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1. O Anúncio do Anjo a Maria

Numa casinha de três paredes, engastada numa rocha, na pobreza de uma pequena vila na periferia do mundo, realizou-se a maior riqueza da graça divina: o mistério da Encarnação do Filho de Deus.

Texto do episódio

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Para viver bem o tempo do Advento, e também o tempo da Epifania, estamos propondo a meditação dos mistérios gozosos do Santo Rosário — aliás, é importante lembrar que a oração do Rosário não se deve restringir a apenas este tempo, mas deve ser um hábito diário.

No Santo Terço, há muito mais que simplesmente Ave-Marias. Quando se meditam os seus mistérios, contempla-se a história de salvação, como Deus veio nos resgatar, como Ele fez a sua obra de redenção e como Ele nos leva de volta para o Céu. Portanto, os mistérios do Santo Rosário — seja quinze ou vinte dezenas — revelam o mistério da nossa salvação.

Os primeiros cinco mistérios, chamados gozosos, são aqueles em que Deus vem ao nosso encontro para nos resgatar. Há aí uma profundidade muito grande. Então, depois que Nosso Senhor vem ao mundo e morre na Cruz — aí já são os mistérios dolorosos, é a nossa redenção, é o preço do nosso resgate. É o grande duelo, a grande batalha entre Deus e a maldade, a maldade do pecado, do diabo e da morte. Depois, finalmente, com a Ressurreição e a subida aos Céus, até a coroação de Nossa Senhora, há a humanidade sendo elevada para Deus.

É este, portanto, o movimento: nós saímos de Deus na Criação, mas Deus também vem ao nosso encontro na Encarnação e, depois, voltamos para Ele, com a Ascensão do Senhor. 

Existe nisso algo muito belo e profundo, com toda uma arquitetura teológica. Quando rezamos o Terço, as Ave-Marias são como que a música de fundo, aquela cantilena que deve nos levar a uma meditação, algo que acontece quando contemplamos, discorremos a respeito de uma verdade para que ela brilhe dentro da nossa alma. E, uma vez que ela brilha, podemos amá-la, e então acontece nossa união com o sobrenatural. É assim que funciona a nossa inteligência.

No mundo atual, porém, as pessoas estão divorciadas da inteligência. Até mesmo aqueles que estudam muito, o que fazem? Buscam apenas ter um título acadêmico, decoram determinados conceitos e agem como máquinas de falar, repetindo o que aprenderam, mas sem jamais se perguntar se aquilo é verdade e se existe no mundo real.

A meditação, portanto, até mesmo em termos de estudo, não deve se limitar à mera repetição. Isso não alimenta as pessoas, nem com a luz natural da razão no estudo, que nos faz mais inteligentes, nem com a luz sobrenatural da fé na meditação oracional, em que Deus nos ilumina.

Nesse contexto, então, o que é o Terço? O que é o Rosário? É o exercício de meditar os mistérios da salvação. A essência do Terço não é simplesmente a oração da Ave-Maria. Mas esta, quanto mais for “automática”, como uma cantilena, tanto mais nos faz livres para pensar em tudo, inclusive na própria Ave-Maria. 

Aqui, propomos a meditação do primeiro mistério gozoso, que é a Anunciação do Anjo à Virgem Maria, o mistério da Encarnação. Se há um mistério para se pensar na Ave-Maria, é este, porque é aquele em que a Ave-Maria aconteceu, ou seja, foi quando o Anjo chegou e disse: “Ave, cheia de graça”. Fica evidente que se pensa a Ave-Maria neste mistério, e, nos outros, pode-se buscar inspiração nela, e principalmente na verdade que se está meditando.

Deparamo-nos aqui com um mistério muito fácil de meditar, porque se trata do mistério que está no Evangelho de São Lucas, capítulo 1º, a partir do versículo 26: “No sexto mês, Deus enviou o anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, à uma virgem, noiva de um homem de nome José, da casa de Davi, e o nome da Virgem era Maria”. Ressalte-se aqui a tradução da palavra “noiva”:  Maria era “noiva”, mas já casada — era esposa, portanto —, pois ela e José só não coabitavam ainda.

