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Estrada aberta para a beatificação de G. K. Chesterton
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Estrada aberta para a
beatificação de G. K. Chesterton

Estrada aberta para a beatificação de G. K. Chesterton

Prelado inglês quer dar andamento à causa de beatificação de Chesterton, o famoso autor de "Ortodoxia" convertido à Igreja Católica

Equipe Christo Nihil Praeponere20 de Agosto de 2013Tempo de leitura: 3 minutos
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O escritor inglês Gilbert Keith Chesterton está a caminho da beatificação. É o que informou Dale Ahlquist, presidente da American Chesterton Society, durante a conferência anual da associação, no último dia 1.º de agosto. De acordo com o anúncio, o bispo de Northampton, Inglaterra, manifestou-se "simpático" à causa do escritor e "está procurando um clérigo adequado para começar uma investigação da possibilidade de abrir uma causa para G. K. Chesterton".

O anúncio foi recebido com grande ânimo e emoção pelos membros da sociedade dedicada ao escritor inglês. "Várias pessoas já esperavam por isso há muito tempo", disse o presidente da associação. "Há uma grande devoção a Chesterton ao redor do mundo, particularmente aqui na América. Há pessoas que há muito acreditam que ele deveria ser elevado aos altares e outras já começaram privadamente a pedir a sua intercessão".

Todo ano, a Catholic G. K. Chesterton Society organiza uma peregrinação de Londres à cidade de Beaconsfield, onde Chesterton passou a maior parte de sua vida. Vendo a devoção de tantas pessoas ao escritor, o bispo da região, Peter Doyle, decidiu apressar os procedimentos para elevá-lo à honra dos altares. Porém, de acordo com o padre Ian Ker, biógrafo de Chesterton, não é necessário haver "um local de culto" para o cultivo da devoção. "Não havia nenhum em Birmingham para o beato John Henry Newman", pontuou o sacerdote. "A questão é que este é um culto global. Ele não é apenas um santo local, mas alguém de interesse para a Igreja universal".

Um dos incentivadores da causa é o escritor Joseph Pearce, professor universitário de literatura inglesa e também biógrafo de Chesterton. Ele entrevê vários motivos para seguir adiante com o seu processo de beatificação. "A forma com a qual sua vida e sua obra encarnaram a indissolúvel unidade entre a fé e a razão seria uma razão válida", diz Pearce. "Outra seria seu labor como incessante apologista da Fé. Enfim, outra seria a abundância de frutos de sua tarefa como evangelizador, que se manifestaram nas numerosas pessoas que trouxe e continua trazendo à Fé."

Pearce recordou a capacidade extraordinária que Chesterton tinha de discutir com seus adversários sem jamais demonstrar ódio ou ira. Ele "discutiu com muitos, mas não brigou com nenhum". Para o professor, este é "um dos melhores argumentos de que Chesterton merece a beatificação": "Sua vida demonstra que conseguiu obedecer o mais duro dos mandamentos de Cristo, amar os nossos inimigos."

Para o presidente da American Chesterton Society, a investigação pode ter ganhado nova força com a eleição do Papa Francisco. Ele lembrou que o Pontífice "expressou apoio à causa de Chesterton quando era arcebispo de Buenos Aires", chegando a aprovar o texto de uma oração privada para a canonização do escritor.

Ahlquist também destacou a impressão que o idealizador do padre Brown deixou, por exemplo, no grande servo de Deus, o arcebispo Fulton Sheen. A lista de admiradores é grande: do escritor anglicano C. S. Lewis, que deve a Chesterton a sua conversão ao cristianismo, até o grande romancista J. R. R. Tolkien, autor de "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit". A influência de Chesterton era tal que o patriarca de Veneza, o cardeal Albino Luciani – eleito em 1978 Papa João Paulo I –, chegou a escrever-lhe uma carta imaginária (já que Chesterton morreu no começo do século XX), comentando algumas de suas obras[1].

Antes de passar à beatificação de alguém, o Papa deve reconhecer que esta pessoa viveu as virtudes da fé cristã de maneira heroica. Então, ela passa a ser invocada como venerável. Como o processo de Gilbert Chesterton se encontra na fase diocesana, ainda restam várias etapas para a conclusão do procedimento. Abaixo, está a oração, aprovada pelo então arcebispo de Buenos Aires – hoje Papa Francisco –, para invocar a intercessão de Chesterton:

Deus Nosso Pai,
Tu que enchestes a vida de teu servo Gilbert Keith Chesterton com aquele sentido de assombro e alegria, e lhe deste aquela fé que foi o fundamento de seu incessante trabalho, aquela esperança que nascia de sua perene gratidão pelo dom da vida humana, aquela caridade para com todos os homens, particularmente em relação aos seus adversários; faz com que sua inocência e seu riso, sua constância em combater pela fé cristã em um mundo descrente, sua devoção de toda a vida pela Santíssima Virgem Maria e seu amor por todos os homens, especialmente pelos pobres, concedam alegria àqueles que se encontram sem esperança, convicção e ardor aos crentes tíbios e o conhecimento de Deus àqueles que não tem fé.
Rogamos-te que nos outorgue os favores que te pedimos por sua intercessão, (e especialmente por...), de maneira que sua santidade possa ser reconhecida por todos e a Igreja possa proclamá-lo Beato. Tudo isto pedimos-te por Cristo Nosso Senhor. Amém. [2]

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Monges de Núrsia combatem pandemia com procissões e orações
Espiritualidade

Monges de Núrsia combatem
pandemia com procissões e orações

Monges de Núrsia combatem pandemia com procissões e orações

Na cidade onde nasceu São Bento, no coração da Itália, estes monges contam com o poder da oração para vencer o coronavírus. “Perante essa ameaça invisível, temos de confiar num remédio invisível para nossa salvação final.”

