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Mulheres com dificuldades para engravidar recebem milagres na Terra Santa

Depois de visitarem o lugar onde Maria teria amamentado o Menino Jesus, famílias com problemas de fertilidade são milagrosamente agraciadas com filhos. Para um frade, as cartas que chegam todos os dias à Gruta do Leite são “a prova de que Deus existe”.

Escondida atrás da Praça da Manjedoura, próxima à basílica que marca, de acordo com a tradição cristã, o lugar onde Jesus nasceu, está a Gruta do Leite. Esse é o local onde, de acordo com outra tradição, Maria amamentou o Menino Jesus e onde algumas gotas de seu leite caíram sobre as pedras, transformando a cor marrom amarelada de seu calcário macio em branco cremoso. Inspirados por uma devoção multissecular, que remonta possivelmente aos primeiros cristãos, mulheres e casais com problemas de fertilidade têm vindo a essa gruta para rezar a Nossa Senhora, na esperança de que a sua intercessão os ajude a ganhar um bebê.

Atualmente, os peregrinos podem levar para casa pequenos pacotes de pó branco extraído da gruta. Juntos, os casais realizam uma "quaresma" que inclui beber pequenas quantidades do pó e recitar uma oração. Os pacotes são vendidos a um preço simbólico, mas só podem ser adquiridos na gruta, já que a demanda seria enorme para administrar.

O irmão franciscano Lawrence Bode, zelador do santuário, tem guardado os registros dos últimos 12 anos. Ele já recebeu cerca de 4.000 cartas de casais, atribuindo o nascimento de seus filhos ao milagroso "leite em pó" extraído da gruta. O frade estima que haja o dobro de crianças cujos pais não lhe escreveram. "Na semana passada, eu fui para a caixa de correios e havia cerca de 10 fotos de bebês", ele conta. "As pessoas rezam pela cura, para que elas tenham um bebê e sejam mães. A cada dois dias, temos uma criança. É um lugar maravilhoso em que trabalhar, gerando bebês de todo o mundo. As cartas são o testemunho da evidência tangível dos milagres."

As correspondências e fotos que Lawrence guarda em fichários, e outras tantas que decoram as duas paredes do seu pequeno escritório, vêm de de todos os cantos do mundo, incluindo Brasil, Argentina, Índia, Filipinas, México, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Sri Lanka, Bermudas, Irlanda e Espanha. Mais recentemente, o frade diz ter recebido cartas até mesmo de Taiwan e da China.

Em cada testemunho enviado ao santuário, vão registradas as dificuldades que as famílias enfrentavam para conseguir um filho. Um casal da Índia lutava para engravidar já havia 20 anos. Depois que aderiram à devoção, o marido escreveu relatando a sua imensa alegria pelo nascimento de uma menina. Um líder da comunidade episcopal dos Estados Unidos escreveu há cerca de seis anos. Ele enviou uma foto sua, trazendo no peito, orgulhoso, o seu filho recém-nascido, em um canguru. Ele e a esposa também tinham problemas de fertilidade. Da Argentina, uma jovem escreveu contando o nascimento de sua filha depois de 10 meses tentando engravidar. Dois casais da região da Palestina, que também mandaram fotos ao santuário, foram abençoados de modo especial: um teve trigêmeos; o outro, quadrigêmeos.

O irmão Lawrence diz que geralmente brinca com os casais para tomarem cuidado com a quantidade de pó que eles tomam, porque pode fazer multiplicar o número de filhos. Ele também conta – desta vez, falando sério – que nunca pergunta aos casais se eles fazem tratamento médico ao mesmo tempo em que peregrinam à gruta. O religioso reconhece que, em algumas ocasiões, pode ser o caso de um simples sucesso médico, mas assegura que a fé e as orações das famílias também podem ajudar no decorrer do processo.

Outras cartas atribuem ao mesmo "leite em pó" milagres como a cura de um câncer, de uma cegueira ou de uma paralisia. Algumas famílias – conta o irmão Lawrence – voltam ao santuário com os seus filhos para agradecer. Foi o caso dos palestinos pais de quadrigêmeos e de um casal do norte da Galiléia que recebeu a cura de uma filha que estava em coma. "É uma sensação maravilhosa saber que há esperança para os casais, para os doentes e até para quem está perdendo a fé. Eu rezo pelas pessoas que têm essa devoção todos os dias da minha vida", diz o frade. "Essa é a prova de que Deus existe. Estamos falando de milagres. Nos dias de hoje, você fala de milagres e as pessoas não acreditam."

Em vários lugares da gruta, é possível perceber buracos no teto, da largura de um dedo, sinalizando o lugar onde as pessoas rasparam um pouco do pó para levar para casa. Hoje, quem zela pelo santuário vigia para que as pessoas não tentem mais fazer isso. A Gruta do Leite sofreu uma restauração dois anos atrás, durante a qual foram removidas fuligens antigas do teto e, para acomodar grupos maiores de peregrinos, foi adicionada uma capela superior maior em cima da capela antiga, construída sobre a gruta por volta do ano de 385. O irmão Lawrence observou que, em algum momento durante as recentes reformas, armazenou-se uma considerável quantidade do pó da gruta para ser oferecida aos fiéis que vêm ao santuário. O frade acredita que há o suficiente para "durar pelo menos 100 anos".

Velho devoto da Virgem Maria desde antes de entrar na vida religiosa, Lawrence afirma que a sua devoção "triplicou" desde que ele se juntou aos franciscanos e passou a cuidar da Gruta do Leite. O religioso está convicto de que, quando as graças acontecem pela mediação de Maria e pelo uso do "leite em pó", é sempre Deus quem opera por meio dessas realidades, assim como Ele sempre agiu na história, por meio dos Seus profetas e dos próprios objetos inanimados (cf. 2 Rs 2, 9-14). "Assim como nós pomos a nossa fé em Jesus, também pomos a fé em sua mãe", explica o frade.

No primeiro dia do ano, uma Missa especial em honra a Maria é celebrada na Catedral de Santa Catarina, que fica ao lado da Basílica da Natividade. Centenas de fiéis cantam e rezam em procissão, carregando um ícone da Virgem Maria até a Gruta do Leite, onde eles recebem a bênção de um sacerdote. Com isso, os católicos cumprem a profecia evangélica que diz: "Todas as gerações me proclamarão bem-aventurada" ( Lc 1, 48).

