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O segredo de Fátima do qual ninguém fala
Virgem Maria

O segredo de Fátima
do qual ninguém fala

O segredo de Fátima do qual ninguém fala

Mais de cem anos depois das aparições de Fátima, é hora de olhar bem de perto para os dois primeiros segredos revelados por Nossa Senhora aos três pastorinhos, e dos quais, infelizmente, não queremos ouvir falar...

Joseph PronechenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Maio de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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Por que a maioria das pessoas ignora os dois primeiros segredos revelados por Nossa Senhora em Fátima num mês de julho, há 104 anos? O primeiro é sobre o inferno. Queremos realmente prestar atenção nele? A resposta parece ser não. A resposta se opõe ao caminho que o mundo tem seguido, particularmente nos últimos anos.

O primeiro segredo. — Em julho de 1941, a Irmã Lúcia revelou os dois primeiros segredos em suas Memórias, escritas sob orientação de seu bispo. Ela escreveu: “O segredo é composto de três partes distintas, duas das quais revelarei agora. A primeira parte é a visão do inferno”. 

Lúcia prosseguiu com a descrição:

Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados nesse fogo, os demônios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros. 

Eis uma visão horripilante para qualquer um!

Ao relembrar o episódio, Lúcia explicou: 

Esta vista foi um momento, e graças à nossa boa Mãe do Céu, que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição)! Se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor. Em seguida, levantamos os olhos para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza: ‘Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração.’” 

Naquele mesmo instante Nossa Senhora deu a solução, o caminho seguro para evitar o fogo eterno.

Embora queiramos nos concentrar nessa parte do primeiro segredo, vejamos o que Nossa Senhora continuou dizendo naquela ocasião.

Ela prosseguiu: 

Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar. Mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.

Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz. 

Embora hoje muitas pessoas não queiram “assustar” adultos com a ideia de “inferno” ou com a palavra, Nosso Senhor não teve vergonha de usá-la (basta verificar os Evangelhos) e tampouco sua Mãe, tudo para o nosso bem e para o triunfo final: chegar ao Céu.

Lembre-se que esses videntes eram crianças na época. Lúcia tinha 10 anos, São Francisco, 9, e Santa Jacinta, 7.

Mais tarde no convento, Lúcia escreveu o seguinte ao seu bispo: “Até as pessoas devotas às vezes têm medo de falar com as crianças sobre o inferno para que não fiquem amedrontadas, mas Deus não hesitou em mostrá-lo a três crianças [...] bem sabendo que elas ficariam horrorizadas a ponto de (eu ousaria dizer) terem ficado paralisadas de medo.” Porém, quantos adultos ainda nunca ouviram falar sobre o inferno?

Santa Jacinta responde. — A pequena Jacinta ficou tão abalada e emocionada, que respondeu imediatamente. 

Tenho tanta pena dos pecadores! Se eu pudesse mostrar o inferno a eles!”, exclamou. Ela se agarrava a Lúcia e dizia: “Eu vou para o Céu; mas tu que ficas cá, se Nossa Senhora te deixar, diz a toda a gente como é o inferno, para que não façam mais pecados e não vão para lá.” 

Em outras ocasiões, depois de refletir por um tempo, ela dizia: “Tanta gente a cair no inferno, tanta gente no inferno!”

Para tranquilizá-la, Lúcia dizia: “Não tenhas medo; tu vais para o Céu.”

“Pois vou”, dizia com paz, “mas eu queria que toda aquela gente para lá fosse também!”

Ela obedeceria ao pedido feito por Nossa Senhora para ajudar a converter os pecadores e salvá-los do inferno. Por exemplo, embora estivesse muito doente, ainda assistia à Missa durante a semana. Quando Lúcia a exortou: “Jacinta, não venhas; tu não podes”, sua prima respondeu: “Não importa. Vou pelos pecadores que nem ao domingo vão.” 

