São João Bosco foi um dos mais célebres pedagogos e educadores que já existiu. Qual era o seu método? À parte uma breve dissertação sobre os Sistemas Preventivo e Repressivo, a ser examinada mais adiante, ele não expôs em detalhes os seus princípios de educação. Todavia, num sermão sobre São Filipe Néri a uma assembleia de sacerdotes, em maio de 1868, ele descreve um ideal de apostolado com os jovens que, para quem conhece a vida de Dom Bosco e para o auditório daquele dia, representa manifestamente o seu ideal pessoal. Por isso, citemos longamente este sermão:  

Venite, filii, audite me, timorem Domini docebo vos — “Vinde, filhos, ouvi-me; eu vos ensinarei o temor do Senhor” (Sl 33, 12): estas palavras, juntamente com a sua grande bondade e uma vida de virtudes, faziam rapazes de toda a parte, em grandes multidões, serem atraídos para o nosso santo. Ele falava pessoalmente ora a um, ora a outro: com o estudante era o [homem] letrado, com o aprendiz era o mestre; para o jovem carpinteiro, era o artesão [...]; para o pedreiro, o mestre de obras [...]. Ao tornar-se tudo para todos, ele ganhou-os todos para Jesus Cristo. Por isso, os jovens, seduzidos pelos seus modos gentis, pelas suas conversas úteis e edificantes, sentiam-se atraídos por aquilo que Filipe tinha para lhes oferecer... Mas como é que ele podia orientar estes rapazes de mentes tão dispersas — que gostavam tanto de comer, beber e divertir-se — para a piedade e para a Igreja? Escutem! Filipe encontrou a chave: imitando a mansidão e a bondade do Salvador, tratou-os com paciência e com amor...

Quando as pessoas pediam a São João Bosco que expusesse o seu sistema educativo, ou quando os seus discípulos estavam prestes a partir para qualquer destino em especial, ele dizia-lhes: “Tudo o que tendes a fazer é observar o que eu faço; ide, depois, e fazei o mesmo”. O nosso santo não era um homem de teorias, mas de ação, por inteiro. Vamos observá-lo pois em ação, e assim conheceremos os seus métodos educativos.

Estátua de São João Bosco e São Domingos Sávio.

Uma manhã, por ocasião de sua primeira viagem a Roma, em 1858, ele falava de educação com um certo Cardeal Tosti. Disse ao prelado que era essencial conquistar a confiança e o amor das crianças. Como é que se consegue isso? “Fazendo tudo o que estiver ao seu alcance para pôr as crianças em contato consigo próprias, quebrando todos os obstáculos que as mantêm à distância”. E como seria possível alcançar isso? “Tentando nos adaptar aos gostos delas, tornando-nos parecidos com elas”. Para ilustrar o seu ponto de vista, Dom Bosco acompanhou o cardeal até a Piazza del Popolo, dirigiu-se a um grupo de crianças, deu-lhes uns presentes, uma ou duas medalhas, perguntou-lhes de suas famílias e depois arregaçou as mangas da batina e participou do seu jogo. De vez em quando, ele perguntava-lhes delicadamente se costumavam rezar ou confessar-se. No final, ele estabeleceu uma tal relação com eles que os meninos não queriam que ele fosse embora e, quando se foi, a multidão o acompanhou em aplausos.

O espírito de intimidade, amor e alegria era característico do Oratório de São João Bosco. “Um educador deve participar de toda a vida dos seus alunos”, disse ele um dia. No Oratório, estava em todos os lugares ao mesmo tempo, exercendo sua supervisão e vigilância amorosa sobre os seus filhos. Durante a recreação, quando algum rapaz começava a querer brigar, ou a usar uma linguagem indevida, ele tomava-lhe o lugar na brincadeira e chamava-o para brincar em outra parte. Encantava a todos com sua inteligência e imaginação, e impressionava-os com sua maestria em todos os jogos. Encabeçava uma procissão de centenas de rapazes em torno do Oratório, num jogo hilariante de O Mestre Mandou, que tinha como objetivo secundário inspecionar os cantos escuros do edifício em busca de qualquer delito que pudessem esconder. À noite, os rapazes dirigiam-se à sala onde ele comia, e o santo contava-lhes charadas ou anedotas, e derramava sobre eles o seu afeto.

