| Categoria: Espiritualidade

Ato de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus

Em 1928, o Papa Pio XI entregou uma oração urgente a toda a Igreja: o ato de reparação ao Sagrado Coração de Jesus. Aprenda a rezá-lo e conheça a teologia por trás dessa importante prática de piedade.

Neste ano de 2017, as duas mais importantes nações lusófonas do mundo experimentam o privilégio de um Jubileu Mariano: em Portugal, por um lado, celebra-se o primeiro centenário das aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos de Fátima; no Brasil, por outro, comemoram-se os 300 anos do encontro, nas águas do Rio Paraíba, da imagem milagrosa da Virgem de Aparecida.

Dentre as várias formas pelas quais o site do Padre Paulo Ricardo deseja ajudar seus alunos e visitantes a viverem bem esse tempo de graça, destaca-se a prática dos "primeiros sábados do mês", uma devoção ensinada por Nossa Senhora à Irmã Lúcia cuja finalidade é reparar os pecados cometidos contra o seu Imaculado Coração. Para entender mais exatamente em que consiste esse piedoso exercício, vale a pena conferir a "A Resposta Católica" que temos a este respeito.

Mas os cristãos, particularmente os de nossa época, podem ser levados a perguntar: o que significa, afinal de contas, esta palavra — "reparação"?

Tão ausente de nossas homilias, meditações e orações quanto as verdades do pecado e do inferno, as palavras "reparação", "satisfação" e "desagravo", todas elas sinônimas, foram relegadas por muitos teólogos como "peças de museu", pertencentes a uma doutrina arqueológica, da qual o homem moderno deveria desfazer-se de uma vez por todas, já que não serviria mais, dizem eles, às necessidades "práticas" do mundo atual.

A verdade, porém, é que "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre" (Hb 13, 8). Se os primeiros cristãos completavam na sua carne o que faltava à paixão de Cristo, conforme o testemunho da própria Escritura (cf. Cl 1, 24), quem somos nós para agir de outra forma ou ainda sugerir o contrário? Afirmar levianamente que o Evangelho poderia mudar com os tempos, ou que parte dele se tornou "ultrapassada", é indício, na verdade, de uma grande petulância, quando não de uma tremenda falta de fé. Ora, se Jesus de Nazaré é verdadeiramente Deus e homem — como sempre acreditou a Igreja —, se Ele é, de fato, "a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai", como diz o Catecismo (§ 65), como poderia a sua revelação ser considerada insuficiente, incompleta ou adaptável? Estariam por acaso "fora de moda" os ensinamentos do próprio Deus? Será que somos tão soberbos a ponto de pretendermos corrigir o que Ele mesmo e os seus Apóstolos não só pregaram como viveram?

Se ainda resta, portanto, um pouquinho de fé que seja na cabeça de nossos contemporâneos, para confirmar o dever que temos de reparar as ofensas cometidas por nós mesmos contra Deus, nada melhor do que recordar o ensinamento sólido do Magistério da Igreja sobre esse assunto.

A seguir, você encontra alguns trechos preciosos da encíclica Miserentissimus Redemptor [1], com a qual o Papa Pio XI deu à Igreja universal a belíssima oração do "Ato de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus" (que também se encontra logo abaixo). Neste documento, o Santo Padre responde, com a Tradição e as Sagradas Escrituras, aos principais obstáculos que geralmente são colocados à prática da reparação, ajudando nossa inteligência a compreender a teologia por trás dessa sadia devoção popular.

Ora, ainda que a copiosa Redenção de Cristo abundantemente nos tenha "perdoado todos os nossos pecados" (cf. Col 2, 13), em virtude daquela admirável disposição da divina Sabedoria, pela qual se deve completar em nossa carne o que falta às tribulações de Cristo por seu Corpo, que é a Igreja (cf. Col 1, 24), aos louvores e satisfações que Cristo, em nome dos pecadores, ofereceu a Deus, não só podemos como, ainda mais, devemos acrescentar também os nossos próprios louvores e satisfações.

[...] Mas como podem estes atos expiatórios consolar a Cristo, que reina ditosamente nos céus? "Dá-me um coração que ame e entenderás o que digo", respondemos com estas palavras de Santo Agostinho, tão convenientes a este ponto.

Com efeito, quem ama verdadeiramente a Deus, se considera os fatos passados, vê e contempla a Cristo trabalhando em favor do homem, sofrendo, suportando as mais duras penas, quase desfeito sob o peso da tristeza, de angústias e opróbrios "por nós homens e para a nossa salvação", "esmagado por nossas iniquidades" ( Is 53, 5) e curando-nos com suas chagas. Ora, quanto mais profundamente penetram as almas piedosas estes mistérios, mais claro veem que os pecados e crimes dos homens, em qualquer tempo perpetrados, foram a causa de que o Filho de Deus se entregasse à morte; e ainda agora esta mesma morte, com suas mesmas dores e tristezas, de novo Lhe é infligida, já que cada pecado renova a seu modo a Paixão do Senhor: "Novamente crucificam o Filho de Deus e O expõe a vilipêndios" (Hb 6, 6). E se por causa também dos nossos pecados futuros, por Ele previstos, a alma de Cristo padeceu aquela tristeza de morte, não há dúvida de que algum consolo Cristo recebeu também de nossa futura, mas também prevista, reparação, quando "o anjo do céu Lhe apareceu" (Lc 22, 43) para consolar seu Coração oprimido de tristeza e angústias. Por isso, podemos e devemos consolar aquele Coração Sacratíssimo, incessantemente ofendido pelos pecados e pelas ingratidões dos homens, por este modo admirável, mas verdadeiro, pois, como se diz na Sagrada Liturgia, o mesmo Cristo, pelos lábios do salmista, se queixa a seus amigos de ter sido abandonado: "Impropério e miséria esperou meu coração: e busquei quem compartilhasse da minha tristeza e não houve ninguém; busquei quem me consolasse e não encontrei" (Sl 69, 21).

Acrescenta-se que a Paixão expiatória de Cristo se renova e, de certo modo, continua e se completa em seu Corpo Místico, que é a Igreja, já que, servindo-nos outra vez das palavras de Santo Agostinho ( In Ps., 86), "Cristo padeceu quanto devia padecer, e nada falta à medida de sua Paixão. A Paixão, pois, está completa, mas na Cabeça; faltava ainda a Paixão de Cristo no Corpo". Nosso Senhor mesmo se dignou declará-lo quando, ao aparecer a Saulo, "que respirava ameaças e morte contra o discípulos" (At 9, 1), lhe disse: "Eu sou Jesus, a quem persegues" (At 9, 5), significando claramente que nas perseguições contra a Igreja é a Cabeça divina da Igreja a quem se atinge e impugna. E isso com razão, porque Jesus Cristo, que ainda padece em seu Corpo Místico, deseja ter-nos por sócios na expiação, e isto no-lo exige nossa própria incorporação a Ele: pois sendo como somos "corpo de Cristo e cada um, de sua parte, é um dos seus membros" (1Cor 12, 27), é necessário que o que padece a Cabeça, padeçam-no com Ela os seus membros (cf. 1Cor 12, 26).

Quão necessárias sejam, especialmente em nossos tempos, a expiação e a reparação, é coisa clara a quem olhe e contemple este mundo que, como dissemos no início, "está sob poder do mal" ( 1Jo 5, 19). De todas as partes chega a Nós o clamor de povos que gemem, cujos príncipes ou governantes se congregaram e conspiraram juntos contra o Senhor e sua Igreja (cf. Sl 2,2). Por essas regiões vemos atropelados todos os direitos divinos e humanos; demolidos e destruídos os templos, os religiosos e as religiosas expulsos de suas casas, afligidos com ultrajes, tormentos, cárceres e fome; multidões de meninos e meninas arrancadas do seio da Madre Igreja e induzidos a renunciar e blasfemar contra Jesus Cristo e a cometer também os mais horrendos crimes da luxúria; todo o povo cristão duramente ameaçado e oprimido, colocado a todo instante em ocasião de, ou apostatar da fé, ou padecer uma terrível morte. Tudo isso é tão triste que nestes acontecimentos parece prenunciar-se "o princípio daquelas dores" que precederiam "o homem de pecado que se levanta contra tudo o que se chama Deus ou é cultuado" (2Ts 2, 4).

E ainda é mais triste, veneráveis irmãos, que entre os próprios fiéis, lavados no Batismo com o sangue do Cordeiro Imaculado e enriquecidos com a graça, haja tantos homens de toda classe que, com inacreditável ignorância das coisas divinas e envenenados de falsas doutrinas, vivem longe da casa do Pai uma vida repleta de vícios; uma vida, pois, não iluminada pela luz da verdadeira fé, nem reconfortada pela esperança da felicidade futura, nem aquecida e fomentada pelo calor da caridade, de modo que eles parecem verdadeiramente jazer na escuridão e na sombra da morte. Ademais, aumenta cada vez mais entre os fiéis a negligência da disciplina eclesiástica e daquelas antigas instituições em que toda a vida cristã se funda e pela qual a sociedade doméstica é governada e se defende a santidade do matrimônio; totalmente menosprezada ou depravada com lisonjas de bajulação a educação das crianças, até mesmo negado à Igreja o poder de educar a juventude cristã; o esquecimento deplorável da modéstia cristã na vida e principalmente no vestido da mulher; a cobiça desenfreada das coisas perecíveis, o desejo desproporcional das honrarias mundanas; a difamação da autoridade legítima e, finalmente, o desprezo da palavra de Deus, de maneira que a fé é destruída ou é posta à beira da ruína.

Formam o cúmulo destes males tanto a preguiça e a negligência dos que, dormindo ou fugindo como os discípulos, vacilantes na fé, miseravelmente desamparam a Cristo oprimido de angústias e rodeado dos sequazes de Satanás, quanto a deslealdade dos que, à imitação do traidor Judas, ou temerária e sacrilegamente comungam, ou desertam para os acampamentos inimigos. Deste modo, inevitavelmente se nos apresenta ao espírito a ideia de que se aproximam os tempos preditos por Nosso Senhor: "E, ante o progresso crescente da iniquidade, a caridade de muitos se esfriará" ( Mt 2, 24). [...]

Ato de Reparação ao Sacratíssimo Coração de Jesus

Dulcíssimo Jesus, cuja infinita caridade para com os homens é por eles tão ingratamente correspondida com esquecimentos, friezas e desprezos, eis-nos aqui prostrados na Vossa presença, para Vos desagravarmos, com especiais homenagens, da insensibilidade tão insensata e das nefandas injúrias com que é de toda parte alvejado o Vosso amorosíssimo coração.

