira superficial e incompleta. Daí procedem seus juízos apressados, ligeiros, freqüentemente inexatos, quando não inteiramente falsos. É mais amigo da amplitude fácil e brilhante do que da profundidade.

A inconstância do sanguíneo é fruto da pouca duração de suas impressões. Em um instante passa do riso ao pranto, do gozo delirante a uma negra tristeza. Arrepende-se pronta e verdadeiramente de seus pecados, mas volta a eles na primeira ocasião que se lhe apresenta. Os sanguíneos são vítimas de impressões de momento, sucumbem facilmente à tentação. São inimigos dos sacrifícios, da abnegação e do esforço duro e contínuo. São preguiçosos no estudo. Torna-se-lhes quase impossível refrear a vista, os ouvidos e a língua. Distraem-se facilmente na oração. A épocas de grande fervor sucedem-se outras de languidez e desalento.

A sensualidade encontra terreno abonado na natureza ardente do sanguíneo. Deixa-se arrastar facilmente pelos prazeres sensuais da gula e da luxúria. Raciocina prontamente contra suas quedas e as deplora com sinceridade. Mas faltam-lhe energia e coragem para dominar a paixão quando torna a levantar a cabeça.

Santo Agostinho, outro sanguíneo, retratado por Philippe de Champaigne.

Educação do sanguíneo. — A educação e canalização de qualquer temperamento deve consistir em fomentar suas boas qualidades e em reprimir os defeitos. Por isso, o sanguíneo deverá procurar canalizar a sua exuberante vida afetiva por um meio nobre e elevado. Se conseguir amar fortemente a Deus, chegará a ser um santo de primeira categoria. Sanguíneos cem por cento foram o Apóstolo São Pedro, Santo Agostinho, Santa Teresa e São Francisco Xavier.

Mas é preciso que lute tenazmente contra seus defeitos, até tê-los vencido totalmente. Há de combater sua superficialidade, adquirindo o hábito da reflexão e ponderação em tudo o que fizer. Deve aprender a lidar com os problemas examinando-os por todos os lados, prevendo as dificuldades que poderão surgir, dominando o otimismo demasiado confiante e irreflexivo.

Contra a inconstância, tomará sérias medidas. Não bastarão os propósitos e resoluções, que violará na primeira ocasião que se lhe apresente, apesar de sua sinceridade e boa fé. É preciso pôr sua vontade num plano de vida, convenientemente revisado, aprovado por seu diretor espiritual e no qual esteja tudo previsto e anotado, e que nada se deixe ao arbítrio da sua vontade fraca e caprichosa. Há de praticar seriamente o exame de consciência, aplicando-se fortes penitências pelas transgressões que sejam fruto de sua inconstância e volubilidade. Há de pôr-se em mãos de um experiente diretor espiritual e obedecer-lhe em tudo. Na oração, há de lutar contra sua tendência aos consolos sensíveis, perseverando nela apesar da aridez e secura.

À sensualidade deverá opor-se com uma vigilância constante e uma luta tenaz. Deve fugir como da peste a todas as ocasiões perigosas, nas quais sucumbirá facilmente, ao se aliar sua sensualidade com sua inconstância. Deve ter particular cuidado na guarda da vista, recordando-se das suas dolorosas experiências. Nele, mais do que em ninguém, cumpre-se aquilo de que “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. Deve guardar o recolhimento e praticar a mortificação dos sentidos externos e internos. Deve, enfim, pedir humilde e constantemente a Deus o dom da perfeita pureza de alma e corpo, que só do Céu nos pode vir (Sb 8, 21).

b) Temperamento melancólico. — Características essenciais com relação à excitabilidade: a do melancólico é débil e difícil ao princípio, mas forte e profunda por repetidas impressões. Sua reação apresenta estes mesmos caracteres. Quanto à duração, pode ser larga. O melancólico não esquece facilmente.

Boas qualidades. — Os melancólicos têm uma sensibilidade menos viva do que a dos sanguíneos, mas mais profunda. São naturalmente inclinados à reflexão, à solidão, ao silêncio, à piedade e vida interior. Compadecem-se facilmente das misérias do próximo, são benfeitores da humanidade, sabem levar a abnegação até o heroísmo, sobretudo ao lado dos enfermos.

Sua inteligência pode ser aguda e profunda, maturando suas idéias com a reflexão e a calma. É pensador e gosta do silêncio e da solidão. Pode ser um intelectual seco e egoísta, encerrando-se na sua torre de marfim, ou um contemplativo que se ocupe das coisas de Deus e do espírito. Sente atração pela arte e tem aptidão para as ciências.

Seu coração é de uma grande riqueza sentimental. Quando ama, dificilmente se desprende de suas afeições, porque nele as impressões se arraigam com muita profundidade. Sofre com a frieza ou a ingratidão. A vontade segue a vicissitude de suas forças físicas: débil e quase nula quando o trabalho o tenha esgotado; forte e generosa quando desfruta de saúde ou quando um raio de alegria ilumina seu espírito. É sóbrio e não sente a desordem passional, que tanto atormenta os sanguíneos. É o temperamento oposto ao sanguíneo, como o colérico é oposto ao fleumático.

Foram de temperamento melancólico o Apóstolo São João, São Bernardo, São Luís Gonzaga, Santa Teresinha do Menino Jesus, Pascal.

Santa Teresinha do Menino Jesus tinha um temperamento melancólico.

Más qualidades. — O lado desfavorável deste temperamento é a tendência exageradamente inclinada à tristeza e à melancolia. Quando recebem alguma forte impressão, ela penetra-lhes profundamente a alma e lhes produz uma ferida sangrante. Não possuem o coração na mão como o sanguíneo, mas, sim, muito no fundo, e aí saboreiam a sós sua amargura. Sentem-se inclinados ao pessimismo, ao ver sempre o lado difícil das coisas, ao exagerar as dificuldades. Isto os torna retraídos e tímidos, propensos à desconfiança em suas próprias forças, ao desalento, à indecisão, aos escrúpulos e a certa espécie de misantropia.

São irresolutos por medo de fracassar em suas empresas. O melancólico “nunca sabe acabar”, como dizia Santa Teresa. É o homem das oportunidades perdidas. Enquanto os demais estão do outro lado do rio, ele está pensando e refletindo, sem se atrever a atravessá-lo. Sofrem muito e fazem sofrer aos demais sem querê-lo, porque, no fundo, são bons. Santa Teresa não os julgava aptos à vida religiosa, sobretudo quando a melancolia está arraigada (cf. Fundações, c. 7. Tenha-se em conta que a “melancolia”, sobre a qual havia se pronunciado, refere-se somente ao temperamento melancólico, e não aos extravios de um caráter voluntariamente neurastênico).

Educação do melancólico. — O educador deverá ter muito em conta a forte inclinação do melancólico à concentração sobre si mesmo. Do contrário, expõe-se a não compreendê-lo e a tratá-lo com grande injustiça e falta de tato. O sanguíneo é franco e aberto na confissão; o melancólico, pelo contrário, quer desafogar-se por meio de um colóquio espiritual, mas não pode; o colérico pode expressar-se, mas não quer; o fleumático não pode nem quer fazê-lo. Deve-se ter muito em conta tudo isto, para não intentar procedimentos educativos contraproducentes.

