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O mundo está em chamas

“O mundo está em chamas”, diz Santa Teresa Benedita da Cruz, “o incêndio poderia pegar também em nossa casa, mas, acima de todas as chamas, ergue-se a Cruz que não pode ser queimada”.

Dos Escritos Espirituais de Santa Teresa Benedita da Cruz, virgem e mártir:

"Saudamo-te, Cruz santa, nossa única esperança!", assim a Igreja nos faz dizer no tempo da paixão, dedicado à contemplação dos amargos sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O mundo está em chamas: a luta entre Cristo e o anticristo encarniçou-se abertamente, por isso, se te decides por Cristo, pode te ser pedido também o sacrifício da vida.

Contempla o Senhor que pende do lenho diante de ti porque foi obediente até a morte de Cruz. Ele veio ao mundo não para fazer a sua vontade, mas a do Pai. Se queres ser a esposa do Crucificado deves renunciar totalmente à tua vontade e não ter outra aspiração senão a cumprir a vontade de Deus.

À tua frente o Redentor pende da Cruz despojado e nu, porque escolheu a pobreza. Quem quer segui-lo deve renunciar a toda posse terrena. Estás diante do Senhor que pende da Cruz com o coração despedaçado; Ele derramou o sangue de seu Coração para conquistar o teu coração. Para poder segui-lo em santa castidade, o teu coração deve ser livre de toda aspiração terrena; Jesus Crucificado deve ser o objeto de todo o teu anseio, de todo o teu desejo, de todo o teu pensamento.

O mundo está em chamas: o incêndio poderia pegar também em nossa casa, mas, acima de todas as chamas, ergue-se a Cruz que não pode ser queimada. A Cruz é o caminho que conduz da terra ao céu. Quem a abraça com fé, amor e esperança é levado para o alto, até o seio da Trindade.

O mundo está em chamas: desejas extingui-las? Contempla a Cruz – do Coração aberto jorra o sangue do Redentor, sangue capaz de extinguir também as chamas do inferno. Através da fiel observância dos votos, torna o teu coração livre e aberto; então, poderão ser despejadas neles as ondas do amor divino; sim, a ponto de fazê-lo transbordar e torná-lo fecundo até os confins da terra.

Através do poder da Cruz, podes estar presente em todos os lugares da dor, em toda parte para onde te levar a tua compassiva caridade, aquela caridade que haures do Coração divino e que te torna capaz de espargir, por toda parte, o seu preciosíssimo sangue para aliviar, salvar, redimir.

Os olhos do Crucificado fixam-te a interrogar-te, a interpelar-te. Queres estreitar novamente com toda seriedade a aliança com Ele? Qual será a tua resposta? "Senhor, aonde irei? Só tu tens palavras de vida".

Ave Crux, spes unica!

Edith Stein, Vita, Dottrina, Testi inediti, Roma, pp. 127-130.

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Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus

Nesta pregação, conheça o caminho que produziu a primeira santa brasileira e que todos nós devemos trilhar para chegarmos à glória do Céu.

A Igreja celebra hoje, dia 9 de julho, a memória de Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Mesmo tendo nascido na Europa, foi no Brasil que Amábile Lúcia Visintainer se santificou, entregando a sua vida em sacrifício de amor a Deus e ao próximo.

Em homilia feita esta manhã na Paróquia Cristo Rei, de Várzea Grande (MT), Padre Paulo Ricardo conta brevemente a história dessa religiosa e revela o segredo de sua santidade, implícito em seu próprio nome religioso. Afinal, o que a agonia de Cristo tem a ver com os nossos sofrimentos? Como podemos aproveitar as dores e as misérias deste mundo para crescer em Deus?

Escute esta pregação e conheça o caminho que santificou a primeira santa brasileira e que todos nós devemos trilhar para chegarmos à glória do Céu:

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Não existe cristianismo sem cruz

A tentação de apresentar um cristianismo sem cruz revela-se, aos poucos, decepcionante, porque é somente na cruz que se descobre o amor de Deus

A cruz possui um significado inegociável para o cristianismo. É somente por meio do Cristo crucificado que se pode compreender “o poder de Deus" (cf. 1 Cor 1, 24) e a sua ação salvífica entre os homens. Por isso, na pregação evangélica de Jesus, tudo se resume a esta exortação: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me" (cf. Mt 16, 24). Não se trata de mera retórica, mas da apresentação de um dado incontestável: não há redenção sem cruz. O homem que quiser se salvar, deverá, necessariamente, apegar-se às cruzes do dia a dia, renunciando-se a si mesmo, tal qual o Filho do Homem fez no lenho da salvação.