Lúcia acreditava que Deus havia dado à sua jovem prima uma graça especial para isso por meio do Imaculado Coração de Maria. Jacinta “olhara para o inferno e vira a ruína das almas que para lá vão”. Muitas vezes se sentava no chão e, pensativa, exclamava: “O inferno! o inferno! que pena eu tenho das almas que vão para o inferno! E as pessoas lá vivas a arder como a lenha no fogo!”

Quando Lúcia a via muitas vezes mergulhada em alguma reflexão e lhe perguntava sobre o que estava pensando, Jacinta frequentemente respondia: “Nessa guerra que há-de vir, tem tanta gente que há-de morrer e ir para o inferno. Que pena! Se deixassem de ofender a Deus, nem vinha a guerra, nem iam para o inferno!”

Jacinta dizia que os pecados da carne são os que mais ofendem a Deus

Porém, para salvar os pecadores, Jacinta sempre fazia algo por causa dos temores que sentia por eles. Ela ajoelhava e rezava a oração que Nossa Senhora havia ensinado às crianças: “Ó, meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente as que mais precisarem.”

Lúcia relatou como Jacinta permanecia de joelhos por longos períodos, dizendo a mesma oração repetidas vezes.

Quando rezavam o Rosário, as crianças nunca se esqueciam de incluir depois de cada dezena a oração que Nossa Senhora também quer que rezemos após cada dezena. 

Muito tempo depois, numa carta escrita em 1941, Lúcia afirmou ao bispo: “Agora, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, já V. Ex.cia Rev.ma compreenderá por que a mim me ficou a impressão de que as últimas palavras desta oração se referiam às almas que se encontram em maior perigo ou mais iminente de condenação.”

Jacinta mostrava ter grande compaixão ao dizer (referindo-se a um pecador em particular): “Temos que rezar e oferecer sacrifícios a Nosso Senhor, para que o converta e não vá para o inferno, coitadinho!”

Ela motivava sua prima e o irmão dela, Francisco, a rezar pelos pecadores junto com ela. “Temos de rezar muito para salvar as almas do inferno!”, repetia. “Tantas almas vão para lá! Tantas!”

Ela seguia a recomendação de Nossa Senhora de Fátima para usar a prática da mortificação: “Rezai, rezai muito, e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas.”

Quando Jacinta ficava especialmente preocupada, seu irmão Francisco lhe dizia: “Não penses tanto no inferno! Pensa antes em Nosso Senhor e Nossa Senhora. Eu não penso nele, para não ter medo.”

Naturalmente, ela não temia por si, mas pelos pecadores. Esta era sua atitude constante: “Perdoa-lhes, meu Jesus, e converte-os. Decerto não sabem que, com isto, ofendem a Deus. Que pena, meu Jesus! Eu rezo por eles…”. E imediatamente repetia a oração que Nossa Senhora ensinara: “Ó meu Jesus, perdoai-nos…”.

Sabemos que outro santo levou tudo isso a sério. Dom Paolo Carta, bispo italiano, recordando as solicitações de Nossa Senhora de Fátima, disse: “A ansiedade materna do Imaculado Coração de Maria pelas almas que vão para o inferno invadiu de forma profunda e completa o coração do Padre Pio, que fez de sua vida inteira um grande sacrifício a Nosso Senhor para afastar as almas da condenação eterna.”

O bispo observa que, em Fátima, Nossa Senhora pediu particularmente a récita do Rosário. “E quem poderia contar as horas que Padre Pio passou em oração pela conversão e salvação dos pecadores?”

Havia também a devoção dos cinco primeiros sábados, que deveríamos “praticar por toda a vida pelo bem de nossa alma e das almas dos nossos próximos também. Nossa Senhora nos disse que almas estão se perdendo no inferno porque não havia ninguém que fizesse reparação por seus pecados. Ela implora que façamos isso por eles. Como podemos negar-lhe isso?”

O presidente internacional do World Apostolate of Fatima, Américo Pablo Lopez-Ortiz, revelou que os videntes de Fátima descobriram “o infinito oceano de amor e misericórdia que é Deus”, e por meio do coração de Maria descobriram “a infinita misericórdia de Deus com os pobres pecadores e a terrível ameaça que enfrentam: a existência do inferno, criado para aqueles que por orgulho não aceitam a misericórdia de Deus”. 