É preciso infundir no melancólico uma grande confiança em Deus e um sereno otimismo da vida. Deve-se inspirar-lhe uma suma confiança em si mesmo, ou seja, na amplitude de sua alma para as grandes empresas. É preciso aproveitar a sua inclinação à reflexão para fazê-lo compreender que não há motivo algum para ser suscetível, desconfiado e retraído. Se for preciso, deve-se submetê-lo a um regime de repouso e sobrealimentação (Santa Teresa curava muitas monjas melancólicas proibindo a longa oração, as vigílias e jejuns e “fazendo-as divertir-se” — cf. Quartas moradas, 3, 12 e 13; Fundações, 6, 14). Acima de tudo, deve-se combater a sua indecisão e covardia, fazendo-o tomar resoluções firmes e lançar-se a grandes empresas com ânimo e otimismo.

c) Temperamento colérico. — Características essenciais com relação à excitabilidade: o colérico se excita pronta e violentamente. Raciocina num instante. Mas a impressão lhe fica na alma por muito tempo.

Boas qualidades. — Atividade, entendimento agudo, vontade forte, concentração, constância, magnanimidade, liberalidade. Eis aí as excelentes prendas deste temperamento riquíssimo.

Os coléricos (ou belicosos) são apaixonados e voluntariosos. Práticos, desembaraçados, são mais inclinados a obrar do que a pensar. O repouso e a inação repugnam à sua natureza. Sempre estão acariciando o seu espírito com um grande projeto. Apenas acabam de conceber um fim, põem mãos à obra, sem desistir por causa das dificuldades. Entre eles abundam os chefes, os conquistadores, os grandes apóstolos. São homens de governo. Não são daqueles que deixam para amanhã o que deveriam fazer hoje; antes, preferem fazer hoje o que deveriam deixar para amanhã. Se surgem obstáculos e inconvenientes, esforçam-se para os superar e vencer. Apesar do seu ímpeto irascível, quando conseguem reprimi-lo pela virtude, alcançam uma suavidade e doçura da melhor cepa. Tais foram São Jerônimo, Santo Inácio de Loyola e São Francisco de Sales.

São Jerônimo, um colérico, pintado por Luca Giordano.

Más qualidades. — A tenacidade do seu caráter os faz propensos à dureza, obstinação, insensibilidade, ira e orgulho. Se lhes opomos resistência ou os contradizemos, tornam-se violentos e cruéis, a menos que a virtude cristã modere as suas inclinações. Vencidos, guardam o ódio no coração até que soe a hora da vingança. Geralmente são ambiciosos e tendem ao mando e à glória. São mais pacientes do que o sanguíneo, mas não conhecem tanto a delicadeza de sentimento, compreendem menos a dor das outras pessoas, têm em suas relações um trato menos fino.

Suas paixões fortes e impetuosas sufocam essas afeições doces e esses sacrifícios desinteressados que brotam espontaneamente de um coração sensível. Sua febre de atividade e seu ardente desejo de conseguir o que se propõem os faz pisotearem violentamente tudo o que os impede, e aparecem ante os demais como uns egoístas sem coração. Tratam os outros com uma altaneria que pode chegar à crueldade. Tudo deve curvar-se diante deles. O único direito que reconhecem é a satisfação dos seus apetites e a realização de seus desígnios.

Educação do colérico. — Tais homens seriam de um preço inestimável se soubessem dominar-se e governar suas energias. Com relativa facilidade chegariam aos mais altos cumes da perfeição cristã. Muitíssimos santos canonizados pela Igreja possuíam este temperamento. Em suas mãos, as obras mais difíceis chegam a feliz termo. Por isso, quando conseguem processar suas energias, são tenazes e perseverantes nos caminhos do bem e não cessam em seus empenhos até alcançar os píncaros mais elevados.

Deve-se aconselhá-los a que sejam donos de si mesmos, que não atuem precipitadamente, que desconfiem de seus primeiros movimentos. Deve-se levá-los à verdadeira humildade de coração, a se compadecerem dos fracos, a não humilhar nem atropelar a ninguém, a não deixarem sentir sua violência, sua própria superioridade, a tratarem a todos com suavidade e doçura.

d) Temperamento fleumático. — Características essenciais com relação à excitabilidade: o fleumático não se excita nunca, ou o faz tão só debilmente. A reação é também débil, quando não chega a faltar por completo. As impressões recebidas desaparecem logo e não deixam vestígios em sua alma.

Boas qualidades. — O fleumático trabalha devagar, mas assiduamente, contanto que não se exija dele um esforço intelectual demasiadamente grande. Não se irrita facilmente por insultos, fracassos ou enfermidades. Permanece tranqüilo, sossegado, discreto e criterioso. É sóbrio e tem um bom sentido prático da vida. Não conhece as paixões vivas do sanguíneo, nem as profundas do nervoso, nem as ardentes do colérico. Dir-se-ia que carece por completo de paixões. Sua linguagem é clara, ordenada, justa, positiva; mais do que brilho, tem energia e atrativo.

O trabalho científico, fruto de uma larga paciência e de investigações conscienciosas, lhe convém melhor do que grandes produções originais. O coração é bom, mas parece frio. Falta-lhe entusiasmo e espontaneidade, porque sua natureza é indolente e reservada. É prudente, sensato, reflexivo, obra com segurança, chega aos fins sem violência, porque afasta os obstáculos em lugar de os romper. Às vezes a sua inteligência é muito clara. Fisicamente, o fleumático é de rosto amável, de corpo robusto, de andar lento e vagaroso. Santo Tomás de Aquino possuiu os melhores elementos deste temperamento, levando a cabo um trabalho colossal com serenidade e calma imperturbáveis.

O grande Doutor Angélico possuía os melhores elementos de um fleumático.

Más qualidades. — Sua calma e lentidão lhe fazem perder boas ocasiões, porque tarda muitíssimo em pôr-se em ação. Não se interessa nada pelo que se passa fora de si. Vive para si mesmo, em uma espécie de concentração egoísta. Não vale para o mando e o governo. Não é afeiçoado a penitências e mortificações; se é religioso, não abusará dos cilícios. É deles que Santa Teresa descreve com tanta graça: “As penitências que fazem estas almas são coerentes com sua própria vida. Não tenhais medo de que se matem, porque sua razão está muito em si” (Santa Teresa, Terceiras moradas, 2, 7). Em casos mais agudos, convertem-se em homens átonos, mortiços e vagos, completamente insensíveis às vozes de ordem que poderiam tirá-los da sua inércia.

Educação do fleumático. — Pode-se tirar muito partido do fleumático, se lhe forem incutidas convicções profundas e lhe forem exigidos esforços metódicos e constantes em ordem à perfeição. Lentamente chegará muito longe. Deve-se sacudi-lo de sua inércia e indolência, empurrando-o às alturas, acender em seu coração apático a labareda de um grande ideal. Deve-se estimulá-lo ao pleno domínio de si mesmo, excitando-o e pondo em uso suas forças adormecidas; não como ao colérico, que deve obtê-lo contendo-se e moderando-se.

Conclusão geral sobre os temperamentos. — Repetimos o que dissemos mais acima: nenhum destes temperamentos existe em estado “quimicamente puro”. O leitor que tenha percorrido estas páginas poderá não ter encontrado em nenhuma delas os traços completos de sua particular fisionomia. A realidade é mais complexa do que todas as categorias especulativas. Com freqüência encontramos na prática, reunidos em um só indivíduo, elementos pertencentes aos temperamentos mais díspares. Isso explica, em boa parte, a diversidade de teorias e classificações entre os autores que se preocupam com estas coisas.

Contudo, é indubitável que em cada indivíduo predominam certos traços temperamentais que permitem catalogá-lo, com as devidas reservas e precauções, em algum dos quadros tradicionais. Por outro lado, sem negar a grande influência do temperamento fisiológico sobre o conjunto da psicologia humana, dadas as íntimas relações e interdependências entre a alma e o corpo, não devemos conceder-lhe uma importância exageradasobretudo no que diz respeito à moralidade de nossos atos —, à maneira de certos racionalistas, que atribuem ao temperamento nativo a responsabilidade única de nossas desordens.

