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Ele substituiu o Natal pelo aniversário da própria avó

Ele é ninguém menos que Kim Jong Un, o ditador comunista da Coreia do Norte que, vendo o seu poderio ameaçado pelo nascimento de Cristo, ordenou que todos os seus súditos O substituíssem pelo “deus” da revolução.

Por que nos referirmos a fatos do passado para mostrar o ódio dos poderosos deste mundo ao presépio de Belém? Não é necessário voltar até Herodes, nem falar dos puritanos proibindo o Natal nos Estados Unidos. Um jornal reporta que o ditador comunista da Coreia do Norte, Kim Jong Un, decidiu banir oficialmente a tradicionalíssima celebração cristã, substituindo-a por nada menos que… o aniversário de sua avó.

Eis a informação traduzida, tal como a recolhemos de New York Post:

Kim Jong Un é o novo "Grinch" que roubou o Natal. O atarracado tirano da Coreia do Norte quer que os poucos cristãos, que vivem como eremitas no país, espalhem alegria apenas para celebrar a sua avó, Kim Jong Suk — não o nascimento de Jesus. Jong Suk — que nasceu na Vigília de Natal, em 1919 — era uma guerrilheira antinipônica e ativista comunista, mulher do primeiro ditador da Coreia do Norte, Kim Il Sung, e mãe do último líder do país, Kim Jong Il. Muitos prestam tributo à "Sagrada Mãe da Revolução", que morreu sob condições misteriosas em 1949, visitando o seu túmulo.

O excêntrico ditador é tão obcecado em banir o Natal a ponto de se ter inquietado, em 2014, quando descobriu que a Coreia do Sul planejava erigir uma grande árvore de Natal ao longo da fronteira entre os dois países. Em meio a ameaças de uma guerra total, a árvore nunca foi colocada.

Apesar da aversão de Kim por árvores natalinas, elas podem ser encontradas na capital Pyongyang — especialmente em lojas de luxo e restaurantes —, sendo largamente despojadas, todavia, de símbolos religiosos. Pyongyang costumava ter mais cristãos que qualquer outra cidade na Coreia — chegando a ter inclusive um bispo católico. Tudo isso mudou no início dos anos 1950, quando as autoridades reprimiram todas as atividades cristãs no país.

Grupos ligados aos direitos humanos estimam que haja entre 50 e 70 mil cristãos aprisionados em campos de concentração simplesmente por causa de sua fé.

A notícia dispensa comentários mais elaborados. Trata-se de um exemplo concreto (mais um) de como, na prática, não existem "ateus", mas idólatras. O ser humano é, em essência, um adorador: se não se prostra diante do Deus verdadeiro, sempre cuida de ajustar para si um ou outro ídolo, mais ou menos sofisticado, para (tentar) satisfazer o seu anseio de transcendência. O mesmo se repete, em escala maior, com as coletividades e as sociedades civis como um todo. Na Coreia do Norte, a festa do Natal não foi substituída por nada, não foi simplesmente abolida por razões de "laicidade do Estado" ou coisa parecida; em seu lugar, foi instituída uma nova cerimônia "religiosa", criou-se o culto à "Sagrada Mãe da Revolução".

Verdadeiramente, "quando se deixa de acreditar em Deus", já dizia o escritor britânico G. K. Chesterton, "passa-se a acreditar em qualquer coisa". A isenção e a indiferença em matéria religiosa conduzem fatalmente à divinização das coisas deste mundo, à idolatria do prazer, das riquezas e das outras coisas criadas (dentre elas, o homem e o próprio Estado). Ninguém se iluda pensando que, ao "livrar-se" de uma confissão de fé e proclamar a sua "independência" de Deus, poderá erradicar ou diminuir a verdade religiosa de seu ser. Vai muito difundida em nossa época a ideia de que um governo ideal seria um absolutamente livre de qualquer ingerência religiosa, como se fosse possível abolir dos corações de quem governa a submissão a Deus e as suas convicções de fé. O Congresso brasileiro, por exemplo, é frequentemente criticado pelos paladinos do "Estado laico", por estar repleto de cristãos "fundamentalistas" que gostariam de submeter as leis de nosso país, eles dizem, à regra da Bíblia.

É preciso responder a esses ataques dizendo, em primeiro lugar, que o sistema religioso no qual poder civil e espiritual sempre se confundem não é o Cristianismo, mas o Islã. A religião fundada por Cristo foi orientada, desde o começo, pelo princípio basilar de que César não é um "deus", nem Deus, tendo vindo ao mundo, teve a pretensão de ser um César. O mesmo não se pode dizer das hordas árabes que, encabeçadas por Maomé, dominaram militarmente em questão de um século todo o norte da África e puseram os pés em território europeu. Quem quer que se detenha a estudar a história das duas religiões, perceberá que não, definitivamente, não é verdade que "todas as religiões são a mesma coisa". Saiam de uma vez do discurso corrente e procurem conhecer os fatos históricos.

Em segundo lugar, não é verdade que os cristãos querem ver o Brasil regido pelas Sagradas Escrituras, até porque não é essa a finalidade dos livros inspirados de nossa religião. Nas páginas da Bíblia está contida a história da revelação de Deus através dos tempos, não um manual legal para ser aplicado ipsis litteris na vida das nações. Os pecados de que falam o Antigo e o Novo Testamento, ao mesmo tempo, tampouco devem ser transformados todos em crimes pelos ordenamentos civis. Não é nada razoável que as coisas sejam deste modo porque, como já dito, a César se dá o que é de César, a Deus o que é de Deus (cf. Mt 22, 21): a submissão que devemos à autoridade divina supera em todos os sentidos aquela que devemos às legítimas autoridades humanas.