Enquanto os cristãos só comemoram o nascimento de Jesus durante o tempo do Natal, Lawrence diz celebrar a natividade todos os dias em que nasce um bebê graças à intercessão de Nossa Senhora do Leite. "Jesus nos diz que, se temos a fé de um grão de mostrada, podemos mover uma montanha", ele afirma. "Os milagres vêm com a fé das pessoas. Não é mágica. Tem a ver com fé e a devoção de cada um."

Por Judith Sudilovsky | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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Caminho livre para a canonização de Madre Teresa de Calcutá

Aprovado o segundo milagre atribuído à beata de Calcutá, está quase tudo pronto para que ela seja elevada à honra dos altares. O novo milagre dá testemunho da caridade de Madre Teresa, que, mesmo estando no Céu, não deixa de amparar os seus filhos.

O aval do Papa veio no dia do seu aniversário. Na tarde da quinta-feira, 17 de dezembro, Francisco ratificou o reconhecimento do milagre que levará a beata Madre Teresa de Calcutá à honra dos altares. Assim se concluiu o processo super miro ("sobre o milagre") da causa da "apóstola dos desvalidos". A data oficial da canonização será divulgada no próximo Consistório, mas estima-se que a cerimônia aconteça no dia 4 de setembro, ao longo do Ano Santo da Misericórdia.

O milagre tinha sido colocado sob a avaliação final dos bispos e cardeais reunidos na Congregação para a Causa dos Santos, no dia 15 de dezembro. Depois de escutarem a exposição de um proponente da causa, os prelados deram o seu parecer positivo e submeteram o caso à aprovação do Papa. Foi o último grau de julgamento na fase romana do processo sobre o milagre, iniciado em junho deste ano, na diocese brasileira de Santos, São Paulo.

A cura extraordinária, que aconteceu em 9 de dezembro de 2008, é relativa a um homem, hoje com 42 anos, que ficou às portas da morte por conta de "múltiplos abscessos cerebrais com hidrocefalia obstrutiva". De acordo com o diagnóstico, o paciente já tinha sido "submetido a um transplante renal e a terapia com imunossupressores", mas nada tinha adiantado. O caso clínico extremamente crítico e com um prognóstico quod vitam decididamente infausto se resolveu de repente, de modo total e duradouro, sem qualquer intervenção cirúrgica. No dia 10 de setembro deste ano, os membros da junta médica foram unânimes em considerar o tratamento da doença cientificamente inexplicável, com sete votos positivos, de sete.

Também unânime foi o voto sucessivo dos teólogos que, segundo o costume, são chamados a manifestar e redigir o próprio voto sobre a perfeita conexão de causa e efeito entre a invocação unívoca à beata Madre Teresa e a cura imprevista.

"Roguem a Madre Teresa que ela o cure"

À época dos fatos, o paciente, engenheiro de profissão, tinha 35 anos e estava casado há pouco tempo. Seu calvário tinha começado nos primeiros meses de 2008. Ao fim do ano, ele foi diagnosticado com oito abscessos cerebrais. Os cuidados médicos não surtiram nenhum efeito e o quadro clínico piorou depois, com o surgimento da hidrocefalia. Uma cirurgia deveria ser feita para afastar a possibilidade de morte, tida como iminente. No dia 9 de dezembro, já em coma, o paciente entrou na sala de operação. Por causa de problemas técnicos, todavia, a intervenção foi adiada. Enviado de volta à sala de cirurgia, depois de apenas uma meia hora de espera, o cirurgião encontrou o paciente surpreendemente sentado, acordado, sem quaisquer sintomas, perfeitamente consciente e perguntando: "O que eu estou fazendo aqui?".

"Eu nunca vi nada parecido", escreveu o médico em seu depoimento. "Dos outros casos semelhantes a esse, em 17 anos de profissão, todos estão mortos. Não posso dar uma explicação médica ou científica". Exames sucessivos confirmaram a cura definitiva da patologia cerebral e, em pouco tempo, sem nenhum sequela, o paciente pôde retornar ao seu trabalho e às suas atividades normais.

As provas documentais revelam que foram feitas muitas orações a Madre Teresa, especialmente durante a gravíssima crise de 9 de dezembro. Depois de perceber a gravidade da situação, a esposa do jovem profissional tinha pedido aos seus conhecidos que rezassem à beata de quem ela era devota: "Roguem a Madre Teresa que ela o cure". Exatamente naquela meia hora de espera da cirurgia, ela se achava com um sacerdote e outros familiares rezando a Madre Teresa na capela do hospital.

Invocada, a religiosa rapidamente interveio, vindo em auxílio de uma pessoa em condições extremas, como de resto sempre tinha feito em vida, dedicando-se ao cuidados dos moribundos e à assistência dos mais necessitados.

Uma mulher de profunda comunhão com Deus

O trabalho de Madre Teresa junto aos pobres é amplamente conhecido. O que permanece oculto para muitos é a sua profunda intimidade com o Santíssimo Sacramento, a qual constituía a força de toda a sua vida e apostolado. "A Missa é o alimento espiritual que me sustenta", ela dizia. "Sem ela, eu não conseguiria completar sequer um dia ou uma hora da minha vida."

Foi de diálogos com Jesus Eucarístico, por exemplo, que lhe vieram as inspirações para fundar a Congregação das Missionárias da Caridade, ainda em 1946. Ela era diretora de uma escola católica e sentiu forte o chamado de Deus para abandonar tudo e começar uma missão especial entre os pobres. Quando conseguiu a autorização de seu bispo, a única coisa que pedia para ela e suas irmãs era "ajuda espiritual". "Se tivermos nosso Senhor no meio de nós, com a Missa diária e a Santa Comunhão, não temo nada nem para minhas irmãs, nem para mim", escreveu ela ao prelado. "Ele cuidará de nós. Mas sem Ele, fraca que sou, eu não posso nada."