O temperamento ideal. — Se quisermos estabelecer, em sintética visão de conjunto, as características do temperamento ideal, tomaríamos algo de cada um dos que acabamos de descrever. Ao sanguíneo pediríamos sua simpatia, seu grande coração e sua vivacidade; ao melancólico, a profundidade e a delicadeza de sentimentos; ao colérico, sua atividade inesgotável e sua tenacidade; ao fleumático, o domínio de si mesmo, a prudência e a perseverança.

Conseguir pelo esforço sistemático e inteligente este ideal humano, que a natureza não pode conceder a quase ninguém, conduz à difícil empresa do aperfeiçoamento e melhora do próprio temperamento, juntamente com o rude trabalho da formação do caráter.

Referências

  • Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. 2.ª ed., Madrid: BAC, 2015, pp. 784-790. A tradução portuguesa foi retirada do site S.O.S. Família e levemente adaptada para esta publicação.

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Isto não é misericórdia!
Igreja Católica

Isto não é misericórdia!

Isto não é misericórdia!

Infelizmente prevalece hoje, na cultura assim como na Igreja, uma falsa ideia de misericórdia, segundo a qual os pecados dos outros não devem ser corrigidos. O verdadeiro “pecado” seria “ofender” as pessoas com a verdade do Evangelho.

Gina SowerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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“Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei. Qual desses três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?” Respondeu o doutor: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então, Jesus lhe disse: “Vai, e faze tu o mesmo” (Lc 10, 30-37).

Ao final desta parábola, Jesus nos diz que, se quisermos ser como o bom samaritano, devemos tratar as pessoas com misericórdia. Contudo, prevalece não apenas em nossa cultura, mas também na Igreja uma falsa ideia de misericórdia

Ouvimos falar com frequência em misericórdia, quase com a mesma frequência com que ouvimos falar em amor. Não me entenda mal. Como católica, aceito plenamente o amor e a misericórdia. São palavras que deveriam definir qualquer um que se considere católico. O problema está na incapacidade de definir o verdadeiro significado dessas palavras e como elas deveriam ser implementadas em nossas vidas. Infelizmente, para muitas pessoas, misericórdia significa aceitar o comportamento pecaminoso do outro e considerar que o verdadeiro “pecado” é “ofendê-lo” com a verdade do Evangelho.

As ações do bom samaritano foram misericordiosas justamente porque ele viu as feridas do outro e não lhes fez vista grossa. A verdadeira misericórdia não significa ignorar as necessidades do próximo, mas oferecer um remédio para sua doença, a exemplo do bom samaritano. A misericórdia, assim como o amor, é orientada para o bem verdadeiro do outro, particularmente para o bem de sua alma. Não tem nada a ver com aceitar o estilo de vida de outra pessoa, se ele estiver na contramão de sua salvação.

A maioria de nós não vê problema em agir com misericórdia quando lidamos com necessidades físicas. Por exemplo, ninguém tem medo de alimentar os pobres ou de vestir os nus. As obras corporais de misericórdia são, em sua maioria, bem vistas na nossa cultura. São as obras espirituais de misericórdia (por exemplo, advertir os pecadores) que se consideram intolerantes ou mesmo odiosas. Nossa cultura vê a misericórdia como uma aceitação do pecado, embora a verdadeira misericórdia liberte as pessoas da escravidão do pecado e da morte. A misericórdia está em enxergar a alma ferida e lhe oferecer um remédio verdadeiro.  

É um fato triste, mas a distorção da misericórdia infiltrou-se na Igreja. Em vez de influenciar a cultura, é a cultura que tem influenciado a Igreja. Se quisermos contornar a situação e ver as verdades de nossa fé influenciarem a cultura, então teremos de começar mostrando a verdadeira misericórdia, particularmente aos que não tiveram a sorte de ouvir falar dela.

Há algum tempo, levei a uma palestra sobre pureza uma adolescente rebelde com quem tenho parentesco. Fiquei hesitante em convidá-la por causa de todas as razões normais, como o medo da rejeição e a preocupação com o que ela e outros membros da família poderiam pensar. Finalmente, tomei coragem para convidá-la e, para minha surpresa, ela foi. Jamais esquecerei como ela me olhou depois da palestra e disse: “Como gostaria de ter aprendido isso antes”. Por um lado, fiquei empolgada porque se lhe abriram os olhos: as mentiras foram destruídas por palavras de misericórdia e de verdade. Ao mesmo tempo, porém, fiquei desolada por ela ter levado tanto tempo para ouvir aquilo. 

É triste o fato de muitos católicos serem como minha parente. Também lhes venderam as mentiras de nossa cultura. Fico desconcertada com o fato não se dizer nada nas paróquias para ajudar a maioria dos leigos, que sucumbiram aos ideais do mundo e se encontram em estado de pecado mortal. Por exemplo, a maioria dos católicos hoje usa contraceptivos, vive na fornicação e muitos já abriram mão de questões como sodomia e aborto, considerando-as perfeitamente aceitáveis — sem falar que quase 75% deles não creem na presença real de Cristo na Eucaristia.

O sacerdote ou o bispo que ignora as almas feridas da maioria de seu rebanho pode ser comparado ao sacerdote da parábola do bom samaritano, que viu o homem sangrando e largado para morrer, mas ainda assim escolheu ignorá-lo. Pensemos em quantas almas poderiam ser convertidas se bispos, sacerdotes e leigos parassem de ficar com medo e tivessem a coragem de agir com metade da franqueza de nossos oponentes. Porém, não somos corajosos porque tememos a possibilidade de as pessoas não gostarem de nós; temos medo de ofender e afastar da fé os católicos de nome.

Recentemente, eu e meu marido tivemos de lutar contra todos esses temores quando fomos convidados para participar do “casamento” de um parente que estava tentando se casar com uma pessoa divorciada duas vezes.

Amamos muito as duas pessoas, mas não poderíamos confirmar a participação na cerimônia sem saber se matrimônios ou tentativas de matrimônio anteriores haviam sido declarados nulos. Minha maior preocupação não era tanto com o que outras pessoas pensariam de nós, mas com a possibilidade de seu recente interesse pelo catolicismo desaparecer por não participarmos da cerimônia. Antes do evento, meu marido e eu explicamos a eles nossa preocupação e o que a Igreja ensina sobre um relacionamento como o deles. A conversa foi boa, mas ainda assim eu fiquei preocupada com a possibilidade de nos tornarmos a causa da perda de seu interesse pelo catolicismo. 

Pouco depois de nossa decisão de não ir à cerimônia, deparei com a história do jovem rico em Mc 10, 17-31. Depois de refletir sobre a passagem, percebi que, embora houvesse a possibilidade de aquele casal perder o interesse pela Igreja, perante Deus ainda tínhamos o dever de ser honestos com eles quanto à doutrina da Igreja e à razão pela qual não poderíamos participar da cerimônia. Vejamos cuidadosamente a resposta de Jesus depois de o jovem rico lhe perguntar o que devemos fazer para nos salvar e como o jovem reagiu:   

Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe: “Uma só coisa te falta; vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. Ele entristeceu-se com essas palavras e foi-se todo abatido, porque possuía muitos bens (Mc 10, 21-22).

