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O que Deus pode mandando, a Virgem o pode rogando

Mais vale perante Deus um único suspiro de Maria, que as orações de todos os santos reunidos.

Por S. Afonso Maria de Ligório — É certo, em suma, que não há criatura alguma que obter nos possa tantas misericórdias, como esta boa advogada. Não só Deus a honra como sua serva dileta, mas sobretudo como sua verdadeira Mãe, diz Guilherme de Paris: Uma só palavra de seus lábios é quanto basta para o Filho atendê-la.

À Esposa dos Cânticos, figura da Virgem Maria, diz o Senhor: "Ó tu que habitas nos jardins, os teus amigos estão atentos: Faze-me ouvir a tua voz" (8, 13). São os santos esses amigos; quando pedem alguma graça para seus devotos, esperam obtê-la pela intercessão da sua Rainha. Pois, conforme o demonstramos, graça nenhuma é dispensada sem a intercessão de Maria. E como a obtém Maria? Uma palavra é o quanto basta ao Filho. "Faze-me ouvir a tua voz!" É bem acertado o comentário de Guilherme de Paris à mencionada passagem dos Cânticos. Imagina-se ele o Filho, dizendo à sua Mãe: Ó tu que habitas nos jardins celestes, pede com toda a confiança; pois esquecer não posso que sou teu Filho e que nada devo recusar à minha Mãe. Basta-me ouvir tua voz; para o Filho é o mesmo te ouvir como te atender.

Ainda que Maria alcance as graças rogando, contudo ela roga com certo império de Mãe. Portanto, devemos estar firmemente convictos de que tudo alcança quanto pede e deseja para nós, observa Godofredo, abade. Tendo Coriolano sitiado Roma, sua cidade natal, nem todos os rogos de seus concidadãos e amigos conseguiram demovê-lo à retirada. Mas, assim que viu a seus pés sua Mãe Vetúria, relata Valério Máximo, não pôde resistir e levantou o cerco. Mas tanto mais poderosas que as de Vetúria são as súplicas de Maria junto a Jesus, quanto mais grato e amoroso é esse divino Filho para com sua cara Mãe. Mais vale perante Deus um único suspiro de Maria, que as orações de todos os santos reunidos, escreve o dominicano Justino Micoviense. O próprio demônio esconjurado por S. Domingos o confessava, por boca de um possesso, segundo narra Pacciucchelli.

Na opinião de S. Antonino, as preces de Maria, como rogos de Mãe, têm o efeito de uma ordem, sendo impossível que fiquem desatendidas. Por esta razão S. Germano, animando os pecadores para que a ela se encomendem, assim lhes fala: Vós tendes, ó Maria, para com Deus autoridade de Mãe e por isso alcançais também o perdão aos mais abjetos pecadores. Em tudo reconhece-vos o Senhor por sua verdadeira Mãe e não pode deixar de atender a cada desejo vosso. Ouviu S. Brígida como os santos do céu diziam à Virgem: Bendita Senhora, o que há que vos não seja possível? Tudo quanto quereis, se faz. Com o que condiz o célebre verso:

O que Deus pode, mandando,
Virgem, o podeis, rogando.

E, porventura, não é coisa digna da benignidade do Senhor zelar com tanto empenho a honra de sua Mãe? Não protestou ele mesmo ter vindo à terra não para abolir, senão para observar a lei? Mas, entre outras coisas, não manda essa lei honrar os pais? S. Jorge, Arcebispo de Nicomedia, acrescenta que Jesus Cristo atende a todos os pedidos de sua Mãe, como que para saldar uma dívida para com ela, que consentiu em lhe dar o ser humano. Eis aí a origem da exclamação do Pseudo-Metódio, mártir: Alegrai-vos, ó Maria, a vós coube a dita de ter por devedor aquele Filho que a todos dá, e de ninguém recebe. Somos todos devedores a Deus de quanto possuímos, pois que tudo são dons de sua bondade. Só de vós quis o próprio Deus tornar-se devedor, encarnando-se em vosso seio fazendo-se homem. — Maria mereceu dar um corpo humano ao Divino Verbo, desse modo apresentando o preço de redenção para nossas almas. Por isso mais que todas as criaturas é ela poderosa para nos ajudar e obter a salvação eterna. Sob o nome de Teófilo, Bispo de Alexandria, deixou-nos um escritor o seguinte pensamento: O Filho estima que sua Mãe lhe peça, porque quer conceder-lhe todas as graças, em recompensa do favor que ela lhe fez dando-lhe o ser humano. Dirige, por isso, S. João Damasceno estas palavras à Virgem: Sendo Mãe de Deus, ó Maria, a todos podeis salvar por vossa intercessão, a qual a autoridade de Mãe faz poderosa.

A consideração do grande e divino benefício, pelo qual temos Maria por advogada, leva S. Boaventura a exclamar, e com ele terminamos: Ó bondade certamente imensa e admirável de nosso Deus! A vós, Senhora, quis ele nos dar por advogada para que, a vosso arbítrio, tudo nos obtivesse vossa poderosa intercessão. Ó grande misericórdia do Senhor! Sua própria Mãe, Senhora da graça, no-la deu por advogada, a fim de que não fugíssemos com receio da sentença que sobre nós há de pronunciar um dia.


Da obra Glórias de Maria (I, 6), de Santo Afonso Maria de Ligório,
3. ed. Aparecida: Santuário, 1989, pp. 155-158.

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Coração Doloroso e Imaculado de Maria, rogai por nós!

“Cheia de graça” que era e com um coração ardente de amor, a Santa Virgem era capaz de ver o pecado nas almas culpadas assim como nós vemos as feridas purulentas em um corpo doente.

Por Reginald Garrigou-Lagrange — Diz-se que, quando pessoas consagradas a Deus, mas em estado de pecado mortal, aproximavam-se de Santa Catarina de Sena, ela via seus pecados e sentia uma tal náusea, que era obrigada a virar o rosto.

Por mais forte razão, a Santa Virgem via o pecado nas almas culpadas como nós vemos, nós, as feridas purulentas em um corpo doente. Ora, a plenitude de graça e de caridade, que não cessou de crescer nela desde sua imaculada conceição, aumentava proporcionalmente em seu coração a capacidade de sofrer do maior dos males. De fato, disto sofre-se tanto mais quanto mais se ama a Deus, Bem soberano, a quem ofende o pecado; e as almas, que o pecado mortal desvia de seu fim último e as torna dignas da morte eterna.

Maria, sobretudo, vê, sem ilusão possível, preparar-se e consumar-se o maior dos crimes: o deicídio; ela vê o paroxismo do ódio contra aquele que é a Luz, a mesma Bondade e Autor da salvação.

