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A fé segundo Santa Catarina de Sena
Santos & Mártires

A fé segundo Santa Catarina de Sena

A fé segundo Santa Catarina de Sena

Na doutrina de Santa Catarina de Sena, a fé aparece não só como uma adesão obrigatória a uma fórmula revelada e proposta pela Igreja, mas também como uma vida intensa e radiante.

Pe. Reginald Garrigou-LagrangeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Abril de 2021Tempo de leitura: 17 minutos
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Uma das melhores maneiras de penetrar a espiritualidade dos santos é ver o que eles disseram sobre as três maiores virtudes que existem — isto é, as três virtudes teologais — e como viveram cada uma delas; estas virtudes unem a alma cada vez mais intimamente a Deus e inspiram todas as outras virtudes a se elevarem.

Por isso, trataremos agora da segundo S. Catarina de Sena, particularmente no que se encontra em seu Diálogo, ditado por ela mesma em seus repetidos êxtases, cerca de dois anos antes de sua morte [1]. Primeiro, veremos o que é a fé em si mesma; em seguida, por que ela é frequentemente obscurecida, coberta de nuvens, no pecador; depois, como deve ser o seu desenvolvimento e como devemos viver com base nela, considerando todas as coisas sob a sua luz sobrenatural.

Muitos psicólogos ensinam [2] que a vida dos místicos é dominada por uma grande e nobre emoção, que depois se traduz em sua inteligência pelas ideias que nos expressam. O seu pensamento seguiria, portanto, a emoção ou o movimento da sensibilidade. Assim, parece que ela não teria senão um fundamento frágil e incerto, que seria, talvez, o nosso subconsciente. Dessa maneira, a inteligência dos místicos cristãos não se nutriria, em primeiro lugar, da verdade imutável e incontestável; seus julgamentos seriam apenas o reflexo de vivas emoções vindas do coração.

Outra, porém, é a doutrina de S. Catarina de Sena, que nos ajuda a ver a profunda verdade do tratado teológico da fé e nos manifesta a vida dessa virtude teologal. A fé aparece aqui não só como uma adesão obrigatória a uma fórmula revelada e proposta pela Igreja, mas também como uma vida intensa e radiante.

Que é a fé infusa

A fé, disse a santa [3], é uma luz que recebemos no Batismo, que nos mostra o caminho que conduz à vida eterna. E neste caminho devemos marchar corajosamente, sem a menor hesitação, porque a luz que no-lo apresenta vem de Deus, que não nos pode enganar. Por meio dela, com efeito, conhecemos de modo sobrenatural e infalível o fim da nossa peregrinação e Aquele que é “o caminho, a verdade e a vida” [4]. 

“Santa Catarina de Sena”, por Franceschini Baldassare.

Definida, assim, como um instinto intelectual que nos leva em direção ao fim último, a fé pode ser comparada, por exemplo, com o instinto que guia a andorinha a um país tão distante na primavera. Na andorinha, esse instinto a conduz de modo certo, ainda que ela esteja sozinha, seja jovem e se encontre, acidentalmente, muito longe do destino da viagem, em um lugar em que jamais estivera antes. Existe, portanto, na ordem natural algo maravilhoso que é símbolo de um instinto espiritual imensamente superior.

“A fé”, disse ainda a santa [5], “é a pupila do olho da inteligência; sua luz faz discernir, conhecer e seguir o caminho e a doutrina da verdade, o Verbo encarnado [6]. Sem essa pupila da fé, a alma não conseguiria ver (no plano da salvação), pois se assemelharia a um homem que tem os olhos sãos, mas cuja pupila, pela qual o olho vê, estaria recoberta por um véu. A inteligência é o olho da alma e a pupila deste olho é a fé”.

Este modo simbólico de falar da fé como uma “pupila inserida no olho da inteligência por meio do Batismo” [7], mostra de forma clara que a fé infusa é essencialmente sobrenatural, muito superior à atividade natural da nossa inteligência e até mesmo da inteligência angélica. Trata-se de uma participação no conhecimento que Deus tem de sua vida íntima e do que Ele prepara aos que O amam. Este objeto sublime, como disse S. Paulo, “o olho do homem não viu” (1Cor 2, 9) nem sua inteligência ou a inteligência angélica podem conhecer naturalmente. Mas Deus no-lo revelou pelo seu Espírito, de sorte que, pelo dom sobrenatural da fé, aderimos à Verdade primeira revelante e aos mistérios revelados propostos pela Igreja.

Comparada com a pupila ou o centro do olho, a fé infusa amplia consideravelmente as fronteiras da nossa inteligência e eleva-a para o conhecimento certo, ainda que obscuro, da vida íntima de Deus. Dessa forma, a fé, como disse a santa [8], oferece “um antegosto da vida eterna”; ela é o princípio, o gérmen, “a substância das coisas que esperamos” (Hb 11, 1) [9], às quais nos faz aderir firmemente, ainda que não as vejamos. Não conhecemos, portanto, somente as emoções do nosso coração, mas também o que S. Paulo chama “as profundezas de Deus” (1Cor 2, 10).

A fé, por essa razão, possui um valor inestimável. Se, ao falar de quem mais amamos, dizemos comumente que o guardamos “como a pupila dos olhos”, que não deveríamos dizer da fé infusa, que é a pupila do olho espiritual e deve subsistir em nós até que seja sucedida pela luz da glória, a qual nos fará ver claramente a essência divina sem o intermédio de criatura alguma nem mesmo ideia criada nenhuma?

A fé obscurecida

Essa luz tão preciosa da fé, porém, está frequentemente coberta de nuvens na alma em pecado mortal, porque o cristão, depois de ter recebido a fé infusa no Batismo, só a perde por meio de um pecado mortal que seja diretamente contrário à própria fé, negando ou colocando em dúvida, de modo formal, uma verdade revelada que lhe foi suficientemente proposta.

Graças a Deus, os pecados mortais diretamente contrários à fé são relativamente raros, razão por que a fé infusa, junto com a esperança, permanece ainda em muitos dos batizados que se encontram em estado de pecado mortal, como permanece a raiz de uma árvore que foi cortada e, por isso, poderá reviver.

A fé infusa, contudo, está presente nos pecadores sem a caridade e as virtudes morais infusas, ou seja, ela permanece, mas obnubilada, como que coberta de nuvens. S. Catarina de Sena insiste repetidamente sobre este ponto de maneira impressionante [10]: 

Em vez de usufruírem ao máximo das luzes da fé para que, na graça, nasçam as obras de vida, eles [os que se encontram em estado de pecado mortal] produzem apenas obras de morte. Sim, suas obras são mortas, porque todas se realizam no pecado mortal […]. Eles têm ainda a forma do santo Batismo [o caráter batismal], mas não possuem mais a luz [a graça santificante]; e são privados desta luz por conta da escuridão que é a falta cometida por amor próprio, treva que recobriu a pupila que lhes permitia ver. O mesmo há de dizer-se dos que têm a fé sem as obras: a fé é morta [já que ela não produz mais atos meritórios].