O autor e escultor Pe. Thomas McGlynn, que esteve em Fátima, acreditava no seguinte: “A enormidade da rebelião da humanidade contra Deus e a infinita aversão de Deus ao pecado formam o fundamento da mensagem de Fátima. Então, Ele dá esperança ao pecador ao revelar que aceitará o arrependimento feito por meio do Imaculado Coração de Maria. Fátima manifesta os mais incompreendidos dos atributos divinos: justiça e misericórdia.” Nossa Senhora “veio para nos dizer como não ir para o inferno!”

Mas quantos escutam Nossa Senhora?

A Irmã Lúcia e São João Paulo II.

Esperança de evitar o inferno. — Depois de revelar o primeiro segredo, Lúcia revelou a seu bispo o segundo, que diz respeito a todos nós. O segundo segredo nos enche de esperança, porque mostra o caminho para o céu.

Lúcia escreveu: “A segunda parte diz respeito à devoção ao Imaculado Coração de Maria.”

Jacinta disse o seguinte a Lúcia: “Aquela Senhora disse que o Seu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá a Deus. Não gostas tanto? Eu gosto tanto do seu Coração! É tão bom!”

Quando Jacinta ia colher flores silvestres, cantava: “Doce Coração de Maria, sede a minha salvação! Imaculado Coração de Maria, converte os pecadores, livra as almas do inferno!

Lúcia disse ao bispo: “Nossa Senhora nos disse no segredo de julho que Deus queria estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria — estarei sempre convosco, e meu Imaculado Coração será vosso consolo e o caminho que vos levará a Deus. E Nossa Senhora garantiu: ‘No final, meu Imaculado Coração triunfará’”.

Isso fará com que mudemos de direção e tenhamos certeza de estar a caminho do céu.

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Rogações: o que são e por que resgatá-las?
Liturgia

Rogações: o que são
e por que resgatá-las?

Rogações: o que são e por que resgatá-las?

O que fazer diante de doenças, guerras ou desastres naturais? Os santos e a liturgia tradicional da Igreja têm a resposta! Saiba em que consistem as “Rogações” e como podemos pôr em prática, ainda hoje, esse costume da Igreja.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Maio de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Não é novidade para ninguém que vivemos um tempo de descrença generalizada. Mas o que os cristãos faziam antigamente, ao confrontar fome, guerras, terremotos e desastres naturais em geral? Que resposta eles dariam, por exemplo, à atual pandemia do coronavírus?

Muito simples: eles se voltariam a Deus

Foi num ambiente de fé católica assim que nasceram as Rogações, “dias de oração, e antigamente também de jejum, instituídos pela Igreja para aplacar a ira de Deus sobre as transgressões dos homens, para pedir proteção em meio às calamidades e para obter uma boa e abundante colheita”.

Até a reforma litúrgica ocorrida após o Concílio Vaticano II, havia no calendário romano geral duas celebrações específicas nesse sentido. 

A primeira, chamada de “Ladainhas maiores” e regulada por S. Gregório Magno († 604), acontecia em 25 de abril, dia em que seria instituída, posteriormente, a festa de S. Marcos:

As Ladainhas maiores foram instituídas para cristianizar uma procissão pagã que todos os anos, a 25 de abril, saindo para lá dos muros de Roma, ia para o campo imolar um cordeiro em honra de Robigus, deus do gelo. Tornada cristã, a procissão acabava pela missa em S. Pedro. Tais como as Ladainhas menores ou Rogações, de data mais recente, estas orações públicas pedem a Deus que afaste os flagelos e espalhe a sua bênção sobre as colheitas [1].