Para entrever o que foi o sofrimento de Maria, é preciso pensar em seu amor natural e sobrenatural, em seu amor teologal, por seu Filho único, não apenas amado, mas legitimamente adorado, a quem amava muito mais que a sua própria vida, posto que era seu Deus. Ela o concebera miraculosamente, o amava com um coração de Virgem, o mais puro, o mais tenro, o mais rico de caridade que jamais existiu, excetuado o coração do Salvador.

Ela sabia incomparavelmente melhor que nós a razão superior da crucifixão: a redenção das almas pecadoras; e, no mesmo instante, tornava-se, de modo mais profundo que nunca, a mãe espiritual destas almas por salvar.

Se Abraão sofreu de modo heróico ao preparar-se para imolar seu filho, não sofreu senão por algumas horas, e um anjo desceu do céu para impedir a imolação de Isaac. Ao contrário, desde as palavras do velho Simeão, Maria não cessará de oferecer aquele que devia ser Sacerdote e vítima e se oferecer com ele. Esta dolorosa oblação durará por anos e, se um anjo desceu do céu para parar a imolação de Isaac, nenhum desceu para impedir a de Jesus.

Donde a invocação "Coração doloroso e imaculado de Maria, rogai por nós". Nesta invocação, a palavra "imaculado" lembra o que Maria recebeu de Deus e "doloroso", tudo o que fez e tudo que sofreu com seu Filho, por Ele e n'Ele, para nossa salvação. Com Ele, mereceu, de um mérito de conveniência, não apenas a aplicação dos méritos do Salvador a tal ou tal alma, como Santa Mônica por Santo Agostinho, mas mereceu com o Redentor "a liberação do gênero humano" ou a redenção objetiva, donde o título de Corredentora, que lhe é mais e mais reconhecido pela Igreja.

Verdadeiramente, a plenitude de graça e de caridade aumenta consideravelmente nela a capacidade de sofrer do maior dos males. Ela, que deu à luz a seu Filho sem dor, dá à luz aos cristãos em meio aos maiores sofrimentos. Que preço pagou por nós? "Nós lhe custamos seu Filho único", diz Bossuet. "Era a vontade do Pai eterno fazer nascer filhos adotivos pela morte do Filho verdadeiro".


Extraído de "La Capacité de souffir du péché en Marie Immaculée",
in: Angelicum, vol. 31 (1954), fasc. 4, pp. 352-357.
Tradução para o português do site Permanência.

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Quem é esta mulher, a Virgem Maria?

Nem verdadeira, nem interessante. Assim é a Virgem Maria apresentada pela revista “Superinteressante”, em sua última edição.

Uma capa sensacionalista e nada mais. Assim pode ser resumida a reportagem sobre a Virgem Maria, publicada pela revista cujo nome não faz jus ao seu conteúdo. Na primeira edição de 2017, Superinteressante resolveu revelar ao público brasileiro aquela que seria a "verdadeira" Maria. Ocorre que a revista não traz nada de novo nem de interessante. Apenas repete a velha cantilena de que Nossa Senhora teve outros filhos, que era uma mulher qualquer, rica e independente.

Desde as primeiras formulações da fé, a Igreja "encontrou viva oposição, troça ou incompreensão por parte dos não-crentes, judeus e pagãos" a respeito da concepção virginal de Jesus [1]. Por isso, não é espantoso que, mesmo após tantos séculos, essa oposição ainda se encontre viva no contexto social, sobretudo agora quando a virgindade já não é vista como um dom a ser preservado. Ora, o próprio Catecismo da Igreja Católica esclarece que o "sentido deste acontecimento", isto é, da concepção virginal de Jesus, "só é acessível à fé, que o vê no 'nexo que liga os mistérios entre si', no conjunto dos mistérios de Cristo, da Encarnação até à Páscoa" [2].

É claro, portanto, que uma mente fechada à graça de Deus não compreenderá o porquê das glórias de Maria, concedidas a Ela pelo próprio Deus, e buscará qualquer pedaço de pau para espancar a doutrina católica. Mais: a virgindade perpétua da Virgem Santíssima é um testemunho contra uma mentalidade secularizada e pagã, que defende o sexo como passatempo e diversão promíscua. Neste sentido, é preferível acreditar em uma Maria "poderosa e atrevida", do que reconhecer suas virtudes heroicas, sua virgindade e sua santidade. Uma Maria "dona de si", "independente" e "rica" não exige de ninguém uma conversão interior.

Não é coincidência, a propósito, que na mesma capa em que Nossa Senhora é retratada dessa maneira espúria, Superinteressante também apresente um perfil muito semelhante das mulheres que abortam. A armadilha é sutil: se Maria fosse uma mulher do século XXI, sugere maliciosamente a revista, ela também abortaria. Na sua famosa trilogia sobre Jesus de Nazaré, Bento XVI analisa os perfis de Cristo defendidos pelos teólogos modernos e percebe como são parecidos com as opções ideológicas de cada autor. "Quem lê várias destas reconstruções, umas ao lado das outras, pode rapidamente verificar que elas são muito mais fotografias dos autores e dos seus ideais do que reposição de um ícone", escreve [3]. Aqui se verifica o mesmo problema. A "verdadeira" Maria de Superinteressante nada mais é que uma fotografia do ideal de mulher para os tempos modernos.

Mas quem é, afinal, a Virgem Maria?

É preciso reconhecer, antes de tudo, que o "que a fé católica crê, a respeito de Maria, funda-se no que crê a respeito de Cristo", e que "o que a mesma fé ensina sobre Maria esclarece, por sua vez, a sua fé em Cristo" [4]. Jesus e Maria estão intimamente ligados na economia da salvação. Por isso, não se pode fazer silêncio quando as verdades de fé sobre Nossa Senhora são negadas, uma vez que elas estão na base de outras verdades fundamentais da cristologia, como a doutrina sobre as naturezas divina e humana de Jesus. Quem nega aquelas, ipso facto, também nega estas. Como recorda o Catecismo, já no primeiro século os cristãos reconheciam o nexo existente entre Maria e Jesus, tal qual se pode ler neste escrito de Santo Inácio de Antioquia: "O príncipe deste mundo não teve conhecimento da virgindade de Maria e do seu parto, tal como da morte do Senhor: três mistérios extraordinários, que se efetuaram no silêncio de Deus" [5].

Em 1927, foi descoberto, no Egito, um fragmento de papiro datado do século III, no qual se podia ler a seguinte prece: "À vossa proteção recorremos Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita". Trata-se da mais antiga oração cristã à Virgem Maria de que se tem notícia, depois, é claro, do louvor do anjo Gabriel e de Isabel (cf. Lc 1, 28; 42-45). Como se pode notar, os cristãos já se reportavam à sempre Virgem Maria como Mãe de Deus muito antes da definição do dogma, no Concílio de Éfeso. Não faz nenhum sentido, destarte, dizer que os dogmas católicos são adaptações à mentalidade pagã. De fato, a doutrina sobre a Virgem Maria é, sim, de origem apostólica.