Reconhecendo, porém, com a mais profunda dor, que também nós mais de uma vez cometemos as mesmas indignidades, para nós, em primeiro lugar, imploramos a Vossa misericórdia, prontos a expiar não só as próprias culpas, senão também as daqueles que, errando longe do caminho da salvação, ou se obstinam na sua infidelidade, não Vos querendo como pastor e guia, ou, conculcando as promessas do batismo, sacudiram o suavíssimo jugo da Vossa santa lei.

De todos estes tão deploráveis crimes, Senhor, queremos nós hoje desagravar-Vos, mais particularmente da licença dos costumes e imodéstia do vestido, de tantos laços de corrupção armados à inocência, da violação dos dias santificados, das execrandas blasfêmias contra Vós e Vossos Santos, dos insultos ao Vosso Vigário e a todo o Vosso clero, do desprezo e das horrendas e sacrílegas profanações do Sacramento do divino amor e, enfim, dos atentados e rebeldias das nações contra os direitos e o Magistério da Vossa Igreja.

Oh! Se pudéssemos lavar com o próprio sangue tantas iniqüidades!

Entretanto, para reparar a honra divina ultrajada, Vos oferecemos, juntamente com os merecimentos da Virgem Mãe, de todos os santos e almas piedosas, aquela infinita satisfação, que Vós oferecestes ao eterno Pai sobre a cruz, e que não cessais de renovar todos os dias sobre nossos altares.

Ajudai-nos Senhor, com o auxílio da Vossa graça, para que possamos, como é nosso firme propósito, com a vivência da fé, com a pureza dos costumes, com a fiel observância da lei e caridade evangélicas, reparar todos os pecados cometidos por nós e por nosso próximo, impedir, por todos os meios, novas injúrias de Vossa divina Majestade e atrair ao Vosso serviço o maior número de almas possíveis.

Recebei, ó benigníssimo Jesus, pelas mãos de Maria santíssima reparadora, a espontânea homenagem deste nosso desagravo, e concedei-nos a grande graça de perseverarmos constantes, até à morte, no fiel cumprimento de nossos deveres e no Vosso santo serviço, para que possamos chegar todos à pátria bem-aventurada, onde Vós com o Pai e o Espírito Santo viveis e reinais por todos os séculos dos séculos.

Amém.

Introdução por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. A tradução portuguesa apresentada neste post encontra-se disponível aqui. Limitam-nos a fazer apenas algumas pequenas correções de detalhe, a fim de que o texto em português se ajustasse melhor tanto ao teor quanto à forma do original latino.

| Categoria: Virgem Maria

Coração Doloroso e Imaculado de Maria, rogai por nós!

“Cheia de graça” que era e com um coração ardente de amor, a Santa Virgem era capaz de ver o pecado nas almas culpadas assim como nós vemos as feridas purulentas em um corpo doente.

Por Reginald Garrigou-Lagrange — Diz-se que, quando pessoas consagradas a Deus, mas em estado de pecado mortal, aproximavam-se de Santa Catarina de Sena, ela via seus pecados e sentia uma tal náusea, que era obrigada a virar o rosto.

Por mais forte razão, a Santa Virgem via o pecado nas almas culpadas como nós vemos, nós, as feridas purulentas em um corpo doente. Ora, a plenitude de graça e de caridade, que não cessou de crescer nela desde sua imaculada conceição, aumentava proporcionalmente em seu coração a capacidade de sofrer do maior dos males. De fato, disto sofre-se tanto mais quanto mais se ama a Deus, Bem soberano, a quem ofende o pecado; e as almas, que o pecado mortal desvia de seu fim último e as torna dignas da morte eterna.

Maria, sobretudo, vê, sem ilusão possível, preparar-se e consumar-se o maior dos crimes: o deicídio; ela vê o paroxismo do ódio contra aquele que é a Luz, a mesma Bondade e Autor da salvação.

Para entrever o que foi o sofrimento de Maria, é preciso pensar em seu amor natural e sobrenatural, em seu amor teologal, por seu Filho único, não apenas amado, mas legitimamente adorado, a quem amava muito mais que a sua própria vida, posto que era seu Deus. Ela o concebera miraculosamente, o amava com um coração de Virgem, o mais puro, o mais tenro, o mais rico de caridade que jamais existiu, excetuado o coração do Salvador.

Ela sabia incomparavelmente melhor que nós a razão superior da crucifixão: a redenção das almas pecadoras; e, no mesmo instante, tornava-se, de modo mais profundo que nunca, a mãe espiritual destas almas por salvar.

Se Abraão sofreu de modo heróico ao preparar-se para imolar seu filho, não sofreu senão por algumas horas, e um anjo desceu do céu para impedir a imolação de Isaac. Ao contrário, desde as palavras do velho Simeão, Maria não cessará de oferecer aquele que devia ser Sacerdote e vítima e se oferecer com ele. Esta dolorosa oblação durará por anos e, se um anjo desceu do céu para parar a imolação de Isaac, nenhum desceu para impedir a de Jesus.

Donde a invocação "Coração doloroso e imaculado de Maria, rogai por nós". Nesta invocação, a palavra "imaculado" lembra o que Maria recebeu de Deus e "doloroso", tudo o que fez e tudo que sofreu com seu Filho, por Ele e n'Ele, para nossa salvação. Com Ele, mereceu, de um mérito de conveniência, não apenas a aplicação dos méritos do Salvador a tal ou tal alma, como Santa Mônica por Santo Agostinho, mas mereceu com o Redentor "a liberação do gênero humano" ou a redenção objetiva, donde o título de Corredentora, que lhe é mais e mais reconhecido pela Igreja.

Verdadeiramente, a plenitude de graça e de caridade aumenta consideravelmente nela a capacidade de sofrer do maior dos males. Ela, que deu à luz a seu Filho sem dor, dá à luz aos cristãos em meio aos maiores sofrimentos. Que preço pagou por nós? "Nós lhe custamos seu Filho único", diz Bossuet. "Era a vontade do Pai eterno fazer nascer filhos adotivos pela morte do Filho verdadeiro".


Extraído de "La Capacité de souffir du péché en Marie Immaculée",
in: Angelicum, vol. 31 (1954), fasc. 4, pp. 352-357.
Tradução para o português do site Permanência.

| Categoria: Igreja Católica

Anticatolicismo na Inglaterra: a história de terror que empequenece a Inquisição

A repressão religiosa contra cristãos provocou na Inglaterra mais mortes do que na Espanha, onde “morreram acusadas de heresia menos pessoas do que em qualquer país da Europa”.

“Prisão e morte dos dez membros da cartuxa de Londres", de Vicente Carducho.

A Inquisição Espanhola permanece até os dias de hoje como a representação máxima de intolerância religiosa no imaginário popular. A "lenda negra", sob cujos alicerces se construiu a propaganda holandesa e inglesa, em muito contribuiu para confirmar esta idéia, escondendo debaixo do tapete os dados que demonstram que a perseguição religiosa durante os séculos XVI e XVII no resto da Europa alcançou cifras assustadoras. Dizer que a Inquisição era um dos tribunais europeus que mais garantias processuais oferecia, muito mais do que a justiça civil, significa literalmente que em alguns países a intolerância religiosa foi praticada sem freios nem obstáculos legais.

A queima de católicos orquestrada por Calvino (somente em Genebra mandou executar, num espaço de vinte anos, a 5% da população), a caça às bruxas na Alemanha, a guerra civil vivida na França… Todos os reinos do período protagonizaram exemplos de barbárie de todo tipo. Mas o que tornou especialmente chamativo o caso inglês, nos reinados de Henrique VIII e Isabel Tudor, é que do êxito em liquidar o Catolicismo dependia, de forma direta, a sobrevivência da monarquia. Isabel I era fruto de um matrimônio — o de Henrique VIII e Ana Bolena — que dera início a um cisma na Igreja, o que a convertia numa bastarda, caso fracassasse a causa anglicana.

A Rainha Virgem não poupou violência para manter-se no poder e reduzir a cinzas o ressurgimento do Catolicismo que Filipe II e sua esposa inglesa, Maria Tudor, sonharam em meados do século XVI.


Mesmo com a total discrepância entre o reinado de Maria Tudor e o terror da época de sua irmã Elizabeth, que perseguiu sistematicamente os católicos na Inglaterra, quem foi que recebeu da história o epíteto de "sanguinária"?

Ninguém menos que Maria I, evidentemente. E isso pelo simples fato de ela ser… católica [1]. É o que Padre Paulo Ricardo explica neste trecho de uma aula exclusiva sobre a Inquisição:


Um banho de sangue por intolerância religiosa

Henrique VIII deu início à perseguição aos católicos em 1534 com o Ato de Supremacia, que o elevava a chefe absoluto da Igreja da Inglaterra e declarava traidores a quantos simpatizassem com o Papa de Roma. Uma longa lista de altos cargos da Igreja rejeitaram a medida e foram devidamente executados, entre eles Thomas More e o bispo John Fisher. Todas as propriedades da Igreja passaram a mãos reais.

Em 1535, em plena onda de repressão, foram esquartejados os monges da Cartuxa de Londres com o seu prior, John Houghton, à frente. Foram enforcados e mutilados na tristemente célebre praça de Tyburn, como exemplos contra uma ordem caracterizada por sua austeridade e simplicidade. O balanço final foi de 18 homens, todos reconhecidos oficialmente pela Igreja Católica como verdadeiros mártires. Do mesmo modo, o fracasso de uma rebelião católica contra o Rei terminou, em 1537, com a condenação à morte de outras 216 pessoas, 6 abades, 38 monges e 16 sacerdotes.

O sofrimento mudou de bando por um tempo com a subida ao trono de Maria Tudor, após o falecimento de seu único irmão homem, Eduardo VI. A "rainha sanguinária" nunca se esqueceria de que, com o divórcio de seus pais, em 1533, teve de renunciar ao título de princesa e de que, um ano depois, uma lei do Parlamento inglês a excluiu da sucessão em favor da princesa Isabel. Sob o reinado de Maria e seu marido, Filipe II de Espanha, foram executados por heresia quase 300 homens e mulheres entre fevereiro de 1555 e novembro de 1558. Muitos daqueles perseguidores fizeram parte da traumática infância de Maria, a começar por Thomas Cranmer, que, sendo arcebispo de Cantuária, autorizou o divórcio de Henrique VIII e Catarina de Aragão.