As suas palavras de amor à Eucaristia só confirmavam o lugar de destaque que Jesus tinha em todas as suas ações. Quem quer que visitasse o seu abrigo em Calcutá ficava surpreso ao ser levado, em primeiro lugar, à capela do Santíssimo. Jesus era "o Mestre da casa", como ela dizia, e era a Sua presença a grande motivação do seu trabalho. De fato, tanto na sua vida de oração quanto no seu apostolado de assistência aos mais necessitados, Teresa servia a uma só Pessoa: Jesus de Nazaré. "Na Missa – ela explicava –, nós temos Jesus sob a aparência do pão, enquanto, nas favelas, nós vemos o Cristo e O tocamos nos indigentes, nas crianças abandonadas."

As Missionárias da Caridade, portanto, não iam às ruas como agentes sociais e políticos, mas como servas indignas, chamadas a levar Jesus às casas e aos corações das pessoas. "Toda Santa Comunhão nos preenche de Jesus e nós devemos, com Nossa Senhora, ir depressa e dá-Lo aos outros", exclamava a beata Teresa.

Pouco a pouco, Cristo foi "tomando posse" da religiosa de Calcutá e transformando todo o seu ser, a ponto de ela poder exclamar, com São Paulo: "Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim" ( Gl 2, 20). Nesse processo de configuração a Cristo, Madre Teresa experimentou, a exemplo dos grandes místicos da Igreja, a chamada "noite escura", um processo de purificação por meio do qual a alma amante vai se desapegando das criaturas para encontrar o seu repouso em Deus.

Cartas escritas pela beata, divulgadas há alguns anos, fizeram referências a "dúvidas" e à sensação de um grande "vazio". Alguns jornais interpretaram tudo como o "ateísmo" de Madre Teresa. Quem conhece um pouco a vida dos santos, no entanto, sabe que esse caminho de "secura" e "escuridão" foi experimentado por todas as grandes almas de oração, desde o começo da Igreja até os dias de hoje. O Eclesiástico mesmo adverte, a quem quer que entre "para o serviço de Deus": "Prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus (...), a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça" (Eclo 2, 1-3). Fora da Cruz, verdadeiramente, não existe outra escada por onde subir ao Céu.

O corpo da bem-aventurada Madre Teresa está sepultado em Calcutá, junto à sede das Missionárias da Caridade. Sobre o seu túmulo branco despojado, está escrito um versículo do Evangelho de São João que se aplica perfeitamente a toda a sua vida – e deve aplicar-se à vida de todos quantos se dizem cristãos: "Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado" ( Jo 15, 12).

Com informações de Avvenire | Por Equipe CNP

| Categoria: Sociedade

A esperança de “Jogos Vorazes” pode salvar?

A mensagem central de Jogos Vorazes retoma o erro de uma antiga heresia cristã: o pelagianismo

A franquia Jogos Vorazes chegou ao fim com incríveis U$600 milhões em bilheteria. O último episódio da trilogia estrelada por Jennifer Lawrence, vencedora do Oscar de melhor atriz por O lado bom da vida, bateu concorrentes de peso, como 007 contra Spectre e a animação O bom dinossauro. Com esse resultado, a saga distópica de Suzanne Collins marcou sua estrela no rol de adaptações de livros para o cinema que deram certo, sobretudo entre o público jovem.

É impossível não lembrar de Harry Potter e Crepúsculo quando o assunto é adaptação de livros de ficção para o cinema. As duas histórias dizem respeito a um mundo de criaturas imaginárias, onde os adolescentes precisam lidar com dilemas próprios desse universo. Embora apresentem dramas do mundo real, pelos quais qualquer pessoa tem de passar, o elemento fantasioso assegura a separação sadia entre a realidade e a ficção. Neste quesito, aliás, talvez não haja melhor representante que O Senhor dos anéis. A criação de J.R.R. Tolkien acontece em um mundo anterior ao nosso, onde os homens convivem com magos, elfos, anões e orcs.

Jogos Vorazes é diferente. No mundo de Katniss Everdeen, a heroína da história, não há bruxos malvados, lobisomens românticos nem anéis preciosos pelos quais se deve lutar. Panem é o nosso mundo mesmo, mas em um contexto pós apocalíptico, em que a sociedade se vê subjugada por um poder tirânico. As pessoas estão divididas por distritos, os quais respondem aos ditames da Capital. Todos os anos, um jovem de cada distrito é escolhido para participar dos jogos vorazes, uma competição televisionada, criada pela Capital para demonstrar sua autoridade e coibir qualquer tentativa de rebelião. Os jovens precisam lutar até a morte.

Talvez seja isso mesmo o que torne a trilogia de Suzanne Collins tão aclamada entre a juventude, impulsionando outros títulos parecidos — como a série Divergente para o topo da lista dos filmes mais aguardados. O temor de um mundo distópico sempre foi um prato cheio para Hollywood. Exterminador do Futuro e Mad Max lotaram as salas de cinemas na década de 1980 justamente com esse enredo. O diferencial agora é que o público novo carece de referenciais para espelhar-se, o que abre um espaço cada vez maior para a idealização de líderes que lhe deem sentido para a vida. E como Jogos Vorazes sugere uma realidade aparentemente possível, fica fácil para o espectador ou leitor identificar-se.

Os valores de Jogos Vorazes

Em Jogos Vorazes, a protagonista Katniss Everdeen tem de lidar com uma das situações mais difíceis da vida: o sofrimento. Quando sua irmã mais nova é escolhida para participar dos jogos, Katniss oferece-se em seu lugar, revelando uma personalidade altruísta, ou seja, capaz de sacrificar-se pelos outros. Essa personalidade é apresentada durante toda a história, mormente nos momentos em que a jovem arqueira tem de fazer escolhas dramáticas, as quais envolvem as vidas dos que estão à sua volta.

O sofrimento é um dilema antigo para a humanidade. Em cada época, as correntes de pensamento e as religiões procuraram dar uma resposta para este mal. No mundo de hoje, é cada vez mais comum a ideia de que o sofrimento deve desaparecer por completo da história humana. Para isso, constroem-se inúmeros parques, centros comerciais e esportivos, a fim de satisfazer os sentidos e as paixões de cada pessoa. Essa falsa solução, porém, tem se revelado o principal problema da contemporaneidade, um gerador de sofrimentos ainda maiores, como guerras, individualismo e indiferentismo. Jogos Vorazes elucida isso muito bem na atitude da Capital com relação aos demais distritos.

O filme mostra também como a demagogia está presente em tantos programas políticos para um mundo melhor, além de traçar uma crítica mordaz à superexposição da mídia, nos chamados realities shows, nos quais os participantes são tratados como animais enjaulados, lutando para sobreviver.