Reparemos no seguinte. Antes de Jesus dizer a verdade ao homem, a passagem diz: “Jesus fixou nele o olhar, amou-o e disse-lhe…”. Vemos que foi o amor que levou Jesus a dizer a esse jovem algo que ele não queria ouvir. O fato de que o jovem tinha a liberdade de ir embora não impediu Jesus de lhe contar a dura verdade sobre sua situação espiritual. Jesus sabia que o jovem amava sua riqueza mais do que a Ele, e que seu amor ao dinheiro era um obstáculo à sua salvação. Como podemos ver no versículo seguinte, o jovem não aceita o convite de Jesus e prefere o amor ao dinheiro ao amor a Deus. Se quisermos agir com verdadeira misericórdia, temos de fazer como Jesus, amor e misericórdia encarnados: oferecer a cura, mesmo que ela possa ser rejeitada.  

No final da parábola do bom samaritano, Jesus nos instrui a ir e oferecer o mesmo tipo de misericórdia que o bom samaritano ofereceu ao próximo. Nem sempre é fácil agir com misericórdia ou ser tratado com misericórdia, porque ela trará as marcas de Cristo crucificado. Jesus não ressuscitou dos mortos sem antes ter sido crucificado e morto. A misericórdia de Deus está em Ele ir nos purificando a fim de nos tornarmos semelhantes a Ele, e isso não acontecerá se não seguirmos seus passos. Nós também devemos morrer para que Ele possa viver e reinar em nossas almas. Este é o maior dos gestos de misericórdia, e é a mesma misericórdia que devemos ter com o nosso próximo. Caso contrário, não será misericórdia.  

A santa Igreja Católica é, de fato, a maior estalajadeira de toda a história, pois ela transmite a plenitude da verdade e, por meio de seus sacramentos (que comunicam a verdadeira misericórdia), fornece óleo e vinho para limpar, atar e curar as almas feridas. Paremos de ocultar o significado da misericórdia e comecemos a partilhá-lo com quem está fora da Igreja. Sejamos realistas sobre quem Jesus é e a misericórdia que Ele deseja nos dar

“Qual desses três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos ladrões?” Respondeu o doutor: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então, Jesus lhe disse: “Vai, e faze tu o mesmo” (Lc 10, 37).

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Cem anos atrás, a Rússia comunista legalizava o aborto
Pró-Vida

Cem anos atrás,
a Rússia comunista legalizava o aborto

Cem anos atrás, a Rússia comunista legalizava o aborto

18 de novembro de 1920: há um século, o aborto era legalizado na Rússia soviética — episódio marcante e com consequências terríveis, para todo o mundo. Os socialistas bolcheviques liberaram a prática assim que tomaram o poder.

Paul KengorTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere25 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Há cem anos, no dia 18 de novembro de 1920, o regime bolchevique na Rússia soviética legalizava o aborto — episódio marcante de um dia de infâmia, com consequências terríveis, para a Rússia e para o mundo [1].

A prática foi legalizada pelos bolcheviques logo depois de eles tomarem o poder. Sua revolução começou em São Petersburgo, em outubro de 1917, seguida imediatamente de uma brutal guerra civil entre 1918 e 1921, que, segundo o historiador W. Bruce Lincoln, ceifou a vida de 7 milhões de homens, mulheres e crianças russas. Mas isso não foi nada comparado com as mortes de nascituros que começaram a ocorrer quando os bolcheviques legalizaram o aborto em novembro de 1920.

Curiosamente, no regime bolchevique os russos não eram livres para ter uma fazenda, uma fábrica, uma empresa, uma conta bancária, nem para ir à igreja. Os comunistas tomaram os casacos de pele e as contas bancárias das mulheres russas. Os bebês já não podiam ser batizados. E mesmo assim o céu era o limite quando se tratava de realizar um aborto (ou de divorciar-se). Havia plena liberdade nessa área tão particular.  

Em novembro de 1920, após subverter a nação e matar (literalmente esquartejar) toda a família Romanov em julho de 1918, os bolcheviques honraram a promessa feita por Vladimir Lênin em junho de 1913 (publicada no Pravda) de “anular incondicionalmente todas as leis contrárias ao aborto”. Como suas crias progressistas viriam a fazer mais tarde no Ocidente, os soviéticos publicaram seu decreto usando como pretexto a “saúde das mulheres”. O decreto de Lênin foi intitulado: “Sobre a Proteção da Saúde das Mulheres”. O aborto tornou-se plenamente disponível e gratuito para as russas. 

Como geralmente acontece quando um certo vício é legalizado, a sociedade passou a ver mais dele — e, então, ainda mais. O número de abortos disparou. Surpreendentemente, por volta de 1934 as mulheres de Moscou realizavam três abortos para cada bebê nascido vivo — números chocantes que as mulheres norte-americanas nunca alcançaram, mesmo depois de Roe vs. Wade [n.d.t.: a decisão judicial de 1973 que legalizou o aborto nos Estados Unidos]. 

A situação fugiu tanto do controle, que até a eugenista Margaret Sanger ficou surpresa. Como muitos peregrinos políticos e progressistas simpáticos ao regime soviético daquela época, a matrona da Planned Parenthood peregrinou até a URSS na década de 1930 para aprender com o “grande experimento” soviético — como disse John Dewey, o “pai moderno da educação experimental”. Alguns dos admiradores eram George Bernard Shaw, colega de Sanger, e H. G. Wells, namorado dela (um dos muitos que ela teve, mesmo sendo casada). Sanger foi até a URSS no verão de 1934. Ela fora seduzida pelos avanços de Lênin e Stálin no campo do controle de natalidade e falou sobre eles com entusiasmo na edição de junho de 1955 de seu jornal, Birth Control Review, num artigo chamado Birth Control in Russia [“Controle de Natalidade na Rússia”]. 

Vladimir Lênin.

“Teoricamente, não há na Rússia obstáculos para o controle de natalidade”, escreveu Sanger maravilhada. “Ele é aceito […] por razões de saúde e por ser considerado um direito humano”. Mostrando estar muito à frente de seu tempo, ela disse o seguinte sobre os Estados Unidos: “Poderíamos muito bem seguir o exemplo da Rússia, onde não há restrições legais e nenhuma condenação religiosa, e onde a instrução sobre o controle de natalidade é parte das políticas de bem-estar regulares do governo”. 

Levou algum tempo até que os progressistas americanos alcançassem as políticas de Stálin sobre controle de natalidade, mas eles já chegaram lá.

Curiosamente, no entanto, embora Sanger tivesse uma visão muito positiva do controle populacional na Rússia, ela ficou horrorizada com a repentina proliferação do aborto, que pareceu ter piorado tão rápido a ponto de os planejadores centrais bolcheviques não saberem quantos abortos estavam sendo realizados. “O número total é desconhecido”, relatou ela, “mas só em Moscou o número é estimado em cerca de 100.000 por ano”.

Joseph Stálin tinha uma estimativa. Na verdade, a proliferação de casos o preocupava. Em 1936, a taxa de abortos era tão espantosa, que um horrorizado Stálin (que não era exatamente um grande humanista) tentou controlar a situação. Ele proibiu o aborto naquele ano, havendo ponderado seriamente que, se aquela loucura continuasse, a Rússia não teria futuro. 

Para ficar claro: nem todos os companheiros de Stálin concordavam com ele. Seu antigo aliado, León Trótski, então em exílio forçado, protestou com veemência. Em seu livro A Revolução Traída, Trótski insistiu na ideia de que “o poder revolucionário havia dado às mulheres o direito ao aborto” como “um de seus mais importantes direitos civis, políticos e culturais”. Isso estava implícito na visão de Trótski a respeito da “nova família”. Para realizá-la, disse ele, “a antiga família continua a se dissolver de forma muito mais rápida”. Não há nada melhor do que o aborto para ajudar nessa dissolução

“Não é possível abolir a família”, ensinava Trótski. “É necessário substituí-la.”

Trótski estava aperfeiçoando Marx e Engels, que declararam no Manifesto Comunista: “Abolição da família! Mesmo os mais radicais se exaltam com essa infame proposta dos comunistas”.

