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A oração de uma alma pela vinda do Senhor

“Aguardo-Vos, Senhor, com quietude e silêncio, com grande saudade em meu coração, com sede indomável.”

São os santos da Igreja Católica que possuem a verdadeira percepção da realidade das coisas. Quem olha para as religiosas de uma clausura, confinadas sem poderem sair, talvez tenha a impressão de que elas estão "presas", de que estão "alienadas" do mundo. A verdade, ao contrário, é que são elas umas das poucas pessoas da terra atentas para as coisas que realmente importam: a salvação da própria alma, o diálogo com Deus, a eternidade.

Elas são verdadeiramente livres! Presos estamos nós, do lado de fora, atados que estamos, muitas vezes, "às planícies desta vida". Alienados estamos nós, que quantas vezes nos esquecemos que a nossa Pátria verdadeira é o Céu…!

Santa Faustina Kowalska, apóstola da Divina Misericórdia, é uma dessas almas que compreenderam o sentido desta existência e passaram a vida esperando pela vinda do Senhor. Nesta oração, retirada de seu famoso Diário, nós nos unimos a todas essas almas que rezam no silêncio dos claustros, manifestando a Deus o desejo de vê-lO reinar também, e em primeiríssimo lugar, em nosso coração. — Vinde, Senhor Jesus!

Espera da alma pela vinda do Senhor

Não sei, Senhor, a hora em que vireis;
Portanto velo sem cessar e fico atenta
Como Vossa esposa eleita,
Porque sei que gostais de vir sem ser notado,
Mas o coração puro, de longe, Senhor, Vos perceberá.

Aguardo-Vos, Senhor, com quietude e silêncio,
Com grande saudade em meu coração,
Com sede indomável.
Sinto que meu amor para Convosco se transforma em fogo,
E como uma chama se elevará ao céu no final da vida,
E então serão satisfeitos todos os meus desejos.

Vinde logo — meu Senhor Dulcíssimo,
E levai o meu coração sedento
Lá, até Vós, a essas sublimes regiões celestes,
Onde perdura a Vossa vida eterna!

Porque a vida na Terra é contínua agonia,
Porque o meu coração sente que para as alturas foi criado.
E nada se importa com as planícies desta vida,
Porque a minha Pátria é o céu. — Creio nisto firmemente.


Diário de Santa Faustina Kowalska, n. 1589.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

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“Eu, Irmã Faustina, estive nos abismos do Inferno”

“Eu, Irmã Faustina, por ordem de Deus, estive nos abismos do Inferno para falar às almas e testemunhar que o Inferno existe.”

Um dos argumentos de que mais se servem os inimigos da Igreja para pôr em questão a verdade do inferno diz respeito à misericórdia divina. "Se Deus é misericordioso", dizem, "não condenará ninguém a fogo nenhum, quanto mais eternamente."

O primeiro problema por trás dessa forma de pensamento é, sobretudo, a falta de fé. Se Jesus Cristo realmente é Deus, como crê e ensina desde o princípio a Igreja Católica, e se foi Ele próprio quem disse, conforme consignado inúmeras vezes no Evangelho, que existe o "inferno" (cf. Mt 11, 23; 23, 33; Lc 12, 5; 16, 23), o "fogo eterno" (cf. Mt 18, 8; 25, 41), a "geena" (cf. Mt 5, 22ss; 10, 28; Mc 9, 43ss), ou o "castigo eterno" (cf. Mt 25, 46), a única resposta possível do ser humano é crer em suas palavras. O próprio Deus falou; a segunda Pessoa da Santíssima Trindade se pronunciou, Ele que nec falli nec fallere potest, isto é, "não se engana nem nos pode enganar" [1]. Ou aceitamos por isso a verdade do inferno, ou então estamos brincando quando dizemos crer em Deus, em Jesus e na sua Igreja. Quem escolhe da doutrina que o próprio Senhor revelou somente aquilo que lhe agrada, pondo de lado o que lhe desagrada, não é em Deus que crê, mas em si mesmo; não é católico, mas herege.

É claro que a teologia pode explicar a doutrina do inferno e demonstrar, àqueles que já crêem, a razoabilidade desse ensinamento de Nosso Senhor. O Deus cristão, afinal de contas, é também λόγος ("logos"); o que Ele faz não nasce do puro arbítrio, como acreditam os voluntaristas, os fideístas ou os muçulmanos. Ao mesmo tempo, porém, àqueles que estão do lado de fora, nenhuma explicação será suficiente para que creiam. Se essas pessoas, resistindo, não derem seu assentimento de fé à autoridade de Deus revelante, aceitando em sua totalidade o depositum fidei que a Igreja custodia e anuncia, todo e qualquer esforço argumentativo será em vão.

Nesse sentido, a visão de Santa Faustina Kowalska, descrita a seguir, serve menos para convencer os descrentes que para confirmar, no coração dos católicos mornos ou vacilantes, a veracidade da doutrina católica de sempre sobre o inferno. Pode-se muito bem, é verdade, duvidar dessa revelação privada que recebeu a Apóstola da Misericórdia, assim como se pode duvidar da visão do inferno de Fátima e de outros tantos fenômenos místicos semelhantes por que passaram os santos da Igreja [2]. O que não pode questionar, ao menos quem foi batizado na fé da Igreja e enche a boca para se dizer "católico", é que o inferno existe e a condenação eterna é uma possibilidade real e terrível, confirmada pelos Evangelhos, pela Tradição e pelo Magistério — ainda que, na verdade, os teólogos avessos a essas revelações privadas (aprovadas pela Igreja!) sejam, na maioria das vezes, justamente os hereges que rechaçam essa parte, incômoda, da doutrina católica.

Quem tem fé, entretanto, na vida eterna (e talvez até seja devoto da Divina Misericórdia), atente-se bem às palavras dessa santa religiosa, que recebeu de Deus o privilégio de visitar o inferno: "Estou escrevendo isso por ordem de Deus, para que nenhuma alma se escuse dizendo que não há Inferno, ou que ninguém esteve lá e não sabe como é"; "Eu, Irmã Faustina, por ordem de Deus, estive nos abismos do Inferno para falar às almas e testemunhar que o Inferno existe". O testemunho de Santa Faustina é dirigido a nós, homens céticos e incrédulos do século XXI!