O ponto negativo de Jogos Vorazes, como de quase todas as outras obras do gênero, é a exclusão da providência divina. Em toda a narrativa, não se ouve qualquer menção a Deus ou à sua ação silenciosa. Diferentemente de O Senhor dos Anéis no qual não há heróis, mas sujeitos que cooperam com o Bem —, na obra de Suzanne Collins, a esperança de salvação é posta totalmente na atividade de uma única pessoa, como se esta fosse alguém sobrehumano — ou, como diria Nietzsche, um Übermensch. Deste modo, Deus cede lugar para o homem, que é divinizado e colocado num pedestal. Trata-se, na verdade, de uma esperança materialista, um neopelagianismo, o qual se resume no estabelecimento de uma nova ordem política. Podemos fazer o mesmo tipo de crítica a Exterminador do Futuro, Mad Max como também para o mais recente Divergente. Todos ignoram a existência de um Criador, colocando o futuro da humanidade nas mãos dela mesma. E isso é preocupante.

O espectador de Jogos Vorazes é iludido com a aparência realista da narrativa, pelo que é levado a considerar a religião uma instituição do passado, pertencente a um modelo de sociedade fracassado. Ocorre que o realismo de Jogos Vorazes, Divergente, Exterminador do Futuro etc. é mais improvável que a ficção de O Senhor dos Anéis ou Hobbit. Isso porque, embora não haja magos, elfos e orcs no mundo real, é a mais profunda verdade que nenhum homem pode, por si mesmo, salvar a humanidade do caos se não contar com a ajuda de um Outro para além de nós, ao passo que Jogos Vorazes tem, como mensagem central, justamente a ideia contrária. O escritor G.K. Chesterton já havia notado essa ambiguidade na literatura moderna [1]:

" Os novos romances desaparecem tão rapidamente, ao passo que os velhos contos de fada duram para sempre. Os velhos contos de fada fazem do herói um ser humano normal; suas aventuras é que são surpreendentes. Elas o surpreendem porque ele é normal. Mas no romance psicológico moderno o herói é anormal; o centro não é central. Consequentemente, as mais loucas aventuras não conseguem afetá-lo de forma adequada, e o livro é monótono."

Não é exatamente o que percebemos em Jogos Vorazes? A heroína Katniss Everdeen permanece a mesma durante toda a saga, sem evolução, de modo que suas ações são totalmente previsíveis, mesmo para um espectador não acostumado com esse tipo de enredo. Em O Senhor dos anéis, por sua vez, o público é colocado diante de personagens que demonstram fraquezas, defeitos, que amadurecem ao longo da história, "fazendo e dizendo coisas totalmente inesperadas", como escreve Tolkien sobre Bilbo Bolseiro [2]. De fato, há mais humanidade nos pequenos hobbits do que na jovem arqueira.

O autêntico realismo

Certamente, a personagem Katniss Everdeen reúne virtudes que devem inspirar o agir moral de todos. Mas a mensagem central de Jogos Vorazes não pode ser levada a sério, justamente porque se trata de uma falsa esperança, a qual não diz respeito a nossa realidade. Todas as vezes que o homem colocou sua esperança na própria capacidade, o mundo experimentou a escuridão. O realismo está em perceber que, neste mundo, não somos os protagonistas da história; somos apenas cooperadores de um projeto cujo desenrolar supera nosso entendimento e força. Assim compreenderam os santos de todos os tempos, e, por isso, agiram como verdadeiros heróis, tornando possível a existência de um mundo melhor. Não confiaram em suas próprias habilidades, nos seus talentos. Eles se abandonaram com determinada determinação à providência divina, deixando-a agir por meio deles.

É nosso dever redescobrir a grande história dos santos, a fim de que seu exemplo ilumine os passos da humanidade, principalmente dos jovens, os quais carecem de modelos autênticos para a vivência das virtudes humanas e teologais. Os santos foram pessoas normais que viveram histórias fantásticas. De fato, "são os santos que mudam o mundo para melhor, que o transformam de forma duradoura, infundindo as energias que unicamente o amor inspirado pelo Evangelho pode suscitar. Os Santos são os grandes benfeitores da humanidade!" [3].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. CHESTERTON, Gilbert Keith. Ortodoxia (Trad. de Almiro Pisetta). São Paulo: Mundo Cristão, 2007, p. 16.
  2. TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. 5ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012, p. 2.
  3. Bento XVI, Audiência Geral (15 de setembro de 2010).

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Mensagem de Natal: Quanto Te custou haver-me amado!

Meditando a letra do belo cântico “Tu scendi dalle stelle”, determinemo-nos a pagar o preço do amor. Se tanto custou a Deus amar-nos, como queremos que isso não nos custe nada?

O mistério do Natal só pode ser entendido se se compreende o mistério da misericórdia divina. A Segunda Pessoa divina da Santíssima Trindade, o próprio Verbo de Deus tomou uma carne. Para elevar a humanidade miserável e pecadora à participação na Sua própria vida, na Sua bem-aventurança eterna, Ele Se fez homem.

Diante de um amor tão grande, que faz o Criador de tudo o que existe transpor o abismo infinito e tomar as vestes de Sua criatura, a única resposta adequada do homem é a gratidão. A quem foi alvo de tão grande misericórdia, só lhe resta transformar a sua vida e corresponder generosamente ao amor com que foi amado.

"Ó Deus bem-aventurado, quanto Te custou haver-me amado!" É o que canta a Igreja neste Natal do Senhor, pegando emprestadas as palavras de Santo Afonso de Ligório, em seu famoso poema Tu scendi dalle stelle ("Tu desces das estrelas"). Meditando a letra desta bela cantiga natalina, determinemo-nos também nós a pagar o preço do amor. Se tanto custou a Deus amar-nos, como queremos que isso não nos custe nada?

Tu scendi dalle stelle
(Tu desces das estrelas"),
de Santo Afonso Maria de Ligório

Tu scendi dalle stelle, o Re del cielo,
e vieni in una grotta al freddo e al gelo.
O Bambino mio divino, io ti vedo qui a tremar;
o Dio beato! Ah, quanto ti costò l'avermi amato!