Alegria e Amor

Para envolver esses jovens na luz e no calor de que eles necessitavam, o santo tentou de todas as maneiras possíveis mergulhá-los numa atmosfera permanente de alegria. Ele contava com a alegria para expandir a alma, banir o tédio, infundir emoção à vida, acelerar a inteligência, associar no espírito dos rapazes a noção de prazer à de dever, e sobretudo encher os seus corações de um sentimento de confiança e abandono [em Deus]. Ele queria alegria não só durante a recreação e as atividades fora da escola, mas também nas aulas. Em 1847, ele foi um dos primeiros educadores modernos a montar um palco. Outras atividades incluíam a música e as [chamadas] sociedades do altar [i]. O sucesso de sua busca por alegria foi atestado no comentário de um grande assistente social de Turim: “Há, no número 32 da Rua Cottolengo, algo que não se encontra em nenhum outro lugar, mesmo nas comunidades religiosas. O menino ou jovem que entra neste aposento, com o coração cheio de cansaço ou amargura, sai de lá radiante de alegria. É a casa de Dom Bosco”. 

São João Bosco, retratado por Ramon Bofarull.

A alegria e o amor são inseparáveis, e se há uma palavra que pode resumir o método educativo de São João Bosco, e na verdade todo o seu ser, essa palavra é amor. A sua compreensão, a sua preocupação com os seus rapazes, a sua devoção, o seu sacrifício e afeto por eles, a sua autoridade e cobranças sobre eles, baseavam-se no amor, e só no amor. “Sem afeto não há confiança, e sem confiança não há educação” era um de seus aforismos constantes, ou ainda: “Faze-te amar, se queres ser obedecido”. “Queres ser amado? Então ama. E mesmo que isso não seja suficiente, dá mais um passo: não só deves amar os teus alunos, como deves fazê-los sentir que os amas. E como é que eles vão sentir isso? Escuta o teu próprio coração; ele te dirá.”

Vejamos com mais detalhes a relação de Dom Bosco com os seus filhos. “O seu objetivo era reproduzir o ambiente familiar indispensável ao ser humano”. O papel mais evidente seu para com os filhos era, de fato, o de pai. Não é preciso ser um grande psicólogo para compreender que, ao menos em um nível natural, a dor e a perda que ele experimentou com a morte do próprio pai, em tenra idade, inspiraram nele uma preocupação paternal com rapazes abandonados, órfãos e em sofrimento. Em 1885, por exemplo, o santo escreveu ao jovem Francesco Bonmartini: “Meu querido e pequeno Francesco... Aconteça o que acontecer, sabes que Dom Bosco te prometeu... que quer ser teu pai, e particularmente quer ser o pai da tua alma”. Ele chamava aos seus noviços gaudium meum et corona mea (“minha alegria e minha coroa”), e aos seus filhos espirituais [no sacerdócio] dizia: “Sede não superiores, mas pais”. 

E, no entanto, o seu amor não era apenas o amor de um pai; era também o amor de um amigo e de um irmão, talvez como reflexo do amor de Deus pelo homem, que ama não só como Pai, mas também como amigo e irmão, em Cristo. “Venho a vós como pai, amigo e irmão”, escreveu ele numa carta aos oratorianos de Mirabello, em 1867. “Deixai-me segurar os vossos corações nas mãos por alguns instantes, e vós sereis felizes e contentes, porque a graça do Senhor enriquecerá as vossas almas e vos dará a paz... Rezai por mim, que permaneço afetuosamente vosso, de todo o coração, em Jesus Cristo”. A sua carta a Francisco, acima mencionada, termina com estas palavras: “Vosso amigo muito afetuoso, Padre João Bosco”. Ao iniciar o seu ministério sacerdotal, no começo da década de 1840, a visão de adolescentes atrás das grades inspirava-lhe o desejo de fazer amizade com os jovens sofredores. “‘Quem sabe’, dizia eu a mim mesmo, ‘se estes rapazes encontrassem no mundo um amigo interessado neles, e que também lhes ensinasse a religião aos domingos, quem sabe se não conseguiriam sair dessa, ou pelo menos diminuir o número de recaídas?’”