Enfim, quando se medita algo, é necessário sair das meras palavras e partir para o mundo real, e a meditação do primeiro mistério gozoso nos exige que transportemos nossa imaginação para a realidade de Nazaré, dois mil anos atrás. É preciso que nos coloquemos diante de Deus para que Ele nos leve até lá, na casa onde Nossa Senhora recebeu a Anunciação — segundo a tradição, é aquela casa que hoje está em Loreto, na Itália, com três paredes feitas de pedra que foram encaixadas numa gruta. Era uma casa simples, pequena e pobre.

Estamos, então, naquela pobreza de Nazaré, naquela casa humilde, enquanto em outros lugares do mundo há palácios reais, como o palatino dos Césares, em Roma, repleto de servos, comidas, iguarias e riquezas, ou até mesmo no Templo de Jerusalém — em uma cena anterior do Evangelho, o anjo foi enviado ao Templo de Jerusalém com toda a glória da liturgia, e Zacarias lá estava, oferecendo incenso, em um ambiente litúrgico suntuoso. No entanto, não é nesses lugares que vai acontecer a salvação, a vinda de Deus encarnado. Deus procura um lugar pobre, Ele busca a pobreza de Nazaré.

Mas, em meio a toda essa pobreza material, encontramos uma riqueza: a Virgem Maria. E o anjo Gabriel, como que surpreso, olha para ela e consegue ver Seu coração, vê n’Ela mais amor do que ele costuma ver entre todos os anjos do Céu. Ele vê que Maria é feliz, que, antes mesmo de Deus vir a este mundo, carrega consigo um tesouro, uma felicidade: “Chaîre kecharitomene” (“Alegra-te!”, em grego), diz o anjo a ela. Essa palavra “chaîre” é usada para dizer que uma coisa tem alegria, graça e beleza, quando é agraciada. Então, o anjo estava dizendo à Virgem Maria: “Graça! Tu que fostes transformada pela Graça”.

Note-se, agora, o contraste: numa casinha de três paredes, engastada numa rocha, numa caverna, na pobreza de um vilarejo, na periferia do mundo, realizou-se a maior riqueza da Graça que Deus poderia conceder à humanidade. Nenhum santo, nem todos os santos e todos os anjos juntos, receberam a riqueza da Graça que aquela mulher recebeu desde a sua concepção: “gratia plena”, cheia de graça.

E aí, já, a nossa meditação nos leva à seguinte questão: “Eu enxergo o que é verdadeiramente uma riqueza? Eu vejo quando reclamo da minha pobreza, das minhas dívidas, das minhas dificuldades físicas, materiais? Percebo quem é realmente rico?” Isso é meditar. Deixemos, portanto, que nos bata essa luz interior: a pobreza do ambiente, a riqueza espiritual da Virgem. No espaço de dez Ave-Marias, deixemos que isso nos alimente.

Os habitantes de Nazaré que vão passando lá fora só veem ali a casinha da mulher, que se casou — mas ainda não coabitou — com José. O humilde José deve pensar que ali está uma mulher pobre, a pobrezinha da Maria. Mas esses são os olhares da carne. É com o olhar do espírito que o anjo a vê  e diz: “Ave, cheia de graça”.

E por que Maria é tão rica assim? O texto do Evangelho nos ajuda a enxergar isso: “Salve, Maria”, “Alegra-te, Maria”, “Maria, cheia de graça”, “O Senhor é contigo”. Deus está com Ela. Sua riqueza é ter a presença de Deus em seu coração, como um amigo. E, dali a pouco, Deus vai habitar de uma forma especial, porque o Verbo vai se encarnar, porque a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade estará no ventre d’Ela. Mas, antes desse mistério acontecer, antes da Divina Encarnação, já existia ali o mistério de Maria repleta da graça divina: “Não temas, encontrastes graça diante de Deus”. Ela já é agraciada, Deus já havia feito essa transformação em sua alma. Transformação esta que Deus realizou já em Sua concepção. É isso que o anjo vê e anuncia a ela, que, por sua vez, espanta-se com seu próprio mistério.

