| Categoria: Pró-Vida

O aborto e o direito natural

O direito positivo não pode permitir a morte direta de um inocente. É o direito natural, acima de tudo, que protege a vida da criança por nascer.

O homicídio é proibido. Por quê? Somente porque a Constituição assegura a "inviolabilidade do direito à vida" (art. 5º, caput)? Somente porque o Código Penal enumera o homicídio entre os crimes contra a vida (art. 121)? Se não houvesse nenhuma lei escrita proibindo o homicídio, os homens estariam livres para se matarem uns aos outros? Segundo a doutrina do positivismo jurídico, sim. Para o papa desta teoria, o austríaco Hans Kelsen (1881-1973), o direito nada tem a ver com valores absolutos, intrínsecos à natureza e reconhecíveis pela razão. O direito é puramente positivo, ou seja, vale pelo simples desígnio do Estado em promulgar a lei e obrigar pela força o seu cumprimento.

Para Kelsen, defensor da "teoria pura do direito", não há valores absolutos:

Efetivamente, não haverá esperança para a causa democrática se partirmos da ideia de que é possível o conhecimento da verdade absoluta, a compreensão de valores absolutos. [1]

Quem considera inacessíveis ao conhecimento humano a verdade absoluta e os valores absolutos não deve considerar possível apenas a própria opinião, mas também a opinião alheia. Por isso, o relativismo é a concepção do mundo suposta pela ideia democrática. [2]

A tolerância, os direitos das minorias, a liberdade de expressão e de pensamento, componentes tão característicos de uma democracia, não têm lugar em um sistema político baseado na crença em valores absolutos. [3]

No entanto, Kelsen se contradiz ao defender como absolutos "a tolerância, os direitos das minorias, a liberdade de expressão e de pensamento". Seu relativismo é autodestrutivo. Quando diz "a verdade é relativa", está considerando absoluta tal afirmação.

No caso particular desse jurista, "o feitiço virou contra o feiticeiro". Sendo judeu, quando os nazistas tomaram o poder, foi obrigado a deixar a Universidade de Colônia e fugir para a Genebra, em 1933. Com o início da Segunda Guerra Mundial, fugiu para os Estados Unidos em 1940. De acordo com sua teoria, não pôde negar a legitimidade do Estado nazista:

Então, a tentativa de legitimar o Estado como Estado 'de Direito' revela-se inteiramente infrutífera, porque – como já foi acentuado – todo o Estado tem de ser um Estado de Direito no sentido de que todo o Estado é uma ordem jurídica. [...] Do ponto de vista de um positivismo jurídico coerente, o Direito, precisamente como o Estado, não pode ser concebido senão como uma ordem coercitiva de conduta humana — com o que nada se afirma sobre o seu valor moral ou de Justiça. E, então, o Estado pode ser juridicamente apreendido como sendo o próprio Direito — nada mais, nada menos. [4]

De fato, Kelsen reconheceu o direito nazista como verdadeiro direito:

Segundo o Direito dos Estados totalitários, o governo tem poder para encerrar em campos de concentração, forçar a quaisquer trabalhos e até matar os indivíduos de opinião, religião ou raça indesejável. Podemos condenar com a maior veemência tais medidas, mas o que não podemos é considerá-las como situando-se fora da ordem jurídica desses Estados. [5]

Erroneamente costuma-se afirmar que as conclusões da Física Moderna favorecem a tese da exclusão do absoluto. Leiamos as palavras de Max Planck, pai da Física Quântica:

Todas as constantes universais, como a massa ou a carga de um elétron ou de um próton ou o quantum elementar de ação são grandezas absolutas, são as pedras constitutivas, fixas e imutáveis, da doutrina atômica. Verdade é que não poucas vezes uma grandeza antes considerada como absoluta revelou-se depois relativa, mas isso aconteceu porque ela foi reconduzida a uma outra grandeza absoluta mais profunda. Sem o pressuposto de grandezas absolutas não se pode definir um conceito e não se pode construir uma teoria. [6]

Analogamente, sem valores absolutos é impossível construir uma teoria do Direito. O direito do inocente à vida é anterior a qualquer norma escrita. Cabe a nós não criar tal direito, que é natural, mas simplesmente reconhecê-lo. E não cabe a nós destruir tal direito, por exemplo, promulgando uma lei que permita o aborto diretamente provocado. Pois, conforme ensina S. Tomás de Aquino,

toda lei humanamente imposta tem tanto razão de lei quanto deriva da lei da natureza. Se, contudo, em algo discorda da lei natural, já não será lei, mas corrupção da lei. [7]

Ao contrário do que pensa Kelsen, a existência do direito natural não impede que haja um direito positivo. Ao contrário, é no direito natural que o direito positivo busca sua força. Exemplificando: o direito natural proíbe o homicídio. Porém, não afirma que pena se deve aplicar ao homicida. Determinar tal pena, de acordo com as circunstâncias atenuantes ou agravantes, é tarefa do legislador positivo. Embora todo Estado deva proibir o homicídio, nenhum Estado está obrigado a aplicar a pena de morte ou a prisão perpétua ao homicida. O Estado brasileiro optou por não ultrapassar a pena de trinta anos de reclusão.

Sem ferir o direito natural, o legislador humano positivo goza de uma ampla autonomia. É o que explica S. Tomás de Aquino, baseando-se em Aristóteles:

A vontade humana, por uma convenção comum, pode tornar justa uma coisa entre aquelas que em nada se oponham à justiça natural. Tal é o lugar do direito positivo. Daí o que diz o Filósofo: 'O justo legal é aquilo que, antes, não importava ser de um ou outro modo; porém, importa, sim, depois de estabelecido'. [8]

Exemplificando: para o direito natural, é indiferente que as normas de trânsito estabeleçam que a ultrapassagem de veículos deve ser feita pela esquerda ou pela direita. Uma vez, porém, estabelecido (como fez o Brasil) que a ultrapassagem deve ser feita pela esquerda, torna-se injusto ultrapassar pela direita. No entanto, a vontade humana não pode legislar contra o direito natural. É o que explica em seguida o mesmo Santo Tomás:

Mas, se algo, de si mesmo, se opõe ao direito natural, não se pode tornar justo por disposição da vontade humana. Se, por exemplo, se decretasse que é lícito roubar ou cometer adultério. [9]

Logo, o fundamento último da proibição de qualquer aborto diretamente provocado não é a Constituição Federal nem algum tratado internacional (como o Pacto de São José da Costa Rica). É o direito natural, acima de tudo, que protege a vida da criança por nascer.

Por Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz | Fonte: Pró-Vida de Anápolis

Referências

  1. Hans KELSEN, A Democracia. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 104.
  2. Ibid., p. 105.
  3. Ibid., p. 202.
  4. Hans KELSEN. Teoria pura do direito. 5. ed. Coimbra: Arménio Amado, 1979. p. 424.
  5. Ibid., p. 69. Os grifos são nossos.
  6. M. Planck, La conoscenza del mondo físico, tr. it., Turim: 1949, p. 286 apud Filippo SELVAGGI. Filosofia do mundo: cosmologia filosófica. São Paulo: Loyola, 1988 (Coleção Filosofia, 9), p. 340.
  7. S. TOMÁS DE AQUINO, Suma teológica, Iª-IIae, questão 95, artigo 2, corpo.
  8. S. TOMÁS DE AQUINO. Suma teológica, IIae, IIae, questão 57, artigo 2, solução 2.
  9. Ibidem.

| Categoria: Espiritualidade

O que os esportes ensinam sobre a vida interior?

Assim como “os atletas se impõem a si muitas privações” por uma coroa corruptível, explica São Paulo, também os cristãos devem correr e dar golpes no rumo certo, a fim de alcançarem uma coroa incorruptível.

"Combate o bom combate da fé. Conquista a vida eterna,
para a qual foste chamado e fizeste aquela nobre profissão de fé
perante muitas testemunhas." (1 Tm 6, 12)

O esporte é, sem dúvida, uma das atividades humanas com maior poder atrativo. Basta ver o empenho com que atletas se dedicam à conquista de uma medalha ou troféu para ter ideia da influência que essas grandes competições exercem sobre as pessoas, sejam homens ou mulheres, jovens ou adultos, crianças ou idosos. Dada a série de exercícios e de trabalhos de autossuperação que os esportes exigem, o desempenho de um atleta pode representar o mais alto nível de heroicidade.

