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Ninguém tem o direito de ter filhos

Por trás da mentalidade que justifica os métodos reprodutivos condenados pela moral cristã está um erro tão básico quanto funesto: conceber o filho, não como um dom de Deus, mas como um direito e uma “commodity” a ser produzida e comercializada.

Por Leila Miller — Em nossa sociedade, os adultos têm "descoberto" e se arrogado novos "direitos" num ritmo assustador, e isto em detrimento dos verdadeiros direitos — inclusive os das crianças. Depois de ler há alguns anos o seguinte parágrafo do Catecismo, decidi pôr fim às minhas buscas. Eu nunca mais o esqueci, talvez porque a cultura em que vivemos o tenha esquecido completamente:

O filho não é algo devido, mas um dom. O "dom mais excelente do matrimônio" é uma pessoa humana. O filho não pode ser considerado como objeto de propriedade, a que conduziria o reconhecimento de um pretenso "direito ao filho". Nesse campo, somente o filho possui verdadeiros direitos: o "de ser fruto do ato específico do amor conjugal de seus pais, e também o direito de ser respeitado como pessoa desde o momento de sua concepção" (CIC 2387).

A Igreja está dizendo aos adultos: vocês não têm direito a um filho. Vocês têm um direito natural e de origem divina a muitas coisas, mas um filho não é uma delas.

E por quê? Porque a criança é um dom, um presente.

Talvez já tenhamos ouvido esta frase cá e lá, mas será que a entendemos de fato? Pensemos na natureza de todo e qualquer dom — trata-se de algo que, em si mesmo, nunca é "devido". Um dom é algo entregue livre e voluntariamente pelo doador; nunca é exigido nem reivindicado. Não podemos forçar quem quer que seja a dar-nos um presente, porque neste caso ele já não seria mais um presente.

A partir do momento em que um adulto acredita que ter um filho é um "direito" seu, a criança passar a ser vista como objeto de uma prestação que tem de ser satisfeita, quaisquer que sejam os meios necessários para isso. Tratar-se-ia de uma questão de justiça, uma vez que temos direito aos nossos direitos!

Mas quando nossas ideias chegam a este patamar (e isto aconteceu em nossa cultura), começamos a justificar os meios de "conseguir" o filho que nos é devido; a criança é agora uma commodity a ser produzida e adquirida. Além disso, visto que um filho é "considerado um objeto de propriedade", como diz a Igreja, tornam-se permitidas todas as formas de injustiça praticadas contra as crianças. Afinal de contas, o que é que fazemos com nossa propiedade? Ora, tudo o que quisermos: comprar, vender, manipular, dispor etc. Uma propriedade não tem absolutamente direito a nada.

Ainda assim, a Igreja diz às crianças: vocês têm o direito de nascer do ato conjugal daqueles que são seus pais. Vocês, crianças, são as únicas que "possuem verdadeiros direitos" nesse campo da existência humana.

Apesar das opiniões que por aí circulam, toda criança tem o direito natural e primordial de ser concebida a partir de um ato de amor entre seu pai e sua mãe, unidos em matrimônio. Fechemos os ouvidos ao murmúrio que nos rodeia, à falsa promessa de que "você pode ter tudo o que quiser". Não percamos de vista qual era o projeto originário de Deus, "no princípio", para o casamento e a família — a criança é fruto da união de seus pais em uma só carne. Esse projeto não foi alterado.

Ora, uma vez que a criança tem direito a ser o "fruto do ato específico do amor conjugal de seus pais", técnicas reprodutivas como, por exemplo, a FIV (fecundação in vitro), a doação de esperma e as chamadas "barrigas de aluguel" são sempre moralmente reprováveis. A advogada pró-vida Dorinda Bordlee, do Bioethics Defense Fund (Fundo de Defesa Bioética), chama a estes procedimentos "tráfico de reprodução humana": negociam-se contratos e investem-se vultosas somas de dinheiro para comprar gametas humanos. A concepção de uma criança é posta literalmente na mão de terceiros, e as mães e pais biológicos são alugados, comprados e vendidos como simples "partes" de um corpo.

Esta é uma verdade que nem todos estão dispostos a ouvir. Afinal, o que poderia haver de errado com o desejo de ter um filho, sobretudo quando se trata de casais inférteis e de boa vontade que, desesperados por trazer um bebê para casa, não têm a intenção nem de descartar os embriões "excedentes" durante um ciclo de FIV nem de "reduzir seletivamente" (ou seja, abortar) uma ou mais crianças, já que muitas são implantadas? A resposta é que não há nada de errado com o desejo em si. O desejo de um marido e uma mulher de ter um filho é bom e santo. Mas a boa intenção deles não justifica o uso de meios maus (cf. CIC 1750-1761).

A infertilidade é, de fato, uma cruz pesada, e os casais inférteis podem, sem dúvida nenhuma, servir-se de todas as tecnologias reprodutivas moralmente aceitáveis à disposição para tratar ou curar sua infertilidade, a fim de conceberem e criarem uma criança de modo natural. Aqui se incluem, por exemplo, as terapias hormonais e os fármacos que estimulam a ovulação ou facilitam a implantação do embrião. Há ainda as terapias holísticas (como a NaPro Technology), voltadas para a cura dos problemas de saúde responsáveis pela infertilidade, algo que as técnicas de reprodução artificial são incapazes de fazer.

Uma bela opção para os casais que ou não podem conceber, mesmo depois de um tratamento, ou que preferem renunciar a métodos terapêuticos é a adoção. Mas alguém poderia objetar: acaso a adoção não trata a criança como um "direito", e não como um dom? E o que pensar do fato de um filho adotado não ficar sob os cuidados do casal que o concebeu? Em primeiro lugar, precisamos ter em mente que a adoção se ordena, antes de tudo, a suprir as necessidades da criança, e não a satisfazer os desejos dos adultos (embora, é claro, isso possa ser uma feliz consequência). A adoção, portanto, consiste em recuperar o que a criança perdeu. É ela que possui aqui os direitos, não os adultos.

