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Deus se arrependeu alguma vez de ter criado o homem?
Doutrina

Deus se arrependeu
alguma vez de ter criado o homem?

Deus se arrependeu alguma vez de ter criado o homem?

No livro do Gênesis, o relato do Dilúvio é precedido por uma frase desconcertante: “O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra, e teve o coração ferido de íntima dor”. Mas como isso pôde ser, se Deus tudo sabe?

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 2 minutos
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Recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Em Gn 6, 6 está escrito: ‘O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra, e teve o coração ferido de íntima dor’. Como o Senhor se arrependeu sendo onisciente? Ele não sabia que isso aconteceria?”

Resposta: As palavras “penitência” e “arrependimento” significam, em sentido próprio, certa dor e detestação da alma por ter cometido um mal ou omitido um bem, com o propósito de agir diferente no futuro. De fato, quando nos arrependemos de alguma coisa, costumamos dizer para nós mesmos: “Por que fiz isto? Queria não tê-lo feito!”, o que expressa nosso desejo de, em iguais circunstâncias, fazer o contrário do que fizemos.

Ora, que Deus não possa, em sentido próprio, se arrepender de nada, por ser onisciente e sumamente sábio, mostram-no com clareza vários trechos da S. Escritura, dentre os quais destacamos os três seguintes:

  • “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31).
  • “Deus não é homem para mentir, nem alguém para se arrepender. Alguma vez prometeu sem cumprir? Por acaso falou e não executou?” (Nm 23, 19).
  • “Aquele que é a verdade de Israel não mente, nem se arrepende, pois não é um homem para se arrepender” (1Sm 15, 29).

Logo, a passagem de Gn 6, 6 deve ser entendida em sentido impróprio ou metafórico, isto é, como certo antropomorfismo para significar que Deus aborreceu ou detestou os pecados da humanidade e, por isso, decidiu punir os homens, a saber: deixando de conservá-los, o que Ele não levaria a cabo se a maldade humana não tivesse chegado às proporções descritas pouco antes, em Gn 6, 5. Se, com efeito, a mesma Escritura diz que Deus “caminhava no jardim”, mas sem lhe atribuir pés, e afirma que Ele tudo faz com força de seu “braço”, mas sem lhe atribuir membros corpóreos, quando diz que Ele se “arrepende”, por que lhe atribuiríamos as imperfeições e inconstâncias de nossa própria vontade?

Aliás, o verbo que se lê no texto grego de Gn 6, 6 é ἐνεθυμήθη (aoristo de ἐνθυμέομαι), que também se pode traduzir por “reconsiderou em sua mente”, “deliberou”, “ponderou de si para si”, “reflexionou” etc., ideias que, aplicadas a Deus, não significam a retratação formal de uma vontade anterior, mas a simples efetivação, no tempo, do único ato eterno e imutável, embora condicional com respeito às criaturas, da vontade divina: “Castigar com penas justas os entes racionais e livres, se persistem obstinadamente em sua maldade” [1].

Notas

  1. Como lembra o Aquinate (cf. STh I 19, 7c.), querer que as coisas mudem não equivale a mudar de querer. Assim, e.g., Deus pode querer desde toda a eternidade que, num tempo tal, Pedro esteja vivo, mas que, depois, esteja morto, sem que isso implique que a vontade mesma de Deus — tão imutável quanto sua própria substância — tenha-se alterado. Do mesmo modo, Deus pode, com um só ato de vontade, querer absolutamente (i.e., desconsiderando quaisquer circunstâncias) que os homens vivam, mas, condicionalmente (i.e., supostas certas condições), que morram (e.g., no caso de se tornarem indignos, por seus pecados, de dons naturais como a vida biológica).

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Escândalos e corrupção na Igreja: o que diria o Venerável Fulton Sheen?
Igreja Católica

Escândalos e corrupção na Igreja:
o que diria o Venerável Fulton Sheen?

Escândalos e corrupção na Igreja: o que diria o Venerável Fulton Sheen?

Diante de tanto escândalo e corrupção dentro da Igreja, o que fazer? Abandoná-la? Criar outra para que as coisas funcionem? Não é o que nos recomendaria o grande Arcebispo Fulton Sheen, ou o Papa emérito Bento XVI.

Mark HaasTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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“Eu não sei mais como lidar com a Igreja Católica”, “Há escândalo e corrupção demais”, “A Igreja está cheia de hipócritas e eu a estou deixando”.