A te, che sei del mondo il Creatore,
mancano panni e fuoco, o mio Signore.
Caro eletto pargoletto, quanto questa povertà
più m'innamora, giacché ti fece amor povero ancora.

Tu lasci il bel gioir del divin seno,
per giunger a penar su questo fieno.
Dolce amore del mio core, dove amore ti trasportò?
O Gesù mio, perché tanto patir? Per amor mio!

Ma se fu tuo voler il tuo patire,
perché vuoi pianger poi, perché vagire?
Mio Gesù, t'intendo sì! Ah, mio Signore!
Tu piangi non per duol, ma per amore.

Tu piangi per vederti da me ingrato
dopo sì grande amor, sì poco amato!
O diletto - del mio petto,
se già un tempo fu così, or te sol bramo
Caro non pianger più, ch'io t'amo e t'amo

Tu dormi, Ninno mio, ma intanto il core
non dorme, no ma veglia a tutte l'ore
Deh, mio bello e puro Agnello
a che pensi? dimmi tu. O amore immenso,
un dì morir per te, rispondi, io penso.

Dunque a morire per me, tu pensi, o Dio
ed altro, fuor di te, amar poss'io?
O Maria, speranza mia,
se poc'amo il tuo Gesù, non ti sdegnare
amalo tu per me, s'io non so amare!

Tu desces das estrelas, ó Rei do céu
E vens a uma gruta no frio e no gelo.
Ó Menino meu divino, eu Te vejo aqui a tremer;
Ó Deus beato, quanto Te custou haver-me amado!

A Ti, que és do mundo o Criador,
Faltam agasalhos e fogo, ó meu Senhor.
Querida e eleita criança, esta Tua pobreza me apaixona
Pois foi o amor que Te fez pobre novamente.

Tu deixas as delícias da intimidade divina
Para vir a sofrer sobre essa palha.
Doce amor do meu coração, aonde Te levou o amor?
Ó meu Jesus, por que tanto sofrer? Por meu amor!

Mas se sofres por Tua própria vontade,
por que então este choro, por que estes gemidos?
Meu Jesus, eu Te entendo sim! Ah, meu Senhor!
Tu choras não de dor, mas de amor!

Tu choras ao ver a minha ingratidão,
Um amor tão grande e tão pouco amado!
Ó amado do meu coração,
se fui assim outrora, hoje somente por Ti eu anseio
Querido, não chores mais, pois eu Te amo, Te amo.

Enquanto dormes, meu Menino, o coração
não dorme, não, mas vigia a todo momento
Vai, meu querido e puro Cordeiro,
Em que pensas? Dize-me Tu. Ó amor imenso,
um dia em morrer por ti, respondes, é o que eu penso.

Então, pensas em morrer por mim, ó Deus
Que mais posso eu amar fora de Ti?
Ó Maria, esperança minha,
se pouco eu amo o teu Jesus, não te indignes
de amá-Lo tu por mim, se eu não O sei amar!

Um feliz e santo Natal!

Por Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior

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Política do filho único é “abolida”, mas mulheres continuarão sendo abortadas na China

A China anunciou, em outubro deste ano, que vai acabar com a “política do filho único”. Saiba o que isso significa na prática e entenda por que ainda não há nada que comemorar.

As fotos chocantes da chinesa Feng Jianmei, deitada ao lado de seu bebê morto, rodaram o mundo em 2012. Assim como tantas outras mães de família, ela foi forçada a abortar por causa da "política do filho único". A repercussão do seu caso levou o Partido Comunista a "relaxar" a medida em 2013. Não adiantou nada.

O governo comunista da China anunciou, em outubro deste ano, que estava dando fim à conhecida "política do filho único", que já leva os seus 35 anos. A medida restringia famílias urbanas a ter apenas um filho e casais da zona rural a não mais do que dois. Essa não é a primeira vez que as manchetes proclamam o fim dessa política abusiva. Enquanto isso, os fatos seguem a direção contrária: as violações dos direitos humanos por parte do regime parecem longe de chegar a um término.

Sob as novas medidas, o governo chinês afirma que concederá a todos os casais que vivem na cidade a permissão para ter um segundo filho. Assim como aconteceu após a revisão de 2013 da mesma medida – que permitiu o privilégio de ter outro filho, caso ao menos um dos pais fosse filho único –, os casais terão que passar por vários procedimentos a fim de conseguir uma permissão do Estado. Além disso, as famílias ainda terão que enfrentar restrições de diversos tipos, relacionadas à "idade certa" para a paternidade, à procedência étnica e ao lugar em que vivem.

"A primeira coisa que a maioria dos casais faz quando descobre uma gravidez é agendar uma consulta com um obstetra, para começar a assistência pré-natal para a mãe e para o bebê. Na China, porém – explica a jornalista Sophia Lin –, a primeira coisa que a maioria dos casais faz é inscrever-se para conseguir uma 'permissão de nascimento' do governo (agora conhecida como 'certificado do serviço de planejamento familiar'), a fim de que o bebê possa nascer legalmente."

O processo para obter o "certificado" é árduo. Os casais devem conseguir selos de aprovação de uma varidade de pessoas, incluindo seus próprios supervisores de trabalho. Vizinhos e funcionários de empresas são motivados a denunciar quaisquer famílias que tenham um número de filhos superior ao permitido, e incentivos como abonos salariais são suspensos se alguém dentro de uma companhia é descoberto violando a política governamental. Casais que infringem a medida correm o risco de serem multados, perderem o emprego ou serem vítimas de aborto e esterilização forçados.

Nada disso terá fim com a última adaptação da medida.

O ativista de direitos humanos Chen Guangcheng escreveu em seu Twitter que "não há nada por que se alegrar": "Antes, o Partido Comunista matava qualquer filho que viesse depois do primeiro; agora, matarão qualquer um que venha depois do segundo."

"A mudança não é suficiente", disse Matthew Li, fundador da organização China Life Alliance. "Casais que têm dois filhos ainda estarão sujeitos a meios coercivos e intrusivos de contracepção, bem como a abortos forçados, que equivalem a tortura. (...) Hoje haverá centenas de mulheres chorando na China, por serem obrigadas a abortar contra a própria vontade. Mesmo depois que a política do filho único mudar para a anunciada 'política dos dois filhos', ainda haverá centenas de mulheres chorando todos os dias."