Santo Irineu de Lião, cuja doutrina remonta diretamente ao apóstolo São João, escreve que, "assim como Eva, desobedecendo, se tornou causa de morte para si mesma e para todo o gênero humano, assim também Maria se tornou, pela sua obediência, causa de salvação para si mesma e para todo o gênero humano" [6]. Com essa sentença, Santo Irineu já explicava aquilo que seria definido séculos mais tarde no Concílio Vaticano II, sobre a mediação de Maria na obra da salvação. Notem: Santo Irineu é um autor do século II, que bebeu diretamente da fonte dos Apóstolos. Como não confiar no testemunho fidedigno desses santos, que derramaram o próprio sangue pela fé cristã?

A própria Sagrada Escritura dá testemunho de que Maria é mãe apenas de Jesus. Como já explicamos em outra oportunidade, "Tiago, irmão do Senhor", tinha outro pai e outra mãe: Maria, irmã de Nossa Senhora, e Alfeu, ou Cléofas em outras traduções. Além disso, as Sagradas Escrituras nunca dizem que esses "irmãos de Jesus" são filhos de Maria. Também Jesus não a teria confiado a João, na hora derradeira, se ela tivesse outros filhos (cf. Jo 19, 25-27).

Se mesmo os anjos se espantam e dizem "Quem é essa?" e os santos confirmam unanimemente: De Maria nunquam satis, "Sobre Maria jamais se dirá o bastante", parece muito pretensioso por parte de Superinteressante querer apresentar aos seus leitores a "verdadeira" Virgem Maria. É bom que deixem esse trabalho a quem, ao longo dos séculos, foi mais enaltecido pela obediência e humildade dessa mulher; Àquele que, pela boca de Isabel, proclamou: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre" (Lc 1, 42); Àquele que é, enfim, seu esposo e nosso vivificador, o Espírito Santo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, n. 498.
  2. Ibidem.
  3. Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré (trad. de José Jacinto Ferreira de Farias). São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007, p. 10.
  4. Catecismo da Igreja Católica, n. 487.
  5. Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Efésios, 19, 1.
  6. Santo Irineu de Lião, Contra as Heresias, III, 22.

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O mundo inteiro espera a resposta de Maria

O Criador faz depender do consentimento de uma criatura a execução de todo o plano de sua Providência.

O mistério da natividade do Senhor, que estamos prestes a celebrar, está indissociavelmente ligado à maternidade divina de Maria, como Padre Paulo Ricardo explicou na homilia do último domingo.

Os santos da Igreja bem o sabiam e, por isso, sempre que se dirigiam a Deus em agradecimento pela Encarnação do Verbo, cantavam ação de graças igualmente pelas maravilhas que o Todo-Poderoso operou em Maria. Foi por meio de seu "sim", afinal, que Ele escolheu vir ao mundo e salvar o gênero humano; o Criador faz depender do consentimento de uma criatura a execução de todo o plano de sua Providência.

Às vésperas do Natal, nada mais útil para nossa vida interior que meditar sobre essas verdades da nossa fé. A seguir, deixamos a você uma preciosa reflexão, da boca de São Bernardo de Claraval, em que ele descreve com belos detalhes a espera do mundo inteiro pela resposta de Maria, durante o episódio da Anunciação. Para um estudo teológico mais profundo a esse respeito, recomendamos a todos os nossos alunos e internautas que consultem a questão 30 da terceira parte da Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino, que é também de grande riqueza.

Essa meditação de São Bernardo faz parte do Ofício das Leituras de ontem, dia 20 de dezembro.

Das Homilias em louvor da Virgem Mãe, de São Bernardo, abade
(Hom. 4,8-9: Opera omnia, Edit. Cisterc. 4, [1966], 53-54)

O mundo inteiro espera a resposta de Maria

Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem — tu ouviste — mas do Espírito Santo. O Anjo espera tua resposta: já é tempo de voltar para Deus que o enviou. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos tua palavra de misericórdia.

Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres. Todos fomos criados pelo Verbo eterno, mas caímos na morte; com uma breve resposta tua seremos recriados e novamente chamados à vida.

Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés.

E não é sem razão, pois de tua palavra depende o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, enfim, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua raça.

Apressa-te, ó Virgem, em dar a tua resposta; responde sem demora ao Anjo, ou melhor, responde ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra; profere a tua palavra e concebe a Palavra de Deus; dize uma palavra passageira e abraça a Palavra eterna.

Por que demoras? Por que hesitas? Crê, consente, recebe. Que tua humildade se encha de coragem, tua modéstia de confiança. De modo algum convém que tua simplicidade virginal esqueça a prudência. Neste encontro único, porém, Virgem prudente, não temas a presunção. Pois, se tua modéstia no silêncio foi agradável a Deus, mais necessário é agora mostrar tua piedade pela palavra.

Abre, ó Virgem santa, teu coração à fé, teus lábios ao consentimento, teu seio ao Criador. Eis que o Desejado de todas as nações bate à tua porta. Ah! se tardas e ele passa, começarás novamente a procurar com lágrimas aquele que teu coração ama! Levanta-te, corre, abre. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. Eis aqui, diz a Virgem, a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38).

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Cristo, segundo Adão, recapitula todas as gerações

Em uma época como a nossa, que tende a ressuscitar erros antigos, nada como recordar a verdade da humanidade de Cristo, sem a qual se torna inútil toda a obra de nossa salvação.

Neste dia em que a Igreja celebra a memória de Santo Irineu de Lião, bispo e mártir († 202 d.C.), disponibilizamos abaixo um trecho de sua famosa obra Adversus haereses ("Contra as heresias"), no qual ele fala da recapitulação de todos homens em Cristo.

Em uma época como a nossa, que tende a ressuscitar erros antigos (lembremos que Santo Irineu se dirigia aos gnósticos, e essa heresia está longe de ser uma coisa do passado), nada como recordar a verdade da humanidade de Cristo, sem a qual se torna inútil toda a obra de nossa salvação. "Se não se fez o que nós éramos", diz Santo Irineu, "não tinha importância nem valor o que ele sofreu e padeceu".

No excerto a seguir, também temos um relato importante acerca do papel de Maria na redenção. "O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria", escreve o santo, "e o que Eva amarrara pela sua incredulidade Maria soltou pela sua fé". Como se trata de um escrito ainda do segundo século da Igreja, o que temos abaixo é um forte testemunho de que a devoção a Nossa Senhora por parte dos cristãos tem origem nos primórdios da Igreja — e não em uma suposta "distorção pagã" do Evangelho pelos romanos.

É uma grande alegria ler textos como este, que nos colocam em contato com nossos primeiros pais na fé. Não deixem de apreciar e de repassar esta preciosidade:

Cristo, segundo Adão, recapitula todas as gerações

Ele recapitulou também em si a obra modelada no princípio.

