CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
A longa marcha de Hollywood para o brejo
Sociedade

A longa marcha
de Hollywood para o brejo

A longa marcha de Hollywood para o brejo

Apesar do histórico escandaloso de Hollywood, com casos de assédios, subornos, traições e até estupros, houve uma “época de ouro” do cinema em que os filmes brilhavam pela virtude. Tudo graças aos católicos da Legião da Decência.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Abril de 2020Tempo de leitura: 12 minutos
imprimir

Quando a atriz Maria Schneider saiu de casa para o estúdio, a fim de gravar uma cena do filme Último tango em Paris, de 1972, tudo indicava que seria só mais um dia comum... Mas não foi. Por trás das câmeras, o diretor Bernardo Bertolucci e o ator Marlon Brando haviam tramado algo terrível. Maria Schneider não faria apenas uma simulação de estupro, como previsto no roteiro, mas sofreria o crime propriamente dito. Insanidade, sem dúvida; mas, no vale tudo da arte, qualquer coisa seria possível. “Queria sua reação como menina, não como atriz”, alegou Bertolucci numa entrevista.

A atriz tinha apenas 19 anos na época, e nem por isso escapou da “experiência” de Brando, então com 48. Depois do episódio, ela nunca mais se recuperaria da violência, caindo nas drogas e inclusive tentando o suicídio. Veria ainda sua carreira declinar, enquanto Brando e Bertolucci ostentavam prêmios da Academia de cinema.

Maria Schneider morreu vítima de um câncer em 2011. História trágica, é verdade, mas tristemente compartilhada por tantas outras atrizes que, para sobreviverem em Hollywood, tiveram de ceder a humilhações parecidas. Recentemente, o ator Silvester Stallone confessou que embebedou a atriz Sharon Stone, sua companheira de set em O Especialista, de 1994, a fim de fazê-la gravar uma cena de sexo [1]. Denúncias graves também surgiram contra o diretor Harvey Weinstein, que acabou condenado a 23 anos de prisão por assédio e estupro.

Tudo uma grande vergonha para a indústria cinematográfica, cujo histórico de atrocidades não é de hoje e faria inveja a qualquer filme de terror. É sabido, por exemplo, que atrizes como Bette Davis e Joan Crawford, estrelas da década 1940, foram obrigadas a abortar para poderem cumprir seus contratos. Afinal de contas, “para conseguir algo é preciso ser completamente livre”, outra declaração insana de Bertolucci, que, todavia, define bem a mentalidade hollywoodiana. Ainda mais se milhões em bilheteria estiverem em jogo.

A bem da verdade, nada disso seria possível — ao menos não em grande escala — se não houvesse uma plateia embrutecida pelos vícios para aplaudir. Com a velha política do “pão e circo”, os cineastas não têm dúvida do que fazer para conquistar mentes desocupadas pela ignorância e gerar montanhas de dólares. Apesar de grotescos, filmes como Último tango em Paris foram aclamados pela crítica e ainda mais celebrados pelos espectadores. E a coisa só piorou de 1972 para cá, com indecências do tipo Cinquenta tons de cinza e Ninfomaníaca, verdadeiras lástimas, que nem todos os prêmios “Framboesas de Ouro” no mundo seriam capazes de expressar.

Na encíclica Vigilanti Cura, à qual voltaremos adiante, o Papa Pio XI fazia notar como a arte poderia ser rebaixada ao vil se levasse em conta apenas o interesse econômico; porque “enquanto a produção de figuras realmente artísticas, de cenas humanas e ao mesmo tempo virtuosas exige um esforço intelectual, trabalho, habilidade e também uma despesa grande” (n. 14), a baixaria não requer nada disso. Ao contrário, dizia o então Sumo Pontífice, “é relativamente fácil provocar certa categoria de pessoas e de classes sociais com representações que excitam as paixões e despertam os instintos inferiores, latentes no coração humano” (n. 14). E a história do cinema só mostra como o Papa estava certo.

A “época de ouro” e a Igreja Católica

As décadas de 1930 a 1960 são conhecidas como a “época de ouro” de Hollywood. Isso porque, nesse período, foram lançados grandes clássicos do cinema, que arrebataram o público não pela vulgaridade e o cinismo, mas pela beleza de uma arte realmente virtuosa, de alto nível e digna de todos os prêmios. É desse período filmes como Ben-Hur, O homem que não vendeu a sua alma, A canção de Bernadette e Os sinos de Santa Maria, todos vencedores do Oscar em uma ou mais categorias [2]. O que poucos sabem, porém, é que essa “época de ouro” esteve intimamente associada à Igreja Católica, que empreendeu uma “cruzada” para manter a sétima arte dentro dos trilhos da decência e da honestidade.

Jennifer Jones em “A canção de Bernadette”.

Nos primeiros anos da década de 1920, os filmes norte-americanos começaram a preocupar uma parcela da população por conta do excesso de bandidos, monstros e sensualidade em cena. Para enfrentar o problema, o sr. Martin Quigley, um leigo católico, e o padre jesuíta Daniel Lord se juntaram a outras lideranças de protestantes e judeus, com quem publicaram, em 1929, o Motion Picture Production Code, que proibia cenas de nudez, blasfêmias, danças indecentes, entre outras coisas, nos filmes. O código também previa a promoção de valores religiosos, o triunfo do bem sobre o mal e a punição para comportamentos imorais etc [3].

