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Seis dicas para um casamento feliz
Sociedade

Seis dicas para um casamento feliz

Seis dicas para um casamento feliz

À luz da história, é possível dizer que o casamento “nasceu” em crise. Cristo, no entanto, veio redimir o homem — e também o matrimônio.

Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Outubro de 2014Tempo de leitura: 10 minutos
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Não há dúvidas de que a família está em crise. À luz da história, no entanto, é mais exato dizer que a família nasceu em crise. O plano primordial do Criador para o homem e a mulher - que vivessem o amor, como imagem do amor com que Deus os criou -, infelizmente, foi perturbado pelo pecado original. O Catecismo da Igreja Católica destaca que, “desde sempre, a união de ambos foi ameaçada pela discórdia, pelo espírito de dominação, pela infidelidade, pelo ciúme e por conflitos que podem chegar ao ódio e à ruptura" [1].

Mas, como é verdade que “Deus todo-poderoso (...), sendo soberanamente bom, nunca permitiria que qualquer mal existisse nas suas obras se não fosse suficientemente poderoso e bom para do próprio mal, fazer surgir o bem" [2], Ele mesmo enviou, na plenitude dos tempos, o seu Filho, para redimir não só o homem, mas também todas as suas relações, de que se sobressai a união entre o homem e a mulher. Elevando o matrimônio à dignidade de sacramento, Nosso Senhor fez da aliança conjugal um sinal de Seu amor pela Igreja e um meio para a santificação e o crescimento mútuo dos esposos.

Se o seu casamento começou do jeito certo, com a graça do sacramento e a bênção da Igreja, meio caminho já foi andado. Agora, é preciso conformar-se ao dom recebido e educar-se a partir da moral católica e da cartilha dos santos, para transformar a sua família em uma autêntica Igreja doméstica. Seguem, abaixo, algumas breves dicas para continuar bem o caminho ou, quem sabe, colocar o seu relacionamento no eixo. São palavras da sabedoria de dois mil anos da Igreja, que com certeza ajudarão na construção do seu lar.

1. Ninguém pode saciar plenamente o seu coração

A primeira advertência pode parecer desalentadora, mas é, sem dúvida, a mais importante de todas: ninguém - absolutamente ninguém - pode saciar o seu coração. Muitas pessoas hoje se casam para “serem felizes", com a esperança de que os seus esposos e as suas esposas as completem e montem para elas um “pequeno paraíso" nesta terra. Após um tempo, quando elas caem em si e percebem que o paraíso prometido não veio - e nem virá -, bate o desespero e a desilusão: afinal, o que deu errado?

O casal que entra nessa crise deve entender que nenhuma criatura pode saciar a sede de infinito do homem. Este só se realiza plenamente quando encontra o único Outro que o transcende: Deus.

“Fizestes-nos para Vós, Senhor, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Vós" [3], reza Santo Agostinho. Mais do que ser companheiro para uma pessoa do sexo oposto, o ser humano foi “constituído à altura de 'companheiro do Absoluto'" [4], como ensinou São João Paulo II. Mais do que um pacto matrimonial, o homem foi feito para uma aliança eterna com Deus.

2. Homens e mulheres são real e profundamente diferentes

Nenhuma ideologia pode obscurecer este fato inscrito na natureza humana: homens e mulheres são real e profundamente diferentes.

Para explicar a diferença entre os sexos, o escritor norte-americano John Gray chegou a colocar homens e mulheres em planetas diferentes. Em seu famoso best-seller “Os Homens São de Marte, as Mulheres São de Vênus", ele conta que “marcianos" e “venusianas" viveram por muito tempo em paz, até que “os efeitos da atmosfera da Terra assumiram o controle, e certa manhã todos acordaram com (...) amnésia" [5]: tinham esquecido que vieram de planetas diferentes e, por isso, passaram a viver constantemente em conflito.

Pela história da Criação, nós sabemos que Deus criou o homem e a mulher no mesmo planeta, mas com as suas diferenças, e que a “amnésia" que iniciou o referido conflito nada mais é do que o pecado original, que “teve como primeira consequência a ruptura da comunhão original do homem e da mulher" [6].

Não se pode, porém, restaurar a harmonia entre o casal negando as diferenças evidentes entre os sexos, como em uma atitude de rebeldia contra o Criador. Mais do que uma história dos contos de fadas, o cavaleiro que, com sua armadura reluzente, mata o dragão e liberta a princesa do alto do castelo, é uma bela imagem de como o homem, por exemplo, é chamado à bravura. Na vida ordinária, isso significa enfrentar o mundo, trabalhando e provendo o sustento da casa e a segurança da família.

Para a mulher, a figura de mãe não é menos heróica. Significa a doação de amor para que os seus filhos vivam e recebam uma boa educação. Infelizmente, o feminismo tem introjetado na cabeça das mulheres que ser mãe é uma desgraça e que elas só serão felizes quando forem “iguais" aos homens. A realidade, porém, é que, após o tão sonhado “empoderamento" das mulheres, estas não encontraram a felicidade, mas tão somente a desilusão e a frustração de uma vida reduzida ao serviço do mercado e do próprio egoísmo. Como disse G. K. Chesterton, “o feminismo trouxe a ideia confusa de que as mulheres são livres quando servem aos seus empregadores, mas são escravas quando ajudam os seus maridos" [7].

3. Ame o seu cônjuge como Cristo amou a Igreja

Em sua Carta aos Efésios, São Paulo exorta os maridos a amarem as suas esposas como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela [8]. Com isso, demonstra que o amor não é um “sentimentalismo barato", baseado no fundamento instável das emoções, mas uma determinação viril, baseada na rocha sólida da vontade. O pacto matrimonial é uma aliança de sangue, pela qual os esposos dizem um para o outro: “Eu derramo o meu sangue, mas não desisto de você". Não sem razão o autor do Cântico dos Cânticos canta que “o amor é forte como a morte" [9].

De fato, o próprio Deus, no ato mais extremo de amor, morreu pelos nossos pecados. Seguindo o seu modelo, todo casal que sobe ao altar deve pensar que está subindo o Calvário, a fim de oferecer a Deus o sacrifício de si mesmo, pela salvação do outro. Para o bem da pessoa amada, na verdade, tanto o homem quanto a mulher devem fazer o que for preciso, mesmo que a isso custe fazer o que não se quer. Muitas contendas entre os casais começam justamente porque um não é capaz de “dar o braço a torcer" em favor do outro. Sacrificam-se, então, a paz e a harmonia entre os dois, para satisfazer as próprias veleidades, ao invés de se sacrificar a própria vontade em favor do outro.

Também para o casamento vale o chamado de Nosso Senhor: “Quem quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me" [10].

4. Deus deve ser o centro de suas vidas e de seus dias

Não adianta morrer um pelo outro se, primeiro, não se ama a Deus. Por isso, Ele deve ser o centro de suas vidas e de seus dias.

Para amar alguém, primeiro, é preciso conhecê-lo. O que se diria de um casal de noivos que, estando prestes a se casar, não soubessem nada um do outro e não fizessem o mínimo esforço para se conhecerem? Com razão se poderia chamá-los de loucos, pois querem permanecer unidos até o fim da vida a quem nem mesmo conhecem. Ora, se para o casamento terreno, que finda com a morte, é preciso preparar-se com cuidado e empenho, quanto mais para o encontro com Deus, a quem estaremos unidos não por um dia ou uma vida, mas por toda a eternidade!

Por isso, é importante estudar as verdades de nossa fé, contidas principalmente no Catecismo da Igreja Católica e nos Evangelhos, sem jamais descuidar da oração, pela qual o próprio Deus Se revela e Se comunica a nós.