A segunda, denominada “Ladainhas menores” e prescrita para toda a Igreja por Leão III († 816), acontecia ao longo de três dias — a segunda, terça e quarta-feiras precedentes à festa da Ascensão do Senhor [2]:

Por motivo de calamidades públicas, que, no século V, flagelaram a diocese de Viena, no Delfinado, S. Mamerto estabeleceu uma procissão solene de penitência, nos dias que precedem a festa da Ascensão. Uma prescrição do concílio de Orleans, de 511, espalhou este uso em toda a França. Não tardou a estender-se à Igreja universal. Sem deixar de implorar as bênçãos de Deus para toda a Igreja, as Rogações tornaram-se, atualmente, uma prece para obter a bênção de Deus para as colheitas.

O canto das ladainhas dos santos levou a dar a estes dias de preces públicas a designação de dias de rogações; mas, porque em Roma existia já uma procissão semelhante, no dia 25 de abril, as Rogações começaram a denominar-se Ladainhas menores, e a procissão de 25 de abril, Ladainhas maiores [3].

Em ambas as celebrações, o sacerdote vestia o violáceo penitencial, cantava-se a Ladainha de Todos os Santos e realizava-se uma procissão logo após a primeira invocação de Nossa Senhora. Se necessário, repetia-se a ladainha e se cantavam alguns dos salmos penitenciais ou graduais. Depois, rezava-se a Missa votiva das Rogações, com textos próprios que ressaltavam principalmente a eficácia de nossas orações, quando feitas com humildade, confiança e perseverança. A Epístola, por exemplo, tomada de S. Tiago, ensinava que 

a oração fervorosa do justo pode muito. Elias era um homem sujeito ao sofrimento como nós: orou com instância, para que não chovesse sobre a terra, e durante três anos e seis meses não choveu. Depois, orou de novo, e o céu deu chuva, e a terra os seus frutos (Tg 5, 16s). 

O Evangelho, por sua vez, narrava a parábola do amigo inoportuno e concluía com a célebre ordem de Nosso Senhor: “Pedi e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc 11, 9).

Mas o que aconteceu com esses dias especiais de súplica na Igreja? 

“Bênção dos campos de trigo em Artois”, por Jules Breton.

Infelizmente, no Novus Ordo, eles sumiram do mapa. A exemplo das Quatro Têmporas, porém — sobre a qual já falamos aqui —, tampouco as Rogações foram abolidas. O Cerimonial dos Bispos prevê a sua celebração: “Nas rogações e nas quatro têmporas a Igreja costuma orar ao Senhor pelas várias necessidades dos homens, sobretudo pelos frutos da terra e pelos trabalhos dos homens e render-lhe publicamente ação de graças” (n. 381). E o Missal Romano, em suas “Normas universais para o ano litúrgico”, prescreve: “Para que as Rogações e as Quatro Têmporas do ano possam adaptar-se às diversas necessidades dos lugares e dos fiéis, convém que as Conferências Episcopais determinem o tempo e o modo como devem ser celebradas”. 

No Brasil, a CNBB decidiu, durante Assembleia Geral, em 1971, “que a regulamentação da celebração das Têmporas e Rogações fique a critério das Comissões Episcopais Regionais”. Como não se tem notícia de nenhuma previsão nesse sentido, só restou aos católicos uma forma de celebrar esses dias: privadamente

Fica pois a sugestão para o dia 25 de abril e os outros três que antecedem a Ascensão do Senhor (neste ano de 2021, trata-se dos dias 10, 11 e 12 de maio). Em casa, nestas datas, além da récita do santo Terço e das devoções habituais em família, é possível acrescentar a Ladainha de Todos os Santos e a oração de um ou mais salmos penitenciais — e as intenções das orações podem ser tantas quantas são as necessidades dos homens: desde os problemas particulares de cada pessoa e família até a crise sanitária e política que estamos vivendo a nível mundial. O importante é usar esse tempo para intensificar as nossas orações, sabendo que Deus quer derramar graças abundantes sobre nós.

Os paramentos violáceos que se usavam nestes dias, em pleno Tempo de Páscoa, também podem ser para nós um sadio lembrete de que, neste mundo, não podemos dispensar por completo a prática da mortificação. Pois “o vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8). Se o inimigo de nossa alma não descansa nem nos festivos dias de Páscoa, tampouco nós podemos descuidar da grande obra de nossa salvação eterna. Por isso, se possível, não deixemos de oferecer nesses dias, também, alguma penitência a Deus.