Em terceiro lugar, cumpre dizer que é essa mesmíssima lição, extraída dos ensinamentos de Nosso Senhor e repassada ao longo dos séculos pela Igreja, a responsável por impor verdadeiros limites aos poderes deste mundo. É porque, quando Deus "deixa de existir", por assim dizer, tudo se torna permitido, para usar uma famosa expressão de Dostoiévski. Sem uma voz soberana transcendente a reger os homens, as vozes dos monarcas deste mundo se tornam a última e definitiva palavra; são os seus caprichos e gostos pessoais que passam a valer, muitas vezes em detrimento da própria realidade das coisas. Os regimes totalitários que mandaram multidões a campos de concentração no século passado são prova contundente dessa verdade. Assim como o déspota que quer ver todo um povo substituindo o nascimento de Deus feito homem pela veneração da própria avó.

Ter pessoas de fé religiosa na vida pública não é o problema, portanto, mas a solução. São essas pessoas, zelosas pela lei natural e inspiradas pelos valores do Evangelho, que nos irão livrar da "ditadura laica" e ateísta que já acontece em muitos lugares do mundo, dentre os quais a Coreia do Norte. São os cristãos na vida pública que, tais como fermentos na massa, manterão o Natal em nossos calendários e a sanidade em nossas legislações, a despeito dos tiranetes vermelhos que ainda hoje desejam, seguindo os passos do sanguinário rei Herodes, tomar o lugar de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Sociedade

Quando o Natal era proibido na América Inglesa

Como o fundamentalismo protestante quase acabou, no mundo inglês, com uma das mais importantes celebrações da religião cristã.

Por Christine Niles | Tradução: Equipe CNP — Muitos podem ficar surpresos de saber que o Natal costumava ser ilegal na América — tudo graças aos protestantes.

A história começa na Inglaterra, logo depois que o líder Oliver Cromwell subiu ao poder. Após ter derrotado os levantes monarquistas ao longo da Inglaterra, do País de Gales e da Escócia, na Guerra Civil inglesa, e supervisionando o julgamento e a execução do rei Carlos I, Cromwell autoproclamou-se Lorde Protetor do Reino em 1653. Ele governou por breves cinco anos; mas, durante esse tempo, fez o que pôde para acabar com os "papistas", implementando com zelo a sua reforma puritana.

Entre essas reformas estava incluso o banimento das festividades de Natal. Radicais calvinistas escoceses já haviam banido o Natal desde 1560 e, agora, com o rei deposto na vizinha Inglaterra e com o parlamento cheio de simpatizantes do puritanismo, o governo inglês também decidiu fazer o mesmo.

A guerra não era tanto contra o Natal, mas contra o catolicismo; uma das marcas mais características da fé católica é a celebração de dias festivos — dias marcados por celebrações especiais no calendário litúrgico. Solenidades, festas, oitavas — para os puritanos, todas essas coisas não faziam muito sentido, não passavam de celebrações "papistas" sem qualquer fundamento na Escritura. Uma máxima puritana diz: "Aqueles para quem todos os dias são santos não podem ter feriado".

O Natal em particular era especialmente "católico". A estação começava com o dia do Natal, um feriado público, quando lojas e empresas fechavam e os fiéis iam à Missa, seguida por festividades nos próximos doze dias. Em contraste com a penitência do tempo do Advento, o Natal era marcado por comidas e bebidas em grande quantidade, com alimentos especiais como peru, bife, tortas de ameixa e uma cerveja inglesa especialmente preparada. Danças, cantos, brincadeiras e jogos também aconteciam, bem como a troca de presentes.

Eram os ingleses não conformistas — católicos que aderiram obstinadamente à fé de outrora e se recusaram a curvar-se às novidades do anglicanismo imposto pelo Estado — que celebravam o Natal com gosto. Eles eram objetos de um ódio particular pelos puritanos, que exigiam uma observância mais estrita e austera do Dia do Senhor, não apenas no Natal, mas também na Páscoa e em outros dias de guarda. Com a sua sombria teologia, os puritanos também assumiram uma visão negativa da alegria, julgando-a excessiva e pecaminosa.

Em 1640, o Longo Parlamento começou a abolir o Natal. O banimento foi feito oficialmente em 1647, transformando em ofensa punível não só a celebração do Natal, mas também a da Páscoa e a do Domingo de Pentecostes. Danças, jogos e especialmente bebidas estavam proibidas, como também qualquer sinal de celebração especial, e lojas foram obrigadas a permanecer abertas durante o dia do Natal. A ascensão de Cromwell como Lorde Protetor apenas consolidou a lei. A Inglaterra teria de esperar até 1660, com a restauração da monarquia sob o rei Carlos II — que se converteu à fé católica no leito de morte — para o Natal ser restaurado como um feriado.

No Novo Mundo, colônias em Boston seguiram seus companheiros puritanos na Inglaterra, evitando a festa em honra da natividade de Nosso Senhor. Os peregrinos que vieram a bordo do Mayflower, o famoso navio inglês que trouxe os peregrinos para a América, trabalharam no campo durante o dia 25 de dezembro, e a cidade de Boston — um reduto puritano — baniu o Natal de 1659 a 1681.

Aqueles que eram apanhados tirando um tempo para comemorar o Natal eram forçados a pagar uma multa. Embora a festa tenha se tornado legal na Inglaterra em 1660, a Coroa não foi capaz de exercer influência sobre suas colônias americanas neste assunto até 1680, quando celebrações discretas foram outra vez permitidas em Boston.