Os estúdios convenientemente aceitaram o código, a fim de fugirem da censura do governo, uma vez que o cinema não era protegido pela Primeira Emenda da Constituição Americana. Desse modo, as produções passaram a cultivar mais as virtudes e dar menos espaço a imoralidades... Até que veio a Grande Depressão, provocada pela quebra da bolsa de valores de Nova Iorque.

O cinema também foi afetado pela crise, vendo seus rendimentos cair vertiginosamente. Qual foi a solução dos estúdios? Isso mesmo, as produções voltaram a apelar para o grotesco, a violência e a perversão, com conteúdos cada vez mais ousados. Entre os gêneros mais polêmicos, chamavam a atenção os filmes policiais, sobretudo pela glamourização de bandidos que aludiam à figura de Al Capone, o mais famoso gângster da história dos Estados Unidos.

Era, sem dúvida, um meio eficaz e rápido de gerar lucro. Mas o lucro está para a imoralidade como o fogo está para o combustível. Portanto, a resposta da Igreja Católica não tardaria. Em 1933, alguns bispos americanos se reuniram e, com a ajuda de vários leigos, fundaram a Legião da Decência [4].

A princípio, a iniciativa foi vista com incredulidade, como podemos ler neste editorial da revista Time, de 1934: “Suas conferências anuais aprovaram resoluções. Seus clérigos defenderam leis de censura. Seus jornais protestaram. Mas nem com todo esse zelo a Igreja conseguiu fazer muita coisa”. O que parecia estar fadado ao fracasso, todavia, logo se converteu no instrumento mais poderoso de regulação do cinema.

A preocupação maior de Hollywood era com a ameaça de boicote. Todos os anos, no dia 8 de dezembro, solenidade da Imaculada Conceição, 20 milhões de católicos faziam um juramento durante a Missa de não assistirem aos filmes condenados pela Legião:

Eu condeno todos os filmes imorais e indecentes, como aqueles que glorificam o crime ou criminosos. Eu prometo fazer tudo que puder para fortalecer a opinião pública contra a produção de filmes imorais e indecentes e unir-me a todos aqueles que protestam por isso também. Eu reconheço minha obrigação de formar uma consciência reta acerca de filmes que são perigosos para a minha vida moral. E juro por mim mesmo manter-me longe deles (grifos nossos).

Os estúdios instituíram a Production Code Administration (PCA), pondo o jornalista católico Joseph Breen como seu diretor. E a dinâmica passou a ser mais ou menos esta: Breen recebia o roteiro dos filmes e, com base nas indicações da Legião da Decência, fazia os cortes e as sugestões. Havia uma classificação dos filmes segundo o código A, B e C. Uma produção recebia A, quando era livre de objeções, ou B, para filmes com objeções. C, obviamente, era dado a produções condenáveis. A Legião ainda publicava mensalmente uma revista com a classificação dos filmes. Era um trabalho de gigante.

Em 1944, o Oscar de melhor atriz foi da intérprete de S. Bernadette.

Tal pressão submeteu Hollywood à moral católica, de modo que todos os filmes, de 1934 a 1954, não saíam sem o selo da PCA. Os estúdios sabiam que não tinham a menor chance de emplacar de outro modo. Se é verdade que o resultado nem sempre foi o esperado, e que muitas das decisões de Joseph Breen podem ser questionadas, o fato é que a produção cinematográfica daqueles anos despontou pela qualidade e a valorização das virtudes, como reconhece o especialista em cinema Thomas Doherty, da Universidade Brandeis, em Massachusetts.

Contrariando os que haviam predito “que o valor artístico do cinema sofreria pelas exigências da ‘Legião da Decência’”, o que se deu, na verdade, foi justamente o oposto: “Esta Legião deu forte impulso aos esforços feitos para elevar cada vez mais o cinema à grande nobreza de nível artístico, impelindo-o à produção de obras clássicas e a criações originais de valor pouco comum”, frisou Pio XI na encíclica Vigilanti Cura (n. 12). O Papa ficou tão satisfeito com o trabalho que incentivou os bispos do mundo todo a adotarem o mesmo modelo da Legião.

Seja como for, a Igreja não pretendia cercear a criatividade artística, mas justamente preveni-la contra a autodestruição. Para mentes dominadas pelo liberalismo, isso parece estranho, porque, em nosso tempo, a liberdade foi alçada a valor absoluto. Mas qualquer pessoa minimamente responsável consegue perceber o perigo de uma liberdade doentia. Se ela não é regulada, se ela não obedece às leis da natureza, essa liberdade se converte numa máquina de destruição, como um carro desgovernado no trânsito. As pessoas podem andar livremente nas ruas porque existem leis. Do contrário, estariam todas ameaçadas.

A liberdade humana também pode se deteriorar por um exercício vicioso. Em razão disso, Pio XI advertia na mesma encíclica contra a possibilidade de que o cinema “injuriasse e desacreditasse a moral cristã, ou simplesmente a moral humana e natural, a regra suprema que deve reger e regulamentar o grande dom da arte” (n. 4). Foi em afastar essa possibilidade do horizonte do cinema que a Legião da Decência se aplicou.

