CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
Os quatro temperamentos e nossa vida interior
Espiritualidade

Os quatro temperamentos
e nossa vida interior

Os quatro temperamentos e nossa vida interior

Como a descoberta e o trabalho do nosso temperamento pode ajudar no caminho de nossa santificação? É o que explica neste texto o grande tomista espanhol Pe. Antonio Royo Marín.

Pe. Antonio Royo MarínTradução: S.O.S. Família/Equipe CNP15 de Janeiro de 2019
imprimir

Além dos grandes recursos psicológicos de caráter natural e sobrenatural, podemos aproveitar-nos também, no caminho da nossa santificação, de um auxílio de caráter puramente fisiológico — o nosso próprio temperamento —, melhorando suas boas disposições e corrigindo, dentro do possível, os seus defeitos. Naturalmente, trata-se de algo que contribui em pouca medida para a nossa santificação, num plano puramente dispositivo e meramente natural, mas não deixa de ter sua importância, ao menos negativa, removendo obstáculos (ut removens prohibens).

Vamos, pois, estudar a natureza, a classificação e os meios de aperfeiçoar o próprio temperamento.

1. Natureza. — Há uma grande diversidade de opiniões entre os autores sobre a natureza e a classificação dos temperamentos. Vamos expor aqui a doutrina mais comumente admitida, dando-lhe uma orientação eminentemente prática.

Noção. — O temperamento é o conjunto de inclinações íntimas que brotam da constituição fisiológica de um homem. É a característica dinâmica de cada indivíduo, que resulta do predomínio fisiológico de um sistema orgânico (sistema nervoso, sistema sanguíneo) ou de um humor (bílis, linfa).

Como se vê por essas noções, o temperamento é algo inato no indivíduo. É a índole natural, ou seja, algo que a natureza nos impõe. Por isso mesmo, ele nunca desaparece inteiramente: genio y figura hasta la sepultura — “gênio e figura permanecem até a sepultura”. Mas uma educação oportuna e, sobretudo, a força sobrenatural da graça podem, se não transformá-lo totalmente, ao menos reduzir ao mínimo suas estridências, e ainda suprir de todo suas manifestações exteriores. É testemunha disso — entre outros mil — São Francisco de Sales, que passou para a posteridade com o nome de “Santo da doçura”, apesar de seu temperamento fortemente colérico.

2. Classificação. — Depois de mil tentativas e ensaios, os tratadistas modernos voltam à classificação dos antigos clássicos, que parece remontar em sua origem ao próprio Hipócrates, maior médico da Antiguidade (460-377 a.C.). Segundo ele, os temperamentos fundamentais são quatro: sanguíneo, melancólico (nervoso), colérico (belicoso) e fleumático, conforme predomine neles a constituição fisiológica que seu nome mesmo indica.

Vejamos as características principais de cada um deles. Antes, porém, é preciso advertir que nenhum dos temperamentos que vamos descrever existe “quimicamente puro” na realidade. Geralmente, apresentam-se mesclados e, além disso, apresentam graus muito diversos. Assim, os fleumáticos nunca o são de todo, pois se encontram neles muitos traços de sensibilidade. Os sanguíneos têm, às vezes, qualidades próprias dos melancólicos, etc. Trata-se unicamente de algo predominante na constituição fisiológica de um indivíduo. É preciso levar muito em conta esta observação, ao descobrir alguns traços próprios de um determinado temperamento, para evitar um juízo prematuro, que poderia estar muito longe da realidade objetiva.

Passemos agora à descrição detalhada de cada um deles. Seguimos principalmente Conrado Hock e Guibert. É deles que citamos, vez por outra, suas próprias palavras.

a) Temperamento sanguíneo. — Características essenciais com relação à excitabilidade: O sanguíneo se excita fácil e fortemente por qualquer impressão. A reação pode ser também imediata e forte, mas a impressão ou duração pode ser curta. A lembrança de coisas passadas não provoca tão facilmente novas emoções.

“O Êxtase de Santa Teresa”, uma sanguínea. Quadro do séc. XVIII.

Boas qualidades. — O sanguíneo é afável e alegre, simpático e prestativo, dócil e submisso para com seus superiores, sincero e espontâneo (às vezes até à inconveniência). É verdade que, ante a injúria, raciocina às vezes com violência e prorrompe em expressões ofensivas; mas esquece rapidamente tudo, sem guardar rancor de ninguém. Desconhece a teimosia e a obstinação. Sacrifica-se com desinteresse. Seu entusiasmo é contagioso e arrebatador. Seu bom coração cativa e apaixona, exercendo uma espécie de sedução em torno de si.

Por ter uma concepção serena da vida, é fundamentalmente otimista, não o arredam as dificuldades, confia sempre no bom êxito. Surpreende-se muito de que os outros se incomodem com uma brincadeira pouco agradável, que lhe parece a coisa mais natural e simpática do mundo. Tem grande sentido prático da vida e é mais inclinado a idealizar do que a criticar.

Dotado de uma exuberante riqueza afetiva, é fácil e ágil para a amizade e se entrega a ela com ardor, às vezes apaixonadamente.

Sua inteligência é viva, rápida, assimila facilmente, mas sem muita profundidade. Dotado de uma memória feliz e uma imaginação ardente, triunfa facilmente na arte, na poesia e na oratória, mas não poderá alcançar a eminência do sábio. Os sanguíneos seriam muito freqüentemente espíritos superiores se tivessem tanta profundidade como sutileza, tanta tenacidade no trabalho como facilidade nas concepções.

Más qualidades. — Ao lado dessas boas qualidades, o temperamento sanguíneo apresenta sérios inconvenientes.

Seus principais defeitos são a superficialidade, a inconstância e a sensualidade. A primeira se deve principalmente à rapidez de suas concepções. Julga haver compreendido logo qualquer problema que se lhe proponha, quando na realidade o percebeu tão-somente de maneira superficial e incompleta. Daí procedem seus juízos apressados, ligeiros, freqüentemente inexatos, quando não inteiramente falsos. É mais amigo da amplitude fácil e brilhante do que da profundidade.

A inconstância do sanguíneo é fruto da pouca duração de suas impressões. Em um instante passa do riso ao pranto, do gozo delirante a uma negra tristeza. Arrepende-se pronta e verdadeiramente de seus pecados, mas volta a eles na primeira ocasião que se lhe apresenta. Os sanguíneos são vítimas de impressões de momento, sucumbem facilmente à tentação. São inimigos dos sacrifícios, da abnegação e do esforço duro e contínuo. São preguiçosos no estudo. Torna-se-lhes quase impossível refrear a vista, os ouvidos e a língua. Distraem-se facilmente na oração. A épocas de grande fervor sucedem-se outras de languidez e desalento.

A sensualidade encontra terreno abonado na natureza ardente do sanguíneo. Deixa-se arrastar facilmente pelos prazeres sensuais da gula e da luxúria. Raciocina prontamente contra suas quedas e as deplora com sinceridade. Mas faltam-lhe energia e coragem para dominar a paixão quando torna a levantar a cabeça.

Santo Agostinho, outro sanguíneo, retratado por Philippe de Champaigne.