Após aquele encontro fatídico na estrada para Damasco, São Paulo pôde perscrutar o significado autêntico da renúncia anunciada por Jesus. Viu que a lógica da cruz consiste num abandono confiante no “Evangelho da graça", o qual nos apresenta a salvação não como prêmio que se conquista por meio de esforços puramente humanos. É dom gratuito; Deus confunde a “sabedoria" humana ao doar-se inteiramente ao homem — “o que é tido como debilidade de Deus é mais forte que os homens" (cf. 1 Cor 1, 24). São Paulo, por sua vez, fazendo frente às tendências de sua época, não deixou de anunciar aos seus interlocutores a “loucura" e o “escândalo" do madeiro santo: “Porque a linguagem da Cruz é loucura para aqueles que se perdem; mas poder de Deus para os que se salvam, isto é, para nós" (cf. 1 Cor 1, 18-23).

Nas pegadas do Apóstolo das gentes, a Igreja sempre procurou incutir na sociedade o necessário e urgente apelo do Crucificado, sobretudo quando estes esforços sofriam oposição da mentalidade pagã e autossuficiente do período. Ela testemunhou pelo derramamento de sangue — tal qual São Pedro, que se deixou crucificar de cabeça para baixo, achando-se indigno de ter uma morte igual à de Jesus —, pela vida abastada e longe das comodidades do mundo — a exemplo dos monges eremitas e dos irmãos e irmãs do Carmelo —, como também pela atualização diária e milagrosa do próprio sacrifício de Jesus, através da celebração da Santa Eucaristia. Em poucas palavras, pode-se dizer que a pregação da Igreja se fundamentou ordinariamente neste pequeno, mas não menos verdadeiro, princípio: “Quando vires uma pobre Cruz de madeira, só, desprezível e sem valor... e sem Crucificado, não esqueças que essa Cruz é a tua Cruz" [1].

Por outro lado, grande e persistente foi a oposição sofrida pelo anúncio do Cristo crucificado ao longo da história. Algo que não surpreende, todavia. Dada a realidade do pecado original, que faz com que os homens tenham os pensamentos do mundo e não os de Deus (cf. Mt 16, 23), o ser humano “é continuamente tentado a desviar o seu olhar do Deus vivo e verdadeiro para o dirigir aos ídolos (cf. 1 Ts 1, 9), trocando 'a verdade de Deus pela mentira' (cf. Rm 1, 25)" [2]. De fato, para uma mentalidade submissa àquilo que São João chamava de “concupiscência da carne", “concupiscência dos olhos" e “soberba da vida", isto é, os ídolos que o mundo oferece, a cruz pode parecer uma realidade muito pouco atraente e sem sentido [3]. Nestes dois últimos séculos, em que não raras vezes os santos padres tiveram de lidar com propostas subversivas, dentro e fora da Igreja, cuja finalidade principal era substituir o Cristo crucificado por uma concepção cristã praticamente ateia, esse drama se revela ainda mais grave.

É particularmente notório um episódio da luta de Pio XI contra a ideologia nazista. Por ocasião da visita de Hitler a Roma, tendo se espalhado, a pedido de Mussolini, as suásticas do nacional-socialismo por toda a cidade eterna, o Papa Ratti ordenou que nenhuma bandeira fosse exposta nas sacadas do Vaticano, foi para Castel Gandolfo, e mandou escrever no L'Osservatore Romano que o ar de Roma estava irrespirável e que a ele não agradava nem um pouco ficar num lugar onde havia uma cruz que não era a de Cristo. Algo semelhante ocorreu com João Paulo II, quando da sua viagem à Nicarágua, em 1983. O governo sandinista, apoiado por padres ligados à Teologia da Libertação, havia organizado um infeliz protesto contra o papa. Na missa campal, foram colocados no altar, de propósito, cartazes de guerrilheiros em vez do crucifixo. O então secretário pessoal do santo papa, Cardeal Stanislaw Dziwisz, conta em suas memórias [4]:

[...] O Santo Padre, praticamente sozinho, enfrentou o tumulto e fez frente aos provocadores. Foi inesquecível a cena em que os sandinistas agitavam suas bandeiras rubro-negras, enquanto ele, de cima do palco, opunha-se a eles, levantando na direção do céu o báculo com o crucifixo na ponta.