Como o processo dessa abolição não estivesse avançando na velocidade devida — ao contrário do que aconteceu à propriedade privada, ao capital e a “toda a moralidade” (nas palavras de Marx e Engels —, os bolcheviques estavam dispostos a dar um empurrão

Por fim, prevaleceu entre os comunistas o ponto de vista de Trótski, o qual literalmente durou mais que Stálin, que se encontrou com o Ceifador em 5 de março de 1953. Após a morte de Stálin, o aborto foi rapidamente legalizado outra vez. Nikita Khrushchev, mais progressista, pôs as coisas em ordem de novo em 1955, revertendo a proibição do aborto determinada por Stálin, permitindo assim que as taxas de aborto chegassem a um patamar jamais visto na história humana. O professor H. Kent Geiger, uma fonte confiável do fim da década de 1960, relatou o seguinte numa obra publicada pela Harvard University Press: “É possível encontrar mulheres soviéticas que fizeram vinte abortos”.

Na década de 1970, segundo estatísticas oficiais do Ministério da Saúde Soviético, era feita na URSS uma média de 7 a 8 milhões de abortos por ano, aniquilando futuras gerações inteiras de crianças russas. Foi só há pouco tempo, no governo de Vladimir Putin, que enfrentou a projeção de decréscimo populacional de 140 milhões de russos no ano 2000 para 104 milhões em 2050 (segundo projeções da Organização Mundial da Saúde), que a Rússia pôs restrições ao aborto e criou políticas para incentivar a fertilidade.

Pensemos nestes números: 7 ou 8 milhões de aborto por ano! Muitas vezes enfatizamos, perplexos, o número de russos mortos na I Guerra Mundial (mais do que qualquer outra nação), na II Guerra (ao menos 20 milhões; outra vez, mais do que qualquer outra nação), ou que foram mortos por seus próprio governo por meio dos expurgos, da fome e dos gulags. O número total de cidadãos soviéticos mortos por causa do comunismo varia entre 20 milhões (segundo o Livro Negro do Comunismo) e 60 ou 70 milhões “aniquilados somente por Stálin” (segundo Alexander Yakovlev).

Mesmo assim, o número total de vítimas do aborto soviético é campeão. Estamos falando de aproximadamente 70 ou 80 milhões de abortos na URSS apenas na década de 1970

Agora entendemos por que Nossa Senhora de Fátima voltou seus olhos para a Rússia bolchevique com preocupação e dor maternais. Trata-se de uma tragédia difícil até mesmo de ser compreendida.  

Naturalmente, essa compulsão pelo aborto legal não era de modo algum uma simples aberração no regime bolchevique. Os comunistas geralmente defendiam o aborto com agressividade. Muito antes de os esquerdistas americanos pró-aborto promoverem slogans como: “Isso é meu corpo” (algo assustador, pois é uma inversão exata das palavras sacrificiais de Jesus Cristo), “Meu corpo, minha escolha”, ou “Mantenha suas mãos longe do meu corpo”, na década de 1920, as mulheres comunistas na Alemanha encorajavam o aborto por meio do slogan: “Seu corpo pertence a você”. Os comunistas estavam décadas à frente dos progressistas americanos em muitas áreas (inclusive na promoção de mudanças radicais na sexualidade), mas estes finalmente terminaram alcançando aqueles.

Até hoje os países com as mais elevadas taxas de aborto ainda são comunistas ou deixaram de sê-lo só recentemente: Rússia, Cuba, Romênia, Vietnã, China. É claro que nenhum país superou a perversidade da China contra os nascituros. Muitos dos abortos feitos na China (senão a maioria) foram forçados pela política do filho único, implantada pelo governo há mais de 40 anos. Tratou-se de um dos maiores ataques à vida familiar já realizados por um governo. É difícil calcular a taxa de mortalidade dessa política, e mais ainda assimilá-la mental e politicamente.  

Em consonância com a filosofia comunista, tais políticas pró-aborto foram apresentadas como uma “emancipação” das mulheres. Um dos acontecimentos mais horríveis que acompanho e sobre o qual escrevo é a falsa alegação de que o comunismo fez bem às mulheres, promovida pela esquerda nas universidades. É algo tão perverso, que incluí em meu livro O guia politicamente incorreto do comunismo um capítulo sobre o tema. Recebo com regularidade mensagens de jovens angustiados dizendo que algum professor (ou o New York Times) lhes disse que o comunismo é uma libertação fantástica para as mulheres. 

Percebi isso pela primeira vez cerca de vinte anos atrás, quando analisava uma pesquisa sobre textos cívicos de alunos do Ensino Médio. Revisei dezenas de textos usados por distritos escolares em todo o país. Aqueles textos não apresentavam nenhuma condenação ao que o comunismo fazia com as mulheres; ao contrário, elogiavam-no como algo positivo para elas. Eu poderia dar muitos exemplos, mas o primeiro — e muito característico — que me chamou a atenção foi um texto popular intitulado simplesmente The World’s History. Em determinado trecho, na página 618, os autores (acadêmicos de nossas universidades) afirmaram o seguinte ao falar da vida no regime comunista: “Em termos legais, a situação das mulheres russas era melhor que a das mulheres do restante do mundo.”     

Quê? Isso foi na década de 1920, durante os regimes de Lênin e Stálin. Quais foram os “fabulosos direitos” adquiridos pelas mulheres russas?

Chocado com essa afirmação absurda, deparei com a explicação na frase seguinte: as mulheres russas, diziam os autores, tinham acesso ao aborto. Entre os grandes avanços feitos em prol das mulheres soviéticas, estavam os “métodos eficazes de controle de natalidade”, que, anunciava o livro didático para estudantes do Ensino Médio, “se tornaram tão comuns que foram banidos por um tempo em 1936 [isto é, o aborto]”. As mulheres russas tinham acesso ao aborto e, portanto, “em termos legais […] estavam numa situação muito melhor que a das mulheres no restante do mundo”.

Afinal, de que outro direito as mulheres precisariam, não é mesmo?… 

Ironias à parte, a realidade é que não há nada que celebrar. O centenário da legalização do aborto pela Rússia bolchevique é algo para ser lembrado com seriedade. Deveríamos rezar não somente por essa terrível perda para a humanidade, mas para que as nações de hoje parem de seguir esse mesmo caminho mortal de destruição humana.

Notas

  1. Tomamos a liberdade de adaptar, em favor da fluidez, os três primeiros parágrafos do texto original. Destaque-se, porém, a menção honrosa feita pelo autor às instituições que recordaram esse triste centenário do aborto na Rússia: a organização Rachel’s Vineyard, a comunidade religiosa Sisters in Jesus the Lord e o Ruth Institute (Nota da Equipe CNP).

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A coisa mais cruel que Jesus já disse
Doutrina

A coisa mais cruel que Jesus já disse

A coisa mais cruel que Jesus já disse

“Quanto a esses inimigos, trazei-os aqui e matai-os na minha frente”: o final da parábola das minas tem um final tão chocante que, quando o li na Missa alguns anos atrás, uma criança disse em voz alta para a mãe: “Uau, isso é maldade!”

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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O Evangelho da Missa de quarta-feira da última semana (a 33.ª do Tempo Comum) é conhecido como a parábola das minas (cf. Lc 19, 11-27). Ele tem um final tão chocante que, quando o li na Missa alguns anos atrás, uma criança disse em voz alta para a mãe: “Uau, isso é maldade!”

Eu gostaria de olhar para o Evangelho e refletir sobre esse final chocante. A parábola é como a dos talentos, de Mateus, mas com algumas diferenças significativas. Na de Lucas, dez pessoas recebem uma moeda de ouro cada uma. Ouvimos apenas o relato de três deles (como em Mateus): dois que dão lucro e um que não o dá.