Uma vez conhecido o grande amor com que Deus nos amou, então, é preciso que o casal O ame de volta, mudando toda a sua rotina e a sua vida para colocá-Lo no primeiro lugar de tudo. Se de manhã se acordava correndo para ir ao trabalho, urge levantar um pouco mais cedo, para oferecer a Deus o que dia que começa - e, quem sabe, até participar da Santa Missa. Se à noite a família se reunia para assistir à TV e acabava vendo programas que não prestam - como são as novelas -, por que não começar a rezar o Santo Terço em família? Se o domingo tem sido tão somente o “feriado", com passeios e viagens, está na hora de transformá-lo realmente em “dia do Senhor", levando toda a família para um encontro com a melhor de todas as famílias, que é a Igreja.

Lembrem-se sempre que a sua aliança matrimonial é, antes de tudo, um compromisso com Deus. Dois sozinhos não são capazes de levar adiante um casamento; ao contrário, “a corda tripla não se arrebenta facilmente" [11].

5. O sexo não é um parque de diversões

A Igreja, ao mesmo tempo em que valoriza a sexualidade como um dom precioso do Criador, reconhece que “a sexualidade é fonte de alegria e prazer". Com isso, ela não pretende dar aos seus filhos uma autorização para que, depois de casados, façam o que bem entenderem um com o outro, mas que vivam o sexo de forma equilibrada, mantendo-se, na expressão do Papa Pio XII, “dentro dos limites duma justa moderação" [12].

Infelizmente, em nosso mundo supersexualizado, o que deveria ser uma expressão de amor tem degenerado na busca do próprio egoísmo. É muito comum, por exemplo, que, saturados por múltiplas experiências com pornografia e masturbação, os homens queiram trazer o chiqueiro do mundo para o seu leito conjugal, transformando a mulher em um objeto de satisfação sexual, ao invés de amá-la e respeitá-la como pessoa e companheira. Por outro lado, as mulheres, em troca de compensação afetiva, acabam aceitando ser transformadas em “coisas" e usadas como objetos. Ao fim, o que deveria ser uma “aliança de amor" acaba se tornando um “consórcio de egoísmos".

Para consertar as coisas, é preciso desmascarar a ideia, que alcançou sucesso com a Revolução Sexual, de que o sexo seria como um parque de diversões, o qual se buscaria tão somente para o prazer próprio e para a satisfação dos próprios caprichos. Isso não é o sexo, mas a sua perversão. A relação sexual foi concebida por Deus para unir os esposos, mas também para gerar vidas. Por isso, sexo significa, antes de qualquer coisa, família.

De fato, na família, todos vivem - ou deveriam viver - como em uma “ilha de paz": a menina, por exemplo, pode andar tranquilamente por sua casa, consciente de que não será cobiçada por seu pai ou por seus irmãos. Para afastar do pensamento o adultério do coração [13], de que fala Nosso Senhor, seria sadio que os homens olhassem para as mulheres como se fossem suas “irmãs", e vice-versa. Afinal, é nesse estado que todos os seres humanos se encontram, desde que nasceram, e que se encontrarão principalmente no fim de suas vidas, quando estiverem face a face com Deus.

Quando seu cônjuge envelhecer, por exemplo, vão-se embora com o tempo não só o vigor da juventude, como também os atrativos físicos do outro. Se seu relacionamento está baseado só no sexo, essa é uma péssima notícia. Se desde o começo, no entanto, você foi treinado para amar - e como diz o Apóstolo, “o amor tudo suporta" [14]-, você chegará à velhice feliz por ter sido casto e fiel.

6. Estejam sempre abertos ao dom dos filhos

Esta dica é indissociável da anterior: estejam sempre abertos ao dom dos filhos. Quando um casal deliberadamente se fecha à transmissão da vida, inicia um círculo de egoísmo e morte que destrói pouco a pouco a si mesmo.

Para entender a imperiosidade deste ensinamento, basta olhar para a natureza do ato sexual, que foi concebido pelo Criador tanto para unir os esposos quanto para torná-los participantes de Seu poder criador, na geração dos filhos. Se separar essas duas dimensões fora do matrimônio significa falta de compromisso, separá-las dentro do próprio casamento não deixa de ser uma manifestação “mais refinada", por assim dizer, de egoísmo e falta de amor. Por isso a Igreja condena os métodos contraceptivos, que vão contra a própria verdade do sexo. Como ensina São João Paulo II, “o ato conjugal destituído da sua verdade interior, porque privado artificialmente da sua capacidade procriadora, deixa também de ser ato de amor" [15].

Todo casal deveria perguntar com sinceridade se a sua decisão de evitar filhos não vem mais de uma atitude de egoísmo por parte dos dois do que de uma razão realmente grave e justa. E, para quem argumenta que “filho dá despesa", o Catecismo da Igreja Católica responde dizendo que “o filho não é uma dívida, é uma dádiva" [16]. Basta lançar um olhar às numerosas famílias de alguns anos atrás, que, embora não vivessem imersas em luxo, eram muito mais felizes que as minúsculas e egoístas famílias de hoje.

O salmista diz que “os filhos são a bênção do Senhor" [17]. Mesmo que a sociedade de hoje os veja como uma maldição, as palavras do Espírito Santo permanecem. Continua valendo a pena esperar de Deus o número de filhos que Ele quiser, ao invés de reduzirmos o número de crianças à medida do nosso comodismo.

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 1606
  2. Santo Agostinho, Enchiridion de fide, spe et caritate. 3. 11: CCL 46, 53 (PL 40, 236)
  3. Confissões, I, 1: PL 32
  4. Audiência geral, 24 de outubro de 1979, 2
  5. John Gray, Homens são de Marte, mulheres são de Vênus, Rio de Janeiro: Rocco, 1995, p. 19
  6. Catecismo da Igreja Católica, 1607
  7. G. K. Chesterton, Social Reform versus Birth Control, 1927
  8. Ef 5, 25
  9. Ct 8, 6
  10. Lc 9, 23
  11. Ecl 4, 12
  12. Catecismo da Igreja Católica, 2362
  13. Cf. Mt 5, 28
  14. 1 Cor 13, 7
  15. Audiencia general, 22 de agosto de 1984, 6
  16. Catecismo da Igreja Católica, 2378
  17. Sl 127, 3

Notas

  • As dicas acima pretendem ser alguns curtos conselhos. Mas, não custa nada lembrar, de novo, que a plena felicidade o ser humano só alcançará no Céu, quando celebrar o matrimônio com o único e verdadeiro Esposo de nossas almas: o próprio Deus.

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Jesus Cristo não poderia ter sido mais claro!
Doutrina

Jesus Cristo
não poderia ter sido mais claro!

Jesus Cristo não poderia ter sido mais claro!

Se você ler o capítulo 6 de João, usar uma ferramenta tão básica como o “Google Tradutor” e estudar qualquer escrito dos primeiros cristãos, perceberá que a doutrina da presença real de Cristo na Eucaristia é inegável. E vem diretamente das Escrituras.

Jacob TateTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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O capítulo 6 do Evangelho de São João é, geralmente, a principal fonte citada para sustentar o ensinamento católico sobre a Eucaristia: no sacrifício da Missa, pão e vinho são transubstanciados e se tornam o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade reais de Jesus Cristo, a fim de serem consumidos pelos fiéis. Esta é a fonte e o ápice de nossa fé e, sem dúvida, a principal coisa que nos separa de quase todas as outras religiões do planeta. Por isso, é extremamente importante entender essa passagem (bem como outras referências bíblicas à Eucaristia).

Os 15 primeiros versículos de Jo 6 detalham o milagre da multiplicação dos cinco pães e dois peixes, para alimentar a multidão. Este é um pano de fundo importante para o que está prestes a acontecer, pois Jesus usa este milagre recém realizado no dia seguinte, quando diz à multidão: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois nela Deus Pai imprimiu o seu sinal” (v. 27).