Educação do sanguíneo. — A educação e canalização de qualquer temperamento deve consistir em fomentar suas boas qualidades e em reprimir os defeitos. Por isso, o sanguíneo deverá procurar canalizar a sua exuberante vida afetiva por um meio nobre e elevado. Se conseguir amar fortemente a Deus, chegará a ser um santo de primeira categoria. Sanguíneos cem por cento foram o Apóstolo São Pedro, Santo Agostinho, Santa Teresa e São Francisco Xavier.

Mas é preciso que lute tenazmente contra seus defeitos, até tê-los vencido totalmente. Há de combater sua superficialidade, adquirindo o hábito da reflexão e ponderação em tudo o que fizer. Deve aprender a lidar com os problemas examinando-os por todos os lados, prevendo as dificuldades que poderão surgir, dominando o otimismo demasiado confiante e irreflexivo.

Contra a inconstância, tomará sérias medidas. Não bastarão os propósitos e resoluções, que violará na primeira ocasião que se lhe apresente, apesar de sua sinceridade e boa fé. É preciso pôr sua vontade num plano de vida, convenientemente revisado, aprovado por seu diretor espiritual e no qual esteja tudo previsto e anotado, e que nada se deixe ao arbítrio da sua vontade fraca e caprichosa. Há de praticar seriamente o exame de consciência, aplicando-se fortes penitências pelas transgressões que sejam fruto de sua inconstância e volubilidade. Há de pôr-se em mãos de um experiente diretor espiritual e obedecer-lhe em tudo. Na oração, há de lutar contra sua tendência aos consolos sensíveis, perseverando nela apesar da aridez e secura.

À sensualidade deverá opor-se com uma vigilância constante e uma luta tenaz. Deve fugir como da peste a todas as ocasiões perigosas, nas quais sucumbirá facilmente, ao se aliar sua sensualidade com sua inconstância. Deve ter particular cuidado na guarda da vista, recordando-se das suas dolorosas experiências. Nele, mais do que em ninguém, cumpre-se aquilo de que “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. Deve guardar o recolhimento e praticar a mortificação dos sentidos externos e internos. Deve, enfim, pedir humilde e constantemente a Deus o dom da perfeita pureza de alma e corpo, que só do Céu nos pode vir (Sb 8, 21).

b) Temperamento melancólico. — Características essenciais com relação à excitabilidade: a do melancólico é débil e difícil ao princípio, mas forte e profunda por repetidas impressões. Sua reação apresenta estes mesmos caracteres. Quanto à duração, pode ser larga. O melancólico não esquece facilmente.

Boas qualidades. — Os melancólicos têm uma sensibilidade menos viva do que a dos sanguíneos, mas mais profunda. São naturalmente inclinados à reflexão, à solidão, ao silêncio, à piedade e vida interior. Compadecem-se facilmente das misérias do próximo, são benfeitores da humanidade, sabem levar a abnegação até o heroísmo, sobretudo ao lado dos enfermos.

Sua inteligência pode ser aguda e profunda, maturando suas idéias com a reflexão e a calma. É pensador e gosta do silêncio e da solidão. Pode ser um intelectual seco e egoísta, encerrando-se na sua torre de marfim, ou um contemplativo que se ocupe das coisas de Deus e do espírito. Sente atração pela arte e tem aptidão para as ciências.

Seu coração é de uma grande riqueza sentimental. Quando ama, dificilmente se desprende de suas afeições, porque nele as impressões se arraigam com muita profundidade. Sofre com a frieza ou a ingratidão. A vontade segue a vicissitude de suas forças físicas: débil e quase nula quando o trabalho o tenha esgotado; forte e generosa quando desfruta de saúde ou quando um raio de alegria ilumina seu espírito. É sóbrio e não sente a desordem passional, que tanto atormenta os sanguíneos. É o temperamento oposto ao sanguíneo, como o colérico é oposto ao fleumático.

Foram de temperamento melancólico o Apóstolo São João, São Bernardo, São Luís Gonzaga, Santa Teresinha do Menino Jesus, Pascal.

Santa Teresinha do Menino Jesus tinha um temperamento melancólico.

Más qualidades. — O lado desfavorável deste temperamento é a tendência exageradamente inclinada à tristeza e à melancolia. Quando recebem alguma forte impressão, ela penetra-lhes profundamente a alma e lhes produz uma ferida sangrante. Não possuem o coração na mão como o sanguíneo, mas, sim, muito no fundo, e aí saboreiam a sós sua amargura. Sentem-se inclinados ao pessimismo, ao ver sempre o lado difícil das coisas, ao exagerar as dificuldades. Isto os torna retraídos e tímidos, propensos à desconfiança em suas próprias forças, ao desalento, à indecisão, aos escrúpulos e a certa espécie de misantropia.

São irresolutos por medo de fracassar em suas empresas. O melancólico “nunca sabe acabar”, como dizia Santa Teresa. É o homem das oportunidades perdidas. Enquanto os demais estão do outro lado do rio, ele está pensando e refletindo, sem se atrever a atravessá-lo. Sofrem muito e fazem sofrer aos demais sem querê-lo, porque, no fundo, são bons. Santa Teresa não os julgava aptos à vida religiosa, sobretudo quando a melancolia está arraigada (cf. Fundações, c. 7. Tenha-se em conta que a “melancolia”, sobre a qual havia se pronunciado, refere-se somente ao temperamento melancólico, e não aos extravios de um caráter voluntariamente neurastênico).

Educação do melancólico. — O educador deverá ter muito em conta a forte inclinação do melancólico à concentração sobre si mesmo. Do contrário, expõe-se a não compreendê-lo e a tratá-lo com grande injustiça e falta de tato. O sanguíneo é franco e aberto na confissão; o melancólico, pelo contrário, quer desafogar-se por meio de um colóquio espiritual, mas não pode; o colérico pode expressar-se, mas não quer; o fleumático não pode nem quer fazê-lo. Deve-se ter muito em conta tudo isto, para não intentar procedimentos educativos contraproducentes.

É preciso infundir no melancólico uma grande confiança em Deus e um sereno otimismo da vida. Deve-se inspirar-lhe uma suma confiança em si mesmo, ou seja, na amplitude de sua alma para as grandes empresas. É preciso aproveitar a sua inclinação à reflexão para fazê-lo compreender que não há motivo algum para ser suscetível, desconfiado e retraído. Se for preciso, deve-se submetê-lo a um regime de repouso e sobrealimentação (Santa Teresa curava muitas monjas melancólicas proibindo a longa oração, as vigílias e jejuns e “fazendo-as divertir-se” — cf. Quartas moradas, 3, 12 e 13; Fundações, 6, 14). Acima de tudo, deve-se combater a sua indecisão e covardia, fazendo-o tomar resoluções firmes e lançar-se a grandes empresas com ânimo e otimismo.

c) Temperamento colérico. — Características essenciais com relação à excitabilidade: o colérico se excita pronta e violentamente. Raciocina num instante. Mas a impressão lhe fica na alma por muito tempo.

Boas qualidades. — Atividade, entendimento agudo, vontade forte, concentração, constância, magnanimidade, liberalidade. Eis aí as excelentes prendas deste temperamento riquíssimo.