Outra organização que trabalha para acabar com o aborto forçado na China é a Women's Rights without Frontiers. Também para ela, não há nenhuma garantia de que o Partido Comunista Chinês acabe com os "terríveis métodos de execução" de sua política de controle populacional. Em uma nota, a organização afirmou que, "independentemente do número de filhos permitido, mulheres que ficarem grávidas sem permissão ainda serão arrastadas de suas casas, amarradas a mesas de operação e forçadas a abortar bebês".

De fato, até o momento presente, os abortos forçados continuam acontecendo no país. O governo chinês insiste que a nova medida ainda não está em vigor e não terá importância alguma, enquanto o Legislativo não ratificar a nova "política dos dois filhos", em março de 2016.

O verdadeiro problema da política do filho único não é que os casais chineses sejam impedidos de ter outro filho, mas simplesmente que eles sejam impedidos de ter quantos filhos quiserem. "Forçar as famílias ao limite de dois filhos continua sendo uma terrível violação dos direitos humanos e usar métodos como a esterilização e o aborto para assegurar o cumprimento dessa medida é ainda mais horrível e apavorante. "Não se deve dizer a nenhuma pessoa quantos filhos ela deve ter", afirmou Matthew Li, que pede que a China acabe de vez com todas as políticas de planejamento familiar.

Além das horríveis e comuns ocorrências de aborto forçado, esterilização e contracepção, a política comunista do filho único tem levado a consequências ainda mais trágicas, dentre as quais se sobressai o genocídio de milhões de mulheres. A desproporção entre os sexos é tão grande que, em algumas áreas do país, há apenas 100 mulheres para 190 rapazes. Estima-se que 37 milhões de homens chineses estão sem moças com que se casarem. Essa tragédia também tem levado a um aumento no tráfico e na exploração sexual na China, bem como nos países vizinhos. A nova "política dos dois filhos" não fará nada para reverter esse quadro, já que vários casais continuarão abortando bebês do sexo feminino até que engravidem de um menino.

Apesar do drama terrível que vive o povo da China, o governo não fez menção alguma aos direitos humanos como razão para implementar as mudanças na política de controle populacional. As suas preocupações manifestas são de ordem puramente econômica: conter a iminente escassez de trabalho e lidar com o crescente número de idosos no país.

Trata-se de apenas mais um motivo para desconfiar da nova medida do Partido Comunista Chinês. A organização China Life Alliance chega a pôr em dúvida que a "política dos dois filhos" vá realmente ser aplicada. "Na China, nós hesitamos em acreditar nas mudanças que são anunciadas, até que descubramos maiores detalhes", explica Matthew Li. "Não sabemos ao certo quando essa política terá pleno efeito. O que sabemos é que nosso site está bloqueado na China e uma de nossas funcionárias grávida está em fuga, na tentativa de se esconder das autoridades que procuram forçar o aborto de seu filho."

Fonte: Live Action News | Tradução e adaptação: Equipe CNP

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Os Herodes de hoje e o “Natal sem Cristo”

Por que o menino Jesus que nasce na manjedoura de Belém é uma ameaça tão grande aos poderes deste mundo.

Quando os magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém perguntando por um tal "rei dos judeus", Herodes ficou alarmado (cf. Mt 2, 3). O nascimento de um outro rei era um claro sinal de ameaça à sua soberania. Ele, porém, não se limitando a preocupar-se, queria saber onde estava o menino que acabara de nascer (cf. Mt 2, 8): não porque quisesse adorá-lo, como queriam os magos, mas por desejo de matá-lo. (O cruel martírio dos Santos Inocentes que o diga.)

Ainda hoje, diante de Cristo que Se apresenta como Rei do Universo, os poderes deste mundo esboçam a mesma reação. Primeiro, sentem-se ameaçados: diante de uma autoridade que os sobrepuja, eles se incomodam, pois sabem que isso significa um limite ao seu poder. Se Deus existe, nem tudo é permitido. Depois, passado o primeiro choque, eles precisam tomar uma decisão: ou procuram a estrela de Belém para prostrar-se diante do menino Jesus, ou saem à caça de Deus para (tentar) usurpar o Seu trono. No fundo, o que lhes ressoa aos ouvidos é a velha tentação que seduziu os nossos primeiros pais: "Sereis como deuses" (Gn 3, 5).

Deste episódio do Evangelho, no entanto, uma leitura psicológica talvez indique com mais propriedade o porquê de vivermos em um mundo tão secularizado e afastado de Deus. Na verdade, Cristo não reina apenas sobre o cosmos, mas quer ser "rex et centrum omnium cordium – rei e centro de todos os corações". O rei Herodes ameaçado não são apenas os Stálines, os Hitleres e os Estados Islâmicos deste mundo; cada ser humano em particular pode se sentir incomodado pela soberania divina ou até sair em uma louca perseguição contra o menino Jesus – como fazem os chamados "ateus militantes", que, mesmo não acreditando em Deus, só sabem falar n'Ele o dia inteiro.

Sob essa perspectiva – a da alma –, todo o cenário muda e ninguém está isento de uma analogia com o sanguinário Herodes.

É que o grande mal deste mundo – que dá origem a todas as perseguições, ditaduras e massacres – chama-se "pecado". Não adianta fugir ou disfarçar, dizendo que o inimigo está fora ou que "o inferno são os outros". A verdade é que "todos pecaram e estão privados da glória de Deus" (Rm 3, 23). Sem a vida da graça, que nos é dada por Cristo, através do batismo e do perdão dos pecados, a humanidade está toda no mesmo nível.

É inútil recorrer a qualquer divisão humana – burgueses e proletários, direita e esquerda, ricos e pobres, liberais e socialistas – para explicar o problema da maldade. O mundo se divide verdadeiramente em "cidade de Deus" (civitas Dei) e "cidade dos homens" (civitas hominum): em quem está na graça de Deus e em quem está vivendo no pecado mortal. No fim das contas, os justos ganharão a vida eterna – o Céu; e os maus, o opróbrio eterno – o inferno. Tudo o mais não passa de ilusão, ideologia e engano. A quem se gaba de ser mais que os outros confiando em qualquer coisa que não seja a graça divina, Nosso Senhor dá o seu alerta: "Se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo" (Lc 13, 3).