Martin BürgerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Abril de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Escondidos nas montanhas da região central da Itália, os monges beneditinos de Núrsia estão combatendo a pandemia do coronavírus com orações e procissões diárias contra a peste.

“No período da tarde, saímos em procissão pela propriedade, portando relíquias da Vera Cruz, rezando para que sejamos libertos das ‘pragas, da fome e das guerras’, como faziam os antigos, que sabiam que essas tribulações muitas vezes surgiam juntas”, escreveu Dom Bento Nivakoff, OSB, prior da comunidade famosa por sua cerveja e por seu canto gregoriano.

“Todas as manhãs durante a Missa conventual solene, acrescentamos orações contra a peste”, explicou o monge.

O mosteiro está localizado nos arredores de Núrsia. Os monges seguem a liturgia tradicional da Igreja quando rezam o Ofício Divino e celebram a Missa. 

As orações contra a peste, encontradas na Missa votiva para a libertação da morte em tempo de peste, mostram que Deus não deseja “a morte do pecador, mas que se converta”. A Coleta pede a Deus: “Olhai benigno para o povo que a Vós retorna, e por vossa clemência dele afastai, enquanto vos é fiel, os castigos da vossa ira”.

A Secreta, oração feita antes do canto do Prefácio, implora a Deus que aceite o sacrifício da Missa oferecido pelo sacerdote, “a fim de por ela alcançarmos eficazmente o perdão de todo pecado e o sermos livres do risco de toda perdição”.

“Concedei, ó Deus e Salvador nosso, que o vosso povo seja livre dos terrores de vossa ira e protegido pela abundância de vossa misericórdia”, pede a oração final, conhecida como Pós-comunhão.

De acordo com o prior da comunidade, “a população da região da Úmbria está dispersa geograficamente, então aqui há menos casos de coronavírus do que no norte”. Porém, os monges sabem que a situação pode mudar rapidamente.

Como hoje as pessoas na Itália estão em grande medida confinadas em suas próprias casas, ele continuou, o escondimento do mundo “adquire um simbolismo quase sacramental durante essa crise extraordinária”.

Os monges estão acolhendo a celebração privada da Missa como um convite para a redescoberta do mistério “da eficácia invisível dela”, algo que foi esquecido na modernidade. “Perante essa ameaça invisível, temos de confiar num remédio invisível para nossa salvação final.”

“Durante séculos”, escreveu Dom Bento, “não foi possível ver de perto os mistérios do altar. Em certos períodos, cortinas eram usadas para ocultar os momentos mais importantes da Missa. Até hoje as orações solenes da consagração são pronunciadas num volume mais baixo — um sussurro — à medida que se desenvolve o drama da liturgia”.

A tragédia não é algo estranho para os monges de Núrsia. A vida monástica na região, terra natal de São Bento e Santa Escolástica, foi retomada apenas no ano 2000.

Até 2016, quando um forte terremoto atingiu Núrsia, os monges estavam vivendo no centro da cidade. Celebravam a Missa e rezavam o Ofício Divino na basílica de São Bento. A destruição decorrente do terremoto obrigou os monges a se transferirem para um antigo mosteiro capuchinho nos arredores da cidade, o qual havia sido danificado por um terremoto anterior. 

Em 2019, depois do início das obras e da construção da muralha, a comunidade acrescentou um lema no cume do mosteiro: Nova Facio Omnia (“Eu faço novas todas as coisas”). “Tirado do Livro do Apocalipse”, explicaram os monges em seu site, “ele descreve a Nova Jerusalém em todo o seu esplendor e enfatiza o que Cristo faz por todos os que cooperam com seu plano: ‘Eis que eu renovo todas as coisas!’”

Deveríamos estar dispostos a aprender as lições que Deus quer nos ensinar”, encorajou Dom Bento. “Uma grande tentação é exigir que Deus devolva aquilo que perdemos. Mas Deus planta sementes de vida nova no campo da tragédia. Todos nós devemos regá-las com nossas orações (tanto as públicas como as privadas), sacrifícios e, talvez, até com nossas vidas. Mas a morte não tem a última palavra.”

O autor conservador Rod Dreher afirmou que os beneditinos de Núrsia “sabem como permanecer firmes durante uma catástrofe. Temos muito a aprender com eles.”