É claro que, para os fiéis que assistem à Missa na Forma Extraordinária do Rito Romano — agora amplamente disseminada, graças ao Summorum Pontificum, do Papa Bento XVI —, as Rogações continuam a ser uma realidade litúrgica viva, um elemento importante do culto público da Igreja. Para a maioria de nós, porém, fica a esperança de que, num futuro não muito distante, tradições como essa sejam resgatadas e ganhem de novo lugar de honra na liturgia católica.

Lembremo-nos da história: essas preces públicas e procissões penitenciais começaram humildes e despretensiosas, numa e outra diocese, e a Providência cuidou do resto. Quem sabe se não é a partir de iniciativas pequenas, em nossas famílias e paróquias, que as Rogações voltarão a ser praticadas em toda a Igreja — alcançando também agora, como antes, os favores do céu?

Notas

  1. Missal Romano Quotidiano, por D. Gaspar Lefebvre e os Monges Beneditinos de S. André. Trad. dos Monges Beneditinos de Singeverga. Bruges: Biblica, 1963, p. 1040.
  2. Lembrando que, assim como Jesus subiu aos céus quarenta dias após ressuscitar, na liturgia, a Ascensão do Senhor também é celebrada quarenta dias após a Páscoa da Ressurreição, ou seja, na quinta-feira da 6.ª Semana da Páscoa. No Brasil, essa festa é transferida para o domingo seguinte, sobrepondo-se ao 7.º Domingo da Páscoa. 
  3. Missal Romano Quotidiano, p. 521s.

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Por que é importante a virgindade perpétua de Maria?
Virgem Maria

Por que é importante
a virgindade perpétua de Maria?

Por que é importante a virgindade perpétua de Maria?

Atualmente, a virgindade perpétua de Nossa Senhora é negada pela maioria dos protestantes, embora a maior parte dos reformadores defendesse essa doutrina. Mas a mãe de Jesus foi realmente virgem ao longo de toda a sua vida? E por que isso importa?

Paul SenzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Maio de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Um dos principais pontos de discórdia entre católicos e protestantes é a fé na Bem-aventurada Virgem Maria. A tradição católica de venerar a Mãe de Jesus e dogmas como a Imaculada Conceição e a Assunção são frequentemente contestados pelos protestantes. Atualmente, a virgindade perpétua de Maria é negada pela maioria dos protestantes, embora a maioria dos reformadores, alinhados à fé cristã universal de um milênio e meio antes, defendesse essa doutrina.

Mas Maria foi virgem por toda a vida? E por que isso importa?

Este não é um fórum para resumir as evidências que demonstram a virgindade perpétua de Maria. Esses argumentos já foram defendidos muitas vezes em respostas de apologistas católicos. Aqui, preocupamo-nos principalmente em saber por que é importante a resposta a essa questão.

A primeira razão pela qual a virgindade perpétua de Maria é importante é que se trata de uma verdade, não de opinião, e o fato é que a Igreja tem defendido infalivelmente essa doutrina desde os seus primeiros dias. Certamente, os Padres da Igreja, por exemplo, não defenderiam uma inverdade; afinal, veritas vos liberabit, “a verdade vos libertará” (Jo 8, 32). A virgindade perpétua de Maria raramente foi desafiada na história cristã. Até mesmo os principais reformadores protestantes reconheceram que a virgindade perpétua de Maria é ensinada nas Escrituras, e todos os Padres da Igreja a sustentaram como verdadeira.

Nomes de peso como Tertuliano, S. Atanásio, S. João Crisóstomo, S. Ambrósio e S. Agostinho argumentaram, com base nas Escrituras, que Maria permaneceu virgem por toda a vida. Isso era verdade para os cristãos em todo o mundo conhecido, latino e grego, do Oriente e do Ocidente. Orígenes de Alexandria, por exemplo, escreveu: “Não há filho de Maria, exceto Jesus, segundo a opinião dos que pensam corretamente sobre ela” (Comentário a João I 4). S. Jerônimo, o magnífico tradutor e erudito bíblico, afirmou claramente: acreditamos que Maria permaneceu virgem por toda a vida, porque lemos isso nas Escrituras (cf. Contra Helvídio 21).