De acordo com o Catecismo, o outro direito fundamental de que a criança é titular é o de "ser respeitada como pessoa desde o momento de sua concepção". O "dom mais excelente do matrimônio", uma nova pessoa humana, é uma vida sagrada e inviolável, como todos nós o somos. Toda criança concebida vem ao mundo para amar e ser amada, e nunca, evidentemente, para ser morta. Esta realidade afirma e protege não somente a dignidade da criança, mas também a dignidade de toda pessoa, assim como a do matrimônio.

A criação e as leis de Deus são belas porque formam uma tapeçaria de verdades. Talvez fiquemos confusos e perdidos em uma cultura relativista e consequencialista; mas, quando voltamos à razão, quando esclarecemos nossas ideias e abrimos nosso coração para os primeiros princípios, todas as coisas vão para os seus devidos lugares e nos tornamos capazes de enxergar a beleza do perfeito projeto de Deus.

Fonte: Catholic.com | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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Primeira boneca “transgênero” do mundo é lançada nos Estados Unidos

Inspirada em Jazz Jennings, uma celebridade masculina que acredita pertencer ao sexo feminino, a primeira boneca “transgênero” do mundo já tem um protótipo.

O culto à "diversidade" continua, desta vez nos Estados Unidos. Mais uma vez, não se trata de uma notícia exatamente recente, mas ilustra a confusão dos tempos em que vivemos.

A companhia Tonner Doll, que leva o nome de seu fundador, o empresário Robert Tonner, pretende comercializar ainda este ano uma boneca "transgênero", a primeira do mundo. Um protótipo da peça já foi exibido durante uma exposição na cidade de Nova Iorque, em fevereiro. A previsão era de que a boneca estivesse disponível para venda a partir do último mês de julho, mas, até o momento, nenhuma informação foi veiculada a esse respeito.

A peça é baseada em um "transgênero" da vida real, chamado Jazz Jennings. Trata-se de uma celebridade de apenas 17 anos que teve a sua história contada em seriados, filmes e livros. Jared, como ele realmente se chama, começou a sua "transição" para o sexo feminino com apenas 5 anos de idade, recebendo todo o suporte da família para tanto. No momento, o rapaz vem passando por uma terapia hormonal para bloquear a puberdade e o seu desenvolvimento natural como homem — provavelmente tendo em vista uma futura cirurgia de "mudança de sexo".

Para aqueles perguntando como seria uma boneca "transgênero", Robert Tonner e Jazz Jeanings respondem.

Em entrevista concedida à revista Forbes, o criador da boneca explica que, embora a sua intenção seja realmente criar um debate sobre o tema, ele não colocará a palavra "transgênero" na embalagem do produto. "Meu instrutor me perguntou: 'O que faz dessa boneca um 'transgênero' se ela não tem as partes?', ele conta de uma conversa que teve na academia. "Eu disse que tinha a ver com o que a boneca representa: uma pessoa com um problema que… vinte anos atrás, não dava para fazer algo assim. Agora, ela está gerando discussões, e é disso que eu gosto."

Em sua conta no Instagram, Jazz Jeanings manifesta a esperança de que o lançamento ajude a retratar as pessoas "transgênero" de uma forma positiva. "A boneca é tida como a primeira boneca 'transgênero' porque é baseada em um indivíduo que é trans", ele explica. "É claro que se trata apenas de uma boneca feminina normal, porque isso é exatamente o que eu sou: uma garota normal!"

Mas quão "normal" é alguém dizer ser "mulher" tendo, em todas as células do corpo, cromossomos sexuais XY? A propósito, em um dos episódios de I Am Jazz — seriado da rede TLC criado justamente para contar a história de Jazz —, o protagonista da trama relata, em um clima bem descontraído, ter sofrido uma ereção. Com o perdão da franqueza, quão normal é para uma "mulher" ter… ereções?

Não se pode aceitar tudo isso, na verdade, sem aceitar primeiro o "dogma" dos ideólogos de gênero de que "as pessoas podem ser o que elas quiserem ser". Talvez você ainda não tenha deparado com algo assim, mas não é difícil encontrar hoje sites ou páginas nas redes sociais afirmando, por exemplo, que "alguém com pênis não é necessariamente um homem" e "alguém com vagina não é necessariamente uma mulher". O papel da biologia na determinação de nossa identidade vai-se tornando praticamente irrelevante. A diferenciação dos sexos não existe mais. Tudo pode ser mudado pela vontade "onipotente" dos seres humanos.

Como escreve Peter LaBarbera para o LifeSiteNews.com, "os jovens de hoje — como Jazz Jeanings mesmo — são apenas as últimas cobaias das ideologias liberais, que estão reclassificando a sua rejeição do plano maravilhoso de Deus para o homem e a mulher como um 'direito civil'. E nós, é claro, como defensores da natureza e do Deus da natureza, não passamos de 'preconceituosos transfóbicos'."

Santo Antão do Deserto profetizou, certa vez, o seguinte: "No futuro, os homens enlouquecerão. Pegarão um que não é louco e o sacudirão dizendo: você é um louco, você não é como nós" [1]. Pois bem, alguém ainda duvida de que esses tempos sejam os nossos?

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. Vita e detti dei padri del deserto (a cura di Luciana Mortari). 5. ed. Roma: Città Nuova, 2008, p. 88.

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Comunidade LGBT celebra “drag queen” de 8 anos no Canadá

Esta matéria é para você ter uma leve ideia de como será o mundo da ideologia de gênero, quando for finalmente implantado “o ideal de que não existe nada que seja só de menino ou só de menina”.

A notícia que você está prestes a ler não é exatamente recente, nem relata algo que se tenha passado no Brasil, mas a gravidade do assunto transcende o tempo e o espaço.

Foi em maio deste ano que Nemis Quinn Mélançon-Golden, um garoto canadense de apenas 8 anos, ganhou os holofotes da comunidade LGBT. Ele participou de uma parada em Montreal, chamada Werq the World Tour, ganhou a atenção de um travesti aparentemente famoso, chamado "Bianca del Rio", e o seu vídeo ficou viral nas redes sociais. Agora Nemis, um menino, é conhecido como "Lactatia", seu nome de "drag queen".

No vídeo a seguir, publicado por um canal LGBT no YouTube, é possível ver a própria mãe de Nemis aplicando maquiagem no rosto de seu filho, preparando-o para sua apresentação. Os pais do menino dão total apoio ao "sonho" de Nemis de ser uma estrela do mundo "drag".