Também dentro da Igreja esses confrontos contra a cruz de Cristo não faltaram. Nas sessões do Concílio Vaticano II, infelizmente, muitos foram os que sugeriram o abandono do sinal da cruz durante a liturgia, por este supostamente já não mais corresponder ao espírito do homem moderno [5]. Nas universidades de teologia, por sua vez, “a maneira blasfema como então se zombava da cruz como sendo um sadomasoquismo" era de se lamentar [6]. O então padre Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, escreve a respeito: “Vi o rosto horrível, sem disfarce, dessa piedade ateia; vi o terror psicológico, desenfreado, com o qual se conseguia sacrificar toda consideração moral como restante de um espírito burguês, quando se tratava da meta ideológica" [7].

Como nos tempos de São Paulo, a sociedade moderna não é simpática à mensagem da cruz de Cristo. Ao contrário, há certamente aquele número de indivíduos que, ludibriados pelas promessas ideológicas, depositam a própria esperança em obras e esforços humanos, a fim de alcançar um paraíso aqui na terra. É a tentação do neopelagianismo. Mutatis mutandis, como também não pensar nos “profetas" da técnica, verdadeiros gurus do modernismo, que, “fiando-se demasiadamente nas descobertas atuais", julgam desnecessária a mensagem evangélica, dando margem ao ceticismo e ao agnosticismo [8]? And last, but not least, que dizer das seitas e heresias que proliferam, fazendo com que o cristianismo e, por conseguinte, a Igreja deixem de ser a Mater et Magistra da sociedade, como gostava de definir São João XXIII, para se converter em uma mera instituição filantrópica ou sentimentalista?

A Igreja deve seguir o caminho do Esposo. Renegar a cruz seria como que um adultério. A tentação de apresentar um cristianismo sem cruz, no intuito de satisfazer o gosto da clientela, aos poucos, mostra-se frustrante. Sem o Cristo crucificado se perde o dom gratuito do Pai que, amando o mundo de tal maneira, entrega Seu Filho único em holocausto. É nisto que conhecemos o amor. Não há mensagem mais urgente, mais necessária, mais imprescindível para o homem que a mensagem do amor de Deus. Nenhum esforço humano, nenhuma sabedoria humana, nenhuma teologia da “libertação" ou da “prosperidade" é realmente capaz de libertar o homem e fazer com que ele progrida na santidade. É Cristo crucificado que nos traz a redenção, porque foi para isto que Ele se manifestou: “para destruir as obras do demônio" (cf. 1 Jo 3, 8).

É, pois, na morte crucificada que se encontra a verdadeira vida.

Por Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Caminho, n. 178.
  2. João Paulo II, Carta Enc. Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993), n. 1
  3. cf. 1 Jo 2, 16
  4. SVIDERCOSCHI; DZIWISZ; Gian Franco, Stanislaw. Uma vida com Karol. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, pág. 109.
  5. WILTGEN, Ralph. O Reno se lança no Tibre— O Concílio desconhecido. Niterói: Permanência, 2007, pág. 43.
  6. RATZINGER, Joseph. Lembranças da minha vida. São Paulo: Paulinas, 2007, pág. 118.
  7. Ibidem
  8. Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes (7 de dezembro de 1965), n. 57

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A mortificação, escada para subir ao Céu

As verdades que Cristo pregou do alto da montanha continuam válidas para hoje: fora da Cruz não existe outra escada por onde subir ao Céu.

Embora seja contraditória, tem atraído muitas pessoas a ideia de um Cristianismo sem sofrimento, sem penitências nem mortificações. Não se fala mais da necessidade de renunciar a si mesmo e tomar a própria Cruz [1], embora tenha sido o próprio Cristo a sublinhar tal obrigação. Não se ostenta mais a figura de Jesus Crucificado nas paredes de construções e nem mesmo nas igrejas, como se a constante lembrança das dores de Cristo fosse penosa ou até perigosa para as pessoas.

É, de fato, um ditado bastante repetido: “Falar só de dor e sofrimento afasta as pessoas da Igreja". Mas, onde está a caridade daqueles que calam tais temas apenas para manter o número de fiéis? É certo que o homem moderno não quer ouvir falar dessas coisas – antes, prefere que adociquem sua boca com o mel das novidades e dos prazeres. Mas a religião católica tem que ver com as vontades e preferências do mundo ou, antes, com a vontade e o reinado de Deus? A fé cristã tem que ver com o que o homem deseja ou com o que o homem verdadeiramente precisa?

Rebate-se: “Mas, o homem precisa sofrer?" Na verdade, a pergunta está mal colocada. Não é que o ser humano precise sofrer; é que ele precisa amar. E, novamente – afinal, sempre convém repetir –, neste mundo, não é possível que sejamos privados de sofrer simplesmente porque não podemos ser dispensados de amar. Não é que a religião cristã seja “masoquista" ou cultue a dor; é que foi esse o meio que Cristo escolheu para amar-nos e é também o meio pelo qual nós devemos amá-Lo. “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti" [2], diz Santo Agostinho. Não basta que o sangue de Cristo tenha sido derramado por todos; é preciso que aproveitemos de Sua eficácia, associando a nossa liberdade à ação da graça divina.