A multidão então pede a Jesus um sinal para crer nele: “Perguntaram-lhe: ‘Que faremos para praticar as obras de Deus?’ Respondeu-lhes Jesus: ‘A obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou’. Perguntaram eles: ‘Que milagre fazes tu, para que o vejamos e creiamos em ti? Qual é a tua obra?’” (v. 28-30).

O povo pede um sinal, e Cristo responde fazendo um paralelo com o maná que os judeus receberam no deserto, afirmando que Deus dará um pão ainda melhor do que o dado por Moisés. Ele dará o pão do céu, o qual dará vida ao mundo — será este o sinal: “Jesus respondeu-lhes: ‘Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo’” (v. 32-33). 

Vida para o mundo? A multidão diz: “É claro que queremos este pão!” Disseram-lhe: “Senhor, dá-nos sempre deste pão!” (v. 34).

Jesus responde com o que chamarei de o primeiro Eu sou: “E Jesus disse-lhes: ‘Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome; e aquele que crê em mim jamais terá sede’” (v. 35).

Aqui, Cristo se compara diretamente ao pão; mais importante ainda, com o pão que dá a vida, que foi dado por Moisés e comido pelos judeus. Mas isso ainda pode ser visto como uma metáfora: acreditar em Jesus seria o modo como se obtém o pão que dá a verdadeira vida. Você não necessariamente está comendo pão de verdade.

Mas, mesmo nesta comparação inicial, a multidão começa a murmurar sobre este ensinamento: “Murmuravam então dele os judeus, porque dissera: ‘Eu sou o pão que desceu do céu’. E perguntavam: ‘Porventura não é ele Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como, pois, diz ele: Desci do céu?’” (v. 41-42).

Eles parecem não gostar de que Ele se chame de “pão vivo”, ou que diga que desceu do céu. No versículo 43, Jesus manda a eles que parem de murmurar. Depois, Ele reitera o que acabou de dizer: “Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer” (v. 48-50). Eis aqui, então, o segundo Eu sou.

Cristo usa a comparação do maná no deserto ao longo de todo este discurso, e é importante lembrar que as prefigurações do Antigo Testamento nunca são tão grandes quanto seus cumprimentos no Novo Testamento. Maria é maior do que Eva; o sacrifício de Cristo é maior que o de Abraão com Isaac; e o maná a ser dado por Cristo será maior que o maná recebido por Moisés no deserto. Não será simplesmente o mesmo maná.

É a partir do versículo 51 que a coisa começa a ficar realmente interessante, e é preciso tomá-lo palavra por palavra. Cristo reafirma imediatamente o que Ele acabou de dizer, e nos vemos diante do terceiro Eu sou: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.”

Desta vez, Jesus é muito mais explícito: Ele diz a eles diretamente que sua carne é o pão do céu, o novo maná que dá vida ao mundo. Ainda acha que se trata apenas de uma analogia? A multidão certamente não pensava assim: “A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: ‘Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?’” (v. 52).

Se era apenas uma analogia, por que a multidão achou difícil entender? Por que existe esse salto de “Dê-nos o pão!” para “O quê? Comer a sua carne?”? E por que Ele repetiria três vezes que Ele é o pão? A resposta a essas perguntas está nas palavras que Cristo usou e em como Ele foi direto.

De fato, há lugares em que Cristo usa hipérboles nos Evangelhos. Pense em Mt 5, 29, quando Ele diz ao povo que seria melhor arrancar o próprio olho do que permitir que ele nos faça pecar. Ninguém interpretou mal suas palavras, como se significassem que era necessário se mutilar. Ninguém saiu dizendo: “Este ensinamento é muito difícil; não posso seguir um homem que me pede isso”. Em Jo 6, porém, a linguagem usada e a reação da multidão mostram claramente que Cristo estava sendo literal, não hiperbólico ou metafórico.

Ao longo de todo esse capítulo, o verbo “comer” é usado 12 vezes para descrever o ato de comer maná no deserto, comer o pão da vida e comer a carne de Cristo. No texto grego original do Evangelho, até o versículo 54, o verbo era o mesmo: φάγω (phago), que significa “comer”: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia”. Mas, no versículo 55, quando a multidão já está confusa e murmurando, Cristo muda o verbo usado para τρώγω (trógó), que significa “roer, mascar ou triturar” — e que também é traduzido como “mastigar”.

Pense na sequência de eventos. Cristo diz à multidão, no versículo 51, que eles precisam “comer” sua carne. A multidão questiona isso diretamente no versículo 52 e, então, o que Jesus faz para responder à sua pergunta no versículo 54? Ele não diz: “Não, foi apenas uma analogia, você não vai realmente consumir minha carne”. Em vez disso, Ele desce o nível, muda o verbo e diz que, sim, você realmente precisa “roer” ou “mastigar” a carne dele. Aqui, Jesus vai além para garantir que sua mensagem não se perca na assembleia.

A outra palavra direta e provocativa que Cristo usa sete vezes neste capítulo é a palavra “carne”. Algumas traduções da Bíblia traduzem essa palavra como “corpo”, mas, se você ler, no grego, trata-se de σάρκα (sárka ou sarx), que se traduz literalmente como “carne” e que é a raiz da palavra grega para “carnívoro”: σαρκοβόρος (sarkovóros), enquanto a palavra grega genérica para “corpo” é σώμα (sóma).

Cristo diz, portanto, que sua “carne” deve ser “mastigada”, e a multidão acha isso difícil de aceitar: “Muitos dos seus discípulos, ouvindo-o, disseram: ‘Isto é muito duro! Quem o pode admitir?’” (v. 60).

E aqui eles realmente deixam de seguir a Cristo: “Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele” (v. 66).

Ao ler Jo 6, portanto, fica claro que a multidão, que ouviu pessoalmente o discurso do pão da vida, entendeu o que Cristo estava dizendo: Ele havia dito que é preciso consumir sua verdadeira carne. Por qual outro motivo eles teriam ido embora? E, se eles entenderam mal, por que Jesus não tentou esclarecê-los e impedi-los de ir embora por causa de um mal-entendido? Eles sabiam exatamente o que Ele queria dizer, assim como todos os primeiros cristãos que escreveram sobre esse assunto.

Os escritos dos primeiros Padres da Igreja apoiam fortemente a interpretação católica. Irineu, Justino Mártir, Inácio de Antioquia e Clemente de Alexandria, todos eles escreveram sobre isso no séc. II; Orígenes, Hipólito e Tertuliano escreveram sobre isso no III; e a lista dos primeiros cristãos que acreditavam no ensinamento de Cristo sobre consumir a sua carne continua indefinidamente. Afora os Apóstolos, esses homens eram os que sabiam melhor o que Jesus queria dizer em Jo 6, e eles teriam agido rápido para corrigir quaisquer mal-entendidos ou heresias decorrentes de uma interpretação errada. Aqui estão apenas algumas citações dos primeiros Padres cristãos: 

Como podia o Senhor, se fosse Filho de outro pai, confessar com justiça, ao tomar um pão desta condição, que é conforme a nós, que ele é o seu corpo, e confirmar que a mistura do cálice era o seu sangue? (Irineu, Contra as Heresias IV, 33, 2: PG 7, 1073 [189 d.C.]).

Considerai porém os que opinam de outro modo sobre a graça de Jesus Cristo, aquela que veio até vós: como são contrários aos pensamentos de Deus… Eles se abstêm da Eucaristia e da oração porque não confessam que a Eucaristia é a carne do nosso Salvador Jesus Cristo, a qual padeceu por nossos pecados e que o Pai, por sua benignidade, ressuscitou. Aqueles pois que contradizem este dom de Deus morrem altercando (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirniotas VI, 2–VII, 1: PG 5, 711-714 [110 d.C.]).