“Como disse Dom Bento, agora todos temos de nos afastar do mundo e permanecer em nossos claustros domésticos para salvar vidas. Não devemos acomodar-nos a essa situação — quero dizer, jamais podemos achar que a igreja online seja outra coisa senão um simples fac símile da igreja de verdade”, comentou o autor do best-seller A Opção Beneditina, publicado em 2017.

“Apoio firmemente a exortação de Dom Bento para que meditemos sobre o que Deus está tentando nos ensinar com esse período de confinamento. O que significa descobrir (ou redescobrir) o mistério?”

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Carlos e Zita da Áustria: um casal segundo o ideal cristão
Santos & Mártires

Carlos e Zita da Áustria:
um casal segundo o ideal cristão

Carlos e Zita da Áustria: um casal segundo o ideal cristão

Numa época em que a família é relativizada e a santidade no matrimônio é apresentada como algo impossível, é oportuno recordarmos alguns detalhes da vida matrimonial do Beato Carlos da Áustria e da Serva de Deus Zita.

Irmã Joana da Cruz, OCD1 de Abril de 2020Tempo de leitura: 13 minutos
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Numa época em que a família é relativizada e a santidade no matrimônio é apresentada como algo impossível, é oportuno recordarmos alguns detalhes da vida matrimonial de Carlos e Zita da Áustria. 

O título deste artigo é tirado da expressão que Madre Maria Antônia — irmã de Zita que se fez monja beneditina em Santa Cecília/ Solesmes — usou em seu testemunho para as Atas do Processo de Carlos: “Um casal segundo o ideal cristão”. Se esta era a impressão que Carlos e Zita deixavam junto àqueles que conviviam com eles, isto, sem dúvida, é sinal de como este santo casal estava empenhado em viver sua vocação matrimonial segundo os desígnios de Deus para as famílias e de acordo com os valores do Evangelho [1].


Em virtude de um laço de parentesco indireto, Carlos e Zita se conheceram quando ainda eram crianças. Mas, então, as brincadeiras próprias dos meninos e os entretenimentos das meninas proporcionavam poucos pontos de interesse comum. Em 1909, as coisas mudaram.

Zita de Bourbon-Parma, Serva de Deus.

Zita tem dezoito anos. Após uma breve estadia na Inglaterra para complementar sua educação, ressentindo o clima por demais úmido da ilha, foi obrigada a retornar para a família. Aconselharam-lhe um tratamento junto a uma estação de águas e, assim, ela vai para Franzensbad, acompanhada de uma tia de Carlos, a Arquiduquesa Maria Anunciata, que também precisava se tratar. De sua parte, Carlos, seguindo a tradição dos Habsburgos, entrara para a vida militar. Na época, tinha vinte e três anos e estava aquartelado em Brandeis, não muito longe de Franzensbad. Nos dias de folga, costumava ir visitar sua tia predileta, a Tia Anunciata, que estava com Zita. Foi a partir destes encontros que o mútuo interesse entre os dois jovens nasceu.

As visitas à Tia Anunciata eram sempre mais desejadas, sempre mais agradáveis, sempre mais prolongadas... Certa vez, a avó de Carlos quis ir em peregrinação ao santuário mariano de Mariazell. Pediu que seu neto a acompanhasse. Zita e sua irmã Francisca também aproveitaram a oportunidade para irem rezar aos pés da Virgem. E foi aí, na casa de Maria, diante do Santíssimo Sacramento que Carlos fez sua proposta à Zita.

O noivado foi celebrado aos 13 de junho de 1911, na Villa delle Pianore, residência italiana dos Duques de Parma, família de Zita. Na fotografia que ofereceu a Carlos nesta ocasião, a jovem noiva escreveu: “Mais para você do que para mim”, indicando, desta forma, que sua felicidade consistia em sair de si, em esquecer sua própria pessoa para fazer Carlos feliz. Em preparação para o sacramento do matrimônio, os noivos decidem fazer os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola. Zita, de acordo com os costumes dos Habsburgos e dos Bourbons-Parma, também vai a Roma para pedir, numa audiência privada com o Papa Pio X, a bênção para ela e seu esposo. Ambos querem constituir uma verdadeira família cristã.

O casamento foi marcado para o dia 21 de outubro de 1911, na propriedade que a família de Zita mantinha na Áustria: o Castelo de Schwarzau. Na véspera da cerimônia, antecipando em cinquenta anos a verdade tão enfatizada pelo Concílio Vaticano II de que todos, independentemente de nosso estado de vida, somos chamados à santidade, Carlos diz à Zita: “Agora, devemos nos ajudar um ao outro a chegar ao céu”. Nas alianças, como sinal da devoção que os dois nutrem por Nossa Senhora, ele mandou gravar, junto dos nomes, o início da antífona mariana: Sub tuum praesidium, “À vossa proteção, recorremos, ó Santa Mãe de Deus”. E a viagem de núpcias inicia-se, justamente, em Mariazell, onde o casal consagra à Virgem a nova vida que iniciam.