A hostilidade ao Natal não cessaria inteiramente por séculos, queimando em vilarejos puritanos de colônias na América aqui e ali. Durante a Revolução Americana, o Natal veio a ser frequentemente associado com os simpatizantes da realeza (composta enormemente por anglicanos e católicos de renome). Mesmo depois da ratificação da Constituição dos Estados Unidos, o Senado e a Presidência continuaram a reunir-se no Natal, e até 1850, empresas e escolas na Nova Inglaterra trabalharam durante o dia 25 de dezembro.

Ajudado pelo sucesso de Um conto de Natal, de Charles Dickens, publicado com grande aclamação em 1843, e em cuja história se apresenta um feliz conto do feriado, a percepção dos americanos sobre o Natal começou a mudar lentamente. Não seria antes de 1870 que Ulysses S. Grand declararia o Natal um feriado nacional, assegurando a legitimidade da celebração do nascimento de Nosso Senhor em qualquer estado. Desde aquele tempo, o feriado tem sido celebrado por muitos protestantes americanos como o tempo favorito do ano; a antiga hostilidade desapareceu da memória nacional — mas permanece o fato de que, uma vez na história, os antepassados protestantes dessa nação procuraram acabar com o Natal, ações que ultimamente encontram suas fontes em uma animosidade contra a fé católica.

Fonte: Church Militant | Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Espiritualidade

O Natal de Cristo e o nosso natal

Embora cada cristão tenha sido chamado num momento diferente para fazer parte da Igreja, a totalidade dos fiéis, saída da fonte batismal, também nasce com Cristo neste Natal.

"A geração de Cristo é a origem do povo cristão", diz São Leão Magno, no Ofício das Leituras deste dia 31 de dezembro, "o Natal da Cabeça é também o natal do Corpo". O Verbo eterno de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, nasceu uma segunda vez, na humanidade, para nos fazer nascer uma vez mais, na fonte batismal, para a vida divina. "Embora cada um tenha sido chamado num momento determinado para fazer parte do povo do Senhor, e todos os filhos da Igreja sejam diversos na sucessão dos tempos, a totalidade dos fiéis, saída da fonte batismal", explica ainda o Papa Leão, "também nasceu com ele neste Natal".

Nasce nesta Oitava, portanto, não só o Cristo, mas cada cristão em particular. Celebrar essa solenidade não significa simplesmente recordar um acontecimento do passado, mas algo que toca concretamente a nossa própria história. Puer natus est nobis, "um menino nasceu" verdadeiramente, não para servir de enfeite nos presépios, não para trazer um feriado de fim de ano, não para entrar nas páginas frias dos livros de história; nasceu sim, mas "para nós", para nos salvar, para mudar e transformar por completo a nossa vida.

Ao passarmos em família ou em amigos as festividades deste fim de ano, não nos esqueçamos dessas verdades que dão sentido não só ao Natal e ao Ano-Novo, mas a toda a nossa existência.

Dos Sermões de São Leão Magno, papa
(Sermo 6 in Nativitate Domini, 2-3, 5: PL 54, 213-216)

O Natal do Senhor é o Natal da paz

O estado de infância, que o Filho de Deus assumiu sem considerá-la indigna de sua grandeza, foi-se desenvolvendo com a idade até chegar ao estado de homem perfeito e, tendo-se consumado o triunfo de sua paixão e ressurreição, todas as ações próprias do seu estado de aniquilamento que aceitou por nós tiveram o seu fim e pertencem ao passado. Contudo, a festa de hoje renova para nós os primeiros instantes da vida sagrada de Jesus, nascido da Virgem Maria. E enquanto adoramos o nascimento de nosso Salvador, celebramos também o nosso nascimento.

Efetivamente, a geração de Cristo é a origem do povo cristão; o Natal da Cabeça é também o natal do Corpo.

Embora cada um tenha sido chamado num momento determinado para fazer parte do povo do Senhor, e todos os filhos da Igreja sejam diversos na sucessão dos tempos, a totalidade dos fiéis, saída da fonte batismal, crucificada com Cristo na sua Paixão, ressuscitada na sua Ressurreição e colocada à direita do Pai na sua Ascensão, também nasceu com ele neste Natal.

Todo homem que, em qualquer parte do mundo, acredita e é regenerado em Cristo, liberta-se do vínculo do pecado original e, renascendo, torna-se um homem novo. Já não pertence à descendência de seu pai segundo a carne, mas à linhagem do Salvador, que se fez Filho do homem para que nós pudéssemos ser filhos de Deus.

Se ele não tivesse descido até nós na humildade da natureza humana, ninguém poderia, por seus próprios méritos, chegar até ele.

Por isso, a grandeza desse dom exige de nós uma reverência digna de seu valor. Pois, como nos ensina o santo Apóstolo, "nós não recebemos o espírito do mundo, mas recebemos o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos os dons da graça que Deus nos concedeu" ( 1Cor 2, 12). O único modo de honrar dignamente o Senhor é oferecer-lhe o que ele mesmo nos deu.

Ora, no tesouro das liberalidades de Deus, que podemos encontrar de mais próprio para celebrar esta festa do que a paz, que o canto dos anjos anunciou em primeiro lugar no nascimento do Senhor?

É a paz que gera os filhos de Deus e alimenta o amor; ela é a mãe da unidade, o repouso dos bem-aventurados e a morada da eternidade; sua função própria e seu benefício especial é unir a Deus os que ela separa do mundo.

