Era véspera de Natal quando São Bonifácio, acompanhado por um grupo de missionários, chegou ao vilarejo de Geismar para impedir um assassinato. Na discreta cidade germânica, ao pé de um enorme carvalho, reuniam-se alguns pagãos fanáticos para sacrificar uma criança ao falso deus Thor (sim, o mesmo dos Vingadores).

O paganismo era ainda bastante popular entre os germanos em 723. Muitos temiam um castigo do “deus do trovão” e, por isso, procuravam aplacar a sua ira oferecendo-lhes alguns tributos. O local próprio para a liturgia sacrificial deles era o chamado “carvalho do trovão”, exatamente onde São Bonifácio os encontrou naquela noite de 24 de dezembro. “Aqui está o carvalho do trovão, e aqui a Cruz de Cristo que romperá o martelo do falso deus Thor”, disse-lhes o corajoso bispo.

São Bonifácio precisou extirpar o velho carvalho, mais ou menos como fez Elias com os profetas de Baal no Antigo Testamento (cf. 1Rs 18, 20ss), para expor a crueldade do paganismo e a salvação em Jesus Cristo. Com aquela madeira, o bispo mandou construir uma capela e, no lugar da árvore do trovão, sob a qual inocentes eram assassinados, nasceu um pequeno abeto, que São Bonifácio chamou de “árvore do Menino Jesus”: “Esta pequena árvore será vossa santa árvore esta noite… Reuni-vos em torno dela, não no bosque selvagem, mas em vossos lares; ali haverá refúgio e não haverá ações sangrentas, mas presentes amorosos e gestos de bondade”. Assim nasceu o costume de enfeitar pinheiros durante o Natal.

Estátua de São Bonifácio na Catedral de Mainz.

Anos mais tarde, São Bonifácio teria seu derradeiro combate contra o paganismo, que lhe custaria o próprio sangue. Ressentidos pelo progresso da religião católica, um bando de pagãos atacou o santo bispo logo no início da Santa Missa, no dia 5 de julho de 754. “Eis o dia há muito almejado, eis que chegou o tempo do nosso fim; coragem no Senhor”, exclamou São Bonifácio antes de falecer. O seu sangue, no entanto, selou a cristianização da Alemanha e de grande parte da Europa.

Apesar do sabor um pouco romântico, a crônica desses episódios ilustra bem a incompatibilidade entre a religião católica e o credo profano. Assim como São Bonifácio, outros tantos homens e mulheres empreenderam a obra de evangelização, pagando muitas vezes com suas próprias vidas, tudo para suplantar o culto pagão pela adoração ao verdadeiro Deus, que se encarnou e revelou a sua face a nós. De fato, o Natal do Deus menino tornou absolutamente obsoleta qualquer outra prática religiosa, senão a do Deus verdadeiro revelado. Desse modo, os missionários católicos lutaram para estabelecer o culto a Nosso Senhor Jesus Cristo, cujo sacrifício serviu para redenção e felicidade de toda a humanidade,  no lugar dos sacrifícios pagãos, que escravizam os homens no medo, em superstições e rituais sanguinários.

Ora, o que movia os pagãos a fazerem sacrifícios humanos era precisamente o medo. Na noite de Natal, porém, os anjos disseram aos pastores de Belém: “Não temais! Eis que vos anuncio uma grande alegria, que será para todo o povo: Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo Senhor, na cidade de Davi” (Lc 2, 10). Notem para quem deve ser esta alegria. Não é apenas para alguns eleitos, mas para todo o povo. Por isso, os missionários católicos jamais se contentaram em guardar a boa nova do Evangelho para si mesmos, mas buscaram levá-la a todos os cantos a fim de retirar as nações das trevas do terror e conduzi-las à alegria da salvação. Em outras palavras, eles derrubaram as florestas do paganismo para semear um novo jardim: o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Para os fiéis católicos, portanto, nunca houve dúvida de que os dois cultos não poderiam jamais coexistir em pé de igualdade simplesmente porque são totalmente adversários um do outro. Com a Encarnação, Cristo revelou definitivamente qual seria o Caminho. Desse modo, qualquer tentativa de conciliação entre a religião revelada e as demais resultaria em prejuízo da verdade e da salvação das almas, porque onde a mentira é igualada à verdade, os homens sentem-se livres para seguir qualquer caminho e se perderem. Nesse caso, a Igreja sempre afirmou: um só caminho é verdadeiro, o outro é falso. Um só é divino, o outro é diabólico. Um só é para a vida, e vida em abundância, o outro é para a morte, e morte eterna.