Assim pois como o pão e o vinho da Eucaristia, antes da invocação santa da adorável Trindade, eram puro pão e vinho, feita porém a invocação, o pão torna-se o corpo de Cristo, e o vinho, o sangue de Cristo (Cirilo de Jerusalém, Catequeses Mistagógicas XIX, 7: PG 33, 1071 [350 d.C.]).

Tinha-vos prometido aos que fostes batizados um sermão em que explicasse o sacramento da mesa do Senhor… Aquele pão que vedes no altar, santificado pela palavra de Deus, é o corpo de Cristo. Aquele cálice, antes, o que contém o cálice, santificado pela palavra de Deus, é o sangue de Cristo (Santo Agostinho, Serm. 227 [411 d.C.]).

Muitos dirão que grande parte deste artigo é irrelevante porque Cristo provavelmente não falou grego; logo, seria inútil analisar um texto nessa língua. Mas, se tivermos fé em que os escritores dos Evangelhos foram inspirados pelo Espírito Santo, podemos olhar para as nuances e especificidades da língua em que eles escreveram e saber, com confiança, que o seu texto representa as palavras que Cristo usou em aramaico ou hebraico. 

Além disso, o texto em grego não constitui a argumentação inteira, nem tampouco são distinções insignificantes o que ele apresenta, como expus várias vezes através do argumento Eu sou, da crença dos primeiros cristãos, e do fato de as pessoas, nos dias de Jesus, terem se afastado por acharem o seu ensinamento difícil — o que não teria acontecido se ele tivesse empregado apenas uma linguagem simbólica.

Se você ler o capítulo 6 de João, usar uma ferramenta tão básica como o Google Tradutor e estudar qualquer escrito dos primeiros cristãos sobre o assunto, perceberá que o ensinamento católico quanto à presença real de Cristo na Eucaristia é inegável e vem diretamente das Escrituras.

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As páginas com sangue e as Hóstias incorruptas de Siena
Fé e Razão

As páginas com sangue
e as Hóstias incorruptas de Siena

As páginas com sangue e as Hóstias incorruptas de Siena

Páginas de breviário ensanguentadas e Hóstias consagradas incorruptas: conheça a história impressionante destes dois milagres eucarísticos que aconteceram em Siena, na Itália, um em 1330 e outro em 1730.

Joan Carroll CruzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Julho de 2021Tempo de leitura: 11 minutos
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A cidade de Siena, que se tornou famosa por Santa Catarina e São Bernardino, foi escolhida para não um, mas dois milagres eucarísticos. O primeiro ocorreu em 1330 e o segundo exatamente 400 anos depois, em 1730. Há uma grande coleção de documentos atestando os detalhes de ambos os milagres. O primeiro foi um milagre cruento, o segundo incruento. Ambos estão ainda preservados e permanecem sendo objeto de grande interesse e devoção.

O milagre de 1330 refere-se a um padre de Siena que tinha sob seus cuidados os fiéis de uma vila na periferia da cidade. Um agricultor da vila ficou gravemente doente e mandou chamar o padre. Com grande pressa, o padre retirou uma Hóstia consagrada do sacrário, mas, em vez de colocá-la em uma teca, inseriu a Hóstia entre as páginas do breviário.

Depois que as orações foram recitadas, o padre abriu o breviário para dar a Hóstia ao homem doente, mas descobriu, para seu espanto, que a Hóstia estava ensanguentada e quase derretida. Sem dizer nada, ele fechou o livro e retornou para Siena. Diz-se que nem o agricultor nem ninguém na casa estava ciente do milagre ocorrido naquele momento.

Num estado de profundo remorso, o padre foi para o Mosteiro de Santo Agostinho, onde contou os detalhes do milagre ao padre Simão Fidati, um homem de profunda espiritualidade, que era também um célebre orador. (Após sua morte, o padre Simão foi beatificado pelo Papa Gregório XVI, que aprovou um Ofício e uma Missa em sua memória.)

O sacerdote mostrou ao padre Simão as duas páginas manchadas com o sangue da Hóstia, e confiou o  breviário aos seus cuidados. Após receber a absolvição pela maneira pecaminosa com que tratou a Hóstia consagrada, o padre afastou-se da história do milagre, que continuou com o padre Simão.

Após um tempo, o padre Simão removeu uma das páginas ensanguentadas e fez dela um presente para seus confrades, os padres agostinianos em Perúgia. Esse presente, infelizmente, foi perdido em 1866 durante a supressão das Ordens religiosas.

A segunda página estava dentro de um vaso de prata e, durante outro período de agitação, foi levada para Cássia, a cidade natal do padre Simão, onde incitou uma ardente devoção entre os padres, fiéis e autoridades civis. Os registros da cidade de 1387, que são mantidos na Câmara Municipal de Cássia, dão os detalhes de uma festa anual de Corpus Domini (“Corpo do Senhor”). Durante esta celebração, o prefeito e os membros do Conselho, junto com a população em geral, foram instruídos a reunir-se na igreja para honrar a venerável relíquia com uma procissão e uma Missa solene. Para esta observância, a cidade deveria fornecer uma vela de 10 libras às suas próprias custas.

Relicário do milagre eucarístico de Siena e Cássia, presente na Basílica de Santa Rita.

O milagre foi também honrado pelo Papa Bonifácio IX, que oficialmente aprovou a veneração concedida à relíquia numa bula datada de 10 de janeiro de 1401. Sua Santidade concedeu generosamente a Indulgência da Porciúncula para todos os que visitassem a Igreja de Santo Agostinho na festa de Corpus Christi.

Em 7 de junho de 1408, o Papa Gregório XII aprovou a continuidade da devoção da relíquia e acrescentou outras indulgências para aqueles que visitassem a igreja na qual ela foi mantida. A relíquia foi também honrada pelos Papas Sisto IV, Inocêncio XIII, Clemente XII e Pio VII.

Em 1962, houve um exame completo da relíquia. As dimensões do papel manchado de sangue são de 52 por 44mm; o diâmetro da mancha de sangue é de 40mm. A coloração da mancha foi descrita como marrom clara, mas, quando vista através de lentes de ampliação, a cor parecia mais vermelha, enquanto partículas de sangue coagulado foram claramente identificadas. Essa condição ainda se mantém.

Outro fenômeno existe naquela mancha: quando vista por uma lente mais fraca, revela a imagem de perfil de um homem que está visivelmente triste. A mesma imagem pode ser vista nas fotografias da mancha.

Em 1930, um congresso eucarístico foi realizado em Cássia, coincidindo com o sexto centenário de acontecimento do milagre. Para esse evento, foi abençoado um novo relicário.

Assim, estão contidas na venerável Basílica de Santa Rita de Cássia três relíquias sagradas: o corpo incorrupto de Santa Rita, os ossos do Beato Simão Fidati e a relíquia do milagre eucarístico de 1330, que tem sido preservada por mais de 650 anos.


O segundo milagre eucarístico de Siena tem origem no século XIII, quando ritos e festividades especiais foram introduzidas em honra à Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria. Aquelas observâncias tornaram-se tradicionais e ainda eram realizadas na época do milagre. Foi então em 14 de agosto de 1730, durante as devoções da vigília da festa, enquanto a maioria da população sienense e o clero da cidade compareciam aos ritos, que ladrões entraram na deserta igreja de São Francisco. Aproveitando a ausência dos frades, eles foram para a capela, onde era mantido o Santíssimo Sacramento, arrombaram o sacrário e levaram consigo o cibório de ouro que continha as Hóstias consagradas.