Assim, aqueles que "não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo" ( Jo 1, 13), ofereçam ao Pai a concórdia dos filhos que amam a paz, e todos os membros da família adotiva de Deus se encontrem naquele que é o Primogênito da nova criação, que não veio para fazer a sua vontade, mas a vontade daquele que o enviou. Pois a graça do Pai não adotou como herdeiros pessoas que vivem separadas pela discórdia ou oposição, mas unidas nos mesmos sentimentos e no mesmo amor. É preciso que tenham um coração unânime os que foram recriados segundo a mesma imagem.

O Natal do Senhor é o natal da paz. Como diz o Apóstolo, Cristo é a nossa paz, ele que de dois povos fez um só (cf. Ef 2, 14); judeus ou gentios, "em um só Espírito, temos acesso junto ao Pai" (Ef 2, 18).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Santos & Mártires

O natal de Santo Estêvão

Saiba que relação guardam entre si o Natal de Jesus e o natal de Estêvão para a vida eterna, que acontece com o seu martírio.

Todos os anos a Igreja celebra, no dia 26 de dezembro, a festa de Santo Estêvão, protomártir. Mas o que significa fazer memória desse diácono justamente um dia depois que nasce o Senhor? Que relação guardam entre si o Natal de Jesus e o natal de Estêvão para a vida eterna?

É o que responde São Fulgêncio de Ruspe, bispo do século VI, no sermão do Ofício das Leituras de hoje. Sem a caridade sobrenatural com que Cristo veio inflamar os corações, seria de fato impossível que um ser humano, qualquer um, entregasse a sua vida por Ele, como fez Santo Estêvão, preferindo morrer apedrejado a renegar a sua fé. Sem o auxílio da graça, como rezam os sacerdotes na divina liturgia, "ninguém é forte, ninguém é santo". Aprendemos da memória de hoje, portanto, a ter sempre diante dos olhos o primado da graça divina, que nos vem através da santíssima humanidade do Verbo encarnado.


Não deixe de assistir também à homilia do Padre Paulo Ricardo para a memória de Santo Estêvão deste ano de 2016, durante a qual ele faz um comentário a esta bela meditação contida na Liturgia das Horas.


Muito bonita também é a associação que faz São Fulgêncio entre o testemunho de Estêvão e a conversão de Saulo. "Aonde Estêvão chegou primeiro, martirizado pelas pedras de Paulo", ele diz, "chegou depois Paulo, ajudado pelas orações de Estevão". Trata-se da fé católica na comunhão dos santos, no fato de que Cristo, sendo "único mediador entre Deus e os homens" (1Tm 2, 5), não dispensa a mediação coadjuvante daqueles que santificou.

Dos sermões de São Fulgêncio de Ruspe, bispo
(Sermo 3,1-3.5-6:CCL 91 A, 905-909)

As armas da caridade

Ontem, celebrávamos o nascimento temporal de nosso Rei eterno; hoje celebramos o martírio triunfal do seu soldado.

Ontem o nosso Rei, revestido de nossa carne e saindo da morada de um seio virginal, dignou-se visitar o mundo; hoje o soldado, deixando a tenda de seu corpo, parte vitorioso para o céu.

O nosso Rei, o Altíssimo, veio por nós na humildade, mas não pôde vir de mãos vazias. Trouxe para seus soldados um grande dom, que não apenas os enriqueceu imensamente, mas deu-lhes uma força invencível no combate: trouxe o dom da caridade que leva os homens à comunhão com Deus.

Ao repartir tão liberalmente o que trouxera, nem por isso ficou mais pobre: enriquecendo do modo admirável a pobreza dos seus fiéis, ele conservou a plenitude dos seus tesouros inesgotáveis.
Assim, a caridade que fez Cristo descer do céu à terra, elevou Estevão da terra ao céu. A caridade de que o Rei dera o exemplo logo refulgiu no soldado.

Estêvão, para alcançar a coroa que seu nome significa, tinha por arma a caridade e com ela vencia em toda parte. Por amor a Deus não recuou perante a hostilidade dos judeus, por amor ao próximo intercedeu por aqueles que o apedrejavam. Por esta caridade, repreendia os que estavam no erro para que se emendassem, por caridade orava pelos que o apedrejavam para que não fossem punidos.

Fortificado pela caridade, venceu Saulo, enfurecido e cruel, e mereceu ter como companheiro no céu aquele que tivera como perseguidor na terra. Sua santa e incansável caridade queria conquistar pela oração, a quem não pudera converter pelas admoestações.

E agora Paulo se alegra com Estêvão, com Estêvão frui da glória de Cristo, com Estêvão exulta, com Estêvão reina. Aonde Estêvão chegou primeiro, martirizado pelas pedras de Paulo, chegou depois Paulo, ajudado pelas orações de Estevão.

É esta a verdadeira vida, meus irmãos, em que Paulo não se envergonha mais da morte de Estêvão, mas Estevão se alegra pela companhia de Paulo, porque em ambos triunfa a caridade. Em Estêvão, a caridade venceu a crueldade dos perseguidores, em Paulo, cobriu uma multidão de pecados; em ambos, a caridade mereceu a posse do reino dos céus.

A caridade é a fonte e origem de todos os bens, é a mais poderosa defesa, o caminho que conduz ao céu. Quem caminha na caridade não pode errar nem temer. Ela dirige, protege, leva a bom termo.

Portanto, meus irmãos, já que o Cristo nos deu a escada da caridade pela qual todo cristão pode subir ao céu, conservai fielmente a caridade verdadeira, exercitai-a uns para com os outros e, subindo por ela, progredi sempre mais no caminho da perfeição.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Padre Paulo Ricardo

Mensagem para o Natal de 2016

Mais uma vez nos é dado celebrar o Natal, o dom de Deus que se fez homem e nasceu da Virgem Maria.