Escutemos o apelo que a Misericórdia Divina nos faz e, temendo a principal pena do inferno, que é "a perda de Deus", aprendamos a evitar o pecado, que nos faz viver a amargura e a infelicidade ainda nesta vida.

Hoje conduzida por um Anjo, fui levada às profundezas do Inferno. É um lugar de grande castigo, e como é grande a sua extensão. Tipos de tormentos que vi: o primeiro tormento que constitui o Inferno é a perda de Deus; o segundo, o contínuo remorso de consciência; o terceiro, o de que esse destino já não mudará nunca; o quarto tormento, é o fogo, que atravessa a alma, mas não a destrói; é um tormento terrível, é um fogo puramente espiritual aceso pela ira de Deus; o quinto é a contínua escuridão, um horrível cheiro sufocante e, embora haja escuridão, os demônios e as almas condenadas vêem-se mutuamente e vêem todo o mal dos outros e o seu; o sexto é a continua companhia do demônio; o sétimo tormento, o terrível desespero, ódio a Deus, maldições, blasfêmias. São tormentos que todos os condenados sofrem juntos, mas não é o fim dos tormentos. Existem tormentos especiais para as almas, os tormentos dos sentidos. Cada alma é atormentada com o que pecou, de maneira horrível e indescritível. Existem terríveis prisões subterrâneas, abismos de castigo, onde um tormento se distingue do outro. Eu teria morrido vendo esses terríveis tormentos, se não me sustentasse a onipotência de Deus. Que o pecador saiba que será atormentado com o sentido com que pecou, por toda eternidade. Estou escrevendo isso por ordem de Deus, para que nenhuma alma se escuse dizendo que não há Inferno, ou que ninguém esteve lá e não sabe como é.

Eu, Irmã Faustina, por ordem de Deus, estive nos abismos do Inferno para falar às almas e testemunhar que o Inferno existe. Sobre isso não posso falar agora, tenho ordem de Deus para deixar isso por escrito. Os demônios tinham grande ódio contra mim, mas, por ordem de Deus, tinham que me obedecer. O que eu escrevi dá apenas a pálida imagem das coisas que vi. Percebi, no entanto, uma coisa: o maior número das almas que lá estão, é justamente daqueles que não acreditavam que o Inferno existisse. Quando voltei a mim, não podia me refazer do terror de ver como as almas sofrem terrivelmente ali e, por isso, rezo com mais fervor ainda pela conversão dos pecadores; incessantemente, peço a misericórdia de Deus para eles. "Ó meu Jesus, prefiro agonizar até o fim do mundo nos maiores suplícios a ter que Vos ofender com o menor pecado que seja."

[...]

Hoje ouvi as palavras: No Antigo Testamento, Eu enviava Profetas ao Meu povo com ameaças. Hoje estou enviando-te a toda a humanidade com a Minha misericórdia. Não quero castigar a sofrida humanidade, mas desejo curá-la estreitando-a ao Meu misericordioso Coração. Utilizo os castigos, apenas quando eles mesmos Me obrigam a isso, e é com relutância que a Minha mão empunha a espada da justiça. Antes do dia da justiça estou enviando o dia da Misericórdia. Eu respondi: "Ó meu Jesus, falai Vós mesmo às almas, porque as minhas palavras são insignificantes. [3]

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Dei Filius (24 de abril de 1870), III: DS 3008.
  2. A expressão "Pode-se muito bem", aqui, deve ser lida de acordo com as orientações do Catecismo da Igreja Católica a esse respeito: "No decurso dos séculos tem havido revelações ditas 'privadas', algumas das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. Todavia, não pertencem ao depósito da fé. O seu papel não é 'aperfeiçoar' ou 'completar' a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja." (§ 67)
  3. Diário de Santa Faustina, n. 741 e 1588.

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Indulgência Plenária na Festa da Divina Misericórdia

Saiba por que a Igreja celebra, neste domingo, a festa da Divina Misericórdia e aprenda como lucrar a indulgência plenária nessa celebração.

A devoção à Divina Misericórdia, de acordo com as revelações de Nosso Senhor a Santa Faustina Kowalska, é um grande dom concedido à Igreja Católica no terceiro milênio. Essa expressão de piedade foi de tal modo reconhecida e aprovada pela Igreja que, em 2000, o Papa São João Paulo II — conterrâneo de Santa Faustina — instituiu para a Igreja universal a festa da Divina Misericórdia, a ser celebrada todos os anos, na Oitava da Páscoa.

Mas por que instituir essa festa justamente no segundo domingo do Tempo Pascal?

Além do pedido expresso de Jesus Misericordioso [1], uma das razões pode ser encontrada no fato de que, nesse dia, a liturgia católica relembra com particular intensidade dois grandes instrumentos da divina misericórdia para a salvação humana: os sacramentos do Batismo e da Penitência. Esses dois sacramentos são chamados também de "sacramentos de mortos", porque foram "instituídos principalmente para restituir a vida da graça às almas mortas pelo pecado" [2]: o Batismo, como a porta pela qual todos temos de passar; e a Confissão, como uma "segunda tábua de salvação" [3], pois é por ela que são restituídos à graça os que voltaram a cair depois de terem sido batizados.

De fato, este domingo da Oitava da Páscoa era chamado, desde os primeiros tempos da Igreja, de Dominica in albis. A expressão latina significa "em vestes brancas" e faz referência ao fato de que, durante essa celebração, os neófitos que foram batizados na Vigília Pascal pela primeira vez aparecem com suas vestes alvas, simbolizando a brancura da alma purificada do pecado. Também neste domingo, o Evangelho proclama a instituição do sacramento da Penitência, quando Nosso Senhor Ressuscitado se põe no meio dos discípulos e, soprando sobre eles, diz: "Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos." (Jo 20, 22-23)

Para fazer com que vivêssemos mais intensamente esta celebração, o Papa São João Paulo II estabeleceu, em 2002, através de um decreto com "vigor perpétuo", que este Domingo da Divina Misericórdia fosse enriquecido com a Indulgência Plenária, entre outras razões, para que os fiéis pudessem " alimentar uma caridade crescente para com Deus e o próximo". Os termos da concessão são os seguintes:

Concede-se a Indulgência plenária nas habituais condições (Confissão sacramental, Comunhão eucarística e orações segundo a intenção do Sumo Pontífice) ao fiel que no segundo Domingo de Páscoa, ou seja, da "Misericórdia Divina", em qualquer igreja ou oratório, com o espírito desapegado completamente da afeição a qualquer pecado, também venial, participe nas práticas de piedade em honra da Divina Misericórdia, ou pelo menos recite, na presença do Santíssimo Sacramento da Eucaristia, publicamente exposto ou guardado no Tabernáculo, o Pai-Nosso e o Credo, juntamente com uma invocação piedosa ao Senhor Jesus Misericordioso (por ex., "Ó Jesus Misericordioso, confio em Ti").