Eis como Madre Maria Antônia, irmã de Zita que se fez monja beneditina, descreve o relacionamento de Carlos com sua esposa: 

A vida de família de Carlos foi, de fato, segundo o ideal cristão; foi uma harmonia perfeita de pensamentos e princípios, não havia segredos entre os dois, era a abertura completa, leal, recíproca, a confiança absoluta. (...) Carlos sempre foi para sua esposa o melhor dos maridos, e para seus filhos, um modelo de pai. Quando estava ausente, telefonava todos os dias para sua esposa, mesmo do front, para ter notícias da família e tranquilizá-la em suas obrigações (...). Minha irmã dava um resumo dos acontecimentos da casa e ele seguia tudo com interesse, de maneira cordialíssima e dava conselhos e diretrizes [2].

O Conde Pedro Revertera diz que “o relacionamento entre os dois cônjuges foi sempre particularmente íntimo, terno e afetuoso”.  Sobre Zita, ele conta: 

Esta afetuosidade, eu mesmo a pude notar várias vezes, quando, por exemplo, [Carlos] devia falar em ocasiões públicas — coisa para a qual não era inclinado. Pude, então, observar como [Zita], antes, dava-lhe ânimo da maneira mais afetuosa, a fim de encorajá-lo neste dever tão desagradável, e como, da mesma maneira afetuosa, encontrava, depois, palavras de alegria e aprovação [3].

Os filhos, no total de oito, não tardaram a vir: Otto, Adelaide, Roberto, Felix, Carlos Luís, Rodolfo, Carlota e Elisabete — que nasceu dois meses após a morte do pai. Ambos enxergavam a paternidade e a maternidade como a exponenciação máxima de sua vocação matrimonial. Consideravam os filhos como dons que Deus lhes havia confiado e, portanto, não só os acompanhavam no seu desenvolvimento humano, mas se empenhavam em dar-lhes uma sólida formação religiosa e em infundir-lhes sincera piedade.

Desde a mais tenra idade, Carlos costumava levá-los à capela, para apresentá-los e entregá-los ao Senhor. Todas as noites, passava junto de suas caminhas, abençoava-os e rezava com eles. Gostava, sobretudo, de contar-lhes a História Sagrada e, sentando-os junto a si, narrava-lhes passagens bíblicas. Zita, por sua vez, ensinava-lhes as orações do cristão, incentivava-os aos pequenos sacrifícios diários e à prática da caridade. Quando chegavam à idade da Primeira Comunhão, era ela mesma quem lhes ensinava o catecismo e os preparava para receber Jesus Eucarístico.

Em 28 de junho de 1914, o assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando mudou a história do mundo: veio a Primeira Guerra. E mudou também a vida de Carlos: ele tornou-se o primeiro na linha de sucessão ao Império Austro-húngaro.

E, de fato, com a morte do Imperador Francisco José em 1916, Carlos sobe ao trono. Ele e Zita condividem as responsabilidades de Governo neste difícil período da guerra: visitam soldados combatentes e feridos, buscam medidas para amparar os órfãos e as viúvas, procuram amenizar a pobreza do povo, empenham-se na obtenção diplomática da paz. Mas, nem por isso, a vida de família é negligenciada. Sempre há tempo para se dedicarem aos filhos e, sobretudo, a primeira sexta-feira de cada mês é vivida em família de maneira muito intensa. Todos estão presentes na missa de manhã e os meninos mais velhos servem como coroinhas. No final da tarde, mesmo os mais pequeninos participam da adoração eucarística, seguida da bênção do Santíssimo Sacramento e da renovação da consagração ao Sagrado Coração. De noite, toda a família reza junto a Ladainha do Coração de Jesus e outras preces em sua honra.

Com o final da guerra e a queda da monarquia austro-húngara, a Família Imperial é constrangida ao exílio na Suíça. É um período de muitas preocupações e de grande sofrimento moral. Carlos e Zita apoiam-se mutuamente. A força para enfrentarem todas essas adversidades lhes vem da vida sacramental e da prática da oração. O grande conforto do casal são os filhos.

A pedido de um grupo de legitimistas e com o apoio do Papa Bento XV, que temia a expansão do bolchevismo no leste europeu, Carlos empreendeu duas tentativas de restauração da monarquia na Hungria. Após o fracasso da primeira, Zita decidiu acompanhá-lo na segunda. Para ela, “o dever da esposa é estar ao lado de seu esposo”.

Mas, a segunda tentativa de restauração também malogrou em virtude da traição do Regente. O casal imperial é levado para um novo e drástico exílio: a Ilha da Madeira, na costa oeste da África, afastada do continente europeu e, naquele tempo, bem isolada do mundo. Estão sozinhos, longe dos filhos... longe de todos os parentes... longe da pátria e daqueles que lhes eram fiéis... com todos os bens confiscados…

Sim, com todos os bens confiscados, sem ter como se sustentarem. As forças aliadas que impuseram tal exílio não sentiam qualquer responsabilidade sobre Carlos e Zita, considerando-os um problema dos antigos povos do Império desfeito. Estes, transformados em novas e fracas repúblicas, diziam não ter nenhum vínculo que lhes obrigasse a sustentar o antigo monarca.