No início do vídeo, já vestido de mulher, Nemis diz: "Eu acho que todos podem fazer o que quiser da vida, não importa o que os outros pensem. Se você quer ser um 'drag queen' e os seus pais não deixam, você precisa de novos pais. Se você quer ser um 'drag queen' e seus amigos não deixam, você precisa de novos amigos."

O LifeSiteNews.com traz mais informações sobre o caso, mas uma matéria em português também pode ser lida aqui, com a diferença de que, neste caso, o articulista vem em defesa da situação. Destaque para o trecho de uma entrevista concedida pelos pais de Nemis (grifos nossos):

O site Best Kept Montreal conversou com os pais de Nemis Quinn Mélançon Golden, responsável por criar Lactatia junto com a irmã Kashmyr Luna Higgins (14 anos), e eles provaram que são, provavelmente, uns dos melhores pais do mundo.

"Quando está fora do personagem, Nemis se identifica como um menino e, quando está nele, como uma menina. Drag, para Nemis, é sobre performance e personagem. Quando ele está como Lactatia, ele é uma garota com pênis. No que diz respeito a gênero, nós somos muito abençoados por ter nossos dois filhos e o ideal de que não existe nada que seja só de menino ou só de menina. Ele está crescendo brincando com os vestidos de princesa e os sapatos da irmã e andando de skate", disse Coriander Golden, pai de Lactatia.

"Claramente não somos como a maioria dos pais. Ao invés de praticar futebol aos sábados de manhã, nós temos aula de Vogue. Quando vamos às compras, compramos a mesma quantidade de jeans preto, peças de caveira, lantejoulas e tules. E conforme a sexualidade e a drag dele evoluem, Nemis entende que a maioria das drag's é gay. Conversamos muito sobre isso, porque ele ficou preocupado com que as pessoas não levassem a drag dele a sério, já que ele não sente que seja gay", completou Jessica Mélançon, mãe de Lactatia. "Talvez no futuro ele se descubra gay? Quem sabe? Por sorte ele tem uma vida inteira pela frente para descobrir esse aspecto sobre ele. Por enquanto ele está satisfeito de encontrar sapatos que sirvam nele e por cuidar das próprias coisas", argumentou o pai.

Certos tipos de notícia devem ser simplesmente veiculados, sem acréscimos, nem comentários adicionais. É o caso dessa notícia. Ela ilustra como será o mundo da ideologia de gênero, quando for finalmente implantado "o ideal de que não existe nada que seja só de menino ou só de menina", como disseram os pais de Nemis.

Algumas famílias já estão vivendo este pesadelo dentro de seus próprios lares, suplantando a realidade do ser por um desejo irrefreável de liberdade. O caso de Nemis não é único, mas constitui um emblema da crise educacional por que passamos: ao invés de realmente formarmos os nossos filhos, são eles quem devem, agora, "descobrir" o que querem ser; ao invés de colocarmos limites às suas pretensões — não porque sejamos "carrascos autoritários", mas porque o mundo real o exige —, fazemos de conta que não existe nada de errado com o mundo, que está tudo bem, que "todos podem fazer o que quiser da vida". O problema é que, embora sejamos "livres" para escolher o que fazer de nossos corpos — e de nossos filhos —, as consequências de nossas opções inevitavelmente se seguem, ainda que não as queiramos.

"Poderíamos imaginar crianças brincando na planície de um topo relvoso de alguma ilha elevada no meio do mar", diria G. K. Chesterton. "Contanto que houvesse um muro em volta do precipício, elas poderiam entregar-se ao jogo frenético e transformar o lugar na mais barulhenta creche. Mas os muros foram derrubados, deixando desguarnecido o perigo do precipício."

E as crianças… elas caíram.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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“O futuro pertence a quem tem filhos, não coisas”

É o que afirma o Arcebispo da Filadélfia, Dom Charles Chaput, que aconselha os casais cristãos a acolher, com amor e generosidade, o dom de novas vidas, penhor de um mundo mais cristão.

Dom Charles Chaput, Arcebispo da Filadélfia, fez um ardente discurso a respeito dos problemas que o mundo ocidental tem de enfrentar e encorajou os católicos empenhados na reconstrução da cultura a casar-se, ter filhos e educá-los na fé. Em discurso no Instituto Napa, d. Chaput lamentou a atual crise dos Estados Unidos.

"A natureza e o ritmo das mudanças culturais hoje em dia não têm precedentes", observou. "Elas ocorrem de maneira extraordinariamente rápida. E seguem em passo acelerado." Tais mudanças são verdadeiras "transformações — no âmbito de nossa filosofia legal, de nossa moral sexual, de nossa demografia, filosofia da educação, economia e tecnologia", disse.

" A pílula contraceptiva e a cisão entre sexo e procriação modificaram o sentido fundamental da sexualidade", disse d. Chaput. E o ativismo a favor do "casamento" homossexual passou a exigir não só aceitação, mas também aprovação, disse. "O ativismo homossexual alimenta-se agora de uma paixão moral pelos direitos gay e pelo reconhecimento da sociedade", advertiu. "De um ponto de vista bíblico, trata-se de um paixão profundamente viciada. Os argumentos a favor da liberdade religiosa e da liberdade sexual baseiam-se em duas concepções diferentes do homem e do sentido de nossa sexualidade. Mas uma paixão moral, ainda que esteja errada, é sempre poderosa."

"É por isso que as concessões a uma aparente igualdade gay já não são o bastante", continuou, ao observar que o principal ativista e financiador do movimento LGBT, Tim Gill, afirmou recentemente querer "punir" aqueles que discordam.

D. Chaput elogiou ainda a Becket Law (antigo "Fundo Becket para a Liberdade Religiosa") e a Alliance Defending Freedom ("Aliança de Defesa da Liberdade"), dos Estados Unidos, por seus trabalhos de proteção ao direito de objeção de consciência.

"A influência da Bíblia na sociedade americana é muito menor do que era no início. E a nossa percepção moral de quem somos e do sentido de nossas vidas encontra-se muito mais fragmentada", disse d. Chaput. "A única maneira de criarmos vida nova em nossa cultura é vivermos alegre e fecundamente, como indivíduos orientados por convicções maiores do que nós mesmos e compartilhadas por pessoas que conhecemos e amamos. Trata-se de um caminho ao mesmo tempo muito simples e muito árduo. Mas é o único caminho para uma mudança efetiva."