Outra diferença é o entrelaçamento de outra parábola (vamos chamá-la de “parábola do rei rejeitado”) dentro da mesma história. Aqui está uma versão abreviada, incluindo o final chocante:

Um homem nobre partiu para um país distante, a fim de ser coroado rei e depois voltar… Seus concidadãos, porém, o odiavam, e enviaram uma embaixada atrás dele, dizendo: “Nós não queremos que esse homem reine sobre nós”... Mas o homem foi coroado rei e, quando voltou..., [disse]: “E quanto a esses inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente” (Lc 19, 12.14.15a.27).

Ao analisar um texto como este, devo dizer que fiquei desapontado com o silêncio que a maioria dos comentários guarda a respeito desse final. A frase chocante: “matai-os na minha frente” (“massacrai-os na minha presença”, na tradução da Ave-Maria) passa quase despercebida.

Os Padres da Igreja parecem falar pouco sobre isso. Consegui, no entanto, encontrar duas referências na Catena Aurea, de S. Tomás de Aquino. Sobre este versículo, S. Agostinho ressalta a impiedade dos judeus, que se recusaram a se converter a Jesus. Teófilo escreveu: “A esses, ele os entregará à morte, lançando-os no fogo exterior; mas, neste mundo, eles foram mortos de modo lastimável pelo exército romano”.

Consequentemente, ambos os Padres consideram o versículo ao pé da letra, declarando-o historicamente cumprido na destruição de Jerusalém, em 70 d.C. Flávio Josefo relatou em sua obra que 1,2 milhão de judeus foram mortos naquela guerra terrível.

Cumprido historicamente ou não, o tom triunfal e vingativo de Jesus ainda me intriga. Se este versículo se refere à destruição de 70 d.C., como explicar o tom de Jesus aqui, sendo que apenas alguns versículos mais tarde Ele irá chorar por Jerusalém (cf. Lc 19, 41)?

Quando Jesus se aproximou de Jerusalém e viu a cidade, ele chorou e disse:

Se tu também compreendesses hoje o que te pode trazer a paz! Agora, porém, isso está escondido aos teus olhos! Dias virão em que os inimigos farão trincheiras contra ti e te cercarão de todos os lados. Eles esmagarão a ti e a teus filhos. E não deixarão em ti pedra sobre pedra. Porque tu não reconheceste o tempo em que foste visitada (Lc 19, 41-44).

De fato, uma variedade de emoções pode abater até mesmo Jesus, Deus feito homem [1]; deixe-me, porém, sugerir algumas considerações contextuais e culturais relacionadas com as palavras surpreendentes e “maldosas” de Jesus: “Quanto a esses inimigos, que não queriam que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha frente” (Lc 19, 27).

“Jesus purificando o Templo”, de Carl Bloch.

1. Jesus estava falando na tradição profética. — Os profetas frequentemente falavam dessa forma, usando imagens e caracterizações surpreendentes e, muitas vezes, mordazes. Embora muitos hoje tentem “amordaçar” Jesus, o verdadeiro Jesus falou com vivacidade, na tradição profética. Ele costumava usar imagens chocantes e paradoxais. Falava sem rodeios, como faziam os profetas, chamando seus interlocutores hostis de hipócritas, víboras, filhos do diabo, sepulcros caiados, maus, tolos, guias cegos e filhos daqueles que assassinaram os profetas. Ele os advertiu de que seriam condenados ao inferno, a menos que se arrependessem, e os expôs por sua contradição e dureza de coração. É assim que os profetas falavam.

Ao falar dessa maneira “rude”, Jesus seguia firmemente a tradição dos profetas, que falavam de maneira semelhante. Assim, para compreender as palavras duras de Jesus, não podemos ignorar o contexto profético. Suas palavras, que nos parecem iradas e até vingativas, eram esperadas na tradição profética na qual Ele falou; elas foram intencionalmente chocantes. Seu objetivo era provocar uma resposta.

Os profetas usaram hipérboles e palavras chocantes para transmitir e sublinhar seu chamado ao arrependimento. E embora não devamos descartar as palavras de Jesus como “exageradas”, não devemos deixar de vê-las no contexto tradicional do discurso profético.

Portanto, as palavras de Jesus não eram sinal de vingança em seu coração, mas antes uma profecia dirigida àqueles que se recusavam a se arrepender: “Morrereis no vosso pecado” (Jo 8, 21.24). Na verdade, a recusa deles em se reconciliar com Deus e seus vizinhos (neste caso, os romanos) levou a uma guerra terrível na qual foram mortos.

2. A cultura e a linguagem judaicas costumavam ser hiperbólicas. — Mesmo fora da tradição profética, os antigos judeus costumavam usar a linguagem do “tudo ou nada”. Embora eu não seja um estudioso do hebraico, aprendi que a língua hebraica contém muito menos palavras comparativas (por exemplo, “mais”, “menos”, “maior”, “menor” etc.) do que as línguas modernas. Se perguntassem a um judeu antigo se ele gostava mais de chocolate ou sorvete de baunilha, ele responderia: “Gosto de chocolate e odeio baunilha”. Com isso, o que ele realmente quis dizer foi: “Gosto mais de chocolate que de baunilha”. Quando Jesus disse em outro lugar que devemos amá-lo e odiar nossos pais, cônjuge e filhos (cf. Lc 14, 26), Ele não quis dizer que devamos odiá-los em sentido forte. Era uma maneira judaica de dizer que devemos amá-lo mais do que a eles.

Esse pano de fundo explica a antiga tendência judaica de usar hipérboles. Não é que eles não compreendessem as nuances; eles apenas não falavam dessa maneira, permitindo que o contexto explicitasse que “ódio” não significava ódio em sentido literal.

Essa contextualização linguística ajuda a entender como os elementos mais extremistas da linguagem profética tomam forma.

Devemos ter cuidado, entretanto, para não descartar as coisas como se fossem simples hipérboles. Nós, modernos, podemos adorar que nosso idioma permita maiores nuances; mas, às vezes, temos tantas nuances em nossa fala, que acabamos dizendo menos do que o devido. Há momentos em que é preciso dizer sim ou não; em que é preciso estar com Deus ou contra Ele. No final (mesmo que haja o Purgatório), só se pode ir para o Céu ou para o Inferno.

A antiga maneira judaica de falar, um pouco ao modo do “tudo ou nada”, não era primitiva em si. Era uma forma diferente e honesta de insistir que é preciso decidir estar contra Deus ou ao seu lado, é preciso decidir-se pelo que é certo e justo.

Portanto, embora as palavras de Jesus sejam duras, elas tocam num ponto importante: porque ou escolhemos a Deus e vivemos, ou escolhemos o pecado e morremos espiritualmente. “Porque o salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6, 23).

3. Jesus estava falando a pecadores endurecidos. — Os ouvintes aqui também são importantes. Ao se aproximar de Jerusalém, Jesus entrava em território hostil. Os pecadores e incrédulos que Ele encontrou eram muito rígidos e tinham endurecido seus corações contra Ele. As palavras de Jesus, portanto, devem ser entendidas como um forte remédio.

Pode-se imaginar um médico dizer a um paciente teimoso: “Se você não mudar de hábitos, morrerá em breve e eu o verei no seu funeral”. Embora alguns possam considerar isso uma atitude inadequada para com um doente, há pacientes para os quais essa linguagem é apropriada e necessária.

Jesus falou sem rodeios porque estava lidando com pecadores empedernidos. Eles estavam indo para a morte e o Inferno, e Ele disse isso abertamente.