"Se conhecesses o dom de Deus…" (Jo 4, 9). É com essas palavras cheias de ternura que Jesus, dirigindo-se àquela samaritana pecadora, manifesta a todos e a cada um de nós o seu desejo ardentíssimo de que O conheçamos e amemos de todo coração. Ora, esse desejo do Senhor encontra sua plena realização no Coração Imaculado da Virgem Maria, que, mais do que qualquer outra criatura, conhece e ama entranhadamente o dom que o Pai celestial entrega hoje, envolto em panos numa pobre manjedoura, a Ela, sempre unida ao Filho, e à família humana, dispersa pelo pecado.

O Natal deste ano de 2016, com efeito, se reveste de especial alegria devido ao Ano Mariano que vimos celebrando desde meados de outubro, em comemoração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. A Igreja nos concede, assim, a oportunidade de vivermos com mais intensidade e consciência essa presença efetiva de Maria Santíssima, que, gloriosa, reina em corpo e alma ao lado dAquele que a quis por Mãe sua, segundo a carne, e Mãe nossa, segundo a graça [1].

Por isso, a exemplo de São João, o discípulo amado que a acolheu em sua casa (cf. Jo 19, 27), recebamos a Maria em nossa vida e intimidade, aprendamos dela a amar Jesus e a honremos com piedade filial, com um culto de amor sincero e humilde gratidão, de invocação confiante e perseverante imitação, de escravidão voluntária e cotidiana devoção. Ao longo deste próximo ano, façamos da Ave-Maria e da Salve Rainha, do Angelus e do Rosário, das ladainhas e da Medalha Milagrosa nossas principais armas na luta contra o pecado e o egoísmo que parasita nossa alma.

Aprendamos também a refugiar-nos em Maria nos momentos de dor e sofrimento, pois Ela, a Estrela do Mar que nos ilumina e indicia o Caminho (cf. Jo 14, 6), não pensando e querendo senão o que Deus mesmo pensa e quer, ama todas as coisas e não odeia nada do que por Ele foi feito (cf. Sb 11, 24).

O Natal é festa de luz, e essa luz, que é o Cristo que nasce, é também a luz da que brilha no Coração maternalmente misericordioso de Maria [2], a quem devemos acudir e recorrer com tanto mais pressa e confiança quanto mais espessas forem as trevas ao nosso redor. Que a luz da fé, durante todo este Ano Mariano, nos ilumine e aqueça nosso coração, para que, pela intercessão da bem-aventurada e sempre virgem Maria, Nossa Mãe e Senhora, nos saibamos sempre amparados por Aquele que, descendo hoje dos Céus, não abandonará jamais os que adotou (cf. Mt 28, 20) [3].

Um feliz e santo Natal do Senhor!

São os votos do Padre Paulo Ricardo e de toda a equipe Christo Nihil Praeponere.

Referências

  1. Cf. Gabriel M. Roschini, La Madre de Dios según la Fe y la Teología. Trad. esp. de Eduardo Espert. 2.ª ed., Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, vol. 2, p. 541.
  2. Cf. Id., p. 407.
  3. Cf. Leão Magno, De Resurrectione Domini II, c. 3 (PL 54, 392A).

| Categorias: Virgem Maria, Espiritualidade

O mundo inteiro espera a resposta de Maria

O Criador faz depender do consentimento de uma criatura a execução de todo o plano de sua Providência.

O mistério da natividade do Senhor, que estamos prestes a celebrar, está indissociavelmente ligado à maternidade divina de Maria, como Padre Paulo Ricardo explicou na homilia do último domingo.

Os santos da Igreja bem o sabiam e, por isso, sempre que se dirigiam a Deus em agradecimento pela Encarnação do Verbo, cantavam ação de graças igualmente pelas maravilhas que o Todo-Poderoso operou em Maria. Foi por meio de seu "sim", afinal, que Ele escolheu vir ao mundo e salvar o gênero humano; o Criador faz depender do consentimento de uma criatura a execução de todo o plano de sua Providência.

Às vésperas do Natal, nada mais útil para nossa vida interior que meditar sobre essas verdades da nossa fé. A seguir, deixamos a você uma preciosa reflexão, da boca de São Bernardo de Claraval, em que ele descreve com belos detalhes a espera do mundo inteiro pela resposta de Maria, durante o episódio da Anunciação. Para um estudo teológico mais profundo a esse respeito, recomendamos a todos os nossos alunos e internautas que consultem a questão 30 da terceira parte da Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino, que é também de grande riqueza.

Essa meditação de São Bernardo faz parte do Ofício das Leituras de ontem, dia 20 de dezembro.

Das Homilias em louvor da Virgem Mãe, de São Bernardo, abade
(Hom. 4,8-9: Opera omnia, Edit. Cisterc. 4, [1966], 53-54)

O mundo inteiro espera a resposta de Maria

Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem — tu ouviste — mas do Espírito Santo. O Anjo espera tua resposta: já é tempo de voltar para Deus que o enviou. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos tua palavra de misericórdia.

Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres. Todos fomos criados pelo Verbo eterno, mas caímos na morte; com uma breve resposta tua seremos recriados e novamente chamados à vida.

Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés.

E não é sem razão, pois de tua palavra depende o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, enfim, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua raça.

Apressa-te, ó Virgem, em dar a tua resposta; responde sem demora ao Anjo, ou melhor, responde ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra; profere a tua palavra e concebe a Palavra de Deus; dize uma palavra passageira e abraça a Palavra eterna.

