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Ninguém se salva a não ser por meio de Maria

Jesus foi o fruto de Maria, como diz Santa Isabel. Quem quer o fruto deve também querer a árvore. Quem, pois, quer a Jesus, deve procurar Maria; e quem acha Maria, certamente acha também Jesus.

Por Santo Afonso Maria de Ligório — Uma sentença de S. Bernardo diz: Cooperaram para nossa ruína um homem e uma mulher. Convinha, pois, que outro homem e outra mulher cooperassem para nossa reparação. E estes foram Jesus e Maria, sua Mãe. Não há dúvida, diz o Santo, Jesus Cristo, só, foi suficientíssimo para remir-nos. Mais conveniente era, entretanto, que para nossa reparação servissem ambos os sexos, assim como haviam cooperado ambos para nossa ruína. Pelo que S. Alberto chamou a Maria cooperadora da redenção. A própria Virgem revelou a S. Brígida que assim como Adão e Eva por um pomo venderam o mundo, assim também ela e seu Filho com um coração o resgataram. Do nada pôde Deus criar o mundo, observa S. Anselmo, mas não quis repará-lo sem a cooperação de Maria.

De três modos, explica o Padre Suárez, cooperou a divina Mãe para a nossa salvação. Primeiro, merecendo com merecimento de côngruo a Encarnação do Verbo. Segundo, rogando muito a Deus por nós, enquanto esteve no mundo. Terceiro, sacrificando com boa vontade a Deus a vida do Filho para nossa salvação. Tendo, pois, Maria cooperado para a redenção com tanto amor pelos homens e tanto zelo pela glória divina, com razão determinou o Senhor que todos nos salvemos por intermédio de sua intercessão.

Maria é chamada cooperadora de nossa justificação, diz Bernardino de Busti, porque Deus lhe entregou as graças todas que nos quer dispensar. Por isso, no dizer de S. Bernardo, todas as gerações, passadas, presentes e futuras, devem considerar Maria como medianeira e advogada da salvação de todos os séculos.

Garante-nos Jesus Cristo que ninguém pode vir a ele, a não ser que o Pai o traga. "Ninguém pode vir a mim, se o Pai não o atrair" (Jo 6, 44). O mesmo também, no sentir de Ricardo de S. Lourenço, diz Jesus de sua Mãe. Ninguém pode vir a mim, se minha Mãe o não atrair com suas preces. Jesus foi o fruto de Maria, como diz S. Isabel (Lc 1, 42). Quem quer o fruto deve também querer a árvore. Quem, pois, quer a Jesus, deve procurar Maria; e quem acha Maria, certamente acha também Jesus. Vendo Isabel a Santíssima Virgem que a fora visitar em sua casa, e não sabendo como lhe agradecer, exclamou cheia de humildade: E donde a mim esta dita, que venha visitar-me a Mãe do meu Senhor? (Lc 1, 43). Mas como assim pergunta? Não sabia já Isabel que não só Maria, como também Jesus tinha vindo a sua casa? Por que, pois, se declara indigna de receber a Mãe, em vez de confessar-se indigna de ver o Filho vir a seu encontro? Ah! é porque bem entendia a Santa que Maria vem sempre com Jesus e que, portanto, lhe bastava agradecer à Mãe sem nomear o Filho.

No livro dos Provérbios (31, 14), diz-se da mulher prudente: Fez-se como a nau do negociante, que traz de longe o seu pão. Maria foi esta ditosa nau, que do céu nos trouxe Jesus Cristo, pão vivo descido do céu para dar-nos a vida eterna, como ele diz: Eu sou o pão vivo, que desci do céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente (Jo 6, 51). Daí conclui Ricardo de S. Lourenço que no mar deste mundo todos se perdem, quantos não se tiverem recolhido a esta nau, isto é, que não forem protegidos de Maria. Sempre, portanto, continua ele, que estivermos em perigo de nos perdermos pelas tentações ou paixões desta vida: urge recorrer a Maria, clamando: Depressa, Senhora, ajudai-nos, salvai-nos, se não quereis ver-nos perdidos. E note-se aqui, de passagem, que o sobredito autor não se faz escrúpulo de dizer a Maria: Salvai-nos que perecemos! Não imita, por conseguinte, o autor mencionado no parágrafo anterior, o qual nos proíbe que peçamos à Virgem salvação, porquanto no seu parecer só de Deus devemos esperá-la. Bem pode um condenado à morte dizer a algum valido do rei que o salve, pedindo ao príncipe indulto para a sua vida. Mas por que então não poderemos nós dizer à Mãe de Deus que nos salve, impetrando-nos a graça da vida eterna? S. João Damasceno sem dificuldade dizia à Virgem Santíssima: Rainha pura e imaculada, salvai-me, livrai-me da condenação eterna! S. Boaventura saúda-a como "salvação dos que a invocam". A Santa Igreja aprova o chamar-lhe "saúde dos enfermos". E teremos nós escrúpulos de pedir-lhes que nos salve, quando um escritor afirma que ninguém se salva senão por ela? E já antes deles, S. Germano afirmou "que ninguém se salva a não ser por meio de Maria".


Da obra Glórias de Maria (I, 5), de Santo Afonso Maria de Ligório,
3. ed. Aparecida: Santuário, 1989, pp. 141-143.

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O pintor da Virgem do Perpétuo Socorro

Conheça a história e o simbolismo do ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que remonta ao tempo dos primeiros cristãos.

O autor do ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, exposto à visitação dos fiéis na igreja de Santo Afonso de Ligório, em Roma, permanece desconhecido até nossos dias. Segundo a tradição da Igreja, no entanto, o artista que pintou a imagem da Virgem do Perpétuo Socorro inspirou-se em um ícone atribuído a São Lucas. Além de médico, homem culto e letrado, o Evangelista foi provavelmente um dos primeiros iconógrafos da história da Igreja. Segundo antiga tradição, São Lucas teria pintado ícones de Jesus Cristo, da Virgem Maria, de São Pedro e São Paulo. Há pinturas atribuídas a ele que existem até hoje, como é o caso dos ícones da "Theotokos de Vladimir" e de "Nossa Senhora de Czenstochowa".

A veneração dos ícones sagrados esteve presente na Igreja desde os primórdios do cristianismo. As imagens de Jesus Cristo, de Nossa Senhora, dos outros santos e dos anjos fazem parte da tradição bimilenar da Igreja Católica. No II Concílio de Niceia, em 787, o Magistério da Igreja "justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones: dos de Cristo, e também dos da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Encarnando, o Filho de Deus inaugurou uma nova 'economia' das imagens" [1].

No início do século XVI, surgiram entre os protestantes "novos iconoclastas" e, a exemplo do que aconteceu no passado, em nome da fidelidade às Sagradas Escrituras, nossas imagens sagradas foram quebradas e nossas igrejas terminaram invadidas, depredadas e queimadas. Este fato fez com que o culto às imagens sagradas fosse perdendo a sua força em muitas comunidades, ao passo que, com a tradução da Bíblia do latim para as mais diversas línguas, o culto às Escrituras ganhou cada vez mais força. Essa tendência se tornou ainda mais forte quando, por conta de um falso ecumenismo, passou-se a suprimir as imagens das igrejas e das casas.

À primeira vista, essa mudança na espiritualidade pode até parecer uma evolução.