A seleção brasileira masculina de vôlei experimentou uma enorme pressão no último sábado, dia 8 de julho, quando, lutando por sua décima vitória na Liga Mundial de Vôlei, acabou vendo seu sonho frustrado pela imbatível França e seus carrascos Boyer e Ngapeth, o qual sozinho marcou inacreditáveis 28 pontos. Nem os saques do central Lucão e as cortadas do oposto Wallace impediram a derrota do Brasil.

Apesar disso, os 23 mil torcedores na Arena da Baixada, em Curitiba-PR, não deixaram de louvar os guerreiros da seleção brasileira, cujos esforços para vencer a disputa mantiveram-se vivos até o último ponto do quinto set. A França levou a medalha por sofridos 3 sets a 2.

O mesmo não se viu há exatos três anos durante a Copa do Mundo de 2014. A tragédia dos 7 a 1 em pleno Maracanã caiu tão mal, que foram necessárias a entrada de Tite — o então bem-sucedido técnico do Corinthians — e a conquista do ouro olímpico — em nova partida contra a Alemanha, em 2016 —, para que a seleção brasileira de futebol recuperasse sua credibilidade perante o público. Ainda hoje, no entanto, existe quem torça o nariz e faça piadas com o vexame brasileiro contra os alemães naquele fatídico 8 de julho.

Todo esse misto de glórias e decepções presente no mundo esportivo é, de fato, bastante inspirador, e pode servir de modelo para quem deseja empreender um combate decisivo contra o pecado e a favor da santidade. São Paulo mesmo viu esse paralelo entre a vida interior e as competições esportivas. Na sua Primeira Carta aos Coríntios, o apóstolo dos gentios fala das "corridas de um estádio", onde todos correm, mas só um recebe o prêmio (9, 24). Assim como "os atletas se impõem a si muitas privações" por uma coroa corruptível, explica São Paulo, também os cristãos devem correr e dar golpes no rumo certo, a fim de alcançarem uma coroa incorruptível, castigando o próprio corpo e mantendo-o em servidão (9, 25). Em resumo, os fãs do esporte podem aplicar todo o entusiasmo que sentem em um "esporte" ainda mais importante e desafiador, que é a conquista do Céu.

O técnico ou o diretor espiritual

Um dos requisitos mais importantes para o bom desempenho de um time esportivo é a escolha de um bom preparador físico ou técnico. As grandes vitórias das seleções brasileiras, por exemplo, dependeram inegavelmente da tática e da sabedoria de seus técnicos que, conhecendo os pontos fracos e fortes tanto de seus jogadores como de seus adversários, elaboraram a melhor e mais eficaz estratégia para vencer. O técnico é uma espécie de mentor: ele dirige seus discípulos com conselhos, exortações e incentivos, tornando-os capazes de grandes conquistas, até das mais improváveis. Prova disso encontra-se no papel do técnico Tite para a conquista do mais desejado troféu do Corinthians: a taça da Libertadores da América, em 2012.

Na corrida espiritual, por sua vez, a orientação de um bom "treinador" também é imprescindível. São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei, falava assim em seu Caminho: "Diretor. — Precisas dele. — Para te entregares, para te dares..., obedecendo. — E Diretor que conheça o teu apostolado, que saiba o que Deus quer" (n. 62). Com a mesma ênfase São Francisco de Sales fazia esta importante advertência: "Se tens uma vontade sincera de entrar nas veredas da devoção, procura um guia sábio e prático que te conduza" (Introdução à vida devota, cap. 4).

Foi a paternal direção de São João Bosco a causa eficiente do coração puro de São Domingos Sávio. Não menos importante foram os conselhos de um confessor a Santa Faustina Kowalska, pelo que a apóstola da Divina Misericórdia pôde seguramente discernir as revelações de Cristo. De fato, a necessidade de um diretor espiritual para o progresso na santidade é tamanha, que Santa Teresa d'Ávila passou longos anos à procura de quem pudesse dirigi-la com autêntica piedade e sabedoria.

A direção espiritual é uma forma de o cristão praticar as virtudes da obediência e da sinceridade, sem as quais ninguém consegue acessar a própria alma e, por conseguinte, vencer os próprios defeitos. Obedecendo às orientações de seu diretor, os cristãos fazem como os grandes campeões que, não confiando apenas em seus próprios talentos, mas também nas advertências de seus técnicos acerca dos inimigos, desviam-se dos golpes rivais e conquistam os pontos necessários para a vitória.

O espírito de liderança

O bom atleta é naturalmente um bom líder. Com sua vibração e entusiasmo, ele desperta os ânimos à sua volta e os motiva a buscarem o mesmo ideal. Quem assistiu à épica batalha entre Brasil e Rússia nas quartas de finais do vôlei feminino, nas Olimpíadas de Londres (2012), entende bem isso. A atuação da oposta Sheilla Castro no quinto set da partida, derrubando cada um dos seis match points das adversárias, foi algo tão inacreditável, que suas companheiras de seleção simplesmente ressurgiram das cinzas, por assim dizer, e ajudaram-na a vencer não apenas aquele jogo decisivo, mas também os demais desafios até o fim da competição. A equipe que havia chegado a Londres desacreditada acabou levando para casa o bicampeonato olímpico, quase como um milagre.

Influência semelhante exerce a alma piedosa no ambiente em que vive. Cheia de alegria e vibração pela vida adquirida na intimidade diária com Cristo, a alma piedosa é uma verdadeira injeção de ânimo para os espíritos abatidos pelo pecado e pelo sofrimento do mundo. Mais ainda: "A beleza e o júbilo que transparecem em seus semblantes", nota São Francisco de Sales, "nos ensinam com que tranquilidade devemos encarar os incidentes da vida; sua cabeça, suas mãos e pés descobertos dão-nos a refletir que nenhum outro motivo devemos ter em nossas intenções e ações além de agradar a Deus" ( Introdução à vida devota, cap 2). A vida e o testemunho dos santos, mais do que suas palavras, é o instrumento mais poderoso de que Deus se serve para inflamar os corações dos homens.

O treino

A rotina de exercícios e preparação está para o esporte como a oração e as mortificações estão para a vida interior. A fidelidade dos atletas aos treinos está intimamente relacionada à sua performance em campo. Quem não tem um preparo físico e emocional adequado não aguenta a pressão das disputas. Mutatis mutandis, o cristão preguiçoso não pode se queixar se sua vida interior é um completo deserto, uma coisa sem sal, e frequentemente marcada por pecados mortais. Trata-se de uma consequência óbvia do modo como ele trata as coisas de Deus e do mundo. Um cristão sem piedade é um freguês do diabo. É 7 a 1 na certa.

Em seu Caminho de Perfeição, Santa Teresa d'Ávila adverte claramente sobre a purificação da alma — exercida, entre outras coisas, pela luta contra os pecados mortais — como condição inegociável à santidade. Sem o desapego do mundo — as riquezas, o sexo, as pessoas, a vontade etc — ninguém pode alcançar a perfeição. E isso não é algo absurdo, como podem pensar alguns. Notem que, para a Copa do Mundo de 2002, quando o Brasil conquistou seu pentacampeonato, o então técnico Felipão foi taxativo ao recomendar a abstinência sexual aos seus jogadores durante a concentração dos jogos. Quem não consegue ter controle sobre sua própria sexualidade "não é um ser humano, mas um animal irracional", declarou o técnico.

Como no Karatê, por exemplo, que requer uma alta disciplina, atenção e proatividade nos exercícios, a vida interior deve ser adequadamente preparada, com ambiente e hora marcada para o diálogo com Deus. Caso contrário, toda tentativa de aproximar-se do sagrado será minada pelas distrações e outras artimanhas do inimigo.

O bom combate

A heroicidade de um atleta nos esportes é reconhecida, como dito anteriormente, pela sua motivação, ainda que, ao final de tudo, ele esteja arrebentado pelo cansaço e humilhado pelo choro de uma aparente derrota. Quem se dedica com devoção, na verdade, vence mesmo perdendo. É assim que São Paulo, mais uma vez, relaciona os esportes seculares ao maior de todos os esportes, que é a conquista da vida eterna. Imolado no altar de Deus pela salvação das almas, ele confessa toda sua esperança sobrenatural, dizendo: "Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé" (2 Tm 4, 7).

Na história da Igreja, o exemplo dos mártires talvez seja o que melhor expressa essa paradoxal vitória com aparência de derrota. Consumidos pelas chamas, os cristãos cantavam alegremente para desconcerto de Nero e glória de Cristo. Foi esse impressionante testemunho de resistência e fidelidade a Deus que obteve a estima de tantas pessoas mundo afora e levou Tertuliano a declarar: "O sangue dos mártires é semente para novos cristãos".