O proto-evangelho de Tiago, embora não seja escritura canônica, é um importante documento histórico que nos diz muito sobre o que a Igreja primitiva acreditava. Escrito no século II d.C., não muito depois do fim da vida terrena de Maria, este documento faz um grande esforço para defender a virgindade perpétua de Maria. Na verdade, alguns estudiosos — incluindo Johannes Quasten, o grande estudioso da patrística do século XX — pensaram que esse era o objetivo principal do texto. Entre outras coisas, é do protoevangelium que colhemos a tradição segundo a qual Maria foi consagrada para o serviço no Templo quando jovem, o que significaria uma vida de virgindade perpétua. De fato, o texto indica que Maria foi confiada a José para que ele lhe protegesse a virgindade.

No II Concílio de Constantinopla, de 553 d.C., Maria recebeu oficialmente o título de “sempre Virgem”. Um século depois, o Papa Martinho I esclareceu que, com isso, a Igreja quer dizer que Maria foi virgem antes, durante e depois do nascimento de Cristo (ante partum, in partu, et post partum). Este é um ponto crucial — o parto virginal é essencialmente incontestável entre os cristãos. É na questão de saber se Maria permaneceu virgem que muitos protestantes discordam da Igreja Católica.

Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio, João Calvino (pelo menos no início da carreira) e outras primeiras figuras protestantes reconheceram que a virgindade perpétua de Maria é ensinada na Bíblia. Infelizmente, ao longo dos séculos desde a Reforma, seus descendentes teológicos se perderam nesse aspecto. Hoje, poucos protestantes reconhecem a verdade, muito menos a base bíblica, da virgindade perpétua de Maria.

Novamente, não estou tentando provar o caso aqui com um apelo a uma ampla variedade de autoridades. Ofereço esta breve pesquisa de história da Igreja sobre a questão para mostrar que a Igreja frequente e inequivocamente defendeu a doutrina como verdadeira, porque sua verdade é importante, ao passo que sua negação é um desenvolvimento relativamente recente na história da Igreja.

Em segundo lugar, a virgindade perpétua de Maria é importante porque sua verdade tem implicações importantes para todos nós, a saber: aponta para além de sua vida, para o mundo que está por vir, um mundo em que não haverá mais casamento e todos seremos como Maria foi. “Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22, 30), disse Jesus aos saduceus. A virgindade de Maria é uma prefiguração do céu, a recompensa para aqueles que dizem a Deus, com Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38).

Em terceiro, a virgindade perpétua de Maria é um dos muitos atributos que a tornam um belo símbolo da Igreja, como a Noiva virgem de Cristo e a Mãe fecunda dos cristãos. S. Ambrósio escreveu: “Apropriadamente, [Maria] é desposada mas Virgem, porque ela prefigura a Igreja imaculada mas casada. Uma Virgem concebeu do Espírito, uma Virgem dá à luz sem dores” (Sobre Lucas 2, 6-7).

Em quarto lugar, a virgindade perpétua de Maria diz muito sobre seu relacionamento com todos nós. Quando Cristo estava morrendo na cruz, disse a João: “Eis aí tua mãe”, e a Maria: “Mulher, eis aí teu filho” (Jo 19, 26-27). A Igreja sempre reconheceu nessa passagem não somente um filho preocupado com o cuidado da mãe depois de sua morte, mas também Cristo a entregar sua Mãe a cada um de nós. Ela também é nossa Mãe. Isso não faria sentido se Maria tivesse outros filhos, já que eles teriam sido encarregados de cuidar dela após a morte de Jesus. E isso deve importar para todos os cristãos.