Dito fenômeno causou, entretanto, um grande problema. Como grande maioria das pessoas não conhecia a Revelação como um todo — Sagradas Escrituras e Tradição da Igreja —, nem a interpretação do Magistério da Igreja acerca do mistério de Deus revelado, isso fez com que crescessem equívocos e interpretações contraditórias. O resultado foi uma verdadeira perversão do sentido autêntico das Sagradas Escrituras, por parte de alguns, e a disseminação de heresias, por parte de outros.

Quanto aos ícones, até a Idade Média, os fiéis, que na sua maioria eram pouco letrados, aprendiam o significado profundo dos símbolos visuais. Dessa forma, pessoas rudes, sem instrução, podiam "ler" nas imagens sagradas o patrimônio de fé da Igreja Católica. No Renascimento — que na realidade foi um verdadeiro retorno ao paganismo —, o culto original aos ícones sagrados reduziu-se drasticamente, passando a fazer parte da espiritualidade de um número cada vez menor de pessoas.

No limiar do terceiro milênio, o Concílio Vaticano II tratou, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, sobre o espírito da pregação e do culto. Nesse documento, o mais importante do Concílio, somos orientados quanto ao culto à Virgem Maria e às sagradas imagens, confirmando o ensinamento que nos foi dado em Niceia:

"Muito de caso pensado ensina o sagrado Concílio esta doutrina católica, e ao mesmo tempo recomenda a todos os filhos da Igreja que fomentem generosamente o culto da Santíssima Virgem, sobretudo o culto litúrgico, que tenham em grande estima as práticas e exercícios de piedade para com Ela, aprovados no decorrer dos séculos pelo magistério, e que mantenham fielmente tudo aquilo que no passado foi decretado acerca do culto das imagens de Cristo, da Virgem e dos santos" [2].

Na contramão desses fatos, o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro parece ser para nós como que um sinal dos céus para que voltemos às nossas origens.

No final do século XV, um negociante roubou a imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do altar onde estava, na ilha de Creta, onde era venerada pelo povo cristão. O mercador viajou com o ícone, de navio, para Roma e escapou milagrosamente de uma tormenta em alto-mar. Já na Cidade Eterna, ele adoeceu gravemente e, por isso, procurou a ajuda de um amigo. No seu leito de morte, o comerciante, arrependido, contou ao amigo que roubou o quadro e pediu a ele que o devolvesse a uma igreja. Este prometeu devolver a obra de arte sacra, mas depois mudou de ideia e morreu, sem ter cumprido a promessa feita ao amigo comerciante.

Para que se cumprissem os desígnios divinos, a Santíssima Virgem Maria apareceu a uma menina de seis anos, familiar de quem portava o ícone, e "mandou-lhe dizer à mãe e à avó que o quadro devia ser colocado na Igreja de São Mateus Apóstolo, situada entre as basílicas de Santa Maria Maior e São João Latrão, sob o título de Perpétuo Socorro" [3]. Em obediência, o ícone foi devolvido e exposto na igreja de São Mateus em 27 de março de 1499. A partir do século XVI, a devoção começou a se divulgar em toda Roma e, anos mais tarde, pelo mundo inteiro. Nessa igreja, a imagem foi venerada durante os 300 anos seguintes. Em 1798, a igreja de São Mateus foi destruída e a imagem foi retirada a tempo, mas ficou quase que esquecida. Até que, em 26 de abril de 1866, o ícone foi entronizado na Igreja de Santo Afonso, onde permanece até hoje.

Como dissemos, São Lucas pintou belos ícones de Nossa Senhora, como a Virgem do Perpétuo Socorro. No entanto, ele também "pintou" algumas das mais belas "imagens" da Santíssima Virgem nas páginas do santo Evangelho. Entre elas, destacam-se: a anunciação do arcanjo São Gabriel à Virgem de Nazaré (cf. Lc 1, 26-38), a visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel (cf. Lc 1, 39-56), o nascimento de Jesus Cristo em Belém (cf. Lc 2, 1-21) e a apresentação de Jesus no Templo de Jerusalém (cf. Lc 2, 22-40).

No ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, temos alguns simbolismos que se fazem presentes no Evangelho segundo São Lucas.

Na imagem, vemos a mão direita de Maria apontando para seu Filho e no Evangelho temos várias passagens que apontam para Jesus como o Messias esperado pelo Povo de Israel: "O ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus" (Lc 1, 35b); "Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador" (Lc 1, 46b-47); "Eis aqui a serva do Senhor" (Lc 1, 38a); "E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho" (Lc 1, 76). Naquele tempo, raramente alguém tinha um livro das Sagradas Escrituras. Possuir uma passagem da Escritura era também muito raro. Por isso, como já dissemos, os primeiros discípulos de Cristo olhavam para os ícones, nas casas das poucas pessoas que os possuíam, e neles "liam" os textos sagrados.

Entre os simbolismos presentes na imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, talvez o teologicamente mais rico e espiritualmente mais significativo seja o retrato do Calvário. Ao contemplar a Virgem do Perpétuo Socorro, vemos à sua esquerda o arcanjo São Miguel, que apresenta a lança, a vara com a esponja e o cálice das amarguras que o Cristo sorveu até o fim. À direita, está o arcanjo São Gabriel, com a cruz e os cravos, que foram os instrumentos da paixão e morte de Jesus. O Menino Jesus, o Perpétuo Socorro em pessoa, assustado ao olhar para os instrumentos de Sua paixão, com as duas mãos, segura firmemente a mão direita de sua Mãe, como que nos ensinando a confiar-nos inteiramente a ela, especialmente nos momentos de medo, dor e sofrimento.

Para completar a nossa "leitura" do ícone, na perspectiva do mistério pascal de Cristo, podemos olhar para Maria como a Virgem das Dores. A sua mão esquerda, que sustenta o Filho, simboliza a sua presença aos pés da cruz (cf. Jo 19, 25). O seu olhar materno, ao mesmo tempo que demonstra o acolhimento e o cuidado para com cada um de nós, que fomos entregues a ela como filhos, é um convite para que a levemos para o que é nosso, ou seja, para a nossa vida interior, como fez o discípulo amado (cf. Jo 19, 27).

Um detalhe do ícone, que pode passar despercebido, é a sandália desamarrada, que pode simbolizar um pecador, preso a Jesus apenas por um fio, fio este que é a devoção a Santíssima Virgem. Este "fio" tão frágil pode ser uma lembrança, ou uma devoção sem muita piedade, que num momento de desespero, de sofrimento, pode nos manter unidos ao Senhor. Vemos uma imagem disto naquela que é provavelmente a mais conhecida e bela parábola de Jesus, presente somente no Evangelho escrito por Lucas: a parábola do filho pródigo. Depois de deixar a casa do pai e de gastar toda a sua fortuna numa vida desenfreada, o filho esbanjador estava na situação humilhante de cuidar de porcos. Para os judeus que ouviram de Jesus esta parábola, cuidar de porcos era ainda mais humilhante, porque eles os consideravam animais impuros. Para completar a humilhação, o rapaz, faminto, queria comer a comida dos porcos, mas nem isso lhe era dado para comer (cf. Lc 15, 11-16). Foi então que ele entrou em si, refletiu, recordou-se que na casa de seu pai até mesmo os empregados tinham pão em abundância e tomou a decisão de voltar (cf. Lc 15, 17-18). Da mesma forma, um pecador pode voltar para Jesus e se salvar pela simples devoção que tem à Virgem Maria, ou até mesmo por uma vaga lembrança do amor que nutre por ela.

