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Um pouco da vida de Santa Francisca Romana
Santos & Mártires

Um pouco da vida de
Santa Francisca Romana

Um pouco da vida de Santa Francisca Romana

Mulher forte, como a da Sagrada Escritura, “a mais romana de todas as Santas” iluminou as almas e socorreu os necessitados num dos mais conturbados períodos da história da Igreja.

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP8 de Março de 2019Tempo de leitura: 11 minutos
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O Divino Salvador instituiu Sua Igreja sobre alicerces bem seguros: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Mas, ao longo da História, as forças infernais não deixaram de investir contra essa rocha inabalável.

Uma dessas investidas teve início com as agitações políticas e sociais que forçaram o Papa Clemente V a transferir, em 1309, a sede do Papado para a cidade francesa de Avignon, onde os sucessores de Pedro permaneceram até 1376. Foi um longo período de conturbações que culminaram no Grande Cisma do Ocidente (1378-1417).

A eclosão do Cisma veio agravar ainda mais a situação, a ponto de a Cidade Eterna ficar reduzida a uma situação de miséria, açoitada por guerras, carestia e pestes. Nesse contexto, destacou-se como luminoso anjo da caridade uma jovem dama da alta nobreza: Santa Francisca Romana, a qual, por sua prodigiosa atividade em favor dos pobres e doentes, conquistou o honroso título de Advocata Urbis (Advogada da Cidade).

Piedade precoce

Nascida em 1384, Francisca pertencia a uma rica família de patrícios romanos. Seus pais, Paulo Bussa de Leoni e Jacovella de Broffedeschi, proporcionaram-lhe uma primorosa educação cristã. Desde a mais tenra idade, acompanhava a mãe nas práticas de piedade, como abstinências, orações, leituras espirituais e visitas a igrejas onde pudessem lucrar indulgências.

Frequentava muito a Basílica de Santa Maria Nova, a preferida de sua mãe, confiada aos monges beneditinos de Monte Olivetto. Ali, Francisca começou a receber, ainda criança, direção espiritual de Frei Antonio di Monte Savello, com quem se confessava todas as quartas-feiras.

Aos onze anos, manifestou o desejo de consagrar-se a Deus pelo voto de virgindade. Sua inclinação para a vida monástica se fez notar quando — a conselho do diretor espiritual, para provar a autenticidade de sua vocação — começou a praticar em casa algumas austeridades próprias a certas ordens religiosas femininas. Seu pai, porém, opôs-se a esses infantis projetos, pois ela estava já prometida em casamento a Lourenço Ponziani, jovem de nobre família, bom caráter e grande fortuna.

Esposa exemplar

Francisca foi sempre esposa exemplar. Por desejo do marido, apresentava-se em público com a categoria de dama romana, usando belas joias e suntuosos trajes. Mas debaixo deles vestia uma tosca túnica de tecido ordinário. Dedicava à oração suas horas livres, e nunca negligenciava as práticas de vida interior. Transformou em oratório um salão do palácio e aí passava longas horas de vigília noturna, acompanhada por Vanozza. Era objeto de mofa das pessoas mundanas, mas sua família a considerava um “anjo da paz” [1].

Os desígnios da Providência

Três anos após seu casamento, contraiu uma grave enfermidade que se prolongou por doze meses, deixando temerosos todos os membros da família. Francisca, porém, não temia, pois colocara sua vida nas mãos de Deus, com inteira resignação. Nesse período de prova, por duas vezes apareceu-lhe Santo Aleixo. Na primeira, perguntou-lhe se queria curar-se, e na segunda comunicou-lhe que “Deus queria que permanecesse neste mundo para glorificar seu nome” [2]. Colocando então seu manto dourado sobre ela, restituiu-lhe a saúde.

Essa enfermidade, contudo, a fizera meditar profundamente sobre os planos da Providência a seu respeito. E uma vez restabelecida, decidiu, com Vanozza, levar uma vida mais conforme ao Evangelho, renunciando às diversões inúteis e dedicando mais tempo à oração e às obras de caridade.

Proteção do Anjo, ataques do demônio

Foi nessa época que Deus enviou-lhe um Anjo especial para guiá-la na via da purificação. Ela não o via, mas ele estava constantemente a seu lado e se manifestava por meio de sinais claros. Além de amigo e conselheiro, era vigilante admoestador, que a castigava quando ela cometia qualquer pequena falta. Certa vez em que Francisca, por respeito humano, não interrompeu uma conversa superficial e frívola, ele aplicou-lhe na face um golpe tão forte que deixou sua marca por vários dias e foi ouvido na sala inteira!

O demônio empreendia todo tipo de esforços para perturbar a vida e, sobretudo, impedir a santificação de Francisca. Como a Santa sempre triunfava de suas tentações, ele recorria com frequência a ataques diretos. Assim, em certa ocasião ela e Vanozza retornavam da Basílica de São Pedro e decidiram tomar um atalho, pois já era tarde. Chegando à margem do Tibre, inclinaram-se para tomar um pouco de água. Empurrada por uma força invisível, Francisca caiu no rio. Vanozza lançou-se para salvá-la e foi também arrastada pela correnteza. Sentindo em perigo suas vidas, recorreram a Deus e no mesmo instante se viram de novo na margem, sãs e salvas.

Modelo de mãe e de dona de casa

Quando em 1400 nasceu seu primeiro filho, João Batista, não duvidou em deixar algumas de suas mortificações e exercícios piedosos, para melhor cuidar do menino. Ao carinho materno, unia a firmeza da boa educadora, corrigindo-o em suas infantis manifestações de teimosia, obstinação e cólera, sem nunca ceder às suas lágrimas de impaciência. Foi modelo de mãe igualmente para João Evangelista e Inês, que nasceram alguns anos depois.

Seu Anjo ajudou-a a levar sua vida matrimonial com amor e dedicação, tanto para o esposo quanto para os filhos. Cumpria com perfeição seu ofício de dona de casa, compreendendo que os sacrifícios impostos pelas tarefas cotidianas fazem parte da purificação necessária nesta vida e têm prioridade sobre as mortificações particulares. Desempenhou-se de tal maneira que, em 1401, quando faleceu a esposa do velho Ponziani, seu sogro, este incumbiu-a do governo do palácio. Nessa função, a jovem senhora demonstrou grande capacidade, inteligência e, sobretudo, bondade.

Organizou os trabalhos da numerosa criadagem de modo a todos terem tempo de cumprir seus deveres religiosos. Assistia-os em suas necessidades materiais e os incentivava a levar uma vida verdadeiramente cristã. Quando algum deles adoecia, Francisca se fazia de enfermeira, mãe e irmã. E se a enfermidade acarretava perigo de vida, ela mesma ia buscar a assistência espiritual de um sacerdote, a qualquer hora do dia ou da noite.

Prodígios realizados em vida

“Santa Francisca Romana dando esmolas”, de Giovanni Battista Gaulli.

Por volta de 1413, a fome se abateu sobre Roma. O sogro de Francisca alarmou-se ao ver que ela conti­nuava muito generosa em ajudar os necessitados… distribuindo-lhes parte das provisões que ele reservara para sustento da família, e proibiu-a de fazê-lo. Não podendo mais a caridosa dama dispor daqueles víveres para socorrer os famintos, começou a pedir esmolas para eles. E certo dia, tomada de súbita inspiração, foi com Vanozza a um celeiro vazio do palácio para procurar o que pudesse ter restado de trigo no meio da palha. À custa de paciente trabalho, conseguiram recolher alguns poucos quilos do desejado grão. Coisa admirável: logo após a saída das duas, Lourenço, seu esposo, entrou no celeiro e lá encontrou 40 sacos contendo, cada um, 100 quilos de trigo dourado e maduro!

Idêntico prodígio se deu na mesma época: querendo levar aos pobres um pouco de vinho, Francisca recolheu a escassa quantidade que restava no fundo de um tonel e no mesmo instante este encheu-se milagrosamente de um excelente vinho.