Nós todos já ouvimos comentários assim de irmãos católicos (ou chegamos, nós mesmos, a ponderá-los). Não é difícil encontrar exemplos de escândalo e corrupção dentro da Igreja. Para os fiéis católicos, pode às vezes ficar cansativo ler sobre as falhas humanas de leigos e líderes religiosos. Talvez seja mais fácil sair. Talvez devamos simplesmente “entregar os pontos” e ir embora.

O Venerável Arcebispo Fulton Sheen refletiu certa vez sobre essa preocupação dos católicos: 

A Igreja é como a Arca de Noé, que estava repleta tanto de animais limpos quanto de animais sujos. Ela certamente tinha um terrível mau cheiro, mas estava transportando oito pessoas para a salvação. O mundo hoje está rasgando as fotografias de uma boa sociedade, de uma boa família, de uma vida pessoal individual feliz. Mas a Igreja está guardando os negativos. E quando chegar o momento em que o mundo quiser uma reimpressão, nós os teremos.

Imagine você a vida na Arca de Noé: os espaços apertados, os animais querendo comer uns aos outros, os barulhos, os fedores, uma tempestade constante de quarenta dias agitando a embarcação, o enjôo causado pelo mar, a família numa proximidade asfixiante... Quem jamais gostaria de ter vivido um episódio semelhante?

“A Arca de Noé no monte Ararat”, por Simon de Myle.

Agora imagine o tempo que Noé passou construindo a arca. Imagine esse homem e sua família edificando esta barca grande e espalhafatosa. Imagine os vizinhos zombando desta família maluca: se eles soubessem o que nós sabemos hoje, imagino que teriam pulado a bordo; teriam alegremente subido na arca. A outra alternativa seria nadar — e ela não funcionou muito bem.

Você alguma vez já se sentiu como a “família maluca” de Noé? Seus vizinhos já olharam para você e balançaram a cabeça? Talvez você seja “esquisito” por confessar seus pecados a um padre. Talvez receba olhares estranhos por se abster de carne nas sextas-feiras, especialmente durante a Quaresma. Talvez se tenha aferrado à doutrina moral da Igreja numa sociedade que está constantemente gritando o contrário. É com razão que Fulton Sheen nos diz: a Igreja Católica é a Arca de Noé. A Igreja nos conduzirá ao porto seguro do Céu.

“Mas a música na minha paróquia é horrível.”

“Mas meu padre faz homilias terríveis.”

“Não há grupos para os jovens e as crianças.”

“A igreja protestante tem música legal, pregação legal e atividades em família.”

“Será que não deveríamos simplesmente pegar outra estrada no próximo domingo?” Com todo respeito: não, nós não devemos. É o próprio Jesus quem diz: “Ninguém que põe a sua mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus” (Lc 9, 62).

Arar o campo, isto é, ser discípulo de Jesus e um membro obediente de sua Igreja, pode ser uma tarefa solitária e difícil. A agricultura é um trabalho duro. O Sol aquece, o suor escorre, seus braços doem, você pode estar fazendo todo o trabalho sozinho. Mas Jesus nos manda não olhar para trás. S. Paulo nos urge a manter fixos “os olhos no autor e consumador da nossa fé” (Hb 12, 2).

O que fazer, então, se somos oprimidos e desmoralizados por causa de nossa pertença à Igreja? O Papa emérito Bento XVI diz: 

O que deve ser feito? Talvez devêssemos criar outra Igreja para que as coisas funcionem? Bom, essa experiência já foi feita e já fracassou. Somente a obediência e o amor a Nosso Senhor Jesus Cristo podem indicar-nos o caminho (A Igreja e os abusos sexuais, III). 

A obediência indicará o caminho. Pode ser difícil praticá-la no mundo de hoje. Não se trata de sugerir uma capitulação completa ao “pague, reze e obedeça”. Ao contrário, somos chamados a seguir o modelo de Nosso Senhor mesmo, que nos mostra a última forma de amor através do ato sacrificial de sua obediência. “Humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte da cruz” (Fl 2, 8). 

Neste mundo, teremos tribulações, mas tenhamos ânimo: Ele venceu o mundo (cf. Jo 16, 33). Permaneça na Arca, e deixe que Nosso Senhor acalme as tempestades.