A morte prematura de Maria trouxe ao poder sua irmã Isabel, em 1558. A esposa de Filipe II a nomeou herdeira em seu testamento com a esperança de que ela abandonasse o protestantismo, sem suspeitar de que aquilo implicaria a ruína do Catolicismo nas Ilhas Britânicas. Em pouco tempo, Isabel virou às avessas os esforços do anterior reinado e se entregou a uma caça a católicos por todo o país. Como explica María Elvira Roca Barea, em seu livro "Imperiofobia e Leyenda Negra" (sem tradução para o português), as perseguições aos católicos ingleses provocaram mil mortos, entre religiosos e leigos, em contraste com o que se passou na Espanha, onde "morreram acusadas de heresia menos pessoas do que em qualquer país da Europa" [2].

O sistema inglês de denúncias vicinais

O reinado de Isabel I começou com o restabelecimento do Ato de Supremacia, que tornava obrigatória a assistência aos serviços religiosos do novo culto. Em caso de falta, as sanções iam da flagelação à morte. Não por acaso, o Estado promovia um sistema de delações de modo que os que não denunciavam seus vizinhos poderiam parar eles mesmo na prisão. O alvo eram não apenas os católicos, mas também os calvinistas, quakers, batistas, congregacionalistas, luteranos, menonitas e outros grupos religiosos que, na maioria dos casos, se viram forçados a fugir para a América. Só em tempos de Carlos II de Estuardo mais de 13.000 quakers foram encarcerados e seus bens, expropriados pela Coroa.

Em 1585, o Parlamento estabeleceu um prazo de quarenta dias para que os sacerdotes católicos, sob ameaça de morte, deixassem o país e se proibiu a celebração da Missa inclusive de forma privada. Não obstante, a repressão aumentou com o fracasso da Grande Armada de Filipe II em 1588 e o sistema de delação chegou a níveis "nunca sonhados pela Inquisição". Como assinala Roca Barea, o sistema de espionagem vicinal permitiu um estrito controle individual e dos movimentos e viagens de conhecidos, parentes e viajantes. Em questão de dez anos, a repressão conseguiu apagar definitivamente o Catolicismo da Inglaterra.

Toda uma série de supostos complôs católicos, sempre confusos e baseados em rumores, justificaram que a Coroa recrudescesse a repressão de forma periódica. O grande incêndio de Londres em 1666 foi imputado aos católicos e desencadeou uma nova perseguição. Entre 1678 e 1681, uma suposta conjuração atribuída a Titus Oates deu lugar a ferozes caças.

Paralelamente a estes acontecimentos, a Irlanda serviu-se do Catolicismo como forma de resistência ao domínio inglês. A religião era tão-só um fator a mais na guerra por manter a Inglaterra a uma distância prudencial, mas intensificou a violência e o ódio ao ponto de converter o conflito em um banho de sangue. Estima-se que um terço da população irlandesa sofreu as consequências mortais do envolvimento da Irlanda na guerra civil de 1636 entre monarquistas e republicanos ingleses. Oliver Cromwell não teve nunca piedade dos rebeldes irlandeses vinculados ao Catolicismo, confissão pela qual sentia certa antipatia pessoal.

Por César Cervera — ABC História | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas do Tradutor

  1. Na mesma linha da crítica feita pelo Padre Paulo Ricardo ao tratamento que a historiografia protestante dispensou a Maria I da Inglaterra, a filha católica de Henrique VIII, leia-se um excelente artigo publicado já há um tempo em The Telegraph, pelo escritor Gerald Warner. Dele destacamos o seguinte: "Maria I queimou, de acordo com o Livro dos Mártires, de John Fox, 284 hereges protestantes, cifra que, dada a fonte, certamente não foi subestimada. Enquanto isso, estimativas do número de execuções realizadas por Henrique VIII variam de 57 aos 72 mil alegados nas Crônicas de Raphael Holinshed (...). Então, por que é Maria chamada de 'sangrenta', e não o seu pai, quando as execuções ordenadas por ele excederam as de suas filha em mais de 56 mil, para dizer o mínimo? Por que não 'Henrique, o Sangrento'? Obviamente, porque ele foi o fundador da Igreja da Inglaterra."
  2. Para um exame detalhado do que foi a Inquisição Espanhola, reportamos os nossos visitantes e alunos à aula de que dispomos, em nosso site, especificamente sobre esse tema. Segundo o historiador Edward Peters, estima-se que o número de penas capitais cominadas pelo Santo Ofício na Espanha, ao longo de 250 anos, não tenha ultrapassado a casa dos 3 mil. Se as mil execuções de que fala María Elvira Roca Barea forem verdadeiras, portanto, trata-se de uma cifra evidentemente menor que os números da Inquisição Espanhola; proporcionalmente falando, porém, o reino de Elizabeth foi quase duas vezes mais sangrento, numa razão de 22 para 12 execuções anuais.

| Categorias: Sociedade, Fé e Razão

Gênero e “mudança de sexo”: uma resposta às perguntas mais frequentes

Instituto de bioética dos Estados Unidos lança documento importante, respondendo com base científica às perguntas mais frequentes sobre transtornos de gênero e operação de “mudança de sexo”.

A moda do momento é falar sobre transtornos de gênero e operações de "mudança de sexo" (eufemisticamente chamadas, agora, de "transgenitalização"). Em questão de pouquíssimo tempo, a mídia liberal parece não saber tocar em outro assunto. Revistas internacionais fazem o escarcéu. "Especialistas" falam de introduzir o tema em tudo quanto é lugar — inclusive nas escolas, para doutrinar crianças. E, mais recentemente, o programa "Fantástico" — boletim semanal da Rede Globo e um dos programas televisivos mais assistidos no Brasil — parece estar dedicando uma série especial para o assunto.

Ao mesmo tempo, porém, em que são muitas as informações divulgadas a esse respeito, são pouquíssimas as fontes isentas e confiáveis para saber a verdade sobre a "crise de gênero". Mais escassos ainda são os meios que se preocupam em apresentar uma análise moral de toda essa questão. Nada disso é de se espantar, considerando a "ditadura do relativismo" em que estamos imersos, com cada qual se achando o dono do próprio nariz e fazendo o que bem (ou mal) entende consigo mesmo, com sua família ou, o que é pior, com os filhos dos outros.

Nesse cenário caótico de ideologia e desinformação, a declaração a seguir, de autoria do National Catholic Bioethics Center ("Centro Católico Nacional de Bioética", com sede nos Estados Unidos), trata-se de um verdadeiro "oásis" de bom senso. O documento consiste num resumo didático das perguntas mais frequentes quando o assunto é transtornos de gênero e operações de "mudança de sexo". Qual a diferença entre sexo e gênero? Em que consiste uma cirurgia para "mudar de sexo"? É possível que uma pessoa se sinta mulher no corpo de um homem, e vice-versa?

Diferentemente das reportagens da Rede Globo, que se fazem de isentas enquanto tentam inocular uma ideologia no seio das famílias brasileiras, os autores da declaração a seguir não têm nada a esconder: são católicos, sim, e não têm vergonha alguma de exibir publicamente a sua identidade.

Quem quer que se detenha a ler o que eles escrevem, no entanto, não achará na defesa de seus postulados nenhum argumento de cunho religioso, muito menos apelos irracionais a emoções — que parecem ser a grande "cartada" dos ideólogos de gênero nos últimos dias. Os membros dessa instituição de bioética falam a partir de seus conhecimentos científicos e é principalmente por isso, antes de qualquer coisa, que seu parecer merece uma atenção especial.

Não deixem de ler e compartilhar esta peça informativa com seus amigos e familiares (especialmente àqueles que gostam de assistir ao "Fantástico" ou a qualquer outro programa tendencioso da TV aberta).

Perguntas frequentes sobre Transtorno de Identidade de Gênero e Operações de "Mudança de Sexo"

Do que estamos falando?

Operações de mudança de sexo não são necessariamente novas. A primeira ocorreu em 1953, com o ator George Jorgensen (mais conhecido por seu nome feminino, Christine). Mais e mais pessoas, no entanto, estão à procura de tais operações agora. Isso tem forçado instituições cristãs e católicas a abordarem a moralidade dessas operações, dado que elas podem começar a fazer parte de planos de seguro obrigatórios, condições de empregabilidade em escolas católicas ou mandados legislativos requerendo que hospitais católicos executem tais procedimentos.

O que é uma operação de mudança de sexo?

Uma operação típica de mudança de sexo consiste em duas partes. Primeiro, a pessoa é submetida a amplos testes psicológicos. Então, ele ou ela é colocado em um regime hormonal e, em seguida, submetido a cirurgia na qual a genitália (original) é removida e substituída pela genitália desejada. No caso de o procedimento ser a transição de homem para mulher, por exemplo, o pênis é removido juntamente com os testículos e no seu lugar é construída uma vagina de improviso. Na transição de mulher para homem, a mulher passa por uma histerectomia, para retirar o seu útero, e uma mastectomia, para remover os seus seios, sendo-lhe anexado, então, um pênis construído e não-funcional. A operação de mudança de sexo invariavelmente torna a pessoa infértil. Deve-se notar que o regime hormonal continua pelo resto da vida da pessoa, a fim de serem mantidas as características sexuais secundárias, como, por exemplo, a voz mais grave ou mais aguda, a presença ou ausência de pelos faciais etc.

Não se deve confundir uma operação de mudança de sexo com certos tipos de procedimento realizados em pessoas de sexualidade ambígua, por exemplo, aqueles que sofrem de hiperplasia adrenal congênita (uma espécie da chamada síndrome de insensibilidade androgênica), mosaicismo, quimerismo, ou alguma outra causa congênita de identidade sexual mista. Esses transtornos apresentam identidade sexual ambígua e certas operações feitas para confirmar a pessoa no sexo "dominante" visam simplesmente corrigir uma condição patológica. Operações assim não devem ser encaradas como uma forma de mudar o sexo de uma pessoa, mas sim de confirmar o que estava originalmente ambíguo.

O que há de imoral em uma operação de mudança de sexo?

Propriamente falando, uma pessoa não pode mudar a sua identidade sexual. Para pessoas que não sofrem os transtornos mencionados acima (hermafroditismo, por exemplo), uma pessoa ou é homem ou é mulher. Toda pessoa consiste em uma unidade de corpo e alma, e uma "alma" deve ser entendida não como algo imaterial em si, mas aquilo que faz o corpo ser o que é, nomeadamente, uma pessoa humana. Nós somos, enquanto pessoas, ou homens ou mulheres, e nada pode mudar isso. Uma pessoa pode mutilar os seus genitais, mas não pode mudar o seu sexo. Mudar o sexo de uma pessoa é fundamentalmente impossível; esses procedimentos são fundamentalmente atos de mutilação.