Esses prodigiosos fatos muito contribuíram para suscitar em Lourenço um temor reverencial e amoroso por sua esposa. Em consequência, ele lhe deu liberdade de dispor de seu tempo para suas obras apostólicas e lhe permitiu trocar seus belos trajes e joias — os quais ela apressou-se a vender para distribuir aos pobres o dinheiro — por roupas simples e pouco vistosas.

Guerras e provações

Muitas provações ainda a aguardavam. A situação política da Península Itálica e a crise decorrente do Grande Cisma do Ocidente acarretaram-lhe muitos sofrimentos. Roma estava dividida em dois grupos que travavam encarniçada guerra: a favor do Papa, os Orsini, de cuja facção Lourenço fazia parte; de outro lado, os Colonna, apoiando Ladislau Durazzo, rei de Nápoles, que invadiu Roma três vezes. Na primeira invasão, Lourenço foi gravemente ferido em combate, sendo curado pela fé e dedicação da esposa. Na segunda, em 1410, as tropas saquearam o palácio dos Ponziani, e os bens da família foram confiscados. Pior ainda, Francisca viu seu esposo e seu filho Batista partirem para o exílio.

Em 1413 e 1414, a capital da Cristandade ficou entregue à pilhagem e reduzida à miséria. Um novo flagelo, a peste, veio agravar essa situação. A Santa transformou o palácio em hospital e cuidava pessoalmente das vítimas da terrível doença. Era um anjo da caridade naquela infeliz cidade assolada pelo infortúnio.

Sua própria família não ficou imune a essa tragédia: em 1413 morreu Evangelista, seu filho mais novo, e no ano seguinte a pequena Inês. Por fim, ela também contraiu a doença, mas foi milagrosamente curada por Deus.

Visões e dons sobrenaturais

Ainda em 1413, apareceu-lhe seu filho falecido havia pouco, tendo a seu lado um jovem do mesmo tamanho, parecendo ser da mesma idade, mas muito mais belo.

— És realmente tu, filho do meu coração? — perguntou ela.

Ele respondeu que estava no Céu, junto com aquele esplendoroso Arcanjo que o Senhor lhe enviava para auxiliá-la em sua peregrinação terrestre.

— Dia e noite o verás ao teu lado e ele te assistirá em tudo — acrescentou.

Aquele Espírito celestial irradiava uma tal luz que Francisca podia ler ou trabalhar à noite, sem dificuldade alguma, como se fosse dia. E lhe iluminava o caminho quando precisava sair à noite. Na luz desse Arcanjo, ela podia ver os pensamentos mais íntimos dos corações. Recebeu, ademais, o dom do discernimento dos espíritos e o de conselho, os quais usava para converter os pecadores e reconduzir os desviados ao bom caminho.

Deus a favoreceu com numerosas outras visões. As mais impressionantes foram as do inferno. Viu em pormenores os suplícios pelos quais são punidos os condenados, de acordo com os pecados cometidos. Observou a organização hierárquica dos demônios e as funções de cada um na obra de perdição das almas, uma paródia da hierarquia dos Coros Angélicos. Lúcifer é o rei do orgulho e o chefe de todos. Viu ainda como os atos de virtude praticados pelos bons atormentam essas miseráveis criaturas e prejudicam sua ação na terra.

Vida de apostolado

Tendo falecido o rei Ladislau, restabeleceu-se a paz na Cidade Eterna, seu esposo e seu filho Batista regressaram do exílio, e a família Ponziani recuperou os bens injustamente confiscados.

Por meio de orações e boas palavras, a Santa conseguiu convencer Lourenço a reconciliar-se com seus inimigos e a entregar-se a uma vida de perfeição. E após o casamento do filho, entregou à nora — convertida por ela — o governo do palácio para dedicar-se inteiramente às obras de caridade e de apostolado.

Lourenço deixou-a livre para fundar uma associação de religiosas seculares, com a condição de continuar vivendo no lar e não parar de guiá-lo no caminho da santidade. Orientada por seu diretor espiritual, fundou uma sociedade denominada Oblatas da Santíssima Virgem, segundo o modelo dos beneditinos de Monte Olivetto. Em 15 de agosto de 1425, Francisca e outras nove damas fizeram sua oblação a Deus e a Maria Santíssima, mas sem emitir votos solenes. Vivia cada qual em sua casa, seguindo os conselhos evangélicos, e se reuniam na igreja de Santa Maria Nova para ouvir as palavras de sua fundadora, que para elas era guia e modelo a imitar.

Alguns anos depois, ela recebeu a inspiração de transformar essa sociedade em congregação religiosa. Adquiriu o imóvel de nome Tor de’ Specchi e, em março de 1433, dez Oblatas de Maria foram revestidas do hábito e ali se estabeleceram, em regime de vida comunitária. Em julho desse mesmo ano, o Papa Eugênio IV erigiu a Congregação das Oblatas da Santíssima Virgem, nome mudado posteriormente para Congregação das Oblatas de Santa Francisca Romana. Era uma instituição nova e original para seu tempo: religiosas sem votos, sem clausura, mas de vida austera e dedicadas a um genuíno apostolado social.

Comprometida como estava pelo matrimônio, somente depois da morte do esposo, em 1436, Francisca pôde afinal realizar o maior desejo de sua vida: fazer-se religiosa. Entrou como mera postulante na congregação por ela fundada. Mas foi obrigada — pelo capítulo da comunidade e pelo diretor espiritual — a aceitar os encargos de superiora e fundadora.

Viu o Céu aberto e os Anjos vindos para buscá-la

Viveu no convento apenas três anos. Em 1440, viu-se forçada a retornar ao palácio Ponziani para cuidar de seu filho, gravemente enfermo. Atingida por uma forte pleurisia, ali permaneceu, por não ter mais forças. Soube então que havia chegado seu derradeiro momento. Padeceu terrivelmente durante uma semana, mas pôde dar seus últimos conselhos às suas filhas espirituais e despedir-se delas.

No dia 9 de março, depois de agradecer a seu diretor, o Padre Giovanni, em seu nome e no da comunidade, quis rezar as Vésperas do Ofício da Santíssima Virgem. Com os olhos muito brilhantes, dizia estar vendo o Céu aberto e haverem chegado os Anjos para buscá-la. Com um sorriso iluminando-lhe a face, sua alma deixou esta Terra.

Ao elevá-la às honras dos altares, em maio de 1608, o Papa Paulo V qualificou-a de “a mais romana de todas as Santas” [3]. E o Cardeal São Roberto Belarmino, que contribuíra decisivamente, com seu voto, para a canonização, declarou no Consistório: “A proclamação da santidade de Francisca será de admirável proveito para classes muito diferentes de pessoas: as virgens, as mulheres casadas, as viúvas e as religiosas” [4].

Quatro séculos depois, o Cardeal Angelo Sodano traçava dela este quadro: “Lendo sua vida, parece que nos deparamos com uma daquelas mulheres fortes, das quais estão repletos os Livros Sagrados e as páginas da História da Igreja. […] Mulher de ação, Francisca hauria, contudo, de uma intensa vida de oração a força necessária para seu apostolado social” [5].

Precioso conselho para todos nós: é “de uma intensa vida de oração” que nos vem a força para levar avante nossas obras de apostolado. (Revista Arautos do Evangelho, Março/2009, n. 87, pp. 30-33)

Referências

  1. Pe. Luis M. Pérez Suárez. Santa Francisca Romana, in: Año Cristiano, Madrid: BAC, 2003, p. 173.
  2. Idem, ibidem.
  3. Tor de’ Specchi, Monastero delle Oblate di S. Francesca Romana — Venerazione e culto.
  4. Pe. Luis M. Pérez Suárez, op. cit., p. 185.
  5. Card. Angelo Sodano. Homilia por ocasião da festa de Santa Francisca Romana, 5 mar. 2005.