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Septuagésima: uma Coleta desde o exílio
Liturgia

Septuagésima:
uma Coleta desde o exílio

Septuagésima: uma Coleta desde o exílio

Se a Quaresma recorda os quarenta anos de Israel no deserto, a Septuagésima evoca os seus setenta anos de exílio na Babilônia, quando o povo escolhido sentia tantas saudades de sua terra a ponto de não conseguir entoar sequer um cântico de Sião.

Gregory DipippoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Fevereiro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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A pré-Quaresma, ou Septuagésima (aproximadamente, o 70.º dia antes da Páscoa), começou com as Primeiras Vésperas deste domingo [1]. Esse período fascinante, que dura duas semanas e meia, atua como ponte entre o júbilo do ciclo do Natal e a austeridade da Quaresma. Usam-se vestimentas violáceas e suprimem-se o Glória e o Aleluia, mas não há nenhum jejum obrigatório; de fato, foi o velho costume de acabar com as comidas proibidas durante a Quaresma que levou aos excessos do Carnaval. 

As orações próprias da Septuagésima são uma lição perfeita de como nos aproximar do ciclo da Quaresma e da Páscoa. Durante as Matinas deste tempo [N.T.: o atual Ofício das Leituras], a Igreja contempla a Queda de Adão: aquele fatídico ato, aquela felix culpa — como escutaremos durante o Exultet no Sábado Santo — que apressa nossa redenção através da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. 

A Coleta para o Domingo da Septuagésima é igualmente instrutiva:

Preces pópuli tui, quáesumus, Dómine, clementer exaudi: ut, qui iuste pro peccátis nostris afflígimur, pro tui nóminis gloria misericórditer liberémur. Per Dóminum. — Atendei com clemência, nós vos pedimos, Senhor, as orações do vosso povo, a fim de que nós, que com justiça somos afligidos por nossos pecados, pela glória do vosso nome sejamos misericordiosamente libertados. Por Nosso Senhor.

Assim como a Quaresma recorda os quarenta anos que os hebreus passaram no deserto, a Septuagésima evoca os setenta anos do exílio babilônico, quando o povo escolhido sentia tantas saudades de sua terra a ponto de não conseguir entoar sequer um cântico de Sião:

Junto dos rios de Babilônia, ali nos assentamos a chorar,
lembrando-nos de Sião.
Nos salgueiros que lá havia,
penduramos as nossas cítaras.
Os mesmos que nos tinham levado cativos pediam-nos
que cantássemos (os nossos) cânticos.
E os que à força nos tinham levado diziam:
Cantai-nos um hino dos cânticos de Sião.
Como cantaremos o cântico do Senhor
em terra estranha (lhes respondemos) (Sl 136, 1-4).

A supressão da palavra “Aleluia” durante todo esse tempo é uma conveniente imitação dos hebreus quando se recusavam a cantar junto aos rios da Babilônia, já que o Aleluia é uma canção nos lábios dos anjos e santos em nossa verdadeira pátria, que é o Céu

A Septuagésima e a Quaresma são, assim, lembretes sérios de nossa condição de peregrinos vivendo a leste do Éden [2], “afligidos com justiça por nossos pecados” neste vale de lágrimas [3].

Mas ainda que sejamos afligidos com justiça, nós rezamos para que Deus “atenda com clemência” nossas orações. O pedido clementer exaudi, que ocorre três vezes nas orações do rito romano, é um tanto quanto difícil de traduzir. Audi significa escutar; ex-audi significa escutar com clareza, prestar atenção, conceder, ou até mesmo obedecer. Clementer é a forma adverbial de clemens, de onde vem clementia, “clemência”. Tanto em latim quanto em português, a palavra clementia traz consigo uma conotação jurídica, como quando o juiz demonstra clemência ao emitir sua sentença; e um dos títulos que recebiam os imperadores romanos era Clementia tua (literalmente “Vossa Clemência”, ou “Vossa Graça”). Por meio desta Coleta, estamos, essencialmente, reconhecendo que somos pecadores, ao mesmo tempo que imploramos por clemência.

E por que Deus, o supremo Juiz, a demonstraria a pecadores miseráveis como nós? Porque, diz a Coleta, esse ato dará glória ao seu nome. Talvez seja o povo que, livre dos seus pecados, dê glória a Deus, ou talvez o ato de clemência, em si mesmo, conte como um ato glorioso. Seja como for, a esperança de quem pede é que Deus seja impelido a agir pela glória do seu nome. Essa esperança, eco do Sl 78, 9 — Adiuva nos, Deus, salutaris noster; et propter gloriam nominis tui, Domine, libera nos, “Ajuda-nos, ó Deus, salvador nosso, e pela glória do teu nome, Senhor, livra-nos” —, está presente em toda Missa no Suscipiat (“Receba o Senhor por tuas mãos…”), quando o povo fiel pede a Deus que aceite o sacrifício eucarístico para o louvor e a glória do seu nome.