Citando a Lumen Gentium, o Catecismo da Igreja Católica afirma que “o nascimento de Cristo ‘não diminuiu, antes consagrou a integridade virginal’ da sua Mãe” (§ 499). E este ponto merece destaque especial: o nascimento virginal não foi apenas um “truque”, um milagre usado para “empolgar” as pessoas, sinalizando que algo especial aconteceu. Foi um claro indício de que Maria foi consagrada (reservada, por seu fiat) para o serviço a Deus, conformando sua vontade com a de Deus. Ela foi separada por sua virgindade, e sua virgindade foi santificada por Nosso Senhor em seu nascimento.

O parto virginal e a virgindade perpétua de Maria são sinais da sua consagração total a Deus, de serviço sincero a Ele e de um abandono total à sua vontade. Ao longo dos séculos, cristãos de todos os matizes têm defendido essa doutrina, às vezes com veemência em face de oposições. O fato da sua virgindade perpétua é importante, porque Maria foi dada a todos nós como Mãe espiritual, símbolo da Igreja. Todos os cristãos fariam bem em se voltar para Nossa Senhora e ver, em sua virgindade perpétua, um sinal da Providência de Deus.

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Por que entrarei para um mosteiro em 2021?
Testemunhos

Por que entrarei
para um mosteiro em 2021?

Por que entrarei para um mosteiro em 2021?

Vivemos numa “época sem precedentes”. É por isso que, seguindo o precedente de São Bento, Santa Catarina e Santa Teresinha, entrarei para um mosteiro em 2021. Porque às vezes precisamos abandonar o mundo para amá-lo.

Gretchen ErlichmanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere6 de Maio de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Vivemos numa “época sem precedentes”. Esta frase, repetida com tanta frequência, não apenas tomou as manchetes dos jornais e adornou os lábios de muitos apresentadores, mas também se tornou um mantra sempre presente em nossos encontros cotidianos. “Época sem precedentes” descreve o desconcertante conglomerado de caos político, tensões religiosas e uma sociedade conduzida por uma pandemia.

Porém, são precisamente épocas como esta que estabelecem um precedente para vocações à vida contemplativa: o Império Romano desmoronava, enquanto S. Bento compunha sua regra monástica. O Grande Cisma do Ocidente atormentava o papado, enquanto S. Catarina de Siena fazia penitência pela regeneração da Igreja. As religiosas do Carmelo de Lisieux morriam de gripe asiática, enquanto S. Teresinha rezava pela saúde e regeneração da Europa.

Em poucos meses, seguirei esse precedente, deixando para trás a vida que conheço a fim de entrar como postulante entre as irmãs dominicanas contemplativas do Mosteiro de Nossa Senhora das Graças, em North Guilford, Connecticut. Para mim, essa parece ser a melhor resposta que posso dar ao nosso atual contexto social e à vida, em sentido mais amplo.

Mas talvez essa ideia não seja tão bem compreendida quanto eu esperava. Ao compartilhar essa intenção com outras pessoas, tenho recebido de amigos, familiares, conhecidos e estranhos um número cada vez maior de perguntas em tom de perplexidade, todas elas questionando minha decisão de entrar para um mosteiro. — Por que eu faria isso justamente agora? Por que eu gostaria que minha última experiência do “mundo” fosse a de uma sociedade conduzida por uma pandemia? Por que, em meio ao caos do ambiente político e religioso desta época, eu me trancaria num claustro? — Alguns sugerem que uma pessoa só faria tal escolha com o objetivo de fugir dos problemas do mundo. Outros veem nisso uma negação heróica das coisas “mundanas”. Essas respostas erram o alvo.

É justamente o desejo de me dedicar a esta “época sem precedentes” que fortalece minha determinação de buscar uma vida como religiosa dominicana contemplativa. Não entrarei num mosteiro para fugir do mundo nem para mostrar uma falsa piedade. Entrarei na vida religiosa a fim de seguir a minha vocação particular, através da qual poderei realizar mais perfeitamente minha missão como membro cristã da sociedade humana. Ao renunciar às coisas do mundo, uma religiosa afirma de modo radical a realidade do bem e do mal no mundo. Ao entrar para o claustro, ela se torna livre para penetrar com mais profundidade o sofrimento de um mundo que sofre. E, ao fechar os olhos na oração, ela é capaz de abrir seu coração para um mundo desesperadamente carente.