Nas passagens do Evangelho que falam dos dois ladrões, crucificados à direita e à esquerda de Jesus, há aparentemente uma contradição, que pode nos ajudar a aprofundar nossa reflexão. Em Mateus e Marcos, ambos escarneciam de Jesus: "E os ladrões, crucificados com ele, também o ultrajavam" (Mt 27, 44; cf. Mc 15, 32). Mas, em Lucas, apenas um dos malfeitores blasfemava (cf. Lc 23, 39). O outro, que segundo a tradição se chamava Dimas, não somente repreendeu o outro ladrão, mas também reconheceu que para eles aquela condenação era justa, mas não para Jesus, pois não tinha feito mal algum (cf. 23, 40-41). A razão desta aparente contradição é que, segundo uma visão da mística Beata Anna Catharina Emmerich, a princípio, ambos escarneciam do Cristo, até que algo inesperado aconteceu:

"Dimas, o bom ladrão, obteve pela oração de Jesus uma iluminação interior, no momento em que a Santíssima Virgem se aproximou. Reconheceu em Jesus e em Maria as pessoas que o tinham curado [da lepra] quando era criança e exclamou em voz forte e distinta: 'O quê? É possível que insulteis Àquele que reza por vós? Ele se cala, sofre com paciência, reza por vós e vós o cobris de escárnio? Ele é um profeta, é nosso rei, é o Filho de Deus'" [4].

Naquele momento derradeiro de sua vida terrena, São Dimas recebeu a graça de recordar de Jesus e de sua Mãe. A partir dessa lembrança de sua infância, começou o extraordinário processo de conversão do bom ladrão, que culminou no seu ousado pedido: "Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!" (Lc 23, 42). A salvação de São Dimas estava por um "fio", que era a vaga recordação de uma cura, operada pelas mãos do Menino Jesus e de Maria. Dessa forma, quase no último momento de sua vida, o bom ladrão "roubou" o Céu, a salvação eterna.

São Lucas escreveu o Evangelho de Jesus Cristo não somente com palavras, mas também com imagens, que nos ajudam a encontrar na devoção a Virgem Maria um caminho seguro para chegar a Ele. Que neste dia, no qual celebramos Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, façamos o salutar propósito de "ler", na sua imagem, as Sagradas Escrituras, e nelas encontrar o próprio Cristo, a Palavra de Deus que se fez carne.

Ainda que nossa situação seja semelhante à do filho pródigo, ou como a do bom ladrão, e nossa vida esteja unida a Cristo apenas por um "fio", entreguemo-nos com confiança à Virgem das Dores, que nos foi dada, pelo próprio Filho, por Mãe (cf. Jo 19, 27). Assim, da mesma forma que a Mãe de Deus contribuiu para a cura e a salvação de São Dimas, ela nos alcançará os bens necessários para a nossa vida terrena e principalmente para chegarmos à glória celeste.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 2131.
  2. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, 67.
  3. A12, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
  4. Flor do Carmelo, Meditação - Quinto Mistério Doloroso - Jesus Morre na Cruz. Texto extraído do livro: Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus, da Beata Anna Catharina Emmerich. Como toda revelação particular, não somos obrigados a crer com fé católica nesse escrito, mas podemos aceitá-lo para melhor compreensão das Escrituras e para edificação de nossa fé.

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As Origens do Rosário (I)

Embora manifeste o caráter único da piedade cristã e as riquezas da teologia católica, o Rosário é um fenômeno universal e presente, sob aspectos diversos, em várias tradições religiosas.

I. A universalidade dos cordões de oração

1. O desejo de Deus e a oração. — «O desejo de Deus», diz o Catecismo, «está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus» [1]. Todo ser humano, com efeito, sente dentro de si uma certa inclinação que o impele a transcender-se e procurar a razão de sua existência. De fato, a sede radical por um Princípio está de tal forma impressa em nosso espírito, que não seria de todo errado afirmar que a inteligência de que somos dotados está orientada antes para a sacralidade que se manifesta na ordem criada do que para a criação pura e simples [2]. «O homem está à procura de Deus», pois ele, embora ferido pelo pecado, conserva ainda «o desejo daquele que o chama à existência» [3] e Se lhe revela mediante a natureza, «com o ser, o sentido e a finalidade que a ela são próprios» [4]. Ora, ainda que O conheçam de modo obscuro ou O ignorem completamente, todas as religiões testemunham essa busca essencial pela única e verdadeira divindade [5]: «Porque, do nascente ao poente, meu nome é grande entre as nações e em todo o lugar se oferecem ao meu nome o incenso, sacrifícios e oblações puras» (Ml 1, 11).

Entre as múltiplas formas que o homem tem encontrado ao longo da história para traduzir esta sua busca de Deus, a oração ocupa, ao lado do culto e dos sacrifícios rituais, um lugar de destaque [6]. Apesar de ambíguas e dissonantes entre si, as diversas tradições religiosas parecem coincidir no fato de que o homem tende a desenvolver a necessidade de repetir uma série mais ou menos encadeada de preces. Quer se deva ao desabrochar espontâneo da piedade e do desejo de união com Deus, quer a uma suposta função mágico-religiosa atribuída à linguagem, é certo que, se não todas, ao menos uma boa parte das religiões de que se tem notícia chegou a criar não só esquemas fixos e recursivos de oração como também a lançar mão de alguma estratégia de contagem; tais recursos são tão universais, que poderiam considerar-se expressões constitutivas da nossa religiosidade natural. Se levarmos em conta, por exemplo, os benefícios que o papa Adriano I concedeu em 782 à comunidade monacal de Santo Apolinário em Classe, sob a condição de que os monges rezassem seiscentos «Kyrie eleison» por dia, seremos levados a admitir que àquela época a cristandade latina já elaborara algum método para computar tantas orações [7].

2. A presença do «rosário». — Com efeito, a técnica mais comum e globalmente difundida é a dos cordões de oração ou «rosários», para usar uma designação genérica. Constituído por nós ou contas, o «rosário» tem uma origem tão antiga quanto a própria humanidade; e embora seja difícil rastrear-lhe as origens, a sua simplicidade e praticidade talvez lhe tenham permitido ser inventado e reinventado, descoberto e redescoberto ao largo dos séculos. Um rápido lance d'olhos sobre a quase universalidade de sua presença em algumas religiões porá em evidência a disposição natural do espírito humano para o diálogo incessante com Deus.