No Antigo Testamento, porém, a glória de YHWH (Javé) é também um verdadeiro “fenômeno físico indicativo da presença divina”, que apareceu no monte Sinai, no Tabernáculo, no Templo e que geralmente se manifesta como uma forma de luz [4]. As orações da Igreja na Páscoa aplicam essa luz à glória da Ressurreição; assim, quando a Coleta da Septuagésima pede por libertação pela glória do nome de Deus, ela já está prevendo aquela Luz no fim do túnel penitencial em que agora estamos entrando, trazendo-nos a esperança de que nossas mortificações encontrem um feliz resultado [5].

Notas

  1. Já escrevemos a esse respeito, mas não custa lembrar: o Tempo da Septuagésima não está mais presente na atual forma do rito romano. O Summorum Pontificum, no entanto, iniciativa do Papa emérito Bento XVI, torna possível que os católicos de qualquer lugar revivam essa tradição litúrgica em suas próprias casas e com suas famílias (N.T.).
  2. “A leste do Éden” é uma referência à terra de Node, para onde a Sagrada Escritura diz que Caim foi exilado (N.T.).
  3. Esta frase está ausente no novo Missal. A oração que mais se aproxima de sua redação é uma opcional de pós-comunhão para a Missa votiva In Quacumque Necessitate: Tribulatiónem nostram, quáesumus, Dómine, propitius réspice, et iram tuæ indignatiónis, quam pro peccátis nostris iuste merémur, per passiónem Filii tui, propitiátus averte. Per Christum, “Olhai propício a nossa tribulação, nós vós pedimos, Senhor, e aplacado pela paixão de vosso Filho, afastai de nós a ira de vossa indignação, que com justiça merecemos por nossos pecados. Por Cristo...” (N.A.).
  4. Mary Pierre Ellebracht. Remarks on the Vocabulary of the Ancient Orations in the Missale Romanum (Dekker & Van de Vegt N.V.), 32-33.
  5. O texto original foi levemente adaptado para esta publicação. A pintura acima escolhida é dos “Judeus de Luto no Exílio Babilônico”, por Eduard Bendemann (N.T.).

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As confissões de um ex-ideólogo de gênero
Testemunhos

As confissões de
um ex-ideólogo de gênero

As confissões de um ex-ideólogo de gênero

Professor universitário renomado volta atrás em relação à ideologia de gênero: “Decepcionante ver que os pontos de vista que eu costumava defender com tanto fervor, e com tão poucos fundamentos, foram hoje aceitos por tantas pessoas na sociedade”.

Calvin FreiburgerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Um historiador canadense que ajudou a popularizar a ideia de gênero como construção social para preservar estruturas de poder tradicionais veio a público fazer um mea culpa sobre sua obra pregressa. Ele não apenas repudiou as consequências do transgenerismo, como admitiu que havia se baseado parcialmente em informações manipuladas para que se confirmassem os seus preconceitos ideológicos.  

Christopher Dummitt, professor associado da School for the Study of Canada, na Trent University, publicou no dia 17 de setembro de 2019, no portal Quillette, um ensaio no qual ele explica sua antiga convicção de que o “sexo era integralmente uma construção social que só dizia respeito ao poder”, admite que sua “grande ideia” passou por cima do bom senso biológico e da liberdade de expressão, e apresenta um “mea culpa por sua responsabilidade em tudo isso”.   

Em 2007, Dummitt publicou um livro sobre o assunto, o qual foi intitulado The Manly Modern: Masculinity in Postwar Canada [“A Virilidade Moderna: Masculinidade no Canadá do Pós-Guerra”]. Em 1998, já havia publicado um artigo baseado em sua dissertação de mestrado, intitulado Finding a Place for Father: Selling the Barbecue in Postwar Canada [“Encontrando um Lugar para o Pai: Vendendo Churrasco no Canadá do Pós-Guerra”]. Segundo ele, o livro foi citado em trabalhos subsequentes sobre o tema, e o seu artigo “foi republicado diversas vezes em manuais para estudantes universitários”.