Neste tema, adverte o padre Garrigou-Lagrange, é preciso evitar dois extremos perigosos: o primeiro, menos comum, é o rigorismo jansenista, que apregoa a prática de árduas mortificações sem considerar a razão para isso, como que numa tentativa de alcançar o Céu por forças puramente humanas. Com isso, perde-se de vista “o espírito da mortificação cristã, que não é soberba, senão amor de Deus" [3].

O segundo erro a ser evitado parece dominar o mundo de hoje: trata-se do naturalismo prático. Com os argumentos já apresentados acima, essa tendência reduz a fé cristã a um bom mocismo, ignorando – ou fingindo ignorar – as consequências do pecado original sobre o gênero humano.

Nessa brincadeira perigosa, nem as palavras de Jesus contam mais. O Cristo que adverte para arrancarmos de nós os olhos e as mãos, se são para nós ocasião de queda, porque “é melhor perderes um de teus membros do que todo o corpo ir para o inferno" [4]; o Cristo que pede que ofereçamos a face esquerda a quem bater em nossa direita, que entreguemos o nosso manto a quem nos tirar a túnica, que andemos dois quilômetros, ao invés de um só [5]; o Cristo que alerta para não jejuarmos “de rosto triste como os hipócritas" [6], “só para serdes notados" [7], é solenemente ignorado pelos naturalistas, que preferem fundar para si uma nova religião: a de um deus leniente com o pecado, com a indolência e com a preguiça espiritual.

É preciso deixar muito claro que não é possível construir um “novo" caminho diferente do que indicou Jesus e do que trilharam os Santos. “Mirabilis Deus in sanctis suis", diz a Vulgata: “Deus é maravilhoso nos Seus santos" [8]. E eles não passaram por outra via senão a da mortificação. Como se explica, por exemplo, que uma Santa Catarina de Sena tenha começado tão cedo a flagelar-se e a fazer jejuns rigorosos [9]? Que, defender a sua pureza São Francisco se tenha revolvido na neve, São Bento se tenha jogado num silvado e São Bernardo tenha mergulhado num tanque gelado?

A chave para todas essas penitências é o amor, que não pode ser vivido neste mundo sem que crucifiquemos a nossa carne. Santo Afonso de Ligório ensina que “ou a alma subjuga o corpo, ou o corpo escraviza a alma". São Bernardo respondia aos que zombavam dos penitentes do seguinte modo: “Somos em verdade cruéis para com o nosso corpo, afligindo-o com penitências; porém mais cruéis sois vós contra o vosso, satisfazendo a seus apetites nesta vida, pois assim o condenais juntamente com a vossa alma a padecer infinitamente mais na eternidade".

Por que não se fala mais dessas coisas em nossas igrejas? Porque, infelizmente, quase nenhum espaço foi preservado desse maldito naturalismo, que pretende “inventar a roda" moldando um Cristianismo sem Cruz.

Para viver, é necessário mortificar-se, morrer mesmo, como o grão de trigo de que fala o Evangelho [11]. As verdades que Cristo pregou do alto da montanha continuam válidas para hoje e, como diz Santa Rosa de Lima, “fora da Cruz não existe outra escada para subir ao Céu".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. Lc 9, 23
  2. Santo Agostinho, Sermão 169, 13 (PL 38, 923)
  3. Reginald Garrigou-Lagrange, Las Tres Edades de la Vida Interior, II, 2, 2. Arquivo em PDF, p. 166
  4. Mt 5, 30
  5. Cf. Mt 5, 39
  6. Mt 6, 16
  7. Mt 6, 1
  8. Sl 67, 36
  9. Cf. Santa Catarina de Siena, a voz profética de Deus
  10. Cf. Jo 12, 24

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O Calvário, ponto de encontro dos que amam

Não é possível que deixemos de sofrer simplesmente porque não podemos ser dispensados de amar

Quando Jesus advertiu que, para segui-Lo, era preciso renunciar-se a si mesmo e tomar a sua cruz [1], talvez os discípulos não pensassem que Ele verdadeiramente tomaria uma “cruz", no sentido literal. De fato, após subir a Jerusalém, o Cristo “foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado", como rezamos no Credo Niceno-Constantinopolitano. O próprio Deus foi estendido sobre um madeiro: “tomou a sua cruz". E pediu que o imitássemos.