E continuou:

Quando jovens me perguntam como transformar o mundo, digo-lhes que se amem uns aos outros, que se casem, permaneçam fiéis, tenham muitos filhos e os eduquem para ser homens e mulheres de caráter cristão. A fé é uma semente. Ela não floresce da noite para o dia. Precisa de tempo, amor e dedicação. O dinheiro é importante, mas não é nunca o mais importante. O futuro pertence às pessoas que têm filhos, não coisas. As coisas quebram e se enferrujam. Mas toda criança é um universo de possibilidades que alcança a eternidade, unindo nossas memórias e esperanças, como um sinal do amor de Deus ao longo das gerações. É isto o que importa. A alma de uma criança existirá para sempre.

Se você quer saber como será o rosto da Europa daqui a cem anos, a não ser por um milagre, olhe para o rosto dos jovens imigrantes muçulmanos. O Islã tem futuro porque acredita nas crianças. Sem uma fé transcendente que faça a vida valer a pena, não há nenhuma razão para ter filhos. E onde não há filhos, não há imaginação, não há motivo para sacrificar-se e não há futuro. Pelo menos seis dos líderes nacionais europeus mais velhos não têm filhos. O mundo deles se encerra com eles. É difícil evitar a sensação de que boa parte da Europa, ou já está morta, ou está morrendo sem dar-se conta disso.

D. Chaput citou também as palavras do Cardeal Robert Sarah em seu novo e elogiado livro, A Força do Silêncio.

"Deus renova o mundo ao renovar primeiro cada pessoa, preciosa e imortal, no silêncio de sua alma", disse ele. "Deus não está ausente do mundo. Somos nós que tornamos impossível escutá-lo. Por isso, o primeiro desafio da vida cristã hoje em dia é desconectar-se, é fomentar o silêncio que nos permite ouvir a voz de Deus e abrir espaço para aquela conversa a que chamamos oração.

D. Chaput disse que a internet pode tornar-se "uma fonte de isolamento". "O espírito humano começa a morrer de fome pouco a pouco" quando confiamos apenas na tecnologia, disse. "Usamos nossas ferramentas, mas elas também nos usam. Elas moldam o nosso modo de pensar, de agir e de ver o mundo. O homem tecnológico vê o mundo, não como um dom de Deus — com a sua própria finalidade e sentido, para ser guardado e administrado —, mas como um conjunto de coisas mortas a serem organizadas e utilizadas."

Uma tal atitude "acaba por difundir a maneira com que tratamos o meio ambiente, os outros seres vivos, as pessoas, a nós mesmos e os nossos próprios corpos."

" Nós não vemos todos os efeitos do bem que praticamos nesta vida", concluiu d. Chaput, lembrando-se de como um amigo viu certa vez um bordado que, de perto, não passava de uma "centena de nós feios e emaranhados num caos de formas confusas e sem sentido". Na verdade, era o Tapiz do Apocalipse de São João, uma conhecida obra de arte europeia. "É uma das mais belas e surpreendentes expressões da civilização medieval e uma das maiores realizações do patrimônio artístico europeu", disse d. Chaput. "Grande parte do que fazemos parece um emaranhado de frustrações e fracassos. Não vemos — deste lado do bordado — o padrão de sentido que sobre ele tece a nossa fé."

"Um dia, porém, nós veremos tudo do outro lado", disse. "E naquele dia, enxergaremos a beleza que Deus permitiu-nos acrescentar à grande história da criação, a revelação do seu amor que perpassa geração após geração, não importa o quão bons ou maus sejam os tempos. E é por isto que a nossa vida tem importância."

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução: Equipe CNP

P. S.: Para ler o discurso de Dom Charles Chaput na íntegra, em inglês, acesse aqui.

| Categoria: Espiritualidade

Seja um presente para os outros!

Os consultórios e confessionários já estão cheios de pessoas reclamando de que não são amadas por ninguém. Não seja mais um. Abra seu coração ao verdadeiro amor de Deus e descubra como é bom se doar sem pedir nada em troca.

A baixa autoestima é um problema que frequentemente aparece nas clínicas de psicologia como também nas direções espirituais. Por uma série de motivos — histórico familiar, personalidade melancólica, problemas de relacionamento social etc. —, muitas pessoas julgam-se a si mesmas de maneira pejorativa, pelo que acabam procurando ajuda psicológica ou espiritual, por conta também do sofrimento que essa condição humilhante acarreta.

As pessoas que têm baixa autoestima tendem a formar juízos severos sobre tudo o que fazem; suas qualidades são sempre vistas como inferiores às dos outros, ao passo que seus defeitos, por menores que sejam, ganham a proporção de um Golias. É como se vivessem sob o olhar vigilante de um juiz terrível 24 horas por dia.

Esse problema, por si só angustiante, pode tornar-se pior quando leva ao chamado perfeccionismo ou, como diriam os manuais de ascética, ao apetite desordenado pela própria excelência. Trata-se de uma busca insensata pela perfeição, cujo motor é o desejo de ser aceito e receber elogios, de modo que, se estes não vêm, a decepção e o repúdio por si mesmo só aumentam. Em suma, a pessoa sempre se enxerga como um fracasso.

Em sua Noite Escura, São João da Cruz adverte contra esse mal dizendo como, muitas vezes, os perfeccionistas "manifestam a Deus os grandes anseios que têm de que lhes tire suas imperfeições e faltas, mais para se verem em paz sem o mal-estar que elas causam do que por Deus" [1]. É que, tomados por um desordenado desprezo por si mesmos, veem a santidade como meio, não como meta, para alcançarem graça diante de Deus e dos homens. E, por isso, acabam se frustrando a cada falta cometida, percebendo o quanto são incapazes de amar.

Pessoas perfeccionistas ou com baixa autoestima têm uma visão errada do amor; não o veem como um dom gratuito, mas como algo que deve ser meritoriamente conquistado. Para as almas sedentas de santidade, essa distorção do amor é uma tentação grave, da qual o diabo se serve frequentemente e que pode arruinar muitos principiantes na vida de oração.