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O sacrilégio mais grave é o seu!
Espiritualidade

O sacrilégio mais grave é o seu!

O sacrilégio mais grave é o seu!

O pecado de sacrilégio é grave e, das coisas sagradas, o que é cometido “contra a Eucaristia é o mais grave de todos”. Mas tudo se torna ainda mais sério quando os profanadores são justamente os que mais deveriam amar a Nosso Senhor.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Foi profanada, no último dia 22 de setembro, na comuna de Caltanissetta, ilha italiana da Sicília, a igreja de Santa Águeda, virgem e mártir dos primeiros séculos da era cristã. Os autores do crime, dois rapazes, já foram presos e, segundo informação do site Messa in latino, o ato se deu da seguinte forma: depois de roubarem coisas de valor na biblioteca,

eles entraram na igreja, onde começaram a furtar objetos sagrados e cometer atos de vandalismo. Em particular, violaram a urna de vidro onde repousa uma imagem de Nossa Senhora dormindo (Madonna dormiente), da qual arrancaram um braço e roubaram o broche de ouro que lhe fecha o manto. Danificaram o altar, retirando o cibório com hóstias consagradas e o vaso com os santos óleos, arrancaram e ajuntaram todos os candelabros da igreja, escondendo-os atrás de uma porta, provavelmente para voltar e levá-las em um segundo momento. 

As pessoas que não crêem em Deus, em Cristo e na sua Igreja, lêem relatos assim e concluem, dando de ombros: “Mais um caso de furto”. Os mais revoltados talvez digam: “Restitua-se o que foi furtado, punam-se os culpados, e ‘vida que segue’”. 

Fotografia da profanação em Caltanissetta.

Mas a nos diz que há algo mais. Alguns sites católicos italianos notaram com acerto que vândalos de igrejas não são ladrões convencionais. Não se pode ignorar, é claro, que em certos aspectos uma igreja é muito mais fácil de roubar que outros edifícios, onde as coisas de valor são guardadas a sete chaves ou ficam completamente escondidas de olhos curiosos. Na igreja, ao contrário, tudo o que há, embora destinado ao culto de Deus, é também de utilidade do homem: é diante das belas imagens sagradas que os fiéis católicos fazem suas orações, e quanto mais belas e valiosas são, mais elas movem a piedade e convidam à meditação. É preciso investir em segurança, é claro, mas certas medidas, cabíveis em qualquer estabelecimento bancário ou comercial, são completamente inviáveis numa igreja. Além disso, os objetos consagrados ao culto divino têm, geralmente, um valor pecuniário muito alto — e isso certamente atrai os bandidos. 

Ainda assim, é preciso perguntar: por que, entre tantos alvos, escolher justamente uma igreja para saquear? Para levar a cabo um empreendimento desse gênero, é preciso ter perdido, no mínimo, o senso de respeito ao sagrado. Dizemos “no mínimo” porque é sabido que muitos roubos desse tipo acontecem com intenções sacrílegas ainda mais perversas, como usar as espécies eucarísticas para cultos satânicos, por exemplo (sim, há pessoas que realmente cultuam Satanás). E o ponto é que as pessoas que procedem com essa intenção não são movidas simplesmente pela cobiça, mas por um impulso realmente demoníaco. 

Sim, o que aconteceu nessa igreja foi um furto, mas não foi um furto. Até o Estado costuma reconhecer e punir delitos contra o sentimento religioso em geral. Tanto no Brasil quanto na Itália há artigos do Código Penal prevendo isso.

Mas esta não é uma reflexão jurídica. Trata-se, antes, de um texto para que tomemos consciência do peso que têm os sacrilégios — e de que eles são piores quanto mais elevados os objetos profanados, e também (ai de nós!) quanto mais importantes os sujeitos que os cometem.

Comecemos pelos objetos. Com a palavra, S. Tomás, explicando como “as espécies de sacrilégio se distinguem conforme as coisas sagradas”: 

Quanto às coisas sagradas, há diversos graus correspondentes às diferenças dessas coisas. No grau supremo estão os sacramentos, que santificam os homens, dos quais o principal é a Eucaristia, já que nela está o próprio Cristo. Por esse motivo, o sacrilégio contra a Eucaristia é o mais grave de todos. Depois dos sacramentos, vêm os vasos sagrados, que se usam na administração dos sacramentos, as imagens dos santos e as suas relíquias nas quais se honram ou desonram os próprios santos. Em seguida, o que pertence aos ornatos das igrejas e seus ministros. Finalmente, os bens móveis ou imóveis destinados ao sustento dos ministros. Quem quer que viole o que está aqui enumerado, peca e incorre no crime de sacrilégio (STh II-II 99, 3 c.).

O que aconteceu na Sicília, portanto, à luz da fé, é de suma gravidade. A punição dos culpados segundo as leis civis é importante, sem dúvida, mas não é o suficiente para consertar a ofensa que ali se fez a Deus. É por isso que, sempre que acontece um sacrilégio contra o Santíssimo Sacramento, a primeira coisa que os padres fazem é convocar os fiéis para fazer atos de desagravo. Essa mobilização nasce da consciência de que Deus merece o nosso respeito e amor; mas quando, ao invés, os homens o ultrajam, é dever dos que o amam consolá-lo… Como os anjos consolaram Nosso Senhor no Horto, como a Verônica enxugou a face de Cristo na Via Crucis

É pelos contínuos pecados dos homens que Jesus teria dito ao Padre Pio: “Estarei em agonia até o fim do mundo”. Não porque Cristo, no Céu, ainda sofra; o que acontece é que os pecados que cometemos hic et nunc, aqui e agora, estavam na mente de Nosso Senhor quando Ele viveu a sua dolorosa Paixão. As Hóstias consagradas que foram profanadas em Caltanissetta parecem não dizer respeito a nós, porque nunca ouvimos falar desta cidade, porque ela está muito distante, porque temos mais com que nos preocupar… Mas não, elas foram vistas por Jesus quando Ele ofereceu o seu sacrifício no Calvário.

E se esse sacrilégio foi visto, também o foram todos os outros que acontecem em nossas igrejas, tão perto de nós, e às vezes até por nossa culpa, por nossa negligência, por nossa indiferença. Nosso Senhor viu as nossas comunhões mal feitas e distraídas, viu as comunhões que tomamos em pecado mortal, viu as partículas eucarísticas que caíram de nossas mãos quando as esfregamos em nossa roupa. O mesmo santíssimo Corpo que Ele deitou no madeiro para ser crucificado, o mesmo preciosíssimo Sangue que Ele derramou por nossa salvação, Ele viu cair e derramar-se no chão de nossas igrejas, pelo descuido, pela falta de zelo e pela impiedade de seus ministros. E tudo isso, atenção, certamente pesou muito mais em seu Coração do que o sacrilégio desses dois jovens de Caltanissetta.

Não, não se trata de minimizar a gravidade do que esses rapazes fizeram. Mas é que existe uma outra dimensão do sacrilégio que precisamos considerar: ele é tanto pior quanto maior a dignidade do sujeito que a comete. Por isso, é muitíssimo mais grave a profanação cometida por um cristão batizado que a feita por um pagão; muitíssimo mais pesado o sacrilégio perpetrado por um sacerdote que o realizado por um leigo; muitíssimo mais séria a infidelidade de um pai de família que a de uma criança etc. O porquê disso é S. Tomás, novamente, quem o explica: 

Primeiro, porque há nos grandes mais facilidades para resistir ao mal, por exemplo, naqueles que se distinguem pela ciência e pela virtude. Por isso, fala o Senhor: “O servo que conhece a vontade de seu senhor e nada faz, será castigado mais rudemente” (Lc 12, 47). Segundo, porque há ingratidão. Com efeito, tudo o que traz grandeza ao homem é um benefício de Deus, ao qual o homem, pecando, torna-se ingrato. A este respeito, qualquer grandeza, mesmo a que está nos bens temporais, agrava o pecado: “Os poderosos serão poderosamente castigados” (Sb 6, 7). Terceiro, porque há particular repugnância entre o ato do pecado e a grandeza da pessoa: por exemplo, quando um príncipe se põe a violar a justiça, ele que é seu guardião, ou quando um sacerdote entrega-se à fornicação, ele que fez voto de castidade. Quarto, porque há o exemplo, ou o escândalo, como diz Gregório, quando um pecador está constituído em honra por causa do lugar respeitável que ocupa, seu pecado é um exemplo mais extenso. Com efeito, o pecado dos grandes chega ao conhecimento de maior número de pessoas que com ele ficam mais indignadas (STh I-II 73, 10 c.).