Henrique VIII (Robert Shaw) e S. Thomas More (Paul Scofield), em “O homem que não vendeu a sua alma”.

Da decadência aos dias de hoje

Na década de 1960, porém, as coisas saíram do trilho novamente. Em primeiro lugar, a Suprema Corte americana já havia julgado, em 1948, o processo U.S. vs. Paramount Picture, que pôs fim ao monopólio dos estúdios sobre as salas de cinema. Depois, em 1959, a mesma Corte decidiu que o filme francês Os Amantes poderia ser exibido sem cortes, de modo que as cenas de nudez passaram a ser mais frequentes. Os Estados Unidos logo se viram invadidos por produções independentes e estrangeiras, que abusavam da sensualidade e da violência, por não estarem submetidas à PCA. Consequentemente, Hollywood começou a ceder às pressões econômicas e ao apelo dos tempos pós-guerra. 

Em 1963, o The New York Times publicava a seguinte notícia: “A Legião da Decência pediu ontem a Hollywood para produzir mais filmes dedicados à família”. Dos 270 filmes revisados naquele ano, apenas 51 haviam recebido a classificação A, um resultado bastante alarmante. De fato, a última grande batalha da Legião da Decência deu-se contra o filme Boneca de carne, de 1956, que acabou banido de várias salas, depois dos protestos da Igreja. Depois disso, a própria hierarquia passou a arrefecer o tom, crendo que os católicos deveriam, de agora em diante, preferir o remédio da misericórdia ao da severidade [5].

Com o lançamento de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de 1966, Hollywood definitivamente abandonou a “época de ouro” para mergulhar de cabeça nos novos tempos. Recheado de palavrões e vulgaridades, o filme fazia um ataque aos épicos das décadas de 1940 a 1950. A produção também marcou a decadência da Legião, que já havia adotado um novo sistema de classificação e, inclusive, outro nome [6]. Para sugerir uma abordagem mais positiva, o grupo passou a avaliar também a atuação dos atores e outros quesitos artísticos, além da questão moral. Era o início do fim.

Atualmente, o cinema vive um marasmo de ideias desconcertante. As grandes produções se resumem a filmes de super-heróis, com roteiros previsíveis e atuações tão convincentes quanto um poste. Mais grave ainda: Hollywood chafurda na lama dos escândalos, com casos de assédios, subornos, traições e até estupros. E, infelizmente, a coisa deve se manter assim, enquanto não surgir um movimento verdadeiro de purificação do cinema, como foi a iniciativa da Legião da Decência. As atrizes que nos desculpem, mas, para enfrentar o problema, não basta fazer discurso político no Oscar e campanhas nas redes sociais, enquanto elas mesmas e (os demais) estiverem envenenados pela ilusão do sucesso e do dinheiro.

Toda essa ruína tem sua causa em algo muito mais profundo: a concupiscência. O pecado sempre é “agradável aos olhos” e “desejável por dar entendimento” (Gn 3, 6). O rei Davi caiu em desgraça justamente depois de ter visto e desejado o corpo de Betsabé. Do mesmo modo, quantos já não caíram em desgraça depois de terem assistido a algum filme imoral, seduzidos pelo prazer do som e, sobretudo, da imagem. Era o que ajuizava Pio XI já naquela época:

As variadíssimas cenas no cinema são representadas por homens e mulheres escolhidos sob o critério da arte e de um conjunto de qualidades naturais, e que se exibem num aparato tão deslumbrante a se tornarem às vezes uma causa de sedução, principalmente para a mocidade. O cinema ainda tem a seu serviço a música, as salas luxuosas, o realismo vigoroso, todas as formas do capricho na extravagância. E por isso seu encanto se exerce com um atrativo particular sobre as crianças e os adolescentes. Justamente na idade, na qual o senso moral está em formação, quando se desenvolvem as noções e os sentimentos de justiça e de retidão, dos deveres e das obrigações, do ideal da vida, é que o cinema toma uma posição preponderante. E, infelizmente, no atual estado de coisas, é geralmente para o mal que o cinema exerce sua influência (grifos nossos; Id., n. 25-26).

Na “época de ouro” do cinema, o que mantinha os católicos longe de qualquer filme indecente era o risco dum “pecado mortal”. A Legião da Decência sempre deixou claro esse risco e, com essa pedagogia, impediu que muitas cenas como a de Maria Schneider e Marlon Brando fossem rodadas. Não seria saudosismo extemporâneo desejar que iniciativas como esta, que tão bons frutos deram no passado, ressurgissem para o bem não só do cinema, mas sobretudo das almas. Como público católico, temos o direito e o dever de expressar o nosso ponto de vista e reclamar, tanto de produtores quanto das autoridades públicas, aquele respeito mínimo à pessoa humana, à família e à integridade física e moral de todo ser humano, que todas as formas sadias de entretenimento deveriam transmitir [7].

