Em fevereiro de 1917, antes [das aparições] de Nossa Senhora de Fátima e antes que os soviéticos conquistassem a Rússia, os comunistas atacaram primeiramente o México. Nele, encontramos a primeira Constituição socialista da história do mundo [1]. O governo mexicano sabia que um confronto direto com a Igreja seria inútil, então concentrou seus esforços em uma área específica: o ensino público.

Aqui é onde o verdadeiro conflito começou. Até então, era a Igreja que educava seus paroquianos de acordo com os seus dogmas, mas em harmonia com o Estado. A esfera de influência da Igreja sempre esteve presente para o mexicano comum. Todos os eventos principais da vida de qualquer pessoa (batismo, educação, primeira comunhão, casamento, funeral etc.) eram conduzidos pela Igreja.

Visto que tal influência era um obstáculo aos socialistas, o novo governo mexicano tentou privar a Igreja de seu direito de educar e, em seguida, preencher o vazio com a educação comunista. Embora a nova Constituição de 1917 modificasse a lei e a colocasse contra a Igreja, Venustiano Carranza (o líder das reformas constitucionais) astutamente decidiu não fazer cumprir as leis contra a educação da Igreja, já que o México acabava de sair de anos de uma sangrenta guerra civil, e era muito cedo para arriscar uma reação. Mesmo assim, a semente anticlerical fôra plantada e bastou algum tempo para ela germinar.

Os marxistas agem. — O “fertilizante” ideal chegou em 1924, quando um ex-comandante da revolução mexicana, Plutarco Elias Calles (1877–1945), subiu ao poder. No mesmo ano, as relações diplomáticas entre o México e a União Soviética foram oficialmente formalizadas. Depois que Calles assumiu o poder, ele ainda esperou dois anos para iniciar uma perseguição aberta à Igreja. Até que finalmente começou a fazer cumprir a Constituição socialista: Ordens religiosas foram expulsas, vestes clericais foram proibidas e propriedades da Igreja foram confiscadas pelo governo, junto com escolas, hospitais, mosteiros e orfanatos. Logo os marxistas começaram a perseguir os padres e a forçar os professores mexicanos a ensinar suas doutrinas; se não o fizessem, perderiam seus empregos.

Os mexicanos e o mundo ficaram pasmos e chocados com os abusos que o governo Calles perpetrou contra seus próprios cidadãos. Como poderia uma administração abertamente anticatólica estar no México, por todas as partes? A terra da Virgem de Guadalupe? Inacreditável. Os inimigos da fé pensavam que perseguir a Igreja extinguiria o catolicismo, mas, como sabemos pela história, o poder da morte e da violência não pode sobrepujar a Igreja. Uma revolta popular surgiu a partir de homens de Deus, que combinaram o amor gentil do índio por Nossa Senhora de Guadalupe com o espírito de luta de São Tiago Maior.

Anacleto González Flores, um dos dirigentes cristeros, convocou-os no início da guerra: “Sei muito bem que o que se inicia para nós agora é um Calvário. Devemos estar prontos para tomar e carregar nossas cruzes” [2]. Em 1929, 40 mil homens serviram como cristeros, vivendo e morrendo, confiando na cruz de Cristo [3]. Depois de anos de conflito, a paz aconteceu (a um preço muito alto) e a Igreja foi autorizada a existir (com direitos restritos, mas não mais fugitiva) e os fiéis foram novamente livres para ter acesso aos sacramentos.

Os “cristeros”.

O legado dos cruzados mexicanos. — O México lutou e sobreviveu ao ataque do socialismo (já se infiltrando nos governos e na Igreja), enquanto o resto do mundo estava se dobrando à pressão marxista. Depois da Guerra dos Cristeros, o Seminário de Guadalajara tornou-se um dos maiores e mais importantes do mundo para a Igreja.

O México é um dos países onde o protestantismo mais teve dificuldades para criar raízes, apesar das inúmeras tentativas feitas por diferentes denominações protestantes. Entre os imigrantes que estão nos Estados Unidos, os de origem mexicana são os mais propensos a manter a fé católica. Este é um dos tesouros escondidos que muitas vezes deixamos de ver, só para citar alguns [4]. Atualmente, o legado dos cristeros está sendo redescoberto, não apenas pelos mexicanos, mas por todo o mundo.

Eu me beneficiei pessoalmente da coragem demonstrada pelos católicos durante esse período. Foi na era pós-cristeros que nasceu meu avô materno. Isso teve um impacto direto em minha alma, já que meu avô materno foi a influência masculina mais importante em minha vida. Mesmo depois de sua morte, continuo aprendendo com as inúmeras lições e sabedoria que ele transmitiu por palavras e ações. Meus bisavós poderiam ter respondido ao assalto à fé com violência e raiva, ou desprezo pelos inimigos, ou mesmo desistindo da fé; afinal, os tempos não eram muito favoráveis para o catolicismo. Eles poderiam ter dito: “É inútil, tudo está perdido”, mas (como milhões de mexicanos) eles fizeram o oposto: abraçaram a cruz.

Meus bisavós enfrentaram essa adversidade vivendo a fé (criando os filhos, incutindo-lhes virtudes e sempre mantendo a esperança) e foi por causa dessa atitude piedosa que meu avô pôde conhecer e amar a Cristo. Ele, por sua vez, foi capaz de viver uma fé que não era apenas relíquia da antiguidade, mas uma fé viva.

Contra o marxismo hoje. — Em nossa época, começamos a perceber atitudes hostis em relação à Igreja e seus ensinamentos, assim como nos anos anteriores a 1917, no México. Existe algo que podemos fazer? Se sim, como devemos proceder? Obviamente, o primeiro passo é a oração e uma vida em estado de graça. Depois disso, devemos desenvolver uma atitude de piedade e fraternidade cristã. Os católicos, durante a Guerra dos Cristeros, compreenderam que, independentemente das diferenças, todos deviam cuidar uns dos outros com verdadeira caridade.

Ao contrário da crença popular, embora os cristeros fossem extremamente corajosos, eles geralmente evitavam (se possível) conflitos com as tropas do governo. Eles não procuravam sangue, mas paz. Eles rezavam por seus inimigos e mostravam misericórdia para com eles. Quando ganhavam uma batalha, sabiam que Cristo havia lutado por eles, porque eles mesmos não tinham, em absoluto, um arsenal à sua disposição, tampouco uma terra onde pudessem ser autossuficientes. Eles sabiam que o primeiro passo para ser católico era tratar uns aos outros como o que somos: irmãos católicos. A mesma lição permanece para nós.

Se vamos ter de carregar esta cruz, devemos olhar para trás, para os que fizeram isso com sucesso antes de nós, e aprender com eles. Se formos fiéis, poderemos ser a geração que estabelecerá as colunas do catolicismo neste país, de uma maneira permanente e com um impacto eterno [5]. 

Por ora, concentremo-nos no que tem um impacto imediato em nossa sociedade: viver em estado de graça. Vislumbremos os tempos potencialmente difíceis que temos pela frente como uma oportunidade para viver um catolicismo forte e consciente. Se chegar a hora de plantarmos a mesma semente que os cristeros plantaram, pelas mãos de Nossa Senhora, podemos responder com segurança ao chamado: Viva Cristo Rey y Nuestra Señora de Guadalupe!