Com base nas esculturas e baixos-relevos descobertos por Austen Henry Layard nas ruínas assírias de Nimrud e Kuyunjik, supõe-se que já os antigos ninivitas possuíssem pequenos cordões para rezar. Um dos monumentos encontrados apresenta, pois, duas figuras femininas em atitude de oração diante de uma árvore sagrada [8]; elas mantêm elevada uma das mãos e, com a outra, seguram uma pequenina grinalda ou pulseira de contas [9]. Também alguns muçulmanos, principalmente os sufis, servem-se há tempos do «masbaha», um colar de 33, 66 ou 99 contas utilizado de modo especial na prática do «dhikr»; trata-se de uma devoção islâmica—estruturalmente similar a algumas cristãs, mencionadas mais adiante—que consiste na repetição de determinadas preces ou dos noventa e nove nomes por que Alá é designado tanto no Alcorão quanto na Suna. O famoso explorador veneziano do século XIII, Marco Polo, deixou-nos um curioso relato sobre uma de suas expedições à «Província de Maabar», localizada possivelmente na costa oeste da Índia peninsular. Como fosse levado à presença do rei, o navegante notou que o monarca

[...] usa também, preso ao pescoço e caindo sobre o peito, um fino cordão de seda em que se prendem 104 grandes pérolas e rubis de alto preço. A razão por que ele usa este cordão [...] é que, de acordo com o que dizem, todos os dias, de manhã e ao anoitecer, ele tem de fazer 104 orações aos seus ídolos. Essa é a religião e os costumes desta gente. E assim fizeram todos os reis seus predecessores [10].

Pouco mais de três séculos depois, tendo chegado ao Japão a vinte de agosto de 1549, São Francisco Xavier, talvez algo surpreso, registrou em carta aos seus companheiros da Europa que todos os japoneses, fossem bonzos (isto é, monges budistas) ou do povo, costumavam rezar «por contas» cujo número superava cento e oitenta. «Quando rezam continuadamente», escreve, «nomeiam em cada conta o Fundador da seita que têm.» [11] Algumas dessas «contas» a que se refere o Apóstolo do Oriente, também chamadas «shō-zoko-jiu-dzu», são comuns à quase totalidade das seitas budistas japonesas [12]. O cristianismo, por seu lado, conhece os cordões de prece desde pelo menos o século IV. No entanto, o talvez mais primitivo relato que se tenha de um sistema de contagem entre os cristãos é do bispo de Helenópolis, na Bitínia, e discípulo de São João Crisóstomo, Paládio da Galácia, em cuja História Lausíaca se narra a vida de um certo monge, identificado às vezes com São Paulo, o Simples (ca. 225-339), que se propusera orar sem cessar e, para isso, estabelecera trezentas orações fixas: para cada prece concluída o eremita lançava fora um dos trezentos seixos que carregava consigo no seio da túnica [13].

Como quer que seja, o uso de pedrinhas ou calhaus seria aos poucos abandonado, dando lugar, sobretudo no oriente cristão, ao «komboskini» (κομποσκοίνι) — de que trataremos noutra oportunidade —, presumivelmente obra do Abba São Pacômio de Tabenisi (ca. 292-348), pai do cenobitismo e discípulo de Santo Antão, o Grande. O antigo uso, porém, parece ter-se preservado ainda por alguns séculos no ocidente, pois há registros de que para alguns eremitas e ascetas dedicados a fazer um grande número de orações, como, por exemplo, o popular santo anglo-medieval Godric de Finchale, as lapides calculares eram o recurso mais comum e óbvio [14]. Mas o surgimento do que hoje na Igreja latina se conhece por Santo Rosário, devoção essencialmente mariana, só se processaria paulatinamente, em meio a embates entre a ortodoxia católica e a heresia albigense.

Falaremos nos próximos artigos a respeito deste rico e complexo processo em que a própria Providência divina, por meio da Santíssima Mãe de Nosso Senhor, dispensou à pobre humanidade o remédio para «as causas mais difíceis», a oração «que tem não só a simplicidade duma oração popular, mas também a profundidade teológica duma oração adaptada a quem sente a exigência duma contemplação mais madura.» [15]

Por Equipe CNP

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica (CIC), 27.
  2. V., e. g., Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões. Trad. port. de Fernando Tomaz e Natália Nunes. 4.ª ed., São Paulo: Martins Fontes, pp. 39-40, § 11.
  3. CIC, 2566.
  4. Michael Schmaus, Teologia Dogmatica. Trad. esp. de Raimundo D. Baldrich e Lucio G. Ortega. Madrid: Rialp, 1960, vol. 1, p. 189, § 30.
  5. CIC, loc. cit.; cf. Chantepie de la Saussaye, Manual of the Science of Religion. Trad. ing. de Beatrice S. Colyer-Fergusson. Londres, Nova Iorque: Longmans, Green, and Co., 1891, pp. 71-72.
  6. V. CIC, 2567.
  7. Cf. Philipp Jaffé, Regesta Pontificum Romanorum. Berlim: Veit et socius, 1851, p. 209, n. 1866.
  8. Cf. Mircea Eliade, op. cit., pp. 216-217, § 96.
  9. Austen H. Layard, The Monuments of Niniveh. Londres: John Murray, 1853, p. [16], plate 7.
  10. Colonel H. Yule (ed.), The Book of Sir Marco Polo. Londres: John Murray, 1871, vol. 2, p. 275.
  11. São Francisco Xavier, Obras Completas. Trad. e org. de Francisco de S. Baptista. Braga, São Paulo: Editorial A. O. e Loyola, 2006, doc. 96 (29 jan. 1552), p. 566, n. 29.
  12. Cf. J. M. James, "Descriptive Notes on the Rosaries (jiu-dzu) as Used by the Differents Sects of Buddhists in Japan", in: Transactions of the Asiatic Society of Japan. Yokohama: R. Meiklejohn and Co., 1881, vol. 9, pp. 173-183; James Hastings (ed.), Encyclopædia of Religion and Ethics. Nova Iorque: Charles Scribner's Sons, 1908, vol. 10, pp. 851-852.
  13. Cf. Historia ad Lausum, c. XXIII (PG 34, 1068B); v. Cuthbert Butler, The Lausiac History of Palladius. Cambridge: Cambridge University Press, 1904, vol. 2, p. 63.
  14. Joseph Stevenson (ed.), Libellus de Vita et Miraculis S. Godrici. Londres: J. B. Nichols and Son, 1847, pp. 225-226, c. 108, § 213.
  15. João Paulo II, Carta Apostólica "Rosarium Virginis", de 16 out. 2002, n. 39 (AAS 95 [2003] 32).

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Consagração a Nossa Senhora, um caminho de santidade

Quem quer ser santo, mais que amar Nossa Senhora, deve devotar-lhe toda a sua vida.

Os verdadeiros devotos de Nossa Senhora devem amá-la não simplesmente com um amor humano, mas com amor teologal, amor caridade, por causa de Deus, de modo que, quando louvem Maria e contemplem suas virtudes, Deus seja amado e glorificado.

Mas, por que, afinal de contas, consagrar-se à Virgem Santíssima? É preciso lembrar que “consagração" é o nome curto dessa devoção, cujo nome completo é “consagração a Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, pelas mãos de Maria". Ou seja, a entrega é feita a Nosso Senhor, por meio de Sua mãe. Não se faz a consagração “diretamente" a Jesus porque Ele mesmo, na Cruz, inaugurou a mediação maternal de Maria, quando disse a São João: “Eis a tua mãe", e a Maria: “Mulher, eis o teu filho". O Autor Sagrado escreve que “a partir daquela hora, o discípulo a acolheu no que era seu", tomando-a intimamente para si (Jo 19, 27). Por isso, os cristãos se entregam de modo total a Maria, repetindo o que também foi o lema do pontificado de São João Paulo II: “Totus tuus ego sum, Maria, et omnia mea tua sunt – Sou todo teu, Maria, e tudo o que é meu pertence a ti".