Notas

  1. Tanto a notícia do estupro de Maria Schneider quanto a da confissão de Silvester Stallone foram reportados por El País, aqui e aqui, mas recomendamos discrição aos curiosos, pois ambas as reportagens contêm linguagem e imagens impróprias.
  2. Ben-Hur (1959) é, ao lado de Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003), o filme que mais venceu o Oscar na história do cinema. Das doze indicações que recebeu, levou para casa onze estatuetas, incluindo a de melhor filme. O homem que não vendeu a sua alma (1966) venceu em seis das oito indicações, incluindo melhor filme também; A canção de Bernadette (1944) conquistou quatro Oscars e Os sinos de Santa Maria (1946) venceu em uma categoria.
  3. Esse código de leis ficou também conhecido por Código Hays, por conta do líder presbiteriano Will Hays, que então presidia a Associação de Produtores e Distribuidores de Filmes da América. Algumas pessoas o criticam por ter colocado restrições quanto à representação da miscigenação nos Estados Unidos. É preciso entender, porém, que Hollywood estava ameaçada por vários escândalos, sobretudo por um suposto estupro e assassinato da atriz Virginia Rappe pelo ator Fatty Arbuckle. Por isso, vários estados queriam impor leis duríssimas de restrição aos filmes. Daí que os próprios cineastas adotaram o Código Hays para fugir da pressão governamental, quando a questão da miscigenação era ainda um grande tabu.
  4. As informações históricas sobre a Legião da Decência foram retiradas do canal Vox, da agência Catholic News Service e do site First Things.
  5. Além do “espírito do Concílio”, deve-se ressaltar também a enorme influência que a Revolução Sexual, da década de 1960, provocou sobre a mentalidade de muitos sacerdotes católicos, culminando nos escândalos de abusos que vergonhosamente conhecemos hoje. Tudo isso influenciou no modo de os católicos enxergarem o mundo, incluindo a arte.
  6. O que restou da Legião da Decência se resume hoje a um departamento da agência Catholic News Service, algo praticamente inexpressivo. Há também uma iniciativa do diácono permanente Steven D. Greydanus, membro do Círculo de Críticos de Filmes de Nova Iorque e articulista do National Catholic Register, que mantém a página Decent Films.
  7. Cf. Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, Pornografia e Violência nas Comunicações Sociais. Uma Resposta Pastoral, de 7 mai. 1989, nn. 25-27.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Teologia: parece complicada, mas é coisa de criança
Santos & Mártires

Teologia:
parece complicada,
mas é coisa de criança

Teologia: parece complicada, mas é coisa de criança

Os últimos dias terrenos de Santo Tomás de Aquino, o maior Doutor que a Igreja já teve, foram marcados por uma fé semelhante à dos pequeninos — experiência mística que o transformou justamente no dia de São Nicolau.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
imprimir

No dia 6 de dezembro de 1273, festa de S. Nicolau de Mira, S. Tomás de Aquino, o maior intelectual que a Igreja Católica já conheceu, passou por uma experiência mística transformadora, que o impossibilitou de dar sequência a seus projetos teológicos e, de fato, marcou o início do fim de sua carreira. Ele morreria três meses depois, na companhia dos monges cistercienses de Fossanova, em 7 de março, que continua a ser o dia tradicional de sua festa. Os cristãos que sabem que toda circunstância, grande ou pequena, é prevista pela divina Providência, podem razoavelmente perguntar: por que chegou o Doutor Angélico ao ápice de sua vida na festa de um santo cujos presentes de padroeiro são dados a criancinhas todo Natal?

Há uma resposta implícita nos relatos dos últimos dias de Tomás — relatos que são, nas palavras do Pe. John Saward, “tocantes de ler”: 

O homem grande e pesado, tão silente e sossegado quanto um bebê a adormecer; o doutor, enfim, sem sua pena de escrever. Pode-se ver Tomás e Reginaldo juntos: o amigo ansioso, mas enfim resignado, e o santo absorvido em contemplar a beleza de Deus. Do “testemunho fidedigno” de Reginaldo aprendemos que a última confissão de Tomás foi como a de um “menino de cinco anos de idade”, o que sugere não apenas a pureza própria da infância, mas também aquela inocente confiança que o Senhor aconselhou, por revelar seus mistérios não aos entendidos, mas aos pequeninos.

No inverno da peregrinação desta vida, na noite gélida da qual parece infinitamente distante o verão eterno do Céu, Deus vem com sua luz e calor para os homens e mulheres que são, em seus corações, pequenas crianças, dependendo dele e confiando nele seja qual for o clima que a estação ofereça. As riquezas de seu amor paternal, Deus as distribui com mais abundância sobre os pequenos, os quais, com seus olhos de maravilhamento, sua confiança confiante, seu fluxo interminável de perguntas, sua alegria inocente, atraem o divino olhar.

O Pe. Brian Davies escreve que S. Tomás

vai de questão em questão com uma ansiedade de tirar o fôlego. Ele está a todo momento perguntando “Por quê?” ou “O quê?” Pode-se dizer inclusive que todo o sistema do Aquinate repousa sobre uma questão. […] Deus, para ele, é uma resposta à perplexidade (admiratio), uma resposta que nos deixa com ainda mais perguntas que fazer.
Vitral retratando S. Tomás no mosteiro franciscano da capital dos EUA, Washington.

Que coisa pode haver mais típica de uma criança normal do que esse fluxo de perguntas que só se esgota quando os adultos perdem a paciência ou não sabem mais o que dizer? O exemplo de uma criança confiante e curiosa, que “pede, procura e bate”, é ao mesmo tempo o ponto de partida para a descoberta de Deus e o ponto de chegada ao Reino dos céus, onde quem pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate à porta, esta se lhe abre.