Concede-se a Indulgência parcial ao fiel que, pelo menos com o coração contrito, eleve ao Senhor Jesus Misericordioso uma das invocações piedosas legitimamente aprovadas.

Também aos homens do mar, que realizam o seu dever na grande extensão do mar; aos numerosos irmãos, que os desastres da guerra, as vicissitudes políticas, a inclemência dos lugares e outras causas do género, afastaram da pátria; aos enfermos e a quantos os assistem e a todos os que, por uma justa causa, não podem abandonar a casa ou desempenham uma actividade que não pode ser adiada em benefício da comunidade, poderão obter a Indulgência plenária no Domingo da Divina Misericórdia, se com total detestação de qualquer pecado, como foi dito acima, e com a intenção de observar, logo que seja possível, as três habituais condições, recitem, diante de uma piedosa imagem de Nosso Senhor Jesus Misericordioso, o Pai-Nosso e o Credo, acrescentando uma invocação piedosa ao Senhor Jesus Misericordioso (por ex., "Ó Jesus Misericordioso, Confio em Ti").

Se nem sequer isto pode ser feito, naquele mesmo dia poderão obter a Indulgência plenária todos os que se unirem com a intenção de espírito aos que praticam de maneira ordinária a obra prescrita para a Indulgência e oferecem a Deus Misericordioso uma oração e juntamente com os sofrimentos das suas enfermidades e os incómodos da própria vida, tendo também eles o propósito de cumprir logo que seja possível as três condições prescritas para a aquisição da Indulgência plenária.

Para aqueles que não sabem ou não se lembram mais, é sempre válido recordar o que são as indulgências:

Aproveitemos essa concessão da Igreja, por ocasião da festa da Divina Misericórdia, para fortalecermos o nosso amor a Cristo, vivendo a vida da graça, e mantermos "o espírito desapegado completamente da afeição a qualquer pecado", pois só assim poderemos receber de Deus as indulgências que Ele, misericordiosíssimo, sempre nos quer conceder.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Diário de Santa Faustina, n. 49: "Eu desejo que haja a Festa da Misericórdia [...] no primeiro domingo depois da Páscoa".
  2. Catecismo de São Pio X, n. 539.
  3. "O primeiro remédio para os que atravessamos os mares é nos conservarmos num navio em bom estado; o segundo, se ele naufraga, apegarmo-nos a uma tábua. Do mes­mo modo, o primeiro remédio no mar desta vida é conservarmos a nossa integridade; o segundo, recuperarmos essa integridade pela penitência, se a perdemos pelo pecado." (Santo Tomás de Aquino, S. Th. III, q. 84, a. 6)

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A bondade que todo cristão deveria ter

Se é certo que bondade não significa frouxidão, firmeza também não significa estupidez

O mês dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Jesus pede necessariamente uma meditação sobre a bondade de Deus. Não por acaso um famoso escritor espiritual do século XIX dizia que "a bondade se mostra o melhor paladino do preciosíssimo Sangue" [1]. É que na raiz do sacrifício redentor, bem como de todo o mistério da encarnação, marcado por tanta angústia e sofrimento, não poderia estar outra coisa senão a infinita compaixão que o Senhor tem de Seus filhos, sobretudo daqueles mais necessitados de Sua misericórdia.

"Só Deus é bom" (Mc 10, 18). Essas são as palavras que Cristo dirige ao jovem rico quando este O interroga sobre o caminho para a vida eterna. O jovem desejava uma orientação acerca do que é preciso ser feito para se alcançar a coroa do Céu. Reconhecendo a Sua sabedoria e a autoridade com que pregava, o rapaz Lhe diz: "Bom mestre, que farei para alcançar a vida eterna?" (Mc 10, 17). A resposta de Jesus, embora induza o leitor desatento a questionar a Sua divindade, transmite um ensinamento assaz importante: toda bondade tem como origem a Santíssima Trindade. Jesus, portanto, é um "bom mestre" não porque ensina coisas proveitosas, mas porque Sua doutrina vem da fonte da verdade, do Criador de tudo o que é bom e belo.

O homem, enquanto criatura de Deus, participa de Sua bondade num grau ainda maior que os demais seres existentes, pois é o único criado à Sua "imagem e semelhança" (Gn 1, 26). Mais: como ser que ainda caminha para a perfeição, é convidado por Deus a crescer em bondade, a fim de unir-se à família trinitária.

A mancha do pecado original, porém, provocou uma desordem tão profunda no coração humano, que suas ações ficaram dramaticamente inclinadas para o mal, de modo que aquele chamado de Deus à perfeição acontece de ser não somente negligenciado, mas até ignorado. Essas más inclinações, por sua vez, só podem ser superadas na medida em que o homem se dedicar à vida interior, ou seja, a uma intimidade generosa com a Pessoa de Cristo.

Eis aqui, então, um problema demasiado difícil para os homens modernos que desejam ser bons como pede o Senhor.

De muitos modos, esta época não tem favorecido a virtude da bondade. Há como que uma guerra acirrada contra qualquer coisa que lembre a caridade, a continência, a fidelidade, a sinceridade, a temperança e tantos outros hábitos bons. Veja-se, por exemplo, a maneira como os "heróis" costumam ser apresentados nos filmes, novelas e outros programas de entretenimento vulgar. A sua figura é tão estereotipada e cheia de afetações que chega a causar asco em qualquer espírito viril e sensato, ao passo que os "vilões" aparecem muito mais interessantes: são inteligentes, charmosos, bem-sucedidos, fortes etc. Isso quando os papéis não se misturam, com heróis "pilantras" e vilões "piedosos". Trata-se de uma estratégia realmente perversa de inversão de valores.

Os efeitos dessa confusão não poderiam ser mais desastrosos. Muitos, influenciados pela mentalidade moderna e pretendendo afastar qualquer sombra de fraqueza, adotam um discurso tão rude e severo, que são incapazes de transmitir compaixão ou misericórdia. Para uma alma cristã, poucas coisas há que sejam tão trágicas quanto essa. O rosto do cristianismo termina desfigurado, transformado em uma caricatura de "moralismo".