Com efeito, o primeiro remédio contra a baixa autoestima é a aceitação total e incondicional do amor de Deus. Na Última Ceia, Jesus expressou o máximo de seu amor rebaixando-se à condição de servo para lavar os pés de seus discípulos. Lavar os pés, para a cultura da época, era símbolo de serviço e submissão aos convidados de uma família. Quando os hóspedes chegavam, o anfitrião mandava seu servo lavar-lhes os pés, como gesto de acolhida ou cortesia. Pedro, perfeito conhecedor das tradições de sua cultura e percebendo o significado do gesto de Jesus, logo O censura, dizendo: "Senhor, Tu vai lavar-me os pés!" [...] "Não, nunca me lavarás os pés!" ( Jo 13, 7-8).

Pedro ainda pensava como um perfeccionista: o amor deve ser merecido. Por isso repreende Cristo e não permite que lhe lave os pés. Jesus, então, responde: "Se não te lavar, não terás parte comigo" ( Jo 13, 8). É essa resposta de Jesus, cheia de misericórdia e sinceridade, que provoca a abertura de Pedro e a sua aceitação do amor. "Senhor, então não só os pés, mas também as mãos e a cabeça", diz comovido o príncipe dos apóstolos (Jo 13, 9).

Os que desejam crescer na vida de oração devem repetir aquelas palavras de Pedro. De fato, ninguém, por si mesmo, é merecedor do amor de Deus e trata-se de um dever de humildade reconhecê-lo. Mas, assim mesmo, o Senhor quer manifestar seu carinho aos seus filhos, acolhendo-os em suas fraquezas e tornando-os merecedores em Cristo. Semelhante a São Pedro, São Paulo também descobriu isso após sua conversão, de modo que suas preces partiam justamente de suas fraquezas: "Mas Ele me disse: Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo." (2 Cor 12, 9).

Notem que não há qualquer sinal de baixa autoestima nas palavras de São Paulo. Ele se sabe pequeno diante de Deus ao mesmo tempo em que reconhece a própria pequenez como seu maior dom. É por meio dela que o Senhor age em sua vida e na vida dos outros. É na sua fraqueza que ele se torna um presente para os demais irmãos de comunidade. Doa-se gratuitamente porque toda cobrança de afetos e reconhecimento perde sentido, uma vez que ele já possui o máximo amor; já teve seus pés, mãos e cabeça lavados por Jesus.

Outra, porém, é a atitude de Judas. Como todos os demais apóstolos, ele também teve seus pés lavados. Jesus o amou concretamente e em público para que não houvesse dúvida. Judas, no entanto, recusa-se a acreditar naquele amor e mantém-se resoluto em seu erro porque perdera a fé. Para o traidor, que passara boa parte de sua vida procurando um messias que lhe trouxesse libertação temporal, o discurso de Cristo sobre a vida eterna era "duro" demais; Judas cobra de Cristo um falso amor que Deus não lhe pode conceder.

Na verdade, a atitude de Judas é a de todos aqueles que desejam desesperadamente receber o amor do mundo sem se darem conta de que já possuem o amor mais sublime, que é o de Deus. É esse desejo desordenado que está na raiz de toda baixa autoestima e perfeccionismo. Querer ser amado merecidamente pelas coisas exteriores e temporais é um desvio gravíssimo, que só pode gerar frustrações e desespero. Daí a diferença gritante entre Pedro e Judas diante do pecado. Este se condena à forca porque não vê mais solução para o crime que cometera, ao passo que aquele, certo de que o Senhor o ama ainda mais na fraqueza, arrepende-se frutuosamente e inicia outra vez sua caminhada.

A fé no amor de Deus, "fundamento das coisas que se esperam, prova das coisas que não se veem" (Hb 11, 1), dá liberdade às pessoas para amarem umas às outras sem qualquer cobrança; pela fé, o cristão torna-se como que um presente para os irmãos. As pessoas com baixa autoestima, portanto, precisam, mais do que todas as outras, deixar-se lavar por Cristo para que, assim como São Pedro, possam irradiar a alegria do Evangelho e se tornar verdadeiros presentes. Esse acolhimento do amor de Deus pela fé é a mais eficaz e necessária das terapias.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Jesús Martí Ballester. São João da Cruz: "Noite escura" lida hoje. São Paulo: Paulus, 1993, p. 40.

Recomendação

| Categoria: Virgem Maria

Afonso de Ligório, um santo “todo de Maria”

Certo dia, entusiasmado com um livro que lhe liam, Santo Afonso perguntou quem tinha escrito tais maravilhas, tão cheias de piedade e amor a Nossa Senhora. Como resposta, quem o acompanhava leu o título: “As Glórias de Maria, por Afonso Maria de Ligório”.

Santo Afonso de Ligório compreendeu que o caminho que leva à perda da fé começa muitas vezes pela tibieza e frialdade na devoção à Virgem. E, em sentido contrário, o retorno a Jesus começa por um grande amor a Maria. Por isso, difundiu por toda parte a devoção mariana e preparou para os fiéis, e em especial para os sacerdotes, um arsenal de "materiais para a pregação e propagação da devoção a essa Mãe divina". A Igreja sempre entendeu que "um ponto totalmente particular na economia da salvação é a devoção à Virgem, Medianeira das graças e Corredentora, e por isso Mãe, Advogada e Rainha. Na verdade — afirma o Papa João Paulo II —, Afonso sempre foi todo de Maria, desde o começo da sua vida até à morte" [1].

Cada um de nós deve ser também "todo de Maria", tendo-a presente nos seus afazeres ordinários, por pequenos que sejam. E não devemos esquecer-nos nunca, sobretudo se alguma vez tivermos a desgraça de afastar-nos, de que " a Jesus sempre se vai e se 'volta' por Maria" [2]. Ela conduz-nos ao seu Filho rápida e eficazmente.