Com efeito, o Magistério da Igreja procurou ao longo dos anos esclarecer quanto é ilícito para os Estados “pôr os diversos cultos no mesmo pé legal que a verdadeira religião”, embora não condene “os chefes de Estado que, em vista de um bem a alcançar ou de um mal a impedir, toleram na prática que esses diversos cultos tenham cada um seu lugar no Estado” (Leão XIII, Immortale Dei, 46). De qualquer modo, todos devem ser incentivados a abraçar a única fé católica e reconhecer nela o caminho seguro para a paz e a concórdia entre os homens e mulheres de boa vontade. Ao menos, essa sempre foi a convicção do Povo de Deus.

Hoje, por outro lado, assistimos a um fenômeno diametralmente oposto: o desmatamento do jardim de Cristo, por assim dizer, para a semeadura de outro paganismo, e um paganismo até mais severo que o anterior, porque pós-cristão. Ou seja, antes não se conhecia Jesus Cristo, nem a sua mensagem. Agora Ele é conhecido, mas os homens preferem rejeitá-lo, ou mesmo hostilizá-lo e expurgá-lo da vida pública. O cristianismo passa a ser visto não mais como “religião da alegria”, mas como a “religião do medo”, enquanto o paganismo se torna a única atitude religiosa moralmente aceitável. Daí que o Tribunal Europeu de Direitos Humanos, por exemplo, decida por unanimidade que é justo uma mulher se despir dentro de uma igreja, durante uma celebração de Natal, para “contribuir para o debate público sobre os direitos das mulheres”.

A personagem Wandinha, interpretada por Jenna Ortega.

Que esses direitos das mulheres se refiram precisamente à legalização do aborto, não é mera coincidência. No altar do paganismo, os pequenos inocentes continuam a ser sacrificados. A diferença é que agora não mais para aplacar a ira de Thor, mas para satisfazer os interesses das chamadas “mulheres empoderadas”, por exemplo. Uma figura icônica desse movimento é a atriz Jenna Ortega, a mais nova queridinha da cultura pop, que tem aproveitado o sucesso de sua personagem Wandinha, protagonista da série homônima pela Netflix, para promover a indústria do aborto nos Estados Unidos. Estes são os novos deuses, ou deusas, do paganismo.

O curioso é que a personagem Wandinha faz parte precisamente da Família Addams, a bizarra família criada pelo cartunista Charles Addams, que representa uma visão distorcida de como os protestantes americanos viam os católicos latinos. Tal como na série, os católicos hoje somos representados como figuras excêntricas, impiedosas, mórbidas e perigosas para a estabilidade da sociedade. Por essa razão, somos combatidos dentro e fora da Igreja. “Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo”, criticava o Cardeal Joseph Ratzinger já em 2005, na homilia da Missa Pro Eligendo Romano Pontifice. Essa percepção só se agravou atualmente, quando a boa doutrina católica é agora associada a uma espécie de “fascismo religioso”. Ou seja, crime.

O que explicaria essa mudança tão drástica? Bem, Pio XI tinha uma explicação: “Talvez deva este fato atribuir-se à indolência e timidez dos bons que se abstêm de toda resistência, ou resistem com moleza, donde provém, nos adversários da Igreja, novo acréscimo de pretensões e de audácia” (Quas Primas, 24). Justamente porque há poucos como São Bonifácio, dispostos a enfrentar de forma varonil os desatinos do paganismo, é que os maus vão tomando coragem para atacar a imagem do cristianismo e destruir a sua reputação. E agora procuram matá-lo já no berço, no coração das crianças, por meio de um ensino torpe “que se faz particular amigo da infância e procura aliciá-la” para formar a sociedade neopagã (Pio XI, Quadragesimo Anno).

Neste Natal de 2022, ao fim e ao cabo, estamos de volta à condição do valente “apóstolo dos germanos” e temos de fazer uma escolha: desferir a Cruz de Cristo contra o machado do paganismo, defendendo a identidade da Igreja Católica; ou ceder de uma vez ao medo mundano, enquanto novas vítimas são sacrificadas no altar dos falsos deuses. A sorte da religião católica nos próximos anos ficará à mercê do testemunho que dermos hoje. Ou o pinheiro de Natal, ou o carvalho de Thor.