É verdade, nem todos os cristãos são chamados a imitar Jesus derramando o seu sangue por Ele. Mas todos, sem exceção, devem carregar a sua cruz, dia após dia, a fim de dizer, com São Paulo: “Estou pregado à cruz de Cristo" [2]. Era com esta atitude espiritual que São Josemaría Escrivá recomendava que os cristãos olhassem para os crucifixos despojados de Cristo: “Quando vires uma pobre Cruz de pau, só, desprezível e sem valor... e sem Crucificado, não esqueças que essa Cruz é a tua Cruz: a de cada dia, a escondida, sem brilho e sem consolação..., que está à espera do Crucificado que lhe falta. E esse Crucificado tens de ser tu" [3].

No entanto, muitas pessoas parecem agir com temor da cruz, quando não com desprezo e desdém. Dizem, orgulhosamente, que o madeiro ao qual Jesus foi pregado não deve ser ostentado por ninguém e, contrapondo-lhe o milagre da ressurreição, rejeitam a exaltação da Santa Cruz como culto da dor e do masoquismo.

Ora, é verdade que a crucificação era uma das penas mais infames que se aplicava aos homens nos tempos do Império Romano. Porém, “na Paixão [de Cristo], a Cruz deixou de ser símbolo de castigo para se converter em sinal de vitória" [4]. Por sua obediência ao Pai, Jesus transformou aquilo que era maldição em salvação para todos os homens. “Sua sanctissima passione in ligno crucis nobis justificationem meruit – Pela sua santíssima paixão no madeiro da cruz, Ele mereceu-nos a justificação" [5], ensina o Concílio de Trento. E, do mesmo modo, o Vaticano II: “[Ele] mereceu-nos a vida com a livre efusão do seu sangue; n'Ele nos reconciliou Deus consigo e uns com os outros e nos arrancou da escravidão do demônio e do pecado" [6].

Por esse motivo, a Igreja saúda a cruz como “única esperança". No dizer de Santa Rosa de Lima, “ fora da cruz, não há outra escada por onde se suba ao céu".

Mais do que apontar o erro evidente desses “que se portam como inimigos da cruz de Cristo" [7], cabe perguntar qual atitude espiritual está por trás disso: o que faz as pessoas agirem com tanta indiferença, quando não com ódio, em relação à Cruz?

Essas pessoas, que até vão à igreja e começam uma vida de oração, ou não compreenderam o significado da redenção – e isto uma boa catequese e um ato de fé podem consertar – ou estão afetadas por uma “teologia da prosperidade", que, prometendo paraíso neste mundo, as aliena e faz que coloquem o coração nas coisas materiais e passageiras, ao invés das espirituais e eternas. Diante dos sofrimentos que Deus permite por que passem, fogem invariavelmente, até mesmo na oração, esquecendo-se de fazer a súplica do Pai-Nosso: “fiat voluntas Tua – seja feita a Vossa vontade".

Não devemos pedir a Deus que nos livre das cruzes, mas que nos ajude a suportá-las. Neste mundo, não é possível que sejamos privados de sofrer simplesmente porque não podemos ser dispensados de amar. A vontade de Deus é que sejamos santos, que O amemos, mas, para que isso aconteça, precisamos primeiro crucificar-nos para o mundo [8], purificar o nosso amor: “Cada dia um pouco mais – tal como ao esculpir na pedra ou na madeira –, é preciso ir limando asperezas, tirando defeitos da nossa vida pessoal, com espírito de penitência, com pequenas mortificações (...). Depois, Jesus vai completando o que falta" [9].

A verdade da Cruz é esta: o mesmo caminho que Deus fez para unir o Céu à Terra [10] é o que nós devemos percorrer para nos assemelharmos a Ele. Dois mil anos depois, o Calvário continua sendo o ponto de encontro dos que amam: de Jesus e de Seus santos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Mc 8, 34
  2. Gl 2, 19
  3. Caminho, 178
  4. São Josemaría Escrivá, Via Sacra, IIª estação, 5
  5. Sessão 6ª, Decretum de iustificatione, c. 7: DS 1529
  6. Constituição pastoral Gaudium et spes, 7 de dezembro de 1965, n. 22
  7. Fp 3, 18
  8. Cf. Gl 6, 14
  9. São Josemaría Escrivá, Forja, 403
  10. Cf. Ef 1, 10

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O escândalo de uma vida crucificada

A vida crucificada é loucura para os que se perdem, mas para nós é o poder de Deus.

