| Categorias: Padre Paulo Ricardo, Igreja Católica

Mensagem de Natal: A alegria do Céu que vem nos visitar

Deus, em Sua felicidade infinita, vem chorar o choro do homem, para que ele, em seus gemidos, possa viver a alegria celeste.

No Natal, é comum que as pessoas se saúdem, desejando às outras um "Feliz Natal". Mas, qual o sentido dessa expressão?

Na verdade, tais votos fazem referência à felicidade do Céu que vem visitar a humanidade. São João da Cruz, em um poema sobre o mistério do Natal, escreve:

"Deus, porém, no presépio
Ali chorava e gemia;
(...)
E a Mãe se assombrava
Da troca que ali se via:
O pranto do homem em Deus,
E no homem a alegria"

Eis, nas palavras do Doutor Místico, o "admirabile commercium" de que falam os latinos: Deus, em Sua felicidade infinita, vem chorar o choro do homem, para que ele, em seus gemidos, possa viver a alegria celeste. Por isso, os anjos, desde o primeiro Natal, não cessam de anunciar aos homens "gaudium magnum – uma grande alegria": "Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é Cristo Senhor!" (Lc 2, 11). Nesta grande festa da Igreja, Deus Se inclina dos céus, como uma mãe que se inclina sobre um berço para resgatar o seu filho que, abandonado a si mesmo, estaria perdido. Inclina-Se para, como uma mãe, colocar o ser humano sob o seu regaço e dar-lhe a salvação.

Ao contemplar o presépio nesta noite, ao ver a Santíssima Virgem diante do indefeso e inerme menino Jesus, possamos enxergar aquilo que Deus fez por todos nós, quando, em Sua infinita misericórdia, veio arrancar-nos da condenação à morte e trazer-nos a alegria do Céu.

Neste tempo do Natal, não temos o direito de falar de solidão. Emanuel, Deus está conosco, Aquele que nos amou de forma perfeita está conosco. "Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei; estais comigo com bastão e com cajado; eles me dão a segurança!" (Sl 22, 4). Por isso, somente por isso, o Natal pode ser feliz. Se esquecermos de Jesus, esta festa não será nada mais que um evento social. Mas, se estivermos com Ele, podemos dizer, de coração e de verdade: Um Feliz e Santo Natal!

| Categoria: Espiritualidade

A Trindade e os falsos deuses

Deus não é uma “brisa suave que navega no íntimo da natureza”, mas a Trindade que ama o homem e o leva à plenitude de seu ser

Os gurus da espiritualidade moderna têm constantemente relegado Deus à esfera dos sentimentos e da subjetividade. Para a "nova era" pagã, a divindade não passa de "um fluido", "um sopro", "uma brisa suave navegando no íntimo da natureza". Não é raro ouvir teólogos e pessoas aparentemente cultas apresentando uma visão maleável de Deus, visão que elas mesmas criaram e indicam aos outros como um remédio grosseiro para suas angústias.

Esses charlatões foram a causa de o Papa Paulo VI ter afirmado, com tristeza, que "a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus": "Não se tem mais confiança na Igreja; põe-se confiança no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrer a ele pedindo-lhe se ele tem a fórmula da verdadeira vida" [1].

Isto que o Papa identificou há mais de 40 anos continua acontecendo hoje. De fato, "não se tem mais confiança na Igreja": as pessoas têm preferido aderir às posições e ideias do mundo a ouvir o Papa e os bispos em comunhão com ele; têm preferido as próprias opiniões às palavras do Sagrado Magistério; têm se tornado, em suma, autênticos protestantes, já que, longe de acatar a autoridade da Igreja, fazem os seus próprios dogmas e leis morais. O objeto da adoração que fazem, no fim das contas, não é Deus Criador, mas eles mesmos.

Negar a Igreja, no entanto, pavimenta o caminho para uma grande Babel. O que são tantas teorias confusas a respeito de Deus senão uma negação do sobrenatural? A teologia do conhecido pastor luterano Dietrich Bonhoeffer, ao propor um modo de ser cristão "sem Deus", é uma dessas teorias. Segundo ele, seria importante tomar a coragem e a doação do "Jesus histórico" como exemplos, mas Deus mesmo não existiria, seria apenas uma explicação mágica para a resolução de um problema intelectual.

É claro, falar de Deus como de uma noção abstrata é muito conveniente. Afinal, se Ele é apenas uma centelha presente na natureza; se não se trata de um ser pessoal, que criou o mundo e amou o homem a ponto de não se apegar "ciosamente a ser igual em natureza a Deus Pai", mas assumir "a condição de um escravo, fazendo-se aos homens semelhante", então, está a se falar de algo distante, que absolutamente não diz respeito ao homem. Ao contrário, se é verdade que Ele se encarnou e, humilhando-se ainda mais, obedeceu "até à morte, até à morte humilhante numa cruz" [2], assumir isso compromete toda a existência humana. Com efeito, toda ela passa a ser encarada tão somente como resposta a esse amor de Cristo, tão "forte como a morte" [3].

Se, por um lado, é conveniente não se comprometer, as satisfações que essa opção traz são sempre inconvenientes. Só o Deus trino da religião cristã pode verdadeiramente saciar os seres humanos e, enquanto estes teimam com teorias relativistas, caminham pelo escuro, às apalpadelas. Se, além disso, eles apregoam como verdadeiras essas opções que não passam de válvulas de escape, a situação torna-se ainda mais terrível. "São cegos guiando cegos" [4], diria Jesus, olhando para o seu comportamento.