A santa não disse que a fé desapareceu ou que a alma a perdeu. Não, a fé ainda está lá, mas semelhante a uma pupila encoberta por uma nuvem de maior ou menor espessura [11].

Quando a fé é obscurecida numa alma, como foi dito, é como se o homem, mesmo muito inteligente por natureza, não tivesse o olhar voltado para o céu; ele vê diante de si as coisas que estão à sua altura ou que lhe são inferiores, e demonstra, muito frequentemente, perspicácia em suas atividades, mas está como que cerrado às realidades superiores:

O pecador — escreve Santa Catarina — não reconhece mais em si mesmo a minha Bondade, a qual lhe concedeu o ser, e também todas as graças de que o cumulei. Não me conhece, nem se conhece a si mesmo, e não detesta em si a sensualidade egoísta; além disso, ama-a e dela se utiliza para satisfazer-lhe os desejos. […] A mim não me ama, diz o Senhor; não me amando, não ama aqueles que amo, ou seja, seu próximo; e não coloca seu prazer em fazer o que me apraz [12].

Dessa maneira, o amor egoísta cobre com uma venda espessa a pupila da fé [13].

Sem dúvida, o pecado venial deliberado não pode tornar a fé morta, mas produz em certas almas que estão em estado de graça um efeito análogo à obscuridade da qual falávamos agora mesmo: essas almas ficam muito apegadas ao seu próprio julgamento e deixam-se mais ou menos iludir pelo inimigo de todo bem. Gostaríamos de poder dar aos seus olhos a simplicidade, elevação e doçura que só podem vir de Deus.

A obscuridade inferior, que vem da matéria, do erro e do pecado, impede a alma de penetrar a obscuridade superior, que nasce de uma fortíssima luz para os fracos olhos do nosso espírito.

A fé iluminada pelos dons do Espírito Santo

Se a fé do cristão em estado de pecado mortal está cercada de nuvens ou névoas, a fé do justo, por outro lado, sobretudo quando ele é generoso, é cada vez mais iluminada pelos dons do Espírito Santo, particularmente pelos dons de inteligência e de sabedoria, os quais tornam a fé penetrante e saborosa.

S. Catarina chama a estes dons uma luz especial concedida aos justos pela qual veem que Deus, doce e suprema Verdade, dá a cada um o estado, o tempo e o lugar, as consolações e as tribulações, em vista do que é necessário à nossa salvação e à perfeição a que Ele chama as almas [14]. S. Tomás ensina que a fé nos faz aderir à verdade divina e dirige a nossa vida, e é especialmente neste sentido prático da fé que se fala aqui. Vemos assim como esta virtude é o fundamento positivo de toda a espiritualidade. 

Se a alma fosse verdadeiramente humilde — disse o Senhor — e sem presunção alguma, enxergaria sob essa luz tudo o que vem de mim; é por amor que eu lhe ofereço e, portanto, é com amor e reverência que deve receber tudo quanto lhe envio [15]. 

Os justos muito mais esclarecidos “estimam-se dignos de todas as aflições, como também de serem privados de todas as consolações pessoais e de todo bem, seja ele qual for […]. Sob essa luz, conheceram e saborearam minha vontade eterna, que não quer outra coisa senão o vosso bem, e que não vos envia nem permite o sofrimento senão para que sejais santificados em mim” [16].

Certos sábios, no entanto, por causa do orgulho, são privados dessa luz que concede uma fé penetrante e saborosa:

Os que se envaidecem de sua ciência ficam cegos a essa luz, pois o orgulho e a nuvem do amor-próprio recobrem e ocultam essa claridade. É por isso que eles entendem a S. Escritura mais literal do que espiritualmente; só apreciam a letra, devido ao manuseio de muitos livros, e não saboreiam o cerne da Escritura, uma vez que estão privados da luz que a compôs e que também revela o seu sentido.

Estes belos eruditos se admiram, e caem na maledicência quando veem as pessoas pobres, rudes e sem instrução saborearem a S. Escritura e desfrutarem da minha Verdade […]. Digo-te, por isso, que para pedir conselho sobre a salvação da alma é muito melhor ir a um destes humildes, que possuem uma consciência reta e santa, do que àquele erudito orgulhoso que fez por seus estudos o percurso da ciência. Este só pode dar o que possui. Por isso, muitas vezes, em razão de sua vida nas trevas, é apenas em trevas que ele distribuirá a luz da S. Escritura, ao passo que os meus servos espalham a luz que possuem em si mesmos, desejosos e como que inflamados da salvação das almas.

Com efeito, a fé viva pressupõe e gera o amor:

Com esta luz, amam-me, porque o amor segue a inteligência. Quanto mais se conhece, mais se ama, e quanto mais se ama, mais se conhece. Assim, amor e conhecimento se alimentam reciprocamente [17].

Esta doutrina está de acordo com a de S. Tomás de Aquino sob todos os aspectos: a mais elevada das nossas faculdades é a inteligência, a qual dirige a vontade; e a caridade é a mais elevada das virtudes, a qual é princípio de todo mérito.

O espírito de fé e a contemplação dos mistérios de Cristo

No justo que é cada vez mais dócil ao Espírito Santo a fé torna-se progressivamente penetrante; ele compreende cada vez melhor a realidade divina sob as figuras e revela-nos sempre mais a grandeza do mistério do Cristo redentor, cujo sacrifício se perpetua até o fim dos tempos pela consagração eucarística. 

“Estigmatização de Santa Catarina”, por Eduardo Rosales Gallinas.

Ademais, o justo vê segundo o espírito de fé. O espírito ou a mentalidade de alguém é a sua maneira de ver, julgar, simpatizar, querer e agir. Há um espírito “de natureza”, que não se eleva acima do egoísmo mais ou menos consciente de si mesmo. O espírito de fé, ao contrário, leva-nos a considerar todas as coisas à luz da Revelação divina: Deus, antes de tudo; todos os mistérios da salvação; a nossa alma; o próximo; e os acontecimentos agradáveis ou dolorosos que acontecem.

Em S. Catarina de Sena, a fé é de tal modo viva que, assim como vemos as cores de uma paisagem à luz do Sol, ela parece ver o Cristo na hóstia consagrada e ativo nas almas. A santa julga a saúde espiritual das almas regeneradas pelo Sangue de Cristo como nós julgamos a saúde do corpo. Ela vê nas almas as feridas espirituais, o orgulho, a concupiscência da carne e dos olhos, da mesma maneira que vemos as feridas purulentas de um corpo devorado pela doença.

A Jesus Cristo, o Salvador, cuja obra redentora perdura até o fim dos séculos, a santa não O perde de vista nem por um instante. Ela tem do Salvador uma ideia não somente visível, mas também profundamente vivida. Trata-se da vida íntima da fé, e não somente da adesão obrigatória a uma fórmula revelada. Disse-lhe o Pai celeste:

Por causa da união entre a natureza divina e a natureza humana em meu Filho unigênito, aceitei o sacrifício de seu Sangue […]; o fogo da divina caridade foi o vínculo que O atou e pregou na cruz [18].