O Pe. John Saward de novo comenta: “No exercício de sua ciência, bem como na sua conduta de vida, o teólogo deve converter-se e tornar-se como uma criança, recuperando e preservando um senso de espanto diante da grandeza do que Deus revelou em seu Filho”.

O Salvador sela sua aliança nupcial com o puro de coração que busca o único necessário. Ser teólogo é apaixonar-se pela verdade de Deus, entregar-se com confiança e humildade a essa verdade que se antecipa a cada passo que vamos dar. O Pe. Thomas Gilby nos lembra da presença pessoal que dá à teologia o seu próprio significado: “A Palavra e o Espírito de Amor são enviados a nós, e todas as palavras da ciência da fé e afeições no seio da amizade divina são como que muitos ecos e refrações da sua presença”. O modelo e cumprimento da teologia é a visão beatífica — uma visão do infinitamente grande pelo infinitamente pequeno; do Criador que é Pai pela criatura que lhe é filha; do Salvador que é o Esposo pelo santo que o desposa.

O Pe. Martin Grabmann, biógrafo de S. Tomás, tenta pôr em palavras esta “teologia dos bem-aventurados”:

Seu conhecimento e amor totais estão ordenados em um ato contínuo e incessante em direção a Deus, divino Amor desvelado que eles contemplam face a face. Toda a sua vida e atividade são um êxtase eterno, bem-aventurado e inefavelmente brilhante de amor neste ver, desfrutar e abraçar o infinito Deus uno e trino.

Em seus sermões sobre o Credo Apostólico (a. 12), S. Tomás define a vida eterna como a união definitiva do homem com Deus, e isso significa ver Deus face a face, dar a Ele o perfeito louvor, gozar a satisfação superabundante de todo desejo e um deleite inimaginável: “conheceremos todas as naturezas das coisas, todas as verdades e tudo o que quisermos, e ali possuiremos tudo o que quisermos possuir”. A vida eterna traz consigo, além disso, a segurança perfeita, sem tristeza, trabalho ou temor, e a agradável companhia de todos os bem-aventurados: “De maneira que tanto aumente a alegria e o gozo de um quanto é o gozo de todos”.

Este é o paraíso que S. Nicolau de Bari alcançou pela prática da misericórdia, da humildade e da fidelidade que Deus derramou em seu coração. Este é o paraíso que S. Tomás de Aquino alcançou pela vivência das mesmas virtudes. Ambos se tornaram, cada um no tempo devido, grandes santos e sábios pregadores; mas só chegaram a isso depois de se tornarem pequeninos e loucos por causa de Cristo. Possamos nós, fazendo o mesmo aqui e agora, associar-nos a estes bem-aventurados em sua felicidade sem fim.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Três coisas que as feministas esconderam de você
Família

Três coisas que
as feministas esconderam de você

Três coisas que as feministas esconderam de você

Se você é uma jovem mulher, concluindo seus estudos superiores ou prestes a entrar no mercado de trabalho, eis aqui três coisas sobre carreira que as feministas (e, com elas, toda a nossa cultura) fazem questão que você não saiba.

Jennifer BrysonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
imprimir

Contei recentemente, a um jovem solteiro de futuro, o conselho de carreira que costumo dar a jovens mulheres. Ele perguntou-me se eu poderia partilhar meu conselho com uma jovem mulher na qual ele está interessado. Eis aqui o meu conselho.

Prezada Joana,

Parabéns por sua graduação na faculdade. Você provavelmente pensa que o próximo passo é a carreira.

Este é o meu conselho profissional: a coisa mais importante que você pode fazer em sua vida, neste momento, é se casar e ter filhos. Para os católicos, eu ainda acrescentaria que é necessário discernir se o chamado é para a vida matrimonial ou religiosa. 

“Mas espere!”, dirá você. “Quero um conselho sobre carreira profissional”. 

Permita-me explicar.

Tal como os meus estudos em Stanford e Yale, seu curso universitário estava preparando você para ter uma carreira, não para ser uma pessoa humana (tal é a situação deplorável de boa parte da educação moderna). Você precisa fazer o seguinte: dar um passo atrás em sua educação universitária e refletir sobre o que significa ser humana — em seu caso, o que significa ser uma mulher.

Não confunda carreira com vocação. Carreira é, no melhor dos casos, algo que se encaixa na sua vocação, ou talvez apenas um conceito moderno vago. Seja como for, uma carreira não é um percurso de vida autossuficiente. Por isso, você precisa levar a sério o seu discernimento vocacional em vez de focar numa carreira. Na verdade, o tempo de Deus não é o nosso. Mas não se distraia com a ilusão de que uma carreira é uma vocação; não é. Não reforce sua busca por uma carreira, transformando assim a busca pela vocação numa reflexão tardia da qual você se ocupará “algum dia”. 

Estão diante de nós dois fatos fundamentais: seu corpo foi feito para gerar e educar filhos agora — não daqui a dez anos, mas agora —, e Deus criou você como ser humano, não como um autômato que procura uma carreira. Deus criou você e a ama tanto, que enviou seu único Filho para morrer por você; além disso, Ele explicou o que quer que você (na verdade, cada um de nós) faça com esta aventura da existência humana. Primeiro, “amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças” (Dt 6, 5); segundo, “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12, 31).