Santo Afonso morreu muito idoso, e o Senhor permitiu que os últimos anos da sua vida fossem de purificação. Entre as provas pelas quais passou, uma muito dolorosa foi a perda da vista. E o Santo distraía as horas rezando e pedindo que lhe lessem algum livro piedoso. Conta-se que certo dia, entusiasmado com um livro que lhe liam, perguntou quem tinha escrito tais maravilhas, tão cheias de piedade e de amor a Nossa Senhora. Como resposta, quem o acompanhava leu o título: " As Glórias de Maria, por Afonso Maria de Ligório". O venerável ancião cobriu o rosto com as duas mãos, lamentando uma vez mais a perda da memória [3], mas alegrando-se imensamente com aquele testemunho de amor à Santíssima Virgem. Foi um grande consolo que o Senhor lhe concedeu no meio de tantas trevas.

Os conhecimentos teológicos do Santo e a sua experiência pessoal levaram-no à convicção de que a vida espiritual e a sua restauração nas almas devem ser alcançadas — conforme o plano divino que o próprio Deus preestabeleceu e realizou na história da salvação — por meio da mediação de Nossa Senhora, por quem nos veio a Vida e que é o caminho fácil de retorno ao próprio Deus.

Deus quer — afirma o Santo — que todos os bens que procedem dEle nos cheguem por meio da Santíssima Virgem [4]. E cita a conhecida sentença de São Bernardo: "É vontade de Deus que tudo obtenhamos por Maria". Ela é a nossa principal intercessora no Céu, quem consegue tudo aquilo de que necessitamos. Mais ainda: muitas vezes, a Virgem adianta-se às nossas orações, protege-nos, sugere no fundo da alma essas santas inspirações que nos levam a viver mais delicadamente a caridade; anima-nos e dá-nos forças nos momentos de desânimo, vem em nossa defesa quando recorremos a Ela nas tentações... É a nossa grande aliada no apostolado: concretamente, permite que as nossas palavras, tantas vezes ineptas e mal amanhadas, encontrem eco no coração dos nossos amigos. Foi esta a freqüente descoberta de muitos santos: com Maria, chegamos "antes, mais e melhor" às metas sobrenaturais que nos tínhamos proposto.

A função do mediador consiste em unir ou pôr em comunicação os dois extremos entre os quais se encontra. Jesus Cristo é o único e perfeito Mediador entre Deus e os homens (cf. 1Tm 2, 5), porque, sendo verdadeiro Deus e Homem verdadeiro, ofereceu um sacrifício de valor infinito — a sua própria morte — para reconciliar os homens com Deus (cf. S. Th. III, q. 26, a. 2).

Mas isto não impede que os anjos e os santos, e de modo inteiramente singular Nossa Senhora, exerçam essa função. "A missão maternal de Maria a favor dos homens não obscurece nem diminui de maneira nenhuma a mediação única de Cristo, antes mostra a sua eficácia. Porque todo o salutar influxo da Bem-aventurada Virgem a favor dos homens não é exigido por nenhuma necessidade interna, mas resulta do beneplácito divino e flui dos superabundantes méritos de Cristo" [5]. A Virgem, por ser Mãe espiritual dos homens, é chamada especialmente Medianeira, pois apresenta ao Senhor as nossas orações e as nossas obras, e faz-nos alcançar os dons divinos.

Maria corrige muitas das nossas petições que não estão totalmente bem orientadas, a fim de que obtenham o seu fruto. Pela sua condição de Mãe de Deus, faz parte, de um modo peculiar, da Trindade de Deus, e, pela sua condição de Mãe dos homens, tem a missão confiada por Deus de cuidar dos seus filhos que ainda somos peregrinos [6]. Quantas vezes não a teremos encontrado no nosso caminho! Em quantas ocasiões não terá saído ao nosso encontro, oferecendo-nos a sua ajuda e o seu consolo! Onde estaríamos se Ela não nos tivesse tomado pela mão em circunstâncias bem determinadas?

"Por que as súplicas de Maria têm tanta eficácia diante de Deus?", pergunta-se Santo Afonso. E responde: " As orações dos santos são orações de servos, mas as de Maria são orações de Mãe, e daí procedem a sua eficácia e o seu caráter de autoridade; e como Jesus ama imensamente a sua Mãe, Ela não pode pedir sem ser atendida". E, para prová-lo, recorda as bodas de Caná, em que Jesus realizou o seu primeiro milagre por intercessão de Nossa Senhora: "Faltava vinho, com a conseqüente aflição dos esposos. Ninguém pediu à Santíssima Virgem que intercedesse junto do seu Filho pelos consternados esposos. Mas o coração de Maria, que não pode deixar de compadecer-se dos infortunados [...], impeliu-a a encarregar-se pessoalmente do ofício de intercessora e a pedir ao Filho o milagre, apesar de ninguém lho ter pedido". E o Santo conclui: "Se a Senhora agiu assim sem que lho pedissem, o que teria feito se lhe tivessem suplicado?" [7] Como não há de atender às nossas súplicas?

Pedimos hoje a Santo Afonso Maria de Ligório que nos alcance a graça de amarmos Nossa Senhora tanto como Ele a amou enquanto esteve nesta terra, e nos anime a difundir a sua devoção por toda a parte. Aprendamos que, com Ela, alcançamos antes, mais e melhor aquilo que, sozinhos, nunca alcançaríamos: metas apostólicas, defeitos que devemos dominar, intimidade com o seu Filho.


Transcrito e levemente adaptado da obra " Falar com Deus", de Francisco Fernández Carvajal,
trecho extraído da página do autor, na Internet.

Referências

  1. Papa São João Paulo II, Carta Apostólica Spiritus Domini, no segundo centenário da morte de Santo Afonso Maria de Ligório, 1.º de agosto de 1987.
  2. São Josemaría Escrivá, Caminho, n. 495.
  3. P. Ramos, no Prólogo de As Glórias de Maria, Perpétuo Socorro, Madrid, 1941. (Trata-se de uma história bem conhecida, também citada por Fl. Castro, C.Ss.R., na versão brasileira do livro, publicada pela editora Santuário, de Aparecida.)
  4. Cf. Santo Afonso Maria de Ligório, Glórias de Maria, V, 3-4.
  5. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium, n. 60.
  6. Cf. Ibid., n. 62; Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Redemptoris Mater, 2 de abril de 1987, n. 40.
  7. Santo Afonso Maria de Ligório, Sermões abreviados, 48.

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Por que Jesus Cristo falava em parábolas?