Jesus — disse ela — é o grande Médico, que curou o enfermo bebendo o remédio amargo que o homem não poderia beber, já que estava muito enfraquecido [19].

Ele é o Médico da humanidade, que acompanha todas as gerações humanas, a fim de conduzi-las à salvação. Além disso, nutre-as de si mesmo para dar-lhes a vida. 

Realmente presente na Eucaristia, Ele continua a oferecer-se e não cessa de interceder por nós. Ele é como a ponte [20], disse-nos a santa, ou o imenso arco que une a terra ao céu, a via pela qual todos os homens devem passar para alcançar a vida eterna.

À luz de sua fé vivíssima e dos dons do Espírito Santo, S. Catarina penetra admiravelmente os sentimentos mais íntimos de Nosso Senhor, e mostra-nos como Ele, do alto da cruz, entregou-se inteiramente à dor, sem perder contudo a suprema bem-aventurança na parte mais elevada da sua santa alma:

Sobre a cruz, Ele estava ao mesmo tempo feliz e sofredor: sofria por carregar a cruz material e a cruz do desejo da salvação das almas […], mas estava também feliz, porque a natureza divina unida à natureza humana estava impassível e fazia sempre feliz sua alma, revelando-se-lhe ela sem véu [21].

Do mesmo modo, disse a santa, os amigos íntimos do Senhor Jesus sofrem à vista do pecado, que ofende a Deus e devasta as almas, mas ao mesmo tempo estão felizes, pois o júbilo da caridade que possuem não lhes pode ser tirado, e é ela que faz sua alegria e felicidade.

“Santa Catarina de Sena”, por Alessandro Franchi.

A fé de S. Catarina de Sena penetra também, cada vez mais, a vida íntima da Igreja, Corpo místico do Salvador. Ela vê como Ele comunica a vida às almas que, por assim dizer, incorpora a si mesmo, fazendo-as participar primeiro de sua infância, depois de sua vida escondida e, por fim, de sua vida dolorosa, antes de fazê-los participar de sua vida gloriosa no céu.

A virgem de Sena vê como a Igreja, vivendo assim dos pensamentos, do amor, da vontade do Cristo, é sua verdadeira esposa. É na Igreja que, em certo sentido, continuam a grande oração e o sofrimento redentor do Salvador, até o fim do mundo. Como um rio espiritual, a vida sobrenatural da graça, por meio da humanidade de Jesus, desce de Deus sobre todas as almas, para subir novamente a Ele sob a forma de adoração, de reparação, de súplica e de ação de graças. “O Precioso Sangue, deste modo, opera sempre para a salvação” [22].

A Igreja aparece a S. Catarina de Sena sob a figura de uma virgem de traços nobres, de olhos muito puros, mas cuja face está corroída pela lepra, devido às faltas de muitos pobres cristãos [23]. “Vê, minha filha — disse-lhe o Senhor —, como as faltas desfiguram a face da minha esposa” [24]. Apesar da lepra, a Santa Igreja continua muito unida a Cristo e sempre vivificada por Ele, compreende-o Catarina [25]. As faltas, simbolizadas desse modo, “não podem debilitar ou dividir o mistério do sacramento da Eucaristia” [26]. O tesouro do Precioso Sangue está intacto, mas as faltas precisam ser reparadas.

E S. Catarina ouve também as seguintes palavras:

Pega teu suor, tuas lágrimas, coloca-os na fonte da minha divina caridade e, com eles, em união com meus outros servos, lava a face da minha esposa. Eu te prometo que este remédio lhe restituirá a beleza. Não é a espada nem a guerra que a podem restituir, mas, sim, a oração humilde e assídua, os suores e as lágrimas derramados com um desejo ardente, que vêm dos meus servos. Sem cessar, faz subir até mim o incenso de orações perfumadas para a salvação das almas, porque Eu vou fazer misericórdia para o mundo.

Não tenhais medo: se o mundo vos perseguir, eu estarei ao vosso lado e em nenhum momento vos faltará minha Providência [27].

De fato, essa é a grande fé viva iluminada pelos dons do Espírito Santo, a qual desabrochou nessa contemplação dos mistérios do Cristo e da Igreja [28].

Por fim, a fé de S. Catarina de Sena desabrochou na contemplação do Mistério supremo:

Ó Trindade eterna! Ó divindade, ó natureza divina que concedeu um tal preço ao Sangue de vosso Filho! Vós, Trindade eterna, sois um mar profundíssimo no qual eu mergulho; e quanto mais vos encontro, mais ainda vos procuro. De vós não se pode dizer jamais: é o suficiente! A alma que se sacia em vossa profundeza vos deseja sem cessar, pois está sempre mais faminta de vós [29].

E a definição de felicidade dada por S. Agostinho diz o seguinte: o estado de alma ao mesmo tempo satisfeita e sempre faminta.

Essa elevação à Santíssima Trindade é concluída com um cântico sobre a grandeza da fé:

Pela luz da fé, possuo a sabedoria, na sabedoria do Verbo, vosso Filho. Pela luz da fé, sou forte, constante e perseverante. Pela luz da fé, eu espero e não me desfaleço no caminho […]. Revesti-me, Verdade eterna, revesti-me de vós mesmo, para que eu viva esta vida mortal na verdadeira obediência e na luz da santíssima fé, da qual inebriais novamente minha alma [30].

Com estas palavras, Santa Catarina termina o livro, no ano do Senhor de 1378.

Conclusão

Fica claro, portanto, como seria errado afirmar que as ideias e julgamentos dos místicos cristãos são apenas um reflexo de emoções ou dos movimentos da sensibilidade. Pois sua inteligência se nutre, em primeiro lugar, da verdade divina revelada: trata-se da fé divina, e não de uma emoção que domina sua vida. E é porque sua inteligência se fixa na verdade de Deus que sua vontade é profundamente retificada e fortificada e sua ação é fecunda, não somente por um tempo ou pelas gerações seguintes, mas pela eternidade. Esta fecundidade é uma das grandes diferenças que separam a mística cristã da mística oriental que se encontra, por exemplo, no budismo. O pensamento e o amor dos místicos cristãos vêm de Deus, razão por que eles podem elevar-se até Ele.

Peçamos, também nós, por intercessão de S. Catarina, o grande espírito de fé que nos fará considerar, à luz da revelação divina, a Deus; a sua vida íntima; a humanidade do Salvador; a Igreja; a nossa alma, que deve ser salva; o nosso próximo, que deve ser socorrido; e os acontecimentos agradáveis ou dolorosos que ocorrem durante nossa viagem rumo à eternidade. Dessa fé viva resultará em nós um duplo conhecimento: o da nossa indigência e miséria e o da infinita grandeza e bondade de Deus. Ambos, disse a santa, são como o ponto mais baixo e o ponto mais alto de um círculo que crescerá sempre: “Eu sou Aquele que é; tu és aquela que não é” [31].