A dor e o sofrimento interior são inauditos neste período da vida do casal, mas eles se sustentam um ao outro e, juntos, recorrem a Deus. Duas são as grandes preocupações de Carlos e Zita: trazer os filhos para perto de si e conseguir um meio de subsistência para o futuro. Problemas importantíssimos para eles, mas diante dos quais sentem sua absoluta impotência: não podem fazer nada, não podem tomar nenhuma atitude. Sem esmorecer na esperança, confiam tudo às mãos de Deus e aguardam a solução e o momento marcados por Ele para o alívio de suas angústias.

Um acontecimento triste, mas, sem dúvida, providencial, vem resolver a primeira questão. Um dos filhos, o Arquiduque Roberto, passa por sérias crises de apendicite e deve submeter-se a uma cirurgia. Após inúmeros e difíceis trâmites burocráticos, Zita obtém a permissão de deixar brevemente a Ilha da Madeira para acompanhar seu filho na operação. Ao voltar da Suíça, traria consigo as crianças. De fato, retorna acompanhada de todos os filhos, exceto Roberto que, em convalescência, chegaria um mês mais tarde, acompanhado da Arquiduquesa Maria Teresa, avó de Carlos. Foi assim que, no dia 2 de fevereiro de 1922, num momento de indizível emoção no porto de Funchal, a família pôde estar novamente reunida.

O Bem-aventurado Carlos da Áustria.

Com a possibilidade de Zita viajar, Carlos vislumbrou também a solução para o segundo problema que assolava seu coração. Orientou a esposa para que procurasse contato com o senhor a quem ele confiara a custódia das joias de família; que as vendesse e trouxesse o dinheiro consigo. Mas qual não foi a surpresa de Zita ao ver este senhor esquivar-se dela e, em seguida, sumir de cena, pois há tempo já havia vendido as joias e usado o provento em benefício próprio?!

Ao saber disso e vendo que a política internacional não resolvia nada com relação à sua pessoa, Carlos percebe que está, realmente, sem saída. As parcas economias que trouxera quando da Tentativa de Restauração na Hungria iam se esgotando; a chegada das crianças aumentava inevitavelmente os gastos; Zita deveria dar à luz no final de maio — algo que o inquieta sobremaneira, pois quer pagar um médico para assisti-la. É tempo de economizar ao máximo e, por isso, não lhe restando outra opção, aceita a oferta de um abastado senhor da Ilha para que ele e sua família fossem morar, graciosamente, na casa de verão que mantém no bairro do Monte, na parte alta de Funchal.

A casa é de uma boa construção, mas, na verdade, pequena e sem os recursos necessários para a numerosa família. Sobretudo, é imprópria para ser habitada nesta época do ano, pois, em fevereiro, ainda fazia frio, o ar continuava úmido e havia muitos nevoeiros no Monte. Para Carlos e Zita, no entanto, nada disso pesa. Não se queixam; antes, agradecem a Providência Divina. Os dois se privam de tudo: do supérfluo, como o café, tão apreciado por Carlos, mas por demais caro, e daquilo que seria necessário, como a carne para Zita, que espera um bebê. Sabendo das necessidades do “bom Rei Carlos e da Rainha Zita” — como os madeirenses costumavam chamar  a Família Imperial —, o povo simples leva-lhes leite e ovos para ajudar na alimentação das crianças. É de novo a Providência Divina, na qual confiam plenamente, que age em suas vidas.

Os únicos gastos que ambos se permitem são os referentes aos filhos e, assim mesmo, são reduzidos ao mínimo. No dia 9 de março, Carlos desce ao centro de Funchal, pois, no dia seguinte, Carlos Luís completará quatro anos. Quer dar-lhe um presente de aniversário. Não pôde comprar mais que dois carrinhos feitos de artesanato de vime. Enfim, não importa o valor; importa que o pequeno se sinta amado.

Na cidade, ao nível do mar, o dia está ensolarado e faz calor, mas no Monte está frio, sopra um vento gelado que carrega consigo a névoa. Voltando para casa, Carlos ressente a diferença de temperatura e contrai uma forte gripe que o deixa de cama. Está obstinado em não solicitar auxílio médico para poupar os gastos.

Acredita que tudo passará de per si e logo. Mas, na verdade, com tanto sofrimento e restrições, seu corpo está debilitado e a gripe não cede. Foi apenas ante os suplicantes e repetidos pedidos de Zita que ele assentiu em chamar um médico.

O diagnóstico não foi dos melhores. A gripe já se transformara numa pneumonia que parecia avançar rapidamente. Zita, embora adiantada na gravidez, não deixa a cabeceira de seu esposo. Dia e noite, atende a todas as suas necessidades: é dar-lhe um copo de água, é mudar-lhe a posição ou enxugar-lhe o suor, é o administrar-lhe algum alívio... Faz-lhe leituras, reza com ele e por ele. Quando Carlos está muito ofegante, recita em voz alta, em seu nome, suas devoções particulares e, ainda, apresenta a Deus todas as suas intenções. Ela também sempre lhe fala sobre os filhos, pois, para evitar o contágio, eles estão proibidos de ver o pai.