É preciso entender que a bondade é um atributo divino e, sem ela, nenhum cristão pode realmente exercer um ministério eficaz. Isso já deveria ser claro para os católicos, dada a quantidade de passagens da Sagrada Escritura e do Magistério que se referem ao amor e à misericórdia de Deus por Suas criaturas. Aliás, foi justamente a Sua bondade que Ele fez passar diante de Moisés, proclamando: "O Senhor, o Senhor [YHWH, YHWH] é um Deus clemente e compassivo, sem pressa para se indignar e cheio de misericórdia e fidelidade" ( Ex 34, 6).

É neste sentido que Dom Chautard escreve em seu famosíssimo livro A alma de todo apostolado uma página toda dedicada à busca da bondade. "Quanto mais o coração estiver unido a Jesus Cristo, tanto mais se tornará participante da qualidade principal do coração divino e humano do redentor, da sua bondade, indulgência, benevolência e compaixão", diz o monge trapista [2]. Disto se conclui que a evangelização não depende tanto da eloquência e dos métodos do evangelizador, apesar de serem elementos importantes, mas do grau de unidade com que esse mesmo evangelizador se relaciona com Jesus. Um missionário cheio do Espírito Santo irradia a bondade de Deus e convence os corações, até os mais duros, ainda que a mensagem cristã contrarie seus estilos de vidas e desejos.

Essa certeza deve ser acolhida plenamente pelos católicos, e, de maneira especial, por aqueles que, em seus apostolados, ainda insistem numa retórica agressiva e demasiado violenta. Se é certo que bondade não significa frouxidão, firmeza também não significa estupidez. Aqui, portanto, cabe o sábio conselho de São Josemaría Escrivá: "Sê intransigente na doutrina e na conduta. — Mas suave na forma. — Maça poderosa de aço, almofadada. — Sê intransigente, mas não sejas cabeçudo" [3].

Um papa comumente relacionado à defesa da Tradição é São Pio X. A sua heroica luta contra o modernismo, "síntese de todas as heresias", tornou-o um grande cavaleiro da fé para muitos católicos. Mas, atenção, a mera defesa dos costumes cristãos não torna ninguém santo. De fato, Pio X foi uma figura notável no Trono de Pedro porque soube conjugar a fidelidade aos princípios com a caridade necessária para com todas as almas, principalmente com a dos "inimigos". É particularmente tocante o relato que Dom Chautard apresenta em A alma de todo apostolado sobre esse grande pontífice:

"A um leigo eminente ouvimos contar o seguinte fato: Falando com S. Pio X, tinha esse leigo, no decurso da conversação, desfechado algumas palavras mordentes sobre um inimigo da Igreja. 'Meu filho, disse-lhe o papa, não aprovo a sua linguagem. Como castigo, ouça esta história. Acabara de chegar a sua primeira paróquia um sacerdote que eu conheci muito bem. Julgou ele do seu dever visitar todas as famílias: judeus, protestantes, até mações, ninguém foi excluído, e o pároco anunciou do púlpito que renovaria a visita todos os anos. Tanto se admiraram disto os colegas dele que se queixaram ao bispo. Este mandou logo chamar o acusado e repreendeu-o com veemência. Excelência, respondeu-lhe modestamente o pároco, Jesus no Evangelho ordena ao pastor que conduza ao aprisco todas as suas ovelhas, oportet illas addúcere. Como lograr esse resultado sem ir à procura delas? De mais a mais, eu nunca transijo com os princípios; limito-me a testemunhar meu interesse e minha caridade a todas as almas, mesmo às desgraçadas, que Deus me confiou. Anunciei essas visitas do púlpito; e se é desejo formal de V.Exª que cesse de as fazer, queira ter a bondade de me dar por escrito essa proibição, a fim de que se saiba que eu apenas obedeço às ordens de V.Exª. Abalado pelo acerto das palavras, o bispo não insistiu. O futuro veio depois dar razão a esse sacerdote que teve a alegria de converter algumas dessas almas desgarradas e impôs às outras grande respeito pela nossa santa religião. O humilde sacerdote veio a ser, por vontade de Deus, o papa que agora lhe dá, meu filho, esta lição de caridade. Seja, pois inabalável nos princípios, mas estenda sua caridade a todos os homens, mesmo que sejam os piores inimigos da Igreja'". [4]

Jesus foi um exemplo de virilidade na conduta com as pessoas de Sua época. Quando necessário, jogou cadeiras e mesas para o alto, admoestou e corrigiu a muitos. Mas, ao mesmo tempo, não deixou de compadecer-Se dos sofrimentos humanos, sobretudo na hora da crucifixão, hora em que Se calou e aceitou todas as humilhações pelo bem da humanidade. Essa é a bondade de Deus, da qual todos os cristãos devem tornar-se fiéis imitadores. Para tanto, não há melhor caminho que o da união com o preciosíssimo sangue de Cristo, derramado pela remissão dos nossos pecados.

Neste mês de julho, mês do Preciosíssimo Sangue, cada católico aprenda a ser "manso e humilde de coração", pois o Reino dos Céus é dos que assim agem (cf. Mt 5, 5). E que Nossa Senhora das Dores interceda por todos nós aos pés da cruz de Nosso Senhor.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. FÁBER apud CHAUTARD, 2015, p. 114.
  2. CHAUTARD, Jean-Baptiste. A alma de todo apostolado. São Paulo: Cultor de Livros, 2015, 252 p.
  3. São Josemaria Escrivá. Caminho, cap. 17, n. 397.
  4. CHAUTARD, op. cit., p. 115.

| Categoria: Espiritualidade

Vai e vive como quiseres?

Quando livrou da morte a mulher adúltera, Nosso Senhor não lhe deu uma “licença para pecar”.

Por Equipe CNP — A passagem da adúltera perdoada, narrada por Jo 8, 1-11, constitui, sem dúvida, um dos mais belos trechos das Sagradas Escrituras: ilustra a sabedoria de Jesus, o modo admirável como Sua mansidão se coaduna com a Sua justiça, mas, sobretudo, dá testemunho da infinita misericórdia de Deus, que não quer a morte do pecador, mas que ele se arrependa e viva (cf. Ez 33, 11).