Referências

  • Pe. Reginald Garrigou-Lagrange. La foi selon Sainte Catherine de Sienne, in Vie Spirituelle 45 (1935), pp. 236-249. (Tradução e grifos de nossa equipe.)

Notas

  1. S. Catarina de Sena tinha então trinta e dois anos. Lembre-se que ela havia recebido a graça do matrimônio espiritual ou união transformante aos vinte anos. Cf. sua Vida, escrita pelo Beato Raimundo de Cápua, 1.ª Parte, cc. IX e XII. 
  2. Este era ainda o modo de ver de M. Henri Bergson em Las deux sources de la morale et de la religion; mas parece que ele progrediu depois disso.
  3. Diálogo, c. 29.
  4. Essa definição se articula por referência à ação, à inclinação para o fim último, mas está fundamentada sobre a verdade revelada. Trata-se de um “pragmatismo” superior que, no fundo, ironiza o pragmatismo.
  5. Diálogo, c. 45.
  6. S. Tomás fala exatamente o mesmo em In III Sent., d. 24, a. 2 e 3.
  7. Diálogo, c. 46.
  8. Id., c. 45.
  9. Fides est sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium”.
  10. Id., c. 46.
  11. Diálogo, c. 110. A fé sem a caridade compara-se com o pavio de um círio molhado, que não acende mais.
  12. Diálogo, c. 46.
  13. Um dos mais tristes efeitos desse obscurecimento é não entender a preciosidade da fé. Neste estado de morte espiritual, a fé não se apropria mais de si mesma. É, portanto, uma grandíssima misericórdia que Deus concede à alma deixar que, não obstante seu pecado, permaneça nela a fé infusa, mas informe. Esta fé obnubilada, cercada como que por uma densa névoa, não é a cegueira absoluta em que se pode cair por um pecado mortal contra a luz. A esse respeito, é verdade que o Senhor pode restituir a fé infusa que havia antes da morte àquele que a perdeu; trata-se, porém, de uma graça de imensa misericórdia, e não se pode ter por certo obtê-la. Ao pensar nesta graça, o pecador que ainda não a perdeu deve refletir sobre o valor sobrenatural do dom que ainda conserva em si, como a raiz de uma árvore cortada, e tudo fazer para reencontrar a fé viva, a única que nos conduz efetivamente à união divina.
  14. Diálogo, c. 99.
  15. Id., ibid. 
  16. Id., c. 100.
  17. Id., c. 85.
  18. Id., c. 85.
  19. Id., ibid.
  20. Id., c. 127.
  21. Id., c. 78.
  22. Id., c. 14.
  23. Id., c. 86.
  24. Id., c. 14.
  25. Id., c. 12.
  26. Id., c. 118.
  27. Id., c. 86.
  28. Sem dúvida, toda essa realidade era incomparavelmente mais viva na alma de S. Catarina do que no livro do Diálogo; este livro, contudo, revive à medida que nossa fé se eleva e se torna mais penetrante. Quando S. Ângela de Foligno, depois de ter ditado o que ela via na contemplação, relia o que estava escrito, não mais o reconhecia, por assim dizer; as palavras lhe pareciam sem vida, em comparação com o que ela tinha vivido interiormente. S. Catarina de Sena devia ter a mesma impressão ao reler o diálogo que ditara em êxtase.
  29. Diálogo, c. 167.
  30. Id., ibid.
  31. Id., cc. 4 e 72.

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Sagrado Coração: nosso refúgio contra Satanás
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nosso refúgio contra Satanás

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Durante as mais terríveis tentações e ataques diabólicos, o Sagrado Coração de Jesus é um refúgio seguro. Eis aqui sete formas através das quais essa devoção pode nos proteger do pecado e do mal.

Kathleen BeckmanTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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“A devoção ao Sagrado Coração de Jesus não é uma devoção nossa. É de Deus. É a devoção de Deus por nós”, escreve o Pe. James Kubicki, SJ, em seu livro A Heart on Fire [“Um Coração em Chamas”, sem tradução para o português]. Ele também nos lembra que a devoção ao Sagrado Coração não começou no século XVII com as revelações a Santa Margarida Maria Alacoque, uma religiosa visitandina — mas começou “antes do tempo, no Coração eterno de Deus”. Essa verdade ajuda-nos a alcançar a feliz redescoberta do amor perfeito de Deus por nós. Deus não precisa receber nosso amor de volta, mas, no mistério da misericórdia divina, Ele deseja nosso amor recíproco. Deus deseja uma comunhão amorosa e duradoura conosco. Embora nossos corações sejam frequentemente instáveis, esquecidos e temerosos, seu coração está voltado atentamente para nós.

Na cultura atual, tão carente de amor, nosso conceito de amor é facilmente distorcido, disperso e destruído. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus é uma provisão poderosa contra a destruição do amor autêntico. Cristo está presente, vivo e atuante, e o seu Sagrado Coração entoa uma canção de amor que é exclusivamente pessoal.

O diabo, nosso velho inimigo (cf. Ef 6, 11-13; 2, 1-7, Zc 3, 1-2; 1Ts 2, 18; Ap 12, 10), trama metodicamente a destruição esmagadora do amor autêntico a Deus e ao próximo. A tentação diabólica busca a distorção da imagem de Deus, a dispersão do nosso objetivo eterno e a destruição do amor. Quando a alma experimenta a ausência de amor autêntico, ela prontamente sucumbe à sedução de tentações diabólicas. No ministério da Igreja de libertação e exorcismo, vemos isso com frequência. Um coração em chamas que, com e por amor divino, repele os demônios.

O Catecismo da Igreja (n. 385) aborda a realidade do mal e nossa necessidade de “fixar os olhos da fé naquele que é o seu único Vencedor”:

Deus é infinitamente bom e todas as suas obras são boas. Todavia, ninguém escapa à experiência do sofrimento, dos males existentes na natureza — que aparecem ligados às limitações próprias das criaturas — e, sobretudo, à questão do mal moral. De onde vem o mal? “Eu perguntava de onde vem o mal e não encontrava saída”, diz Santo Agostinho, e sua própria busca sofrida não encontrará saída, a não ser na conversão ao Deus vivo. Pois “o mistério da iniquidade” (2Ts 2, 7) só se explica à luz do “mistério da piedade”. A revelação do amor divino em Cristo manifestou ao mesmo tempo a extensão do mal e a superabundância da graça. Precisamos, pois, abordar a questão da origem do mal fixando o olhar de nossa fé naquele que é o seu único Vencedor.