Isso significa que Deus chama cada um de nós à santidade. Nossa tradição católica nos dá dois caminhos principais para nos ajudar nisso: a vida religiosa e o sacramento do Matrimônio. Então, dentro de cada uma delas vem o discernimento de um caminho particular com uma comunidade integrada, a fim de podermos ajudar uns aos outros a permanecer focados no amor vertical de Deus e também exercitar diariamente o chamado horizontal para amar o próximo.

Como explicou Mary Cuff, “não existe vocação para a ‘vida de solteiro’”. Não acredito que Deus queira você errando sozinha por aí. Ao mesmo tempo, porém, é improvável que sua vocação simplesmente bata um dia à sua porta. Você precisará ser consciente e ter uma postura ativa de abrir o seu coração e a sua vida para isso.

Se a sua vocação é casar-se, tome como prioridade conhecer um homem com quem possa se casar. Agora. Não depois de seu próximo diploma ou de seu próximo emprego. Agora. Isso significa estruturar sua vida em torno dessa prioridade. Não busque uma carreira e suponha que o Sr. Certinho simplesmente aparecerá no meio do caminho. No Ocidente, as estruturas sociais que nos ajudavam a conhecer esposos estão danificadas ou inclusive desapareceram. Portanto, você deve ser proativa e criativa para compensar esses “tecidos conectivos” há muito desaparecidos. Conte para sua família e seus amigos que você quer se casar. Deixe que lhe apresentem pessoas (e não os repreenda quando um encontro arranjado for menos do que “espetacular”). Escolha onde morar levando em consideração o local onde houver maior probabilidade de conhecer homens qualificados. Reze e deixe que Deus forme a sua alma. Invista tempo em formação sobre o Matrimônio sacramental e seu verdadeiro sentido; você não aprenderá o que é o Matrimônio por osmose a partir do que é considerado casamento na cultura ocidental contemporânea. 

Agora, permita-me contar-lhe três segredos que as feministas não querem que você saiba.

“Alice no País das Maravilhas”, de George Dunlop Leslie.

Primeiro: não há problema algum em ser feminina. As feministas passaram décadas tentando aniquilar os nossos instintos mais básicos. Mas a realidade continua se impondo, e nós não devemos fugir dela. Nas histórias bem-sucedidas que eu escuto hoje, de mulheres que se casaram, é comum os homens falarem da alegria de ter conhecido uma mulher “amável” e “carinhosa” — noções que deixam as feministas em polvorosa. (Um alerta: cabe não confundir isso com paquera no escritório, algo que só estimula uma competição entre as mulheres para chamar a atenção dos homens, enviando a eles sinais confusos e inapropriados.)

Segundo: as feministas querem que você busque uma carreira só para que possam usá-la na promoção da própria agenda. Na busca das feministas pelo poder e autonomia das mulheres, é conveniente que elas tenham o maior número possível de mulheres no trabalho. Isso permite que elas insistam em sua busca fantasiosa pela imposição da paridade salarial, ou mesmo pelo domínio feminino nas instituições e profissões. Além disso, quanto maior for o número de mulheres no mercado de trabalho, maior será o número de futuras candidatas aos postos de chefia. As feministas não se importam com você. Elas apenas querem usá-la como bucha de canhão em sua tentativa de quebrar telhados de vidro.

Se você comprar o mito feminista da “carreira acima de tudo”, poderá ser elogiada por algumas de suas conquistas mundanas; mas, quando você morrer e se encontrar com seu Criador, essas coisas serão irrelevantes. Porém, no plano de recrutamento das feministas, elas retratam a carreira para meninas e jovens como um arco que passa por sucessivos momentos de glória. Sem dúvida, alguns empregos são relevantes em certos momentos, mas eles são a exceção, não a regra. A maioria dos chefes capitalistas e burocráticos quer apenas usar seu trabalho para seus próprios fins; em geral, você só encontrará trabalhos pesados em empregos medianos e o estresse causado pela dinâmica disfuncional presente nos escritórios, além de viver e envelhecer sozinha com o passar das décadas.

É óbvio que as mulheres podem contribuir (e de fato o fazem) profusamente para a vida pública. Palmas para isso! Mas as carreiras precisam servir à nossa vocação. Se invertermos as nossas prioridades, a carreira nos fará desviar de nossa vocação. Descubra sua vocação primeiro e então submeta a carreira a ela. Se Deus a chama ao Matrimônio e à maternidade, você pode buscar uma graduação e um desenvolvimento profissional posteriormente; pode inclusive fazer essas coisas em meio período enquanto os filhos são pequenos.

Isso me leva ao terceiro segredo que as feministas não querem que você conheça: a maternidade é um caminho nobre e honroso na vida.

Meu conselho sobre carreira profissional é o seguinte: você é chamada a algo muito maior que uma carreira. Se você tiver vocação para a vida religiosa, descubra onde essa vocação se desenvolverá. Se você ficar em casa de braços cruzados e pensando: “Um dia…”, não chegará a lugar algum. Se tiver vocação para o casamento, procure um marido que tenha uma compreensão sacramental do Matrimônio; que queira ajudar você a trilhar seu caminho vocacional de amor a Deus e ao próximo; e que quererá, também ele, viver a própria vocação de amar a Deus, Nosso Senhor, e ao próximo — vocação que começa com ele amando você.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

O Ofício Divino e suas “repetições inúteis”
Liturgia

O Ofício Divino
e suas “repetições inúteis”

O Ofício Divino e suas “repetições inúteis”

A liturgia e os Salmos estão repletos de repetições, mas seriam elas por acaso? Quem implora não deve pedir aquilo de que tem necessidade mais de uma vez, isto é, com insistência? Não é esta a origem do Pai-nosso e também das ladainhas?