Isso quer dizer que, pelas graças maiores que foram dadas a nós, católicos, pelas numerosas bênçãos de que Deus nos cumulou, pela dignidade a que fomos elevados pelo Batismo, pela responsabilidade que temos, enfim, com as almas dos outros, nossos “esquecimentos, friezas e desprezos” — como diz o Ato de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus — são muito mais ofensivos a Nosso Senhor.

Por isso, antes mesmo de começarmos a rezar em reparação pelo sacrilégio de Caltanissetta, ponhamos a mão na consciência, por assim dizer, e façamos cessar os meus sacrilégios, os sacrilégios da minha família, os sacrilégios da minha paróquia, os sacrilégios da minha diocese, os sacrilégios do meu país — tudo na medida das possibilidades de cada um, é claro. Os pecados dos outros devem servir para nós de lição primeiro, para que não os repitamos

Mas esses pecados — especialmente os sacrilégios, especialmente as profanações do Santíssimo Sacramento — também precisam ser reparados! 

Alguém pode perguntar: se Cristo já pagou por esse sacrilégio terrível que foi cometido, por que precisamos nós tomar os nossos Terços, dobrar os nossos joelhos, gastar a nossa saliva rezando, sacrificando-nos e procurando aplacar a Deus? Ao que responderemos assim: Deus, sendo todo-poderoso, evidentemente não precisa de nós para salvar o mundo, e no entanto Ele quis precisar de nossas mãos, de nossas bocas e de nossos joelhos para fazê-lo. Isso significa que, assim como S. Paulo, todos nós podemos completar em nossa carne aquilo que “falta” à Paixão do Senhor (cf. Cl 1, 24). 

O que poderia ter faltado à Paixão de nosso Redentor? 

Nada, poderíamos dizer, por um lado. Mas tudo, devemos dizer, por outro. Porque, se a minha união à Paixão de Cristo não acontecer; se eu não beber o cálice do Sangue que Ele derramou pela minha salvação, todos os sofrimentos que Ele suportou, todas as injúrias que Ele sofreu, todos os ultrajes que recebeu, tudo isso terá sido, para mim, em vão.

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A “solidão da fé” e a nova família de Cristo
Espiritualidade

A “solidão da fé”
e a nova família de Cristo

A “solidão da fé” e a nova família de Cristo

Nosso Senhor veio inaugurar uma nova família. Mas, aqui, sua Igreja ainda se encontra dispersa, e num mundo apóstata e anticristão como nosso, os irmãos de Jesus experimentarão cada vez mais a tremenda “solidão da fé”.

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Quando, em resposta à sua mãe e seus parentes mais próximos que o procuravam, Nosso Senhor disse: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, e a põem em prática” (Lc 8, 21), era inaugurada uma nova família, formada não já por laços de sangue, como o antigo povo de Israel, mas unida por um vínculo espiritual. Essa família é a Igreja e, assim como o Cristo, também ela foi prenunciada no Antigo Testamento. Veja-se o que escreve, por exemplo, o profeta Malaquias (“oráculo do Senhor”):

Vá, antes, um de vós e feche as portas. Não acendereis mais inutilmente o fogo no meu altar. Não tenho nenhuma complacência convosco — diz o Senhor dos exércitos — e nenhuma oferta de vossas mãos me é agradável. Porque, do nascente ao poente, meu nome é grande entre as nações e em todo lugar se oferecem ao meu nome o incenso, sacrifícios e oblações puras. Sim, grande é o meu nome entre as nações — diz o Senhor dos exércitos (Ml 1, 10-11). 

Como se pode ver, é uma profecia a respeito não só da Igreja, mas também da Eucaristia; mais propriamente, do fato de que Ecclesia de Eucharistia vivit, isto é, “a Igreja vive da Eucaristia” [1]. O sacrifício antigo cessou, e o novo passou a ser oferecido em todos os lugares, assim como a salvação se estendeu de Israel para todo o orbe — porque “grande é o meu nome entre as nações”, diz o Senhor. As Missas oferecidas ao redor do mundo são esses “incenso, sacrifícios e oblações puras” de que fala o profeta. Também em tempos de pandemia é válido recordar isso, pois, mesmo com as igrejas fechadas e o culto público suspenso em muitos lugares, os sacerdotes católicos não deixaram de oferecer a Deus, ainda que em privado, “a hóstia pura, hóstia santa, hóstia imaculada, o pão santo da vida eterna e o cálice da eterna salvação” [2].

Essa família, porém, que se reúne em torno do Cordeiro tanto na fé quanto na liturgia, é apresentada por Nosso Senhor na perícope do Evangelho acima de modo abrupto e, alguém seria tentado a dizer, quase inconveniente. Os protestantes chegam a usar o versículo em questão para combater a veneração católica a Nossa Senhora, como se perguntassem: se o próprio Cristo a tratou com tanta “rispidez”, por que deveríamos fazer diferente?

A verdade é que o Deus que promulgou o quarto mandamento não é diferente do que se fez homem no seio da Virgem Maria. Por isso, está fora de cogitação que Jesus tenha querido destratar, ou tenha efetivamente desonrado a sua Mãe. Admiti-lo seria questionar a própria perfeição do Verbo feito carne. Ao contrário do que sugere essa interpretação tendenciosa protestante, a lição que precisamos extrair das palavras de Jesus é bem outra. 

Voltemos à ideia inicial de que Nosso Senhor veio inaugurar um novo tipo de família, pois é o que expressam mais duas passagens do Evangelho:

  1. Em resposta a uma mulher do meio do povo que exclama: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!”, Nosso Senhor replica: “Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!” (Lc 11, 27-28). Isto é, o que importa, agora, não é simplesmente o amor natural de uma mãe que dá a luz o seu filho e o amamenta, dando-lhe sustento físico. Isso é bom, sem dúvida, mas também os animais o podem fazer. Contam mais, a partir da Nova Aliança, a paternidade e a maternidade espirituais, de quem gera almas para Deus.
  2. Na mesma linha, em discussão com os fariseus, Nosso Senhor diz que, embora sejam “a raça de Abraão”, pelas obras que praticam o pai deles é o diabo (cf. Jo 8, 37-40). Isto é, pelo sangue, eles podem até ser descendentes de Abraão, mas o que importa, agora, não é mais a geração carnal. Somos mais filhos de quem imitamos do que de quem nascemos.

Isso tem uma importância, para nós, muito maior do que podemos imaginar num primeiro momento. Ao lembrar a superioridade da fé, da obediência e das virtudes sobre a carne, o sangue e os laços humanos, Jesus queria alertar a todos os seus discípulos, de todos os tempos, que, se for preciso escolher, um dia, entre a amizade do mundo e a de Deus, não devemos hesitar em voltar as costas para os mais próximos a nós, mesmo que estes sejam membros de nossa própria família!