O furto só foi descoberto na manhã seguinte, quando o padre abriu o sacrário para a Comunhão, durante a Missa. Depois, um paroquiano encontrou a tampa do cibório jogada na rua e a suspeita do sacrilégio foi confirmada. A angústia dos paroquianos forçou o cancelamento das tradicionais festividades de Nossa Senhora da Assunção. O arcebispo ordenou que se fizessem orações públicas de reparação, enquanto as autoridades civis iniciaram uma busca pelas Hóstias consagradas e pelos delinquentes que as haviam raptado.

Dois dias depois, em 17 de agosto, enquanto rezava na igreja de Santa Maria de Provenzano, a atenção de um padre voltou-se para algo branco que saía da caixa de ofertas anexa ao reclinatório. Percebendo que aquilo era uma Hóstia, ele informou os outros padres da igreja, que, por sua vez, notificaram o arcebispo e os frades da Igreja de São Francisco.

Quando a caixa de ofertas foi aberta, na presença do padre local e dos representantes do arcebispo, um grande número de Hóstias foi encontrado, algumas delas suspensas por teias de aranha. As Hóstias foram comparadas com algumas não consagradas usadas na igreja de São Francisco, e provou-se que eram exatamente do mesmo tamanho e tinham a mesma marca das fôrmas em que foram assadas. O número de Hóstias correspondia exatamente ao número que os frades franciscanos estimavam estar no cibório — 348 inteiras e seis metades.

Como a caixa de ofertas era aberta só uma vez no ano, as Hóstias ficaram cobertas com a poeira e os detritos que se haviam juntado no lugar. Depois de serem cuidadosamente limpas pelos padres, elas ficaram fechadas num cibório e guardadas dentro do sacrário do altar principal da Igreja de Santa Maria. No dia seguinte, na presença de uma grande multidão de habitantes da cidade, o arcebispo Alessandro Zondadari carregou as Hóstias consagradas em procissão solene até a Igreja de São Francisco.

Ao longo dos dois séculos seguintes, as pessoas por vezes se perguntavam por que as Hóstias não foram consumidas por um padre durante a Missa, já que seria esse o procedimento normal a se tomar. Visto que não há uma resposta definitiva, há duas teorias. Uma explicação é que as multidões de pessoas tanto de Siena quanto das cidades vizinhas ficaram reunidas na igreja para oferecer orações de reparação diante das partículas consagradas, forçando os padres a conservá-las por um tempo. Também é possível que os padres não as tivessem consumido devido à sujeira que as envolvia. Embora as Hóstias estivessem superficialmente limpas depois de serem descobertas, elas ainda retinham uma grande quantidade de sujeira. Nesses casos, não é necessário consumir as Hóstias consagradas; é permitido que elas sejam deixadas para se deteriorar naturalmente, até o momento em que não haja mais a presença real de Cristo.

Para espanto do clero, as Hóstias não se deterioraram, mas permaneceram conservadas e com um aroma agradável. Com o passar do tempo, os franciscanos conventuais ficaram convencidos de que se tratava de um milagre contínuo de preservação.

Cinquenta anos depois da recuperação das Hóstias roubadas, uma investigação oficial foi conduzida para averiguar a autenticidade do milagre. O Superior Geral da Ordem Franciscana, frei Carlo Vipera, examinou as Hóstias em 14 de abril de 1780 e, ao provar uma delas, achou-a fresca e incorrupta. Como várias Hóstias haviam sido distribuídas durante os anos anteriores, o Superior Geral ordenou que as 230 partículas restantes fossem colocadas em um novo cibório e proibiu a distribuição posterior.

Uma investigação mais detalhada aconteceu em 1789 pelo arcebispo de Siena, Tibério Borghese, com certo número de teólogos e dignatários. Após examinar as Hóstias sob um microscópio, a comissão declarou que elas estavam perfeitamente intactas e não apresentavam sinal de deterioração. Os três franciscanos que estavam presentes na investigação anterior, de 1780, foram questionados sob juramento pelo arcebispo. Foi reafirmado que as Hóstias submetidas a exame eram as mesmas roubadas em 1730.

Como um teste para confirmar ainda mais a autenticidade do milagre, o arcebispo, durante este exame de 1789, ordenou que várias hóstias não consagradas fossem colocadas em uma caixa fechada e mantidas trancadas na chancelaria. Dez anos depois, elas foram examinadas e encontravam-se não apenas desfiguradas, mas também murchas. Em 1850, 61 anos depois de terem sido colocadas em uma caixa fechada, aquelas hóstias não consagradas foram encontradas reduzidas a partículas de uma cor amarela escura, enquanto as Hóstias consagradas permaneceram com seu frescor original.

Outros exames foram feitos ao longo dos anos, sendo o mais significativo em 1914, empreendido sob a autoridade do Papa São Pio X. Para essa investigação, o arcebispo selecionou um distinto grupo de investigadores, que incluía cientistas e professores de Siena e Pisa, bem como teólogos e oficiais da Igreja.

Testes de ácido e amido realizados num dos fragmentos indicou um teor normal de amido. As conclusões alcançadas pelo teste de microscópio indicaram que as Hóstias haviam sido feitas com farinha de trigo peneirada grosseiramente, a qual foi considerada bem preservada.

A comissão concordou em que o pão ázimo, preparado em ambiente esterilizado e mantido em um recipiente fechado, limpo e asséptico, poderia ser conservado por um tempo extremamente longo. O pão ázimo preparado de modo normal e exposto ao ar e à atividade de microorganismos poderia permanecer intacto por não mais que alguns anos. Mas as Hóstias em questão foram preparadas sem precauções científicas e mantidas sob condições ordinárias, que deveriam ter causado a sua deterioração há mais de um século. A comissão concluiu que a preservação era extraordinária: …e la scienza stessa che proclama qui lo straordinario

O professor Siro Grimaldi, professor de química na Universidade de Siena e diretor do Laboratório Municipal de Química, bem como titular de vários outros cargos distintos na mesma área, foi em 1914 o químico examinador chefe das partículas sagradas. Depois, ele fez afirmações consistentes em relação à natureza miraculosa das Hóstias e escreveu um livro sobre elas, intitulado Uno Scienziato Adora (“Um cientista adora”, sem tradução portuguesa). Em 1914, ele declarou:

As partículas sagradas de pão ázimo representam um exemplo de perfeita preservação… um fenômeno singular que contraria a lei natural da conservação do material orgânico. Esse é um fato único nos anais da ciência.

Em 1922, outra investigação foi conduzida — esta na presença do Cardeal Giovanni Tacci, que foi acompanhado pelo arcebispo de Siena e pelos bispos de Montepulciano, Foligno e Grosseto. Mais uma vez, os resultados foram os mesmos: as Hóstias tinham o sabor de pão ázimo, eram de composição feculenta e estavam completamente preservadas.

Em 1950, as Hóstias milagrosas foram tiradas do velho cibório e colocadas em um mais ornamentado e suntuoso, que chamou a atenção de outro ladrão. Por isso, apesar das precauções do clero, outro roubo sacrílego ocorreu na noite de 5 de agosto de 1951. Dessa vez, o ladrão foi atencioso o suficiente para pegar apenas o cibório e deixar as Hóstias em um canto do sacrário. Depois de contar as 133 partículas, o próprio arcebispo as selou num cibório de prata. Mais tarde, depois de serem fotografadas, elas foram colocadas em um recipiente ornamentado que substituiu o que havia sido roubado.

Relicário contendo as Hóstias milagrosas de Siena.