Os coléricos (ou belicosos) são apaixonados e voluntariosos. Práticos, desembaraçados, são mais inclinados a obrar do que a pensar. O repouso e a inação repugnam à sua natureza. Sempre estão acariciando o seu espírito com um grande projeto. Apenas acabam de conceber um fim, põem mãos à obra, sem desistir por causa das dificuldades. Entre eles abundam os chefes, os conquistadores, os grandes apóstolos. São homens de governo. Não são daqueles que deixam para amanhã o que deveriam fazer hoje; antes, preferem fazer hoje o que deveriam deixar para amanhã. Se surgem obstáculos e inconvenientes, esforçam-se para os superar e vencer. Apesar do seu ímpeto irascível, quando conseguem reprimi-lo pela virtude, alcançam uma suavidade e doçura da melhor cepa. Tais foram São Jerônimo, Santo Inácio de Loyola e São Francisco de Sales.

São Jerônimo, um colérico, pintado por Luca Giordano.

Más qualidades. — A tenacidade do seu caráter os faz propensos à dureza, obstinação, insensibilidade, ira e orgulho. Se lhes opomos resistência ou os contradizemos, tornam-se violentos e cruéis, a menos que a virtude cristã modere as suas inclinações. Vencidos, guardam o ódio no coração até que soe a hora da vingança. Geralmente são ambiciosos e tendem ao mando e à glória. São mais pacientes do que o sanguíneo, mas não conhecem tanto a delicadeza de sentimento, compreendem menos a dor das outras pessoas, têm em suas relações um trato menos fino.

Suas paixões fortes e impetuosas sufocam essas afeições doces e esses sacrifícios desinteressados que brotam espontaneamente de um coração sensível. Sua febre de atividade e seu ardente desejo de conseguir o que se propõem os faz pisotearem violentamente tudo o que os impede, e aparecem ante os demais como uns egoístas sem coração. Tratam os outros com uma altaneria que pode chegar à crueldade. Tudo deve curvar-se diante deles. O único direito que reconhecem é a satisfação dos seus apetites e a realização de seus desígnios.

Educação do colérico. — Tais homens seriam de um preço inestimável se soubessem dominar-se e governar suas energias. Com relativa facilidade chegariam aos mais altos cumes da perfeição cristã. Muitíssimos santos canonizados pela Igreja possuíam este temperamento. Em suas mãos, as obras mais difíceis chegam a feliz termo. Por isso, quando conseguem processar suas energias, são tenazes e perseverantes nos caminhos do bem e não cessam em seus empenhos até alcançar os píncaros mais elevados.

Deve-se aconselhá-los a que sejam donos de si mesmos, que não atuem precipitadamente, que desconfiem de seus primeiros movimentos. Deve-se levá-los à verdadeira humildade de coração, a se compadecerem dos fracos, a não humilhar nem atropelar a ninguém, a não deixarem sentir sua violência, sua própria superioridade, a tratarem a todos com suavidade e doçura.

d) Temperamento fleumático. — Características essenciais com relação à excitabilidade: o fleumático não se excita nunca, ou o faz tão só debilmente. A reação é também débil, quando não chega a faltar por completo. As impressões recebidas desaparecem logo e não deixam vestígios em sua alma.

Boas qualidades. — O fleumático trabalha devagar, mas assiduamente, contanto que não se exija dele um esforço intelectual demasiadamente grande. Não se irrita facilmente por insultos, fracassos ou enfermidades. Permanece tranqüilo, sossegado, discreto e criterioso. É sóbrio e tem um bom sentido prático da vida. Não conhece as paixões vivas do sanguíneo, nem as profundas do nervoso, nem as ardentes do colérico. Dir-se-ia que carece por completo de paixões. Sua linguagem é clara, ordenada, justa, positiva; mais do que brilho, tem energia e atrativo.

O trabalho científico, fruto de uma larga paciência e de investigações conscienciosas, lhe convém melhor do que grandes produções originais. O coração é bom, mas parece frio. Falta-lhe entusiasmo e espontaneidade, porque sua natureza é indolente e reservada. É prudente, sensato, reflexivo, obra com segurança, chega aos fins sem violência, porque afasta os obstáculos em lugar de os romper. Às vezes a sua inteligência é muito clara. Fisicamente, o fleumático é de rosto amável, de corpo robusto, de andar lento e vagaroso. Santo Tomás de Aquino possuiu os melhores elementos deste temperamento, levando a cabo um trabalho colossal com serenidade e calma imperturbáveis.

O grande Doutor Angélico possuía os melhores elementos de um fleumático.

Más qualidades. — Sua calma e lentidão lhe fazem perder boas ocasiões, porque tarda muitíssimo em pôr-se em ação. Não se interessa nada pelo que se passa fora de si. Vive para si mesmo, em uma espécie de concentração egoísta. Não vale para o mando e o governo. Não é afeiçoado a penitências e mortificações; se é religioso, não abusará dos cilícios. É deles que Santa Teresa descreve com tanta graça: “As penitências que fazem estas almas são coerentes com sua própria vida. Não tenhais medo de que se matem, porque sua razão está muito em si” (Santa Teresa, Terceiras moradas, 2, 7). Em casos mais agudos, convertem-se em homens átonos, mortiços e vagos, completamente insensíveis às vozes de ordem que poderiam tirá-los da sua inércia.

Educação do fleumático. — Pode-se tirar muito partido do fleumático, se lhe forem incutidas convicções profundas e lhe forem exigidos esforços metódicos e constantes em ordem à perfeição. Lentamente chegará muito longe. Deve-se sacudi-lo de sua inércia e indolência, empurrando-o às alturas, acender em seu coração apático a labareda de um grande ideal. Deve-se estimulá-lo ao pleno domínio de si mesmo, excitando-o e pondo em uso suas forças adormecidas; não como ao colérico, que deve obtê-lo contendo-se e moderando-se.

Conclusão geral sobre os temperamentos. — Repetimos o que dissemos mais acima: nenhum destes temperamentos existe em estado “quimicamente puro”. O leitor que tenha percorrido estas páginas poderá não ter encontrado em nenhuma delas os traços completos de sua particular fisionomia. A realidade é mais complexa do que todas as categorias especulativas. Com freqüência encontramos na prática, reunidos em um só indivíduo, elementos pertencentes aos temperamentos mais díspares. Isso explica, em boa parte, a diversidade de teorias e classificações entre os autores que se preocupam com estas coisas.

Contudo, é indubitável que em cada indivíduo predominam certos traços temperamentais que permitem catalogá-lo, com as devidas reservas e precauções, em algum dos quadros tradicionais. Por outro lado, sem negar a grande influência do temperamento fisiológico sobre o conjunto da psicologia humana, dadas as íntimas relações e interdependências entre a alma e o corpo, não devemos conceder-lhe uma importância exageradasobretudo no que diz respeito à moralidade de nossos atos —, à maneira de certos racionalistas, que atribuem ao temperamento nativo a responsabilidade única de nossas desordens.

O temperamento ideal. — Se quisermos estabelecer, em sintética visão de conjunto, as características do temperamento ideal, tomaríamos algo de cada um dos que acabamos de descrever. Ao sanguíneo pediríamos sua simpatia, seu grande coração e sua vivacidade; ao melancólico, a profundidade e a delicadeza de sentimentos; ao colérico, sua atividade inesgotável e sua tenacidade; ao fleumático, o domínio de si mesmo, a prudência e a perseverança.