A mutilação termina tornando uma pessoa impotente, estéril e dependente, para o resto da vida, de regimes hormonais que a fazem parecer algo que ela não é. Não existe nada de errado com a genitália das pessoas que procuram tais operações. Mas ela é removida a fim de se conformar à crença subjetiva do que a pessoa (ele ou ela) deseja ser. Praticar violência com o próprio corpo, quando não há nada de errado com ele, trata-se de um ato injustificável de mutilação. Ademais, a procura por uma mutilação assim manifesta um ódio de si inconsistente com a caridade que devemos a nós mesmos. As pessoas que procuram por essas operações se sentem claramente desconfortáveis com quem elas são de verdade. Para amá-las da maneira apropriada, é necessário confrontar as crenças e a autocompreensão que dão origem a essa rejeição fundamental de si mesmas.

Não são reducionistas esses argumentos que dizem ser imoral o ato de mudar a biologia de alguém?

Dois esclarecimentos de extrema importância: primeiro, uma pessoa não pode mudar de sexo. Uma pessoa pode mudar a genitália que tem, mas não o sexo. Receber hormônios do sexo oposto e remover a própria genitália não são o suficiente para se mudar de sexo. Identidade sexual não se resume a níveis hormonais ou a genitália; trata-se, ao contrário, de um fato objetivo enraizado na natureza específica da pessoa. Segundo, o que torna imorais as operações de mudança genital é o fato de o corpo da pessoa estar sendo mutilado. Assim como não devemos respeitar o desejo de alguém de se transformar num Cyborg, cortando os seus membros e substituindo-os por próteses, tampouco devemos respeitar o desejo de alguém de se tornar um sexo diferente, cortando e transformando a sua genitália.

Uma pessoa não poderia pensar que realmente pertence ao sexo oposto (ele acreditar ser mulher e ela acreditar ser homem)?

O julgamento moral de que operações de mudança de sexo são imorais não implica que as pessoas não possam ter crenças falsas, ou que os seus sentimentos e atitudes não possam ser irracionais ou desconectados da realidade. A identidade sexual de uma pessoa não é determinada pelas suas crenças subjetivas, desejos ou sentimentos. Trata-se de uma função da sua natureza. Assim como existem dados geométricos numa prova geométrica, a identidade sexual é um dado ontológico. Psicoterapia e a aceitação amorosa dessas pessoas que sofrem de confusão de identidade sexual é a maneira adequada de amá-las. Mutilar os seus corpos não.

Qual é a diferença entre sexo e gênero? [*]

Identidade sexual não é uma construção social, mas um fato objetivo enraizado na nossa natureza enquanto pessoas, ou do sexo feminino ou do sexo masculino. O fato mais óbvio que temos a nosso respeito é que ou somos homens ou somos mulheres.

É claro que há uma importante distinção a fazer, nessa matéria, entre identidade sexual e gênero. Identidade sexual se refere propriamente a ser homem ou mulher. Refere-se ao sexo específico da pessoa humana. Ser macho ou fêmea é uma propriedade essencial de quem nós somos enquanto pessoas. Por exemplo, um homem é simplesmente incapaz de, como homem, gestar crianças. Os homens não têm esse poder, mas as mulheres sim. Portanto, ser homem ou mulher é essencial para o que nós somos. Gênero, por outro lado, refere-se a certas disposições emocionais ou traços característicos da feminilidade ou masculinidade. "Feminilidade" e "masculinidade" são termos de gênero e referem-se a traços ou disposições específicas. Um homem pode ter características femininas; de fato, psicoterapeutas homens possuem muitas características femininas, como saber escutar, cuidar e por aí em diante, mas eles continuam sendo homens sexualmente. Mulheres policiais ou militares possuem muitas características masculinas, mas continuam sendo mulheres sexualmente. Assim, enquanto não há nada de intrinsecamente mau em tentar adquirir certos traços ou características que estão à disposição de qualquer ser humano, é errado mutilar o próprio corpo e a identidade sexual de alguém não pode ser mudada. Procurar por uma operação assim é uma demonstração de desprezo e desrespeito por quem se é fundamentalmente.

A posição acima sublinhada não coloca muita ênfase no corpo, ao invés da mente da pessoa — isto é, aquilo que a pessoa sente e acredita? Quando o estado da mente de uma pessoa não se ajusta com o do seu corpo, alguém pode pensar, porque se deveria dar preferência ao corpo? Porque deixar o corpo ditar a identidade sexual de uma pessoa, e não a sua mente?

Essas questões são importantes e conduzem-nos ao coração do problema. Concede-se e aceita-se bem que a personalidade de alguém — a constelação de suas crenças, desejos, disposições emocionais e traços de caráter — constituem a sua auto-imagem e a compreensão que ela tem de si mesma. Mas também se deve considerar que nem todas as nossas crenças, desejos e autocompreensões estão de acordo com a verdade. A nossa capacidade de raciocínio, a nossa memória e até mesmo nossas sensações mais básicas, como percepções visuais, podem errar e dar margem a crenças falsas. A resposta que damos nesses casos é a de corrigir as crenças falsas. Quando nós pensamos algo falso a respeito de nós mesmos, isso é algo que precisa ser corrigido, não estimulado.

Para responder às perguntas diretamente, aqueles que assumem a posição contrária estão a supor, na verdade, um dualismo entre a mente e o corpo. Propriamente falando, as pessoas são ou homens ou mulheres. O corpo (da pessoa) é um indicador fundamental de qual sexo fazemos parte. Trata-se de uma realidade física e empiricamente verificável, que não muda simplesmente porque nossas crenças e desejos mudam. Uma vez rejeitado o dualismo por trás da questão, e reconhecido pela pessoa o sexo que o seu próprio corpo indica, podemos ver que a identidade sexual é um fato objetivo e prontamente discernível a nosso respeito. Como diriam alguns filósofos, nós somos corpos.

Tradução e adaptação: Equipe Christo Nihil Praeponere

[*] N. do T.: A definição de "gênero" oferecida pelo National Catholic Bioethics Center é uma contraposição interessante ao conceito formulado pelos ideólogos de gênero. Os autores do texto reconhecem a possibilidade de que alguns homens tenham traços mais femininos e vice-versa, mas essas variações, longe de sugerirem que a masculinidade e a feminilidade não passam de "construção cultural", só reforçam ainda mais as diferenças existentes entre os dois sexos. Um ideólogo ficaria profundamente ofendido ao ler, e.g., que atos como "saber escutar" e "cuidar" são típicos das mulheres. Embora realmente seja assim.

| Categoria: Testemunhos

A odisseia de uma mulher para vencer o seu vício em pornografia

O tsunami pornográfico não está devastando só os homens. Ele está arrastando mulheres também. E é esse o grande alerta de Jessica Harris.

Por Jonathon van Maren — Finalmente as igrejas e a cultura estão acordando para o fato de que fomos atingidos por um tsunami, e que milhões de homens estão viciados em pornografia. Ela está destruindo casamentos. Está destruindo carreiras. Está destruindo almas.

Mas ainda há uma coisa sobre a qual ninguém está comentando: a pornografia está destruindo mulheres também. E não é só as estrelas pornô que são destruídas através do abuso e da violência nos sets de filmagem. Estou falando das centenas de milhares de mulheres que estão assistindo a pornografia, sem que ninguém reconheça o fato ou toque no assunto.

Por muito tempo eu tive curiosidade em descobrir quais eram as estatísticas. Em 2015, uma estimativa do site Covenant Eyes apontou que 76% das mulheres entre as idades de 18 a 30 viam pornografia pelo menos 1 vez por mês, enquanto 21% delas assistiam a pornografia várias vezes durante a semana. Mesmo assim, parecem ser poucas as mulheres que procuram ajuda ou admitem estar lutando contra o vício em pornografia. Já falei com centenas de homens, mas, quanto às mulheres, fui abordado por apenas três que me vieram contar suas histórias. Na verdade, muitas pessoas ficam até mesmo chocadas ao saber que existem mulheres que vêem pornografia.

Para saber mais sobre as histórias por trás das estatísticas, eu liguei para Jessica Harris. Ela cresceu em um ambiente religioso e conservador, e ia à igreja praticamente todos os domingos. Mesmo assim, Jessica assistiu a pornografia pela primeira vez aos 13 anos, e aquilo começou a destruí-la silenciosamente, nas sombras, onde ninguém a escutava, nem podia sequer compreendê-la. Afinal de contas, mulheres não vêem pornografia, é essa a ideia geral que se tem. Pornografia é coisa de homem, um pecado masculino. Rapazes precisam ser alertados para não caírem nessa armadilha, mulheres não, é o que pensa a maioria. Elas estão imunes a esse tipo de toxina. Porque são mulheres.

"Nunca nos foi dito nada acerca da pornografia. Jamais fomos alertadas sequer de que isso existia. Ao menos não as mulheres. Na minha família isso não era mencionado, ninguém falava desse assunto. Quando descobri aquele material, então, eu não tinha sequer uma palavra para descrevê-lo. Eu cresci em um ambiente de igreja, mas frequentava a escola pública. Pensei comigo: deve ser sobre isso que eles tanto comentam, devem ser essas as coisas a que eles assistem na Internet. Mas eu estava no ensino fundamental, começando o ensino médio, e eu não tinha uma categoria em que colocar aquilo, não tinha um contexto, não tinha nada."

Mas aquilo a deixou fascinada. E ela começou a assistir. A princípio, Harris pensou que talvez não houvesse mal algum; que, aliás, aquilo até lhe poderia ser útil de alguma forma.

"Eu realmente não achava que era um problema nos primeiros dois anos em que comecei a consumir esse material. Eu pensava: 'Não estou saindo e fazendo sexo de verdade com ninguém, então é seguro. Vou em frente com isto.' Não existia o risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis, nem chance de engravidar. Não precisava me preocupar com aborto. Não precisava me preocupar com nada. Pornografia era algo totalmente seguro e, quando eu comecei, senti que podia ligar e desligar na hora em que quisesse, como se estivesse totalmente no controle da situação. Não senti a necessidade de contar para alguém até porque não achava necessariamente mau aquilo que eu estava fazendo. Aquela parecia ser uma forma segura de me expressar, de estar em sintonia com meus colegas na escola, de conversar sobre essas coisas e mostrar que eu sabia do que se tratava. Era uma forma de me sentir aceita e conectada."