As Hóstias miraculosamente preservadas são expostas publicamente em várias ocasiões, mas especialmente no dia 17 de cada mês, em que se comemora o dia no qual elas foram encontradas após o primeiro roubo, em 1730. Na solenidade de Corpus Christi, as Hóstias sagradas são colocadas em seu ostensório processional e carregadas triunfantemente em procissão, saindo da igreja e passando pelas ruas da cidade — uma observância da qual participa toda a população.

Um dentre muitos visitantes distintos que adoraram as Hóstias foi São João Bosco. Elas também foram veneradas pelo Papa João XXIII, que assinou o livro de visitantes em 29 de maio de 1954, quando ainda era Patriarca de Veneza. E, embora não tenham visitado as Hóstias milagrosas, os Papas São Pio X, Bento XV, Pio XI e Pio XII emitiram declarações de profundo respeito e admiração a elas.

Com voz unânime, os fiéis, padres, bispos, cardeais e Papas maravilharam-se e adoraram as Hóstias sagradas, reconhecendo nelas um milagre permanente e, ao mesmo tempo, completo e perfeito, que tem durado mais de 250 anos.

Por este milagre as Hóstias permaneceram inteiras e brilhantes, e mantiveram o cheiro característico de pão ázimo. Uma vez que elas estão em perfeito estado de conservação, mantendo as aparências de pão, a Igreja Católica assegura-nos que, embora tenham sido consagradas em 1730, estas partículas eucarísticas são ainda, real e verdadeiramente, o Corpo de Cristo. As Hóstias milagrosas têm sido estimadas e veneradas na Basílica de São Francisco, em Siena, por mais de 250 anos.

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A história de Santo Apolinário
Santos & Mártires

A história de
Santo Apolinário

A história de Santo Apolinário

Neste breve relato biográfico, conheça a vida do bispo Santo Apolinário, que foi enviado a Ravena por ninguém menos que o príncipe dos Apóstolos, São Pedro, a fim de anunciar o nome de Jesus aos incrédulos, operando inúmeros milagres.

Beato Tiago de VarazzeTradução: Hilário Franco Jr./Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Julho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A história abaixo, assim como muitas outras extraídas da Legenda Áurea, não constitui um “artigo de fé católica” [1]. É preciso saber colher, em meio aos floreios do autor medieval, as lições espirituais que também os católicos de gerações passadas colheram ao ler linhas como essas. É válido notar, de qualquer modo, que o livro chama-se “legenda” não por ser uma coleção de mitos ou contos de fantasia; a expressão vem do verbo latino lego, “ler”, e significa simplesmente “coisas a serem lidas”. 

E porque é para serem lidas que as divulgamos, convencidos de que não é justo sonegar aos católicos de agora esses piedosos relatos da vida dos santos, só porque não se adequam aos critérios atuais de historiografia

Não nos esqueçamos que o primeiro a realizar milagres foi Jesus de Nazaré; os Evangelhos, que contam inúmeros de seus prodígios, foram escritos muito tempo antes da Legenda Áurea; e nenhum dos seus milagres têm algo a temer ante a moderna “crítica científica”. Além do mais, Ele mesmo disse, de seus discípulos, que fariam obras muito maiores que as que Ele realizou (cf. Jo 14, 12).

Além do mais, Santo Apolinário foi, segundo a Tradição, discípulo de ninguém menos que São Pedro, chefe dos Apóstolos. Estamos falando, portanto, de um contemporâneo dos primeiros seguidores de Nosso Senhor.

Sua memória deixou de pertencer ao Calendário Romano Geral com a reforma litúrgica do Papa Paulo VI, ficando reservada apenas aos calendários particulares. A razão é que, apesar da antiguidade de seu culto, Apolinário não era considerado hoje um santo de “importância universal” [2]. Por meio de um decreto de 18 de dezembro de 2001, no entanto, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos [3], este santo voltou a ocupar lugar no Calendário Romano Geral, no dia 20 de julho.


Apolinário deriva de pollens, “poderoso”, e de ares, “virtude”, significando “poderoso em virtude”; ou pode derivar de pollo, “admirável”, e de naris, que pode ser entendido como “discrição”, significando “homem de admirável discrição”; ou pode derivar de a, “sem”, de polluo, “manchar”, e de ares, “virtude”, e assim equivaleria a “virtuoso sem mancha de vícios”.

Apolinário, discípulo de Pedro, foi por ele enviado de Roma a Ravena, onde curou a esposa de um tribuno e batizou-a juntamente com o marido e a família. Quando isso fez, foi denunciado ao juiz, este ordenou que Apolinário fosse levado ao templo de Júpiter para ali sacrificar. Como ele dissesse aos sacerdotes que seria melhor dar aos pobres o ouro e a prata pendurados diante dos ídolos, em vez de ali permanecerem diante dos demônios, foi agarrado, espancado a pauladas e deixado semivivo; mas alguns discípulos o levaram até a casa de uma viúva, onde ficou sete meses em recuperação. 

“Apoteose de Santo Apolinário”, por Guercino.

Dali partiu para a cidade de Classe a fim de curar um mudo de nobre ascendência. Quando ele entrou na casa, uma jovem possessa por um espírito imundo exclamou, dizendo: “Sai daqui, servo de Deus, senão te farei ser expulso da cidade de pés e mãos amarrados”. Apolinário, reprendendo-a, forçou imediatamente o demônio a sair. Como, pois, tivesse invocado sobre o mudo o nome do Senhor e este fosse curado, mais de quinhentos homens acreditaram.

Os pagãos, por sua vez, o proibiram, espancado a pauladas, de pronunciar o nome de Jesus. Ele, porém, lançado ao chão, clamava: “Ele é o verdadeiro Deus!” Então os pagãos lhe tiraram os calçados e o fizeram ficar de pé sobre brasas; mas, como ele continuasse a pregar a Cristo sem cessar, o lançaram fora da cidade.

Naquela época, Rufo, um patrício de Ravena, estava com a filha enferma e mandou chamar Apolinário para curá-la. Tão-logo ele entrou na casa, a menina morreu. Então Rufo lhe disse: “Oxalá não tivesses entrado em minha casa. Os deuses ficaram muito irados e não quiseram curar minha filha. Que lhe poderá fazer tu?” Apolinário respondeu: “Não temas. Jura-me que, se a jovem ressuscitar, não lhe proibirás de modo algum seguir seu Criador”. Rufo jurou, Apolinário fez uma oração, e a jovem ressuscitou e, proclamando o nome de Cristo, recebeu com a mãe e uma multidão o batismo e permaneceu virgem.

Quando o César soube disso, escreveu ao prefeito do pretório que forçasse Apolinário a sacrificar ou que o mandasse para o exílio. O prefeito, não podendo forçá-lo a sacrificar, fê-lo espancar a pauladas e mandou que o torturassem estendido no potro. Como ele continuasse a pregar o Senhor, o prefeito mandou que jogassem água fervendo sobre as feridas e o mandassem para o exílio preso a pesadas correntes.

Vendo tanta impiedade, de ânimo exaltado, os cristãos lançaram-se sobre os pagãos e mataram mais de duzentos dentre eles. Vendo isso, o prefeito se escondeu e ordenou que prendessem Apolinário num cárcere estreitíssimo; depois mandou levá-lo, acorrentado a três clérigos, a um navio que os conduziria ao exílio. Houve uma tempestade, da qual escaparam apenas ele, dois clérigos e dois soldados, a quem batizou.

Depois voltou a Ravena, foi preso novamente pelos pagãos e conduzido ao templo de Apolo, cuja estátua amaldiçoou, e ela subitamente veio abaixo. Vendo isso, os pontífices o levaram diante do juiz Tauro, juiz este que, porque Apolinário lhe devolvera a vista a um filho cego, acreditou e por quatro anos o manteve em uma propriedade sua.