Carlos, por outro lado, parece pressentir o futuro e não cessa de manifestar seu carinho por Zita:

“Quero descansar junto de você. Venha e sente-se aqui, ao meu lado. Segure-me... sustente-me... Agora, já rezei o suficiente; não posso mais”.
“Nos braços do Redentor... você e eu e os nossos amados filhos...”.
Encontramo-nos nas mãos da Divina Providência. Tudo o que nos acontece está bem. Apenas confiemos”.

E também vai, aos poucos, orientando-a sobre as atitudes a tomar no futuro, sobre a educação das crianças…

A pneumonia investe os pulmões. Estamos num tempo em que não existem antibióticos... No dia 1.º de abril, após receber o viático e tendo os olhos fixos em Jesus Sacramentado que se erguia diante dele, Carlos pronuncia, num fiasco de voz, suas últimas palavras à Zita: “No Coração de Jesus, nós nos reencontraremos”. “Amo-lhe infinitamente”.

Os corações de Carlos e Zita estão conservados atrás das grades do altar da Capela de Loreto, na Abadia de Muri (Suíça).

Pouco tempo depois, com suas derradeiras respirações, sussurra baixinho: “Seja feita a vossa vontade... Jesus... Jesus, vinde! Sim — Sim. Meu Jesus... seja feita a vossa vontade — Jesus”. E entrega sua alma a Deus, reclinando a cabeça sobre os ombros da amada esposa que está a seu lado.

Naquela manhã, Zita trajava um vestido rosa. Foi a última vez que usou uma roupa de cor. Desde então, sempre vestiu o preto, não como lúgubre expressão de uma dor insuperável, mas para significar que seu coração pertencia tão somente a Carlos.

Zita teve uma longa viuvez. Faleceu aos 14 de março de 1989, sessenta e sete anos depois de seu marido. Certa vez, já sendo bem adiantada em idade, um de seus netos perguntou-lhe o que ela pensava da morte. Sua resposta foi: “Se o Bom Deus vier me procurar, estarei, enfim, com Carlos de novo” [4].

Embora Carlos esteja sepultado na Ilha da Madeira e Zita em Viena, estes corações que tanto se amaram e que se doaram um ao outro sem restrição, encontram-se inumados na Abadia de Muri (Suíça), onde a dinastia dos Habsburgos teve origem. Se nesta terra, eles louvaram e serviram a Deus unidos, agora, no céu, eles o contemplam e o adoram unidos.

Que, tendo vivido juntos a alegria e a tristeza, a riqueza e a pobreza, a saúde e a doença, Carlos e Zita da Áustria intercedam pelas famílias de hoje, ajudando-as no perfeito cumprimento das promessas matrimoniais, em qualquer circunstância da vida.

Notas

  1. Este artigo, de autoria da Irmã Joana da Cruz, OCD, foi publicado primeiro no Boletim “Beato Carlos da Áustria”, n. 6, 1-2015, pp. 1-5.
  2. Testemunho de Maria Antônia. Positio, pp. 854-855.
  3. Conde Pedro Revertera. Positio, pp. 418-419.
  4. O fato foi narrado várias vezes pelo próprio Vincente, filho da Arquiduquesa Elisabete.

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Os sacerdotes exilados do seu povo
Igreja Católica

Os sacerdotes exilados do seu povo

Os sacerdotes exilados do seu povo

Os fiéis em todo o mundo sofrem por estarem privados da Missa, e os padres, por estarem privados do seu povo. Ordenado propter homines, a vida do sacerdote católico não faz sentido sem um povo ao qual servir ou um rebanho do qual cuidar.

Pe. Paul ScaliaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Março de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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O sacerdote chegou, tirou a pedra do altar e a guardou em sua mala; em seguida, queimou os maços de algodão que tinham óleo sagrado e jogou fora as cinzas; esvaziou a pia de água benta, apagou a lâmpada do sacrário e o deixou aberto e vazio, como se a partir daquele momento a Sexta-Feira da Paixão tivesse se tornado permanente.

Na terça-feira passada [i.e., 17 de março] — primeiro dia sem Missas públicas em nossa diocese [devido ao surto da Covid-19] —, lembrei-me dessa cena do romance Retorno a Brideshead, de Evelyn Waugh, no qual o sacerdote fecha a capela da família Marchmain. E veio-me particularmente à memória a última linha: “como se a partir daquele momento a Sexta-Feira da Paixão tivesse se tornado permanente”.

Eu reconheço que a analogia não é perfeita, porque nossa situação não é exatamente idêntica à da Sexta-Feira Santa. A Missa ainda está sendo celebrada (embora privadamente), Nosso Senhor Eucarístico ainda está presente e nossas igrejas ainda estão abertas para que as pessoas possam rezar dentro delas. No entanto, apesar de necessária, a suspensão da celebração pública da Missa, de fato, provoca uma tristeza não muito diferente daquela causada pela Sexta-Feira Santa. É como se estivéssemos exilados de alguém que amamos: sabemos onde Ele está, mas não podemos estar com Ele.