Ao longo da história da Igreja, no entanto, começaram a aparecer devotos críticos e escrupulosos, tachando os piedosos atos de amor a Nossa Senhora de “indiscretos" ou “exagerados". Na França de São Luís de Montfort, os jansenistas chegaram a distribuir vários panfletos contendo “advertências" contra os “excessos" de amor à Mãe de Deus.

Para se defenderem, esses críticos dizem que o próprio Jesus tratava com desprezo Sua mãe [1]. Nada mais falso. Se é verdade que Nosso Senhor “quis humilhá-la e escondê-la durante a vida para favorecer a sua humildade" [2], como testemunham as próprias Escrituras (cf. Mt 19, 16-19), também é certo que, após ascender aos céus e glorificar Consigo Sua mãe, passou a cumprir-se a profecia do Magnificat de que “doravante, todas as gerações hão de chamar-me bem-aventurada" (Lc 1, 48), e também a visão do Apocalipse de São João: “Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida com o sol, tendo a lua debaixo dos pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas" (Ap 12, 1).

Jesus escondeu a Sua mãe nesta terra para elevá-la à glória no Céu. Assim fez Consigo e também assim fará conosco: quem, à imitação de Maria, for “cheio de graça" nesta vida, tanto mais glória possuirá no Céu.

Embora esteja de corpo e alma no Céu, Maria permanece na vida dos cristãos, por meio de uma presença virtual e de uma presença afetiva. A primeira consiste em uma presença “ativa". O termo “virtual" não tem nada que ver com computação gráfica. Em teologia, significa força, ação, atividade. Pelo maravilhoso mistério da comunhão dos santos, a Virgem Santíssima, mesmo estando gloriosa no Céu, está bem perto de nós. Quanto à sua presença afetiva, diz respeito ao amor que ela nos devota e ao qual nós devemos corresponder, por amor a Deus. De fato, quando se fala de santidade, fala-se de um crescimento generoso no amor, como explica acertadamente Santo Tomás de Aquino [3].

Por fim, importa falar sobre a obrigação da consagração a Nossa Senhora. Se, por um lado, ela não é necessária para quem quer salvar-se, é-o para quem quer chegar a ser perfeito. Quem deseja simplesmente salvar-se, pode contentar-se simplesmente com cumprir os Mandamentos, mas quem quer ser santo, além disso, devota-se inteiramente a Jesus, amando-O por meio de Sua santíssima mãe.

Referências

  1. Cf. RC 107: Pode ter Jesus desprezado a sua mãe?
  2. São Luís de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, 5
  3. Suma Teológica, II-II, q. 24, a. 9

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São José, o maior devoto da Virgem Santíssima

Com sua vida, São José ensina a todos os cristãos a verdadeira devoção a Nossa Senhora: amá-la sem temor e sem reservas, por causa de Deus.

Ao executar o Seu plano de salvação, Deus também dispõe os meios pelos quais irá realizá-lo. Sendo Todo-Poderoso, Ele poderia redimir o homem de muitos modos. Fê-lo, no entanto, querendo depender do “sim" de uma Virgem, pedindo a colaboração de uma criatura.

Uma história apócrifa conta que, entre os pretendentes de Nossa Senhora, foram escolhidos alguns, das melhores e mais virtuosas famílias de Israel. Todos eles levavam consigo um bastão de madeira. Na hora da decisão, o bastão de São José floresceu de modo prodigioso, surgindo lírios em sua ponta, sinal da castidade que ele tinha jurado preservar. Imediatamente, então, uniram-se o seu coração e o da Virgem Santíssima, que também havia consagrado totalmente a sua virgindade a Deus. A história, se não é verdadeira, é bem contada. Como diriam os italianos, si non è vero è bene trovato.

O fato é que as Escrituras se referem a São José como um homem “justo" que, descobrindo a gravidez de Maria e “não querendo denunciá-la publicamente, pensou em despedi-la secretamente" (Mt 1, 19). Alguém poderia perguntar como José podia ao mesmo tempo ser justo e ter querido dispensá-la em segredo, se a Lei mandava que o caso fosse julgado às claras. Os primeiros Padres da Igreja, como Orígenes, São Jerônimo, São Basílio Magno e Santo Efrém, são da opinião de que José não duvidava da honestidade de Maria, mas “queria deixá-la porque sabia que se tinha operado nela um grande mistério e se considerava indigno de viver em sua companhia" [1]. Foi então que o anjo apareceu a ele, comunicando-lhe a eleição que o próprio Senhor tinha feito de si: “José, Filho de Davi, não tenhas receio de receber Maria, tua esposa; o que nela foi gerado vem do Espírito Santo" (Mt 1, 20).

São José e Maria Santíssima eram realmente esposos e se amavam com verdadeira caridade. Infelizmente, tomados por uma visão distorcida de amor, olhamos para o casamento como uma realidade apenas carnal, quando o matrimônio é uma aliança eminente e essencialmente espiritual, transformada por Nosso Senhor em sacramento, sinal do Seu amor pela Igreja (cf. Ef 5, 21-33).

Santo Tomás de Aquino recorda que o amor pode ter vários objetos materiais: Deus, nós mesmos e o próximo [2]. No entanto, um só deve ser o objeto formal do amor: Deus mesmo. Isso significa amar todas as pessoas por causa de Deus. Dentro do matrimônio, quer dizer aproximar-se do outro como quem se aproxima do Santíssimo Sacramento. José, o esposo de Nossa Senhora, amava-a com amor de caridade e os teólogos chegam a dizer que o trono no qual estava sentado Lúcifer, antes da queda dos anjos, agora é ocupado pelo exemplar São José.

Há uma história famosa relacionada aos monges do Egito que ilustra como os homens de Deus, ao olhar para as criaturas, glorificam o Criador. Enquanto caminhavam na estrada, alguns monges se depararam com uma prostituta, diante da qual, para não pecar, todos viraram o rosto. Um dos monges, no entanto, olhando fixamente para aquela mulher, começou a chorar, pois tinha enxergado nela a grandeza de Deus. Se isso aconteceu com um simples religioso que avistou uma prostituta, quanto mais não aconteceria com São José e com a tota pulchra (toda bela) Virgem Maria, cuja alma resplandece diante do Senhor mais do que todas as criaturas! Não sem razão esse santo homem, contemplando a suma dignidade de Maria, temia tomá-la por esposa, pois enxergava as maravilhas que o Todo-Poderoso havia feito nela (cf. Lc 1, 49).

Muitos de nós tememos consagrar-nos inteiramente a Nossa Senhora porque, olhando os nossos pecados, nos achamos indignos de ser seus escravos. Também a nós o anjo do Senhor diz: “Não tenhas receio de receber Maria por sua senhora". Que, de fato, a recebamos e, assim como São José, a amemos, por causa de Deus. Amemo-la por gratidão a Nosso Senhor, que verdadeiramente a entregou a nós como mãe, quando disse ao discípulo amado: “Eis aí a tua mãe" (Jo 19, 27). Assim como São José não teve medo de dedicar toda a sua vida para servir a Deus por meio de Nossa Senhora, não temamos recebê-la por Mãe e consagrar-nos a Cristo por suas mãos.