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
imprimir

Desde que eu li pela primeira vez as palavras da Sacrosanctum Concilium, n. 34, sobre como “repetições inúteis” (repetitiones inutiles) precisavam ser removidas da liturgia romana tradicional, tenho estado à procura de exemplos de repetição, seja ao rezar o antigo Ofício Divino — ou, para ser mais preciso, o ofício monástico tal como ele era na década de 1940 —, seja ao participar da Missa no usus antiquior, seja ao receber e observar outros sacramentos no rito antigo. Depois de mais de vinte anos de observação e reflexão, eu ainda não fui capaz de encontrar um único exemplo de repetitio inutilis [1]. 

Sim, sim, eu conheço os exemplos que as pessoas gostam de soltar e, em minha juventude tola, eu faria o mesmo. Soa elegante criticar as práticas litúrgicas que duram há séculos: “Sabe, esses pobres católicos eram tão conservadores que simplesmente mantinham esses costumes irracionais em voga, ainda que agora nós vejamos claramente que eles não fazem sentido algum. Muito melhor é otimizar o rito, torná-lo mais lógico”.

Esse ponto de vista juvenil foi substituído [n.d.t.: em mim] por uma apreciação crescente da sutileza dos elementos litúrgicos, grandes e pequenos — mesmo aqueles que parecem ter surgido “por acidente”. Como disse uma vez o Padre Pio: “Para Deus não existe isto a que se chama acaso”. Tal apreciação requer tanto paciência para buscar o significado das coisas quanto imaginação para enxergá-lo — duas realidades aparentemente bem raras em nossos tempos.

Exemplos do Ofício Divino

Após a hora Prima [2], lê-se o Martirológio e, depois, as orações antes de se iniciar o dia de trabalho. Estas começam com um triplo Deus in adiutorium meum intende, Domine ad adiuvandum me festina (“Vinde, ó Deus, em meu auxílio, socorrei-me sem demora”), seguido por um Gloria Patri, um Kyrie-Christe-Kyrie, um Pater noster, alguns versículos, outro Gloria Patri e uma oração.

Há muita repetição aqui. Eu não tenho nenhum arrazoado que oferecer, mas minha experiência, tendo-o rezado por muito tempo, é que este arranjo dá estabilidade e é muito apropriado para implorar o socorro de Deus no início dos trabalhos do dia. Quem implora deve pedir aquilo de que tem necessidade mais de uma vez, isto é, insistentemente. É esta a origem da oração que Jesus ensinou e de toda ladainha que jamais existiu. Rezar uma segunda vez a Oração do Senhor, apenas alguns instantes depois de a ter recitado ao fim da Prima, normalmente me alerta para o fato de que eu não a havia rezado a primeira vez com a devida atenção — o que me leva a tornar mais séria minha volta a ela. O mesmo se dá com a doxologia: resistindo à tentação de rezá-la rápido, é possível adentrar mais profundamente a origem e o fim de todas as nossas ações, a realidade suprema da Santíssima Trindade.

Um segundo exemplo, e um dos mais familiares, é o Benedicite [n.d.t.: o cântico de Daniel (3, 57-88.56), do domingo da I Semana do Saltério atual]. Pense numa oração repetitiva! Uma vez familiarizada com ela, no entanto — quando a pessoa percebe que está fazendo as vezes de toda a Criação, transformando suas silenciosas necessidades em louvor voluntário ao Senhor —, há um privilégio especial em pronunciar os versículos e um conforto na sucessão ritmada deles, como o movimento das ondas do mar: Benedicite omnia opera Domini, Domino: laudate et superexaltate eum in saecula. Benedicite, Angeli Domini, Domino: benedicite caeli, Domino.

As interrupções do padrão dispõem a uma retomada de atenção. Depois de dizer Benedicite dezessete vezes, nós dizemos: Benedicat terra Dominum; depois de mais oito Benedicite: Benedicat Israël Dominum; diz-se então Benedicite cinco vezes mais, até que se chegue a Benedicamus Patrem et Filium cum Sancto Spiritu e Benedictus es, Domine. Diz-se trinta vezes “bendizer” no imperativo, três no subjuntivo e “Bendito és”, uma vez, no indicativo. Uma notável numerologia trinitária e cristológica perpassa este hino, que a Igreja põe em nossos lábios como uma espécie de ladainha de bênçãos, admiravelmente adequada para os domingos e dias santos.

Um terceiro exemplo, também das Laudes, é a repetição diária dos Salmos 148, 149 e 150, que todos fizeram no Ocidente por pelo menos quinze séculos, mas que agora permanece apenas entre os monges e religiosas que retiveram seu antigo cursus. Esse trio de salmos põe em nossos lábios vinte e três vezes alguma forma de laus ou laudare, dando sentido ao nome Laudes e enfatizando essa hora como o principal ofício de puro louvor na Igreja. Há algo cativante e belo numa oração sem nenhum “valor de uso”, que não seja direcionada nem a obter um benefício nem a livrar-se de algum mal. A repetição “gratuita”, como alguém lhe poderia chamar, simboliza ao mesmo tempo o seu valor intrínseco e serve como um veículo para inculcá-lo em nós, seres impacientes e, com muita frequência, cheios de segundas intenções.