Vícios, é claro, não podem jamais ser controlados. Eles sempre terminam controlando você: a menos que você se liberte antes… eles o destroem. Com o vício em pornografia não é diferente, e logo Jessica começou a se sentir arrastada para baixo. A pornografia começou a dominar a sua vida.

"Foi no final do ensino médio que aquilo realmente começou a fazer um grande estrago em minha vida", ela diz. "Era como se eu precisasse daquilo, então eu ficava acordada até tarde da noite… Comecei a ter dificuldades para manter a minha média na escola. Não conseguia dormir bem. Até nos dias em que eu não queria fazer aquilo, o meu corpo pedia mais. Eu dizia: 'Hoje não, hoje não, hoje não', e os meus pés caíam sobre o chão e caminhavam até o computador por conta própria — e eu odiava não estar mais no controle da situação."

Ela lutou para retomar o controle por todos os meios possíveis, e o desespero se transformou em pânico. A pornografia era poderosa. De fato, era mais poderosa do que ela poderia ter imaginado.

"Eu imprimia fotografias e ateava fogo nelas porque queria provar que era mais forte. Eu salvava imagens em disquetes — eles estavam em alta na época — e quebrava os discos ao meio de tanta raiva e frustração. Eu costumava usar uma tesoura também, porque eu queria provar que era mais forte. E quando isso não funcionava, eu começava a me machucar fisicamente. Se eu não conseguisse me segurar, se eu fosse para o computador e assistisse cinco horas de pornografia, ou o tempo que fosse enquanto eu estava em casa sozinha, eu ia até ao banheiro quando terminava e simplesmente batia a minha cabeça contra a banheira, de tão zangada que eu ficava. Eu pensava que, se conseguisse fazer aquilo doer, talvez eu conseguisse parar. Quando isso não funcionava, eu entrava no chuveiro escaldante até a minha pele ficar vermelha. Eu só queria que aquilo acabasse.

Quando eu finalmente decidi usar o Google e procurar ajuda para acabar com o vício da pornografia, mas vi que tudo era para homens, pela primeira vez me questionei o porquê daquilo. 'Espere um pouco', eu pensei, 'o que isto significa? Porque não existe nada para mulheres?' Depois comecei a procurar por mulheres em situação semelhante e não encontrei nada. Então eu meio que entrei em pânico porque, se não há ninguém para me ajudar, como eu vou sair dessa? Se não há ninguém falando sobre isso, se não há ninguém como eu, como vou sair disso?"

Para piorar, Jessica começou a ter uma sensação horrorosa: a de que ela era a única mulher com este problema. Só ela assistia a pornografia. Por isso não havia nenhum tipo de ajuda disponível — porque, aparentemente, ela era a única mulher que precisava daquilo! Em alguns sites antipornografia destinados para homens, ela leu como tudo aquilo era degradante e violento para as mulheres. O que há de errado comigo?, ela passou a se questionar. Quando partiu para a faculdade bíblica, o vício pornográfico acompanhou-a. Ali, ela pensava, certamente haveria ajuda para alguém como ela.

"Eu tinha rezado para que fosse pega, porque pensava que, se alguém tivesse recursos para ajudar, seriam pessoas como o reitor, ou algum funcionário da faculdade. Certamente eles já viram esse tipo de comportamento antes. Com certeza eu não sou a única mulher com este problema. Alguém vai me ajudar. Mas eu estava apavorada com a ideia de que fosse eu a iniciar essa conversa. Eu não queria entrar na sala da reitoria, me apresentar e dizer: 'Ah, e, por acaso, eu sou viciada em pornografia.'

Eu eventualmente fui pega algumas semanas depois de as aulas terem começado, e fui convocada a me apresentar na reitoria. Eles tinham o relatório com o histórico de Internet do meu login. Eles tinham imprimido tudo e sublinhado todos os sites que eram obviamente pornográficos. Naquela ocasião, eu já estava entregue a um tipo de pornografia muito obscura com fetiches depravados. Eu fui de coisas leves a coisas pesadíssimas, que até me assustavam quando eu assistia. Eles ficaram enojados e disseram: 'Isto é nojento. Isto é depravado. Quem vê essas coisas precisa de ajuda.' E eu estava pronta para assumir tudo, caso eles me perguntassem: 'Isso foi você?'. Mas isso não aconteceu. A conversa rapidamente evoluiu para: 'Bem, isso não foi você. Mulheres não têm estes problemas.' Eu fui repreendida por ter dado a senha do meu login para rapazes da faculdade. Eles pensaram que eu tinha dado a minha senha a uns amigos, para eles usarem como quisessem. Foi essa a minha acusação. Eles me fizeram assinar um contrato dizendo que eu jamais voltaria a dar a minha senha a alguém. Eu assinei, então, e voltei para o meu quarto."

Foi depois de deixar a sala da reitoria que Jessica finalmente desistiu. "Eu sentia que a única forma de conviver com aquilo, e comigo mesma, já que obviamente havia algo de muito errado comigo, era me juntar à indústria pornográfica, porque não fazia sentido eu ser a única mulher do mundo a me sentir assim", ela conta. "Obviamente devem existir outras, e essas outras devem ser as atrizes pornográficas, já que deve ser esse o motivo pelo qual elas escolheram essa profissão. Foi assim que pensei nessa profissão da indústria pornográfica. Esse foi o ponto a que cheguei. Fui do desejo de ser médica e tornar-me uma aluna nota 10 a uma pessoa que diz: 'Esqueça, não posso continuar vivendo assim, continuar fingindo que sou perfeita e que alcanço todos os objetivos almejados para ser bem sucedida enquanto me arrasto sozinha nessa situação. Se eu não consigo sair dessa, então a única maneira de lidar com isso é me juntando à indústria."

Harris resignou-se ao seu destino. Ela entrou em um relacionamento online com um rapaz e enviou-lhe fotos explícitas. Fez planos de se juntar à indústria pornográfica, onde ela achava que encontraria as únicas outras mulheres do mundo que a compreenderiam. Mas, como ela relata em seu site dedicado a ajudar mulheres e meninas que são viciadas em pornografia, algo mudou:

"No ano seguinte, depois de deixar aquela faculdade, eu estava em uma faculdade diferente, tentando viver a vida com este segredo horrível dentro de mim, e cogitando fortemente me juntar ao mundo pornô e acabar logo com tudo. Mas, durante uma reunião de mulheres no campus, um membro da equipe de reitoria tomou a palavra e disse, na frente de todos: ' Nós sabemos que algumas de vocês lutam contra o vício em pornografia, e nós vamos ajudá-las.' Aquele momento foi libertador. Pela primeira vez senti que não estava só, que minha luta não era anormal. Ainda existia esperança!

Os anos desde então têm sido uma jornada contínua de liberdade. Tudo isso é muito mais do que simplesmente não assistir a pornografia. Tem a ver com cura interior, com a descoberta de uma vida sem ter que carregar o peso esmagador da vergonha e do medo."

Jessica Harris agora se compromete em oferecer a outras mulheres e garotas essa mesma experiência de liberdade — aquele momento em que alguém finalmente percebe que não está só, que outras pessoas o compreendem, e que existe um caminho para a libertação. Ela viaja por toda a América do Norte, contando a sua história em auditórios, uma história que se conecta com mulheres em situações semelhantes, as quais pensavam estar absolutamente sozinhas, até que alguém ficou diante delas e prometeu entendê-las. As pessoas precisam tomar consciência, ela diz, que as mulheres têm mais dificuldades em assumir esse problema:

"Os homens tendem a confessar o problema quando ele começa a ameaçar o seu relacionamento ou quando flagrados por suas esposas. Eles tendem a se abrir em relação ao assunto quando se cansam de esconder ou simplesmente porque querem desabafar, enquanto as mulheres sempre escolhem a direção oposta. Elas vão fazer o máximo para esconder, pois sentem-se muito envergonhadas e isso que fazem diz muito sobre quem elas são. Ao mesmo tempo elas tentam se desvencilhar da situação e separá-la de si mesmas. Chegam a criar outra personalidade, uma imagem de mulher perfeita que têm tudo sob controle, ao mesmo tempo em que tentam de verdade ser essas mulheres. Eu tenho mulheres que me escrevem, esposas de pastores, missionárias, líderes espirituais, freiras. São mulheres que tentam com todas as forças manter uma imagem de pessoas emocionalmente equilibradas e convencer-se de que: 'Não, você não precisa ser como a mulher do vídeo. Você vale mais que isso. Você não precisa ser assim.' Elas vivem navegando, portanto, entre essas vidas duplas que levam. Uma mulher não pede ajuda a menos que esteja à beira de um colapso, ou que a situação supere o medo de alguém descobri-la. Ou seja, ela só pede ajuda quando está dominada pelo terror absoluto. Com os homens, esse assunto tem mais a ver com uma modificação comportamental; com a mulher, no entanto, trata-se de uma crise de identidade. Ajudá-las significa salvá-las de ir para onde elas acham que estão indo enquanto pessoas."

E quanto às estatísticas do site Covenant Eyes, eu perguntei a Jessica, elas estão corretas? Ou estão um pouco exageradas?

" Geralmente eu calculo que metade do meu público de alguma maneira tenha sido exposta à pornografia", ela respondeu. "Eu diria que, em uma sala com 100 pessoas, pelo menos 50 já tiveram algum tipo de exposição. E outra coisa para lembrar a respeito das mulheres, também, é que nós temos um alcance maior do uso de pornografia. Algumas, por exemplo, entram na literatura erótica e aquilo se torna o estímulo sexual delas. Elas entram em sites eróticos não tão explícitos — coisa com a qual os homens já não se preocupam, eles pulam essa parte. Por outro lado, também pode haver mulheres lutando bastante com o pornô pesado."

Uma pergunta final: como as mulheres que não sabem aonde ir iniciam o caminho para a libertação? Como mulheres universitárias, a exemplo de Jessica Harris, podem romper com esse vício que as domina?

" A primeira coisa que lhes quero dizer é que elas não estão só. É incrível, eu recebo emails e mais emails todas as semanas. Conheço mulheres sempre que vou dar uma palestra, e vejo que toda história, em certo ponto, é parecida com a minha. Sempre fico boquiaberta, mesmo quando estamos trabalhando com uma estatística de 20%, essas 20% sempre acham que são uma em seis bilhões, que são as únicas no mundo com aquelas dificuldades. Você não está sozinha, por isso não se martirize. Pare de achar que está só.

