Um homem passava por um momento particularmente difícil. Embora não estivesse possuído, há muito era afligido pelo que pareciam ser obsessões demoníacas e sentimentos implacáveis de inutilidade e desespero. Ele levava uma vida cristã exemplar de santidade, mas os tormentos mentais continuavam e, com as pressões de sua vida naquele momento, tornaram-se debilitantes.

Ele procurou a ajuda de um padre exorcista, que recomendou algumas orações de libertação, e também que ele visitasse uma mulher espiritualmente sensitiva [i]. Eles discerniram que o homem de fato estava sofrendo de obsessões demoníacas e, para a surpresa dele, uma das causas era o fato de ter sido amaldiçoado pelo pai. Quando criança, ele fora abusado verbalmente em diversas ocasiões pelo pai, que descarregou irracionalmente a raiva no filho: “Mande aquele moleque desgraçado calar a boca!” [ii] Em seguida, o pai o ameaçava. A criança se sentia amedrontada, inútil e rejeitada.

A equipe o conduziu por diversas sessões de libertação, nas quais ele tinha de perdoar o pai e dizer formalmente: “Eu rejeito a mentira de que sou um filho inútil”. Em seguida, foram retiradas quaisquer maldições lançadas contra ele. Quando as sessões chegaram ao fim, o homem recuperou o equilíbrio emocional e descobriu uma nova percepção de paz interior.    

O Pe. Gabriele Amorth, famoso exorcista de Roma, escreveu:

Quando maldições são pronunciadas com verdadeira perfídia, particularmente quando há um vínculo de sangue entre o que amaldiçoa e o amaldiçoado, os efeitos podem ser tremendos. Os casos mais frequentes e mais graves que encontrei envolviam pais ou avós que amaldiçoaram os filhos ou os netos [iii].

Ainda segundo o sacerdote, a primeira condição necessária para que aconteça o processo de cura é que a pessoa amaldiçoada perdoe os seus pais.

Às vezes os pais amaldiçoam intencionalmente um filho, particularmente quando ele frustra as expectativas deles em relação ao futuro; por exemplo, quando ele se casa com uma pessoa ou segue uma vocação “inaceitável”. Em outras ocasiões, como no caso em questão, um pai ou uma mãe descarrega a raiva no filho com ameaças, maldições e palavras condenatórias. O pai ou a mãe pode gritar: “Você jamais será alguém na vida!” O dano psicológico e espiritual que isso pode gerar em uma criança não deveria ser subestimado.

Os pais têm uma autoridade e um poder singulares para abençoar os filhos. Ao mesmo tempo, têm uma capacidade singular de magoá-los…

O Papa Bento XVI narrou suas experiências de quando era abençoado pelos pais na infância:

Nunca me esquecerei da piedade e do carinho interior com que pai e mãe faziam, com água benta, o sinal da cruz em nós crianças — na testa, na boca e no peito, principalmente quando se despediam de nós por muito tempo. Nessa bênção, sentíamos um acompanhamento que nos guiava — como se fosse a visualização da oração dos pais, que ia conosco e que tínhamos a certeza de ser sustentada pela bênção do Salvador (...). Eu penso que a bênção é a expressão do sacerdócio geral de plena legitimidade de todos os que foram batizados e que deveria entrar novamente e de uma forma mais acentuada no cotidiano [iv].

Notas

  1. Segundo o próprio Mons. Stephen Rossetti, essa sensibilidade ao mundo espiritual, ou “sensitividade”, pode ter várias origens: (1) carisma natural, que as pessoas podem usar tanto para o bem quanto para o mal (enquadram-se aqui, e.g., alguns dos “médiuns” espíritas); (2) dom sobrenatural, dado por Deus para que a pessoa agraciada ajude outras pessoas; (3) manifestação demoníaca, devido ao envolvimento da pessoa com o ocultismo; ou simplesmente (4) produto de uma imaginação hiperativa. (N.T.)
  2. No texto original, a expressão completa é omitida: g….d…, mas certamente se trata da palavra goddamned — literalmente: “condenado por Deus”. Assim como no Brasil (“desgraça”, “desgraçado”, “que fulano se dane”, “que vá para o inferno” etc.), expressões como essa são usadas muitas vezes em outros sentidos, já dicionarizados, mas trata-se de um costume detestável, especialmente no âmbito familiar, em que os pais devem educar os filhos pela palavra e pelo exemplo. Quando ditas com intenção real de amaldiçoar o próximo, desejando-lhe o sumo mal (que é a danação eterna), tais palavras constituem sem dúvida nenhuma pecado mortal, como explica Santo Tomás (cf. STh II-II 76, 3). No caso específico, goddamned ainda tem o agravante de ser um uso indevido do santíssimo nome de Deus (atentando contra o segundo mandamento do Decálogo). (N.T.)
  3. Pe. Gabriele Amorth, Un esorcista racconta. 17.ª ed. Bologna: Edizioni Dehoniane Bologna, 2000, p. 157. (“Um exorcista conta-nos” é o título da tradução portuguesa da obra.)
  4. Cardeal Joseph Ratzinger, Introdução ao Espírito da Liturgia. 5.ª ed. Prior Velho: Paulinas, 2012, p. 136.