Para solucionar toda essa confusão, a única saída chama-se fé. Deus não é o "espírito de luz" que a modernidade moldou, mas a Trindade santa que Cristo revelou e deixou estampada na Cruz. Ainda que permaneça um mistério e que não caiba na cabeça humana, assim é o Deus que falou a Israel e se mostrou em Jesus Cristo. Construir outras ideias de divindade, ainda que aparentemente lógicas, equivale a confeccionar para si imagens de barro, que "têm boca e não podem falar, têm olhos e não podem ver; tendo ouvidos, não podem ouvir, nem existe respiro em sua boca". "Como eles" – adverte o salmista – "serão seus autores, que os fabricam e neles confiam!" [5].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências bibliográficas

  1. Omelia di nella Solennità dei Santi Apostoli Pietro e Paolo, 29 giugno 1972
  2. Fl 2, 6-8
  3. Ct 8, 6
  4. Mt 15, 14
  5. Sl 135, 16-18

| Categoria: Espiritualidade

Distorcendo o primeiro mandamento

O diabo pavimenta a estrada para o inferno "maquiando" o primeiro mandamento. Eis o grande perigo da idolatria.

Quando se repete, nas aulas de catequese, que o primeiro mandamento é "Amar a Deus sobre todas as coisas", seria bom que se sublinhasse a palavra todas. Desde as menores — nossos bens e propriedades — às mais valiosas — a família que temos e a nossa própria vida —, nada deve figurar acima de Deus — já que é d'Ele tudo o que somos e recebemos.

De fato, diz o Catecismo que "Deus amou primeiro". Seguir os mandamentos é simplesmente "a resposta de amor que o homem é chamado a dar a seu Deus" (§ 2083). Quando o homem decide se entregar totalmente a Ele, adorando-O e sendo fiel à Sua vontade, não faz mais do que agir com generosidade diante de um amor muito maior que o que oferece. É o que testemunha São João Evangelista, quando escreve: "De tal modo Deus amou o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16). E ainda: "Amamos, porque Deus nos amou primeiro" (1 Jo 4, 19).

No entanto, o risco que se corre é o de esquecer com que grande amor o homem foi amado e com que preço foi comprado — com o próprio sangue de Deus derramado no Calvário.

Pior: se há quem ignore tamanha prova de amor, há quem a conheça e, ainda assim, resista em tributar honra, glória e adoração ao Senhor. Neste ponto, os cristãos precisamos bater no peito — dizendo as palavras do Confiteor, "mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa" — e reconhecer a nossa grande dívida, pois não temos vivido de acordo com as máximas do Evangelho; não temos nos ocupado "em primeiro lugar com o Reino de Deus e a sua justiça" (Mt 6, 33). Ao contrário, preocupando-nos demasiadamente com o dia de amanhã, temos nos esquecido do Amanhã Eterno ao qual todos um dia chegaremos.

A tolice de ajuntar "tesouros na terra", conduta contra a qual Jesus advertiu severamente — "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam" ( Mt 6, 19) —, é uma tentação atraente. Porém, é o que é todo pecado: uma mentira, uma distorção das dimensões da realidade.

Quem preferisse os bens terrestres às riquezas celestiais cometeria a sandice de uma noiva que ganha um anel de seu esposo, mas, apaixonando-se pelo presente, esquece-se do noivo. É a comparação que usa Santo Agostinho:

"Irmãos, suponhamos que um esposo fizesse um anel para sua esposa e esta tivesse mais amor pelo anel recebido que pelo esposo que lho fabricou; não é verdade que com aquele presente se revelaria que a esposa tem um coração adúltero, embora ela ame algo que é presente do esposo? É claro que ela ama algo que foi feito pelo seu esposo, mas se ela dissesse: 'Basta-me o seu anel, e não me interessa ver o seu rosto', que tipo de esposa seria esta? Quem não abominaria esta loucura? Quem não condenaria este sentimento de adúltera?" [1]

É "este sentimento de adúltera" o pecado que se concebe como idolatria. Na leitura de todo o Antigo Testamento é possível notar como o povo de Israel precisa muitas vezes batalhar consigo mesmo para resistir à tentação de adorar deuses fabricados pelos homens ao invés de cultuar o próprio Deus.

Hoje, a situação não é diferente. O cristão permanecerá toda a sua vida neste mundo lutando consigo mesmo para colocar em ordem a sua natureza corrompida e manchada pelo pecado. A luta contra a carne é a guerra contra o pior inimigo da alma, já que a concupiscência se trata de um "inimigo interno", que habita em nossa própria casa. A vitória definitiva sobre esta realidade só acontecerá na ressurreição dos mortos, quando todos os santos reinarão diante de Deus em corpo glorioso.

Até lá, no entanto, a batalha é quotidiana, não pára um só minuto. Muitas vezes, as insídias perigosas do demônio soarão inofensivas… Não pense o homem que as tentações serão para que o homem traia explícita e diretamente a Deus, que serão sugestões de infidelidade aberta e escancarada. O diabo começa a pavimentar a estrada para o inferno "maquiando" o primeiro mandamento: se o homem cai na armadilha, continua "amando" a Deus, mas não sobre todas as coisas. E aqui começa a sua perdição.

Não se engane o homem: "Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza" (Mt 6, 24).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Santo Agostinho, Tractatus in Epistulam Iohannis ad Parthos, II, 11 (PL 35, 1995).