Por que demoras? Por que hesitas? Crê, consente, recebe. Que tua humildade se encha de coragem, tua modéstia de confiança. De modo algum convém que tua simplicidade virginal esqueça a prudência. Neste encontro único, porém, Virgem prudente, não temas a presunção. Pois, se tua modéstia no silêncio foi agradável a Deus, mais necessário é agora mostrar tua piedade pela palavra.

Abre, ó Virgem santa, teu coração à fé, teus lábios ao consentimento, teu seio ao Criador. Eis que o Desejado de todas as nações bate à tua porta. Ah! se tardas e ele passa, começarás novamente a procurar com lágrimas aquele que teu coração ama! Levanta-te, corre, abre. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. Eis aqui, diz a Virgem, a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categorias: Sociedade, Espiritualidade

Motivos para odiar crianças?

Uma mãe e escritora francesa escreveu um livro apresentando “motivos para odiar crianças”. Nós, às portas do Natal, queremos apresentar uma razão, uma só e suficiente, para amá-las: o menino Jesus.

"Tenho motivos para odiar crianças": é o título de um polêmico testemunho, amplamente divulgado esta semana na Internet, da escritora francesa Corinne Maier, que diz arrepender-se de ser mãe.

Se o título impressiona pela franqueza, não espanta pela realidade a que faz referência. As famílias brasileiras, assim como em muitas outras partes do mundo, não querem mais ter filhos. Os homens e mulheres de nossa época dão prioridade às suas carreiras, a viagens de férias, a uma vida de maior conforto, em resumo. As crianças vêm muitas vezes como resultado de um "acidente" do destino, ao qual os pais fatalmente têm que se adequar. Se são frutos de um planejamento, normalmente só nascem depois do pós-doutorado, e somam um casal, quando muito.

Desse que é um comportamento bastante comum hoje em dia, até o ato público de "odiar crianças", vai evidentemente um caminho, senão longo, pelo menos considerável. Mas isso é por enquanto. Matérias como essa, soltas na Internet, funcionam como uma espécie de "navio quebra-gelo": sua pretensão é desfazer tabus para expor uma concepção de mundo que há muito tempo permeia as mentes das "classes falantes". Pouco a pouco elas vão disseminando o que realmente pensam a respeito de família e a respeito de filhos, em uma tentativa de legitimar intelectualmente aquilo que já está generalizado na prática. É questão de pouco tempo para que mais e mais pessoas externem o horror que têm à maternidade, à vida e aos bebês (e de menos tempo ainda para que apareçam no Fantástico, como sabemos).

Já tivemos a oportunidade de tratar, no entanto, esse tema da influência negativa que os meios de comunicação exercem no comportamento das pessoas. As telenovelas da Rede Globo ainda constituem o melhor exemplo de como essas coisas funcionam, pelo que queremos realmente deixar de lado esse assunto, pelo menos ao longo destas linhas.

Acreditamos que, na verdade, a melhor resposta para um texto que expõe "motivos para odiar crianças" é justamente apresentar as contrarrazões disso. Por que nós, enquanto cristãos, amamos crianças? Por que é tão natural, para uma civilização fundada sobre bases cristãs, o amor aos filhos que nascem?

A solução para essa pergunta não deve ser encontrada em uma explicação meramente biológica. O choque de ver uma mãe que despreza a sua prole é de cunho evidentemente natural, mas o desejo que os cristãos têm de povoar a terra e o afeto que cultivam para com seus filhos pequenos são de uma ordem superior — sobrenatural, poderíamos dizer. Sua origem é o Natal.

Talvez não tenhamos parado para meditar suficientemente nisso, mas, na festa que estamos prestes a celebrar, no dia 25 de dezembro, o que comemoramos, senão que o próprio Deus se fez menino, criança, para a nossa salvação? O Onipotente se revestiu da fragilidade de um bebê, o Rei do universo inteiro assumiu a forma do mais pequeno dos súditos, Aquele que sustenta todos os seres quis experimentar as mais básicas das necessidades — a de um seio que o amamentasse, a de uma mão que lhe revestisse o corpo, a de uma mãe que o acalentasse e a de um pai que o protegesse. Deus se fez plenamente humano, com todas as fraquezas de nossa condição, exceto o pecado (cf. Hb 4, 15).

Ninguém imagine que o menino Jesus, da manjedoura, refulgia como na "transfiguração", ou combatia dragões, como se fosse "o pequeno Hércules" da mitologia romana. Absolutamente, não. São Leão Magno afirma que os magos encontraram o divino infante "sem que se diferenciasse em nada do comum das outras crianças" [1]. Assim, se nos fosse dado contemplar, por alguns minutos, o aspecto daquele bebê, envolto em faixas numa gruta fria de Belém, certamente seríamos capazes de identificar o mesmo sorriso cativante dos nossos filhos e netos, o mesmo choro com que eles pedem de comer, a mesma sonolência com que vivem os seus primeiros dias neste mundo etc. Agiu deste modo o Senhor para não desacreditar a sua humanidade [2]; para mostrar aos magos e aos pastores que era efetivamente fazendo-se um de nós que Ele vinha redimir o seu povo; para ensinar que Deus, que nos criou sozinho, não nos queria salvar sem que cooperássemos com Ele. Não, não era uma "ilusão fantasmagórica" o que a Sagrada Família de Nazaré e as primeiras testemunhas de Cristo tinham diante dos olhos: verdadeiramente, caro salutis est cardo, a carne humana se tinha tornado o eixo da salvação [3]!