Quando fixamos nossos olhos e coração no Sagrado Coração de Jesus, percebemos que o coração de Deus é amoroso, onipotente, onisciente e protetor das criaturas amadas. O Sagrado Coração queima com um poder incompreensível para criar o bem e destruir o mal. Nosso foco é sempre o coração eucarístico de Deus, não a obra do diabo. Embora percebamos a batalha espiritual ao nosso redor e sejamos capazes de discernir bem os espíritos, interna e externamente, nossos corações devem comungar com o Sagrado Coração. Durante as terríveis tentações e os piores ataques diabólicos, o Sagrado Coração é um refúgio. Sobretudo na adoração, podemos olhar, rezar, dialogar, revigorar, discernir e ser preenchidos com o combustível da graça, para resistir ao diabo e proclamar a vitória de Cristo.

Proponho a seguir sete formas através das quais a devoção ao Sagrado Coração pode nos proteger do pecado e do mal.

1. Sagrado Coração: Encarnado. — A guerra eclodiu no Céu com a revelação do plano de Deus para a Encarnação do Verbo.

Detalhe da “Queda dos Anjos Rebeldes”, por Luca Giordano.

A rebelião de um terço dos seres angélicos (agora chamados demônios) ocorreu porque eles não aceitariam que o Filho de Deus se tornasse “carne” na forma humilde de uma criatura nascida de uma mulher. A devoção ao Sagrado Coração cultiva o amor encarnado. Honrar o Coração humano de Jesus Cristo, amar o Coração vivo do Verbo encarnado, capacita-nos a imitá-lo no amor ao Pai, a nós mesmos e aos outros. Isso frustra o plano do diabo de nos afastar de nosso Criador com dúvidas de que Deus é impessoal e desinteressado. Nosso coração, unido ao Coração de Cristo, torna-se uma fortaleza impenetrável. E os demônios até podem cercar a fortaleza, mas não podem entrar nela.

2. Sagrado Coração: Eucarístico. — Entramos no drama épico da maior história de amor de todos os tempos através da comunhão com Jesus na Eucaristia. Como os discípulos no caminho de Emaús, reconhecemos Jesus ao partir o pão. Reacender o “espanto” eucarístico é um termo que o Papa João Paulo II usou em sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia. Este espanto do coração humano acende o fogo do amor divino dentro de nós. Os demônios desprezam o Anfitrião humilde. De acordo com os santos, os demônios temem os discípulos que vivem uma vida eucarística intencional. O Sagrado Coração é o vaso de onde flui o precioso Sangue que salva vidas. O diabo trabalha incansavelmente para nos manter longe da Sagrada Comunhão. Para consternação dos demônios, que vivem amaldiçoando, a vida eucarística forma uma vestimenta de louvor que abençoa.

3. Sagrado Coração: Revelação. — Jesus Cristo encarnado revela o rosto e o coração de nosso Pai celestial. Precisamos desesperadamente dessa revelação da verdade para saber quem somos: filhos de Deus. Quando aceitamos a revelação de Jesus Cristo, conhecemos nossa dignidade e destino. Isso nos fundamenta na verdade para que, quando o Mentiroso, o Enganador e o Ladrão nos atacar, permaneçamos firmes na revelação da misericórdia de Deus. A devoção ao Sagrado Coração nos ajuda a lembrar a Revelação: o Evangelho do amor. O diabo planeja metodicamente como nos dispersar da Revelação e de sua relevância. Quando o diabo nos tenta para que duvidemos da existência de Deus, ou insinua que Ele é mau ou perverso, podemos voar para a proteção do Sagrado Coração, recordando a revelação do amor divino. Saber quem Deus diz que eu sou me fortalece para resistir às mentiras do diabo.

4. Sagrado Coração: Palavra. — O Papa Bento XVI nos recordou: “Nunca devemos esquecer que toda espiritualidade cristã autêntica e viva se baseia na Palavra de Deus proclamada, aceita, celebrada e meditada na Igreja” (Verbum Domini, n. 121). Desde o início, a Palavra é amor. A criação da humanidade é deliberadamente orquestrada para atrair todas as coisas a Deus, no qual está a satisfação de todos os desejos. Nas Escrituras, lemos sobre a vida de Cristo na terra; seus muitos encontros humanos onde o amor se manifestou. Seu Coração é tocado, Ele chora, cura, serve, dorme, come, reza — Ele entende homens e mulheres. Isso vai contra o demônio, que procura extinguir de nossa consciência a dignidade que nos foi dada por Deus. A Palavra tem um coração de amor infinito, voltado para você e para mim. O diabo odeia essa realidade porque ele vive na solidão e alheio ao amor.

5. Sagrado Coração: Altar de sacrifício. — O Sagrado Coração é um coração para os outros. O Pe. Simon Tugwell, OP, ensina: “A liturgia fielmente celebrada deve ser um itinerário de longo prazo na expansão do coração; torna-nos cada vez mais capazes da totalidade do amor que há no Coração de Cristo”. O sacrifício perfeito do amor de Cristo é perpetuado no altar. Essa é também a proclamação de sua vitória sobre o mal. O diabo, orgulho em pessoa, é desfeito pela humildade de Cristo no altar do sacrifício. Ame sacrifícios; Ele deu sua própria vida. O Sagrado Coração irradia amor que se dirige ao outro: os pobres, esquecidos, doentes e enlutados. Seu Coração morre e ressuscita por nossa causa. Orgulhosos e rancorosos, os demônios invejam o poder de Cristo para salvar por meio do amor sacrificial. Sempre que amamos com sacrifício, nossa armadura espiritual é fortalecida.

6. Sagrado Coração: Reparação. — “A verdadeira devoção ao Sagrado Coração depende de uma compreensão adequada da reparação, um antigo termo teológico que remete à correção, expiação, salvação e redenção”, explica o Pe. Kubicki. Em seu livro Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, Bento XVI escreveu: “Deus não pode pura e simplesmente ignorar toda a desobediência dos homens, todo o mal da história, não pode tratá-lo como algo irrelevante e insignificante. Uma tal espécie de ‘misericórdia’, de ‘perdão incondicionado’, seria aquela ‘graça a baixo preço’ contra a qual se pronunciou com razão Dietrich Bonhoeffer, diante do abismo do mal do seu tempo”. Cristo pagou a dívida dos pecadores. Mas o pecado continua. Nós, que cremos, podemos nos unir à reparação de Cristo e oferecer nossos sofrimentos e sacrifícios para ajudar a reparar. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus nos ajuda a entrar no amor reparador de Cristo. Assim, marcamos território, subtraindo do diabo as tantas almas que ele levaria para o abismo.

7. Sagrado Coração: união com o Imaculado Coração. — A Igreja celebra a festa do Sagrado Coração na sexta-feira e a festa do Imaculado Coração no sábado para nos recordar a unidade que há entre elas. Jesus Cristo e sua Mãe Maria estão unidos na vontade do Pai e não podem ser separados. A devoção e a consagração ao Sagrado Coração de Jesus complementam espiritualmente a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Essa união sagrada constitui uma fonte de proteção contra os espíritos malignos. Entre o Sagrado Coração Eucarístico e o Coração virginal e Imaculado, há um espaço reservado para você e para mim, onde nenhum espírito maligno ousa entrar. Permaneçamos sob a proteção amorosa dessa união entre o Sagrado e o Imaculado Coração, onde estamos seguros enquanto caminhamos no vale da morte e do mal.