Conseguir pelo esforço sistemático e inteligente este ideal humano, que a natureza não pode conceder a quase ninguém, conduz à difícil empresa do aperfeiçoamento e melhora do próprio temperamento, juntamente com o rude trabalho da formação do caráter.

Referências

  • Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. 2.ª ed., Madrid: BAC, 2015, pp. 784-790. A tradução portuguesa foi retirada do site S.O.S. Família e levemente adaptada para esta publicação.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Jesus tinha a intenção de fundar uma Igreja?
Doutrina

Jesus tinha
a intenção de fundar uma Igreja?

Jesus tinha a intenção de fundar uma Igreja?

Se há uma ideia que parece impor-se com toda evidência ao lermos todo o Evangelho é a de que Jesus Cristo quis fundar na terra uma obra estável, duradoura e de caráter social: a Igreja.

Ignacio Riudor, SJTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere (adaptado)25 de Junho de 2019
imprimir

I. O problema. — Se há uma ideia que parece impor-se com toda evidência ao lermos o Evangelho e que depois se confirma plenamente nos Atos dos Apóstolos e nas cartas de São Paulo é a de que Jesus Cristo quis fundar na terra uma obra estável, duradoura, de caráter social. É todo o Evangelho, e não somente um conjunto de textos mais ou menos numerosos, que nos fala de uma obra desta natureza.

Contra esta maneira de conceber a obra de Jesus levantaram-se, nos séculos passados, tanto racionalistas como modernistas. Assim afirmou Loisy: “Cristo anunciou a vinda do Reino, e eis aqui o que acabou surgindo: a Igreja” (L’Evangile et l’Eglise, 1902, p. 111). Se isto fosse assim, a Igreja de que nos falam tantas vezes os Atos dos Apóstolos, a Igreja de que com tanta frequência fala São Paulo, teria surgido contra a vontade de Jesus; seria obra dos primeiros cristãos, e não obra de Jesus. Qual destas duas concepções é a verdadeira? Tal é o problema eclesiológico fundamental que devemos resolver antes de qualquer outro. Para isso, será necessário explicar previamente o significado exato da palavra Igreja nas Sagradas Escrituras.

1. A palavra “igreja” no Antigo Testamento. — No Antigo Testamento, Israel é o povo de Deus, o reino de Deus. Destas duas denominações, a primeira tem um significado solene, especial: Israel é o povo convocado ou congregado por Deus: em hebraico, é o Qahal Yahvé, que a versão chamada dos Setenta (concluída no final do séc. II a.C.) traduz pela palavra grega εκκλησία. O termo hebraico Qahal significa qualquer reunião de homens, e só se traduz por εκκλησία na versão dos Setenta quando indica a reunião ou assembleia de todo o povo de Israel. Nos outros casos (por exemplo, assembleias de uma cidade particular), Qahal se traduz por ὄχλος ou συναγωγή.

Citemos alguns exemplos do Antigo Testamento em que aparece esta expressão. No Deuteronômio, chama-se “dia da assembleia” ou “da igreja” ao dia em que o povo de Israel, congregado no monte Sinai, recebeu a aliança de Javé, prometeu observar a Lei e assim foi constituído “povo de Javé” (cf. Dt 9, 10; 18, 16). Em outras passagens do mesmo livro, indicam-se as condições que há-de reunir quem quiser formar parte da “igreja” ou comunidade de Javé (cf. Dt 23, 1-3.8). Moisés proferiu diante de toda a comunidade de Israel ou “igreja” as palavras do seu cântico (cf. Dt 31, 30). No Livro de Josué se diz: “De tudo o que Moisés havia prescrito não se omitiu uma palavra sequer nessa leitura feita por Josué diante de toda a assembleia [igreja] de Israel” (Js 8, 35). No primeiro Livro dos Reis — terceiro, na nomenclatura da Vulgata —, a “igreja de Israel” é todo o povo congregado para a dedicação do templo de Salomão (cf. 1Rs 8, 14; 22, 55). Assim poderíamos multiplicar os exemplos até chegar às oitocentas vezes em que se fala da palavra “igreja” na tradução grega dos Setenta.

Os judeus do tempo de Jesus, como nos dizem os especialistas na matéria, usavam a palavra “igreja” para indicar a assembleia escolhida por Deus do povo de Israel, para o culto do Deus verdadeiro (cf. Salaverri, De Ecclesia, em Sacrae Theologiae Summa, vol. 1, n. 145). Por conseguinte, esta palavra será a mais adequada para designar a assembleia do novo Israel de Deus, se Cristo quis verdadeiramente fundar uma sociedade religiosa.

“Cristo apresentando as chaves a S. Pedro”, de Carlo Giuseppe Ratti.

2. A palavra “igreja” no Novo Testamento. — No Evangelho, esta palavra só aparece em duas passagens muito próximas entre si do evangelho de São Mateus: no capítulo 16 (v. 18): “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”; e no capítulo 18 (v. 17), onde Cristo, ao falar da correção fraterna, depois da correção privada e ante testemunhas, em caso de não se conseguir o resultado esperado, diz a seus discípulos: “Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano”. 

No entanto, em outros livros do Novo Testamento se encontra muitas vezes a palavra “igreja”: 23 nos Atos dos Apóstolos, 63 em São Paulo, 5 nas outras epístolas dos Apóstolos e 20 no Apocalipse.

Mas, afinal, esta desproporção tão surpreendente entre os evangelhos e os demais livros do Novo Testamento em que se narra a vida da comunidade primitiva não parece corroborar a opinião dos que afirmam que os textos de São Mateus refletem o sentir da comunidade primitiva, mas não a intenção de Jesus de fundar uma Igreja?

II. Orientação histórica. 1. Opiniões errôneas. — De fato, assim creem todos os racionalistas e modernistas, sejam os que afirmam que Jesus Cristo julgava iminente o fim do mundo e que, portanto, não poderia falar de uma “Igreja” como sociedade futura e duradoura (escatologistas); sejam aqueles que sustentam que Jesus Cristo pregou um reino apenas para Israel e continuava acreditando na permanência da sinagoga, sem pretender formar uma sociedade nova (particularistas); sejam enfim os que defendem que Jesus pretendia unicamente nos ensinar nossas relações filiais com Deus Pai, sem nenhuma organização de caráter externo e social (espiritualistas).