Outro exílio doloroso é o dos sacerdotes, afastados de seu povo. Os fiéis em todo o mundo sofrem por estarem privados da Missa. Os sacerdotes sofrem por estarem privados do seu povo. Esses homens deram suas vidas pelo rebanho de Cristo, e agora se esforçam para compreender como serão suas vidas longe do rebanho. “Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado”, diz a exortação de São Pedro aos pastores da Igreja (1Pd 5, 2). Mas o que fazer quando o rebanho não está mais conosco… e não pode estar? 

Toda essa situação põe em evidência esta verdade sobre nós, párocos: fomos ordenados propter homines — para servir o povo de Deus. Nossas vidas não fazem sentido sem um povo ao qual servir ou um rebanho do qual cuidar. Quando lhe perguntaram o que achava dos leigos, São John Henry Newman fez esta conhecida observação: “A Igreja seria ridícula sem eles”. De fato, os sacerdotes parecem ridículos numa situação como essa.

Infelizmente, temos consciência do que acontece quando um sacerdote perde a perspectiva sobrenatural e o senso do sagrado. Ele não apenas se torna inútil, mas perigoso. Um sacerdote deve, acima de tudo, concentrar-se no que é sagrado. Mas agora enxergamos a outra parte da equação com mais clareza. O sacerdote concentra-se no sagrado não por causa de si, mas pelos outros. Pois todo sumo sacerdote escolhido dentre os homens, diz a Carta aos Hebreus, “é designado para agir em nome dos homens perante Deus para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados” (5, 1). Sem a presença daqueles por quem age, portanto, um sacerdote pode perder de vista seu objetivo.

Nesse sentido, a suspensão da Missa pública pode e deveria se tornar uma ocasião para o crescimento espiritual, como todas as cruzes que suportamos. Temos de tirar todo o bem possível desse sofrimento.

Então, o que isso pode significar para um sacerdote?

Bem, para começar, a ausência dos fiéis pode lembrar aos sacerdotes que, na Missa, nos colocamos diante do Senhor em nome de nosso rebanho. É claro que os fiéis não estão presentes, mas nós estamos, e para representá-los. Isso realça a diferença entre alguém que conduz uma oração e um sacerdote. Aquele simplesmente coordena e guia uma ação em grupo, precisando apenas da autorização para fazê-lo, não da aprovação divina.

Porém, um sacerdote é designado para agir em nome dos homens perante Deus. Ele se coloca diante do Todo-Poderoso como personificação das orações e sacrifícios de seu rebanho — quer estejam ou não presentes. A ausência dos fiéis deveria, pois, aumentar nossa estima por essa verdade.

“Jesus sobe sozinho a uma montanha para rezar”, J. J. Tissot, c. 1890.

Outra luz que resplandece é da generosidade evangélica e da criatividade de tantos sacerdotes sem rebanho. Durante o bombardeio da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial, o monsenhor Ronald Knox se refugiou em Mells para trabalhar na tradução de partes da Sagrada Escritura. Subitamente, ele se tornou capelão de uma escola feminina que havia sido evacuada de Londres para aquela cidade pacata. Não era o melhor cenário para o estudioso Knox, nem se tratava de uma situação desejada por ele. Mas sua resposta foi generosa, criativa e duradoura. Daquela capelania surgiram duas de suas melhores obras: O Credo em Câmera Lenta e A Missa em Câmera Lenta.

Assim também muitos sacerdotes separados de seus fiéis estão tirando o máximo proveito da situação. Apesar do contexto triste e diferente daquilo que teriam escolhido, eles não desistiram. Estão tentando encontrar formas inusitadas de evangelizar. E a internet possibilita o uso de soluções criativas, tendo muitos visto nela oportunidades para chegar ao rebanho que já não está presente.

Além disso, toda essa situação revela a verdadeira natureza do ministério sacerdotal: é realmente uma questão de paternidade espiritual, diz respeito à presença de um pai perante seus filhos. A impossibilidade de estar presente realça de forma dolorosa a necessidade dessa presença.

Isso também mostra que toda a tecnologia que possuímos, que tendemos a enxergar como a solução para a evangelização, é insuficiente, apenas um paliativo. É um paradoxo fascinante o fato de que, nesta situação, dependemos ainda mais da tecnologia e ao mesmo tempo percebemos com maior clareza suas limitações. Por mais úteis que sejam, e-mails, transmissões ao vivo, vídeos etc. não podem nos colocar verdadeiramente em contato uns com os outros. Eles apenas nos sustentarão até que a verdadeira comunicação humana — sem mediação, face a face, pessoa a pessoa —  possa ser recuperada.

Não há nada que possa substituir a presença do pastor junto aos seus fiéis. E o coração de um sacerdote não pode contentar-se com uma conexão virtual. Ele anseia pelo real.