Essa devoção traz muitos frutos espirituais porque, como escreveu o Papa Bento XVI: “Nosso Deus não é um Deus remoto intangível em sua bem-aventurança. Nosso Deus tem um coração”. E o seu coração? A quem ele pertence?

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Junho, o mês dos irmãos
Santos & Mártires

Junho, o mês dos irmãos

Junho, o mês dos irmãos

“Esta é a verdadeira fraternidade: pela efusão do próprio sangue eles seguiram a Cristo”. Junho pode ser considerado “o mês dos irmãos”, pois nele encontramos um quarteto de mártires fraternos que conquistaram juntos a vida eterna.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Um dos mais belos aspectos da liturgia romana tradicional é o rico calendário de santos que ela nos põe diante dos olhos, ano após ano. 

O calendário do moderno rito papal de Paulo VI, de 1969, removeu mais de 300 santos; ao mesmo tempo, reorientou a celebração da primeira parte da Missa em uma marcha mais regimentada através da Escritura, tornando opcional o uso dos “próprios” que se referiam aos santos. O resultado é uma liturgia que parece muito mais distante e separada do culto aos santos e de seus traços particulares, sem qualquer compensação de nos sentirmos mais próximos e ligados à adoração de Cristo, que é o Rei deles. 

Num paradoxo formidável, a intensa veneração que os santos recebem na Missa em latim — especialmente Nossa Senhora, mencionada dez ou onze vezes, em comparação com as menções no rito de Paulo VI, que vão de uma a quatro — realça de alguma forma a dignidade sublime do Filho de Deus, cuja face os santos contemplam e do qual todos eles são imagem, como heliotrópios seguindo o curso do Sol. O culto aos santos, longe de diminuir o senhorio de Cristo, manifesta antes o seu poder e extensão. Ele é muito maior quando vemos a grandeza da corte que o circunda

Há então, de tempos em tempos, “agrupamentos” especiais dentro da grande companhia dos santos, que encontramos organizados no calendário tradicional pelas misteriosas disposições da divina Providência. Um exemplo é o que eu gosto de chamar “o mês dos irmãos”, junho, onde encontramos um quarteto de irmãos de sangue que conquistaram juntos a vida eterna

Em 9 de junho, celebramos as festas dos santos Primo e Feliciano, assim descritos no Martirológio Romano

Em Nomento, na Sabina, o natalício dos santos Mártires Primo e Feliciano, irmãos, em tempo dos Imperadores Diocleciano e Maximiano. Estes gloriosos Mártires, já avançados em anos passados no serviço do Senhor, depois de suportarem, ora juntos, tormentos iguais e comuns, ora separados um do outro, tormentos diversos e esquisitos, finalmente mortos ambos à espada, por ordem de Promoto, Presidente de Nomento, consumaram o curso de sua feliz peleja; os seus corpos transladados mais tarde para Roma, foram colocados honorificamente na Igreja de santo Estêvão Protomártir, no Monte Célio.

Em 18 de junho, a festa de Santo Efrém, o Sírio, acompanha a comemoração dos santos Marcos e Marceliano, sobre os quais diz o mesmo Martirológio

Em Roma, na estrada Ardeatina, o natalício dos santos Mártires Marcos e Marceliano, irmãos, aos quais, presos e atados a um tronco, por ordem do juiz Fabiano, foram fincados nos pés agudos pregos; mas como não cessassem de louvar a Cristo, foram traspassados com lanças pelos lados, e com a glória do martírio, passaram aos reinos celestiais. 

Se for rezada a Missa para esses irmãos — embora o mais usual seja dizer a Missa de Santo Efrém, que foi adicionada ao calendário mais tarde —, este texto especial de Alleluia é recitado ou cantado: Allelúia, allelúia. Haec est vera fratérnitas, quae numquam pótuit violári certámine: qui, effúso sánguine, secúti sunt Dóminum. Allelúia, “Aleluia, aleluia. Esta é a verdadeira fraternidade, que a espada jamais pôde violar: foi pela efusão do próprio sangue que eles seguiram a Cristo. Aleluia”.

Em 19 de junho, festa de Santa Juliana Falconieri, comemoram-se os santos Gervásio e Protásio: 

Em Milão, os santos Mártires Gervásio e Protásio, irmãos, ao primeiro dos quais tanto tempo o Juiz Astásio mandou açoitar com látegos chumbados, que exalou o último suspiro; ao segundo, depois de espancá-lo com paus, mandou cortar a cabeça. Os corpos destes santos foram encontrados por santo Ambrósio, por divina revelação, banhados no próprio sangue e tão incorruptos como se tivessem sido mortos no mesmo dia; em cuja transladação, um cego, tocando o féretro, recobrou a vista, e muitos, vexados dos demônios, ficaram livres.

Por fim, cai no dia 26 de junho a memória dos santos João e Paulo, aos quais a devoção em Roma era tão forte, que seus nomes se acham no Cânon Romano. O Martirológio nos dá a respeito deles este breve relato: 

Em Roma, no monte Célio, os santos Mártires João e Paulo, irmãos, o primeiro dos quais era mordomo-mor e o segundo primicério de Constância Virgem, filha do Imperador Constantino, e ambos mais tarde, em tempo de Juliano Apóstata, foram mortos à espada e receberam a palma do martírio.

De modo notável, a Coleta desta última festa define uma nova forma de “fraternidade de sangue” que é alcançada pela fé em Cristo, o qual derramou o seu sangue por nós, e pelo derramamento do próprio sangue por Ele: 

Quáesumus, omnípotens Deus: ut nos gemináta laetítia hodiérnae festivitátis excípiat, quae de beatórum Joánnis et Pauli glorificatióne procédit; quos éadem fides et pássio vere fecit esse germános. Per Dóminum nostrum..., “Nós vos pedimos, ó Deus onipotente, que neste dia de festa sintamos a dupla alegria do triunfo dos bem-aventurados Paulo e João, os quais irmanou de verdade a mesma fé e martírio. Por Nosso Senhor Jesus Cristo…”.
“Martírio dos Santos João e Paulo”, de Guercino.

O Gradual da Missa é tomada do Salmo 132: Ecce quam bonum, et quam iucúndum, habitáre fratres in unum, “Vede como é belo e agradável a vida harmoniosa entre irmãos”, e o Alleluia repete o de 9 de junho, em continuidade e complemento à ideia da Coleta: Allelúia, allelúia. Haec est vera fratérnitas, quae vicit mundi crímina: Christum secúta est, ínclyta tenens regna caeléstia. Allelúia, “Esta é a fraternidade verdadeira, que venceu o mundo, seguiu a Cristo e reina agora venturosa na glória do paraíso. Aleluia”.