É claro, pode ser que, em alguns casos, não precise ser assim. Com Nosso Senhor, no seio da Sagrada Família, não precisou, pois São José e Maria Santíssima foram os pais mais perfeitos que jamais existiram. Os santos que tiveram pais igualmente santos, como Teresinha do Menino Jesus, também gozaram em sua casa de uma tranquilidade invejável. Mas em muitos lares não é assim. Na verdade, poderíamos até dizer que a regra é que não o seja. A norma dentro das famílias é esta, anunciada pelo próprio Senhor: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa” (Mt 10, 34-36).

Note-se o peso desta frase: por causa de Cristo, “os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa”. Sim, as pessoas mal casadas imediatamente se reconhecem na descrição, mas Nosso Senhor não está falando disso [3]. Trata-se de algo mais profundo: cônjuges também, mas pais e filhos, irmãos e irmãs, quando não há concórdia, isto é, quando não têm os corações (corda) no mesmo lugar, podem se comportar como verdadeiros estranhos, mesmo morando debaixo do mesmo teto.

Não à toa, tantas pessoas se sentem mais acolhidas e chegam a estimar mais os seus irmãos de fé que os seus de sangue. E não, não é “ódio” à própria família, não é “renegar” as próprias origens, não é “achar-se superior” aos de sua casa. É simplesmente o movimento sobrenatural de quem sabe que há uma família, que se reúne aqui na Terra e que se reunirá para sempre no Céu, e que vale a pena desprezar todo o resto para fazer parte dela

E, muitas vezes, aqueles que estão mais próximos não nos deixarão outra alternativa, a não ser dizer, com suas atitudes e comportamentos: “Ou nós ou o seu Cristo”. Só para dar um exemplo: uma família recém-formada, que quer educar os filhos na fé, não conseguirá frequentar as festas da família maior no final do ano, quando se reúnem em torno da mesa de Natal xingamentos e músicas indecentes, e às vezes até depravação sexual e embriaguez. Ressoarão nos ouvidos do casal católico as palavras de Nosso Senhor: “Quem ama o seu pai e a sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10, 37). Será doloroso apartar-se dos que lhe deram a vida física, mas se isso for necessário para que eles mantenham em suas almas a vida sobrenatural, assim será. 

Sim, isso é muito duro. Mas um teólogo contemporâneo já havia advertido: La solitudine della fede sarà tremenda, “A solidão da fé será tremenda” [4]. A solidão da fé será tremenda, quando o filho católico precisar trancar-se no próprio quarto e isolar-se do convívio com os seus para preservar a própria pureza, porque na sala toda a família está a assistir a um filme ou uma novela indecentes; a solidão da fé será tremenda, quando a mãe de família tiver de suportar o abandono do marido infiel e tiver de criar os próprios filhos sozinha, porque quer ser fiel ao próprio casamento; a solidão da fé será terrível, quando uma pessoa se converter a Cristo e ver os mais próximos se precipitando no Inferno e fazendo de sua vida, já aqui, um Inferno. 

Só que, concluamos, trata-se de uma solidão ilusória. Pois, se seu pai ou sua mãe, seu filho ou sua filha, seus irmãos ou seus primos não reconhecem mais você, Cristo Nosso Senhor não só o conhece, como lhe chama de pai, de mãe, de irmão, de irmã. Nós, católicos, devemos ser muito gratos a nossos familiares, especialmente a nosso pai e nossa mãe, que nos deram a vida natural — não sem razão temos o quarto mandamento para cumprir [5]! —, mas o nosso coração deve alargar-se muitíssimo mais de pensar na família a que fomos incorporados pelo Batismo e pela fé em Jesus! Ainda que pareça, não estamos sozinhos jamais, pois Jesus é o nosso primeiro companheiro fiel, nosso primeiro familiar. Depois dele, há uma multidão de santos e anjos, incontável, que podemos invocar a todo tempo em nossas provações familiares e em nossas dificuldades interiores.

Na Missa, nós experimentamos poderosamente esse mistério, que é chamado no Credo de “comunhão dos santos”. Ali, em torno do altar do Senhor, daquele que se fez nosso parente, nosso familiar, nosso irmão, estão a bem-aventurada Virgem Maria, São Miguel Arcanjo, os Apóstolos São Pedro e São Paulo, desde o início da Missa, quando lhes confessamos os nossos pecados e pedimos sua intercessão [6]. Os anjos são invocados constantemente, para levar nossas orações até Deus — e eles o fazem.

Portanto, se é verdade que “a solidão da fé será tremenda” nesse nosso mundo, cada vez mais pagão e apóstata; se, de fato, ao nosso redor todos parecem não ter fé e mesmo os que a tinham parecem perdê-la, devem inspirar-nos sempre confiança as palavras de Nosso Senhor: “Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino” (Lc 12, 32). Não deve nos assustar o fato de os fiéis se reduzirem a um punhado. De fato, o rebanho é pequeno (pusillus grex), e não é de agora. Mas, ao mesmo tempo, somos filhos do Deus dos exércitos (Deus sabaoth), o Deus das legiões de anjos que, invisíveis, engrossam o coro dos bem-aventurados e tornam o número dos eleitos muito maior do que parece a um primeiro olhar. Agora nos encontramos dispersos, e a solidão da fé, muitas vezes, parece que nos vai engolir. Mas Deus nos fez “sacerdotes e povo de reis, e iremos reinar sobre a Terra” (cf. Ap 1, 6).

Isso significa também que, já aqui, teremos a graça de ver muitos de nossos próximos se converterem, graças à nossa oração, ao nosso testemunho e ao nosso apostolado. Afinal de contas, porque amamos os nossos, queremo-los junto de nós, queremo-los junto de Cristo. E trabalharemos para isso, com a ajuda da graça de Deus!

Mas não nos assustemos com o mistério da iniquidade, com o abuso que tantos fazem do livre-arbítrio. Porque também nós, não fosse a grande misericórdia de Deus, estaríamos no mesmo caminho do mundo. Por isso, não só pelos que não crêem, mas também por nós, não tardemos a invocar, especialmente agora, a intercessão do Arcanjo São Miguel: como diz o Alleluia de sua Missa no rito tridentino, Sancte Michael Archangele, defende nos in praelio, ut non pereamus in tremendo judicio — “São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate para que não pereçamos no tremendo juízo”. 

Sim, tremenda será não só a “solidão da fé”, mas também o julgamento de Deus. De nossa perseverança, até o fim desta vida, depende a nossa salvação por toda a eternidade.

Notas

  1. Com essas palavras começa a Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, do Papa S. João Paulo II, de 17 abr. 2003.
  2. São as milenares palavras da mais importante Oração Eucarística da Igreja, o Cânon Romano, em uma tradução literal do original latino. No Brasil, infelizmente, toda essa oração foi simplificada (para não dizer coisa pior). No trecho em questão, por exemplo, a hóstia “pura, santa e imaculada” simplesmente desapareceu. Sobre como isso se deu, cf. Dom Clemente Isnard, “Os primórdios da reforma litúrgica no Brasil” (Encontro dos Liturgistas do Brasil, Belo Horizonte, 28 de janeiro de 2002), em: A Sagrada Liturgia: 40 anos depois (Estudos da CNBB, 87). São Paulo: Paulus, 2003, pp. 22-32.
  3. Cremos que ninguém negará que é possível casar-se mal. Se alguém ainda duvida, no entanto, ouça este comentário de S. João Crisóstomo a Mt 19, 10-12: “Oferece menos dificuldades combater contra a concupiscência e contra si mesmo do que combater contra uma mulher má” (Hom. in Matt. 62, 3, em: S. Tomás, Catena Aurea in Matt. XIX, 3).
  4. Romano Guardini, O fim dos tempos modernos. Lisboa: Livraria Morais Editora, 1964, p. 135.
  5. Sobre os deveres que se devem cumprir dentro da família, cf. Pe. A. Royo Marín, “Los deberes familiares”, em: Teología moral para seglares, v. 1, Madri: BAC, 1996, pp. 779s.
  6. No Confiteor do rito antigo, os fiéis confessavam seus pecados não só “a Deus todo-poderoso e a vós, irmãos e irmãs”, mas também beatae Mariae semper Virgine, beato Michaele Archangelo, beato Ioanni Baptistae, sanctis Apostolis Petro et Paulo, omnibus sanctis, isto é, “à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado São João Batista, aos santos Apóstolos São Pedro e São Paulo, a todos os santos”. Os nomes de todos eles eram invocados a seguir, como intercessores por nós junto a Deus. Em muitos outros lugares da Missa, infelizmente, a referência aos santos foi atenuada com a reforma litúrgica de 1969.