Como concebem, pois, estes autores que a ideia de uma Igreja como sociedade aparecesse nos tempos apostólicos, coisa que não podem negar, por encontrar-se tão claramente no livro dos Atos e nas epístolas de São Paulo? As respostas a esta pergunta são numerosas e bastante distintas entre si, mas podemos reduzi-la a estas três principais: 

a) Teoria evolucionista. — Os discípulos de Cristo, pensam alguns, chegaram a organizar-se em sociedade graças à tendência natural e inata ao homem de agrupar-se quando vários indivíduos buscam um mesmo ideal. Assim se formaram as inúmeras sociedades comerciais, literárias, deportivas etc. que surgem em todos os lugares. Desta maneira, foram aparecendo pouco a pouco, já no tempo do Apóstolos, sociedades locais formadas pelos discípulos de Jesus. Por uma evolução também natural, as diversas sociedades de uma nação, província etc. foram, por sua vez, agrupando-se em outras sociedades maiores. A paixão do mundo ou a ambição de alguns chefes influenciou muito nestas uniões parciais, que chegaram de modo mais ou menos rápido, ainda que imperceptível, a formar uma sociedade única sob o mando do chefe daquela igreja que, logicamente, tinha de absorver as demais: a da cidade em que residia a suprema autoridade civil, Roma. Nos tempos dos Apóstolos, não se tinha chegado ainda a esta unidade total de organização, embora em São Paulo apareça já este desejo de uniformizar as diversas comunidades, e o manifesta principalmente ao comparar a Igreja com um corpo único, dentro de uma pluralidade de membros. Aparece, assim, já em São Paulo uma unidade interna e mística, embora ainda não uma unidade jurídica.

b) Teoria eclética. — Sabemos, pensam outros, que se chama “eclético” todo sistema formado por uma seleção de outros vários. Assim, a sociedade judaica, com sua organização presbiteral e religiosa, e a sociedade romana, com sua organização monárquica e civil, determinou a constituição da Igreja como sociedade ao mesmo tempo religiosa e jurídica; esta constituição, porém, foi completamente alheia à vontade de Cristo.

c) Teoria modernista. — Para outros ainda, a constituição da Igreja como sociedade foi uma consequência natural, mas contrária à mente e à vontade de Cristo, do movimento religioso que a pregação do Mestre acabou suscitando. Surgiu quando a crença de Jesus Cristo, compartilhada por seus discípulos, de que o fim do mundo chegaria logo, começou a ser posta em dúvida. Passavam os anos, e a parusia simplesmente não vinha… Foi natural que, então, todo os que aceitavam a doutrina de Jesus se sentissem unidos por uma mesma doutrina e um mesmo fracasso, e pensaram assim em dar consistência e duração a sua ideias religiosas.

III. Doutrina católica. 1. O que a Igreja diz de si mesma. — No entanto, o Magistério eclesiástico ensina como verdade de fé que Cristo fundou a Igreja. Assim diz o Concílio Vaticano I: “Para que pudéssemos cumprir o dever de abraçar a verdadeira fé e nela perseverar constantemente, Deus instituiu, por meio de seu Filho Unigênito, a Igreja” (DH 3012). E em outro lugar: “O eterno Pastor e guardião das nossas almas […] resolveu fundar a Santa Igreja” (DH 3050). Implicitamente afirma o mesmo Concílio que Jesus a fundou como sociedade, ao definir que Cristo constituiu a São Pedro cabeça visível de toda a Igreja militante e que lhe entregou um primado de verdadeira e própria jurisdição (cf. DH 3056s), já que tais atos pressupõem uma vontade plenamente consciente de fundar uma sociedade.

Contra a doutrina modernista, o Papa São Pio X condenou explicitamente a seguinte proposição: “Foi alheio à mente de Cristo constituir a Igreja como sociedade que devia durar sobre a terra por longo decurso de anos” (DH 3452). Veja-se também o juramento proposto pelo mesmo Papa contra os erros do modernismo (cf. DH 3540).

2. Valoração teológica. — Em consonância com os documentos do Magistério que acabamos de expor, podemos afirmar que é verdade de fé divina e católica que Cristo quis estabelecer a sua Igreja na terra como verdadeira sociedade.

3. Ensinamento bíblico. — Ora, já dissemos que a vontade de Cristo de querer estabelecer uma Igreja-sociedade, mais que de alguns textos concretos, flui de todo o Evangelho, no qual vai aparecendo como Ele escolhe os Apóstolos, como os instrui para um fim concreto, como os reveste de poderes especiais para a sua missão, como estabelece sobre os demais uma autoridade suprema e como promete sua assistência indefectível nos ofícios de que os encarrega.

Há porém um texto capital em toda a eclesiologia, que afirma taxativamente esta vontade de Cristo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18).

a) A Igreja, o povo de Deus no Novo Testamento. — A frase de Jesus: “Edificarei a minha Igreja” deve ter produzido um sentimento de estupor nos discípulos, já que a palavra “igreja” sempre aparece no Antigo Testamento como obra, não de um homem, mas de Deus. O Mestre se punha no lugar de Deus! Mas pelo menos Pedro, que acabara de confessar que Jesus era “o Filho do Deus vivo”, por revelação do Pai, podia compreender muito bem a razão íntima desta substituição: Cristo era Deus e, como Deus, ia estabelecer uma Igreja que seria continuação e, simultaneamente, cumprimento cabal daquela igreja ou congregação do povo de Deus no Antigo Testamento. A palavra divina se cumpriria, não já no Israel da carne, mas no Israel do espírito, como diz São Paulo (cf. Rm 9, 6ss; 1Cor 10, 18).

Mas como unir o verbo “edificar” com o substantivo “igreja”, que significa, como vimos antes, povo sagrado, escolhido por Deus? Ora, é que “o povo de Deus” é também “a casa de Deus”, segundo uma imagem muito repetida no Antigo Testamento (cf., por exemplo, Nm 12, 7; Jr 12, 7; Os 8, 1.3.8.15). Daí que a metáfora “edificarei a minha Igreja” equivalha, evidentemente, a dizer: “Formarei o meu povo escolhido, à maneira de um arquiteto que constrói um edifício”. Eis a firme vontade de Cristo de fundar a sua Igreja, isto é, de instituir uma sociedade na terra sobre São Pedro.

b) A Igreja, Reino dos céus. — Em seguida, o Senhor promete ao mesmo Pedro: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus” (Mt 16, 18). Não vamos nos deter aqui em estudar o alcance desta metáfora no que se refere a São Pedro; mas podemos, sim, adiantar que este Reino de Deus, expressão que pode ter um significado mais ou menos amplo segundo o contexto, neste lugar específico, em virtude do perfeito paralelismo com a frase anterior e a seguinte: “Tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”, só pode significar o Reino de Deus existente na terra, já que Pedro, o Apóstolo que Jesus tem diante de si, será a autoridade suprema deste Reino.

Reino de Deus, Reino dos céus e Igreja não são, pois, realidades distintas, mas a mesma realidade sob dois aspectos distintos. E nisto o Novo Testamento corresponde harmonicamente ao Antigo: com efeito, assim como o povo escolhido era o Reino de Deus no Antigo Testamento, assim também, no Novo, a Igreja de Cristo é o Reino de Deus na terra. Portanto, quando Cristo fala do Reino de Deus na terra, fala em realidade de sua própria Igreja.

Notas

  • Este artigo é uma tradução levemente adaptada de F. de Vizmanos e I. Riudor, Teología fundamental para seglares. Madrid: BAC, 1963, pp. 560-565, nn. 67-77.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Eucaristia: “até os demônios crêem, e tremem”
Doutrina

Eucaristia:
“até os demônios crêem, e tremem”

Eucaristia: “até os demônios crêem, e tremem”

“Então, eu ouvi um outro som, desta vez um gemido indisfarçável, seguido de um som agudo enquanto alguém gritava: ‘Deixa-me em paz, Jesus! Por que me torturas?’”