Referências

  1. Orígenes apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Matthaeum, 1, 10
  2. Suma Teológica, II-II, q. 25, a. 12

| Categoria: Virgem Maria

5ª Campanha Nacional de Consagrações à Virgem Maria

“Por Maria Jesus Cristo vem a nós, e por Ela devemos ir a Ele.” (São Luís Maria Grignion de Montfort)

“A leitura deste livro (“Tratado") marcou em minha vida uma transformação decisiva… antes me mostrava reservado, com medo de que a devoção a Maria pudesse deixar Cristo na sombra, em vez de lhe dar prioridade…entendi agora, à luz do Tratado de Grignion de Montfort, que a realidade é totalmente diferente." (São João Paulo II, no livro “Não tenham medo")

Desde 2010, iniciamos uma série de Campanhas Nacionais de Consagrações à nossa Mãe Santíssima, pelo método que São Luís Maria Grignion de Montfort nos ensina em seu maravilhoso “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem". Os frutos foram uma grande popularização do “Tratado" entre os católicos do Brasil e dezenas de milhares de pessoas consagrando-se à Virgem, número sempre crescente.

Temos a alegria, neste ano de 2014, de realizar a nossa 5ª Campanha Nacional de Consagrações à Virgem Maria, a primeira campanha após a canonização de São João Paulo II. Ele que teve o “Tratado" como o seu livro de cabeceira e o lema “Totus Tuus" (“Todo Teu", Todo de Maria), e que tão bem viveu e testemunhou a consagração é o nosso grande intecessor nesse apostolado. São João Paulo II diz que a consagração é uma devoção cristocêntrica, pois “por Maria, vamos à Jesus."

Como Igreja, queremos caminhar juntos nesta corrente de graças, pois assim como São João Paulo II, no Grande Jubileu do Ano 2000, consagrou o 3º Milênio à Nossa Senhora, também o Papa Francisco, no dia 13 de Outubro de 2013, consagrou o mundo ao Imaculado Coração de Maria. Agora, cabe a cada um de nós tomar posse, pessoalmente, dessa Consagração e consagrar-se à Virgem Maria.

Por isso, multiplicam-se os encontros “Consagra-te", bem como os grupos de preparação para consagração, em muitas cidades do Brasil.

A Campanha

Convidamos todos os católicos a se unirem conosco nesta campanha, fazendo também a sua consagração total pelo método de São Luís Maria Grignion de Montfort ou sua renovação, no dia 12 de dezembro de 2014, sexta-feira (Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira da América Latina); ou, por razões locais, em outra data próxima.

Foi em suas aparições de Guadalupe (México), no ano de 1531, que a Mãe Santíssima falou ao índio São Juan Diego e a nós:

“Não estou Eu aqui, a tua Mãe? Não estás sob Minha Sombra e Minha Proteção? Não sou eu a fonte de tua alegria? Não estás porventura em Meu Regaço? Tens necessidade de alguma outra coisa? Que nenhuma outra coisa te aflija, nem te perturbe."

Unimo-nos nesta Campanha aos demais países da América Latina, continente herdeiro das promessas da Virgem Maria em Guadalupe. Unimo-nos também especialmente aos demais países de língua portuguesa e de língua espanhola, alguns dos quais relacionamos em nossa lista de contatos.

A preparação e a Consagração poderão ser feitas em qualquer lugar, já que é um ato interior e espiritual. Porém, São Luís recomenda que se faça a Consagração durante a Santa Missa. É um ato significativo a Consagração ser feita de forma pública e comunitária.

São Luís recomenda que se faça 30 dias de preparação, com algumas orações simples, que poderão ser feitas individualmente ou em grupo, a começar no dia 12 de Novembro de 2014 ou 30 dias antes da data da Consagração. As orações são indicadas no próprio “Tratado" (n. 227, 233), e indicamos também abaixo em nosso “Material de Apoio".

Leitura do livro

De forma geral, recomendamos que não se consagre e nem mesmo que se inicie os 30 dias de preparação sem a leitura completa do “Tratado", pois como poderá preparar-se bem para a Consagração, sem conhecê-la?

Temos abaixo, em nosso “Material do Apoio", o “Tratado", em versão PDF, impressa ou em áudio.

Grupos de Preparação: como organizar?

Recomendamos que aqueles que puderem participem de um grupo de preparação para a Consagração, que se reúnam para estudar o “Tratado" e rezarem juntos.

O grupo poderá ser formado espontaneamente, por iniciativa de pessoas que desejam se consagrar ou pessoas que já se consagraram e desejam ajudar a preparar outras para a Consagração (é importante a participação dos que já se consagraram no grupo, pelo seu testemunho a ser partilhado).

Temos Representantes que estão à frente da nossa Campanha em várias cidades do Brasil e demais países relacionados abaixo, e poderão ir formando Grupos de preparação na medida em que forem procurados para isso. Os contatos dos nossos representantes podem ser encontrados ao final desta postagem.

Em relação à formação dos grupos, algumas sugestões:

  • É importante que participem deste grupo somente pessoas que já tenham uma fé católica e uma busca de vivência cristã, caso contrário, o grupo poderá se tornar um local de debate e se afastar do seu objetivo, atrapalhando as pessoas que querem se Consagrar (é claro que este diálogo é importante, mas há outros locais para isso).
  • Aqui não importa o número e sim aqueles que a Virgem enviar. Três pessoas já é um grupo!
  • A frequência dos encontros do grupo poderá ser feita conforme a disponibilidade: semanal ou quinzenal. Como o nosso tempo é relativamente curto, sugerimos que durante o mês de Setembro, organizem-se os grupos. Para que na primeira semana de Outubro iniciem-se encontros semanais, para no dia 12 de Novembro iniciarmos as orações de preparação.
  • O local da reunião poderá ser em residências ou, na medida do possível, em paróquias, comunidades, seminários, casas religiosas, etc.
  • O encontro poderá iniciar com a Oração do Santo Terço, seguida de um estudo de um ou mais capítulos do Tratado.
  • Conforme o tempo disponível e o número de encontros, pode-se dividir para que em cada encontro se estude um ou mais capítulos do Tratado (o livro tem 8 capítulos, mais a Introdução).
  • Há várias opções para a organização dos encontros:
    • a. Em forma de palestras, com pessoas preparadas para isso (principalmente nos grupos maiores).
    • b. Em forma de partilhas (principalmente nos grupos menores), onde todos possam ler antes do encontro o(s) capítulo(s) estudado(s), e em cada encontro algumas pessoas do grupo fiquem responsáveis em conduzir um momento partilha, comentando sobre os pontos que mais lhe chamaram atenção, e oportunizando que todos do grupo comentem também. O fato de pessoas diferentes ficarem responsáveis pela condução propicia mais a participação e envolvimento de todos, e incentiva a própria leitura do Tratado.
    • c. Em forma da apresentação de vídeos, com as 4 aulas do Pe. Paulo Ricardo, explicando o Tratado parte por parte, que podem ser assistidas via internet (ver abaixo, em nosso material de apoio) ou adquiridas em DVD.
  • No dia 12 de Dezembro de 2014 ou data próxima, a Consagração poderá ser feita em grupo (com ou sem Santa Missa).