Maria é tão humilde, tão pobre de si e tão rica de Deus, que não tinha olhar para si mesma, e por isso se espantou com aquela saudação, “Chaîre kecharitomene”, transformada pela graça. Ela deve ter pensado: “Quem? Eu? Cheia de graça, eu?” E seu espanto só deve ter aumentado à medida que o anjo prosseguia: “O Senhor é contigo. Não tenhas medo, encontraste graça diante de Deus”. Maria, ali, certamente teve um crescimento no conhecimento de si.

Quando os nossos anjos nos falam, nós nem percebemos que são eles. De repente, o anjo fala com Maria e revela uma imensidão dentro d’Ela, como se ele abrisse as portas de sua alma e desvendasse, rasgasse um véu, mostrando para a própria Virgem quem ela é. E aqui, o que podemos meditar? Imaginar essa cena não nos deveria inspirar a também pedir ao nosso anjo que nos revele o mistério que está dentro de nós? Quando estamos em estado de graça — não como Maria, claro —, podemos dizer que encontramos graça diante de Deus. Também devemos nos perguntar por que Ele nos agraciou; afinal, nós nada merecemos, ninguém merece a graça primeira. Diariamente deparamo-nos com pessoas talentosas e inteligentes, mas que não têm a fé nem a graça, estão em pecado mortal, estão na rampa do Inferno. Mas, a nós, Deus concedeu a sua graça.

Diante de tudo isso, o que é meditar o Terço? Um dia, vemos o grande mistério da ação de Deus em Nossa Senhora; no outro, recebemos aquela mensagem do anjo, “O Senhor é contigo”. Isso suscita algo dentro de nós e ilumina-nos. E é por isso que o diabo nos inveja, pois ele tem inveja de Maria: “colocarei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela”. O diabo odeia Nossa Senhora porque Deus está com ela, e ele nos odeia porque estamos com Deus. O Senhor está conosco, e o diabo nunca estará com Deus. Maria hoje está no Céu contemplando a Deus face a face. Nós um dia também estaremos, e o diabo tem inveja disso, porque é algo que ele nunca verá. Ele jamais contemplará a face de Deus. A cada Ave-Maria que rezamos, estamos esbofeteando Satanás, o Santo Terço é uma arma contra ele. O diabo não possui a presença de Deus, justamente porque decidiu rejeitar a Deus. Tinha, para ele, um lugar no Céu, que ficou vazio quando ele se voltou contra o Criador. 

E aí vem a grande notícia que o anjo diz a Nossa Senhora:

Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás no ventre e darás à luz um filho e irás chamá-lo de Jesus, e ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará sobre a casa de Jacó para sempre, e o seu reino não terá fim” (Lc 1, 28-33).

Maria recebe o anúncio de que ela será a mãe do Messias, ou seja, que ela é a rainha — algo que Davi e toda a sua casa tinham. O rei tinha uma rainha, que era sempre a mãe, a rainha-mãe. Como o rei tinha várias esposas, então, instituiu-se que a rainha não seria nenhuma das esposas, mas sempre a mãe. Esposas, Davi tinha várias, mas mãe, só uma — a “Gebirah”, a rainha-mãe. 

Ora, quando Maria recebe a iluminação, que mistérios profundos ela enxergou? É um diálogo entre o anjo e a alma. Ela viu imediatamente que aquele filho era o Filho de Deus, não era somente o Messias prometido, era Deus que vinha, e ela seria a sua mãe. E esse grande e profundo mistério pode ser contemplado quando se reza o Santo Terço. Está aí a luz que deve brilhar dentro de nós. Maria, Mãe de Deus feito homem, o Deus Filho.