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Holocausto: tudo começou com o assassinato do primeiro inocente
Pró-Vida

Holocausto: tudo começou
com o assassinato do primeiro inocente

Holocausto: tudo começou com o assassinato do primeiro inocente

Agora, que 75 anos nos separam do fim do Holocausto, não nos esqueçamos o momento em que toda aquela tragédia começou. Tudo teve início quando o primeiro homem inocente foi, não obstante sua inocência, deliberadamente assassinado.

John GrondelskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Este ano marca o 75.º aniversário da libertação de Auschwitz, campo de concentração nazista. Localizado no território da Polônia ocupada pelos alemães, Auschwitz começou como um campo para prisioneiros políticos poloneses, mas tornou-se um epítome simbólico do Holocausto, o extermínio sistemático do povo judeu. Também ao longo deste ano celebraram-se vários aniversários na senda do Dia da Vitória na Europa (n.d.t.: o dia 8 de maio), dia da derrota do Terceiro Reich: entre eles, o aniversário da libertação do campo de concentração de Dachau, em 29 de abril.

S. João Paulo II, em sua Encíclica “Evangelium vitae”, caracterizou os tempos modernos como uma luta entre a “cultura da vida” e a “cultura da morte”. Embora ele tenha escrito a Encíclica em 1995, seria um erro pensar que a “cultura da morte” é um fenômeno exclusivo das décadas recentes.

Auschwitz recorda-nos que os regimes totalitários do séc. XX adotaram a morte como instrumento de política estatal, que solapou a inviolabilidade da vida humana de cada indivíduo. Judeus (e não apenas judeus) foram sujeitos à execução arbitrária nas mãos de nazistas alemães, não por um “crime” de que pudessem ser culpados (embora os alemães formalistas tenham criado “crimes” — inclusive “raciais” — para justificar o que faziam), mas porque as vítimas eram quem eram. Ser judeu na Europa ocupada pelos nazistas era motivo suficiente para ser morto. Auschwitz foi simplesmente a encarnação de toda essa mentalidade.

“Ser judeu na Europa ocupada pelos nazistas era motivo suficiente para ser morto.”

Autores contemporâneos insistem em restringir o termo “Holocausto” ao extermínio dos judeus europeus, à “Solução Final” da questão judaica (Endlösung der Judenfrage). Eu entendo o esforço por reconhecer a singularidade do que ocorreu aos judeus europeus, tanto em escopo quanto em grau.

Mas não podemos esquecer que a eliminação dos judeus europeus foi parte de uma agenda racial e eugênica muito mais ampla abraçada pelos nazistas, que começou muito mais cedo com o extermínio de cidadãos alemães da própria Alemanha, por considerar-se que viviam uma “vida indigna de ser vivida” (lebensunwertes Leben). Na verdade, essa mesma ideia surgiu treze anos antes dos treze anos de reino de terror que foi o nazismo: a expressão “lebensunwertes Leben” apareceu no título de um livro publicado em 1920 por… dois professores. 

O Holocausto foi uma encarnação particularmente cruel dessa ideia, mas ela não surgiu do nada: as sementes do Holocausto foram plantadas no momento em que o direito de uma vida inocente deixou de ser autojustificável; quando a vida inocente em si mesma deixou de ser motivo o bastante para que a protegessem; quando a vida inocente passou a precisar de um outro motivo para permanecer inviolável. A essência disso foi bem captada no filme Julgamento de Nuremberg (1961), na cena em que o juiz americano Dan Haywood (Spencer Tracy) visita o nazista Ernst Janning (Burt Lancaster) em sua última cela prisional. “Aquelas pessoas… aqueles milhões de pessoas… eu nunca pensei que fosse chegar a tanto. Acredite”, declarou Janning. 

“Herr Janning”, respondeu Haywood, “chegou a tanto na primeira vez que você condenou à morte um homem que você sabia ser inocente”.

Embora Auschwitz tenha-se tornado um símbolo do extermínio dos judeus europeus, não nos podemos esquecer dos muitos outros crimes contra a vida humana praticados em toda a rede de campos de concentração montada pelos nazistas. Dachau era praticamente uma comunidade religiosa católica — ou mesmo um seminário —, e escreverei posteriormente sobre alguns daqueles sacerdotes que, em algum momento, partiram de Dachau para os Estados Unidos. Os ciganos também foram massacrados nos campos. Prisioneiros foram usados em experimentos “médicos” discutíveis — que estavam mais para sádicos (por exemplo, os “experimentos com água gelada” em Dachau, nos quais sacerdotes e prisioneiros de guerra soviéticos eram imersos em água gelada para ver quanto tempo sobreviviam e, assim, aplicar os dados colhidos desses Untermenschen, desses povos inferiores, ao pedigree da nação germânica, que sobrevoava, em bombardeiros, o gélido Atlântico Norte). O grau de colaboração de cientistas, em geral, e de médicos, em particular, com os nazistas era elevado. O dr. Josef Mengele era apenas o zênite daqueles que prostituíam suas profissões.

O desfecho da II Guerra Mundial levou, pelo menos, a um esforço temporário de proteger o direito à vida e a dignidade humana em instrumentos legais projetados pelos arquitetos da ordem pós-guerra. A nova constituição da Alemanha Ocidental, por exemplo, consagrou seu compromisso de abertura à “inviolabilidade da dignidade humana”. A ética médica do pós-guerra (por exemplo, o Código Internacional de Ética Médica da Associação Médica Mundial) exortou os doutores a sempre “respeitar a vida humana” e a obter [dos pacientes] consentimento informado. As lições do Holocausto foram universalizadas como uma ética da inviolabilidade da dignidade humana.

O Holocausto tem, é claro, uma dimensão única como testamento da dimensão letal do antissemitismo. Isso ninguém pode negar. Mas agora que celebramos o 75.º aniversário da libertação de Auschwitz — tanto como símbolo da Solução Final quanto como nadir de um período de três meses e meio, em 1945, quando campos de concentração foram libertados e seus horrores dados a conhecer —, não nos esqueçamos de uma verdade fundamental: tudo isso começou quando o primeiro homem inocente foi, não obstante, deliberadamente assassinado.

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Uma novena a Santa Teresinha
Oração

Uma novena a Santa Teresinha

Uma novena a Santa Teresinha

Por esta novena, extraída de um antigo devocionário, somos chamados não só a invocar a intercessão de Santa Teresinha do Menino Jesus e suplicar-lhe graças especiais, mas também a imitar as virtudes que ela viveu.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 12 minutos
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Os mais devotos já sabem, mas não custa lembrar: começa hoje, 22 de setembro, a novena a Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, em preparação para a sua festa litúrgica, no dia 1.º de outubro (no calendário antigo, a memória dela se celebra no dia 3 de outubro, de modo que, se alguém “chegar atrasado”, pode iniciar a novena depois). As meditações abaixo foram extraídas e levemente adaptadas de um antigo devocionário à santa de Lisieux [1], e têm por objeto as virtudes que ela viveu e cultivou: fé ardente, esperança inabalável, amor, humildade, simplicidade etc.

As orações podem ser feitas juntamente com a tradicional (e muito mais simples) “Novena das Rosas” de S. Teresinha, que consiste em uma ação de graças à Santíssima Trindade [2], 24 Glórias em honra aos 24 anos que ela viveu na Terra, acrescidas da invocação “Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, rogai por nós!”, e um Pai-nosso e uma Ave-Maria.