Se Jesus devia pregar o Evangelho da salvação, por que decidiu expor boa parte de seu ensinamento em forma de parábolas? Era conveniente que o Filho de Deus “escondesse” sua doutrina dos homens, aos quais veio trazer o conhecimento da verdade?

Lemos no Evangelho que Cristo ensinou algumas coisas privadamente a seus Apóstolos, mas ordenando-lhes que as pregassem depois publicamente: "O que eu vos digo na obscuridade, dizei-o às claras, e o que é dito ao ouvido, pregai-o sobre os telhados" ( Mt 10, 27).

Outras vezes, porém, o Senhor ensinou por meio de parábolas, que ele explicava depois aos seus discípulos, mas cujo sentido escapava à maior parte de seus ouvintes. Os próprios Apóstolos perguntaram ao Senhor a razão dessa maneira de pregar, e obtiveram uma resposta cuja interpretação exata é um tanto obscura e difícil:

"Chegando-se a ele os discípulos, disseram-lhe: 'Por que razão lhes falas por meio de parábolas?' Ele respondeu-lhes: 'Porque a vós é concedido conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é concedido. Porque ao que tem lhe será dado (ainda mais), e terá em abundância, mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo em parábolas, porque vendo não vêem, e ouvindo não ouvem nem entendem. E cumpre-se neles a profecia de Isaías (6,9-10), que diz: Ouvireis com os ouvidos, e não entendereis; olhareis com os vossos olhos, e não vereis. Porque o coração deste povo tornou-se insensível, os seus ouvidos tornaram-se duros, e fecharam os olhos, para não suceder que vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e entendam com o coração, e se convertam, e eu os sare" (Mt 13, 10-15).

Esta é uma das passagens evangélicas que mais fizeram suar os exegetas. Vejamos, pois, em síntese, a interpretação do Doutor Angélico ( S. Th. III, q. 42, a. 3):

Por três motivos uma doutrina pode permanecer oculta:

a) Pela intenção de quem ensina, que não quer comunicá-la a muitos, mas antes mantê-la oculta, seja por inveja e desejo de excelência, seja por tratar-se de uma doutrina errada ou imoral. É evidente que não foi este o caso de Nosso Senhor.

b) Porque se ensina a poucos. Tampouco este motivo diz respeito a Jesus Cristo, pois, como Ele mesmo disse a Pilatos, "Eu falei publicamente ao mundo; ensinei sempre na sinagoga e no templo, aonde concorrem todos os Judeus; nada disse em segredo" (Jo 18, 20). As mesmas instruções que o Senhor dava privadamente a seus Apóstolos deveriam depois ser pregadas publicamente (Mt 10, 27).

c) Pelo modo de ensinar. Dessa forma, Cristo ocultava algumas coisas às turbas quando lhes expunha em parábolas os mistérios que não eram capazes ou dignas de receber. No entanto, ainda lhes era melhor recebê-los assim e ouvir a doutrina espiritual sob o véu das parábolas que permanecer totalmente excluídas dela. E, além disso, o Senhor expunha a verdade clara e desnuda das parábolas aos discípulos, por meio dos quais ela haveria de chegar aos outros que fossem capazes de recebê-la.

Segundo esta interpretação do Doutor Angélico, a razão profunda da pregação em parábolas deve ser buscada em uma ação combinada da misericórdia e da justiça de Deus: "porque não eram capazes ou dignos" de receber abertamente a doutrina de Cristo.

a) Em primeiro lugar, não eram capazes de receber abertamente essa doutrina por conta de seus prejulgamentos messiânicos, completamente opostos à realidade evangélica. Eles imaginavam um Messias em forma de rei temporal, forte e poderoso, que esmagaria todos os inimigos de Israel e os encheria de felicidades e prosperidades temporais. Frente a esta concepção, tão arraigada no povo, a doutrina evangélica, orientada inteiramente ao Reino dos Céus e ao desprezo das coisas da terra, era demasiado sublime e elevada para que pudessem captá-la exposta em toda a sua nudez. Cristo lhes dá o pão da verdade na forma que então podiam compreendê-la, deixando a seus discípulos o cuidado de expô-la com toda claridade à medida que fossem capazes de assimilá-la. Di-lo expressamente São Marcos (4, 33-34): "Assim lhes propunha a palavra com muitas parábolas como estas, segundo podiam entender. Não lhes falava sem parábolas; porém, tudo explicava em particular a seus discípulos".

b) Em segundo lugar, não eram dignos de recebê-la claramente por causa da sua obstinada incredulidade. Era um fato, como lamentava o próprio Cristo, que "vendo não veem e ouvindo não ouvem nem entendem". Os milagres estupendos com que o Cristo demonstrava, diante do povo, sua divina missão endureciam mais e mais os corações obstinados, até o ponto de atribuir os milagres ao poder de Belzebu (Lc 11, 15) ou de querer matar Lázaro, visto que, por motivo de sua ressurreição, muitos criam em Jesus (Jo 12, 10-11). Diante de tanta obstinação e malícia, a justiça de Deus tinha forçosamente que castigá-los, e por isso lhes anuncia a verdade de forma velada e misteriosa, a fim de que os homens de boa vontade tivessem as luzes suficientes para abraçar a verdade evangélica, e os rebeldes obstinados recebessem o justo castigo de sua maldade. Contudo, com relação a estes últimos brilha ainda de algum modo a misericórdia de Deus, porque, como adverte Santo Tomás, "ainda lhes era melhor receber a doutrina do reino de Deus sob o véu das parábolas que permanecer totalmente privados dela".


Não deixe de assistir, também, à nossa aula recente sobre o Sermão das Parábolas, no curso exclusivo "Os Evangelhos Sinóticos". Abaixo, um pequeno trecho deste material:


Essa interpretação explica a misteriosa passagem bíblica de forma discreta e razoável. Mas, em todo caso, seja como for, não se pode interpretar a pregação parabólica como uma restrição da vontade salvífica universal de Deus, que está clara e expressamente revelada na Sagrada Escritura. É-nos dito claramente que "Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade" ( 1Tm 2, 4); que "Deus não quer a morte do pecador, mas sim que se converta e viva" (Ez 18, 23); que Cristo "não veio chamar os justos, mas os pecadores à penitência" (Lc 5, 31); que Deus "prefere a misericórdia ao sacrifício" (Mt 9, 13) e outras muitas coisas do mesmo tipo. Deve-se interpretar as passagens obscuras da Sagrada Escritura pelas claras, e não o contrário. Trata-se de uma norma fundamental da hermenêutica bíblica.