Neste ponto, a mensagem de Cristo toca a todos nós, filhos de Adão, já que "todos pecaram e estão privados da glória de Deus" (Rm 3, 23). Foi o que Jesus lembrou quando disse aos escribas e mestres da Lei: "Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra". Ao dizê-lo, Cristo fazia referência principalmente às más intenções que traziam em seu coração — afinal, ao pedir que fosse apedrejada a adúltera, quem eles realmente queriam lapidar era Jesus —, mas também à condição pessoal de cada ser humano após a Queda e o pecado original. O Senhor não se opunha ao cumprimento da justiça — Ele mesmo disse que não tinha vindo para abolir a Lei, mas levá-la à plenitude (cf. Mt 5, 17). O que a Sua sentença dizia era: "Seja punida a pecadora, mas não por pecadores; seja cumprida a lei, mas não por prevaricadores da lei, porque, como diz Rm 2, 1, 'julgando os outros condenas a ti mesmo, já que fazes as mesmas coisas, tu que julgas'" [1]. Não é justo, de fato, que os réus sejam condenados por juízes injustos; que tenham argueiros apontados em seus olhos por quem traz uma trave turvando a própria visão (cf. Mt 7, 5). Por isso, a fé cristã no juízo de Deus não é só causa de grande temor — "é terrível cair nas mãos do Deus vivo!" (Hb 10, 31) —, mas também motivo de grande consolação: no fim de nossas vidas, seremos julgados por um Juiz sumamente bom, perfeito e justo. É a Ele, não aos homens, que deveremos prestar contas.

E é justamente diante de uma das Pessoas da Santíssima Trindade (unus ex Trinitate) que se encontra aquela mulher flagrada em adultério. Ela sabia bem que Jesus não era qualquer um: não só ouve os escribas chamando-O de Διδάσκαλε (didascále), "mestre", como ela mesma O chama de κύριε (kirie), "Senhor" [2]. Quando ouve de Sua boca que quem não tivesse pecado começasse a apedrejá-la, talvez até pensasse consigo que a primeira pedra viria justamente de Cristo, o Cordeiro imaculado e sem mancha, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado (cf. Hb 4, 15).

Ele, porém, não veio para condenar o mundo, mas para salvar as pessoas de seus pecados. São João Batista se refere a Ele como "o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" ( Jo 1, 29). E Ele mesmo diz, falando a Nicodemos, que "Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16). Por isso, também à mulher Ele diz: "Nem eu te condeno".

Quem quer que se detenha nessas linhas talvez fique com uma impressão demasiado doce e suave do Evangelho. Afinal, não foi o mesmo Cristo quem disse, em outro lugar, que o adultério é condenável não só por atos, mas até por pensamentos (cf. Mt 5, 28)? Não foi Ele quem chegou a proibir o próprio divórcio (cf. Mt 19, 9)? E não foi também Ele quem, sendo Deus, ditou o mandamento que diz: "Não cometerás adultério" (Ex 20, 14)? Como pode ser que não repreenda a mulher adúltera e aparentemente deixe as coisas por isso mesmo?

A pedagogia divina, no entanto, ao mesmo tempo em que não aniquila o pecador, também não faz parceria com o pecado. Cristo não condena a mulher, mas, ao despedi-la, diz: " Vai e não peques mais". Santo Tomás de Aquino, comentando esse versículo, diz:

"Havia duas coisas nesta mulher: a natureza e a culpa. O Senhor podia ter condenado ambas: a natureza, ordenando que fosse apedrejada, e a culpa, não a absolvendo. Podia também ter absolvido ambas, se concedesse à mulher licença para pecar, dizendo: 'Vai e vive como quiseres, está segura da minha libertação. Não importa o quanto peques, eu também te livrarei das torturas da Geena e do Inferno'. Mas o Senhor, que não ama a culpa e não favorece o pecado, condenou a culpa, não a natureza, dizendo: 'Não peques mais', pelo que mostrou quão doce é pela mansidão e quão reto é pela verdade." [3]

Graças, portanto, sejam dadas a Nosso Senhor Jesus Cristo! Não nos condenou à morte por nossos pecados, mas veio nos dar a vida plena! Veio libertar-nos, não da morte do corpo, como fez com a adúltera, mas da morte da alma, que é a pior de todas! Não bastava que fosse poupada das pedras deste mundo, aquela mulher precisava ser livre também da condenação eterna. Porque não seria, de fato, plena misericórdia que, salvando a pele daquela mulher, Nosso Senhor deixasse que se perdesse a sua alma, o que ela tinha de mais valioso. É por isso que Ele lhe diz: "Vai e não peques mais". Ordena a ela que vá, sim, mas também que fique. Manda fisicamente que vá embora, mas que espiritualmente fique consigo, porque sabe que só assim ela será verdadeiramente livre da morte.

Hoje o Senhor diz também a nós: "Vai e não peques mais". Hoje quer dizer "a todo momento", porque Ele quer estar conosco sempre. Mas a Sua misericórdia abundante se derrama sobre nós principalmente quando nos perdoa no sacramento da Confissão e quando Se une a nós no sacramento da Eucaristia; quando nos livra de nossas faltas graves na Penitência e nos purifica de nossos pecados veniais na Comunhão. Sempre que nos despedirmos do Senhor que nos visita nesses sacramentos, lembremo-nos de Sua voz afável, mansa e amorosa, convidando-nos à vida da perfeição e como que ecoando através dos séculos aquela pergunta: "Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se vem a perder a sua alma?" (Mc 8, 36).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Sugestões

Referências

  1. Santo Tomás de Aquino, Comentário ao Evangelho de São João, VIII, 1, n. 1132.
  2. Cf. Catecismo da Igreja Católica, § 446-452.
  3. Santo Tomás de Aquino, Comentário ao Evangelho de São João, VIII, 1, n. 1139.

| Categoria: Doutrina

A pedagogia de Deus

Para evangelizar, não precisamos inventar fórmulas novas. O modelo verdadeiramente eficaz — e provado na história pela vida dos santos — está à nossa inteira disposição, nos Evangelhos.