Antes de continuar, vamos observar brevemente algumas características do amor de pai, de irmão e de amigo, para tentar compreender melhor o amor de Dom Bosco por seus filhos: 

  • o amor de pai funda-se na experiência e no conhecimento, é um amor forte, profundo e abrangente; 
  • o amor de irmão encoraja e atrai, desperta admiração e respeito sem envolver receios nem distâncias; 
  • o amor de amigo é um amor íntimo entre iguais, no mesmo nível: não se baseia em laços familiares, mas traz consigo gratuidade e dá-nos um sentido de valor objetivo.

Investiguemos o amor de Dom Bosco por seus jovens sob duas perspectivas: o da disciplina e o da formação espiritual. O que foi dito acima sobre a natureza do seu amor manifesta-se claramente nestes dois aspectos, onde os seus métodos nunca são autoritários, mas sempre sutis e suaves, e atrativos ao coração.

Disciplina Preventiva

Dom Bosco chama ao seu método disciplinar “preventivo”, em vez de “repressivo”. Ele descreve o sistema repressivo como envolvendo olhares severos, falta de familiaridade e ausência frequente do superior, exceto para emitir alertas e castigos. Em oposição a este método está o preventivo, que envolve uma explicação clara das regras, uma vigilância amorosa por parte dos superiores, além de conselhos e correções de forma caridosa. “É inteiramente baseado na razão, na religião e na caridade. Exclui, portanto, todo o castigo violento e tenta prescindir até mesmo do mais leve castigo.” Como o rapaz foi previamente aconselhado, ele não ficará abatido com suas faltas; como é tratado de uma forma amigável, que apela à sua razão, ele não se irritará com a correção. “A razão principal deste sistema está na irreflexão da juventude. Muitas vezes, um rapaz torna-se merecedor de castigo quando comete, sem pensar, uma falta que teria evitado, se uma voz amiga o tivesse avisado a tempo”.

Outro retrato de Dom Bosco por Ramon Bofarull.

Nas raras ocasiões em que é necessário recorrer ao castigo, o encarregado de punir “deve ter o cuidado de não endurecer o coração do rapaz, fechando-o assim para a obra positiva da educação”. Em consequência deste princípio, “os castigos devem ser adiados tanto quanto possível, não devem ser humilhantes nem irritantes, devem ser razoáveis e motivados pela bondade, com um apelo, tanto quanto for possível, ao coração da criança”. Os castigos públicos deviam ser evitados; as expulsões necessárias por escândalos ou desobediências obstinadas eram efetuadas com ponderação; não havia castigos gerais quando não era possível encontrar o infrator; assim como não havia castigos fixos e nunca se recorria a castigos físicos. “Com os jovens, castigo é qualquer coisa que se supõe ser um castigo — um olhar de reprovação é mais eficaz do que uma palmada. O elogio pelo trabalho bem feito e a censura quando se negligenciam os deveres são, eles próprios, recompensa ou castigo”. Era castigo suficiente para Dom Bosco o simples fato de negar a um rapaz o seu habitual olhar caloroso ou a sua saudação amigável. Era frequente os rapazes saírem para chorar em um canto porque [diziam]: “Dom Bosco não olhou para mim”. O santo observava que o educador deve primeiro esforçar-se por ser amado e, quando conseguir, “a omissão de um sinal de bondade será um castigo que reacende a emulação e reaviva a coragem, mas nunca degrada”.