A sensação que o Brasil experimentou na semifinal da Copa de 2014, por outro lado, expressa bem o vexame dos apóstatas. Os cristãos que não se preparam para o combate espiritual, além de amargarem uma derrota acachapante para o diabo, têm de suportar o escárnio da plateia, isto é, o desprezo do mundo pagão.

Jesus é o maior de todos os atletas e técnicos. Vencendo a morte, Ele nos abriu as portas do Céu, onde podemos receber a coroa incorruptível de que falava São Paulo. É do Senhor que ouvimos as seguintes palavras: "No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." ( Jo 16, 36) Ao seu lado, a medalha de ouro está garantida.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categorias: Santos & Mártires, Como Ser Família

Famílias numerosas, viveiros de santidade

Dos nove filhos que tiveram São Luís e Santa Zélia Martin, quatro morreram e cinco mulheres entraram para a vida religiosa. Eis a recompensa que Deus concede às famílias numerosas, transformando os seus lares humildes em verdadeiros “viveiros de santos”.

" As famílias numerosas, longe de serem 'doença social', são a garantia da saúde física e moral de um povo."

Essas palavras foram proferidas por Pio XII durante uma audiência com dirigentes e membros de uma associação de famílias numerosas, no dia 20 de janeiro de 1958. O discurso chama atenção sobretudo pela ênfase com que o Sumo Pontífice sublinha a importância dos filhos não só para os pais, mas para o bem-estar de toda sociedade.

Não é novidade para ninguém a ojeriza com que a maternidade é pintada nos dias de hoje, principalmente se ela estiver relacionada a uma mentalidade aberta à vida. Os chamados "formadores" de opinião fazem campanha aberta pelo controle de natalidade, evocando, para isso, todo tipo de desculpas e argumentos pseudocientíficos: a pobreza, a política demográfica, os direitos reprodutivos e por aí vai. Todos aparentemente justos, mas, no fundo, motivados por aquele egoísmo que, como denunciou Pio XII, avilta a dignidade da família e da pessoa humana:

A superpopulação não é, pois, uma razão plausível para difundir os métodos ilícitos de controle de nascimentos, mas antes pretexto para legitimar a avareza e o egoísmo, seja das nações que temem a expansão de outras como perigo para a própria hegemonia política e um risco de rebaixamento do nível de vida, seja dos indivíduos — especialmente dos mais bem providos com os meios da fortuna — que preferem o gozo ilimitado dos bens da terra à honra e ao mérito de suscitar novas vidas.

A análise do Papa é de precisão cirúrgica. Com todos os avanços da ciência e da técnica, é certamente ridículo considerar o crescimento populacional uma ameaça apocalíptica. A razão da pobreza e de outros males sociais não se encontra nas pequenas crianças, cujas consciências são livres de qualquer culpa pessoal, mas na estreiteza ética com que os poderosos tratam os menos afortunados, roubando-lhes os direitos mais elementares. Se o Estado e as grandes fundações fossem guiadas pelos princípios morais da caridade e do amor ao próximo, não haveria grandes problemas de saúde, fome, emprego e moradia. Os pobres querem comida, não anticoncepcionais.

As famílias cujos filhos são numerosos aprendem desde muito cedo a importância da fraternidade e da consideração ao próximo, seja por meio dos irmãos que têm de dividir o mesmo quarto e tantas outras coisas, seja pelo empenho mútuo do casal na criação dos filhos. Essas famílias parecem viver uma juventude eterna, observa Pio XII, porque " dura no lar o perfume dos berços, enquanto nas paredes da casa ressoam as vozes meigas dos filhos e dos netos". Paternidade responsável está longe de ser a política dos "dois filhos e um cachorro", como se canta por aí. Trata-se, ao contrário, de uma entrega consciente e honesta à formação das futuras gerações, isto é, o desejo de tornar o gênero humano mais virtuoso e digno do Céu.

Pio XII aponta, ainda, para aquela que constitui a mais fulgurante glória das famílias numerosas: as vocações. Nesses casos, diz o Santo Padre, "aos dons comuns de providência, alegria e paz, Deus acrescenta muitas vezes, como a experiência o demonstra, os chamados de predileção", pelo que se salienta " a prerrogativa das famílias numerosas como verdadeiros viveiros de santos". Entre tantos casos que se poderia citar, sobressai neste dia 12 de julho o testemunho da família Martin, de cujo zelo cristão no cuidado dos filhos nasceu Santa Teresinha do Menino Jesus.

As belas linhas abaixo são da pena de Irmã Genoveva, também filha do casal Zélia e Luís Martin, que conta como sua mãe se dedicava piedosamente às crianças:

Fiel a seu princípio, nossa mãe não tinha mêdo da maternidade. Ao saber que uma senhora da região dera à luz a trigêmeos, disse ela: "Oh! feliz mãe! Se eu tivesse ao menos dois. Mas, não terei jamais essa felicidade!" — "Amo loucamente as crianças". — "É um trabalho tão doce ocupar-se das criancinhas!"

Sua correspondência está cheia dessas exclama­ções de alegria materna. Escrevia a seu irmão, o Sr. Guérin, no dia 23 de abril de 1865, após o nascimento de sua Helenazinha que deveria morrer em tenra idade:

"Há quinze dias fui ver aquela que está com a ama. Não me lembro de ter jamais experimentado um sentimento de tal felicidade como no momento em que a tomei nos braços e ela me sorriu tão graciosamente que acreditava ver um anjo. Numa palavra, é inexprimível para mim. Acho que nunca se viu nem se verá jamais uma criança tão encantadora. Minha Helenazinha! Quando enfim terei a felicidade de possuí-la inteiramente? Não posso pensar que tenho a honra de ser mãe de criatura tão deliciosa..."

Longe de medir fadigas, sua confiança sobrenatural levava-a a confessar mais tarde à sua cunhada, a Sra. Guérin, de saúde delicada e que esperava um filho:

"Nosso Senhor não pede nada acima da nossas forças. Vi muitas vezes meu marido preocupar-se comigo sobre esse ponto. E eu permanecia absolutamente tranquila. Dizia-lhe: "Não receies, Nosso Senhor está conosco". No entanto, eu estava acabrunhada de trabalhos e preocupações de toda sorte, mas tinha a firme confiança de ser sustentada pelo Alto".

O que não a impedia de fazer esta confidência a seus parentes de Lisieux:

"Se tiveres tantos filhos quanto eu, isso exigirá muita abnegação e o desejo de enriquecer o Céu com novos eleitos".

Após cada nascimento, fazia logo esta prece:

"Senhor, concedei-me a graça de vos ser consagrado este filho e que nada venha manchar a pureza de sua alma. Prefiro que o leveis imediatamente caso venha a perder-se para sempre".

Sua união com Deus e o fervor de suas orações quando esperava um filho eram tão grandes que se admirava de não ver disposições para a piedade desde o despertar da inteligência desses pequeninos. Maria, sua filha mais velha tinha apenas quatro anos e Paulinazinha contava somente dois quando ela confiava sua decepção à querida, Visitandina. Esta por sua vez escrevia a seu irmão, no dia 2 de fevereiro de 1864:

"Zélia já se atormenta por não ver sinais de piedade em suas filhas".

A criança devia ser batizada logo após o nascimento. Sempre se informava sobre esse ponto quando se tratava dos filhos de seus parentes.

Quanto ao batizado de Teresinha foi preciso ser adiado dois dias. Deixo aqui a palavra a Madre Inês de Jesus. Interrogada, nos Processos, sobre o motivo dessa demora, respondeu:

"Porque se esperava o padrinho. Durante esse intervalo nossa piedosa mãe estava em contínuos sobressaltos. Pelo temor de sobrevir algum mal à crian­ça imaginava constantemente que a pequena estava em perigo".

Mamãe teve nove filhos, dos quais quatro morreram ainda pequenos. De acordo com meu pai quis dar a todos o nome de "Maria" unido a outro nome, ao de José para os dois meninos.

No dia 8 de dezembro de 1860 pedira à Imaculada Conceição um segundo filho e nove meses depois chegava Paulina que se seguiu a Maria, a primogênita.

Escreverá mais tarde a Paulina este testemunho de seu amor e o de nosso pai pelos filhos:

" Vivíamos somente para eles. Eram nossa felicidade. Jamais a encontrávamos fora deles. Numa palavra, nada nos custava, o mundo não mais nos pesava. Era para mim a grande compensação, por isso eu desejava ter muitos filhos a fim de educá-los para o Céu" (4 de março de 1877).