A Revelação de Deus iniciou-se com a criação. Desde o princípio, o Criador manifestou-Se à criatura, a fim de animá-la a penetrar cada vez mais na vida da graça. Essa Revelação adquiriu um significado particularmente novo no contexto do pecado original. O que antes já estava nos planos divinos, isto é, a salvação do homem por meio da comunhão plena com o Senhor, tornou-se mais profundo, à medida que a criatura precisava agora não somente da salvação como também da redenção. Em resumo, Deus falou conosco de diversas maneiras para ensinar-nos a amar. Isso nos permite dizer que a "Revelação não é mais do que a educação do gênero humano" ao amor [1].

A pregação de Jesus, último estágio da Revelação Divina, ocorreu na "plenitude dos tempos" (Gl 4, 4). Cristo revelou os projetos de Deus através dos milagres que realizou, dos discursos que proferiu, da caridade que praticou e, sobretudo, pelo derramamento de Seu sangue no sacrifício da cruz. Ele salvou a humanidade — abrindo-lhe as portas do Céu — e a redimiu — purificando-a da mancha do pecado original. Jesus falou com clareza aos ouvidos humanos; mostrou que o único caminho para o Céu é o da renúncia de si mesmo, ou seja, do desapego das coisas deste mundo, para que possamos, uma vez unidos à glória divina, viver livremente, enraizados n'Ele, firmes na fé.

Neste tempo de nova evangelização, um apelo fortemente repetido pelos últimos papas, devemos voltar nossos olhos para a pedagogia de Deus, procurando perscrutar de que modo Ele transmitiu Seus ensinamentos. Com certeza, Seu método pedagógico, manifestado principalmente no ministério de Cristo, é a fonte segura para nossos projetos pastorais. Não precisamos inventar fórmulas novas nem pseudo adaptações do Evangelho, quando o modelo verdadeiramente eficaz — e provado na história pela vida dos santos — está à nossa inteira disposição. É claro que, em decorrência das fortes mudanças culturais, o evangelizador precisa esforçar-se para transmitir a Boa Nova numa linguagem sempre compreensível [2]. Mas isso não significa modificar o conteúdo da fé, mutilando artigos que pareçam inconvenientes. A pregação cristã nunca deve seguir o caminho da ambiguidade. A atualidade da Palavra de Deus é "a atualidade da verdade novamente dita e pensada de novo" [3].

Vejamos o exemplo de Jesus: Ele começa Seu ministério com a oração (cf. Mt 4, 1-2; Mc 1, 12s; Lc 4, 1-13). Isso serve, em primeiro lugar, para nos recordar que todo empreendimento espiritual, seja grande seja pequeno, deve partir do diálogo fecundo com Deus. Em um tempo em que é grande a tentação do fazer, a tentação de transformar o cristianismo em um moralismo da ação, o escondimento de Cristo durante os seus primeiros trinta anos leva-nos a reconsiderar a importância da oração no apostolado. Dobrar os joelhos para conversar com o Senhor é o remédio eficaz contra a vanglória de achar que somos os salvadores da humanidade. "Sem mim nada podeis fazer" (Jo 15, 5). Essa exortação de Jesus aos apóstolos, radicada na certeza de que somente na comunhão com Ele é possível produzir muitos frutos, deve ficar muito bem gravada em nossos corações (cf. Jo 15, 5).

A pregação de Cristo também precisa nortear nosso apostolado. É muito comum escutarmos que, na apresentação dos artigos do credo, deve-se dar primazia mais àquilo que manifesta a beleza da verdade e a comunhão do que a discordâncias desnecessárias. O encontro com o amor, dizem, é suficiente para a conversão. Isso é verdade até certo ponto. Primeiro, é verdade se esse amor significa a Pessoa de Cristo, a sua doação e sacrifício por nós, com todas as suas exigências, sem atenuações politicamente corretas. Segundo, o encontro com o amor provoca mesmo uma mudança em nós. Mas essa mudança nem sempre é a conversão. Notem a atitude dos fariseus: mesmo com todos os milagres de Jesus, com o reavivamento de Lázaro, eles tramam a Sua morte (cf. Jo 12, 37s). Ora, os fariseus também tiveram um encontro pessoal com Cristo. Porém, faltava-lhes o dom da fé para quebrar a soberba e o orgulho.

É uma grande ingenuidade achar que tudo pode se resolver simplesmente com uma pregação bonita e agradável aos ouvidos das pessoas. Ninguém melhor que Jesus para manifestar Sua misericórdia. E, ainda assim, os homens o rejeitaram. Se fôssemos dar ouvidos a alguns apologistas modernos, seríamos obrigados a dizer que o método de Jesus falhou porque foi rígido demais. No entanto, Ele não evitou polêmicas; disse abertamente: "Julgais que vim trazer paz à terra? Não, digo-vos, mas separação" (Lc 12, 51). No chamado discurso eucarístico, não temeu perder discípulos ao pregar a salvação por meio de sua carne: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna" (Jo 6, 54). A misericórdia, portanto, não é uma graça barata. Trata-se, ao contrário, de um anúncio que nos leva à penitência. Com efeito, a obstinação dos fariseus não nos coloca diante do fracasso de Jesus; coloca-nos diante da liberdade humana. Eles não creram porque não quiseram, porque aquelas palavras eram duras demais. "Quem o pode admitir?" (Jo 6, 60).

Existe, sim, uma hierarquia das verdades da doutrina católica, cujo anúncio, mesmo nos assuntos morais, deve ser feito de maneira tal, a fim de evitar desproporções entre a lei e a graça. Não podemos colocar fardos pesados sobre as costas dos fiéis. Por outro lado, isso não exclui a responsabilidade do pastor de sempre levá-los à busca da perfeição, pois, como ensinou São João Paulo II, "seria um erro gravíssimo concluir (...) que a norma ensinada pela Igreja é em si própria apenas um 'ideal' que deve posteriormente ser adaptado, proporcionado, graduado — dizem — às concretas possibilidades do homem" [4]. Na Encíclica Veritatis Splendor, lemos o seguinte:

Neste contexto, abre-se o justo espaço à misericórdia de Deus pelo pecado do homem que se converte, e à compreensão pela fraqueza humana. Esta compreensão não significa nunca comprometer e falsificar a medida do bem e do mal, para adaptá-la às circunstâncias. Se é humano que a pessoa, tendo pecado, reconheça a sua fraqueza e peça misericórdia pela própria culpa, é inaceitável, pelo contrário, o comportamento de quem faz da própria fraqueza o critério da verdade do bem, de modo a poder-se sentir justificado por si só, mesmo sem necessidade de recorrer a Deus e à Sua misericórdia. Semelhante atitude corrompe a moralidade da sociedade inteira, porque ensina a duvidar da objetividade da lei moral em geral e a rejeitar o caráter absoluto das proibições morais acerca de determinados atos humanos, acabando por confundir todos os juízos de valor [5].