Depois disso, como os pontífices o acusassem diante de Vespasiano, mandou Vespasiano que todos os que ofendessem os deuses ou sacrificassem ou fossem expulsos da cidade, pois “não é justo”, dizia, “que vinguemos os deuses; eles mesmos poderão vingar-se de seus inimigos, se ficarem irados”.

Então, o patrício Demóstenes não conseguiu fazer Apolinário sacrificar e o entregou a um centurião que já era cristão, o qual lhe rogou que se refugiasse numa aldeia de leprosos, onde poderia viver longe do furor dos gentios. Mas a multidão que o perseguia alcançou-o e o espancou durante muito tempo, deixando-o quase morto. Ali sobreviveu por ainda sete dias e, tendo instruído os discípulos, entregou o espírito e foi honradamente sepultado na época de Vespasiano, que começou a reinar por volta do ano 70 do Senhor.

Sobre este mártir diz Santo Ambrósio:

Apolinário, digníssimo bispo, foi enviado pelo príncipe dos Apóstolos, Pedro, a Ravena para anunciar o nome de Jesus aos incrédulos. Enquanto ali fez admiráveis sinais de virtudes para os seus, que acreditavam em Cristo, foi muitas vezes açoitado e teve o corpo já senil submetido pelos ímpios a horrendas torturas. Mas para que os fiéis não vacilassem vendo-lhe os sofrimentos, pela virtude do Senhor Jesus Cristo aperfeiçoou os sinais apostólicos: após os tormentos, ressuscitou uma menina morta, devolveu a vista a um cego e restaurou a voz a um mudo, livrou uma mulher possessa pelo demônio, limpou o contágio de um leproso, curou membros dissolutos por uma doença pestífera, fez ruir junto com o templo a imagem de um ídolo. Oh, digníssimo pontífice, merecedor de admiração, que com dignidade de pontífice mereceu receber o poder apostólico! Ó fortíssimo atleta de Cristo, que, já resfriando o calor da idade, em meio às penas, pregou constantemente a Jesus Cristo, redentor do mundo!

Referências

  1. O texto acima é uma tradução (adaptada aqui e ali pela Equipe CNP) do capítulo 92 da Legenda Áurea (São Paulo: Cia. das Letras, 2003, pp. 555-557).
  2. Cf. Calendarium Romanum. Typis Polyglottis Vaticanis, 1969, p. 131.
  3. Cf. Notitiae 432-433, vol. 39, 2002, pp. 313-314. (Agradecemos a um leitor pela vigilância e observação. Nesse mesmo decreto, juntamente com S. Apolinário, resgataram seu lugar nos livros litúrgicos reformados as festas dos Santíssimos Nomes de Jesus e Maria, em 3 de janeiro e 12 de setembro, respectivamente, e a grande S. Catarina de Alexandria, em 25 de novembro.)

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Três Marias diferentes ou Santa Maria Madalena?
Santos & Mártires

Três Marias diferentes
ou Santa Maria Madalena?

Três Marias diferentes ou Santa Maria Madalena?

Maria Madalena, a pecadora perdoada e a irmã de Lázaro são a mesma pessoa? Ou se trata, antes, de três mulheres diferentes? Eis uma questão que intriga há tempos os intérpretes da Sagrada Escritura e para a qual, pelo visto, só teremos uma resposta no céu.

Pe. Hadriano Simón, CSSRTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Julho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Tornou-se costume entre os intérpretes [1] perguntar se a mulher pecadora referida por Lc 7, 37 tem alguma relação com Maria Madalena (cf. Lc 8, 2; 24, 10; Mt 27, 56-51; 28, 1; Mc 15, 40-47; 16, 1-9; Jo 19, 25; 20, 11-15), com Maria irmã de Lázaro (cf. Lc 10, 39-42; Jo 11, 1-33; 12, 1-8), ou com ambas. O motivo da questão se toma, por um lado, do episódio da unção (cf. Lc 7, 36ss; Jo 12, 1), donde parece seguir-se que a pecadora é irmã de Lázaro; por outro, da semelhança de vida (cf. Lc 7, 37; 8, 2b; Mc 16, 9), donde parece seguir-se que a pecadora é Madalena; por último, da identidade de nome, donde parece seguir-se que Maria de Betânia é também Maria de Magdala.

História do problema. — Deixando de lado os que opinam que a questão é insolúvel [2], encontramos entre os autores três soluções principais: a) alguns defendem que se trata de três mulheres distintas [3]; b) outros, que se trata de duas; c) outros enfim, que se trata de uma única mulher, designada no Evangelho de várias formas [4]. Igual diversidade — antes, até maior — houve entre os antigos, de modo que, não obstante o dito por alguns exegetas [5], não se pode invocar a tradição patrística em apoio definitivo de qualquer das três soluções. Além disso, nenhum Padre apela à fé ou à tradição da Igreja em favor de sua própria opinião [6].

Na Igreja latina, de São Gregório Magno (✝ 604) até os nossos dias, defendeu-se com consenso verdadeiramente unânime a identidade entre as três [7]. Tal consenso se deve à autoridade deste Pontífice [8], uma vez que, antes dele, os Padres latinos defenderam opiniões contrárias, chegando alguns a mudar mais de uma vez de parecer (v.g., São Jerônimo e Santo Agostinho). Os escritores gregos distinguiram as três mulheres, e alguns parecem ter defendido a existência de quatro, porque distinguiam também a unção referida por Mt 26, 6 e Mc 14, 3 da referida por Jo 12, 3, atribuindo cada uma destas três unções a tantas outras mulheres distintas, das quais Madalena diferiria como a quarta.

Argumentos. — Vejamos os argumentos exegéticos em favor de cada uma das soluções:

“Maria Madalena”, por Carlo Dolci.

1.ª solução: três mulheres.a) A mulher pecadora não é nem irmã de Lázaro nem Maria Madalena: α) porque os evangelistas a apresentam como desconhecida e jamais lhe dizem o nome, ao passo que das outras duas, conhecidas e próximas de Cristo, se fala muitas vezes no Evangelho; além disso, β) não há indício algum que permita afirmar que Maria irmã de Lázaro foi pecadora pública (cf. Lc 7, 37); γ) Madalena, por sua vez, é explicitamente contraposta à pecadora porque, narrado o arrependimento desta, cujo nome não é revelado, logo em seguida (cf. Lc 8, 2) se fala de Madalena como de pessoa conhecida entre as mulheres que seguiam a Cristo; δ) embora se diga que Madalena foi possuída por sete demônios (cf. Lc 8, 2; Mc 16, 9), nunca se diz ou sugere nada sobre um suposto passado vergonhoso, enquanto que na narração da pecadora não se vê um só vestígio de possessão; ora, os evangelistas costumam distinguir nitidamente a possessão do estado de pecado; logo… 

b) Maria irmã de Lázaro não é Maria Madalena: α) em razão do nome, dado que tanto Lucas como João, sempre que falam da irmã de Lázaro, a chamam simplesmente de Maria (cf. Lc 10, 39; Jo 11, 1ss; 12, 3) e quando falam de Maria Madalena não dão sinal algum de que se trata da mesma mulher; β) em razão do lugar em que viviam ou do qual procediam, pois a irmã de Lázaro era de Betânia, vilarejo próximo de Jerusalém (cf. Jo 11, 1), ao passo que Madalena, assim chamada por vir (provavelmente) de Magdala, às margens do lago de Genesaré, é contada entre as mulheres que com o Senhor subiram da Galileia a Jerusalém (cf. Mt 27, 55; Mc 15, 41; Lc 23, 55) e com Ele percorriam as cidades da Galileia (cf. Lc 8, 2).