Como pela desobediência de um só homem o pecado entrou no mundo e pelo pecado a morte, assim pela obediência de um só homem foi introduzida a justiça que traz como fruto a vida ao homem morto. E como a substância de Adão, o primeiro homem plasmado, foi tirada da terra simples e ainda virgem — "Deus ainda não fizera chover e o homem ainda não a trabalhara" (Gn 2, 5) — e foi modelado pela mão de Deus, isto é, pelo Verbo de Deus — com efeito, "todas as coisas foram feitas por ele", e o "Senhor tomou do lodo da terra e modelou o homem" (Gn 2, 7) —, assim o Verbo que recapitula em si Adão, recebeu de Maria, ainda virgem, a geração da recapitulação de Adão.

Se o primeiro Adão tivesse homem por pai e tivesse nascido de sêmen viril teriam razão em dizer que também o segundo Adão foi gerado por José. Mas se o primeiro Adão foi tirado da terra e modelado pelo Verbo de Deus, era necessário que este mesmo Verbo, efetuando em si a recapitulação de Adão, tivesse geração semelhante à dele. E, então, por que Deus não tomou outra vez do limo da terra, mas quis que esta modelagem fosse feita por Maria? Para que não houvesse segunda obra modelada e para que não fosse obra modelada diferente da que era salvada, mas, conservando a semelhança, fosse aquela primeira a ser recapitulada.

Erram, portanto, os que sustentam que o Cristo nada recebeu da Virgem, para poder rejeitar a herança da carne; mas rejeitam assim, ao mesmo tempo, a semelhança. Com efeito, se aquele primeiro recebeu a sua modelagem e substância da terra pela mão e arte de Deus e este não, então não conservou a semelhança com o homem que foi feito à imagem e semelhança de Deus, e o Artífice pareceria inconstante e sem nada que demonstre a sua sabedoria. Isto quer dizer que ele apareceu como homem sem sê-lo realmente e que se fez homem sem tomar nada do homem!

Mas se não recebeu de nenhum ser humano a substância da sua carne, ele não se fez nem homem, nem Filho do homem. E se não se fez o que nós éramos, não tinha importância nem valor o que ele sofreu e padeceu. Ora, não há quem não admita que nós somos feitos de corpo tirado da terra e de alma que recebe de Deus o Espírito. E é isso que se tornou o Verbo de Deus ao recapitular em si mesmo a obra por ele plasmada, e é este o motivo pelo qual se declara Filho do homem e declara bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra. Por seu lado, o apóstolo Paulo, na carta aos Gálatas, disse abertamente: "Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher" (Gl 4, 4); e na carta aos romanos diz: "... acerca do seu Filho, que nasceu da posteridade de Davi, segundo a carne, declarado Filho de Deus, com poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo Senhor nosso" (Rm 1, 3-4).

De outra forma, a sua descida em Maria seria supérflua; pois para que desceria nela se não devia receber nada dela? Se não tivesse recebido nada de Maria então nunca teria tomado alimentos terrenos com os quais se alimenta um corpo tirado da terra; após o jejum de quarenta dias, como Moisés e Elias, seu corpo não teria experimentado a fome e não teria procurado alimento. João, seu discípulo, não teria escrito: "Jesus, cansado pela caminhada, estava sentado" (Jo 4, 6); nem Davi teria dito dele: "E acrescentaram sofrimento à dor das minhas feridas" (Sl 69, 27); não teria chorado sobre o túmulo de Lázaro; não suaria gotas de sangue, nem teria dito: "A minha alma está triste" (Mt 26, 38); e de seu lado transpassado não teriam saído sangue e água. Tudo isso são sinais da carne tirada da terra, que recapitulou em si, salvando a obra de suas mãos.

Por isso Lucas apresenta genealogia de setenta e duas gerações, que vai do nascimento do Senhor até Adão, unindo o fim ao princípio, para dar a entender que o Senhor é o que recapitulou em si mesmo todas as nações dispersas desde Adão, todas as línguas e gerações dos homens, inclusive Adão. Por isso Paulo chama Adão figura do que devia vir, porque o Verbo, Criador de todas as coisas, prefigurara nele a futura economia da humanidade de que se revestiria o Filho de Deus, pelo fato de Deus, formando o homem psíquico, ter dado a entender que seria salvo pelo homem espiritual. Por isso, visto que já existia como salvador, devia tornar-se quem devia ser salvo, para não ser o Salvador de nada.

Da mesma forma, encontramos Maria, a Virgem obediente, que diz: "Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra", e, em contraste, Eva, que desobedeceu quando ainda era virgem. Como esta, ainda virgem se bem que casada — no paraíso estavam nus e não se envergonhavam, porque, criados há pouco tempo ainda não pensavam em gerar filhos, sendo necessário que, primeiro, se tornassem adultos antes de se multiplicar —, pela sua desobediência se tornou para si e para todo o gênero humano causa da morte, assim Maria, tendo por esposo quem lhe fora predestinado e sendo virgem, pela sua obediência se tornou para si e para todo o gênero humano causa da salvação. É por isso que a Lei chama a que é noiva, se ainda virgem, de esposa daquele que a tomou por noiva, para indicar o influxo que se opera de Maria sobre Eva. Com efeito, o que está amarrado não pode ser desamarrado, a menos que se desatem os nós em sentido contrário ao que foram dados, e os primeiros são desfeitos depois dos segundos e estes, por sua vez, permitem que se desfaçam os primeiros: acontece que o primeiro é desfeito pelo segundo e o segundo é desfeito em primeiro lugar.

Eis por que o Senhor dizia que os primeiros serão os últimos e os últimos os primeiros. E o profeta diz a mesma coisa: Em lugar dos pais nasceram filhos para ti. Com efeito, o Senhor, o primogênito dos mortos, reuniu no seu seio os patriarcas antigos e os regenerou para a vida de Deus, tornando-se ele próprio o primeiro dos viventes, ao passo que Adão fora o primeiro dos que morrem. Eis por que Lucas, iniciando a genealogia a partir do Senhor subiu até Adão, porque não foram aqueles antepassados que lhe deram a vida, e sim foi ele que os fez renascer no evangelho da vida. Da mesma forma, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, e o que Eva amarrara pela sua incredulidade Maria soltou pela sua fé.

IRINEU DE LIÃO. Contra as heresias (III, 21, 9-22 [PG 7, 954-960]). São Paulo: Paulus, 2013, pp. 349-352.

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O pintor da Virgem do Perpétuo Socorro

Conheça a história e o simbolismo do ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que remonta ao tempo dos primeiros cristãos.

O autor do ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, exposto à visitação dos fiéis na igreja de Santo Afonso de Ligório, em Roma, permanece desconhecido até nossos dias. Segundo a tradição da Igreja, no entanto, o artista que pintou a imagem da Virgem do Perpétuo Socorro inspirou-se em um ícone atribuído a São Lucas. Além de médico, homem culto e letrado, o Evangelista foi provavelmente um dos primeiros iconógrafos da história da Igreja. Segundo antiga tradição, São Lucas teria pintado ícones de Jesus Cristo, da Virgem Maria, de São Pedro e São Paulo. Há pinturas atribuídas a ele que existem até hoje, como é o caso dos ícones da "Theotokos de Vladimir" e de "Nossa Senhora de Czenstochowa".