Um exemplo dos seus métodos sutis e suaves de correção pode ser encontrado nos escritos do Conde Connestabile. Quando este perguntou a Dom Bosco que castigo havia reservado para um dos seus piores delinquentes, o nosso santo disse-lhe que aproximou-se do rapaz durante a recreação e perguntou-lhe sobre sua saúde. O rapaz respondeu que estava bem. Em seguida, São João Bosco lhe perguntou: “E estás contente com o rumo da tua vida?” O rapaz ficou corado e não respondeu. O santo continuou em tom carinhoso: “Ora! Vejo que, embora o teu corpo esteja bem, talvez a tua alma esteja mal. Há quanto tempo não te confessas?... Bem, não precisas responder. O teu silêncio me diz muito. Promete-me que vais resolver o assunto o mais rápido possível, não vais, meu rapaz?” Poucos minutos depois, o rapaz estava no confessionário e não havia mais queixas sobre ele.

Um efeito positivo do sistema preventivo é que “o aluno será sempre respeitoso para com os seus educadores e irá lembrar-se dos cuidados deles. Olhará para eles como pais e irmãos…” De fato, como observa o Pe. Peter Lappin, Dom Bosco “vivia no que era mais parecido com uma redoma de vidro. Mesmo naquela [tenra] idade, eles [os meninos] podiam compreender como toda a vida do santo girava em torno deles, como ele dedicava todos os instantes do dia ao bem-estar deles”.

Dom Bosco termina a sua breve exposição sobre o “sistema preventivo” com as palavras: “Caso entrem na escola rapazes que já tenham adquirido maus hábitos, eles não poderão prejudicar os outros, pois não haverá tempo, lugar, nem ocasião para isso”. Isto remete a outra caraterística essencial do seu sistema educativo, a ocupação: os rapazes eram mantidos ocupados desde o momento em que levantavam até o momento em que deitavam para dormir. “É preciso manter os meninos do Oratório constantemente ocupados”, dizia ele, com aulas, com o seu ofício, com música, com as sociedades do altar, com jogos, ginástica, recitais, teatros e passeios, todos os quais constituem “os meios mais eficazes para obter disciplina e melhorar a conduta e a saúde”. Também as suas mentes devem estar constantemente ativas. Com efeito, o Mons. Pietro Maria Ferré, bispo de Casale Monferrato, considerava a insistência do nosso santo no trabalho como um de seus dois grandes segredos: “Ele encarrega-os de tanto trabalho, e ocupa-lhes tanto a mente, que eles não têm tempo para se ocuparem de outra coisa”.

Formação Espiritual

O outro grande segredo do nosso santo, que é mencionado em primeiro lugar pelo bispo, é a piedade que ele incute nos seus rapazes. “Ele quase os embriaga”, diz o prelado. “Está na atmosfera, no ar que respiram. Isto torna os rapazes tão dóceis que eles agem por convicção e de acordo com a sua consciência”. Mesmo que quisessem fazer algo de errado, teriam de nadar contra a maré e seriam como peixes fora d’água.

Mas como é que o santo inspirava tanta piedade em seus filhos, como é que assegurava a sua formação espiritual? Mais uma vez, sem medidas autoritárias, mas com sutileza, doçura e encorajamento: 

Nunca forçai os rapazes a frequentar os sacramentos. Em vez disso, encorajai-os e dai-lhes todas as oportunidades para o fazerem. Durante os retiros, os tríduos, as novenas, os sermões e as aulas de catecismo, deve-se sempre insistir na beleza, na grandeza e na santidade da nossa religião, porque nos sacramentos ela oferece a todos nós um meio fácil e útil para alcançar a paz de espírito e a salvação eterna

Os rapazes eram livres para receber a comunhão quando quisessem e para confessar-se quando quisessem. Não havia obrigação de frequentar nenhum dos dois sacramentos a qualquer momento. Pelo contrário, eram encorajados a fazê-lo pelas “fervorosas e particulares exortações” dos seus superiores. O ensino religioso era prioritário em casa, através de lições breves, vivas e práticas; de catecismos bem preparados; de reflexões de cinco minutos após as orações da noite, para deixar aos ouvintes um pensamento antes de dormir; de leituras breves após a Missa e antes da bênção; de conselhos religiosos ou morais que resumiam discretamente o que surgia na escola ou nos jogos; e de dois ou três conselhos bem escolhidos após a confissão.