Consagração dos jovens

Com a recente canonização de São João Paulo II e a preocupação que o Papa Francisco tem mostrado pelos jovens, nosso olhar se volta especialmente para eles. Foi inspiração de São João Paulo II a “Teologia do Corpo" e a “Jornada Mundial da Juventude", levando pelo mundo a cruz e o ícone da Virgem Maria.

Vamos por isso, de uma maneira especial neste momento histórico que vive a juventude católica no Brasil, nos esforçar especialmente para que a Consagração seja conhecida e vivida pelos jovens.

Empenhemo-nos também tendo em vista que a Consagração, enquanto meio para renovação e vivência plena do nosso Batismo, possa suscitar santas e numerosas vocações ao Sacerdócio, à Vida Consagrada, à Vida Missionária e famílias santas que possam gerar filhos santos para Deus!

É a Virgem Maria Quem gera o Cristo em nós, e por isso Ela é também a Mãe das Vocações.

Consagração das Crianças

Incentivamos que os pais formem também seus filhos para se consagrarem totalmente a Virgem Maria, e que se façam grupos para a preparação das crianças para a Consagração, pois, se a Santíssima Virgem pode purificar nossas obras, oferecê-las a Deus (como fala no “Tratado", n. 146-150), e com isso muitos se salvarem pela entrega, oração e penitência de uma pessoa, mesmo sendo nós tão pecadores, o que Ela não poderá fazer com a pureza da Consagração de uma criança?

Lembrando que em Fátima (Portugal, 1917), Lourdes (França, 1858), La Salette (França, 1846) e outros lugares, a Virgem apareceu para crianças!

A preparação das crianças, é claro, se dá por um material especial preparado para elas, que é o livro “Crianças na Escola do Imaculado Coração", podendo ser adquirido abaixo.

Material de Apoio

Perguntas e respostas sobre a Consagração Total

As dúvidas que ainda restarem poderão ser respondidas também por este e-mail: duvidas@consagrate.com

Representantes da Campanha no Brasil e outros países

Dispomos aqui os contatos das pessoas que estão à frente das nossas Campanhas em várias cidades do Brasil e exterior; essas pessoas poderão ir formando os Grupos de Preparação, na medida em que forem procuradas para isso pelos que desejarem. Temos também o nosso grupo e nossa página no Facebook.

Contato dos responsáveis por região: http://consagrate.com/representantes/

Divulgação desta postagem

Pedimos que esta postagem seja divulgada nos diversos sites e blogs católicos, bem como listas de e-mails, Facebook, Twitter, Whatsapp e assim por diante… para formarmos uma grande rede de Consagração à Santíssima Virgem!

Importante – Envio dos dados

Os que desejam participar da nossa Campanha, fazendo a Consagração ou sua Renovação, deverão se cadastrar clicando no link abaixo: http://buff.ly/1tHsvzu

Fonte: consagrate.com

| Categoria: Igreja Católica

O verdadeiro ecumenismo está em Maria

O melhor caminho para se alcançar a unidade dos cristãos é a devoção à Virgem Maria

A separação dos cristãos constitui uma grave ofensa à vontade de Jesus Cristo, pois atenta contra a sua exortação para que todos sejam um e, assim, “o mundo creia" [1]. Ainda mais: trata-se de um verdadeiro escândalo; uma pedra de tropeço que “prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda criatura" [2]. Neste sentido, o chamado “movimento ecumênico", que visa à união de todos os fiéis no mesmo aprisco de Cristo, presta um grande serviço à difusão da fé. A pertença à Igreja Católica – o Sacramento Universal da Salvação – é o único meio seguro de que se tem notícia para alcançar a graça da paternidade divina, já que, como atestam os santos, não pode ter a Deus por pai quem não tem a Igreja por mãe.

O ecumenismo, por outro lado, pode assumir características bem distintas de seus propósitos genuínos, quando imbuído de um espírito pouco católico. Diga-se com todas as letras: “Não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela" [3].

Contudo, um grande número de ecumenistas tende a pensar de maneira oposta, chegando às raias do absurdo de relativizar os dogmas de nossa fé, mormente quando se referem à Santíssima Virgem Maria. Ora, não há nada mais deplorável do que um filho que esconde a mãe, por medo do que podem pensar os outros. Quanto mais deplorável, portanto, é o católico que, achando fazer grande serviço aos irmãos separados, priva-os da maternidade de Maria, escondendo-a de seus olhos, como se se tratasse de uma mulher mundana. Quão entristecido deve ficar o coração de Jesus diante de almas tão pouco caridosas! Separam a mãe dos filhos, deixando-os à orfandade – ou acaso não foi desejo de Nosso Senhor que, desde o momento da crucificação, o apóstolo tomasse Maria por mãe? [4] Ora, se, à hora da Cruz, em São João estava representada toda a humanidade, Maria é mãe também dos protestantes.

Por isso, no diálogo com os irmãos separados, a maneira mais eficaz de atraí-los à verdadeira Igreja é apresentar-lhes a Mãe do Salvador. Quantas vezes, nos noticiários dos grandes jornais, nos deparamos com histórias comoventes de filhos que, após longos anos de separação, reencontraram suas mães? Essas histórias são verdadeiros testemunhos do quão imprescindível é a presença materna para a reta formação do filho. O próprio Cristo manifestou essa verdade, tendo vivido a maior parte de sua vida terrestre escondido do mundo, a fim de servir à sua Augusta Mãe. A esse respeito, São Luís de Montfort é mais do que taxativo: “Jesus Cristo deu mais glória a Deus submetendo-se a Maria durante trinta anos, do que se tivesse convertido toda a terra pela realização dos mais estupendos milagres" [5]. É que na docilidade da vida escondida, no trabalho do dia a dia, conformando-se à vontade do Pai e servindo à Virgem Santíssima – “era-lhes submisso" –, Jesus já operava a obra de nossa redenção, crescendo em graça e sabedoria [6].

Por isso, Maria não pode constituir um obstáculo à unidade dos cristãos; pelo contrário, a devoção mariana é um verdadeiro remédio, uma vez que “Maria, pela sua participação íntima na história da salvação, reúne e reflete, por assim dizer, os dados máximos da fé" [7]. Ela está intimamente ligada a seu filho, de sorte que os dogmas proclamados pela Igreja a seu respeito nada mais são do que luzes que iluminam ainda mais a beleza de Cristo: as duas naturezas em uma só pessoa. Está certo o Papa Bento XVI quando enfatiza que “é preciso retornar a Maria, se quisermos retornar àquelas verdades sobre Jesus Cristo, sobre a Igreja e sobre o homem" [8].

Ademais, como diz uma fórmula antiga, Maria é a inimiga de todas as heresias. Isso se confirma, sobretudo, por meio do testemunho eloquente do Papa emérito Bento XVI, que, quando cardeal prefeito da Doutrina da Fé, teve de lidar com todo tipo de desvios heréticos. O auxílio da Virgem Santíssima no combate às insídias do demônio tornou-o consciente de que aquela expressão conciliar “não se tratava de exageros de devotos, mas de verdades hoje mais do que nunca válidas" [9].