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Junho de 2019
imprimir

A “rotina” pode fazer com que, muitas vezes, percamos um pouco a noção do que sejam a Santa Missa, a Eucaristia e a recepção da Comunhão sacramental. Os abusos litúrgicos que acontecem, aos montes, em tantas de nossas paróquias também acabam não contribuindo muito para fazer brilhar o mistério que aí se realiza. O seguinte testemunho do Mons. Charles Pope (tradução e grifos nossos), no entanto, talvez nos ajude a considerar melhor a grandeza do que estamos a celebrar nesta semana de Corpus Christi:

Foi quase 15 anos atrás, na velha igreja de Santa Maria, aqui no Distrito de Columbia, celebrando Missa em latim (na Forma Extraordinária do Rito Romano). Era uma Missa solene [...na qual] algo bem interessante estava prestes a acontecer.

Como vocês devem saber, a antiga Missa em latim é celebrada ad orientem (isto é, voltada ao “leste litúrgico”). O padre e todo o povo voltam-se para a mesma direção. O que isso significa para o celebrante, na prática, é que o povo fica às suas costas. Era o momento da consagração. Nessa hora, o padre deve fazer uma leve inclinação, com seus antebraços sobre a mesa do altar e a Hóstia em seus dedos.

Também como deve ser, as veneráveis palavras da consagração foram ditas em voz baixa, mas clara: Hoc est enim Corpus meum (“Isto é o meu Corpo”). A sineta tocava enquanto eu me ajoelhava.

Mas atrás de mim notei uma espécie de perturbação; uma voz agitada ou como um sussurro veio dos primeiros bancos atrás de mim, à minha direita, e então um gemido ou murmúrio. “O que foi isso?”, eu me perguntei. Não se parecia mesmo com um som humano; parecia mais o grunhido de um grande animal, como um javali ou um urso, juntamente com um resmungão que também não parecia humano. Elevei a Hóstia e novamente me perguntei: “O que foi isso?” Silêncio, então. Como celebrante na antiga Missa latina, não me era fácil virar para olhar. Mas eu ainda pensava: “O que foi isso?”

Era o momento da consagração do cálice. Mais uma vez eu me inclinei levemente, pronunciando clara e distintamente, mas em voz baixa: Hic est enim calix sanguinis mei, novi et aeterni testamenti; mysterium fidei; qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum. Haec quotiescumque feceritis in mei memoriam facietis (“Tomai e bebei dele todos vós, pois este é o Cálice do meu Sangue, do Sangue da nova eterna aliança, mistério da fé, o qual será derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados. Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim”).

Então, eu ouvi um outro som, desta vez um gemido indisfarçável, seguido de um som agudo enquanto alguém gritava: “Deixa-me em paz, Jesus! Por que me torturas?” De repente irrompeu um ruído como de uma briga e alguém saiu gemendo como se tivesse sido machucado. As portas se abriram e fecharam. Depois, silêncio.

[...] Eu não podia virar para olhar pois estava elevando o Cálice bem acima da minha cabeça. Mas eu percebi naquele instante que uma pobre alma atormentada pelo demônio havia se deparado com Cristo na Eucaristia e não podia suportar sua presença real sendo exibida para todos verem. Vieram-me à mente, então, as palavras da Escritura: “Até os demônios crêem, e tremem” (Tg 2, 19).

[...] Mas assim como São Tiago usou essas palavras para recriminar a pouca fé de seu rebanho, também eu tinha com o que me acusar. Por que um homem perturbado pelo demônio estava mais consciente da Presença Real e mais impressionado por ela do que eu estava? Ele ficou movido em um sentido negativo e fugiu. Por que não estava eu mais movido do que ele, em um sentido positivo? E quanto aos outros fiéis, que estavam nos bancos? Eu não duvido de que todos ali acreditávamos, com a inteligência, na Presença Real. Mas é algo bem diferente e muito mais belo ser movido até as profundezas da própria alma! É tão fácil ficarmos sonolentos na presença do Divino, esquecendo-nos da Presença milagrosa e impressionante que está à nossa disposição.

Registre-se que, naquele dia, quase 15 anos atrás, ficou ainda mais claro para mim que eu segurava em minhas mãos o Senhor da glória, o Rei dos céus e da terra, o justo Juiz e Dominador dos reis da terra. — Estaria o Senhor verdadeiramente presente na Eucaristia? — É melhor que você acredite, pois até os demônios o fazem!

Ao ler o relato desse sacerdote, é inevitável que nos venham à mente os inúmeros trechos do Evangelho em que os demônios reagem de modo muito similar à presença de Nosso Senhor. Em comentário a essas passagens, os Doutores da Igreja nos ensinam que, embora não tenham fé divina e sobrenatural, os maus anjos têm um certo conhecimento da divindade de Cristo, e por isso não lhe podem ser indiferentes. Santo Agostinho diz, por exemplo, que Jesus se manifestou aos demônios “não enquanto vida eterna e luz que ilumina os piedosos, mas por certos efeitos temporais de seu poder e por sinais ocultos de sua presença, mais perceptíveis aos espíritos angélicos, mesmo que malignos, do que à fraqueza humana” [1]; e São Jerônimo, por sua vez, que “tanto os demônios como o Diabo mais suspeitavam do que compreendiam que Ele era o Filho de Deus” [2].

Ou seja, os mesmos espíritos malignos que dois mil anos atrás reagiam com fúria e gritos à presença do Deus feito carne, são retratados respondendo com igual ódio e indignação à presença real de Jesus na Eucaristia. Que o fato acima seja verídico ou não, é o de menos: ninguém é obrigado a crer nas palavras de um padre. Mas ao ensino do Senhor e da sua Santa Igreja de que, “sim, na Eucaristia está verdadeiramente o mesmo Jesus Cristo que está no Céu e que nasceu, na terra, da Santíssima Virgem Maria” [3] — nisto sim, todos estamos obrigados a crer, por fidelidade a Deus revelante, que não se engana nem nos pode enganar.

“Problemático” falar disso, não? Pouco “ecumênico”, alguém diria. Mas não é de hoje: as palavras de Cristo sobre sua presença no Santíssimo Sacramento, desde o discurso do pão da vida até as recentes manifestações magisteriais sobre a Eucaristia, sempre foram uma grande “pedra de tropeço”. — Que haja quem acredite piamente que o próprio Deus, Criador do céu e da terra, se fez homem, já é grande absurdo… — assim pensa o mundo. — Agora, que haja, nesse grupo já seleto de pessoas, um grupo mais ousado ainda a ponto de proclamar que Deus, além de se fazer homem, ainda se esconde sob a aparência de um simples pedaço de pão, é escândalo em cima de escândalo.

Aquele grupo que crê na Encarnação são os cristãos; este grupo que crê também na transubstanciação são os católicos. De modo que, se para o mundo, os cristãos já são loucos, para os próprios cristãos, nós, católicos, somos o ápice da loucura. Por crermos na Eucaristia, os protestantes nos têm por fanáticos e idólatras, que se prostram diante de uma “bolacha”; por causa desse dogma em especial, somos “como que o lixo do mundo, a escória de todos” (1Cor 4, 13).

E como os católicos somos chamados a reagir a tudo isso? Com luto, lágrimas e depressão? Não, muito pelo contrário!