É ocioso dizer que, embora seja costume fazer esses nove dias de oração para celebrar a memória de Teresinha, ambas as novenas podem ser feitas a qualquer tempo.


1.º dia — Fé ardente de S. Teresinha

Meditação. — Compenetrados de humildade, consideremos e admiremos em S. Teresinha do Menino Jesus o dom de misericórdia, concedido por Deus aos nossos dias, nos quais o triunfo da matéria ameaça sufocar e apagar nas almas o sublime dom da fé. Esta santinha viveu uma vida de fé, no pensamento e nas obras, respirou o sobrenatural, alimentou-se de Deus e a Ele ofereceu todas as suas penas interiores, a fim de reparar os pecados de incredulidade cometidos pelos homens.

Oração. — Ó S. Teresinha, flor puríssima do Carmelo, dada por Deus às almas para ensinar a todos o caminho certo e rápido do Céu, prostrados diante do vosso altar, abrimos o nosso coração à gratidão para com Deus pelos inúmeros dons que vos concedeu, sobretudo pelo dom da fé, que estabeleceu entre vós e o Céu uma relação contínua de ternura e de amor. Ó pequena esposa de Jesus, ensinai-nos, com o vosso admirável exemplo, as nossas relações para com Deus; lembrai-nos sempre que Ele está sobre nós e conosco por meio da sua santa graça; fazei com que O tenhamos sempre presente, quer na alegria, quer na dor, através do piedoso véu da fé, até que O possamos contemplar, face a face, convosco no pleno meio-dia da visão beatífica. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

2.º dia — Esperança de S. Teresinha

Meditação. — Consideremos em S. Teresinha a sublime esperança na misericordiosa bondade de Deus, que nela se efetuava na mais sincera e incondicionada confiança. Com efeito, reconhecendo-se ela pequenina e fraca, quis permanecer sempre tal, entre os braços amorosos de Deus, a fim de ser guiada e levada por Ele, através do caminho da perfeição, ao Céu; na alegria e na dor, na aridez e nas tentações, confiou sempre em Deus, que para ela foi a riqueza da sua pobreza, o sol nas suas trevas, o tudo do seu nada; e o Senhor a levou ao Céu.

Oração. — Ó S. Teresinha, pequena filha de Deus, que vivestes de esperança e confiança, apoiando-vos unicamente na palavra infalível e nas promessas indefectíveis de Deus, e sempre esperastes contra todas as esperanças humanas, e sorristes nas penas e nas tentações, ensinai-nos o vosso sublime segredo da felicidade, fazendo-nos viver no esquecimento e na desconfiança de nós mesmos, confiando somente em Deus. Abri sobre todos o Céu, dilatai os horizontes da divina misericórdia sobre todos os pecadores, fazei com que a nossa confiança em Deus nos garanta o seu poderoso auxílio em todas as nossas necessidades, e possamos saborear a vossa inefável alegria e paz abundante. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

3.º dia — Amor de S. Teresinha para com Deus

Meditação. — Consideremos outra característica da santidade de Teresinha: o seu grande amor para com Deus. Digna filha da Serafina d’Ávila, ela compreendeu que o amor, assim como é a essência da bem-aventurança eterna, é também a alma e o fastígio da santidade na Terra. Amar a Deus foi para Teresinha o trabalho, a ocupação e a alma do seu espírito. Tudo quanto ela teve, fez vibrar no amor: sua alma, seu coração, seu pensamento, sua palavra, toda a flor do seu ser, foi abrasada pelo amor. Ela soube oferecer e padecer desfolhando aos pés de Deus as rosas da sua caridade até a morte.

Oração. — Ó S. Teresinha, hóstia puríssima, imolada ao amor misericordioso de Deus, vós que tudo quanto fostes e possuístes, inflamastes de amor e aniquilastes na voragem da divina caridade. Ó rosa perfumada do Carmelo, ensinai-nos a amar a Deus, concedei-nos as intuições do vosso amor que foi a medida das vossas obras, desvelai-nos o grande segredo de engrandecer as pequeninas ações com o fogo da caridade; fazei com que o amor de Deus seja a única norma das nossas ações e o único título pelo qual nos tornemos dignos da glória eterna. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

4.º dia — Amor de S. Teresinha para com o próximo

Meditação. — Consideremos como o amor de Deus em Teresinha foi maravilhoso em seus efeitos de caridade para com o próximo. Quem ama deveras a Deus, ama necessariamente as suas criaturas, as quais, sendo sua viva imagem, são outrossim obras da sua criação, termo da sua Redenção, objeto do seu grande amor. E S. Teresinha amou em seus irmãos a Deus, esquecendo-lhes os defeitos e as culpas; ela não viu nem quis ver no próximo senão a imagem viva de Jesus, por cujo amor proporcionava a todos caridade, compaixão e perdão generoso.

Oração. — Ó S. Teresinha, que espalhastes generosamente sobre todos os vossos sorrisos e alegrastes com o vosso amor todos aqueles que vos rodearam sobre a Terra; vós, que no próximo vistes e amastes a Deus, e tanto mais o amastes quanto mais sabíeis que precisava da vossa caridade, concedei-nos a fineza e a doçura do vosso amor para com os nossos irmãos e fazei com que, compadecendo e perdoando as fraquezas do nosso próximo, mereçamos da divina clemência o perdão dos nossos pecados. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

5.º dia — Zelo de S. Teresinha pela salvação das almas

Meditação. — Consideremos o ardente zelo que consumiu o espírito de S. Teresinha em desejar a salvação das almas. Atormentada pela sede do Crucificado, Teresinha apaixonou-se para cooperar, com todos os meios que estavam ao seu alcance, com a grande obra da Redenção. E o seu apostolado foi tão prodigioso e admirável, que pôs a serviço da Igreja e em auxílio das almas todas as suas riquezas interiores: suas orações, suas imolações e seus sofrimentos pela conversão dos pecadores.

Oração. — Ó S. Teresinha, apóstolo generoso da glória de Deus, que tanto vos apaixonastes pela sede do Coração de Jesus, até sacrificardes a vossa vida pela salvação das almas, fazei com que nós também, santificando-nos a nós mesmos, salvemos, com o nosso exemplo, as almas do nosso próximo e concedei-nos que, no humilde âmbito de nossa condição, cada um de nós ofereça à Igreja e às almas a própria cooperação, a fim de estender sobre a Terra o pacífico Reino de Jesus Cristo. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

6.º dia — Amor de S. Teresinha pelos sofrimentos

Meditação. — Consideremos o amor que S. Teresinha nutriu pelos sofrimentos desde a sua infância. Logo que ela compreendeu que a vida é dor e que, para se santificar, é mister sofrer muito, pediu a Deus todo o gênero de dores: o martírio do coração e o martírio do corpo. Com efeito, sendo dotada de um espírito profundo, de um coração sensibilíssimo e de um nobre sentimento, saboreou, até a morte, as angústias e as agonias mais atrozes e meritórias, por serem desconhecidas pelos homens.

Oração. — Ó S. Teresinha, mártir inocentíssima, que recolhestes em vosso coração virginal as lágrimas e as amarguras de um martírio que foi ignorado pelo mundo, e avaliado somente por Deus; ó pequena esposa do Crucificado, que pediste a graça de reproduzir na vossa alma as aparências amorosas e dolorosas do vosso muito amado Jesus, explicai-nos o profundo mistério do amor, oculto no sofrimento, e desvelai-nos os segredos da vossa alegria e dos vossos sorrisos na dor. Ó linda rosa, desfolhada debaixo dos pés sanguinolentos de Jesus, fazei com que nós também, purificados e santificados pelos sofrimentos, subamos ao Céu pela escada da cruz! — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

7.º dia — Humildade de S. Teresinha

Meditação. — Consideremos como toda a generosidade de S. Teresinha consiste na humildade. Compenetrada do seu nada, ela, em vez de desanimar, regozijou-se da sua pequenez, e pôs todo o cuidado em ficar sempre pequenina, bem sabendo que numa criatura a humildade é a única fascinação para atrair a Deus. E Deus, comovido pela sincera e profunda humildade da sua serva, inclinou-se até ela, para elevá-la ao cume mais alto da santidade e da glória.