Ao mesmo tempo, porém, aqueles homens vindos do Oriente, ainda que vissem um homem, reconheceram a Deus: vident enim hominem, diz Santo Tomás de Aquino, agnoscunt Deum [4]. Os presentes que eles traziam eram adequados à dignidade de quem visitavam: "ouro, como a um grande rei; incenso, utilizado nos sacrifícios divinos, como a Deus; e mirra, com a qual são embalsamados os corpos dos mortos, indicando que iria morrer pela salvação de todos" [5]. Ainda que com os olhos da carne não vissem nada de magnífico naquela criança, os magos, satisfeitos com o testemunho da estrela que avistaram nos céus, realmente se prostravam diante daquele bebê, em ato de verdadeira adoração. Foram os primeiros pagãos a se converterem e confessarem, com os atos, que Jesus Cristo era "verdadeiro Deus e verdadeiro homem".

Esse mesmo mistério do Natal, da Divindade que se une à humanidade, do Eterno que toca a história, nós o vemos atualizado em cada nova vida que vem a este mundo. Como diz o próprio Senhor nos Evangelhos, "quem acolher em meu nome uma criança como esta, estará acolhendo a mim mesmo" ( Mt 18, 5). Cada ser humano que é concebido, que é gerado graças ao amor de um casal, é um novo templo moldado por Deus e no qual Ele mesmo quer morar, com a sua graça santificante. No corpo inerme de cada bebê que vem a este mundo, está escondida uma alma imortal, uma alma que, batizada, participa da própria natureza divina (cf. 2Pd 1, 4). É isso o que as famílias celebram — ainda que nem sempre tenham plena consciência disto —, quando levam os seus filhos para serem batizados. Nas águas que se derramam sobre as suas cabeças, elas nascem de novo e, com isso, configuram-se perfeitamente ao menino Jesus, "nascido do Pai antes de todos os séculos" e da Virgem Maria, há pouco mais de dois mil anos.

É essa alegria, de propiciar nascimentos para o Céu, o que deveria estimular os casais a terem filhos! Só com uma visão sobrenatural e íntegra da realidade os seres humanos voltarão a ter um lugar especial no seio das famílias e da sociedade como um todo. Nós, católicos, não fazemos filhos "para que eles sofram neste mundo", como os antinatalistas gostam de dizer, mas para que eles sejam felizes na eternidade.

Quem, ao contrário, só é capaz de olhar para o próprio umbigo, naturalmente cede à "campanha da esterilidade" e pode chegar até mesmo ao absurdo de inventar "motivos para odiar crianças". Todos nós sabemos, no entanto, quais as razões do homem moderno para evitar filhos. Normalmente, não são justificativas, mas desculpas, e, ainda que sejam muitas, podem resumir-se em uma só palavra: egoísmo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. São Leão Magno, Serm. 34, de Epiphania 4, c. 3 (PL 54, 247).
  2. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q. 36, a. 4.
  3. Tertuliano, De carnis resurrectione, 8, 3: PL 2, 806.
  4. Suma Teológica, III, q. 36, a. 8, ad 4.
  5. São João Crisóstomo, Opus imperfectum in Matthaeum, 2, super 2, 11 (PG 56, 642).

| Categoria: Espiritualidade

O que significam o ouro, o incenso e a mirra?

Os presentes dos Magos podem parecer estranhos a um primeiro olhar, mas nos ensinam a reconhecer a Deus na pequenez do Menino Jesus.

Quando nasce uma criança, é costume que os familiares e amigos mais próximos demonstrem o seu afeto e estima com presentes dos mais diversos tipos: roupinhas e sapatinhos para agasalhar o bebê; fraldas e produtos para cuidar da sua higiene; e, um pouco mais tarde, quando ele começar a segurar as coisas com as mãos, brinquedos para que tenha com que se divertir. Os padrinhos do recém-nascido talvez até comprem uma banheira, um carrinho ou um berço, ajudando a completar o enxoval.

Mas, quando o Menino Jesus nasceu em Belém, deitado al freddo e al gelo sobre uma manjedoura, os primeiros presentes que recebeu, de três estranhos, não foram nada comuns. O Evangelho diz que Magos vindos do Oriente, "abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra" (Mt 2, 11).

Ora, o que uma criança que mal acabara de nascer podia fazer com ouro, incenso e mirra? À parte o valor incontestável do ouro, o que uma pobre família de Nazaré ia querer com objetos dessa natureza? Qual o significado dessas três coisas que os Magos oferecem a Jesus e que são lembradas, todos os anos, na Solenidade da Epifania do Senhor?

Durante a Missa da Epifania de 2010, o Papa Bento XVI, expressando a mesma perplexidade dessas perguntas, reconheceu que os dons apresentados pelos Magos:

"Sem dúvida, não são dons que correspondem às necessidades primárias ou quotidianas. Naquele momento, a Sagrada Família certamente teria tido mais necessidade de algo diferente do incenso e da mirra, e nem sequer o ouro podia ser-lhe imediatamente útil. Mas estes dons têm um profundo significado: são um ato de justiça. Com efeito, segundo a mentalidade em vigor nessa época no Oriente, representam o reconhecimento de uma pessoa como Deus e Rei: ou seja, são um ato de submissão. Querem dizer que a partir daquele momento os doadores pertencem ao soberano e reconhecem a sua autoridade."