Dentre os inúmeros incômodos causados pelo catolicismo ao pensamento mundano – que encontra espaço até mesmo em alguns que tão somente com os lábios dizem ser católicos – talvez não haja um mais perturbante e irritante que a virgindade ou celibato; de fato, dizer com a vida: “Deus existe, entrego-me a Ele de modo total e indiviso", é tão ameaçador para os adversários da moral católica quanto para as trevas uma luz brilhar; ademais, a cruz erguida de tal forma diante dos olhos dos infiéis só pode inspirar desprezo, repugnância e, até mesmo, ódio.

Na virgindade “pelo Reino dos Céus" (Mt 19, 12), a cruz brilha em toda a sua grandeza e beleza; pois, aqueles que optaram pela virgindade pertencem, na radicalidade evangélica, a Jesus Cristo e crucificaram a própria carne com suas paixões e seus desejos (Cf. Gl 5, 24). Virgindade que, como observa Josef Pieper, quer dizer muito mais do que o que comumente pensamos a seu respeito:

Não é um fato, mas um ato; não um estado, mas uma opção. A mera integridade, como fato físico, não é o constitutivo formal da virgindade enquanto virtude, ainda que a integridade possa ser o selo e a coroa da castidade vitoriosa. O ato constitutivo da virgindade como virtude é a resolução, expressa ainda mais profundamente no voto, de abster-se das relações sexuais e do prazer correspondente.[1]

Assim, não é uma realidade simplesmente corporal, física, mas é também uma livre atitude espiritual, uma realidade do coração, uma opção livre por seguir o Senhor em seu Amor de Cruz. Com belíssimas e acertadas palavras, ensinou São João Crisóstomo: “A raiz e o fruto da virgindade é a vida crucificada"[2].

A vida crucificada é raiz porque é dela, da vida mortificada e crucificada com Cristo, que vem o ' sustento' e a 'subsistência', ela é a 'fonte' e 'nascente', da virgindade; e se olhamos para Aquele que é a Vida (Cf. Jo 14, 6), o Crucificado (Cf. Jo 19, 17-18) – a Vida Crucificada –, vemo-lO como o 'sustento', 'subsistência', 'fonte' e 'nascente', por excelência, dessa entrega total de si.

Como fruto, a vida crucificada é o dom, o presente, o deleite da virgindade. A união ao Senhor Crucificado é o anelo da alma desposada com Cristo – “fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu quevivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim" (Gl 2, 19-20). Que glória maior há do que essa união crucificada? Jesus é a Vida com as marcas da cruz, o Cordeiro Imolado, mas de pé (Ap 5, 6). A cruz, para nós católicos, “é força de Deus" (1Cor 1, 18; Fl 3, 18-19).

O Papa Francisco, em discurso ao episcopado brasileiro, afirmou com belíssimas palavras: “Mas haverá algo de mais alto que o amor revelado em Jerusalém? Nada é mais alto do que o abaixamento da Cruz, porque lá se atinge verdadeiramente a altura do amor!"[3]. E Bento XVI, magistralmente, ensinou: “A cruz é o ato do 'êxodo', o ato do amor, que é tomado a sério até o extremo e que vai 'até o fim' (Jo 13, 1), e por isso é o lugar da glória, o lugar do toque autêntico e da união com Deus, que é amor (1Jo 4, 7.16)"[4].

Diante de tamanha grandeza, quem vive a virgindade, celibato, compreende que, além de ser virtude essa vida crucificada, muito mais do que “ter feito um dom", um grande sacrifício a Deus, é perceber que recebeu um grande dom de Deus[5], uma vocação. E esse grande Dom, só é capaz “de compreendê-lo" aquele “a quem isso é dado" (Mt 19, 11-12)[6].

Compreende-se, assim, o escândalo[7] e a irritação causados pela virgindade àqueles que vivem etsi Deus non daretur (como se Deus não existisse). A virtude e dom da Virgindade desmascara a “cegueira de espírito, [...] o amor desordenado de si mesmo, o ódio a Deus, o apego a esta vida e o horror à futura"[8], próprios daqueles que vivem sob o senhorio da luxúria e levantam seu estandarte; esses, são semelhantes ao demônio que é torturado por essas vidas crucificadas com Cristo e investe de todas as formas para destruí-las.

Contudo, para todos os homens de boa vontade, a Virgindade é um grande presente de Deus, um grande dom. Que também o seja para nós! Que a Virgindade vivida por tantos santos e santas da Mãe Igreja, e ainda hoje por tantos clérigos, irmãos e irmãs de vida consagrada, arranque-nos de nossa luxúria e, assim, cercados por tamanha “nuvem de testemunhas" (Hb 12, 1) e intercessores, abracemos a nossa cruz e sigamos a Jesus.