Talvez nós, que vivemos nestes tempos “delicados”, que nos ofendemos tão facilmente e temos tanto medo de ofender, possamos aprender algo com essa abordagem. Há quem precise ouvir de padres, pais e outros: “Se você não mudar de caminho, não vejo como você possa evitar sua condenação ao Inferno”.

4. Um pensamento final (uma teoria, na verdade) sustentado por alguns. — De acordo com uma teoria, Jesus estava se referindo a um incidente histórico real, do qual se serviu para desiludir os ouvintes de suas vãs expectativas por um novo rei. Após a morte de Herodes, o Grande, seu filho Arquelau foi a Roma para solicitar o título de rei. Um grupo de judeus também compareceu perante César Augusto, opondo-se ao pedido de Arquelau. Embora não tenha recebido o título, Arquelau foi nomeado governante da Judeia e da Samaria; mais tarde, ele mandou matar os judeus que se opuseram a ele.

Os reis frequentemente são tiranos. — Como os judeus pensavam que o Messias (quando viesse) seria um rei, alguns esperavam que Jesus estivesse viajando para Jerusalém a fim de assumir o papel de monarca terreno. Segundo essa teoria, como o povo ansiava por um rei, Jesus usou essa parábola assustadora como um lembrete de que os reis terrenos geralmente são tiranos. Jesus, portanto, os estava tentando desiludir da ideia de que Ele ou qualquer outra pessoa deveria ser seu rei terreno.

Embora essa teoria seja aceitável, especialmente quanto aos precedentes históricos, parece improvável que o texto do Evangelho aponte para um evento historicamente tão localizado. Jesus não estava apenas falando às pessoas daquela época e lugar; Ele também está falando conosco. Mesmo que esse trecho se enquadre em um contexto histórico parcial, o significado precisa ser estendido para além de um incidente antigo.

Portanto, Jesus está sendo mau aqui? Não. Ele está sendo direto e dolorosamente claro? Sim. E, francamente, muitos de nós precisamos disso. Nestes tempos difíceis, podemos nos irritar com esse tipo de conversa, mas esse problema é nosso. A honestidade e um diagnóstico claro são muito mais importantes do que nossos “preciosos” sentimentos.

Notas

  1. A rigor, a tristeza vivida por Cristo foi o que alguns teólogos (entre eles, S. Tomás de Aquino) costumam chamar de “pro-paixão”, um movimento inicial do apetite concupiscível que não o extrapola, mas se mantém sob o controle da racionalidade. Quanto à paixão da ira, é certo que Cristo a experimentou de fato, não como apetite desordenado de vingança, mas como desejo de impor ao culpado o castigo devido; trata-se de uma ira justa e louvável, que Cristo mantinha perfeitamente subordinada à reta razão. O “abatimento” de que fala o autor do artigo deve entender-se em referência à intensidade dessas paixões (Cristo chorou de tristeza; por ira, disse palavras duras e justíssimas etc.), mas não em referência ao descontrole e insubordinação à razão que, em nós, elas costumam provocar (Nota da Equipe CNP).

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Não, Carlo Acutis não era um jovem comum!
Santos & Mártires

Não, Carlo Acutis
não era um jovem comum!

Não, Carlo Acutis não era um jovem comum!

Carlo, não obstante os jeans, os tênis e os videogames, não era um jovem comum. Enquanto alguns só amadurecem aos 20 ou 30, com apenas 15 ele já estava pronto: pronto para o sacrifício de sua vida, pronto para o seu holocausto de amor a Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Novembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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A beatificação do jovem Carlo Acutis chamou a atenção dos católicos no mundo inteiro. Na internet, há alguns meses, não se falava de outra coisa. O túmulo do beato, em Assis, recebeu a visita de mais de 40 mil pessoas só na primeira quinzena de outubro, mesmo em meio a severas restrições devido à pandemia do novo coronavírus. 

Infelizmente, porém, como acontece com seja qual for a devoção, a seja qual for o santo, poucas pessoas procurarão ir a fundo na história desse menino e fazer-se realmente devotas dele, imitando-lhe a vida e as virtudes.

O que é uma pena, pois a primeira biografia a seu respeito, escrita pelo italiano Nicola Gori, encontra-se facilmente à disposição em língua portuguesa no site Cultor de Livros, e todos os jovens católicos brasileiros fariam um bem enorme a si, a seus amigos, a seus familiares, a seus grupos de oração, a todos que os rodeiam, enfim, se procurassem ler e estudar a vida do agora beato Carlo.

Os santos não se improvisam!

Sim, pois não basta nutrir, com relação a ele, o entusiasmo superficial de quem se identifica com sua camisa polo, com seu tênis de marca, com seu amor por videogames ou com sua aptidão geral para as novas tecnologias. Todos esses aspectos contemporâneos do Carlo são, sem dúvida, um estímulo para nós, mas não devemos parar neles, pois a essência da santidade está em outras coisas, não nestas. A esse respeito, o escritor Peter Kwasniewski teceu algumas considerações muito relevantes, justamente ao escrever sobre os santos mais novos da Igreja:

No que tange aos santos que viveram sob a nova barbárie cultural de nossos tempos, devemos tomar o cuidado de não “canonizar”, junto com a santidade deles, algo incidental a respeito de suas vidas modernas. Isso vai acontecer com bastante frequência de agora em diante. “Ah, o Beato Betinho gostava tanto de música pop! Não é maravilhoso? A música pop agora faz parte da santidade! Não importa o que você escuta ou dança!”, ou: “A Santa Carol amava sair por aí de moletom e com camiseta rosa fluorescente! Acredito que não importa mais como você se veste quando o assunto é ser santo”. É possível imaginar todos os tipos de cenários e falsas inferências como essas.

O modo de contornar esse problema — que, para ser justo, tem paralelos em toda época da Igreja; por exemplo, os santos da Idade Média tinham notavelmente uma má higiene, mas ninguém, ao meu conhecimento, sugere que os devamos imitar nesse aspecto — é lembrar a relação, e a distinção, entre fé e razão, natureza e graça. Um homem notável por sua santidade pode não o ser nos argumentos que apresenta de teologia; uma mulher de santidade indiscutível pode não ter bom gosto em matéria de arte. Como discípulos do Doutor Comum da Igreja, Santo Tomás de Aquino, precisamos ser capazes de fazer distinções e imitar o que merece ser imitado, desculpando, ao mesmo tempo, o que pode ser desculpado, ou ignorando o que é melhor que seja ignorado.

Considere o seguinte: se fosse necessário escolher, melhor seria dedicar-se à oração e ouvir música medíocre, ou vestir-se de modo medíocre, do que ser um egoísta mentiroso com gosto impecável em abotoaduras e gravatas-borboleta; mas o melhor é ser, ao mesmo tempo, santo e bem educado, piedoso e inteligente, porque isso representa uma perfeição mais completa da humanidade tal como Deus a pensou. Graças sejam dadas a Ele por podermos alcançar a bem-aventurança apesar de certos defeitos nossos, mas nem por isso eles se tornam admiráveis ou dignos de imitação.

Trocando em miúdos: se o menino Carlo Acutis vier a ser canonizado, não será porque ele “manjava” de informática ou de jogos virtuais. Isso é acidental à santidade. (A propósito, se o quiséssemos imitar inclusive nesses aspectos, valeria a pena considerar também que, como penitência, Carlo não despendia em seu PlayStation 2 mais do que uma hora por semana — um tempo certamente bem inferior àquele com o qual estão acostumados nossos jovens. A santidade não se resume a isso, é certo, mas o exemplo é válido para reforçar a ideia: se vamos imitar o beato, que seja no que ele fazia de beatificante, e não só no que nos parece mais agradável ou atrativo!)