Uma ironia final deve ser mencionada: muitos dos santos removidos por Paulo VI são santos que nós, católicos romanos, veneramos em comum com os cristãos ortodoxos do Oriente. É o caso de três desses pares de irmãos juninos: Marcos e Marceliano (cuja festa no calendário oriental é em 18 de dezembro), Gervásio e Protásio (celebrados pelo Oriente em 14 de outubro) e João e Paulo (observados no mesmo dia). Um dos mais danosos legados da reforma litúrgica foi, por um lado, o enxerto de elementos “bizantinizantes” estranhos no rito romano e, por outro, o expurgo de elementos genuinamente comuns que sempre estiveram presentes — um golpe tanto contra a fidelidade ao tipo quanto contra a fraternidade eclesiástica.

Haec est vera fraternitas: essa é a verdadeira fraternidade que une os mártires, que une todos os cristãos nos vínculos da fé e do sofrimento, onde quer que eles estejam, seja qual for seu status ou estado de vida. Em uma inversão da lógica do mundo, segundo a qual o sangue é mais espesso do que a água, a religião cristã nos mostra que a água é mais espessa que o sangue: a irmandade espiritual inaugurada pelo Batismo nos une mais profunda e eternamente que os laços da geração biológica e da cultura familiar. Na verdade, é precisamente o Batismo cristão de ambos os cônjuges que faz o seu amor humano natural e o seu ato de geração serem elevados ao nível da caridade e da fecundidade sobrenaturais no sacramento do Matrimônio, e é esse mesmo Batismo, vivido, que torna a família uma imagem da vida que têm em comum os santos no Céu.

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A obra-prima do Artista divino
Espiritualidade

A obra-prima do Artista divino

A obra-prima do Artista divino

Ao contrário dos escultores humanos, Deus não trabalha com matéria morta. Não somos um bloco de mármore ou uma massa de argila sem vida. O divino Artista nos deu a liberdade de corresponder (ou não) aos golpes de seu cinzel e ao suave toque de seus dedos.

Elizabeth A. MitchellTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Junho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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Dizem que Michelangelo era capaz de ver as figuras que ele esculpia através dos rudes blocos de mármore. Seu trabalho como escultor consistia em libertar a obra de arte da pedra e fazer a imagem vir à tona. Em correspondência praticamente perfeita com o arquétipo na mente de Michelangelo, sua imagem de Nossa Senhora da Piedade (a Pietà), dolente, silenciosa e amorosamente abandonada à Paixão de Nosso Senhor, irradia o poder de uma obra-prima.

O mesmo se dá com as imagens vivas trabalhadas pelo Artista divino.

O Senhor vê através de cada um de nós sua própria esperança pelo cumprimento perfeito de tudo o que Ele nos criou para ser. Para cada ser humano, há um arquétipo divino dentro do coração de Deus. Nós nos tornamos, em maior ou menor medida, a pessoa que Ele nos chamou a ser, e quando correspondemos mais de perto a seu perfeito ideal para nossas vidas, também nos tornamos uma obra de arte.

E há, todavia, uma diferença. Deus, o divino Artesão, não trabalha com matéria inanimada. Não somos um bloco de mármore ou uma massa de argila sem vida. Nosso Senhor infundiu em nós o seu Espírito Santo, deu-nos a liberdade de corresponder (ou não) a seus golpes artísticos. O gênio amoroso de nosso divino Artesão é que Ele trabalha com matéria viva, que respira e possui livre-arbítrio.

Santa Edith Stein trata desta colaboração entre o Artista divino e sua obra de arte viva no poema espiritual I Am Always in Your Midst [“Eu estou sempre em vosso meio”]:

O eterno Artesão… não mexe com matéria morta;
Na verdade, a sua maior alegria criativa é
Que, debaixo de sua mão, a imagem mexe,
Que a vida, para encontrá-lo, se derrama.
A vida que ele próprio colocou dentro dela
E que agora desde dentro lhe responde
Aos golpes de cinzel ou ao suave toque do dedo.
Assim ajudamos Deus em sua obra de arte [1].

“Aos golpes de cinzel ou ao suave toque do dedo”. Nós sabemos os momentos em que o Mestre Artesão nos molda com seu martelo. Já sentimos a natureza dura e contundente dos golpes. Quantas vezes não nos desviamos para evitar sua mira precisa e perfeita! E, então, o seu dedo acaricia. O fino acabamento é acrescentado imperceptivelmente com o menor e mais suave de seus pincéis.

O resultado desta colaboração é o esplendor da alma humana trazida para perto da beleza divina por meio da graça, imagens vivas que declaram o divino Amor ao qual corresponderam, ultrapassando até mesmo as mais impressionantes obras de arte materiais. E nós todos reconhecemos uma tal obra-prima, quando a encontramos.

As imagens vivas que encontrou ao longo de sua conversão chamaram Santa Edith Stein a refletir sobre a origem delas. Em Frankfurt, enquanto pretendia visitar os museus e a catedral, ela se viu paralisada diante de uma mulher que havia simplesmente se ajoelhado para rezar: 

Nós paramos na catedral por alguns minutos e, enquanto olhávamos ao redor com respeitoso silêncio, uma mulher carregando uma cesta de mercado apareceu e se ajoelhou em um dos bancos para rezar rapidamente. Aquilo foi algo inteiramente novo para mim… Jamais pude esquecer isso.

Essa modesta mulher não ficaria sabendo jamais do impacto profundo que seu ato de fé diário teria sobre uma grande mente filosófica à procura da verdade. Não foi um argumento teológico que convenceu Edith Stein da pessoa de Cristo, mas a conversa que ela testemunhou entre uma dona de casa e o seu Senhor.

Antes de entrar na vida religiosa, Edith Stein; antes de entrar na vida definitiva, Santa Teresa Benedita da Cruz.

Mais tarde, a própria Edith Stein se tornaria uma imagem viva, em sua disposição de sofrer o martírio no campo de concentração em Auschwitz. Durante suas horas finais, ela confortava as crianças cujas mães, perturbadas, não conseguiam lhes dar os cuidados convenientes. Conta-se, de fato, que em seus atos de amor e misericórdia ela parecia “uma Pietà viva”, ao carregar aquelas crianças sofridas nos braços, no lugar de Cristo. Com isso, ela dava testemunho pleno de sua fé no Senhor ao qual havia entregado a própria vida.

Nossa Senhora mesma, devotada tão profundamente ao Espírito Santo, viveu como uma obra-prima da Vontade Sacratíssima do Senhor em cada momento de sua vida. Seu Coração sempre foi um com o divino Coração. Sob o seu Imaculado Coração, o Coração divino tomou a carne de um coração humano. Assim, onde quer que estivesse Nossa Senhora, ali a vontade perfeita do Senhor para sua vida se fazia manifesta. Sua entrega fiel e de fé traz os nossos corações ao Coração de seu divino Filho, dispondo-nos a abraçar com total confiança o melhor e mais santo plano de Amor do Pai.