Já mencionei a perfeita compreensão entre meus pais, ainda que, à primeira vista, suas opiniões divergissem um pouco sobre um ponto qualquer. Mamãe tinha por meu pai tanta admiração quanta afeição e deixava-o exercer plenamente uma autoridade deveras patriarcal. Minhas irmãs afirmaram diversas vezes que sua união foi sem nuvens e a correspondência de minha mãe prova-o. Mostra também que mamãe não podia viver longe dele, mesmo por alguns dias. As cartas que lhe escrevia terminam com frases como esta, eco fiel de seus sentimentos:

" Tua esposa que te ama mais do que a própria vida".

O Sr. Cônego Dumaine, Vigário Geral de Séez, que batizou Teresa quando vigário de Nossa Senhora de Alençon, e que conhecia bem nossa família, fez este elogio nos Processos:

"Era admirável a união nessa família, tanto entre os esposos como entre pais e filhos".

Eis aí. Santa Zélia é um exemplo contundente de como a maternidade, apesar de todas as suas inegáveis dificuldades, está arraigada na natureza da mulher. A sua dedicação aos filhos e ao esposo é, contra todas as sandices feministas, um verdadeiro testemunho de virtuosa feminilidade. De sua abnegação e amor à família, formou-se mesmo um "viveiro de santidade".

Leia-se que os Martin não eram nenhuma família abastada. Santa Zélia trabalhou muito para ajudar o marido na criação das filhas. Mas tudo, absolutamente tudo, era feito com generosidade sobrenatural. Os frutos estão hoje no Céu.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

| Categoria: Notícias

Charlie Gard está vivo!

Tribunal dá prazo de 48 horas para que pais de Charlie Gard demonstrem alguma evidência de que menino pode sobreviver a novo tratamento.

Charlie Gard continua sua batalha pela vida. Na última semana, o Hospital infantil britânico Great Ormond Street, onde o pequeno Charlie se encontra hospitalizado, decidiu dar uma nova chance ao bebê e pedir outra avaliação do caso aos tribunais. A decisão do hospital veio após os inúmeros protestos de grupos pró-vida e outras autoridades mundiais.

Nesta terça-feira, a Corte determinou que os pais de Charlie Gard têm 48 horas para provar que o menino pode apresentar melhora, se for submetido ao tratamento proposto por um médico norte-americano. Caso contrário, o hospital será forçado a desligar os aparelhos que o mantêm vivo.

Como bem observaram Padre Paulo Ricardo e outros pró-vida, a questão de Charlie Gard transcende a luta pela vida de um bebê. Trata-se de uma intromissão absurda do Estado na vida familiar que, caso seja aceita, abrirá um precedente perigosíssimo. Daí a importância de as pessoas se manifestarem contra esse disparate.

Não deixem de endereçar, ao hospital e às autoridades indicadas abaixo, a seguinte mensagem pedindo pela vida de Charlie. No Facebook, as páginas a ser contatadas são a do Hospital Great Ormond Street, a da Primeira-ministra Theresa May e a da Família Real Britânica:

Let #CharlieGard Live. Let his parents Love. Let the World Hope. (Deixem #CharlieGard viver. Deixem seus pais amarem. Deixem o mundo sonhar.)

No Twitter, basta copiar e colar o texto abaixo:

Let #CharlieGard Live. Let his parents Love. Let the World Hope. @GreatOrmondSt @theresa_may @RoyalFamily @10downingstreet @POTUS

Sobretudo, não deixemos de rezar.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Espiritualidade

Por que se retrata com tanta crueza a Paixão de Cristo?

Muito antes das cenas sangrentas da Paixão segundo Mel Gibson, os artistas antigos já haviam cuidado de representar com dramaticidade os sofrimentos de Cristo. Mas por que retratar assim, afinal, com tanta crueza, as dores de nosso Salvador?

Neste mês de julho, dedicado ao Preciosíssimo Sangue de Cristo, a pintura acima, intitulada A Flagelação e confeccionada em 1729 pelo espanhol Nicolau Enríquez, pode ser para nós uma excelente fonte de meditação.

Muito antes das cenas sangrentas da Paixão segundo Mel Gibson — que tanto escandalizaram os críticos da "sétima arte" —, os artistas antigos já haviam cuidado de representar com dramaticidade os sofrimentos de Cristo, tudo a fim de impressionar seus espectadores e provocar-lhes a compaixão pela dor divina. O trabalho desses homens, portanto, não era simplesmente a "arte pela arte"; o que faziam tinha um sentido duplamente transcendente, pois superava tanto o ofício que eles dominavam quanto a sua própria existência neste mundo: a intenção de suas obras era revelar Deus e fazer despertar nas pessoas o sobrenatural.

Uma breve descrição deste quadro, fornecida pelo site Google Arts & Culture, pode nos ajudar a reparar em seus detalhes:

Ao centro jaz no solo a figura de Cristo que, humilhado sobre um charco de sangue, mostra suas costas totalmente descarnadas por causa dos numerosos golpes que recebe de uma multidão enfurecida. [...] Contrasta nesta tela a óleo a grande quantidade de personagens em movimento com rostos desfigurados pela ira e gestos violentíssimos, os quais, armados de facas, cilícios de pontas metálicas e correntes, açoitam a Cristo sem piedade. Jesus recebe este castigo com resignação e apenas atina a perguntar, através de uma vírgula que brota de sua boca: Quae utilitas in sanguine mea? ("Qual é a utilidade de meu sangue?"), chamando assim a meditar sobre o sentido da redenção.

Jesus está, portanto, sobre "um charco de sangue", com as "costas totalmente descarnadas", cercado de "facas, cilícios de pontas metálicas e correntes". Trata-se, sem dúvida, de uma cena "de grande intensidade e força emotiva". E qualquer semelhança com as cenas mais perturbadoras de "A Paixão de Cristo" não é mera coincidência.

Mas o que levam em conta esses artistas, afinal, para retratar com tanta crueza e morbidez as estações da Via Crucis?

A resposta deve ser encontrada, em primeiríssimo lugar, nas Sagradas Escrituras, especialmente nas predições do Antigo Testamento sobre o Cristo. Na liturgia da Sexta-feira Santa, a Igreja inteira canta, por exemplo, o Salmo 21, do qual é extraída a seguinte imagem:

Quanto a mim, eu sou um verme e não um homem;
sou o opróbrio e o desprezo das nações.
Riem de mim todos aqueles que me veem,
torcem os lábios e sacodem a cabeça. (v. 7-8)

A coluna vertebral de Cristo exposta no quadro faz-nos lembrar imediatamente de outros versículos deste mesmo Salmo, em que o Autor Sagrado diz: "Meus ossos estão todos deslocados" (v. 15); e ainda: " Eu posso contar todos os meus ossos" (v. 18).

Outra leitura proclamada na tarde da Sexta-feira da Paixão é a do profeta Isaías, também repleta de imagens fortíssimas:

Tão desfigurado ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano [...]. Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele. A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores; e nós pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado! (Is 52, 14; 53, 2-4)

Esses versículos, somados aos relatos históricos dos Evangelhos — que narram a prisão, flagelação, coroação de espinhos e crucificação de Nosso Senhor —, são mais do que suficientes para nos colocar diante dos olhos um verdadeiro quadro de "horrores". Se nos fosse possível "torcer" as Escrituras, por assim dizer, teríamos o Preciosíssimo Sangue de Cristo escorrendo de suas páginas.

Ao longo da história da Igreja, no entanto, algumas pessoas também receberam, em continuidade com o "depósito da fé", revelações privadas sobre a Paixão do Senhor. Esse quadro de Nicolau Enríquez, por exemplo, foi feito a partir da obra La mística Ciudad de Dios, de Maria de Jesus de Ágreda. À parte a santidade de sua vida (Maria de Ágreda é ainda venerável) ou a ortodoxia de seus escritos (que alguns põem em questão), é impossível ler o que escreve essa monja sem se comover:

Por ordem, de dois a dois, o açoitaram com tão inaudita ferocidade que, humanamente, não se poderia cogitar, se Lúcifer não tivesse dominado o ímpio coração daqueles seus agentes.