Você tem que destruir esse padrão duplo de vida. Você tem que se libertar, reconhecer o que está acontecendo. Sim, você pode ser uma exímia aluna, uma líder espiritual, mas você também é uma mulher que luta contra este vício, e não tenha medo de se conectar com pessoas que também sofrem deste mal para receber ajuda. O que eu descobri de maravilhoso, toda vez que conto a minha própria história ou encorajo outras garotas a darem o seu testemunho, é que, quando imaginamos que seremos cobertas de vergonha, o que acontece, na verdade, é uma efusão de graça. Tive moças que se libertaram contando para as colegas na faculdade o que as atormentava. E, para a surpresa delas, outras também revelavam ter problemas semelhantes e, no fim, elas acabavam criando grupos de apoio no campus. Isso tem acontecido em faculdades, em igrejas, com mulheres do meu trabalho, as quais eu simplesmente aconselhei, dizendo: 'Você tem que compartilhar isso com alguém.'"

O tsunami pornográfico não está arrastando apenas homens e crianças. Ele está levando mulheres também, e muitas delas estão se afogando porque ninguém tem consciência sequer de que elas estão na água, ninguém é capaz de escutar os seus gritos de socorro. Nós vemos as estatísticas, mas não conseguimos ver os rostos por trás delas. Mas, finalmente, uma mulher decidiu colocar uma história por detrás das estatísticas. A história de Jessica Harris é poderosa, sua mensagem é essencial e seus conselhos são necessários. Faria bem se todos ouvíssemos. A sua história é um coro para muitas que não encontraram a sua voz, e que ainda procuram trilhar o caminho da liberdade.

Fonte: LifeSiteNews.com | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Virgem Maria

Por que os católicos veneram Maria? A Bíblia responde.

O que a Bíblia realmente nos diz a respeito da piedade que os fiéis, desde os primeiros séculos, têm à Mãe de seu Salvador? Será que os católicos têm mesmo o respaldo das Escrituras para venerar Maria?

Este artigo é uma adaptação, mais ou menos livre e com sensíveis modificações, de um capítulo da magistral La Madonna secondo la Fede e la Teologia, obra do teólogo italiano e frade servita Gabriel M. Roschini (1900-1977), um dos mais importantes mariólogos do século passado (cf. Gabriel M. Roschini, La Madre de Dios según la Fe y la Teología. Trad. esp. de Eduardo Espert. 2.ª ed, Madrid: Apostolado de la Prensa, 1958, vol. 2, pp. 296-300).

Uma das muitas objeções que os protestantes costumam levantar contra o culto católico à Virgem Maria é a sua suposta falta de fundamentação bíblica. Quando não o acusam de simplesmente "idolátrico", veem-no como algo estranho à pureza primitiva da fé cristã, como imposição externa e tardia de uma época em que o cristianismo verdadeiro, pregado pelos Apóstolos, já fora substituído pelo novo "constantinismo", cuja influência paganizante se faria cada vez mais evidente, até a definição do dogma da maternidade divina no Concílio de Éfeso, em 431 d.C. Há quem chegue a afirmar, mesmo contra o testemunho eloquente das catacumbas romanas, que o culto à Mãe de Deus não é anterior ao século V e que antes desse período as imagens de Nossa Senhora, livres de qualquer vestígio de "superstição", não a retratam senão como uma personagem histórica mais, pintada sobre um pano de fundo dogmaticamente neutro.

Se é fácil desmentir, por um lado, estes últimos erros, contra os quais existem abundantes dados arqueológicos, sem contar a voz das antigas liturgias e dos Padres da Igreja, a falta de base bíblica para o culto mariano, por outro, parece ser uma dificuldade séria, ao menos à primeira vista, para os que desejam defender a legitimidade de tributar à Virgem SS. as homenagens de que Ela sempre foi digna. O problema, no entanto, é mais aparente do que real. Embora seja verdade que em nenhum lugar as SS. Escrituras nos obriguem ou recomendem explicitamente a venerar Maria, disto não se segue que o culto a Ela prestado, pelo qual os fiéis de todos os tempos sempre tiveram um especial carinho, esteja proibido. Tal silêncio se deve, antes de tudo, a que os motivos por que temos de honrá-la são mais do que óbvios.

Isso é ainda mais claro se levarmos em conta que tampouco a adoração devida a Cristo é apresentada na Bíblia como objeto de um preceito positivo. Basta-nos saber, como nela se atesta sem sombra de dúvida, que Ele é o Filho de Deus para que o culto à sua divina Pessoa surja em nosso coração de forma espontânea. Que mais era preciso ao cego de nascença para prostrar-se em adoração aos pés de Jesus do que, restituída a vista, reconhecer que Aquele que o curou era de fato o Filho do Homem (cf. Jo 9, 35-38)? Ora, se isso vale para o Filho, por que não valeria também para a Mãe? Acaso pode Aquele que nos manda honrar nossos pais (cf. Ex 20, 12) deixar Ele mesmo de honrar quem O gerou ou sentir-se incomodado de que seus súditos, em atenção a um tão grande Rei, venerem a tão pura Rainha [1]?

Mas ainda que não as expresse de modo direto, a Escritura nos dá a entender de forma bastante clara as razões por que podemos e devemos venerar Maria SS. Em primeiro lugar, foi a própria Virgem que, numa profecia que há vários séculos se vem cumprindo à risca, predisse que todas gerações a proclamariam "bem-aventurada" (Lc 1, 48), ou seja, reconheceriam a sua excelência, o que não é outra coisa senão o núcleo de todo ato de culto [2]. Quem quer que leia este versículo e se veja tão pouco devoto de Maria deve sentir-se, naturalmente, separado de todas essas gerações que, num movimento espontâneo de amor e confiança, imitam aqueles três símbolos vivos — o Arcanjo Gabriel, Santa Isabel e uma mulher anônima do povo — nos quais vemos representado um número incontável de fiéis. Analisemos um por um.

1. O Arcanjo Gabriel. — Na cena da Anunciação, com efeito, o evangelista Lucas nos apresenta São Gabriel como emissário de Deus (cf. Lc 1, 26) encarregado de pedir a uma virgem, cujo nome era Maria (cf. Lc 1, 27), o seu consentimento ao grande mistério da Encarnação. A solene saudação do Anjo, marcada por um acento tanto de ternura quanto de assombro, constituirá tempos depois uma das mais repetidas e queridas orações católicas: "Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo" (Lc 1, 28). Ouvido somente pelas quatro pequenas paredes de uma humilde casinha em Nazaré, este elogio ressoaria pelos séculos seguintes no átrio de basílicas e catedrais, no coração e nos lábios de uma multidão de almas piedosas. Ora, por que não poderíamos também nós repetir a mesma saudação com que o próprio Deus quis, por boca do Anjo, honrar a futura Mãe de seu Filho e da qual toda a corte celeste foi testemunha? Se em tudo devemos imitá-lO, por que nisto faríamos exatamente o contrário?

2. Santa Isabel. — "Naqueles dias", continua São Lucas, "Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel" (Lc 1, 39s), sua prima, já no sexto mês de gestação (cf. Lc 1, 36). Apenas escutou a voz de sua parenta, Isabel exclamou, cheia do Espírito Santo: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre" (Lc 1, 42). Aqui é a velhice que se inclina ante a juventude; uma respeitada senhora, ante uma jovem pobre e desconhecida [3], pois a singular maternidade desta supera os direitos de idade daquela: "Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?" (Lc 1, 43). Até João Batista, ainda no seio materno, manifesta com estremecimentos sua reverencial alegria pela visita do Redentor e de sua Mãe virginal. Essa extraordinária moção divina, pela qual mãe e filho se encheram de gozo e graça celestiais, nos faz compreender que as felicitações de Isabel provinham, não de seus próprios sentimentos, mas de um impulso sobrenatural do Espírito Santo, que a iluminou para reconhecer as maravilhas que se realizaram em sua prima (cf. Lc 1, 49) [4]. Por isso, diz ela ao final: "Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas" (Lc 1, 45).

3. Uma mulher anônima. — Tudo isto, porém, aconteceu na intimidade de uma casa, na discrição de um lar a que ninguém tinha acesso (cf. Lc 1, 24). O primeiro louvor público à SS. Virgem seria privilégio de uma personagem cujo nome o Evangelho passa por alto. O contexto deste episódio é significativo e se reveste de especial valor apologético. São Lucas, o único a relatá-lo com detalhe, nos situa na Judeia, não muito longe da Cidade Santa, no último ano da vida pública de Nosso Senhor, o qual acabara de exorcizar um surdo-mudo que, como nota Mateus (cf. Mt 12, 22), era também cego. Uma multidão maravilhada O rodeava; diante de mais um sinal, começaram as turbas a perguntar-se se não seria Ele o Messias. Os escribas (cf. Mc 3, 22) e fariseus (cf. Mt 12, 24) que ali se encontravam, não podendo negar o que sucedera e receosos da exaltação do povo, atribuem o ocorrido a forças diabólicas: "Ele expele demônios por Belzebu, príncipe dos demônios" (Lc 11, 16).