Neste dia de Corpus Christi, somos convocados, isso sim — principalmente por se tratar de dia de preceito —, a tomar as ruas de nossas cidades e, cheios de fé, proclamar nosso amor ao Santíssimo Sacramento com orações, cantos e muita alegria. Alegria principalmente por saber que o mesmo Jesus de Nazaré, que caminhou entre os homens dois mil anos atrás, continua realmente vivo em nossas igrejas, “habitando no meio de nós” todas as vezes que o sacerdote católico pronuncia as veneráveis palavras da consagração: “Isto é o meu corpo” e “Este é o cálice do meu Sangue”. Alegria por saber que, assim como Cristo, cabeça da Igreja, teve de passar por sua via crucis recebendo o desprezo do mundo, agora é a vez dos católicos, enquanto membros do seu corpo, passarem pela mesma execração pública.

Mas, ainda que nos ataquem com virulência, que nos chamem de idólatras e caçoem de nossa santa religião — mesmo se com isso os zombadores acabem se assemelhando aos demônios do Evangelho, e da história acima contada —, só o que nos deve encher o coração é um profundo desejo de que todos, sem exceção, venham a desfrutar um dia da mesma dádiva que nós, católicos, temos a graça de possuir… porque deve ser uma tremenda miséria entrar em um templo cristão e não ver, ao fundo, ocupando o centro de todas as atenções, a presença eucarística de Nosso Senhor Jesus Cristo, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Referências

  1. De Civitate Dei IX, 21, citado por Santo Tomás de Aquino, Catena aurea (In Matth., c. VIII, l. 8). Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 323.
  2. Id., p. 323.
  3. Catecismo de São Pio X, n. 595.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Silêncio, a especialidade de Deus
Espiritualidade

Silêncio, a especialidade de Deus

Silêncio, a especialidade de Deus

Quando o Espírito Santo vem chamar-nos, não o precede um arauto de armas nem sonoras trombetas que lhe anunciam a chegada. A especialidade do homem: o ruído. A especialidade de Deus: o silêncio.

Pe. Raul PlusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2019
imprimir

À alma que quer ouvir os chamamentos divinos é necessário o recolhimento, em primeiro lugar, por causa da discrição de Deus.

Deus age sempre da mesma maneira: apraz-lhe ocultar-se. Só o descobrem os que estão atentos.

Às vezes as pessoas acham estranho que tantos cheguem a duvidar da existência de Deus. Acaso não prova a Criação que haja um Criador? Sim, certamente, mas se a razão afirma que Deus existe, a experiência não o percebe. O soberano Senhor oculta-se atrás das causas segundas. Ele, que é a causa total, não quer ser a causa única. Desde o seu distante quartel general ele tudo dirige; mas os homens, em contato sensível apenas com os intermediários, esquecem o chefe supremo de quem tudo depende. Toda causa segunda seria de uma indigência absoluta se Deus não lhe desse o poder de produção; mas como essa causa aparece em primeiro plano, o homem não vê mais do que a ela. É preciso refletir para descobrir a Deus.

Deus põe em tudo esta sublime discrição. Ele passeia por sua obra em todo tempo e lugar, mas procede como no Paraíso terrestre: sua marcha é silenciosa, e é preciso estar atento para perceber seu passo, que quase não faz barulho na areia, ali, muito perto, atrás do pequeno bosque.

Se tal discrição divina é palpável na ordem natural, quanto mais patente é, todavia, na ordem sobrenatural!

O Verbo decide vir à terra para encarnar-se. Credes que o fará impondo-se pelo brilho e pela pompa, e proclamando de certo modo: “Atenção! Entendei bem quem é que vos fala!”? De maneira alguma. Uma virgenzinha de quinze ou dezesseis anos, em uma pequena e insignificante aldeia de um pequeno país. Chama-se Maria; ninguém a conhece, salvo algumas amigas de seu povoado, Nazaré. Estando um dia em oração, recebe a proposta de chegar a ser Mãe de Deus. Duas palavras de aceitação: Ecce… Fiat! “Eis aqui… Faça-se!” — Neste mesmo instante o Verbo se faz carne.

Durante nove meses permanece oculto no seio de sua mãe como todo filho de homem… Vai nascer. Discretamente, sem publicidade alguma.

Ele tem de partir por causa do censo. Já sabeis o restante: o nascimento no campo, a manjedoura à meia-noite. Escutai: “Enquanto, sob um céu puro e no silêncio da terra, a noite estava na metade do seu curso, em segredo, longe do tumulto dos homens, o Verbo eterno do Pai assume a natureza humana e aparece aos homens, enquanto nos céus ressoava o hino: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa-vontade”.

Observemos as expressões: “No silêncio da terra, à noite, em segredo, longe do tumulto”. Eis aqui Deus.

E Deus age de igual maneira ao longo de toda a história evangélica: trinta anos de vida oculta; quando fala, não é para se anunciar, mas para dar testemunho do Pai; para semear seus ensinamentos, escolhe, de preferência, os humildes povoados à beira do caminho; quando vai ensinar coisas de maior profundidade, limita voluntariamente o seu auditório: Nicodemos e a mulher do poço de Jacó, o discurso antes e depois da Ceia. Quando mostra uma única vez algo de sua glória, não leva consigo mais do que três testemunhas. Se seus milagres podem granjear-lhe em excesso o favor das multidões, desaparece, como depois da multiplicação dos pães, ou manda guardar silêncio o agraciado. Recorre a seu poder de taumaturgo apenas para confirmar sua palavra. Os Apóstolos realizarão obras de mais brilho do que as suas.

Nada mais silencioso e, ao mesmo tempo, discreto do que a transubstanciação e a presença eucarística! Pronunciam-se algumas palavras, e a substância do pão já não existe. Jesus aí está sobre o altar, e na obscuridade do tabernáculo irá permanecer dia após dia, sem buscar atrair ruidosamente atenção! Se o vão visitar, é bom; mas, se não vai ninguém, tampouco reclama: tudo passa como se Ele não estivesse ali. Ter-se-ia notado alguma mudança no bairro, se o Salvador do mundo não se encontrasse ali abaixo, na igrejinha no fim da rua?

Levam uma criança à igreja. Vão-na batizar. O que significa isto? Que a SS. Trindade irá entrar nessa alma pequenina. Ouvi-o bem: a SS. Trindade, Deus, o Ser supremo, e no entanto quem pensa na importância desse ato?

Quando um rei, um imperador ou um chefe de Estado vai a uma cidade, quantos preparativos! quantas distinções! quanta gente em movimento! Mas aqui, nada.

Quanta discrição, por parte do Salvador, no governo da Igreja! No Evangelho, a grande personagem é o Pai. Uma vez concluída a Redenção, a grande personagem é o Espírito Santo, e já o dissemos antes: Spiritus docebit vos, “o Espírito vos há-de ensinar”. Nosso Senhor, como Mestre, “fracassa” com os Apóstolos. Depois de três anos de convívio, fogem todos no momento da agonia, um o trai, outro o nega. Será preciso que desça o Espírito Santo. Só então os medrosos do Horto das Oliveiras serão valentes e saberão enfrentar o martírio. Quanta sede tem Jesus de fazer-se pequeno, de evitar aparecer! Durante a sua vida, eclipsa-se diante do Pai; depois de sua morte, fa-lo-á diante do Espírito Santo.