A veneração dos ícones sagrados esteve presente na Igreja desde os primórdios do cristianismo. As imagens de Jesus Cristo, de Nossa Senhora, dos outros santos e dos anjos fazem parte da tradição bimilenar da Igreja Católica. No II Concílio de Niceia, em 787, o Magistério da Igreja "justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones: dos de Cristo, e também dos da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Encarnando, o Filho de Deus inaugurou uma nova 'economia' das imagens" [1].

No início do século XVI, surgiram entre os protestantes "novos iconoclastas" e, a exemplo do que aconteceu no passado, em nome da fidelidade às Sagradas Escrituras, nossas imagens sagradas foram quebradas e nossas igrejas terminaram invadidas, depredadas e queimadas. Este fato fez com que o culto às imagens sagradas fosse perdendo a sua força em muitas comunidades, ao passo que, com a tradução da Bíblia do latim para as mais diversas línguas, o culto às Escrituras ganhou cada vez mais força. Essa tendência se tornou ainda mais forte quando, por conta de um falso ecumenismo, passou-se a suprimir as imagens das igrejas e das casas.

À primeira vista, essa mudança na espiritualidade pode até parecer uma evolução.

Dito fenômeno causou, entretanto, um grande problema. Como grande maioria das pessoas não conhecia a Revelação como um todo — Sagradas Escrituras e Tradição da Igreja —, nem a interpretação do Magistério da Igreja acerca do mistério de Deus revelado, isso fez com que crescessem equívocos e interpretações contraditórias. O resultado foi uma verdadeira perversão do sentido autêntico das Sagradas Escrituras, por parte de alguns, e a disseminação de heresias, por parte de outros.

Quanto aos ícones, até a Idade Média, os fiéis, que na sua maioria eram pouco letrados, aprendiam o significado profundo dos símbolos visuais. Dessa forma, pessoas rudes, sem instrução, podiam "ler" nas imagens sagradas o patrimônio de fé da Igreja Católica. No Renascimento — que na realidade foi um verdadeiro retorno ao paganismo —, o culto original aos ícones sagrados reduziu-se drasticamente, passando a fazer parte da espiritualidade de um número cada vez menor de pessoas.

No limiar do terceiro milênio, o Concílio Vaticano II tratou, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, sobre o espírito da pregação e do culto. Nesse documento, o mais importante do Concílio, somos orientados quanto ao culto à Virgem Maria e às sagradas imagens, confirmando o ensinamento que nos foi dado em Niceia:

"Muito de caso pensado ensina o sagrado Concílio esta doutrina católica, e ao mesmo tempo recomenda a todos os filhos da Igreja que fomentem generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovados no decorrer dos séculos pelo magistério, e que mantenham fielmente tudo aquilo que no passado foi decretado acerca do culto das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos" [2].

Na contramão desses fatos, o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro parece ser para nós como que um sinal dos céus para que voltemos às nossas origens.

No final do século XV, um negociante roubou a imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do altar onde estava, na ilha de Creta, onde era venerada pelo povo cristão. O mercador viajou com o ícone, de navio, para Roma e escapou milagrosamente de uma tormenta em alto-mar. Já na Cidade Eterna, ele adoeceu gravemente e, por isso, procurou a ajuda de um amigo. No seu leito de morte, o comerciante, arrependido, contou ao amigo que roubou o quadro e pediu a ele que o devolvesse a uma igreja. Este prometeu devolver a obra de arte sacra, mas depois mudou de ideia e morreu, sem ter cumprido a promessa feita ao amigo comerciante.

Para que se cumprissem os desígnios divinos, a Santíssima Virgem Maria apareceu a uma menina de seis anos, familiar de quem portava o ícone, e "mandou-lhe dizer à mãe e à avó que o quadro devia ser colocado na Igreja de São Mateus Apóstolo, situada entre as basílicas de Santa Maria Maior e São João Latrão, sob o título de Perpétuo Socorro" [3]. Em obediência, o ícone foi devolvido e exposto na igreja de São Mateus em 27 de março de 1499. A partir do século XVI, a devoção começou a se divulgar em toda Roma e, anos mais tarde, pelo mundo inteiro. Nessa igreja, a imagem foi venerada durante os 300 anos seguintes. Em 1798, a igreja de São Mateus foi destruída e a imagem foi retirada a tempo, mas ficou quase que esquecida. Até que, em 26 de abril de 1866, o ícone foi entronizado na Igreja de Santo Afonso, onde permanece até hoje.

Como dissemos, São Lucas pintou belos ícones de Nossa Senhora, como a Virgem do Perpétuo Socorro. No entanto, ele também "pintou" algumas das mais belas "imagens" da Santíssima Virgem nas páginas do santo Evangelho. Entre elas, destacam-se: a anunciação do arcanjo São Gabriel à Virgem de Nazaré (cf. Lc 1, 26-38), a visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel (cf. Lc 1, 39-56), o nascimento de Jesus Cristo em Belém (cf. Lc 2, 1-21) e a apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém (cf. Lc 2, 22-40).

No ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, temos alguns simbolismos que se fazem presentes no Evangelho segundo São Lucas.

Na imagem, vemos a mão direita de Maria apontando para seu Filho e no Evangelho temos várias passagens que apontam para Jesus como o Messias esperado pelo Povo de Israel: "O ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus" (Lc 1, 35b); "Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador" (Lc 1, 46b-47); "Eis aqui a serva do Senhor" (Lc 1, 38a); "E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho" (Lc 1, 76). Naquele tempo, raramente alguém tinha um livro das Sagradas Escrituras. Possuir uma passagem da Escritura era também muito raro. Por isso, como já dissemos, os primeiros discípulos de Cristo olhavam para os ícones, nas casas das poucas pessoas que os possuíam, e neles "liam" os textos sagrados.

Entre os simbolismos presentes na imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, talvez o teologicamente mais rico e espiritualmente mais significativo seja o retrato do Calvário. Ao contemplar a Virgem do Perpétuo Socorro, vemos à sua esquerda o arcanjo São Miguel, que apresenta a lança, a vara com a esponja e o cálice das amarguras que o Cristo sorveu até o fim. À direita, está o arcanjo São Gabriel, com a cruz e os cravos, que foram os instrumentos da paixão e morte de Jesus. O Menino Jesus, o Perpétuo Socorro em pessoa, assustado ao olhar para os instrumentos de Sua paixão, com as duas mãos, segura firmemente a mão direita de sua Mãe, como que nos ensinando a confiar-nos inteiramente a ela, especialmente nos momentos de medo, dor e sofrimento.