A reflexão de Bento segue a linha de outros autores da Tradição da Igreja, que associam os três presentes dados ao Menino Jesus com o reconhecimento de Sua identidade e missão divinas. Uma antiga homilia, de autor incerto, lembra que "a qualidade dos presentes oferecidos dava testemunho da divindade que eles consideravam haver no menino" [1], com o ouro se referindo à Sua realeza; o incenso, à Sua divindade; e a mirra, à Sua humanidade.

O Papa São Gregório Magno († 604), em uma de suas homilias, oferece uma interpretação completa [2] do que sejam esses presentes. Primeiro, ele recorre a uma explicação literal, dizendo para que servem o ouro, o incenso e a mirra:

"Os magos tinham ouro, incenso e mirra: o primeiro, evidentemente, corresponde a um rei; o incenso é usado no sacrifício a Deus; a mirra, por fim, embalsama os corpos dos mortos."

Depois, ele dá o sentido alegórico e místico dessa passagem, explicando aquilo em que devemos crer:

"Os Magos que adoram o Cristo também O proclamam com presentes místicos: que Ele é rei, com o ouro; que é Deus, com o incenso; e que é mortal, com a mirra. De fato, são muitos os hereges que acreditam em Deus, mas de modo algum acreditam que Ele reina em todos os lugares. Esses certamente Lhe oferecem incenso, mas o ouro não querem ofertar. São muitos também os que O estimam como rei, mas O negam enquanto Deus. Esses, como se pode ver, oferecem-Lhe ouro, mas o incenso não querem ofertar. Há muitos, enfim, que O exaltam tanto como Deus como quanto rei, mas negam que Ele tenha assumido a carne mortal. Esses oferecem-Lhe muito ouro e incenso, mas a mirra da mortalidade assumida não querem ofertar.

Nós, ao contrário, ao Senhor que nasce ofereçamos ouro, a fim de confessarmos que Ele reina onde quer que seja; ofereçamos incenso, para crermos que aquele que apareceu no tempo é o Deus que existe antes dos tempos; e ofereçamos mirra, para crermos que também assumiu a nossa carne mortal aquele em cuja divindade impassível acreditamos."

Por fim, São Gregório faz uma interpretação moral dessa passagem, mostrando como também nós podemos ofertar ao Menino Jesus ouro, incenso e mirra:

"Porém, no ouro, no incenso e na mirra, outras coisas se pode entender. O ouro, por exemplo, designa a sabedoria, que Salomão atesta quando diz: 'Desejável tesouro se encontra na boca do sábio' (Pr 21, 20). Pelo incenso se exprime aquilo que a força da oração incendeia diante de Deus, como atesta o Salmista: 'Seja elevada diante de tua presença a minha oração como incenso' (Sl 140, 2). Na mirra, enfim, vai figurada a mortificação da nossa carne, de onde a Santa Igreja dizer de seus servidores fiéis, até a morte, que 'suas mãos destilaram mirra' (Ct 5, 5).

Ao Rei que nasce, portanto, ofereçamos ouro, se em Sua presença resplandecemos na luz da sabedoria celeste; ofereçamos incenso, se pelo santo amor à oração queimamos os pensamentos da carne no altar do coração, a fim de andarmos no suave odor do desejo das coisas celestes; ofereçamos mirra, se pela abstinência mortificamos os vícios da carne. A mirra age, de fato, impedindo que a carne se putrefaça. A putrefação da carne mortal significa servir ao impulso da luxúria, como é dito pelo profeta: 'Conspurcaram-se os jumentos em sua imundície' (Jl 1, 17). Os jumentos se conspurcarem em sua imundície quer dizer os homens terminarem a vida na fetidez da luxúria. Ofereçamos a Deus a mirra, portanto, se pelo bálsamo da continência conservamos este corpo mortal livre da corrupção da luxúria." [3]

Outra leitura moral do que seja a mirra é encontrada nos Padres Gregos, que põem o seu significado nas "boas obras": "Assim como a mirra preserva da corrupção o corpo dos defuntos, assim também as boas obras conservam Cristo continuamente crucificado na memória do homem, o qual, por sua vez, é conservado no Cristo", diz um texto atribuído a São João Crisóstomo. "Tu, pois, quando vieres à igreja para rezar a Deus, traz presentes em tuas mãos e dá aos que não têm, pois é enferma a oração quando não munida da virtude das esmolas." [4]

Mais do que o ouro, o incenso e a mirra, portanto, Deus quer que ofereçamos a Ele obras espirituais. O que Ele espera de nós verdadeiramente são uma fé viva, uma oração pura e uma vida santa.

Não temamos, neste tempo do Natal, oferecer tudo isso diante da criança que nasce em Belém. O Menino Jesus não é um infante qualquer, mas o sacramento que une Deus e o homem, que faz descer o Céu à Terra. O que que muitos teólogos modernos teimam em negar, os Magos já o sabiam. Vident enim hominem, et agnoscunt Deum: na gruta de Belém, eles "veem um homem, mas reconhecem Deus" [5].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Para uma interpretação espiritual dessa passagem do Evangelho, associada com a virtude da religião, ouçam o TF. 277 – A estrela que proclama a glória de Deus.

Referências

  1. Eruditi Comentarii in Evangelium Matthaei, Homilia 2, super 2 (PG 56, 642).
  2. Cf. Catecismo da Igreja Católica, § 115-119.
  3. Homiliae in Evangelia, I, 10, 6 (PL 76, 1112). As citações das Sagradas Escrituras foram traduzidas diretamente da Vulgata Clementina.
  4. Eruditi Comentarii in Evangelium Matthaei, Homilia 2, super 2 (PG 56, 642).
  5. Suma Teológica, III, q. 36, a. 8, ad 4.