Há mais, porém. A Igreja que Ele estabeleceu na terra e à qual confiou as chaves do Reino de Deus, não a irá governar senão por meio de outra pessoa; não aparecerá senão o seu Vigário. Ele está ali, evidentemente, por seu Espírito Santo, preservando a Igreja de todo erro, dando aos chefes escolhidos luz e força. Mas aqui também, quantas gentes passarão ao lado da Igreja de Jesus Cristo sem reconhecer a Jesus Cristo! E isso, sem dúvida, por culpa da insignificância ou da indignidade de um grande número de seus membros, mas também porque a boa semente nem sempre germina com êxito em meio à cizânia, e o Senhor estima, mais do que os brilhantes triunfos de uma divindade da Igreja que se imponha a todos, os humildes esforços de uma Igreja divina, cuja divindade aparece apenas aos que refletem mais ou aos que são mais puros.

Se esta é a maneira habitual de Deus agir, não será preciso tê-la em conta quando se trata de uma obra realizada nas profundezas da alma, ou seja, dos convites da graça?

Jesus ressuscitado entrou no Cenáculo sem que ruído algum denunciasse a sua chegada. Com maior razão, quando o Espírito Santo vem chamar-nos, não o precede um arauto de armas nem sonoras trombetas que lhe anunciam a chegada. Está a alma em estado de graça? Deus se encontra já no coração da praça. Ali, convida incessantemente à fidelidade. Não espereis estrépito, mas gemitus, dirá S. Paulo, uma humilde e silenciosa modulação o mais serena possível. A especialidade do homem: o ruído. A especialidade de Deus: o silêncio.

Ah! razão tem de sobra o autor [1] que descreve assim a ação de Deus em nossos corações: “Da mesma maneira que a água impregna a esponja docemente e sem ruído, o divino Espírito penetra sem violência na alma disposta a recebê-lo. Não se impõe; propõe-se. As visita forçadas repugnam à sua infinita delicadeza. Sua voz é doce, amiga do recolhimento e da paz. Para escutá-la, é preciso que se faça silêncio no interior”.

Referências

Notas

  1. O Pe. Augusto Drive, 4.º Diretor Geral do Apostolado da Oração, em seu excelente opúsculo Wes Dieu sous la conduite de Marie (nota do autor).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Pornografia: um problema de saúde pública
Sociedade

Pornografia:
um problema de saúde pública

Pornografia: um problema de saúde pública

Finalmente a sociedade está se dando conta de que a injeção constante e direta de toxinas digitais na mente de uma geração inteira tem surtido efeitos muito, muito negativos.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Junho de 2019
imprimir

Enquanto uns poucos especialistas isolados, claramente comprometidos com certas agendas, insistem em defender a indústria pornográfica, o resto da sociedade está se dando conta rapidamente de que a injeção constante e direta de toxinas digitais na mente de uma geração inteira tem surtido efeitos muito, muito negativos.

Mês passado, por exemplo, um relatório elaborado no Reino Unido descrevia como o consumo de pornografia estava transformando as escolas em “campos de batalha”, onde as meninas se sentem impelidas a comportar-se como atrizes pornô e os rapazes vêem a vida com base no lixo que consomem online. Testemunhos como este são norma entre os adolescentes:

Tudo o que a gente vê nas redes sociais está reforçando o que há de pior na “cultura jovem”. Imagens de mulheres em poses provocativas com mensagens do tipo: “É assim que toda mulher quer ser vista”… Um amigo meu queria que a namorada se vestisse como uma atriz pornô e fizesse o que faz uma atriz pornô. A pornografia está muito acessível. A gente vê rapazes assistindo a vídeos no celular dentro de sala de aula e até nos ônibus.

Além do que, outro grande estudo, divulgado mês passado, detalha a destruição causada na nossa cultura pela pornografia e confirma o consenso crescente de que a pornografia é, sim, um problema de saúde pública. O estudo, que entrevistou 6.463 estudantes (2.633 homens e 3.830 mulheres), entre 18 e 26 anos, indica que quase 80% deles já foram expostos à pornografia (cifra que eu julgo até muito baixa). Os efeitos disto são enormemente preocupantes. Um dos resultados da pesquisa evidencia o que temos alertado há já algum tempo: a pornografia atua como uma droga, e os usuários tendem a procurar conteúdos cada vez mais pesados e hard-core, a fim de satisfazer o próprio vício. Eis o que o estudo diz:

Tolerância/intensificação: Os efeitos adversos mais comuns da pornografia, reconhecidos pelos próprios usuários, são: a necessidade de estímulos mais prolongados (12%) e de estímulos sexuais mais numerosos (17,6%) para poder chegar ao orgasmo, e uma diminuição do prazer sexual (24,5%) […]. O presente estudo também sugere que a exposição prematura pode estar associada a uma potencial dessensibilização a estímulos sexuais, como indicado pela necessidade de estímulos mais prolongados e numerosos para alcançar o orgasmo durante o consumo de material explícito, e também pelo decréscimo generalizado da satisfação sexual. Constataram-se ainda várias mudanças de padrão no consumo de pornografia durante o período de exposição: escolha de um gênero diferente de material explícito (46%), uso de materiais que não concordam com a própria orientação sexual (60,9%) e a necessidade de utilizar conteúdos mais extremos, isto é, violentos (32%).

Curiosamente, o estudo também chegou à conclusão de que 10,7% dos homens e 15,5% das mulheres confessaram assistir diariamente a filmes pornôs e reconheceram estar viciados, sem que haja, na prática, nenhuma diferença na taxa de adicção entre homens e mulheres. Via de regra, quem está viciado em pornografia demora para admitir que está com problema; por isso, é bastante alto o número de usuários dispostos a reconhecer que se sentem viciados em pornografia.

Mesmo entre os que não se consideram viciados, o estudo indica que são comuns sintomas típicos de abstinência: 51% já tentaram parar ao menos uma vez, dos quais 72,2% já experimentaram um ou mais sintomas de crise de abstinência, incluindo solidão, perda de libido, insônia, irritabilidade, ansiedade, tremedeiras, impulsos agressivos, depressão, sonhos eróticos e distúrbios de atenção.

Como era de esperar, quanto mais cedo uma pessoa é exposta à pornografia, maiores são as chances de ela sofrer alguns de seus efeitos negativos, sendo maiores as probabilidades entre os que foram expostos aos 12 anos ou antes. E tenhamos em mente que a idade média em que os jovens descobrem a pornografia continua a cair e encontra-se, atualmente, na faixa dos 11 anos. Os autores do estudos sugerem, cautelosos, que futuras pesquisas poderão indicar os prejuízos a longo prazo causados em adultos expostos à pornografia ainda muito cedo. Com efeito, a maioria dos participantes do estudo afirmou que a pornografia é, sim, um problema de saúde pública, com muitas consequências negativas para a sociedade, mas se negou a apoiar qualquer política que restrinja o acesso a esse tipo de material. Os vícios, como toda a gente sabe, são difíceis de superar.

Como eu já disse antes e continuarei a dizer até as pessoas caírem em si: a pornografia é o inimigo número um das nossas comunidades, das nossas igrejas, das nossas famílias e dos nossos casamentos. Muitos cristãos têm treinado para as próximas batalhas nesta guerra cultural; muitas comunidades têm-se preparado para os perigos externos do totalitarismo secular. No entanto, a pornografia, infiltrando-se em nossos lares pelas telas de qualquer aparelho conectado à rede, está envenenando os relacionamentos e espaços de que vamos precisar, se quisermos sobreviver ao massacre cultural que enfrentaremos nos próximos anos.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.