Um dos lemas da Ordem dos Pregadores é contemplare et contemplata aliis tradere (“contemplar e transmitir aos outros as coisas contempladas”). Depois de discernir pela primeira vez a respeito da vida contemplativa, não sabia ao certo como esse lema se manifestaria na vida de uma irmã de clausura. Hoje, compreendo que é por meio de uma vida contemplativa que me comprometerei de modo pleno e frutífero com um mundo sofredor. Por meio de uma vida de oração e penitência e afastada do mundo, uma irmã contemplativa está intimamente unida em solidariedade àqueles que sofrem no mundo. Esta solidariedade é definida pela oferta plena de si em prol de um bem muito maior do que ela mesma; é um derramamento de sua vida de oração e penitência pelo bem comum do mundo ao redor dela. É por meio desta solidariedade que ela cumpre sua vocação: contemplare et contemplata aliis tradere.    

O Papa S. João Paulo II afirma exatamente isso em sua carta apostólica Salvifici doloris:

É necessário, portanto, cultivar em si próprio esta sensibilidade do coração, que se demonstra na compaixão por quem sofre. Por vezes esta compaixão acaba por ser a única ou a principal expressão do nosso amor e da nossa solidariedade com o homem que sofre (...) Pode-se dizer mesmo que se dá a si próprio, o seu próprio “eu”, ao outro. Tocamos aqui um dos pontos-chave de toda a antropologia cristã. O homem “não pode encontrar a sua própria plenitude a não ser no dom sincero de si mesmo”. Bom Samaritano é o homem capaz, exatamente, de um tal dom de si mesmo (n. 28).

Toda pessoa é chamada a viver uma manifestação específica desse “sincero dom de si” por meio de sua vocação pessoal: os pais sacrificam o próprio conforto em prol dos filhos; os profissionais da saúde põem as próprias vidas na linha de frente em prol da saúde e do bem-estar dos outros; os membros do clero são obrigados a viver à altura do desafio de viver e pregar a verdade, não importa a que custo. Eu, junto com minhas futuras irmãs, sou chamada a participar de todos esses sofrimentos de modo sobrenatural, por meio do dom da vida contemplativa.

Religiosas contemplativas são chamadas a oferecer orações pela mãe exausta que não consegue rezar após uma noite em claro com seu filho; a fazer penitência pelo homem que está morrendo sozinho e precisa da graça da conversão; a ajoelhar-se diante do Santíssimo Sacramento e implorar pela paz em nossa nação e pela fertilidade da Igreja. Como religiosa, usarei minha vida para unir todos esses sofrimentos ao sofrimento de Cristo na cruz. Cristo fez-se homem e sacrificou sua vida humana pela salvação da humanidade. Dentro das muralhas do mosteiro, religiosas sacrificam suas próprias vidas humanas e as unem à de Cristo, levando assim toda a humanidade para Ele, e Ele para toda a humanidade.  

Assim que eu entrar no mosteiro, minha “janela” para o mundo consistirá numa pequena abertura na grade da capela onde está o ostensório com o Santíssimo Sacramento. Literalmente, verei o mundo exterior através de Cristo. Que expressão perfeita da vida religiosa que eu desejo buscar! G. K. Chesterton escreveu o seguinte: “O voto é para o homem o que o canto é para o pássaro ou o latido para o cão; é a voz pela qual ele é conhecido” (The Barbarism of Berlin). É na busca por uma vida com os votos de pobreza, castidade e obediência no interior das silenciosas muralhas do claustro que desejo ser escutada.

Por isso, estou seguindo o precedente de S. Bento, S. Catarina e S. Teresinha nesta “época sem precedentes” e entrarei para um mosteiro em 2021. Porque às vezes precisamos abandonar o mundo para amá-lo.

Notas

  • A fotografia acima, é da profissão da Irmã Maria Teresa do Sagrado Coração, religiosa dominicana no Mosteiro de Nossa Senhora do Rosário, em Summit, Nova Jersey. Créditos: Toni Greaves.

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