Quem olha para personagens bíblicas perversas, como o endurecido faraó, o rei Nabucodonosor ou os carrascos que crucificaram Jesus, é tentado a tomar a atitude daquele fariseu do Evangelho que, batendo no peito, agradecia por não ser tão pecador quanto o resto dos homens (cf. Lc 18, 9-14). O Catecismo da Igreja Católica, porém, é bem claro ao dizer que "todos os pecadores foram os autores da Paixão de Cristo" (§ 598).

Basta que nos examinemos atentamente, sem máscaras ou tentativas de desculpar-nos, e enxergaremos dentro de nós um Herodes totalitário, "preocupado" com os seus direitos, cioso de sua posição, sempre agitado interiormente por não querer "dar a Deus o que é de Deus". É como reagem também muitas pessoas que, tendo abandonado os pecados mais grosseiros, ainda teimam em adiar a sua "segunda conversão": não se dedicam à vida de oração, nem ao cumprimento dos próprios deveres de estado, e negligenciam a luta contra a maledicência e alguns "pecados de estimação", que vão – sem que se deem conta – entravando o caminho de seu progresso espiritual.

Alguém pode objetar que há muitas guerras e violências acontecendo no mundo para que fiquemos nos preocupando com os nossos próprios defeitos – aparentemente tão insignificantes. Veja-se, por exemplo, como alguns lugares do mundo estão deixando de celebrar o Natal. Países mais secularizados, principalmente na Europa, já vivem uma "guerra aberta" à festa da natividade de Cristo. Presépios, árvores natalinas ou quaisquer referências ao menino Jesus são prontamente banidas pelas autoridades públicas; a típica saudação Merry Christmas vai se convertendo em Happy Holidays – assim como, no Brasil, o bom e velho Feliz Natal vai facilmente degenerando em um vago e laico Boas Festas. Até aquilo que era essencialmente religioso vai, pouco a pouco, sendo profanado e destruído por um "fato inteiramente novo e desconcertante": a existência de um "ateísmo militante, operando em plano mundial" [3].

O que acontece publicamente, porém, é apenas o sinal externo de uma tragédia que já acontece dia após dia nos corações humanos. Antes de Herodes ordenar a morte de "todos os meninos de Belém", "de dois anos para baixo" (Mt 2, 16), ele já havia matado Deus em seu coração. "Não poderá haver paz no mundo se não houver paz na alma", pregava o venerável servo de Deus, Fulton Sheen. "As guerras mundiais não passam de projeções dos conflitos travados dentro das almas dos homens modernos, pois nada acontece no mundo exterior que não tenha primeiro acontecido dentro de uma alma" [2].

Por isso, para resgatar a beleza do Natal – e trazer a fé de volta ao mundo –, não bastam os presépios; não basta que o menino Jesus seja simplesmente disposto em uma manjedoura. É preciso que Ele encontre abrigo em nossas almas. Caso contrário, ano após ano, o Natal continuará sendo uma simples "festa de fim de ano", o "feriado" pagão de quem exteriormente está feliz, mas interiormente está a viver o prelúdio do inferno, porque afastado da amizade de Deus.

"Se as almas não forem salvas, nada se salvará", dizia Fulton Sheen [2]. "Dai-me almas e ficai com o resto", repetia São João Bosco. Caia o mundo, venham abaixo os céus, entre tudo em extinção, mas que se salvem as almas! Porque é delas que tem sede Nosso Senhor; e são elas que povoarão, por toda a eternidade, o Reino dos céus!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Admonitiones, 5 (FF, 154).
  2. Papa São João XXIII, Constituição Apostólica Humanae Salutis (25 de dezembro de 1961), n. 3.
  3. SHEEN, Fulton. A Paz da Alma (Trad. de Oscar Mendes). São Paulo: Editora Molokai, 2015, p. 7.
  4. Idem.

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A inspiração de Fulton Sheen

Perguntado certa vez sobre o que motivava o seu apostolado, o bispo Fulton Sheen deu uma resposta surpreendente.

Poucos homens da história recente da Igreja exerceram tamanha influência espiritual sobre as almas quanto o bispo norte-americano Fulton Sheen. Autor de inúmeros livros e pioneiro na evangelização pela TV, as suas aulas e pregações mudaram a vida de milhões de pessoas em todo o mundo.

O que fez esse homem de Deus tão especial, além de seu intelecto afiado e de sua profunda humildade, foi a oração. Ele geralmente dizia que o segredo para o seu grande sucesso em ganhar almas para Cristo era que, todos os dias de sua vida, ele separava uma hora de adoração diante do Santíssimo Sacramento – a "Hora Santa".

Fulton Sheen chamava esse momento que tinha com Deus de "hora do poder" e o propósito de todas as suas conversas era sempre inspirar a todos, padres e leigos, a fazer uma Hora Santa diária diante de Jesus Sacramentado. Ele citava Jesus no Evangelho, dizendo que quem quer que permanecesse em uma hora de união com Ele, presente no Santíssimo Sacramento, "daria muito fruto" ( Jo 15, 5).

Ele mesmo experimentou esses frutos em sua vida apostólica. Quando pregava, todos o escutavam, mesmo quem não era católico. Sua mensagem era ao mesmo tempo cativante e transcendente.

Alguns meses antes de sua morte, ele foi entrevistado em cadeia nacional de televisão. Uma das questões que lhe fizeram foi:

"Vossa Excelência tem inspirado milhões de pessoas em todo o mundo. E o senhor? Quem o inspirou? Foi talvez um Papa?"

Surpreendemente, Fulton Sheen respondeu que quem o tinha inspirado não foi nem um Papa, nem um cardeal, nem outro bispo, nem mesmo um padre ou uma religiosa, mas uma garotinha chinesa, de nove anos de idade.

Ele explicou que, quando os comunistas tomaram o controle da China, um sacerdote foi encarcerado em sua própria casa paroquial, próxima à igreja.

Trancado, o padre se horrorizou ao olhar para o lado de fora da janela e ver os comunistas se aproximando da igreja, entrando no santuário e violando o sacrário. Em um ato de abominável profanação, eles pegaram o cibório e lançaram-no ao chão, espalhando no chão todas as Hóstias Consagradas que estavam dentro. O padre sabia exatamente quantas espécies havia no cibório: trinta e duas.