Com um argumento carregado de sabedoria divina (cf. Lc 11, 17-26), Jesus desfaz essa maldosa insinuação e demonstra que Ele expulsa, sim, os demônios pelo dedo de Deus. A isto levanta a voz, repleta de entusiasmo, uma mulher do meio do povo: "Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!" (Lc 11, 27). É o primeiro cumprimento do Magnificat e a comprovação de um princípio tão caro à mentalidade judaica: a glória das mães são os filhos (cf., por exemplo, Gn 30, 13; Pv 23, 24s; Lc 1, 58) e a glória dos filhos redunda nos pais (cf. Pv 17, 6) [5]. A resposta de Nosso Senhor — "Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a observam" (Lc 11, 28) —, longe de significar desprezo por sua Mãe, como às vezes podemos ser tentados a pensar, vem justamente enaltecer, numa ordem superior, aquela que o Pai fez "sede de todas as graças divinas" [6]. Ora, que Jesus não somente não se oponha a este espontâneo elogio, senão que o aprove e amplifique, é algo evidente se levarmos em consideração algumas circunstâncias desse episódio:

a) Em primeiro lugar, o fato de Cristo estar em público pregando às multidões mostra que Ele, sem se indignar de ser interrompido por aquele súbito elogio, preferiu servir-se dele como pretexto para sublinhar um outro aspecto da dignidade de Maria vinculado tanto à universalidade do Evangelho, dirigido a todos os povos, quanto ao primado da graça sobre a natureza. Ao chamar bem-aventurado a quem ouve a Palavra de Deus e a guarda, Jesus não nega a grandeza de sua Mãe, mas declara que são mais profundos e importantes os laços sobrenaturais que estabelece a graça de Deus naqueles que O ouvem e obedecem do que os que "estabelecem naturalmente os vínculos de sangue" [7]. Contrariando, assim, a tendência "etnocêntrica" típica do judaísmo de seu tempo, Nosso Senhor acrescenta ao louvor baseado na carne e no sangue a glória que provém da alma e do espírito: Maria é digna não só por ter dado ao Salvador a carne pela qual seríamos salvos, mas sobretudo por ter ouvido a Palavra de Deus e cumprido fielmente a sua vontade (cf. Mt 12, 46-50) [8]. Embora justifiquem em níveis distintos o culto devido à Virgem SS., a maternidade divina e a plenitude de graça são, nesse sentido, dois aspectos inseparáveis da dignidade quase infinita que Deus lhe conferiu [9].

b) Além disso, é preciso notar, de um lado, o humilde anonimato no qual se esconde essa mulher, representação viva do entusiasmo e da piedade com que tantas pessoas, desde os acontecimentos narrados no Evangelho, vêm honrando a Cristo em e por sua Mãe; as palavras dessa judia cheia de espírito de fé podem muito bem ser postas na boca de todos os que, despreocupados do que dirão os inimigos de Jesus, não se envergonham de exaltar com força e santo ardor o seio que O carregou, o colo que O acolheu, os braços que O estreitaram, os olhos que O contemplaram, o Coração Imaculado que O amou acima de tudo. Também se deve considerar, de outro lado, que a finalidade desse louvor não foi outro senão o de glorificar o Filho por meio da Mãe: "Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram". Ao engrandecer a Maria, com efeito, em nada diminuímos a Cristo, de quem, por quem e para quem são todas as coisas (cf. Rm 11, 36). Não há caminho mais curto para o Coração do Filho do que recorrer àquela pela qual Ele mesmo quis entrar no mundo: Ad Iesum per Mariam, já que por Maria Ele veio a nós.

Se a devoção mariana encontra tão sólido apoio no conteúdo mesmo dos Evangelhos, não deve causar surpresa nem a veneração dos primeiros cristãos à Mãe do Salvador nem o amor sempre crescente que a Igreja foi experimentado, no correr dos séculos, por aquela que deu à luz a sua mística Cabeça. Que neste Ano Jubilar de comemoração do centenário das aparições de Fátima e da invenção da imagem de Nossa Senhora Aparecida Deus Pai se digne enraizar ainda mais nos corações católicos a devoção à nossa Mãe amantíssima e, movido de misericórdia, inspire os que se encontram apartados do único rebanho de Cristo a reconhecer que é em seu Filho — fim de toda devoção genuinamente cristã — que redundam as glórias de sua Mãe [10].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. Pedro Canísio, De Maria Virgine Incomparabili, l. 1, c. 2, in: J. J Bourassé, Summa Aurea. Parisiis, ex typis J.-P. Migne, 1862, vol. 8, col. 651.
  2. V., por exemplo, João Damasceno, Or. III de Imaginibus, nn. 27-40 (PG 94, 1347-1355).
  3. Cf. Ambrósio de Milão, Expositio Evang. sec. Luc., l. 2, n. 22 (PL 15, 1560); v. Andrés F. Truyols, Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Madrid: BAC, 1948, p. 11.
  4. Cf. H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 7.ª ed., de integro retractata a G. G. Dorado, Taurini: Marietti, 1955, vol. 1, p. 295, n. 213.
  5. Cf. M. de Tuya, "Evangelios", in: VV.AA., Biblia Comentada. Madrid: BAC, 1964, vol. 5, p. 844.
  6. Pio XII, Encíclica "Fulgens corona", de 8 set. 1953, n. 8 (AAS 45 [1953] 579).
  7. A. Royo Marín, La Virgen María. Madrid: BAC, 1968, p. 30, n. 21.
  8. Cf. H. Simón, op. cit., p. 586, n. 410: "Segundo muitos acatólicos, o advérbio μενοῦν [lt. quinimmo; pt. 'antes'] implica uma restrição ou correção do que dissera a mulher, de modo que o sentido [das palavras de Jesus] seria: 'Pelo contrário, bem-aventurados os que ouvem etc.'. No entanto, de acordo com a maioria não apenas dos católicos, mas também dos protestantes [...], não se trata de uma correção, mas de uma confirmação, uma vez que o significado próprio daquela partícula é 'de fato', 'antes, em verdade' [...]. O sentido, pois, deste versículo [Lc 11, 28] é: A Virgem Deípara é efetivamente bem-aventurada por ter sido elevada ao fastígio da maternidade divina, mas o é muito mais 'por ter feito a vontade de Deus' (S. Aug., In Ioh., tract. 10, 3)" (trad. nossa).
  9. Cf. Tomás de Aquino, S. Th. I, q. 25, a. 6, ad 4.
  10. Cf. Ildefonso de Toledo, Lib. de virginit. perpetua S. Mariæ, c. 12 (PL 96, 108).

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Mártires brasileiros serão canonizados pelo Papa Francisco

Vaticano aprova canonização de beatos assassinados em 1645, em duas igrejas do Rio Grande do Norte, durante ocupação dos calvinistas holandeses.

Por José Maria Mayrink — O Estado de S. Paulo | O papa Francisco aprovou nesta quinta-feira, 23, a canonização de 30 beatos brasileiros que foram massacrados em 1645 nas localidades de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte, durante a ocupação holandesa do Nordeste, por se negarem a abjurar da fé católica e aderir ao calvinismo, religião dos invasores. Os futuros santos serão André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, sacerdotes diocesanos, Mateus Moreira e outros 27 companheiros leigos.

"Ficamos muito felizes, pois esta canonização é uma grande bênção para a Igreja e com certeza vai reavivar a fé e a devoção dos fiéis", disse o arcebispo de Natal, d. Jaime Vieira Rocha, após receber a notícia da aprovação do papa. Os 30 brasileiros foram beatificados em março de 2000 por João Paulo II. O cardeal d. Cláudio Hummes, que foi arcebispo de Fortaleza, ajudou a levar adiante a causa dos mártires e, no ano passado, confidenciou a d. Jaime que Francisco estava interessado na canonização.

Foram dois massacres coletivos: o primeiro em 15 de julho, em Cunhaú, atualmente município de Canguaretama, e o segundo em 3 de outubro, em Uruaçu, hoje município de São Gonçalo do Amarante. Segundo relatos da época, mais de 70 pessoas foram assassinadas, mas a Congregação para as Causas dos Santos reconhece apenas o martírio daqueles cujos nomes são conhecidos. Na cerimônia de beatificação, João Paulo II chamou os novos beatos de protomártires e disse que eles eram exemplos e defensores da fé cristã.

Os massacres foram executados por índios tapuias e soldados holandeses, sob comando de Jacob Rabbi, um alemão a serviço da Companhia das Índias Ocidentais Holandesas. As vítimas foram mortas em um domingo, durante a missa celebrada pelo padre Ambrósio Ferro. Após a consagração da hóstia e do vinho, a tropa holandesa trancou as portas da igreja e, após um sinal de Rabbi, os índios chacinaram os fiéis.

Com a notícia das atrocidades em Cunhaú, o medo se espalhou pelo Rio Grande do Norte e capitanias vizinhas. Com razão. Outra vez sob as ordens de Jacob Rabbi, um grupo de dezenas de pessoas, entre as quais o padre André de Soveral, foi massacrado. Além dos padres André de Sandoval e Ambrósio Ferro, foram mortos os leigos Mateus Moreira e seus 27 companheiros que serão transformados em santos. O camponês Mateus Moreira teve o coração arrancado pelas costas, enquanto repetia a frase "Louvado seja o Santíssimo Sacramento".

Emissários do governo holandês enviados para investigar os massacres constataram a prática de violência, atrocidade e crueldade. Cronistas da época relatam que em Uruaçu a crueldade foi maior. Os índios e a tropa holandesa fecharam as portas da igreja e mataram os católicos ferozmente. Arrancaram línguas, deceparam braços e pernas, cortaram crianças ao meio e degolaram corpos. A história dos massacres foi pesquisada na Torre do Tombo, em Portugal, e no Museu de Ajax, na Holanda. Segundo documentos levantados, os holandeses ofereceram aos católicos a opção de salvar a vida, se eles se convertessem ao calvinismo.

Data. D. Jaime pensou na hipótese de a canonização ser em outubro deste ano, se Francisco viesse ao Brasil por ocasião da comemoração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Como não virá, a cerimônia deverá ser celebrada no Vaticano, em data a ser marcada. Milhares de devotos celebram a memória dos mártires nos meses de julho e de outubro. Há celebrações frequentes também nas quatro paróquias dedicadas aos beatos no Rio Grande do Norte.

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A mensagem de Fátima, tão politicamente incorreta quanto o Evangelho

Fátima possui uma mensagem “dura” que, na linguagem de hoje, dizemos ser “politicamente incorreta”. Exatamente por causa disso ela está de acordo com o Evangelho.

Por Vittorio Messori* — Todas as aparições marianas parecem assemelhar-se umas às outras, havendo sempre no centro das mensagens um apelo à oração e à penitência e, ao mesmo tempo, cada uma é diferente da outra pela "acentuação" de um aspecto particular da fé.

A aura que circunda Lourdes é pacata, tanto é que se nota que em nenhuma outra ocasião Maria sorriu tanto, chegando ao ponto de fazê-lo em três ocasiões. "Ria como uma menina", disse Bernadete. E não sabia, aquela santinha, que justamente isso iria induzir os austeros inquisidores da comissão que investigava a autenticidade da aparição a ficarem ainda mais desconfiados. "Nossa Senhora que ri! Por favor, um pouco mais de respeito com a Rainha do Céu". Por fim tiveram que superar essa suspeita: pois foi assim mesmo que tudo aconteceu. Não se deve esquecer, é claro, que esta mesma Senhora que apareceu na gruta, dizendo ser a Imaculada Conceição, assumirá ainda um aspecto um tanto sério, repetindo os apelos de penitência e oração por si mesmos e pelos pecadores. Mas há um ar de serenidade, a falta da ameaça de um castigo, que é talvez um dos aspectos que mais atraem aos Pirineus as multidões que conhecemos.