A força de uma tal obra-prima exige uma resposta à altura. Não podemos parar diante do vidro do museu, admirar a imagem e continuar nosso caminho. Precisamos ser mudados interiormente. Escreve Edith Stein: 

Dificilmente haverá um artista que, crendo, não tenha se sentido compelido a retratar Cristo na cruz ou carregando a cruz. Mas o Crucificado exige do artista mais que uma mera representação de sua imagem. Ele exige que o artista, assim como qualquer outra pessoa, o siga: que ele, ao mesmo tempo, se transforme e permita a si mesmo ser transformado numa imagem daquele que carrega a cruz e é crucificado.

Quando nós re-criamos dentro de nossas próprias vidas a verdade e a beleza que a imagem revelou, nós refletimos uma vez mais o majestoso esplendor da magnífica arte de Nosso Senhor. O próprio Cristo mostrou o caminho. Oferecendo a si mesmo aos golpes de martelo do guarda romano no monte Calvário, sua imolação se torna a nossa Redenção. A lança do centurião perfura-lhe o lado, do qual sangue e água jorram como sinal de purificação e da vida de seu Coração glorioso e trespassado, sempre pronto a acolher-nos.

Através dele nós vislumbramos o caminho perfeito. Com Ele, respondemos ao seu chamado, adorando, louvando e correspondendo à graça de sua Santa Cruz, a obra-prima de amor por meio da qual Ele redimiu o mundo.

Notas

  1. The eternal Artist… does not work on dead material; / His greatest creative joy in fact is / That under his hand the image stirs, / That life pours forth to meet him. / The life that he himself has placed within it / And that now answers him from within / To chisel blows or quiet finger stroke. / So we collaborate with God on his work of art. A tradução que fizemos foi feita a partir da versão inglesa do poema.

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Religiosa morta em sacrifício satânico é beatificada pela Igreja
Santos & Mártires

Religiosa morta em
sacrifício satânico é beatificada pela Igreja

Religiosa morta em sacrifício satânico é beatificada pela Igreja

Morta por ódio à fé, a religiosa italiana Maria Laura Mainetti teve seu martírio reconhecido pela Igreja. Ela foi vítima de “três meninas influenciadas por uma seita satânica”. As três haviam recebido aulas de catequese da irmã, quando mais novas.

Carol GlatzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Junho de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Uma religiosa brutalmente esfaqueada em um sacrifício satânico foi beatificada como mártir no dia 6 de junho, na cidade do norte da Itália na qual ela servia.

O Papa Francisco exaltou a beatificação da irmã Maria Laura Mainetti, 60 anos, membro da Congregação das Filhas da Cruz, depois de rezar o Angelus no mesmo dia com peregrinos reunidos na Praça de São Pedro:  

[Ela foi] assassinada há vinte e um anos por três meninas influenciadas por uma seita satânica. Que crueldade! Precisamente ela, que amava os jovens mais do que qualquer outra coisa, e que amou e perdoou aquelas mesmas meninas, prisioneiras do mal. A irmã Maria Laura deixa-nos o seu programa de vida: “Fazer cada pequena coisa com fé, amor e entusiasmo”.

A cerimônia de beatificação aconteceu em Chiavenna, na diocese de Como, onde a irmã serviu como professora, catequista e líder de sua comunidade religiosa.

A irmã Maria Laura Mainetti, agora beata.

O Cardeal Marcello Semeraro, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, presidiu a cerimônia de beatificação e a Missa. No altar havia um relicário contendo uma pedra manchada com o sangue da beata; o material foi encontrado no lugar de seu assassinato. 

O Cardeal disse que a religiosa pediu a Deus a graça da “verdadeira caridade”, que significa amar a Deus mais que a si mesmo e ao próximo como a si mesmo.

Nascida em 20 de agosto de 1939, perto de Milão, ela sentiu o chamado à vocação religiosa depois que um padre lhe disse: “Tu deves fazer algo de belo pelos outros”.

Ela começou a dar aulas em 1960, em escolas elementares cuidadas por sua congregação, em diferentes cidades da Itália. Dedicou sua vida a prestar auxílio a pessoas marginalizadas, como dependentes químicos, delinquentes juvenis, miseráveis e prostitutas.

As assassinas da irmã Maria Laura foram três garotas que tiveram aulas de catequese com ela quando mais novas. De acordo com o depoimento que deram ao tribunal, as adolescentes — uma com 16 e duas com 17 anos — queriam sacrificar uma pessoa religiosa a Satanás e escolheram a irmã, ao invés do pároco, por ela ser franzina e mais fácil de atacar.

As três haviam planejado esfaquear a religiosa seis vezes para indicar o número bíblico da Besta, em 6 de junho de 2000, o sexto dia do sexto mês do ano.

Quando a atacaram e capturaram, a religiosa rezou pelas garotas, pedindo a Deus que as perdoasse

As jovens mulheres foram condenadas por homicídio, mas receberam sentenças reduzidas pois o tribunal determinou a sua insanidade parcial à época do crime. Liberadas da prisão, elas receberam novas identidades, passando a viver em cidades diferentes da Itália.

Em junho de 2020, o Papa reconheceu o martírio da irmã Maria Laura Mainetti, por ela sua morte in odium fidei, isto é, “por ódio à fé”. Agora, a canonização da religiosa depende do reconhecimento de um milagre atribuído a sua intercessão.


[Comentário de nossa equipe: Por que “as adolescentes queriam sacrificar uma pessoa religiosa a Satanás”? Porque queriam ajuntar ao crime de homicídio um pecado de sacrilégio. Pode ser que, aos olhos da Justiça secular, essa distinção tenha pouca importância. Mas, para as pessoas envolvidas com o mundo das trevas, ela faz toda a diferença: é um fato que realmente aumenta a gravidade da falta cometida. 

É por essa mesma razão que o furto das espécies eucarísticas consagradas não é um roubo qualquer; que a ofensa feita a um sacerdote é mais grave que a feita a um simples leigo etc. O que é santo, ou o que foi separado para o culto a Deus, tem maior valor. E o que o demônio puder fazer para “manchar” a obra de Deus, profanando as coisas (ou, no caso, as pessoas) consagradas a Ele, ele fará, como se pode ver.

O que deixa os anjos maus sem dúvida ainda mais revoltados, é que até mesmo os atos pecaminosos que eles incitam, no entanto, terminam redundando na glória de Deus e dos seus santos. Foi justamente o caso desta religiosa, agora beatificada pela Igreja. A brutalidade de que ela foi vítima, o perdão que concedeu a seus algozes na hora da morte, o sacrifício que ela, em seu coração, ofereceu a Deus — enquanto suas assassinas pensavam estar favorecendo o reino de Satanás… Tudo não passou de instrumentos nas mãos da divina Providência.

Para saber mais a respeito da ação dos anjos bons e maus, não se esqueça do curso que Pe. Paulo Ricardo está preparando justamente sobre esse assunto: “Anjos e Demônios”.]

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