Apascentar, dizia São Pio X, é, antes de mais nada, ensinar a doutrina. Uma vez que a Igreja é naturalmente missionária, "a vocação cristã só pode nascer dentro duma experiência de missão" [6]. A evangelização é uma ordem divina e, precisamente por isso, um direito e um dever da Igreja. Esse direito-dever se torna ainda mais grave diante das provações. Todos os santos foram grandes missionários. Mesmo na velhice, Santa Hildegarda de Bingen não deixou de fazer viagens missionárias para exortar os cristãos "a uma vida em conformidade com a própria vocação" [7]. O seu anúncio claro e, por vezes, severo tratou de debelar o erro reformista dos cátaros, "recordando-lhes que uma verdadeira renovação da comunidade eclesial não se obtém tanto com a mudança das estruturas, quanto com um sincero espírito de penitência e um caminho concreto de conversão" [8].

O filólogo alemão Rosenstock-Huessy indica em seus estudos que os momentos de crise social são justamente aqueles em que a sociedade deseja ouvir mas não existe quem lhe dirija a palavra [9]. O povo de Deus pede uma resposta de seus pastores, segundo aquele desejo natural de abertura ao sagrado, dada a importância desse mesmo desejo ser purificado pela Revelação. Aqui se insere o serviço prestado pelo Magistério. É obrigação da Igreja orientar a sociedade. É obrigação dos sacerdotes "ajudar com o próprio exemplo aqueles que governam, purificando os próprios costumes de todo o mal e tornando-os bons [...] para que alcancem, com o povo que lhes é confiado, a vida eterna", como também é obrigação dos demais "iluminar e ordenar de tal modo as realidades temporais, a que estão estreitamente ligados", a fim de que "sejam sempre feitas segundo Cristo e progridam e glorifiquem o Criador e Redentor" [10].

Nas pegadas de Jesus, a Igreja procura "expor muito bem o que se deve crer, esperar ou fazer; mas, sobretudo, [...] pôr sempre em evidência o amor de nosso Senhor, de modo que cada qual compreenda que qualquer ato de virtude perfeitamente cristão, não tem outra origem nem outro fim senão o amor" [11]. Não podemos nos conformar com este mundo. Não podemos calar a voz dos profetas. Não podemos ignorar o dilúvio de sangue, com o qual Jesus lavou nossas imundícies. A salvação da humanidade está, sim, no Corpo Místico de Cristo, que é a sua única Igreja. Anunciando isso, estamos anunciando a verdadeira misericórdia.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. SPIRAGO, Francisco. Catecismo Católico Popular (trad. port. de Artur Bivar). 3.ª ed., Lisboa: União Gráfica, 1938, vol. 1, p. 54.
  2. Cf. Comissão Teológica Internacional, Fé e Inculturação, 1988.
  3. Joseph Ratzinger, A atualidade doutrinal do Catecismo da Igreja Católica dez anos após a sua publicação (9 out. 2002).
  4. São João Paulo II, Carta Encíclica Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993), n. 103.
  5. Id., n. 104.
  6. Papa Francisco, Mensagem para o 52.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações (26 de abril de 2015).
  7. Papa Bento XVI, Audiência Geral (8 de setembro de 2010).
  8. Idem.
  9. Cf. ROSENSTOCK-HUESSY, Eugen. A Origem da Linguagem. São Paulo: Record, 272 pp.
  10. Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium (21 de novembro de 1964), nn. 26-31.
  11. Catecismo Romano, n. 10.

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O filho mais velho

O seguimento de Cristo não se constitui em uma mera obediência às leis, mas à prática constante do amor

A pregação de Jesus foi essencialmente por meio de parábolas. Trata-se de um gênero literário cujo alcance permite-nos enxergar desdobramentos ainda hoje. Em seus ensinamentos, Jesus não somente transmitiu mensagens morais, como sugerem algumas exegeses. Ele fez mais. O núcleo de Sua pregação era o próprio mistério da encarnação do Verbo, que veio à humanidade para salvá-la em todas as épocas e lugares.

A clareza dessa dimensão cristológica das parábolas ajuda-nos a perscrutar mais profundamente o sentido de algumas delas que, a princípio, parecem obscuras a um olhar pouco espiritual. A conhecida Parábola do filho pródigo, por exemplo, é frequentemente apresentada sob a visão do filho mais novo, cuja herança reivindicou em nome de uma liberdade absoluta (cf. Lc 15, 11-32). É bastante tocante a maneira como o evangelista descreve a cena do reencontro do Pai e do filho, após este ter esbanjado os bens e sentido inveja da comida dos porcos.

Naturalmente, o leitor tende a identificar-se com a figura dessa personagem, sobretudo pelo modo como as coisas se apresentam. Em um mundo como o nosso, marcado por um desejo de irresponsabilidade e liberdade sem limites, o testemunho do filho pródigo recorda-nos que "o homem que entende a liberdade como radical arbitrariedade da própria vontade e do próprio caminho vive na mentira", pois essa mesma liberdade facilmente converte-se em escravidão [1]. Vimos isso acontecer várias vezes na história recente.

A parábola, porém, não se resume ao perdão do Pai ao filho que retorna do pecado. Jesus fala também de outro filho. Neste sentido, podemos dizer que se trata da Parábola dos dois irmãos. A visão conjunta de ambos abre-nos uma janela ainda maior para a misericórdia de Deus, pois esses irmãos são retratos do modo como levamos nossa vida espiritual. O filho mais novo, como se sabe, revela-nos o caminho ao qual conduz a rebeldia contra a vontade de Deus, e a abertura desse mesmo Deus Pai, sempre pronto a acolher quem volta após um processo de conversão e purificação interior. O filho mais velho, por sua vez, representa o mundo daqueles que, aparentemente, vivem na casa do Pai, mas sua vivência não tem origem no amor.

O relato do evangelista fala-nos da insatisfação desse filho ao deparar-se com os festejos pelo retorno do irmão. Ele se sente traído e injuriado. "Há tantos anos que te sirvo e nunca transgredi um sequer dos teus mandamentos", lamenta ao pai em tom de protesto. "Nunca me deste nem sequer um cabrito para fazer uma festa com meus amigos", reclama.