Para completar a nossa "leitura" do ícone, na perspectiva do mistério pascal de Cristo, podemos olhar para Maria como a Virgem das Dores. A sua mão esquerda, que sustenta o Filho, simboliza a sua presença aos pés da cruz (cf. Jo 19, 25). O seu olhar materno, ao mesmo tempo que demonstra o acolhimento e o cuidado para com cada um de nós, que fomos entregues a ela como filhos, é um convite para que a levemos para o que é nosso, ou seja, para a nossa vida interior, como fez o discípulo amado (cf. Jo 19, 27).

Um detalhe do ícone, que pode passar despercebido, é a sandália desamarrada, que pode simbolizar um pecador, preso a Jesus apenas por um fio, fio este que é a devoção a Santíssima Virgem. Este "fio" tão frágil pode ser uma lembrança, ou uma devoção sem muita piedade, que num momento de desespero, de sofrimento, pode nos manter unidos ao Senhor. Vemos uma imagem disto naquela que é provavelmente a mais conhecida e bela parábola de Jesus, presente somente no Evangelho escrito por Lucas: a parábola do filho pródigo. Depois de deixar a casa do pai e de gastar toda a sua fortuna numa vida desenfreada, o filho esbanjador estava na situação humilhante de cuidar de porcos. Para os judeus que ouviram de Jesus esta parábola, cuidar de porcos era ainda mais humilhante, porque eles os consideravam animais impuros. Para completar a humilhação, o rapaz, faminto, queria comer a comida dos porcos, mas nem isso lhe era dado para comer (cf. Lc 15, 11-16). Foi então que ele entrou em si, refletiu, recordou-se que na casa de seu pai até mesmo os empregados tinham pão em abundância e tomou a decisão de voltar (cf. Lc 15, 17-18). Da mesma forma, um pecador pode voltar para Jesus e se salvar pela simples devoção que tem à Virgem Maria, ou até mesmo por uma vaga lembrança do amor que nutre por ela.

Nas passagens do Evangelho que falam dos dois ladrões, crucificados à direita e à esquerda de Jesus, há aparentemente uma contradição, que pode nos ajudar a aprofundar nossa reflexão. Em Mateus e Marcos, ambos escarneciam de Jesus: "E os ladrões, crucificados com ele, também o ultrajavam" (Mt 27, 44; cf. Mc 15, 32). Mas, em Lucas, apenas um dos malfeitores blasfemava (cf. Lc 23, 39). O outro, que segundo a tradição se chamava Dimas, não somente repreendeu o outro ladrão, mas também reconheceu que para eles aquela condenação era justa, mas não para Jesus, pois não tinha feito mal algum (cf. 23, 40-41). A razão desta aparente contradição é que, segundo uma visão da mística Beata Anna Catharina Emmerich, a princípio, ambos escarneciam do Cristo, até que algo inesperado aconteceu:

"Dimas, o bom ladrão, obteve pela oração de Jesus uma iluminação interior, no momento em que a Santíssima Virgem se aproximou. Reconheceu em Jesus e em Maria as pessoas que o tinham curado [da lepra] quando era criança e exclamou em voz forte e distinta: 'O quê? É possível que insulteis Àquele que reza por vós? Ele se cala, sofre com paciência, reza por vós e vós o cobris de escárnio? Ele é um profeta, é nosso rei, é o Filho de Deus'" [4].

Naquele momento derradeiro de sua vida terrena, São Dimas recebeu a graça de recordar de Jesus e de sua Mãe. A partir dessa lembrança de sua infância, começou o extraordinário processo de conversão do bom ladrão, que culminou no seu ousado pedido: "Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!" (Lc 23, 42). A salvação de São Dimas estava por um "fio", que era a vaga recordação de uma cura, operada pelas mãos do Menino Jesus e de Maria. Dessa forma, quase no último momento de sua vida, o bom ladrão "roubou" o Céu, a salvação eterna.

São Lucas escreveu o Evangelho de Jesus Cristo não somente com palavras, mas também com imagens, que nos ajudam a encontrar na devoção a Virgem Maria um caminho seguro para chegar a Ele. Que neste dia, no qual celebramos Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, façamos o salutar propósito de "ler", na sua imagem, as Sagradas Escrituras, e nelas encontrar o próprio Cristo, a Palavra de Deus que se fez carne.

Ainda que nossa situação seja semelhante à do filho pródigo, ou como a do bom ladrão, e nossa vida esteja unida a Cristo apenas por um "fio", entreguemo-nos com confiança à Virgem das Dores, que nos foi dada, pelo próprio Filho, por Mãe (cf. Jo 19, 27). Assim, da mesma forma que a Mãe de Deus contribuiu para a cura e a salvação de São Dimas, ela nos alcançará os bens necessários para a nossa vida terrena e principalmente para chegarmos à glória celeste.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 2131.
  2. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, 67.
  3. A12, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
  4. Flor do Carmelo, Meditação - Quinto Mistério Doloroso - Jesus Morre na Cruz. Texto extraído do livro: Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus, da Beata Anna Catharina Emmerich. Como toda revelação particular, não somos obrigados a crer com fé católica nesse escrito, mas podemos aceitá-lo para melhor compreensão das Escrituras e para edificação de nossa fé.

| Categoria: Virgem Maria

O que significa dizer que Maria é “corredentora” e “medianeira de todas as graças”?

A participação singular de Maria na obra da redenção não é apenas uma “opinião piedosa”, mas uma verdade ensinada repetidas vezes pelo Magistério da Igreja.

Falávamos há pouco sobre a relevância das aparições de Maria para a vida cristã e de como os católicos devem interpretá-las segundo a imutável e incorrigível Revelação Divina. De fato, elas não têm a missão de acrescentar ou corrigir qualquer ponto da doutrina, mas de ajudar a Igreja a testemunhar mais profundamente os mistérios de Cristo, sobretudo quando estes mistérios parecem caducar em determinados contextos sociais marcadamente hostis à religião [1].

Na mensagem de Lourdes, por exemplo, Nossa Senhora veio recordar a validade da pobreza e da piedade contra a racionalidade materialista e anticlerical do século XIX.

Em Fátima, por sua vez, a Mãe de Deus insistiu na necessidade de reparação e penitência pelas almas infiéis que, àquela altura, tripudiavam sobre o santíssimo nome de Deus com toda sorte de blasfêmias e injúrias.

É importante agora precisar mais claramente o papel de Maria na história da salvação. Tal esclarecimento nos ajudará a entender por que a Virgem Santíssima veio visitar a humanidade em tantas ocasiões, apresentado-se como meio singular para o acesso às graças de Deus. Quando Bento XVI declarou não existir "fruto da graça na história da salvação que não tenha como instrumento necessário a mediação de Nossa Senhora", ele não estava simplesmente fazendo uso de um exagero retórico próprio da linguagem dos santos [2]. A mediação de Maria faz parte do patrimônio da fé cristã e é a partir desta verdade, tão presente nos ensinamentos dos santos como também no Magistério ordinário da Igreja, que a porção dos fiéis pode unir-se mais eficazmente contra os desvios mundanos, a fim de alcançar a coroa do Céu.

"Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por Ela que deve reinar no mundo" [3]: com essas palavras, São Luís Maria Grignon de Montfort resume todo o fundamento da doutrina católica acerca da participação da Mãe de Deus na redenção da humanidade. Como em Deus não há movimento nem mudança, a sua vontade permanece sempre a mesma para todos os efeitos [4]. Ora, Ele escolheu livremente ter uma mãe segundo a carne humana e manter-se submisso aos seus cuidados durante a maior parte de sua vida terrena. Não é difícil concluir, portanto, que essa maternidade divina continua no Céu. A própria Sagrada Escritura nos confirma isso em inúmeras passagens, em especial, nos relatos de São João sobre as últimas palavras de Cristo pregado à cruz: Maria é dada como mãe para toda a humanidade (cf. Jo 19, 25-27; Gn 3, 15; Ap 12, 1-18). E é por meio da cooperação dessa mesma Mãe que nos devem chegar todas as graças da salvação, ou seja, o próprio Jesus Cristo.

Santos de todas as épocas dão crédito a essa doutrina. Falando sobre a cooperação de Nossa Senhora na obra da Redenção, Santo Irineu disse: "Obedecendo, Ela tornou-se causa de salvação para si e para todo o gênero humano" [5].

Algo semelhante escreveu um discípulo de Santo Anselmo: "Deus é Senhor de todas as coisas, constituindo cada uma delas na sua própria natureza pela voz do seu poder, e Maria é Senhora de todas as coisas, reconstituindo-as na sua dignidade primitiva pela graça, que lhes mereceu" [6].

E para que não reste qualquer dúvida dessa cooperação de Maria, citemos a profecia de Simeão acerca da espada de dor com a qual Ela seria ferida (cf. Lc 2, 35). A Virgem Santíssima completou na própria carne as dores que faltaram na Cruz de Cristo, segundo o ensinamento de São Paulo (cf. Col 1, 24).

No último século, o Magistério ordinário da Igreja também falou repetidas vezes sobre o mesmo assunto.

Leão XIII, por exemplo, redigiu 13 encíclicas para ressaltar o valor da oração do Rosário. É de sua pena esta belíssima prece, na qual o grande pontífice pede que a Virgem "restitua a tranquilidade da paz aos espíritos angustiados; apresse enfim, na vida privada como na vida pública, o retorno a Jesus Cristo": "Que, no seu poder, a Virgem Mãe, que outrora cooperou por seu amor no nascimento dos fiéis na Igreja, seja ainda agora o instrumento e a guardiã da nossa salvação" [7].

Não nos esqueçamos ainda das piedosas exortações de Pio XII. O Papa que, conforme contam algumas testemunhas, teria visto o milagre do sol nos jardins do Vaticano, ensinava: "Se Maria, na obra da salvação espiritual, foi associada por vontade de Deus a Jesus Cristo, princípio de salvação, pode-se dizer igualmente que esta gloriosíssima Senhora foi escolhida para Mãe de Cristo 'para lhe ser associada na redenção do gênero humano'" [8].

Palavras semelhantes são encontradas também nas cartas de Pio X, Bento XV, Pio XI, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II.

Com tantos papas escrevendo sobre esse assunto, já não se pode dizer ingenuamente que a "mediação universal" de Maria e o seu papel como "corredentora" sejam meras "opiniões piedosas". Embora a Igreja ainda não tenha se manifestado solenemente a esse respeito, por meio de uma declaração ex cathedra, a sua notável presença nos documentos comuns dos Santos Padres leva-nos àquela obediência da fé, que também se aplica ao que propõe o Magistério ordinário e universal, isto é, "o ensino comum e universal de uma determinada doutrina pelo papa e por todos os bispos espalhados pelo mundo" [9].

Aliás, o próprio Concílio Vaticano II referendou tudo isso que dissemos até agora:

Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem interrupção, desde o consentimento, que fielmente deu na anunciação e que manteve inabalável junto à cruz, até à consumação eterna de todos os eleitos. De fato, depois de elevada ao Céu, não abandonou esta missão salvadora, mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. Cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira. Mas isto se entende de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único mediador, que é Cristo.

Efetivamente, nenhuma criatura se pode equiparar ao Verbo encarnado e Redentor; mas, assim como o sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma só, se difunde variamente pelos seres criados, assim também a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas cooperações diversas, que participam dessa única fonte.

Esta função subordinada de Maria, não hesita a Igreja em proclamá-la; sente-a constantemente e inculca-a aos fiéis, para mais intimamente aderirem, com esta ajuda materna, ao seu mediador e salvador. [10]

Demonstrado o fundamento de nossa fé na cooperação de Maria — cooperação esta que se manisfestou "de modo singular, com sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural" [11] —, tornam-se mais lúcidas as suas aparições, cujas mensagens resumem-se a uma maior fidelidade à religião cristã, ou seja, ao chamado à santidade.

Maria nunca quer nada para Ela. Ao contrário, a Virgem sempre direciona-nos para o Seu Filho, a fim de que deixemos de ofendê-lO com nossos pecados.

Maria fala contra a indiferença e a tibieza dos corações que já não dão espaço para Jesus.

Mais: a Mãe de Deus escolhe almas inocentes para livremente sofrerem pela conversão dos pobres pecadores. Maria, por meio da consagração que lhe fazem, instrui e protege Seus filhos na batalha contra a serpente maligna, forjando-os no mesmo fogo no qual quis ser forjado o próprio Filho de Deus. Portanto, não há como negar as palavras de São Luís Maria Grignon de Montfort: "Se a devoção à Santíssima Virgem nos afastasse de Jesus, seria preciso rejeitá-la como uma ilusão do demônio. Mas é tão o contrário [...], esta devoção só nos é necessária para encontrar Jesus Cristo, amá-lO ternamente e fielmente servi-lO" [12].

Maria é, realmente, corredentora e medianeira de todas as graças.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 67.
  2. Papa Bento XVI, Homilia da Santa Missa de Canonização de Frei Galvão (11 de maio de 2007), n. 5.
  3. São Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 1.
  4. Cf. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, q. 2, a. 3.
  5. Santo Irineu, Adversus Haereses, III, 22, 4 (PG 7, 959).
  6. Eadmero, De excellentia Virginis Mariae, 11 (PL 159, 308).
  7. Breve de 8 de setembro de 1901: Acta Leonis XIII, vol. 21, pp. 159-160.
  8. Papa Pio XII, Carta Encíclica Ad Caeli Reginam (11 de outubro de 1954), n. 35.
  9. MARÍN, Antônio Royo. A fé da Igreja: em que deve crer o cristão hoje (trad. de Guilherme Ferreira Araújo). Campinas: Ecclesiae, Edições Cristo Rei, 2015, p. 69.
  10. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium (21 de novembro de 1964), n. 65.
  11. Ibid., n. 61.
  12. São Luís Maria Grignion de Montfort, op. cit, n. 62.