O Concílio Vaticano II, que foi o que mais deu atenção à questão ecumênica, dedicando um documento inteiro a esse assunto, foi também o Concílio que reafirmou o título de Maria como “advogada, auxiliadora, socorro e medianeira" [10]. Não seria por desejo divino, destarte, que a graça da unidade dos cristãos se operasse por meio da Mãe de Jesus? Essa é a pergunta que o “movimento ecumênico" se deve fazer todas as vezes em que for questionada a oportunidade de se falar de Nossa Senhora no diálogo com os protestantes. Vale a pena repetir: de Maria nunquam satis – de Maria nunca se dirá o suficiente.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Jo 17, 21
  2. Conc. Vat. II, Decreto Unitatis Redintegratio (20 de novembro de 1963), n. 1
  3. Papa Pio XI, Carta encíclica Mortalium Animos, 6 de janeiro de 1928, n. 16
  4. Cf. Jo 19, 27
  5. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. Petrópolis: Vozes, 2012, n. 18
  6. Cf. Lc 2, 51-52
  7. Conc. Vat. II, Declaração Dogm. Lumen Gentium (21 de novembro de 1964), n. 65
  8. RATZINGER; MESSORI, Joseph; Vitorio. A fé em crise? O cardeal Ratzinger se interroga. São Paulo: EPU, 1985, pág. 77
  9. Ibidem
  10. Conc. Vat. II, Declaração Dogm. Lumen Gentium (21 de novembro de 1964), n. 62

| Categoria: Santos & Mártires

São Luís de Montfort e o primado de Deus

“Para nos despojar de nós mesmos, é preciso morrer todos os dias”, diz São Luís de Montfort. O caminho da salvação continua sendo o caminho da Cruz.

O lema que inspirou a vida e o apostolado de São Luís Maria Grignion de Montfort resume-se em duas breves palavras: "Só Deus". Toda a sua existência – a ânsia de humilhações, desde muito cedo; o incansável ardor missionário, que o fez atravessar a pé grandes porções de terra; o amor à pobreza, que consagrou fazendo-se escravo de Maria Santíssima –, tudo apontava para o alto.

Para defender esse primado de Deus, São Luís não media palavras nem ficava "cheio de dedos": "Se a prudência consiste em não empreender nada de novo por amor de Deus e em não dar que falar, os Apóstolos cometeram um grande erro quando saíram de Jerusalém, São Paulo não devia ter viajado tanto nem São Pedro levantado a cruz no Capitólio" [1], dizia. Contra o respeito humano, ele ostentava, com coragem, o seu terço e um grande crucifixo, com os quais partia em missão França afora, pregando, levantando cruzeiros e reconstruindo igrejas.

Fiel às palavras de Jesus – "Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me" [2] –, não se gloriava em nada senão na Cruz de nosso Senhor. Assim como São Paulo que, tendo "muitas coisas grandiosas e divinas para recordar a respeito de Cristo, não disse que se gloriava dessas grandezas admiráveis (...), mas afirmou: "Quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz do Senhor nosso, Jesus Cristo" [3], São Luís proclamava:

"Encontro-me mais que nunca empobrecido, crucificado, humilhado. Os homens e os demônios fazem-me uma guerra bem amável e bem doce. Que me caluniem, que escarneçam de mim, que despedacem a minha reputação, que me metam na cadeia: esses dons são preciosos para mim, esses manjares são deliciosos para mim! Ah! Quando serei crucificado e perdido para o mundo?" [4]

Para seguir a Cruz, o próprio Luís fazia questão de pregar-se ao madeiro com Cristo. E indicava o mesmo caminho aos seus filhos: " Para nos despojar de nós mesmos, é preciso morrer todos os dias. (...) Se não morrermos para nós mesmos, e se as nossas devoções mais santas não nos levam a esta morte necessária e fecunda, não daremos fruto que valha" [5]. E advertia aos que chamava de "amigos da Cruz": "Tende bem cuidado para não admitir em vossa companhia os delicados e sensuais, que temem a menor picadela, que se queixam de mínima dor, que nunca provaram a crina, o cilício, a disciplina e, entre as suas devoções em moda, misturam a mais disfarçada e refinada delicadeza e falta de mortificação" [6].

Devotíssimo da Virgem Maria, recebia seus favores desde a mais tenra infância. Na idade adulta, escreveu um livro no qual explicou, com piedade e clareza impressionantes, em que consiste o verdadeiro amor à Mãe de Deus. O hoje conhecido "Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem" ficou desconhecido por vários séculos. Como São Luís mesmo previu em seu livro – "muitos animais frementes virão em fúria para rasgar com seus dentes diabólicos este pequeno escrito (...) ou pelo menos procurarão envolver este livrinho nas trevas e no silêncio duma arca, a fim de que não apareça" [7] –, esta grande preciosidade permaneceu escondida por muito tempo.

Quando foi encontrada, porém, não só estimulou os fiéis a amarem mais Nossa Senhora, mas influenciou o magistério de pontífices como Leão XIII, São Pio X e, nos últimos anos, de São João Paulo II.

Nesta obra, São Luís responde com força aos escrupulosos: "Maria ainda não foi suficientemente louvada e exaltada, honrada, amada e servida. Merece ainda muito maior louvor, respeito, amor e serviço" [8]. E aponta com insistência ao fundamento desta devoção: "Se a Devoção à Santíssima Virgem afastasse de Jesus Cristo, deveríamos repeli-la como uma ilusão do demônio" [9]. Mas, como pode a lua ofuscar o brilho do sol, se, ao contrário, é do próprio sol que vêm a sua glória e a sua majestade? Do mesmo modo, como pode Maria "obstruir" o caminho até Jesus, se é justamente em virtude d'Ele que Deus a preservou da mancha do pecado original e a cumulou de todas as graças? Se é justamente para melhor honrá-Lo e glorificá-Lo que se estabeleceu o seu culto na Igreja universal?

A devoção que ensinou São Luís não pretendia ser uma "nova revelação", mas simplesmente, nas palavras do próprio sacerdote francês, "uma renovação perfeita dos votos ou promessas do Santo Batismo" [10]. Recomendando a escravidão a Nossa Senhora, São Luís não pretendia criar uma "casta" de pessoas separadas e diferentes, mas tão somente apontar para as águas do Batismo, pelas quais todos aqueles que se tornam filhos de Deus devem passar; não pretendia inventar um caminho diferente, mas dar novo ânimo para que os fiéis pudessem trilhar a mesma estrada do Evangelho, rumo ao Calvário.

"Só Deus": isso basta. Eis a grande lição de São Luís de Montfort. Que ele nos ajude a amar, buscando a coroa de glória do Céu, mas sem rejeitar a coroa de espinhos que este "vale de lágrimas" nos reserva. Afinal, "nada existe que seja tão necessário, tão útil, tão doce ou tão glorioso quanto sofrer alguma coisa por Jesus Cristo" [11].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Henri Daniel-Rops, A Igreja dos tempos clássicos (I). São Paulo: Quadrante, 2000. p. 299
  2. Lc 9, 23
  3. Santo Agostinho, Gloriemo-nos também nós na Cruz do Senhor!. Ofício das Leituras, Segunda-Feira Santa. Sermo Guelferbytanus 3: PLS 2, 545-546.
  4. Henri Daniel-Rops, A Igreja dos tempos clássicos (I). São Paulo: Quadrante, 2000. p. 299
  5. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 81
  6. Carta aos Amigos da Cruz, n. 17
  7. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 114
  8. Ibidem, n. 10
  9. Ibidem, n. 62
  10. Ibidem, n. 126
  11. Carta aos Amigos da Cruz, n. 20