Os dois primeiros açoitaram o inocentíssimo Senhor com cordas muito retorcidas, duras e grossas, empregando neste sacrilégio toda a raiva de sua indignação, e a força de seus músculos. Estes primeiros açoites cobriram todo o corpo deificado de nosso Salvador de grandes manchas roxas e vergões. Ficou entumecido, desfigurado, com o preciosíssimo sangue à flor da pele.

Cansados estes algozes, entraram em cena os dois seguintes. Com correias duríssimas continuaram a flagelação que abriu as esquimoses e vergões feitos pelos primeiros. O sangue divino rebentou, molhou todo o sagrado corpo de Jesus, salpicou as vestes dos sacrílegos esbirros e escorreu até o solo.

Retiraram-se estes verdugos para dar lugar aos terceiros que se serviram de novos flagelos de nervos de animais, quase tão duros como vime seco. Açoitaram o Senhor com maior crueldade, pois feriam nas próprias feridas que os primeiros tinham feito, e porque eram ocultamente instigados pelos demônios enfurecidos com a paciência de Cristo.

Estando rasgadas as veias do sagrado corpo, e todo ele uma só chaga, não encontraram os terceiros verdugos nenhuma parte sã para abrir outras.

Persistindo nos desumanos golpes, rasgaram a imaculada e virginal carne de Cristo nosso Redentor, caindo no solo muitos pedaços. Em muitos pontos das costas os ossos ficaram a descoberto, manchados pelo sangue, alguns na extensão de um palmo.

Para apagar totalmente aquela beleza que excedia a de todos os filhos dos homens (cf. Sl 44, 3), açoitaram-lhe o divino rosto, os pés e as mãos, sem deixar lugar por ferir, até onde puderam desafogar o furor e ódio que haviam concebido contra o inocentíssimo Cordeiro. O divino sangue correu pelo solo, acumulando-se em diversas poças.

Os golpes que lhe deram nos pés, nas mãos e na divina face, foram extremamente dolorosos, por serem estas partes mais nervosas, sensíveis e delicadas. A venerável face ficou entumecida e chagada até cegar os olhos pelo sangue e pelo inchaço. Além de tudo isto, cobriram-na de cusparadas imundíssimas que lhe lançaram juntamente com os golpes, fartando-o de opróbrios.

O número exato dos açoites recebidos pelo Salvador foi cinco mil cento e quinze, desde a planta dos pés até a cabeça. O grande Senhor e autor de toda a criatura, impassível por sua natureza divina, na condição de nossa carne ficou, por nosso amor, transformado em homem de dores, conforme a profecia de Isaías (53, 3), bem capacitado na experiência de nossas enfermidades, o último dos homens, reputado pelo desprezo de todos. [1]

É interessante como essas minúcias coincidem com as revelações de mesma natureza recebidas pela Beata Anna Catarina Emmerich — das quais Mel Gibson lançou mão para filmar "A Paixão de Cristo". Ainda que não devam necessariamente ser aceitas como de fé católica, o Catecismo esclarece, com sabedoria, que "o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja" (§ 67). Artistas como Mel Gibson e como Nicolau Enríquez, inspirados por esse " sentire cum Ecclesia", souberam fazer muito bem, com as obras que produziram, um verdadeiro chamado à conversão e à penitência. Se este não for um "apelo autêntico de Cristo" à sua Igreja, especialmente nestes tempos tenebrosos que atravessamos, nenhum outro é.

Por que retratar com tanta crueza, então, a Paixão de nosso Salvador? Em primeiro lugar, porque foi assim que tudo aconteceu. As Escrituras o atestam e as palavras dos místicos o confirmam, não há por que duvidar.

Uma segunda razão precisa ser levada em conta, porém, e ela diz respeito a nós. É conveniente contemplarmos Jesus assim, sobre "um charco de sangue" e com as "costas totalmente descarnadas", para nos lembrar a gravidade do nosso pecado. Sim, porque foram os nossos pecados — os pecados de todos os homens, de todas as épocas —, os meus pecados — as faltas que eu tenho cometido —, a causa de tanto sofrimento; a causa de o Sangue de Deus ter sido tão abundantemente derramado!

E, se é assim, se Cristo morreu de forma tão terrível — como Nicolau Enríquez pintou ou como Mel Gibson dramatizou —, então os nossos pecados têm uma dimensão que ainda não somos capazes de precisar adequadamente. Se foi por causa de nossas blasfêmias, de nossas impurezas e de nossa preguiça que morreu Jesus… em que grande erro incorrem aqueles que tratam o pecado como uma trivialidade! Se o preço de nossa libertação é o Sangue caríssimo de um Deus — de dignidade infinita —, com que cuidado deveríamos evitar o pecado e com que lágrimas de arrependimento não deveríamos chorar os que já cometemos! Se as carnes de Cristo foram arrancadas para nos salvar, a ponto de deixar expostos os seus ossos…!, com que cuidado não devemos zelar por conservar a nossa alma em estado de graça! Sic nos amantem — canta um hino de Natal — quis non redamaret? A quem nos amou tanto assim, como não amar de volta?

Seja este, portanto, o nosso principal objetivo nesta vida: corresponder ao amor apaixonado de Deus, que chega a fazer-se homem e derramar o próprio Sangue para ver-nos consigo, um dia, no Céu. Se até aqui temos sido inconstantes na vida da graça, mornos em nossa conduta, relapsos em nossos exames de consciência, é hora de reagirmos! Ouçamos enfim a voz do Sangue mais eloquente que o de Abel (cf. Hb 12, 24), e clamemos por misericórdia:

Sangue de Jesus, manando abundante na flagelação,
salvai-nos!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. Soror Maria de Ágreda. Mística cidade de Deus (trad. brasileira de Irmã Edwiges Caleffi), t. 3, l. 6, c. 20, n. 1339-1340. 2. ed. Ponta Grossa, Mosteiro Portaceli, 2000, p. 353.

| Categoria: Santos & Mártires

A Primeira Comunhão de Santa Maria Goretti

Preocupada tão somente com a presença do seu grande Senhor, Maria Goretti, com 10 anos, fez a sua Primeira Comunhão verdadeiramente como uma “santa”.

No dia 16 de julho do ano de 1901, Maria Goretti fazia a sua Primeira Comunhão.

Candura de um lírio que abre sua corola ao primeiro beijo do sol, dia de íntima união no amplexo divino, é assim que nos representamos o primeiro encontro de Maria com Jesus Sacramentado.

Sua Primeira Comunhão não foi, como para outras suas colegas, um rápido contato com Deus, que apenas de leve roça a superfície da alma. O luxo que pela única vez aparentava, as rendas e o vaporoso véu de pequenina esposa de Jesus não lhe tolhiam o recolhimento. Preocupada tão somente com a presença do seu grande Senhor, ela fez a sua Primeira Comunhão como uma " santa", afirma D. Assunta.

Nunca como naquele dia sentiu o vazio das riquezas, dos prazeres e das atrações terrenas. Nunca como naquele dia sentiu a imperiosa necessidade de só firmar-se em Deus, única realidade inabalável e imensa. E a resolução de repudiar todas as lisonjas do mundo com seus encantos sedutores nasceu, naquela alminha, espontânea e decisiva.

"A pureza acima de tudo e a fidelidade às três Ave Marias" diárias, constituíram os temas das exortações que precederam a grande solenidade; "e foi isso um desígnio do Céu, diz Mons. Signori, para que a menina progredisse e se firmasse ainda mais no exercício da virtude angélica, pela qual daria, dentro em breve, a vida".

O recolhimento de Marieta era visível. Quando, depois da Comunhão, as crianças se reuniram na sacristia para agradecer ao sacerdote celebrante, ela se conservou tranquila e silenciosa, isolada num canto, toda absorvida no seu Deus. Manteve-se assim o dia inteiro, completamente alheia aos brinquedos dos irmãozinhos, deixando transparecer do seu rosto um contentamento inigualável.

"Tão somente cinco vezes, diz Mons. Signori, a piedosa menina teve a ventura de receber no seu coração ao Deus de amor e de pureza: a primeira a 16 de junho de 1901; a segunda, pouco depois, no Santuário de N. Sra. das Graças, protetora de Nettuno; a terceira na Páscoa de 1902; a quarta na Igreja de Campomorto; a quinta na hora da morte."

A Primeira Comunhão vem marcar uma nova etapa na vida de Maria. "Verá que daqui em diante serei melhor", dissera à sua mãe; os fatos provariam com que seriedade fizera aquela promessa. Já tão amorosa e serviçal em casa, começou a prodigar sua dedicação também aos vizinhos, grandes ou pequenos. Sempre diligente em aliviar o trabalho e as fadigas do próximo, com graça e desembaraço, desfazia as brigas que nasciam entre irmãos e colegas na hora dos folguedos, ou amainava as tempestades que os vizinhos levantavam porque uma galinha andava ciscando nas sementeiras ou porque os pequenos pisavam na horta.