Ao longo de sua vida, Jesus várias vezes usou a expressão “o Filho do Homem”. Mas de que homem Ele é filho? A palavra “homem” aqui não quer dizer homem do sexo masculino. Vem do hebraico “bar enash”, que quer dizer filho da humanidade frágil. Ele é o Filho de Deus, que agora é Filho do Homem, Filho de Maria.

A Encarnação, aqui, é o centro do mistério. Quem é esse Jesus que vem até Maria, que assume a nossa humanidade, a nossa fragilidade? É o centro do mistério do Natal. Muitas vezes repetimos na oração do Angelus: “O Anjo do Senhor anunciou à Maria, e ela concebeu do Espírito Santo”; “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se mim segundo a vossa Palavra”; “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. O Verbo,  a Palavra de Deus veio e habitou entre nós. E Maria, Mãe de Deus, é também nossa mãe. Deixemos essa maternidade de Maria tocar nossos corações, e vejamos como isso fala ao nosso coração. 

No entanto, a reação de Nossa Senhora é estranha: Ela coloca objeções. O anjo apresenta a ela um projeto fantástico de Deus, algo extraordinário, inimaginável, por meio do qual essa menina de Nazaré seria a Mãe de Deus. Então, ela  apresenta uma objeção, porque em seu coração havia o desejo de virgindade, de ser toda de Deus, embora tivesse sido dada em casamento a José. E a tradição nos conta que tanto Maria como José nutriam esse mesmo desejo de virgindade, de entrega de si a Deus, de modo que ela já havia feito esse voto. Por isso, questiona como ela conseguiria ser a mãe do Messias.

Maria não está recusando nada para Deus, mas está mostrando uma característica profundamente católica: como um ser racional, ela pergunta, pede uma explicação plausível: como vão se conjugar essas duas realidades propostas por Deus — o matrimônio e a virgindade? Às vezes, Deus guarda essas grandes contradições em segredo, e a nós só cabe confiar n’Ele. Para Maria, porém, Ele dá uma explicação: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e a potência do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, aquele que nascerá será chamado Santo, Filho de Deus”. Aquilo que antes não estava explícito, agora está: Filho de Deus. 

Isso está escrito aqui em palavras, mas o que foi que Maria viveu? Voltemos nossa imaginação para Nazaré, naquela casinha. Imaginemos o Senhor que sustenta o universo, as galáxias distantes, deixando-se ser sustentado como qualquer bebê por uma mãe. Quem sustenta o universo, vai ser sustentado; quem fez tudo nascer, agora está pedindo permissão para nascer, pedindo o consentimento da Virgem. Deus não precisava pedir consentimento a ninguém, mas Ele pede o consentimento de Maria. E ela responde: “Eis a escrava do Senhor”. Que contraste! Maria, sendo escolhida para ser a rainha, Mãe de Deus, coloca-se agora como coisa, como propriedade, como escrava, enquanto Deus está dando a ela o cume de toda dignidade. São Tomás de Aquino diz que a dignidade da maternidade divina de Maria é “como que infinita”; e essa mulher, com tamanha dignidade, coloca-se como escrava.

Voltamos, assim, ao começo da nossa meditação: o contraste entre riqueza infinita e pobreza miserável. Como, aos olhos de Deus, as coisas são diferentes. Ele vem para redimir, para nos salvar e se faz pobre, pequenino. Agradeçamos a Ele por essas maravilhas. 

Esses são alguns elementos que podem ser usados na meditação. De qualquer forma, o importante é termos certa liberdade para nos confiarmos à ação do Espírito Santo, que vai suscitando inspirações e moções interiores ao longo da meditação. É assim que Deus conduz a nossa oração.

É dessa forma que nós vamos alimentar a nossa alma: meditando, pensando, colocando-nos no contexto do relato bíblico, pedindo para o nosso anjo da guarda nos levar a Nazaré, para participar daquele diálogo e enxergar o mistério de Nossa Senhora, relacionando tudo aquilo à nossa vida. Desse modo, as meditações produzirão um fruto espiritual não só para este Advento, mas também para toda a nossa vida.

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