Misericórdia e justiça

A atmosfera de Fátima, ao contrário, parece sobretudo escatológica, apocalíptica. Ainda que seja com um final que conforta e asserena. É evidente que a razão principal da aparição portuguesa é conclamar os homens a uma vida terrena de tremenda seriedade, e que não seja outra coisa senão uma breve preparação à vida verdadeira, a uma eternidade que pode ser de felicidade ou ainda de tragédia. É um chamado à misericórdia e, ao mesmo tempo, à justiça de Deus.

A insistência unilateral de hoje somente sobre a misericórdia esquece a máxima do "et-et" (a harmonia entre a graça e a natureza, entre o tempo e o eterno, entre passado e futuro, entre liberdade e justiça) que preside o espírito do catolicismo e que, aqui, vê em Deus o Pai amoroso que nos recebe de braços abertos e, ao mesmo tempo, o juiz que pesará sobre a sua infalível balança o bem e o mal. Recebe-nos no paraíso, sim, mas um paraíso que é necessário ganhar, gastando da melhor forma os pequenos ou grandes talentos que nos foram confiados. O Deus católico certamente não é aquele sádico do calvinismo que, a seu bel-prazer, divide em duas a humanidade: aqueles que nascem predestinados ao paraíso e aqueles que ab aeterno são esperados no inferno. É assim, afirma Calvino, que Ele manifesta a glória do seu poder. Não, o Deus católico não tem nada a ver com semelhante deformação. Mas muito menos é o permissivista bonachão, o tio tolerante que tudo aceita e tudo igualmente acolhe, o Deus de que fala sobretudo o laxismo dos teólogos jesuítas (que foram condenados pela Igreja) e contra os quais Blaise Pascal lançou as suas indignadas Cartas provinciais.

Ainda que soe desagradável aos ouvidos de um certo "bonismo" atual, tão traiçoeiro à vida espiritual, Cristo propõe à nossa liberdade uma escolha definitiva para a eternidade inteira: ou a salvação ou a condenação. Assim, poderia esperar-nos inclusive aquele inferno que omitimos, mas ao preço de omitirmos também as claras e repetidas advertências do Evangelho. Nele está contido o comovente apelo de Jesus: "Vinde a mim vós todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos darei descanso". E tantas outras são as palavras e gestos de sua ternura. Ainda assim, gostem ou não, nos Evangelhos há também outra coisa. Há um Deus que é infinitamente bom e infinitamente justo, e a cujos olhos um homem mal e impenitente não equivale a um fiel crente que se esforçou, mesmo com as limitações e as quedas de todo ser humano, em levar a sério o Evangelho.

O inferno não é uma invenção

No texto fundamental do ensinamento da Igreja que é o Catecismo, aquele que foi inteiramente renovado, redigido por vontade de São João Paulo II e sob a direção do então cardeal Joseph Ratzinger (um texto que fez todo seu o espírito do Vaticano II), os seus autores advertem: "As afirmações da Sagrada Escritura e os ensinamentos da Igreja acerca do Inferno são um chamado à responsabilidade com a qual o homem deve usar de sua liberdade em vista de seu destino eterno. Constituem também um apelo insistente à conversão" (§1036). São estes mesmos apelos (à responsabilidade e à conversão) que constituem o centro da mensagem de Fátima e que a tornam tão mais urgente e atual: agora certamente mais do que no momento em que Maria apareceu na Cova da Iria.

Já há décadas que desapareceram da pregação católica os Novíssimos, como são chamados pela teologia a morte, o juízo, o inferno e o paraíso. Uma reticência clerical que omitiu — mais do que isso, renegou, no fundo — o velho e salutar adágio que salvou tantas gerações de fiéis: o início da sabedoria é o temor de Deus. Na história dos santos, esta consciência de uma possível condenação eterna constituiu um estímulo constante à prática mais profunda das virtudes. Eles sabiam que a existência do inferno não é um sinal de crueldade divina, mas sim de respeito radical: o respeito do Criador para com a liberdade concedida às suas criaturas, até o ponto de permitir-lhes escolher a separação definitiva.

Tanto na teologia como na pastoral atual, ao imperioso anúncio da misericórdia não se uniu o também imperioso anúncio da justiça. Mas, se em Deus convivem todas as virtudes em dimensão infinita, estaria faltando nele a virtude da justiça que a Igreja — inspirada pelo Espírito Santo, mas seguindo também o senso comum — incluiu entre as chamadas "virtudes cardeais"? Não faltam teólogos, respeitados e renomados até, que gostariam de amputar uma parte essencial das Sagradas Escrituras, omitindo aquilo que enfastia os que se crêem melhores e mais generosos que Deus. Dizem, então: "O inferno não existe. Mas, se existe, está vazio."

Pena que a Virgem Maria não seja da mesma opinião… É verdade que a Igreja sempre confirmou a salvação certa de alguns de seus filhos, proclamando-os beatos e santos. E a mesma Igreja não quis jamais proclamar a condenação de quem quer que seja, deixando justamente a Deus o último juízo. Quem afirmasse, todavia, que um inferno poderia até existir, mas estaria vazio, mereceria a réplica: "Vazio? Mas isso não exclui a possibilidade terrível de que eu e você possamos inaugurá-lo". Há quem tenha levantado a hipótese de a condenação ser somente temporária, não eterna. Mas também isso vai de encontro com as palavras de Cristo, o qual fala claramente, e mais de uma vez, de uma pena sem fim. Foi sem nenhuma dificuldade, portanto, que vários concílios rejeitaram semelhante possibilidade, a qual não encontra qualquer apoio nas Escrituras.

"Rezai, rezai muito"

Na aparição mais importante de Fátima, do dia 13 de julho de 1917, acontece o que a Irmã Lúcia narraria desta forma, em 1941, em famosa carta ao seu bispo:

"O segredo consta de três coisas distintas, duas das quais vou revelar.

A primeira foi a visão do inferno!

Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados nesse fogo os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saiam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das fagulhas nos grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor."

Jacinta, passados três anos, ainda menina com 10 anos de idade e chocada com o que havia visto naqueles poucos instantes, dirá no seu leito de morte: " Se eu apenas pudesse mostrar o inferno aos pecadores, fariam de tudo para evitá-lo mudando de vida."

Semelhantes visões do inferno não são fatos isolados na história da Igreja. Defrontar-se com esta terrível realidade é uma experiência por que passaram muitos santos e santas. E a credibilidade psicológica e mental deles foi avaliada rigorosamente nos processos canônicos. Para limitar-nos aos mais famosos e venerados santos que tiveram esta experiência, eis, entre tantos outros, Santa Teresa d'Ávila, Santa Verônica Giuliani e Santa Faustina Kowalska. E, entre os homens, não podia faltar aquele tal São Pio de Pietrelcina, o estigmatizado que via o sobrenatural como se fosse a condição mais natural, a ponto de se surpreender que os outros não vissem o que ele via.

Em Fátima, confirmando a centralidade na mensagem do perigo de perder-se, encontra-se ainda o fato de que Nossa Senhora ensina aos videntes uma oração a se repetir no rosário após cada dezena de Ave Marias. Oração que teve um acolhimento extraordinário no mundo católico, tanto que é recitada onde quer que se reze o terço mariano, e que diz: "Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas para o Céu e socorrei principalmente aquelas que mais precisarem da vossa misericórdia". Todas as palavras, como se vê, centradas nos Novíssimos, e ditadas às crianças pela própria Virgem Maria. O que acima de tudo o cristão deve implorar é a salvação do "fogo do inferno", bem como pedir à misericórdia divina uma espécie de desconto de penas para aqueles que sofrem no purgatório. Dirá Nossa Senhora, "com grande dor e pesar", como observa a Irmã Lúcia: "Rezai, rezai muito e fazei sacrifício pelos pecadores. Muitas almas vão de fato para o inferno porque não há quem reze e faça sacrifícios por elas."

Debaixo de seu manto

Mas voltemos às últimas linhas do documento da testemunha Lúcia, após a visão da sorte terrível dos pecadores impenitentes: "Levantamos os olhos para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza: 'Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas". Eis, portanto, o toque de consolo a todos os cristãos, antes de tudo, católicos. A verdade nos obriga a recordar que correm um grave risco os homens esquecidos da seriedade do Evangelho. A misericórdia do Céu, entretanto, está sempre pronta a propor um remédio: refugiar-se sob o manto dela, de Maria, confiar no seu Imaculado Coração, aberto a quem quer que venha pedir a sua materna intercessão.

O peso crescente do pecado é grave, mas estão indicados os remédios e, sobretudo, Nossa Senhora tem sempre reservado um happy end ("final feliz"), com as famosas palavras que, com razão, constituem fonte de esperança aos fiéis. De fato, depois de haver profetizado as muitas tribulações do futuro, Maria anuncia, em nome de seu Filho: "Por fim o meu Coração Imaculado triunfará". Por isso, a salvação pessoal é possível — e sustentada pelo próprio Céu —, mesmo em meio à propagação da iniquidade. Ainda podemos esperar a conversão do mundo, em um futuro impreciso e que só Deus conhece, confiando no coração da Mãe de Cristo, poderosa advogada da causa da humanidade.

Para que "servem" as aparições? Fátima está entre as maiores respostas, para um mundo que estava sempre se esquecendo, e hoje continua a esquecer ainda mais mais, o verdadeiro significado da vida sobre a terra e a sua continuação na eternidade. Fátima é uma mensagem "dura" que, na linguagem hodierna, dizemos ser "politicamente incorreta": exatamente por causa disso ela está de acordo com o Evangelho, na sua revelação sobre a verdade e na sua refutação das hipocrisias, eufemismos e omissões. Mas, como sempre naquilo que é verdadeiramente católico, onde todos os opostos convivem em uma síntese vital, a "dureza" convive com a ternura, a justiça com a misericórdia, a ameaça com a esperança. Assim, o aviso que provém de Portugal é, ao mesmo tempo, inquietante e consolador.

Fonte: La Nuova Bussola Quotidiana | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere


(*) Foi lançado no dia 24 de janeiro de 2017, pela editora Mondadori, o livro Inchiesta su Fatima. Un mistero che dura da cento anni ("Investigação sobre Fátima, um mistério que perdura há cem anos", sem tradução portuguesa), de Vincenzo Sansonetti. Foi o site La Nuova Bussola Quotidiana que publicou o excerto acima, do prefácio escrito por Vittorio Messori.