Dedicada até o sacrifício, tudo fazia sem alarde, aparentemente como a coisa mais natural, na realidade movida pela caridade sobrenatural. Discreta, sabia dissimular aquilo que a caridade exigia encoberto; jovial e amável nas horas de recreio, atendia a todos como a mãezinha daquele bando de crianças.

Era, porém, junto aos doentes que a sua dedica­ção revelava-se admirável. Visitava-os com frequência e tratava-os como a mais suave irmã, servindo-os até nas mais humildes tarefas. Quantas vezes lhe foi dado ver no olhar comovido dos pobres enfermos a gratidão sincera dos humildes! Se "a maior prova de amor é sacrificar-se por aquele que se ama", Maria dava essa prova.

Pela manhã levantava-se muito cedo, junto com a mãe, e, depois das orações costumeiras, arrumava a casa, despertava os irmãos, preparava-lhes roupas e comida. Em seguida, desempenhava-se nas obrigações diárias. Era notável o seu espírito de mortificação nas coisas naturais: não tinha olhos, ouvidos, gostos e desejos senão para os deveres de casa e para suas devoções de igreja. O tempo disponível empregava-o em trabalhos úteis, e, quando cansada do dia cheio, tomava o merecido repouso, ajoelhava-se com os irmãos aos pés da cama, para as orações da noite. Inú­til dizer que aí o querido papai era sempre relembrado.

Seus princípios de ascética não iam além dos mais simples e comuns da vida cristã. " É preciso fazer isto, porque é nosso dever: é vontade de Deus. Não devemos fazer aquilo, porque é pecado; desagrada a Jesus." Era esse o eixo de toda a sua vida sobrenatural em que fôra educada e em que educava também seus irmãos. "Agora que receberam a Jesus, costumava dizer-lhes, devem ser sempre muito bonzinhos."

Não lhe faltavam, de certo, defeitos naturais, próprios da sua idade: impulsos que era preciso reprimir, indolências para despertar, inclinações para orientar. Mas o que a caracterizava era o apego a seus deveres e à lei de Deus resumido neste heróico lema: antes a morte do que o pecado.

E não eram palavras vãs. Sabia que o demônio procura infiltrar-se nos corações através de coisas aparentemente sem importância, até chegar a dominar a alma e desviá-la de Deus. Vigiava, pois, para conservar aquela pureza, que repele com energia as menores culpas e os menores defeitos.

Acima de tudo, cultivava o amor pelo seu Jesus. Sentia-se cheia desse fogo sobrenatural, que o Senhor trouxe à terra. Não eram transportes místicos, quais encontramos nas vidas dos grandes santos, e, sim aquele amor simples e cândido de uma criança privilegiada, que sabia repetir, mais na prática do que com as palavras, a maravilhosa expressão de S. Pedro: "Mestre que tudo sabeis, vós sabeis também quanto eu vos amo!"

[...]

A assistência à Santa Missa aos Domingos e dias de guarda criava muitas vezes para a família Goretti um sério problema. Nem sempre havia Missa em Ferriere e era preciso ir a Campomorto, ou mesmo até Nettuno. O sol abrasador do verão, ou então, castigados pela gélida ventania dos meses de dezembro e janeiro, sem falar nas chuvas torrenciais da primavera e nas penetrantes garoas do outono, tornavam a viagem mais penosa e até mais longa.

Ainda assim, Maria nunca faltava, a todos edificando, não só pelo seu bom comportamento na igreja, senão também quando a caminho dela. É do Reverendo Pe. Miguel Faina, Passionista, o seguinte depoimento: "Indo à Missa dominical na capela de Campomorto, e passando diante de rapazes que costumavam atirar gracejos às moças que entravam na igreja, a menina corava ouvindo lisonjear sua beleza. Não lhes dava, porém, a menor atenção; caminhava rapidamente, sem imitar suas colegas, que tanto se agradavam com tais cumprimentos."

Levava, geralmente, pela mão um ou outro de seus irmãos, com quem rezava durante o tempo do Santo Sacrifício. " Sempre pontual, era a primeira a entrar e a última a sair." Mantinha tal recolhimento e fervor que as próprias comadres, sempre dispostas a comentar a vida alheia, admiravam-na, e, não a conhecendo, indagavam de onde vinha aquele anjo de menina.

Nem era só para ouvir Missa que procurava a igreja. Agradava-lhe também assistir às cerimônias litúrgicas e aos sermões do seu vigário que entendia à perfeição. Assim é que, numa Sexta-feira Santa, após o Sermão das "Três Horas de Agonia", repetiu­-o em seus pontos principais à mãe e aos irmãozinhos, não poupando lágrimas e suspiros.

Sentia-se principalmente atraída a visitar Jesus Sacramentado. A Primeira Comunhão deixara-lhe tais saudades que, por vezes, enfrentava uma viagem de duas horas a pé, tão somente para saciar sua sede de amor pelo Divino Prisioneiro.

Evitando toda distração, concentrava-se para ouvir a voz de Deus. Como quiséramos conhecer os suaves colóquios dessa pequenina esposa de Jesus, em lua de mel. Que propósitos de fidelidade teria ela confiado ao Coração adorável do seu Divino Esposo?


Do livro Santa Maria Goretti, mártir da pureza, do Pe. J. C. M. Colombo,
2. ed. Paulinas, 1949, pp. 47-54.

| Categoria: Testemunhos

Como se converteu o assassino de Santa Maria Goretti?

Conheça o testamento espiritual e a história de conversão de Alexandre Serenelli, o homem que matou Santa Maria Goretti.

"Se o grão de trigo não cair em terra e morrer, fica a sós consigo; mas se morrer produzirá muito fruto" ( Jo 12, 24). O grão de trigo contém um germe secreto de renovação e fecundidade. Mas até quando não se desagregar no sulco, permanecerá sozinho na esterilidade. Pelo contrário, uma vez atirado ao solo, e aí apodrecer, retomará a plenitude da vida e produzirá muitos frutos. Porventura, não seriam as palavras do Divino Mestre o mais oportuno elogio da morte trágica de Marieta? Seus restos mortais, dissolvendo·se pouco a pouco no túmulo transformaram-se em fonte de vida. Quantos desalentados encontraram à beira da sepultura dessa jovem mártir o ânimo para as lutas, quantos enfermos a saúde, e, acima de tudo, quantos pecadores a sua regeneração!

A mais impressionante foi, sem dúvida, a do pró­prio assassino. Digna de um Agostinho arrependido, a conversão desse infeliz constitui, ao lado do martírio, a mais fúlgida glória a aureolar a fronte de Santa Maria Goretti. Não será fora de propósito refazer-nos até aquele doloroso dia de 5 de julho de 1902 e acompanhar o pobre Alexandre até os baixios onde se enlameara, para que mais apareça a ação maravilhosa da gra­ça a reerguê-lo até os cimos da regeneração.

Após o crime, Alexandre fechara-se no seu quarto, e jogando o ferro ensanguentado atrás de um caixote, estendera-se na cama, aguardando os acontecimentos. Era esta a atitude dos heróis dos seus romances, quando nada mais lhes restava a fazer…

A chegada dos Carabineiros não o assustou. Não se levantou para recebê-los quando o chamaram, mas preferiu deixar que arroubassem a porta. Isto parecia-lhe mais digno de sua façanha. Foi, então, algemado. Entretanto, os soldados não se arriscaram a levá-lo. A multidão ardia de ódio contra o assassino. Queria linchá-lo a todo custo. Foi preciso, portanto, esperar os socorros da polícia a cavalo. E quando, finalmente, Alexandre apareceu entre os guardas rompeu uma explosão de ira. Entre o agitar-se das foices e dos facões reboavam os gritos de: "Morra o assassino!" Aquele povo parecia uma malta de revoltosos sedentos de justiça, não já os piedosos cristãos que, minutos antes, murmuravam orações. Não foi pequeno o trabalho da polícia, porém, com habilidade e com ameaças, conseguiu abrir caminho e pôr a salvo o criminoso.