A pureza de Carlo

Comecemos a desenhar um retrato da santidade de Carlo a partir da pureza, que ele viveu com grande fidelidade, mesmo em meio aos inúmeros perigos que nossa época apresenta para a vivência dessa virtude. A mãe do menino e um rapaz que trabalhava em sua casa testemunham: ele “tapava os olhos com as mãos se passasse algum programa ou propaganda escandalosos na televisão” [1]. Os registros do computador que ele utilizava atestam a mesma delicadeza de consciência: nenhum vestígio de acesso a algum site da internet que fosse menos decente. 

No relacionamento com as meninas, seu comportamento era o apropriado para um rapaz de sua idade (lembrando que Carlo morreu com apenas 15 anos): nada de “namoricos” indevidos, nem de interesses precoces. O menino chegaria a declarar, com a maturidade própria de quem compreendeu o que significa amar a Deus de modo esponsal: “Nossa Senhora é a única mulher da minha vida!” [2].

Carlo Acutis, quando criança.

Esses fatos não estão muito além do que se deve esperar de um discípulo de Cristo, sim, mas precisam ser recordados a uma época como a nossa, que tanto avançou na degradação da sexualidade e que corrompeu a sua juventude praticamente sem deixar sobreviventes. O acesso à pornografia, por exemplo, nunca foi tão fácil como agora, e as crianças e adolescentes estão tendo contato com esse tipo de conteúdo cada vez mais cedo, com consequências seriíssimas para sua saúde mental, física e espiritual. 

Se quisermos ser verdadeiros devotos do beato Carlo Acutis, precisamos “correr atrás do prejuízo”, se já fomos manchados de alguma forma nessa matéria, procurando imitá-lo na penitência, já que perdemos a nossa primeira inocência [3]. Mesmo os que foram preservados, no entanto, não devem dormir jamais: quando o assunto são os pecados contra a castidade, confirma-se com ainda mais força que o nosso adversário “ronda como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8).

Os que já servem a Deus, enfim, seja na vocação do Matrimônio, seja no celibato ou na vida consagrada, podem aprender com Carlo a experiência do coração indiviso, que ele viveu como uma graça extraordinária desde a mais tenra idade. Será que nós temos real dimensão do que é um menino proclamar, de coração, que a Santíssima Virgem é a “única mulher” da sua vida? 

Deixemos que essa declaração íntima de amor, de uma criança a sua Mãe celeste, nos impressione e examine a consciência, elevando nossos corações ao alto, purificando nossa relação com Deus, ordenando, enfim, nossos amores nesta terra. Afinal de contas, a que outra pessoa nos uniremos por toda a eternidade, sem morte alguma que nos venha a separar, senão a Deus, Nosso Senhor?

Carlo já vivia aqui, nesta vida, o que ele agora experimenta no Céu.

Carlo e a eternidade

E como pensava no Céu o pequeno Carlo, como o queria, como ansiava por ele! Seu contato com tudo quanto era livro de espiritualidade, vida dos santos, revelações privadas, não tinha como motor uma simples curiosidade malsã e desordenada; não, era um desejo da vida eterna que o impulsionava

  • Quando lia sobre os milagres eucarísticos, era para aumentar seu fervor na participação da Santa Missa — à qual ele assistia todos os dias. 
  • Quando lia relatos extraordinários sobre o Purgatório, era para rezar mais pelas almas, para buscar mais intensamente o Céu e para se estimular no combate aos próprios vícios — dos quais, ele mesmo dizia, a gula e a preguiça eram os principais [4]. 
  • Quando lia sobre as mais diversas devoções que o tesouro de dois mil anos da Igreja lhe oferecia — fosse a devoção ao Sagrado Coração, à Divina Misericórdia, à Virgem de Fátima ou à de Lourdes —, era para crescer cada vez mais em amor a Jesus e Maria. 

Justamente porque tinha os olhos voltados para o alto, era visível em Carlo uma conformidade profunda com a vontade de Deus. Um colega de escola que passou anos ao seu lado conta: “Um aspecto dele que me tocou muito era que, além de uma fé que vi em poucos, tinha um senso de satisfação e de felicidade por cada momento da vida, fosse feliz ou triste: sempre encontrei em seu rosto um sorriso sem limites” [5]. 

Numa sociedade que se preocupa continuamente com o número crescente de suicídios entre seus jovens, não deixa de ser significativa mais essa característica do pequeno Carlo Acutis. Seu segredo, porém, não pode ser buscado neste mundo. Esse “senso de satisfação” que brilhava em seu rosto é um dom que recebem todos os que amam a Deus: para estes, de fato, tudo concorre para o bem (cf. Rm 8, 28); os santos sempre estão felizes, porque querem o que Deus quer. Quando são contrariados, homens da estirpe de Carlo Acutis — movidos, é claro, pela graça divina — não lamentam, nem reclamam: maduros que são, o que eles fazem é oferecer, doar-se.

Foi o que ele fez nos últimos dias de sua vida. Como viveu, Carlo morreu. Preparado por Deus ao longo de sua breve vida, a notícia da leucemia não foi um “baque” para ele, nem seus sofrimentos finais foram capazes de perturbá-lo e tirar-lhe a paz da alma. De fato, antes de ser internado em definitivo no hospital, com prontidão de espírito aquele jovem declarou (percebam como ele não perdia de vista a eternidade, como ele a desejava!...): “Ofereço todo o sofrimento que deverei padecer no Senhor pelo Papa e pela Igreja, para não ir ao purgatório e entrar direto no céu” [6].

“Ofereço”, ele dizia. Eis aí uma palavra forte, que as pessoas não costumam esperar da boca de um adolescente. 

Mas Carlo, não obstante os jeans, os tênis e os videogames, não era um jovem comum. Os que conviviam com ele já diziam: “Parecia ser mais velho do que era” [7]. Enquanto uns só amadurecem aos 20 ou 30, com apenas 15 anos Carlo já estava pronto: pronto para o sacrifício de sua vida, pronto para o seu holocausto de amor a Deus. No hospital, se lhe perguntavam como estava, ele dizia: “Como sempre, bem!”. Nas palavras de uma enfermeira, “Carlo era uma daquelas pessoas que, quando alguém lhe oferece a mão, segura-a com amor e transmite serenidade, uma serenidade maior do que a que eu deveria lhe oferecer” [8].

Foi assim, aceitando plenamente os desígnios de Deus para si e fazendo-se tudo para os outros, que morreu, no dia 12 de outubro de 2006, o jovem Carlo Acutis.

Aos olhos do mundo, seu falecimento aos 15 anos pareceu, desde então, uma perda irreparável. Muitos dos que o conheceram não podiam se conformar com o fato de aquele menino, precoce em tudo, ser precoce também para morrer. Uma religiosa de clausura, porém, que conheceu Carlo, e que o viu receber precocemente a primeira Eucaristia o sacramento da Crisma, encontrou na Sagrada Escritura [9] o motivo para Deus levar tão cedo deste mundo aquele jovem rapaz: “Sua alma era agradável ao Senhor, e é por isso que ele o retirou depressa do meio da perversidade” (Sb 4, 13-14).

Notas

  1. Nicola Gori. Eucaristia, minha estrada para o Céu. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, p. 42.
  2. Ibid., p. 81.
  3. Esse conhecido jogo de palavras encontra-se na oração que a liturgia da Igreja propõe para a memória de São Luís Gonzaga, padroeiro da juventude.
  4. Nicola Gori, op. cit., p. 102.
  5. Ibid., 44.
  6. Ibid., p. 131.
  7. Ibid., p. 35.
  8. Ibid., pp. 133s.
  9. Ibid., p. 99.

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