Referências

  1. PIEPER, Josef. Virtudes fundamentais. Lisboa: Editorial Aster, 1960, p. 252.
  2. S. Joann. Chrysost., De virginitate, 80.
  3. Papa Francisco. Encontro com o Episcopado brasileiro no Arcebispado do Rio de Janeiro (Sábado, 27 de Julho de 2013).
  4. RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré: do batismo no Jordão à transfiguração. São Paulo: Editora Planeta, 2007, p. 78.
  5. CANTALAMESSA, Raniero. Virgindade. São Paulo: Editora Santuário, 1995, p. 68.
  6. João Paulo II. Audiência Geral, Quarta-feira, 10 de Março de 1982: “E são capazes 'de compreendê-lo' aqueles 'a quem isso é dado'. As palavras citadas indicam com clareza o momento da opção pessoal e simultaneamente o momento da graça particular, isto é, do dom que o homem recebe para fazer tal opção".
  7. Bento XVI. Vigília por ocasião do Encontro com os Sacerdotes (10 de Junho de 2010): “É verdade que para o mundo agnóstico, o mundo no qual Deus não tem lugar, o celibato é um grande escândalo, porque mostra precisamente que Deus é considerado e vivido como realidade. Com a vida escatológica do celibato, o mundo futuro de Deus entra nas realidades do nosso tempo. E isto deveria desaparecer!".
  8. MARÍN, Antonio Royo. Teología de la perfección cristiana. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2012, p. 607.

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Somos bons ou maus ladrões?

O diálogo dos dois malfeitores, travado do alto da Cruz, é quase que um resumo de nossa vida. Ambos vivem a mesma desgraça física, mas somente um é capaz de experimentar já nesta vida o reinado de Cristo, ao passo que o outro vive o inferno.

Homilia do Padre Paulo Ricardo para a Solenidade de Cristo Rei, 24 de novembro de 2013.

" Regnavit a ligno Deus", Deus reina desde o madeiro. É com esta realidade que nos confrontamos na narrativa de São Lucas, no Evangelho deste domingo, Solenidade de Cristo, Rei do Universo. Deus surge crucificado, mas, ao mesmo tempo, glorioso. Sua coroa são os espinhos; seu trono é a cruz; seu manto é o seu sangue. Uma imagem desafiadora: Cristo Rei e Sacerdote a se doar por inteiro na glória de sua paixão.

Que sentimento deve nos causar essa cena? Nós, supostamente católicos, que todos os dias vamos à missa, estamos conscientes de que a chave para o Reino de Deus chama-se cruz?

Duas outras imagens particulares destacam-se também no calvário. Ao lado de Cristo vemos as figuras dos malfeitores. De um lado São Dimas, o bom ladrão; do outro, o escarnecedor. Este blasfema contra o Céu e contra a Terra, exigindo de Jesus um milagre que salve a Ele e os demais. Aquele, reconhecendo a realeza do Deus que se fez vítima imolada, pede apenas o inacreditável: uma lembrança, uma lembrança e nada mais - "Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado" (Lc 23, 42).

A realidade destes dois personagens é quase que um resumo de nossa vida. Para um deles, o Reino de Cristo já se faz presente aqui na Terra; para o outro, não. Ambos vivendo a mesma tragédia, a mesma desgraça física, e somente um é capaz de experimentar já nesta vida o reinado de Cristo, ao passo que o outro vive o inferno.

Durante todo o texto que se segue, São Lucas repete as palavras "Cristo" e "Rei" quatro vezes. E é na boca dos que zombam de Jesus que o evangelista as coloca. No letreiro: "rei dos judeus". Entre os algozes: "Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido!" ( Lc 23, 36). E para o mau ladrão: "Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!" (Lc 23, 39).

Mais do que insultos, as palavras desses escarnecedores são preces de incrédulos: são blasfêmias. Não por acaso elas aparecem em outra ocasião na vida de Cristo, mas desta vez, nas tentações do diabo: "Se és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se transformem em pão" (Mt 4, 3).

Bento XVI, no livro Jesus de Nazaré, lembra que "esta exigência a respeito de Deus, de Cristo e da Igreja tem sido constantemente mantida ao longo de toda a história" [1]. Trata-se de um materialismo piedoso. O homem, confrontado pela dor e pela cruz, exige de Deus pequenos milagres que aliviem seus sofrimentos. Ele não pensa no céu, na eternidade. Ele quer a salvação aqui e agora. Quer transformar as pedras em pães; e por isso mesmo acaba gerando pedras em vez de pães. Essa atitude, certamente, não leva ao paraíso terrestre, mas conduz ao inferno que já não está muito longe.