Antes de mergulharmos na leitura espiritual deste texto, é preciso conhecer o ambiente em que Jesus conta essa parábola. Cristo estava diante dos fariseus, os quais repudiavam a aproximação d'Ele com os pecadores. Ora, não nos fica claro agora de quem Jesus fala quando apresenta a figura do irmão mais velho? Ele elucida a atitude daqueles que entendem o serviço a Deus como algo meramente jurídico. Para estes, basta o cumprimento das leis. Interiormente, explica Bento XVI, o filho mais velho também "teria sonhado com uma liberdade sem limites"; e isso o tornou "amargo na sua obediência", pois, afinal, não conhecia "a graça do que significa estar em casa, da verdadeira liberdade, que ele como filho tem" [2].

Nos dias de hoje, é grande a tentação da religiosidade jurídica. A entrega a Deus e, consequentemente, às exigências que dela decorrem ficam restritas ao campo da estética. O filho mais velho obedecia ao pai não por amor, mas porque não tinha a "coragem" necessária do irmão mais novo para reivindicar sua parte na herança. Ele tinha uma imagem a zelar perante a família e a opinião pública. No seu íntimo, no entanto, grande era o desejo de também estar na vida desregrada e contrária a Deus; havia uma "silenciosa inveja por aquilo que o outro pôde permitir-se" [3].

É preciso afastar com vigor essa compreensão voluntarista que se tem da ação de Deus, cujos efeitos na sociedade moderna têm se revelado desastrosos. Seja pela rebeldia ao projeto divino — como no caso do filho mais novo —, seja pelo rigorismo moralista — que se expressa no protesto do filho mais velho —, uma tal compreensão só pode terminar por condenar o seguimento a Cristo a algo arbitrário e desprovido de qualquer valor salvífico [4]. Tratar-se-ia, antes, de uma coisa opressora.

Deus, por outro lado, não age como um legislador autoritário, que decide conforme os gostos do momento. Toda a criação manifesta uma inteligibilidade, cuja essência é o amor divino para com a criatura [5]. Com efeito, a lei suprema não deve ser obedecida porque deve ser obedecida, mas porque é o caminho natural para a autorrealização do homem. "Ninguém é justificado por observar a Lei de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo" (Gl 2, 16). A Parábola dos dois irmãos quer revelar precisamente isto. O Pai é, acima de tudo, amor e misericórdia (1 Jo 4, 8).

Assim se entende a atitude de Jesus em relação aos pecadores como também o modo como nós devemos reintroduzi-los à vida da graça. Como explica o Papa Francisco, "há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai" [6]. Não se trata de ser conivente com o pecado, mas de colocar-se no lugar do outro para perceber que, sem a ajuda de Deus, também cairíamos no mesmo erro. Desse modo, o exercício da correção fraterna tem o efeito da correção feita por Cristo à mulher adúltera: uma conversão verdadeiramente profunda (cf. Jo 8, 11).

A conversão profunda dessa mulher levou-a a permanecer firme no caminho de Jesus, mesmo quando esse caminho perfilou-se com a cruz. O rigorismo jurídico dos fariseus pregou Jesus na cruz.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Bento XVI, Jesus de Nazaré: primeira parte: do batismo no Jordão à transfiguração. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007, p. 181.
  2. Idem, p. 185.
  3. Idem, p. 187.
  4. Comissão Teológica Internacional, Em busca de uma ética universal: novo olhar sobre a lei natural (6 de dezembro de 2008), n. 29-30.
  5. Idem, n. 63.
  6. Papa Francisco, Bula Misericordiae Vultus (11 de abril de 2015), n. 3.

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Orgulho Gay ou Manipulação?

O Movimento LGBT é um movimento de fachada. A fachada é a defesa dos direitos das minorias; a agenda oculta é a implantação da ideologia de gênero e a destruição da família natural.

Aconteceu de novo. Em sua última edição, a Parada Gay de São Paulo voltou a ridicularizar símbolos religiosos cristãos, sob o pretexto de combater a "homofobia". A triste imagem de um transexual crucificado, parodiando o Cristo, resume tudo.

Ao protesto indignado dos cristãos, o Movimento LGBT já sabe como responder: incentivar o vitimismo nas pessoas com tendência homossexual. E de fato estas pessoas são vítimas, mas não dos cristãos. São vítimas do próprio Movimento LGBT.

O Movimento LGBT é um movimento de fachada. A fachada é a defesa dos direitos das minorias; a agenda oculta, porém, é a implantação da ideologia de gênero e a consequente destruição da família natural.

É como numa caçada. Usa-se um chamariz para que o animal caia na armadilha. Mas se você usar a isca errada, a coisa não funciona. Ora, não existe realidade que atrai mais um bom cristão do que a compaixão e a misericórdia. Ao alimentar o vitimismo das pessoas com tendência homossexual, a ideologia gayzista usa estas pessoas como isca, apostando na possibilidade de dominar a população cristã por meio de um complexo de culpa paralisante.

Por que a Passeata Gay não usa símbolos e personagens religiosos não cristãos? Por que não incluir na algazarra Maomé, Buda ou os Orixás? A resposta é simples, eles ainda não acharam uma isca adequada para essas religiões. A combinação de vitimismo e falsa compaixão só funciona com cristãos. Se eles profanassem as outras, estariam arriscando receber milhares de processos judiciais ou, quem sabe até, violentos protestos.

Convido as pessoas de boa vontade que carregam a cruz da tendência homossexual [1] a estudarem a verdadeira história da ideologia de gênero. Temos no nosso site uma pequena introdução. Vocês verão que estão sendo manipulados!

É verdade, lamento profundamente a profanação dos símbolos cristãos. Aliás, tenho feito orações para reparar estas ofensas feitas a Nosso Senhor. Mas acho que devemos também lamentar a manipulação de pessoas (homossexuais ou não) que estão sendo usadas para a destruição de nossas famílias e a implantação de um regime de intimidação que amordaça as verdadeiras liberdades.

A eliminação do cristianismo não irá ajudar em nada, nem a ninguém. Os milhares de homossexuais que morreram no "paredón" de Cuba e nos gulags da União Soviética são testemunha disto.

Por Padre Paulo Ricardo de Azevedo Júnior

Referências

  1. Cf. Catecismo da Igreja Católica, 2358.