2.ª solução: duas mulheres. — Os defensores desta opinião afirmam que a irmã de Lázaro e Maria Madalena são a mesma pessoa, distinta da mulher pecadora (v.gr., Calmet, loc. cit.; Patrizi, In Mc [Friburgo, 1862] 222; Belser, Joh. 338; L. Murillo, S. Juan, 373 adn. etc.); para outros, no entanto, a pecadora e a irmã de Lázaro é que seriam a mesma pessoa (v.gr., Knabenbauer, In Matt. II, 405s).

3.ª solução: uma única mulher.a) O sentir tácito da Igreja inclina a essa parte (Maldonado); cf. o Ofício antigo de 22 de jul., de Santa Maria Penitente [9]. — b) Nas três se vê a mesma índole generosa, aparece o mesmo amor ardentíssimo a Cristo; em todas transparece aquela que muito amou, a que escolheu a melhor parte, a que, triste e chorosa, buscava o Senhor etc. [10]. — c) O fato de terem saído de Madalena sete demônios não demonstra, necessariamente, que ela fora pecadora, embora provavelmente o indique. — d) As palavras: a que ungiu (Jo 11, 2: ἡ ἀλείψασα) não pode referir-se à unção feita em Betânia (cf. Jo 12, 3ss), que ainda não fora mencionada, mas a uma unção anterior, qual seja: à referida por Lc 7, 37. — e) Que Lc 7, 36-50 fale da pecadora como de uma pessoa desconhecida e logo adiante, em 8, 2, de Maria chamada Madalena não prova que são duas mulheres distintas; nada impede, v.gr., que o evangelista, ao falar da pecadora, tenha julgado mais prudente omitir-lhe o nome. — f) As cenas descritas por Lc 7, 36ss e Jo 12, 3ss são tão parecidas (alabastro, enxugar os pés com os cabelos etc.), que não poderiam ser repetidas senão pela mesma mulher.

Conclusão. — O testemunho dos Padres, tomado isoladamente, não é muito favorável à identidade entre as três mulheres. As razões exegéticas pesam mais a favor da distinção entre elas [11], excetuando talvez Jo 11, 2 (ἡ ἀλείψασα), que parece sugerir a identidade de duas (não de três). Como não há razões conclusivas para nenhuma das soluções, e como a Igreja nunca definiu nada a esse respeito, há a liberdade de opinião. — Seja como for, a sentença segundo a qual Maria Madalena, Maria irmã de Lázaro e a pecadora são uma e a mesma mulher pode ser admitida como a mais provável, porquanto não contradiz o texto evangélico, tem seus defensores entre os antigos e não implica dificuldades tão sérias, a ponto de debilitar o valor desta antiga e venerável tradição (cf. Corluy, p. 206s), de algum modo acolhida pela própria Igreja em sua Liturgia.

Referências

  • Este texto é uma tradução adaptada, com acréscimos e omissões de nossa equipe, de H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 6.ª ed., Turim: Marietti, 1944, vol. 1, p. 569ss, n.398ss.

Notas

  1. Cf. Maldonado, In Matt. 26, 6s; 27, 56; Calmet, Dissertatio in tres Marias, Comm. VII 451-60; Corluy, In Ioh. 245-61; K. Sickenberger, Ist die Magdalenenfrage wirklich unlösbar?, in BZ 17 (1965) 63-74; A. Lemonnyer, L’onction de Béthanie, in: Rech. sc. relig. 18 (1928) 105-17; P. Ketter, Die Magdalenenfrage, Trier 1929 (= Pastor bonus 40 [1929] 101-18.203-14.264-85); Prat, Jésus Christ II, 501-6; U. Holzmeister, S. Maria Magdalena estne una eademque cum peccatrice et Maria sorore Lazari?, in: VD 16 (1939) 193-9.
  2. J. B. Nisius, art. “Maria Magdalena”, in: Kirchliche Handlexikon 2 (1917) 822; A. Durand, St. Jean 309.33; (ao que parece) Prat, loc. cit.
  3. Faber Stapulensis (Lefèvre d’Etaples), De Maria Magdalene, Parisiis 1516; Salmerón, t. 4, tr. 6; G. Estius, Calmet, que diz ser esta a opinião mais comum entre os doutores de seu tempo; Lagrange, loc. cit. 531; St. Luc., 235s; Holzmeister, ll. cc.; Sickenberger, loc. cit.; Leben §92.93; Innitzer, Ioh. 334-7; Ketter, loc. cit.;Buzy, Paraboles 239-42; Marchal, Lc 106; Renié, Manuel, IV, 318, adn. 3; Tillmann, Ioh. 231s; Schmid, Lk i. l.; Lauck, Joh. 291.
  4. Quase todos os ocidentais após São Gregório Magno; J. B. Solerius (du Sollier), Acta Sanctorum, ad 22 Iul. (jul. 5, 187-225); Corluy, loc. cit.; M.-J. Ollivier, Revue Thomiste 2 (1894) 585-613; Didon, Jésus-Christ I, 352-5; Le Camus, Les Origines…, II, 293ss; Fouard, Vie…, I, 339-41; Kaulen, Kirchenlexikon VIII, 735-8; K. Kastner, BZ 13 (1915) 345; Lesêtre ap. Vigouroux Dict. IV, 809-18; Cladder, Unsere Evangelien, 173s; Lemonnyer, loc. cit.; Simón; Schuster-Holzammer, Historia, II, 201s; G. Mezzacasa, “De tribus et unica Magdalena”, in: Perfice Munus 3 (1928) 434-8. Entre os acatólicos, Bernard, St. Joh. II, 410-14.
  5. Cf., v.gr., Maldonado, In Lc 7, 3: “opinião constante de todos os antigos autores”; Didon, Jésus-Christ, I, 352: “uma tradição quase unânime”.
  6. Investigou com grande acuidade este aspecto da questão La Grande, Jésus a-t-il été oint plusieurs fois et par plusieurs femmes?, in: RB NS 9 (1912) 504-32; com maior amplitude U. Holzmeister, “Die Magdalenenfrage in der christlichen Ueberlieferung”, in: Zeitschr. für kath. Theol. 46 (1922) 402-22.556-85; mais compendiosamente Ketter, loc. cit., c. 34-43.
  7. Houve “muitos autores” (v.gr., Bossuet, Calmet, Tillemont) que distinguiram duas ou três mulheres, mesmo depois que a Faculdade de Teologia de Paris, a “Sorbonne”, declarou no ano de 1521 que se deve sustentar a sentença que defende a unidade (cf. Holz., loc. cit., 199).
  8. Holzm. VD, loc. cit., 199, explica como São Gregório chegou a essa conclusão.
  9. A oração antiga para a sua festa diz: Beátæ Maríæ Magdalénæ, quǽsumus, Dómine, suffrágiis adjuvémur: cuius précibus exorátus, quatriduánum fratrem Lázarum vivum ab ínferis resuscitásti: Qui vivis et regnas…, “Sejamos assistidos, Senhor, vo-lo pedimos, pelos sufrágios de Santa Maria Madalena, por cujas preces fizestes ressurgir vivo dos infernos seu irmão Lázaro, morto havia quatro dias”.
  10. Cf. Le Camus, Vie de J.-Ch. III, 31ss.
  11. O argumento tomado da índole generosa das três mulheres é de todo artificial. É bastante semelhante a índole de Madalena e da pecadora, mas Maria irmã de Lázaro é uma mulher quieta e contemplativa (cf. Lc 10, 39ss), o que torna difícil imaginá-la a percorrer com o Senhor e os Apóstolos toda a Galileia, como se lê a respeito de Madalena (cf. Lc 8, 1s). O argumento tomado da Liturgia, segundo os próprios especialistas na matéria, tampouco prova nada de modo conclusivo.

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