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Ex-luterana convertida à Igreja é declarada santa pelo Papa Francisco

Ela nasceu na Suécia protestante para morrer em odor de santidade na Roma católica. Conheça um pouco da história de Maria Isabel Hesselblad, canonizada este mês pelo Papa Francisco.

O Papa Francisco canonizou, neste dia 5 de junho, a religiosa sueca Maria Isabel Hesselblad. Trata-se de um destino pouco comum para quem nasce na região da Escandinávia, dominada pelo protestantismo desde o século XVI.

De fato, Isabel foi criada em um lar protestante. Nasceu no vilarejo de Faglavik, sudoeste da Suécia, no dia 4 de junho de 1870. Ela era a quinta de 13 irmãos e foi batizada na comunidade luterana da Suécia, que seus pais frequentavam todos os domingos.

Com 16 anos, para ajudar nas necessidades materiais de casa, Isabel começa a trabalhar como doméstica. Dois anos depois, em 1888, a jovem decide mudar-se para os Estados Unidos, onde passa a trabalhar como enfermeira em um hospital de Nova Iorque. Aí ela entra em contato com diferentes culturas e religiões, descobrindo um mundo cristão totalmente diverso daquele a que estava acostumada na Suécia: a Igreja Católica.

Enquanto atendia a um trabalhador irlandês que se havia ferido na construção da futura Catedral de São Patrício, Isabel ouviu-o clamando o auxílio de Nossa Senhora: "Maria, Mãe de Deus, rogai por nós!". Assustada com a invocação, a jovem Isabel escreveria que "não era cristão" falar daquele modo. "Os católicos usam umas fórmulas curiosas", pensou ela na ocasião.

Outra noite, depois de enfrentar uma terrível tempestade buscando um sacerdote para um católico moribundo, ela receberia uma bênção profética. "Que Deus te abençoe, querida irmã, pelo teu cuidado e dedicação", disse-lhe o religioso. "Tu ainda não és capaz de entender o maravilhoso serviço que prestas a tanta gente, mas um dia o entenderás e encontrarás o caminho."

A jovem Isabel perambulava com suas amigas por várias igrejas cristãs de distintas denominações e se perguntava qual seria o único rebanho a que se referia o Evangelho de São João. Muito lhe agradava o silêncio das igrejas católicas, ainda que não conseguisse entender o porquê de tantos gestos físicos, como o sinal da cruz e as genuflexões.

Foi durante uma viagem a Bruxelas, enquanto acompanhava suas amigas católicas em um procissão do Santíssimo na Catedral de São Miguel e Santa Gudula, que Isabel teve um encontro pessoal com Jesus na Eucaristia:

"Ao ver as minhas duas amigas e muitos outros se ajoelhando, retirei-me atrás das portas para não ofender os que me rodeavam ficando de pé. Pensei comigo: 'Só me ajoelho diante de ti, Senhor, não aqui'. Naquele momento, o bispo chegou à porta carregando a custódia. Minha alma atormentada se encheu de repente de doçura e escutei uma voz, que parecia proceder ao mesmo tempo do exterior e do fundo do meu coração, que me dizia: 'Eu sou aquele que tu buscas'. Caí de joelhos, então, e ali, atrás da porta da igreja, realizei a minha primeira adoração a nosso divino Senhor presente no Santíssimo Sacramento."

Essa experiência mística abriu a alma de Isabel à fé católica. Depois, a oração, o estudo e os conselhos de um sábio padre jesuíta terminariam dissipando as suas dúvidas em relação a Nossa Senhora. Em 15 de agosto de 1902, já com 32 anos, Isabel finalmente recebe o Batismo "sob condição", no Convento da Visitação, em Washington. "Por um momento o amor de Deus foi derramado sobre mim", ela escreve, relembrando esse evento tão importante em sua caminhada de fé. "Entendi, então, que só poderia responder àquele amor por meio do sacrifício e de um amor disposto a sofrer por Sua glória e pela Igreja. Sem hesitar ofereci a Ele a minha vida e a minha vontade de segui-Lo no caminho da Cruz."

Durante uma peregrinação à Cidade Eterna, Isabel recebeu o sacramento da Confirmação e descobriu que devia dedicar toda a sua vida a rezar pela unidade dos cristãos. Ao visitar o templo e a casa de sua conterrânea, Santa Brígida, ela ficou profundamente impressionada e sentiu que Deus lhe chamava para a vida consagrada: "É neste lugar que desejo que Me sirvas".

Em 1906, ela recebe a permissão do Papa São Pio X para tomar o hábito da Ordem do Santíssimo Salvador, fundada por Santa Brígida. Cinco anos depois, passados inúmeros percalços, ela consegue estabelecer em Roma uma casa das brigidinas, dando início a um novo ramo da comunidade.

Desde o começo de sua fundação, Isabel se dedicou com muito cuidado à formação e direção de suas filhas espirituais. Ela implorava a elas que vivessem unidas a Deus, que tivessem um desejo fervoroso de se conformarem a nosso Divino Salvador, que possuíssem um grande amor pela Igreja e pelo Romano Pontífice e, por fim, que rezassem continuamente pela unidade de todos os cristãos. "Essa é a primeira meta da nossa vocação", ela repetia. "Nossas casas religiosas devem ser formadas pelo exemplo de Nazaré: oração, trabalho e sacrifício. O coração humano não pode aspirar a nada maior."

Contemplando o infinito amor do Filho de Deus, que Se sacrificou pela nossa salvação, ela alimentava a chama do amor em seu coração e lutava por transmitir a mesma caridade a suas filhas. "Nós devemos nutrir um grande amor por Deus e pelo próximo", ela dizia. "Um amor forte, um amor ardente, um amor que elimine as imperfeições, um amor que gentilmente suporte um ato de impaciência ou uma palavra amarga, um amor que se preste prontamente a um ato de caridade."

Durante a Segunda Guerra Mundial, o convento das brigidinas em Roma escondeu inúmeros refugiados, vindos de todos os lados, o que fez o Estado de Israel reconhecê-la com o título de "justa entre as nações".

A bem-aventurada Maria Isabel Hesselblad morreu em 24 de abril de 1957, em odor de santidade. Já em 2000 ela foi beatificada pelo Papa São João Paulo II.

Ao aproximar-se a sua morte, Isabel rezava continuamente o Rosário. "A Virgem está mais próxima de mim que o meu próprio corpo", ela escrevia. "Sinto que seria mais fácil cortar-me um braço, uma perna ou a cabeça que afastar de mim a Virgem. É como se a minha alma estivesse acorrentada a ela."

Com informações de ReL e Vaticano | Por Equipe CNP

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