Finalmente, podemos tirar uma última rosa desses espinhos: uma valorização cada vez maior da devoção de nosso povo. A ausência de uma Missa pública dominical impactará consideravelmente as vidas de todos os católicos, quer eles percebam, quer não. Mas muitos se dão conta disso. Eles anseiam pela Missa, ainda vão à igreja para rezar e desejam receber tudo o que um sacerdote deseja oferecer. A dor e o anseio que sentem deveriam nos encorajar a nos fazermos dignos deles.

Passamos por um advento inesperado em plena Quaresma. Estamos esperando — e portanto nos preparando para — o momento em que o sacerdote de Cristo poderá estar com seu rebanho novamente.

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Coronavírus: uma ocasião para redescobrir o poder do silêncio
Espiritualidade

Coronavírus: uma ocasião
para redescobrir o poder do silêncio

Coronavírus: uma ocasião para redescobrir o poder do silêncio

Será um grande passo sairmos desse momento difícil tomando consciência do quão tolas são as inúmeras trivialidades com que fica obcecada a nossa cultura materialista. No entanto, muitos provavelmente não vão se dar conta disso.

Stephen KokxTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Março de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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Por mais estranho que possa parecer, uma das primeiras coisas que fiz depois de abraçar o catolicismo tradicional seis anos atrás, aos 27 anos, foi desligar o rádio do meu carro.

Até então, sempre que eu entrava no meu carro, eu ouvia os últimos lançamentos musicais do pop, do rock clássico ou do rap. A verdadeira questão não era se o rádio ou o CD player seriam ligados. A questão era simplesmente em que volume eu os colocaria.

Quando cheguei a uma compreensão mais profunda da fé católica  — graças, em parte, aos escritos de Santo Afonso —, fiquei menos atraído pelo mundo e por aquilo que ele considera como música.

As canções às quais eu recorria a fim de passar pelos altos e baixos da vida não tinham mais o mesmo significado. Passei a vê-las como nada mais do que formas cativantes de poluição sonora que, ao serem ouvidas, mesmo que por acaso, infelizmente acabavam permanecendo em minha mente pelas próximas 48 horas.

Então, eu abracei o silêncio. Quando dirigia, desligava o rádio e rezava, muitas vezes o Rosário. Nos momentos em que ouvia algo, era música clássica ou canto gregoriano.

Essa atitude exerceu um enorme impacto sobre a minha vida espiritual. Minha mente libertou-se da obsessão de conhecer os mais recentes artistas da indústria da música e suas canções entorpecentes. Passei lentamente de uma perspectiva naturalista da vida para uma mais sobrenatural que, acredito, permitiu que a graça fosse mais facilmente derramada em minha alma.

Suspeito que o surto de coronavírus esteja dando a milhões de pessoas a chance de experimentar algo semelhante ao que passei seis longos anos atrás.

Em todo o mundo, eventos esportivos foram cancelados. As salas de cinema estão fechadas. Bares, restaurantes e cassinos foram fechados. Os “entretenimentos” que prendiam as pessoas ao longo do dia de repente lhes foram tomados. Suas distrações, em outras palavras, foram reduzidas ao mínimo, e as coisas que, por muitos anos, lhes trouxeram uma falsa sensação de conforto não são mais capazes de consolá-las.

Que grande dádiva! Deus concedeu à humanidade a chance de apreciar o mundo como ele é, aproveitando a beleza do silêncio, em oposição ao que o Cardeal Robert Sarah chamou de “a ditadura do barulho”.

É também uma ocasião para milhões de almas perceberem que as muitas coisas às quais elas estão apegadas são, na realidade, armadilhas sem sentido que, muitas vezes, desviam sua atenção das coisas que realmente importam — sua fé, sua família e seus amigos.

Esse tipo de circunstância não ocorre com muita frequência. Na prática, para levar as pessoas a pensar na mudança das próprias vidas como o coronavírus as está forçando a fazer, seriam necessários milhões de missionários cristãos viajando para todos os cantos do mundo.

Infelizmente, eu aposto que, quando o surto terminar, nem todas as pessoas perceberão que muitas coisas que elas “amam” não passam, na verdade, de vícios sem sentido. Muitas simplesmente permanecerão relutantes, ou serão incapazes de libertar-se da vida cheia de distrações que estavam vivendo. “Um cão que volta ao seu vômito: tal é o louco que reitera suas loucuras” (Pr 26, 11).

Seria um grande passo se saíssemos disso tomando consciência do quão tolas são as inúmeras trivialidades com que fica obcecada a nossa cultura materialista. No entanto, muitos provavelmente não vão se dar conta disso. O mais provável é que apenas olhem para trás e vejam este momento como um incômodo que toleraram contra a própria vontade, e não como uma ocasião que tiveram de abraçar com alegria a penitência que foram forçados a suportar, e de oferecê-la pela salvação das almas.

Seja como for, minha esperança é de que as pessoas em geral desliguem os rádios dos seus carros (e seus aparelhos de televisão), e se envolvam com atividades de lazer e hobbies que lhes preparem melhor a alma para receber a graça que o Deus todo-poderoso tanto deseja derramar em seus corações. Ler, cozinhar, pintar, caminhar, andar de bicicleta, escrever e cuidar do próprio jardim são, na minha opinião, os melhores lugares por onde começar.

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