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Do livro Jesucristo y la vida cristiana, do Pe. Antonio Royo Marín,
Madrid: BAC, 1961, p. 286s. (Tradução, adaptação e grifos nossos.)

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À procura de paz interior? Experimente sair do Facebook!

Sacerdote revela por que decidiu abandonar o mundo do Facebook e do Twitter, e adverte: “Todos os católicos deveriam, pelo menos, começar a incluir o uso das mídias sociais em seus exames de consciência.”

Durante anos fui um viciado em mídias sociais, checando regularmente meu celular à procura de atualizações no Facebook e no Twitter (estou muito velho para Snapchat) e compartilhando minha sabedoria mundo afora. Eu gostava de ganhar "curtidas" e retweets, tanto quanto qualquer outra pessoa (talvez mais).

Sim, eu olhava com desdém para posts de gatinhos e pensava que selfies eram narcisistas e irritantes. Mas, de forma geral, nunca me perguntei sobre a importância das mídias sociais como um todo. Não de um ponto de vista católico, pelo menos. Afinal de contas, elas não são a principal forma de comunicação hoje em dia? Não é necessário, aliás, que os católicos estejam presentes nelas para poder evangelizar? Isto não poderia ser visto, enfim, como parte do meu ministério enquanto padre, como um tipo de "paróquia cibernética"?

Como quer que seja, encontrei-me recentemente com um amigo seminarista que decidiu há uns dois anos parar de usar o Facebook. Ele confessou que sua vida, sobretudo como católico, melhorou muito desde então. E desafiou-me a seguir o seu exemplo.

Minha reação imediata foi fechar-me na defensiva, à semelhança de um viciado em jogos cuja esposa lhe pede que tente parar de apostar por um tempo. E o que me surpreendeu foi justamente essa reação interna. Afinal, por que a simples ideia de abandonar as redes sociais pareceu-me tão amedrontadora? Será que eu estava tão viciado assim em "curtidas" e retweets?

Enquanto eu pensava em excluir minhas contas de Facebook e de Twitter, as pessoas com quem conversei a respeito levantaram-me inúmeras objeções; dentre elas, apenas duas pareciam ter algum peso. As redes sociais, em primeiro lugar, são plataformas de comunicação, e é por isso que a Igreja não deve estar fora do Facebook e do Twitter, assim como São Paulo não fugiu do Areópago. Em segundo lugar, elas constituem um meio de manter contato com pessoas a que eu não teria acesso de outra forma.

Estes dois argumentos fizeram-me hesitar por um instante. Foi então que me perguntei pelo número de pessoas que verdadeiramente se convertem por causa de um tweet. Suspeito que não sejam muitas. Na verdade, é possível que mais gente se afaste da fé por causa das "guerras" intestinas travadas entre católicos on-line. As mídias sociais não são favoráveis a meio-termos e à moderação; antes, pelo contrário, tendem a acentuar o lado menos agradável da comunicação, e são os comentários mais escandalosos que costumam ganhar maior número de "curtidas".

Quem usa mídias sociais está constantemente exposto à tentação, como os jornalistas, a dar demasiada atenção ao que é escandaloso e polêmico, e isto vai na contramão do que São Paulo disse aos filipenses: "Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos" (Fl 4, 8).

Quanto à segunda objeção, é preciso lembrar que é natural perder contato com as pessoas ao mudarem as circunstâncias que nos unem a elas. Seria inútil tentar congelar, numa espécie de "câmara criogênica" para amigos de Facebook, todo e qualquer relacionamento. De fato, um amigo de Facebook anunciou há poucas semanas que estava de volta à plataforma, e eu sequer havia notado que ele tinha deixado de usá-la. Isso diz tudo.

Quanto a mim, a razão básica que me levou a sair do mundo do Facebook e do Twitter foi a necessidade, frequentemente sublinhada por Bento XVI, do recolhimento interior. As mídias sociais costumam fazer-nos boiar na superfície, num comprometimento leviano com o mundo. Elas favorecem a escravidão ao momentâneo, à moda passageira, às controvérsias atuais. Elas militam contra a centralidade da Palavra, levando-nos a dar uma excêntrica atenção às puras palavras, como um balbuciar de Babel.

Como Bento XVI observou em 2005: "Deixemo-nos 'contagiar' pelo silêncio de São José! Temos tanta necessidade disso, num mundo muitas vezes demasiado ruidoso, que não favorece o recolhimento, nem a escuta da voz de Deus [...]. Cultivemos o recolhimento interior, para acolher e conservar Jesus em nossa vida."

Ora, o Facebook e o Twitter nunca me ajudaram a cultivar esse tipo de recolhimento, nunca me tornaram capaz de enraizar-me nas profundezas da presença de Deus em mim mesmo. Por isso, eles deviam sair de minha vida. Talvez nem todos passem por isso, mas creio que todos os católicos deveriam, pelo menos, começar a incluir o uso das mídias sociais em seus exames de consciência.

Excluí minhas contas de Facebook e de Twitter numa Sexta-feira Santa, e duvido que que meus "amigos" e "seguidores" se sintam abandonados ou, privados agora de meus posts e tweets, invadidos por uma sensação de abandono. A verdade é que a maior parte deles nem mesmo vai notar a minha ausência. (Nem mesmo quando eu morrer — mas isto fica para outro dia, assim espero.)

Se estou com saudades das mídias sociais? Bem, estou escrevendo este artigo durante uma pequena pausa depois da Páscoa em Whitby e preciso ser honesto: queria muito tirar uma foto da Abadia da cidade e postá-la para que todos se alegrassem comigo por encontrar-me num lugar tão bonito, enquanto os outros estão sentados em seus escritórios. Mas não havia maneira. Por fim, não tirei foto alguma e fiquei a apreciar a vista.

Por Pe. David Palmer | Fonte: Catholic Herald | Tradução e adaptação: Equipe CNP