Apesar do sucesso profissional, Dummitt admite que hoje “se envergonha de alguns dos conteúdos” porque, embora tenha “acertado parcialmente em alguns pontos”, “todo o restante foi basicamente inventado”.

Em seguida, Dummitt faz um esboço do processo por meio do qual inventou e sustentou suas alegações, começando com uma declaração como esta: “Houve uma grande quantidade de variações históricas e culturais” em relação à definição de sexo. Para sustentar essas alegações, “eu tinha meus exemplos favoritos, e finalmente os encaixava em anedotas concisas que eu podia usar em palestras ou conversas”, tais como a mudança de associação das cores azul e rosa aos dois sexos. 

“Em segundo lugar, eu argumentava que toda vez que dizíamos a alguém que algo era masculino ou feminino, aquilo nunca dizia respeito apenas ao sexo”, prossegue. “Aquilo sempre referiria simultaneamente ao poder. E o poder continua sendo uma espécie de palavra mágica na Academia”.

“Portanto, quando alguém negava que gênero e sexo variavam, quando sugeriam que realmente havia algo atemporal ou biológico em relação ao sexo e ao gênero, de fato estavam justificando o poder. Eram apologistas da opressão”, explica. “Isso soa familiar?”

Depois disso, ele “foi em busca de alguma explicação no contexto histórico que mostrasse, num determinado momento histórico, por que as pessoas se referiam a algo como masculino ou feminino”. Ele mesmo admitiu que podia “manipular” os detalhes porque “a história é um lugar imenso. Então, sempre havia algo para encontrar”. 

Dummitt argumenta que estava em “território seguro”, visto que ele “ficava preso aos documentos e reconstruía o que as pessoas falavam”, mas as conclusões que tirava deles eram “intelectualmente falidas” porque “vinham de minhas crenças ideológicas — ainda que, naquela ocasião, eu não tivesse descrito aquilo como ideologia”.

“Eu deveria ter sido mais esperto. Se fosse me submeter a uma psicanálise retroativa, diria que realmente eu era mais esperto”, confessa Dummitt. “Por isso fiquei tão nervoso e fui tão assertivo sobre o que achava que sabia. O objetivo era esconder o fato de que, num nível muito elementar, eu não tinha prova de parte do que estava dizendo. Então, fiquei preso a argumentos de forma fervorosa e denunciei pontos de vista alternativos. Não foi algo belo do ponto de vista intelectual. Por isso é tão decepcionante ver que os pontos de vista que eu costumava defender com tanto fervor — e com tão poucos fundamentos — foram hoje aceitos por tantas pessoas na sociedade”. 

Dummitt também observa que seu envolvimento com a ideologia de gênero se explicava parcialmente pelo fato de nunca ter confrontado pontos de vista acadêmicos divergentes. “A crítica de Steven Pinker ao construcionismo social, The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature [‘A Lousa em Branco: a Negação Moderna da Natureza Humana’], foi publicada em 2002 antes que eu terminasse meu doutorado e depois que publiquei meu livro. Porém, não tinha ouvido falar dele, e ninguém nunca me sugeriu que eu tivesse de lidar com seus argumentos e evidências”, observa. “Isso bastaria para lhe revelar muito da bolha em que todos nós vivíamos”.

Ele argumenta que esses problemas são generalizados no campo da “história de gênero”, e aquilo que é considerado “prova” na verdade não passa de um grupo de acadêmicos que gostam de citar-se mutuamente como afirmação.

“Meu raciocínio falho e outros acadêmicos que usam o mesmo tipo de raciocínio agora são usados por ativistas e governos para transformar em lei um novo código moral de conduta”, lamenta Dummitt. “Era diferente quando eu bebia com colegas de graduação e lutava no irrelevante mundo do nosso próprio ego. Mas hoje muitas outras coisas estão em jogo”. Ele ainda crê que o gênero é “socialmente construído” em alguns casos, mas “os críticos dos construcionistas sociais estão certos em erguer as sobrancelhas diante das assim chamadas provas apresentadas por supostos especialistas”.      

“Até que haja acadêmicos seriamente críticos e ideologicamente divergentes quanto a sexo e gênero”, conclui Dummit, “e até que a revisão ‘por pares’ seja mais do que uma forma de controle intra-grupo, teremos de ser, de fato, bastante céticos sobre muito do que se considera ‘expertise’ quanto à construção social de sexo e gênero”.

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