O objetivo final do santo era, de fato, a piedade e a formação espiritual de seus rapazes. Seguindo o Mons. François Fénelon, prelado francês, ele dizia: “Procurai fazer com que os jovens se deleitem em Deus”. O Padre Augustin Auffray, [biógrafo do santo], nos diz: “Ele teria de bom grado resumido todo o seu método nestas palavras: ‘Fazei-vos amar para tornar Deus mais amado’”. E, na mesma linha, Dom Bosco escrevia [o seguinte] numa carta aos seminaristas de Mirabello, em 1864: “Declaro-vos, meus queridos filhos, que vos amo profundamente e desejo muito ver-vos em breve. Quero também que me deis o vosso coração, para que eu o ofereça a Jesus no Santíssimo Sacramento quando celebrar a Santa Missa”.

O objetivo da piedade e de uma boa formação espiritual é, naturalmente, salvar uma alma. Numa carta de 1878 aos seus cooperadores de Turim, ele exorta-os seriamente a “ensinar os jovens”, repetindo três vezes a injunção, e continua: “O mais divino dos atos piedosos é cooperar com Deus na salvação das almas”. A este respeito, deve notar-se que o nome de São Francisco de Sales foi dado pela primeira vez ao seu Oratório não só porque a sua benfeitora tinha encomendado um retrato do santo para a casa, mas também porque, como o próprio São João Bosco escreve, “queríamos estar sob a proteção deste santo para que ele nos obtivesse a graça de nos tornarmos semelhantes a ele em sua grande mansidão e na salvação das almas”. O objetivo último de São João Bosco exprime-se numa máxima de São Francisco de Sales que ele mantinha escrita num cartão sempre à vista, máxima que se tornaria o lema da Congregação Salesiana: Da mihi animas, cetera tolle — “Dai-me almas, ficai com o resto”.

Dom Bosco ouvindo confissões dos meninos de seu Oratório.

Então quais seriam os meios espirituais de salvação? “A confissão frequente, a comunhão e a Missa diária são os pilares que devem sustentar o edifício da educação”. A confissão foi uma prática em que ele insistiu durante toda a sua vida. Era um tema frequente em suas reflexões aos meninos antes de dormir, e figurava em três dos quatro textos bíblicos que ele mandou pintar nos pórticos de sua casa, para benefício dos seus rapazes. Assim que estabelecia contato com um rapaz, encorajava-o a fazer uma confissão, uma confissão que abria toda a alma ao confessor e lhe permitia ajudar o rapaz a atingir a maturidade espiritual. Numa época em que nem a comunhão precoce nem a comunhão frequente eram muito incentivadas, ele encorajava ambas. Pode-se dizer que a primeira devoção fomentada por ele foi à Santíssima Eucaristia, e a segunda, à Santíssima Virgem Maria. Tal como viu, em sonho, as imagens de uma feroz batalha marítima, na qual a Igreja seria salva pela devoção à Eucaristia e a Nossa Senhora, assim acreditava que os seus filhos seriam salvos se também eles estivessem armados com estes dois escudos. Uma das suas últimas declarações, proferida três dias antes da sua morte, foi: “Quando falares ou pregares, insiste na comunhão frequente e na devoção a Maria Santíssima!