Quando os comunistas saíram, eles não perceberam (ou não prestaram atenção) que uma menininha rezava na parte de trás do templo, depois de ter presenciado tudo.

Naquela mesma noite, ela voltou. Sem que os guardas na casa paroquial a notassem, ela entrou na igreja. Ali, fez uma hora santa de oração e um ato de amor em reparação por aquele sacrilégio. Depois, entrou no santuário, ajoelhou-se, inclinou a cabeça e, com a língua, recebeu Jesus na Sagrada Comunhão. Não era permitido aos leigos, à época, tocar a Hóstia Consagrada com as mãos.

A garotinha continuou voltando todas as noites para fazer sua hora santa e receber Jesus na Sagrada Comunhão, diretamente na língua. Na trigésima segunda noite, depois de consumir a última hóstia, ela acidentalmente fez um barulho e acordou o guarda que estava dormindo. Ele correu atrás dela, capturou-a e bateu nela até a morte com a coronha do seu rifle.

Esse ato heroico de martírio foi presenciado pelo sacerdote, que assistiu a tudo, aflito, da janela de seu quarto.

Quando Sheen ouviu essa história, ele ficou tão impressionado que prometeu a Deus fazer uma hora santa de oração diante de Jesus no Santíssimo Sacramento todos os dias de sua vida. Se aquela pequena criança chinesa tinha arriscado a sua vida para expressar o seu amor por Jesus Eucarístico, com uma hora santa e uma Comunhão, então, o bispo pensou que aquilo era o mínimo que ele poderia fazer. Se aquela frágil menina tinha dado um testemunho tão maravilhoso da presença real de nosso Salvador no Santíssimo Sacramento, o bispo sentiu-se praticamente obrigado a imitá-la.


Se você não sabe quem é Fulton Sheen, assista à seguinte pregação deste bispo e evangelizador norte-americano sobre o significado da Santa Missa:


A partir de então, Fulton Sheen começou a falar publicamente sobre o amor de Deus no Santíssimo Sacramento. Seu único desejo era trazer o mundo ao Coração ardente de Jesus no sacramento da Eucaristia. A garotinha havia lhe mostrado o que realmente significavam zelo e coragem, como a fé podia superar todo medo, como o verdadeiro amor por Jesus Eucarístico deve transcender a própria vida.

O que aquela mártir anônima fez é uma versão moderna do que fez a bem-aventurada Virgem Maria, quando permaneceu com o seu amado Filho aos pés da Cruz. Ficar com Jesus no Santíssimo Sacramento hoje é o mesmo que permanecer com Ele diante da Cruz. No Calvário, Ele foi abandonado, até por Seus amigos, os Seus próprios discípulos fugiram de medo. Só a Sua mãe, o discípulo amado e Maria Madalena testemunharam a sua fé e o seu amor.

Hoje, Nossa Senhora está chamando todos os seus filhos que lhe são consagrados ao mesmo testemunho de fé e de fervorosa caridade. O seu desejo é que todos venham adorar o seu Filho, presente no Santíssimo Sacramento do altar.

A Beata Madre Teresa de Calcutá dizia que a adoração perpétua é o que vai renovar a Igreja e salvar o mundo. Quando fazemos aqui o que é feito no Céu, adorando a Deus perpetuamente, então acontecem novos céus e nova terra (cf. Ap 21, 1). Jesus foi zombado e crucificado por dizer que era Rei. Quando sua Esposa, a Igreja, finalmente proclama Seu reinado e presta-Lhe a honra que Ele merece por meio da adoração perpétua, então Ele vem e estabelece o Seu Reino no mundo.

O homem está para além de uma solução humana. O que ele precisa é de uma intervenção divina. Abram-se, pois, os nossos olhos e dobrem-se os nossos joelhos diante de tão grande mistério: Deus, que desce todos os dias aos altares, no Santíssimo Sacramento; Deus, que se faz "prisioneiro de nosso amor", em todos os sacrários do mundo inteiro; Deus, que quer Se doar às nossas almas, na Sagrada Comunhão.

Não resistamos mais ao Seu amor! "Vinde, adoremos", depressa, o Tão Sublime Sacramento!

Adaptado de The Cardinal Kung Foundation | Por Equipe CNP

| Categoria: Papa Francisco

Rezemos pelo Santo Padre

No aniversário natalício do Papa Francisco, rezemos por Sua Santidade, para que “o Senhor o conserve, lhe dê vida e o torne feliz na terra, e não o entregue em poder dos seus inimigos”.

Hoje, 17 de dezembro de 2015, o Papa Francisco celebra o seu 79.º aniversário natalício.

Aproveitemos esta data para fortalecer o nosso amor à Igreja, edificada na fé e na pessoa do Apóstolo São Pedro, de quem Francisco é sucessor. Agradeçamos a Deus pela pertença ao Corpo Místico de Cristo, a esse nobre edifício espiritual contra o qual "as portas do inferno não prevalecerão" (Mt 16, 18).

Como disse o próprio Santo Padre, durante a Solenidade de São Pedro e São Paulo deste ano, "passaram reinos, povos, culturas, nações, ideologias, potências, mas a Igreja, fundada sobre Cristo, não obstante as inúmeras tempestades e os nossos muitos pecados, permanece fiel ao depósito da fé no serviço, porque a Igreja não é dos Papas, dos Bispos, dos padres e nem mesmo dos fiéis; é só e unicamente de Cristo".

Cresça sempre mais em nós a consciência do primado de Jesus na vida da Igreja e na nossa própria vida, até o ponto de podermos repetir, com São Paulo: "Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim" (Gl 2, 20).

O Papa Francisco sempre termina os seus discursos pedindo às pessoas que rezem por ele. Atendamos ao seu apelo e ofereçamos a Deus as nossas orações por ele e por seu ministério. Que a Virgem Santíssima o abençoe com a saúde da alma e do corpo!

V. Oremos pelo nosso Beatíssimo Papa Francisco.

R. O Senhor o conserve, lhe dê vida e o torne feliz na terra, e não o entregue em poder dos seus inimigos.

Ó Deus, que na vossa Providência quisestes edificar a vossa Igreja sobre São Pedro, chefe dos Apóstolos, fazei que o nosso Papa Francisco, que constituístes sucessor de Pedro, seja para o vosso povo o princípio e o fundamento visível da unidade da fé e da comunhão na caridade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.