Oração. — Ó S. Teresinha, que da vossa humildade fizestes o vosso trono, e na vossa pequenez deparastes toda a vossa força, e que desse abismo de soberania imperastes sobre o Coração de Deus, ensinai-nos esta virtude de luz. Que a humildade nos ponha no nosso próprio lugar diante de Deus, e nos faça conhecer e compreender que, tudo quanto somos e possuímos, temos recebido da sua generosa bondade, e tudo o que está em nós redunde na glória de Deus, nosso Criador e fim último da nossa existência. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

8.º dia — Simplicidade de S. Teresinha

Meditação. — Consideremos a virtude característica de S. Teresinha: a simplicidade, que é a virtude rainha das crianças, pela qual ela foi direitinha para o seu fim, sem se preocupar de mais nada. Por isso, esquecendo a si mesma e as criaturas, jamais procurou a própria satisfação e as utilidades pessoais; jamais buscou o amor e a estima dos homens, mas quis agradar unicamente a Deus, a quem consagrou todas as suas próprias ações, o perfume de todas as suas intenções e toda a chama do seu coração.

Oração. — Ó S. Teresinha, que tomastes em palavra a Palavra de Deus, e fizestes vosso estudo incessante e paraíso da vossa alma a santa simplicidade, vivendo deliciosamente a vida de infância espiritual, traçada pelo santo Evangelho. Inspirai-nos um amor apaixonado por esta virtude predileta de Jesus, e fazei com que, despindo-nos das ilusões da culpa e dos vãos artifícios do mundo, e compenetrados do único fim para que fomos criados, esforcemo-nos em consegui-lo diretamente, procurando só o que possa sossegar e beatificar eternamente o nosso espírito. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

9.º dia — Abandono em Deus de S. Teresinha

Meditação. — Consideremos como a vida de infância espiritual em S. Teresinha se manifestou acompanhada da virtude do mais completo abandono no amor misericordioso de Deus. A pequenez, a fraqueza, a pobreza e a confiança foram as veredazinhas que a levaram a este abandono, que é o termo do amor. Pois se amar é doar, Teresinha, que amava a Deus de um amor imenso, doara-se a Ele com o mais perfeito abandono, que fez de toda a sua vida o dom mais sublime e afetuoso.

Oração. — Ó S. Teresinha, ó alma generosa, toda entregue a Deus no abandono mais filial e completo, vós que adquiristes o inapreciável lucro de vos entregar totalmente a Deus, e tudo dEle recebestes e fostes levada, em seus braços, verdadeiro elevador da vossa alma, até o último porto de salvação, obtende-nos do Senhor este santo e filial abandono. Despojai o nosso coração de toda a desconfiança e resistência, que nos retardam a efusão da graça. Fazei com que, guiados pela suprema bondade de Deus, através das tempestades e dos naufrágios da vida, possamos chegar, pela vossa valiosa proteção, ao último porto de salvação e de paz. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração para o dia da festa

Pintura de S. Teresinha, presente no “Royal English College” de Valladolid, Espanha (Flickr, Lawrence O.P.)

Prostrados diante do trono da vossa adorável majestade, Sacramento de amor, abrimos o nosso coração ao reconhecimento e ao amor, para vos darmos graças de terdes doado à Igreja e às almas S. Teresinha do Menino Jesus. Grande Deus, vós tendes falado milhares e milhares de vezes com todas as vozes da potência, da sabedoria e do amor, sempre e em toda parte, perante os homens que vos amam e adoram, e os que vos odeiam e ultrajam. Vós vos tendes manifestado para confundir a nossa presunção e a nossa miséria, para nos dizer que só vós sois o Criador, a Providência, o último fim de toda grandeza e felicidade. Nunca, porém, falastes como hoje, tão viva e deliciosamente, com a voz e a eloquência desta extraordinária santinha, deste anjo revestido de nossa carne, enferma e dolorida, a nossa querida S. Teresinha do Menino Jesus, feita vossa palavra para ensinar a todos o verdadeiro caminho do Evangelho e reconduzi-los ao Céu, seguindo o exemplo luminoso das suas admiráveis e imitáveis virtudes.

Nós vos rendemos graças, vos exaltamos e vos bendizemos, Senhor, que ainda continuais, misericordioso, a derramar sobre esta mísera humanidade, tão ingrata, mas sempre amada pelo vosso adorável Coração, os tesouros de vossas virtudes e graças. Escutai, pois, a prece que nós vos dirigimos por meio de S. Teresinha. Lembrai-vos, Senhor, que ela é a esposa predileta do vosso Coração e é também nossa irmã. Ela é filha deste século que muito se afastou de vós e vos ofendeu. Deus de bondade, Deus de misericórdia, tende piedade de nós! 

Vós não nos abandonareis, pois ainda vos lembrais de nós concedendo-nos tamanhos santos! Pelos méritos e pela intercessão desta santinha, dai à vossa Igreja paz e liberdade; concedei às nações e aos povos tranquilidade e amor, e fazei com que todas as almas entrem a fazer parte do vosso pacífico Reino, a fim de que, de um extremo a outro da Terra, todos, sociedade, família e indivíduos, reconheçam a soberania do vosso munífico Coração.

E vós, irmãzinha de nossos dias, de nossas penas, de nossas lágrimas, S. Teresinha do Menino Jesus, sorriso dos anjos, flor do Céu, caída sobre este abismo de lama e de choro, rogai por nós! Levantai a vossa voz até ao trono de Deus, falai a Ele por nós com a eloquência da vossa prece, aplacai-O e fazei-O voltar, sereno e benigno, no meio de nós. 

Pequena tesoureira do Coração divino, piedosa advogada de todos os pobres, de todos os miseráveis, abri a porta deste adorável e inesgotável Coração, e fazei descer copiosa a chuva das vossas rosas. Ó alma cândida e bela, nós esperamos a realização das vossas promessas! Lançai, a mão cheia, as vossas rosas sobre este século do qual fostes filha, e dignai-vos reconduzi-lo a Deus; sufocai com o perfume das vossas flores o seu ambiente saturado de impiedade e salvai-o. Atirai as vossas rosas sobre todas as almas, sobre todos os sofrimentos, sobre todos os calvários, para que mais fácil se nos torne o caminho para o Céu.

Ó rainhazinha dos corações, atraí-nos a vós com o perfume das vossas flores, ao bem, à virtude, ao Céu. Pequena consoladora, consolai-nos. Querida santinha, santificai-nos e obtende-nos, com a vossa poderosa mediação, sermos admitidos, um dia, à festa eterna do paraíso. Assim seja. — 3 Pai-nossos, Ave-Maria, e 1 Glória.

Notas

  1. Um carmelita descalço. O devoto de Santa Teresinha do Menino Jesus. S. Paulo, 1926, pp. 5-20.
  2. “Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu Vos agradeço todos os favores, todas as graças com que enriquecestes a alma de Vossa serva Teresa do Menino Jesus durante os 24 anos que passou na Terra. Pelos méritos de tão querida santinha, concedei-me a graça que ardentemente vos peço..., se for conforme a Vossa Santíssima vontade e para salvação de minha alma. Ajudai minha fé e minha esperança, ó Santa Teresinha, cumprindo, mais uma vez, sua promessa de que ninguém vos invocaria em vão, fazendo-me ganhar uma rosa, sinal de que alcançarei a graça pedida.”

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