No processo o réu demonstrou o mais revoltante cinismo. Confessou friamente o crime, e não se pejou de revelar abertamente suas torpes intenções. Foi, então, pronunciada a sentença:

Os jurados declaram Alexandre Serenelli culpado do homicídio premeditado para conseguir a realização de outro crime… A corte estabelece que seja aplicada a Alexandre Serenelli a pena máxima e o condena à prisão de trinta anos; e à vigilância especial da Pública Segurança por três anos; e à interdição perpétua de todo serviço público.

Em seguida, foi transferido para a cidade de Noto, na Sicília, a fim de lá expiar a pena merecida. O ambiente não parecia o mais propício para resipiscências, e, de fato, os primeiros anos de reclusão não acusaram mudança alguma: sempre o mesmo cinismo e o mesmo desprezo.

Entrementes, o sangue da sua vítima implorava misericórdia. " Quero vê-lo perto de mim no céu", dissera na hora de manifestar publicamente o seu perdão, e aquelas derradeiras palavras continuavam a ecoar diante do trono de Deus como uma súplica infalível.

Certa vez Sua Excelência, Dom Blandini, Bispo do lugar em visita às prisões, manifestou o desejo de avistar-se com Alexandre Serenelli. Levado à cela foi por ele acolhido com a mesma indiferença com que encarava toda espécie de autoridade. Que lhe viria contar esse Padre? Já o imaginava. Ele, porém, não era homem de tremer diante das ameaças do invisível. Assim como desacatara a justiça humana, assim também ele não temia a própria justiça divina… Qual foi, ao invés, a sua admiração quando viu aquele Bom Pastor sentar-se-lhe ao lado, interessar-se por ele, indagar da saúde, da vida que levava na prisão e, ainda, prontificar-se para diminuir-lhe a pena. Como era diferente esse Padre real das vulgaridades com que seus jornais o descreviam! Como lhe calavam na alma aquelas palavras afetuosas! Como feriam aquele coração que nunca experimentara os carinhos maternos.

Ao despedir-se, Sua Excelência deixou-lhe, para distrair-se, algumas publicações católicas, livros e revistas e, também, uma pequena biografia de Maria Goretti. Maria Goretti?! Oh, ele devia conhecê-la muito bem essa menina! Que se diria aí que ele não soubesse! Levado aparentemente pela curiosidade, e mais acertadamente pela graça, abriu então aquele livrinho e começou a ler, de início com displicência, depois com interesse, e depois… depois com o arrependimento a erguer-se impiedoso naquele coração de pedra. Foi na leitura das Epístolas de S. Paulo que o pecador Agostinho encontrou o caminho da conversão. Foi na leitura da vida dos santos que o soldado Iná­cio de Loiola iniciou sua regeneração. E Alexandre Serenelli, que na leitura dos jornais perversos precipitara-se no abismo, avistava, nas páginas que narravam o heroísmo de sua vítima, a escada que o ajudaria a sair das suas misérias. A virtude da pequena mártir fulgurou-lhe em todo o seu esplendor e o crime por ele perpetrado em toda a sua hediondez. Começou, então, a compreender que era realmente "um monstro" e pela primeira vez, depois de longos anos, Alexandre chorou…

É neste momento que ele inicia a subida ao Calvário, em cujo cimo expiará ao lado do Divino Salvador, junto ao Bom Ladrão, todo o horror do seu crime. Dia e noite a lembrança do passado avivava-se-lhe na mente; e o delito, que parecia não ter deixado outro rastro afora o tormento físico da prisão, rasgava-lhe agora na alma um sulco profundo. Ninguém mais o reconhecia. Aquele cinismo revoltante mudara-se em nuvens de tristeza que o deixavam abatido. Não era difícil adivinhar o novo drama que se iniciava naquela pobre alma. A angústia daquele arrependimento deixava suspeitar um desfecho precipitado, e, talvez, teríamos um novo Judas, se uma suave Advogada do céu não lhe arredasse as pedras de tropeço…

Data deste tempo um sonho que veio reanimá­-lo. "Parecia-me estar — conta ele próprio — num jardim cheio de lírios. De repente, vi aparecer Marieta, que, toda vestida de branco, colhia daquelas flores e, passando-as para as minhas mãos, dizia-me: Toma. Eu aceitava-as e assim que as beijava com grande devoção, transformavam-se em chamazinhas cintilantes." E conclui: " Tenho esperança de salvar-me, pois tenho uma Santa no Paraíso que reza por mim."

Não permitia que lhe diminuíssem a culpabilidade. Não, não havia atenuantes. Ele só era o responsável, pois "sabia perfeitamente o que estava fazendo". Por que apelar para discutidas enfermidades mentais derivadas dos parentes? "No dia do crime, insistia, eu estava com pleno conhecimento de tudo."

Não lhe bastava no entanto, arrepender-se e recriminar-se. Sentia a necessidade de uma reparação, de uma confissão pública que o cobrisse de humilha­ções e que exaltasse até o céu a sua vítima. Auxiliado por um companheiro, dirigiu ao mesmo Bispo que o visitara uma carta, em que não sabemos se mais admirar a coragem com que se declara culpado ou o louvor com que enaltece sua vítima. "Detesto — escreve — e abomino um homicídio tão bárbaro, que hoje amargurado lamento, por saber que tirei a vida a uma pobre inocente, a qual até o último momento quis conservar a sua honra, preferindo morrer tão cedo, antes que render-se aos meus vis desejos e cuja resistência me levou a dar um passo tão horrível quão lamentável. Publicamente detesto a minha vil ação e peço perdão a Deus, à infeliz e desolada família da vítima, do enorme pecado que cometi; e espero que eu também poderei obter o perdão, como tantos outros nesta miserável vida o obtiveram… e paz… e até as bênçãos da nobre extinta…"

[...]

O encontro de D. Assunta Goretti e Alexandre Serenelli.

Véspera de Natal do ano do Senhor de 1937.

Trinta e cinco anos são decorridos daquela tarde ensoalhada da Campanha Romana, em que uma camponezinha de doze anos escreveria para sempre o seu nome entre as virgens que acompanham o Cordeiro Divino.

Dia gélido nas terras italianas. O coração do inverno. Em Corinaldo, assim como em todas as aldeias da Itália, as famílias dos lavradores recolhem-se nos estábulos, aquecendo-se com o calor dos animais. Raros transeuntes atravessam as ruas. Só um homem arrasta-se vagarosamente como que alheio a toda essa onda de frio. Cinquenta e cinco anos. Mal vestido. Um tanto curvo. Segue passo a passo para a casa de D. Assunta.

— Quem quer falar com ela? perguntam-lhe.

— Alexandre Serenelli.

D. Assunta não tarda a aparecer. Forte ainda, apesar dos seus setenta anos, o cabelo branco a aureolar-lhe o rosto sulcado de rugas, o pobre homem a reconhece perfeitamente. A cena é rápida. Sem mesmo cumprimentá-la, atira-se-lhe aos pés e suplica:

— D. Assunta, perdoe! Pode perdoar-me?

Não imaginemos cenas romanescas, lutas íntimas a preceder a hora final, o coração a bater violentamente. O povo dos campos é o povo simples e a resposta é igualmente simples.

— Como não perdoar? Perdoou o Senhor. Perdoou-lhe minha filha. Como não hei de perdoar eu?

Na manhã seguinte D. Assunta e Alexandre Serenelli ajoelhavam-se um ao lado do outro, na mesma mesa Eucarística.

[...]

Quando D. Assunta era interrogada no Processo de Beatificação de sua filha se estava disposta a conceder o perdão ao assassino, não hesitou em responder afirmativamente. Mas· o público protestou: "Nós, porém, não lhe perdoaremos". Retrucou, então aquela verdadeira cristã: "E se o Senhor não perdoasse a nós?"

Por que, pois, negar o abraço fraternal a esse filho pródigo, para o qual já nosso Pai Celeste mandou preparar o banquete festivo?


Do livro Santa Maria Goretti, mártir da pureza, do Pe. J. C. M. Colombo,
2. ed. Paulinas, 1949, pp. 90-97.

*

É amplamente conhecido o fim que teve o penitente Alexandre Serenelli. Passando o resto de seus dias "como jardineiro do Convento dos Padres Capuchinhos", na província de Macerata, região das Marcas, o rapaz foi "totalmente integrado na família divina, separado do mundo", e marchou "em passos largos no caminho da regeneração mais completa".