Em São Dimas, por outro lado, encontramos outra realidade. Reconhecendo suas falhas e a inocência do que jaz ao seu lado, pagando por um crime que não cometeu, pede apenas a recordação. Ele sabe que, no meio da tragédia em que vive, uma simples lembrança de Deus é o suficiente para apaziguar qualquer angústia e tribulação. O Pai nunca esquece de seus filhos. Com efeito, numa intimidade bastante particular, suplica ao Filho deste mesmo Pai que se recorde dele quando estiver em seu reino.

"Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23, 43). É a resposta de Cristo para o bom ladrão. Com sua simplicidade, São Dimas roubou o céu. Eis o destino de todo cristão: viver antecipadamente aqui na Terra a salvação eterna por meio da docilidade para com Deus, ou então, virando as costas para o céu, praguejar contra a cruz do dia a dia, trazendo para dentro de sua casa as chamas do inferno.

De fato, resta-nos o que diz o Senhor no livro de Deuteronômio: "Eis que hoje eu ponho diante de vós a bênção e a maldição" (Dt 11, 26).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Joseph Ratzinger, Jesus de Nazaré, São Paulo: Planeta, 2007.

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Papa Francisco condena “caricatura” de São Francisco de Assis

O Santo Padre recordou a sublimidade da vocação e a fidelidade evangélica de São Francisco, o poverello de Assis

O Papa Francisco visitou hoje a cidade de Assis, na Itália, para celebrar a memória de São Francisco de Assis, o poverello cujo nome adotou para conduzir a Igreja. Desde o início de seu pontificado, o Santo Padre identificou-se profundamente com a figura de Francisco, declarando diversas vezes querer "uma Igreja pobre para os pobres", uma Igreja totalmente dependente de seu Senhor, vivendo a serviço de seus filhos.

Durante a Missa celebrada na Praça São Francisco, o Papa destacou que a caminhada do santo "começa do olhar de Jesus na cruz". "Quem se deixa olhar por Jesus crucificado fica recriado, torna-se uma 'nova criatura'", disse.

Ele também lembrou o amor que Francisco manifestava por toda a Criação. "O Santo de Assis dá testemunho de respeito por tudo o que Deus criou e como Ele o criou, sem fazer experiências sobre a criação destruindo-a; mas ajudá-la a crescer, a ser mais bela e semelhante àquilo que Deus criou", pregou. "São Francisco (...) dá testemunho de que o homem é chamado a salvaguardar o homem, de modo que o homem esteja no centro da criação, no lugar onde Deus – o Criador – o quis; e não instrumento dos ídolos que nós criamos!"

O Pontífice traçou um quadro equilibrado e sensato da vida do santo de Assis. Ao lembrar o anseio do poverello pela paz, ele condenou as leituras distorcidas que muitos fazem de sua história. "Na ideia de muitos, São Francisco aparece associado com a paz; e está certo, mas poucos vão em profundidade", destacou. "A paz franciscana não é um sentimento piegas. Por favor, este São Francisco não existe! E também não é uma espécie de harmonia panteísta com as energias do cosmos... Também isto não é franciscano! Também isto não é franciscano, mas uma ideia que alguns se formaram."

Quando, em 1210, São Francisco foi ao encontro do Papa Inocêncio III, a fim de conversar sobre a situação da Igreja e sobre o seu apostolado, o poverello deixara várias mensagens, mas nenhuma indicava rebeldia ou desobediência à hierarquia e à doutrina da Igreja. Tal foi a impressão deixada por Francisco que o Santo Padre exclamou: "É por meio deste homem piedoso e santo que a Igreja de Deus será restabelecida nas suas bases!"

Realmente, a Igreja experimentou uma grande renovação a partir da figura de São Francisco. Mas, como destacou o Papa em sua homilia, Francisco estava muito longe de um sentimentalismo piegas ou de um ecopanteísmo pagão. O frade de Assis, esposo da "santa pobreza", era católico convicto – e missionário. Durante o conturbado período das cruzadas, o corajoso Francisco, dialogando com o sultão Melek-al-Kamil, não escondia suas intenções. Chamado pelo líder muçulmano a morar em sua casa, o poverello foi categórico: "Com muito prazer, se te fizeres cristão!"

Àqueles que desejam ter Francisco consigo ou invocam sobre si mesmos uma espécie de "espírito de Assis": tenham em mente que o santo italiano só habitará em nossa casa, quando nos fizermos cristãos. De verdade.

São Francisco de Assis, rogai por nós!

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