Boa Morte e Castidade

Duas outras características notáveis da formação espiritual que ele deu aos seus filhos são a inculcação de uma consciência da morte e o fomento da castidade. O Padre Lappin escreve: “Para ajudá-los a compreender o sentido da vida, [Dom Bosco] recordava-lhes constantemente a presença da morte por vias ordinárias, como suas conversas, sermões e meditações, e por vias extraordinárias, como a previsão de quando muitos deles iriam morrer”. Ele imprimia em suas mentes estas duas grandes verdades: “que a vida é apenas uma preparação para a morte e que o ato mais importante da vida é morrer bem”. Pois, ao se morrer bem, salva-se a alma. No primeiro projeto das suas constituições de 1858, o santo designou o último dia de cada mês como “um dia de recolhimento em que cada membro praticará o exercício de uma morte feliz”. Ele frequentemente dizia: “Creio que se pode considerar garantida a salvação de um rapaz que faça o exercício de uma morte feliz, confesse-se todos os meses e receba a Sagrada Comunhão como se fosse a última vez”.

Nestas mesmas constituições, Dom Bosco descreve a castidade como a “virtude mais cara ao Filho de Deus”. O santo fez tudo o que pôde para promover esta virtude e evitar ofensas contra ela: “Seria melhor que o Oratório fechasse a que se cometessem pecados contra esta virtude”, dizia ele. “Quando a moralidade dos membros e dos rapazes está assegurada, tudo está assegurado; quando [isto] falta, tudo falta”. Ele afirmava: “O que distingue a nossa Sociedade [Salesiana] é a virtude da castidade, assim como a virtude da pobreza distingue os filhos de São Francisco de Assis, e a obediência, os filhos de Santo Inácio”. A esta virtude ele faz os maiores elogios num comentário aos artigos das constituições: 

A virtude suprema, a mais necessária, a sublime, a angélica, a única virtude em torno da qual giram todas as outras, é a castidade. A esta virtude se referem as palavras do Espírito Santo: Venerunt autem mihi omnia bona pariter cum illa — “Todos os bens me vieram juntamente com ela” (Sb 7, 11). O nosso Salvador garante-nos: aqueles que adquirem esse tesouro inestimável tornam-se como os anjos de Deus, mesmo nesta vida: erunt sicut angeli Dei — “serão como os anjos de Deus” (Mt 22, 30).

Dom Bosco dava muitos conselhos práticos para a guarda da castidade, em particular o desapego, a mortificação e o recurso ao Santíssimo Sacramento, à Santíssima Virgem e aos santos.

Estas breves linhas são, portanto, uma tentativa de desvendar o sistema educativo de um dos maiores educadores de todos os tempos, um sistema mais espontâneo que metódico, e que pode ser descrito numa palavra como amor — um amor que era o de um “pai, irmão e amigo”; um amor que, com doçura e sutileza, procurava o melhor para eles: a salvação de suas almas através da Confissão, da Sagrada Comunhão, da Missa, da castidade e da consciência de seu fim último. O sucesso de seus métodos é amplamente atestado pelo “clima de santos” que ele criou em seu Oratório, como o descreveu um bispo. Dom Bosco se esforçava por convencer cada rapaz de que ele era chamado a ser santo e, ainda em vida, seus irmãos salesianos espalharam por todo o mundo essa santidade [ii].

Notas

  1. As sociedades do altar eram grupos, associados às comunidades paroquiais, cujos membros tinham o dever, sobretudo, de realizar “[o] pagamento de quotas anuais para um fundo destinado à manutenção e reparação dos acessórios utilizados nas cerimônias da Igreja e, normalmente, também de uma certa quantidade de mão de obra para esse fim” (John Goggin; Blanche Mary Kelly, “Sacristan”. In: The Catholic Encyclopedia, v. 13. New York: Robert Appleton Company, 1912). A depender das circunstâncias, porém, seus ofícios podiam confundir-se com os dos acólitos ou sacristãos, ou seja, cuidar dos “paramentos e vasos sagrados”, prepará-los para a Missa etc. (N.T.)
  2. [As] referências feitas [aqui são] aos livros sobre São João Bosco escritos pelos Padres Peter Lappin e Augustin Auffray. (N.A.)

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