Partiu para a eternidade, enfim, no dia 6 de maio de 1970, deixando à Igreja o seguinte testamento:

Tenho quase 80 anos de idade, próximo a concluir a minha jornada. Olhando meu passado, reconheço que na minha primeira juventude trilhei um falso caminho: o caminho do mal, que me levou à ruína. Vejo através da imprensa que a maioria dos jovens seguem sem se incomodar o mesmo caminho; eu também não me incomodava. Tinha perto de mim pessoas de fé e que praticavam o bem, mas eu não me importava, cego por uma força bruta que me impulsionava para o mau caminho. Fui consumido por décadas por um crime passional que hoje me horroriza a memória. Maria Goretti, hoje santa, foi o anjo bom que a Providência colocou adiante dos meus passos para me salvar. Eu ainda trago no coração suas palavras de repreensão e perdão. Ela rezou por mim, intercedeu por seu assassino. Foram quase 30 anos de prisão. Se eu não fosse menor de idade, teria sido condenado à prisão perpétua. Aceitei o julgamento merecido, admiti a minha culpa. Maria foi realmente a minha luz, a minha protetora. Com sua ajuda, comportei-me bem nos 27 anos de prisão e procurei viver honestamente quando a sociedade me aceitou de volta entre os seus membros. Os filhos de São Francisco, os Frades Menores Capuchinhos das Marcas, com caridade seráfica me acolheram, não como escravo, mas como a um irmão. Moro com eles há 24 anos e agora vejo o tempo passar com serenidade, aguardando o momento de ser admitido à visão de Deus, de poder abraçar meus entes queridos, de estar perto do meu anjo da guarda e de sua querida mãe, Assunta. Aqueles que lerem esta carta, que a tenham como exemplo para escapar do mal e seguir o bem, sempre. Acho que a religião com seus preceitos não é algo que se pode desprezar, mas é o verdadeiro conforto, a única via segura em todas as circunstâncias, mesmo as mais dolorosas da vida. Paz e bem.

Macerata, 5 de maio de 1961
Alexandre Serenelli

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categorias: Política, Sociedade

Uma lição de masculinidade para o nosso tempo

Os Founding Fathers amaram o próximo quando, primeiramente, amaram o “Juiz Supremo”, amaram suas famílias, a natureza humana e seus direitos inalienáveis, e por tudo isso empenharam as próprias vidas.

4 de julho de 1776 é a data em que 13 colônias da América, chefiadas por homens dispostos a perder suas vidas, suas fortunas e sua sagrada honra, puseram fim à tirania de uma coroa corrupta e puderam dar um grito de liberdade e autonomia. A Independência dos Estados Unidos foi conquistada graças a esforços corajosos e viris, o que torna esse feriado americano algo emblemático não somente para os filhos do Tio Sam, mas também para todo o Ocidente — este cada vez mais calejado por causa da febre de pusilanimidade que invadiu a sua cultura.

É questionável se, nos dias de hoje, aqueles homens que assinaram a Declaração de Independência Americana — empenhando, para isso, seus bens mais preciosos — teriam a mesma coragem de lutar e sacrificar-se por um mesmo ideal. A completa ausência de personalidades viris na sociedade contemporânea é um fenômeno espantoso. A ojeriza contra virtudes como força e coragem impregnou-se tanto nos espíritos, que se tornou quase um pecado portar-se de maneira mais masculina. A própria opinião pública faz pressão sobre os jovens para que vivam mais o seu "lado feminino". E o resultado disso se reflete não somente no seu vestuário — cada vez mais fresco —, mas também — e mais gravemente — na sua maneira de lidar com conflitos e decisões sérias.

Vejam, por exemplo, o comportamento dos líderes políticos. Com raríssimas exceções, é praticamente impossível encontrar um que inspire segurança e paternidade. Ao contrário, a esmagadora maioria deles parece mais preocupada com a estética diante das câmeras, com o discurso ambíguo e a imagem de bom mocinho, do que com tomadas de decisões objetivas, ainda que estas venham a desagradar a algum grupo.

É claro que todo esse afrouxamento de caráter não se desenvolveu espontaneamente. Tratou-se de um grave equívoco filosófico e teológico, de cujos resultados muitos grupos sedentos por poder têm se aproveitado.

Em sua Análise sobre o homem, o psicólogo Erich Fromm explica que, no século XVIII, a filosofia de Immanuel Kant desenvolveu uma espécie de "consciência culpada". Esse filósofo alemão, piedoso e escrupuloso que era, retirou a moralidade da ordem do amor para colocá-la na ordem da justiça. E, nessa visão, toda ação humana deve ser absolutamente desinteressada; a moral torna-se um "imperativo categórico", ou seja, um dever social que está acima de qualquer direito: mesmo sob uma ditadura, nenhuma pessoa pode reivindicar algo para si. O que Kant conseguiu produzir, por conseguinte, foi "a mais glacial atmosfera ética jamais proposta ao homem" [2].

Notem: o que rege a coragem de um homem para defender sua vida e a de sua família é o amor e a ordem com que ele ama essas mesmas coisas. Mas Kant condenou o amor, chamando-o de interesseiro. Para ele, os homens devem defender suas famílias não porque as amam, mas porque é seu dever. O homem que defende sua família por amor é entendido pela filosofia kantiana como alguém egoísta. Enfim, Kant separou as virtudes da caridade e da fortaleza. E, como dizia Chesterton, as virtudes separadas umas das outras ficam loucas. Sem o motor do amor, na verdade, todas as demais virtudes, como a fortaleza e a justiça, perdem o seu elã e a covardia toma conta do espaço.

Em sua análise, Fromm adverte que essa condenação do amor em nome do puro dever foi assumida pela cultura ocidental, de modo que as pessoas facilmente deixaram de lutar para se submeterem a uma falsa autoridade superior:

"Não seja egoísta" é uma frase que foi usada para impressionar milhões de crianças, em gerações sucessivas. Seu significado é um tanto impreciso; a maioria das pessoas diria que não se deve ser egoísta, sem consideração ou preocupação com os outros. Na verdade, geralmente quer dizer mais do que isso. Não ser egoísta implica não se fazer o que se quer, desistir de suas próprias vontades em benefício dos que detêm autoridade. "Não seja egoísta", em última análise, tem a mesma ambiguidade que tem no calvinismo. Além de seu sentido óbvio, quer dizer "não ame a si mesmo", mas submeta-se a algo mais importante do que você, a um poder exterior ou à sua interiorização, o "dever". "Não seja egoísta" transforma-se em uma das mais poderosas ferramentas para suprimir a espontaneidade e o livre desenvolvimento da personalidade. Sob a pressão desse slogan, pede-se à gente todo sacrifício e submissão completa. [3]

Não há como ler essas linhas terríveis do psicólogo judeu sem pensar nos efeitos trágicos que essa propaganda demagoga teria causado àquelas 13 colônias americanas, caso seus homens tivessem sido contaminados por tal servilismo. Ao contrário, é porque eles nutriam um sadio amor de si mesmo que puderam defender seus compatriotas da opressão estrangeira. A cultura contemporânea, por outro lado, criou homens passivos e incapazes de qualquer reação viril, porque suas personalidades foram tomadas pelo "amolecimento", pela "docilidade sem virtude", pela "mansidão sem brio", pela "resignação sem mérito" [4]. Em poucas palavras: eles deixaram de ser homens.

A Independência dos Estados Unidos é, sem dúvida, uma lição de virilidade para o nosso tempo. Os Founding Fathers, sim, amaram verdadeiramente ao próximo quando, primeiramente, amaram o "Juiz Supremo" e a "Divina Providência", amaram suas famílias, a natureza humana e seus direitos inalienáveis, e por tudo isso empenharam suas vidas. A medida do amor ao próximo é, afinal, o amor de si mesmo: "Amarás o próximo como a ti mesmo" (Mc 12, 31). Os "pais fundadores" deste tolerante Ocidente, por sua vez, não amam nem o Juiz Supremo, nem suas famílias, nem a natureza humana e seus direitos inalienáveis. Exatamente por essa razão ele se encontra prostrado diante da ameaça terrorista e de tantos outros projetos megalomaníacos de poder global.

"Sê enérgico. — Sê viril. — Sê homem. — E depois... sê anjo" [5]. Talvez nunca esse conselho de São Josemaria Escrivá tenha valido tanto como nos dias de hoje.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Erich Fromm, Análise do homem, 13. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983, p. 107-115.
  2. Gustavo Corção, Dois amores e duas cidades, Rio de Janeiro: Agir, 1967, v. 2, p. 86.
  3. Erich Fromm, op. cit., p. 113-114.
  4. Gustavo Corção, op. cit., p. 87.
  5. Caminho, n. 22.