Um quarto exemplo é o refrão quoniam in aeternum misericordia eius, repetido vinte e sete vezes quando se recita ou se canta o Salmo 135. Um salmo louvando a misericórdia eterna de Deus faz ecoar ao longe a eternidade, com seu refrão imutável, assim como uma âncora mantém num lugar um navio, não obstante as ondas que o agitam. Pode ser difícil, às vezes, impedir que nossas mentes vagueiem à medida que repetimos a frase, mas obviamente o divino Mestre pensou esse salmo, assim como todos os outros, até a sua última letra, tendo em vista as necessidades espirituais de todos e cada um de seus discípulos.

Um último exemplo, e de caráter diferente dos outros, é a repetitividade indireta que se encontra no Salmo 118, recitado diariamente no Breviário Romano e uma vez por semana no monástico (dividido entre as pequenas horas do domingo e da segunda-feira). Não é preciso ter grande intimidade com o Salmo 118 para notar que ele é altamente repetitivo em seus conceitos, tecendo o salmista quantas variações de “lei, testemunhos, mandamentos, decretos, preceitos, juízos, ordens e palavras” lhe vieram à mente. A Igreja põe este salmo sempre diante de nós a fim de firmar nossas mentes vagabundas e corações rebeldes na lei imutável do Senhor, que é em última instância sua lei eterna, seu próprio ser, sua misericórdia manifestada a nós como regra de vida na qual encontraremos vida. A estrutura do salmo dá a entender que, em toda a variedade que vemos, em todas as vicissitudes que sofremos, e até na aparente falta de sentido do ciclo infinito de que fala o Eclesiastes, há uma ordem de sabedoria única, uma manifestação única do mistério do amor de Deus.

Até aqui eu falei apenas de repetição textual, mas um tratamento completo de nosso assunto teria de incluir repetições e aparentes redundâncias em pessoas, cerimônias, gestos e cantos.

O fim da repetição

Alguns desses elementos de repetição no Ofício Divino foram retidos no breviário de São Pio V e depois na Liturgia das Horas de Paulo VI, mas, infelizmente, muitos deles foram atenuados ou abandonados. Assim como a Missa foi simplificada pelos reformadores a fim de torná-la mais breve e autoexplicativa, transparente e acessível, também o Ofício foi simplificado e abreviado, tendo em vista um clero ocupado — não obstante o fato de que a maioria dos Padres conciliares, a julgar de seus discursos na aula, não apoiava nem grandes mudanças na Missa nem uma redução substancial do Breviário.

Depois de décadas de liturgia nova, porém, rezada lado a lado com uma espécie de sobrevivência inesperada da liturgia antiga, é possível não apenas conceituar, mas também experimentar como a tendência à simplificação, o abandono das formalidades e a rude rejeição de princípios estéticos acarretaram uma diminuição de disciplina e de impacto espiritual.

Mesmo o falecido Pe. Robert Taft, assumidamente antitridentino como era, admitia isto: 

O Ocidente deve aprender com o Oriente a redescobrir um senso de tradição, e parar de se emaranhar em seus próprios clichês. A liturgia deve evitar repetição? Mas se a repetição é da essência do comportamento ritual! A liturgia deve oferecer variedade? A variedade excessiva é inimiga da participação popular. A liturgia deve ser criativa? Mas criatividade de quem? É presunçoso, por parte de quem nunca manifestou a mínima criatividade em quaisquer outros aspectos da vida, pensar que é um Beethoven e um Shakespeare em matéria de liturgia [3].

O que ele não percebeu, no entanto, é que a liturgia, tal como chegou até nós, já é o equivalente a uma sinfonia de Beethoven ou a um romance de Shakespeare — se bem que numa escala muito superior. Como os ciclos de peças de mistério medievais, o culto católico tradicional tem uma profundidade, variedade, coloração e sutileza que desafiam explicações simplórias e resistem à simplificação. Padrões de repetição inteligente são um dos meios mais comuns e efetivos para se adquirir uma expressão formal de seriedade e uma intensificação crescente de desejo.

Se, na prática, a repetição retém sempre este valor, é uma matéria para exame de consciência, mas certamente não é difícil enxergar por que ela é uma característica de qualquer liturgia cristã histórica; ou melhor, de qualquer religião conhecida pelo homem. Dessa perspectiva, o expurgo implacável de repetições do Ofício Divino, da Missa e de tantos outros ritos é apenas mais um ângulo através do qual demonstrar o impulso essencialmente não-histórico, não-litúrgico e irreligioso por trás das reformas litúrgicas levadas a cabo no último século.

Notas

  1. Para entender com que espírito devem ser lidas quaisquer críticas às reformas litúrgicas do século passado, seria importante assistir às aulas do Pe. Paulo Ricardo O problema com o Missal de Paulo VI, de 22 ago. 2013, e Por que uma “reforma da reforma”?, de 27 ago. 2013. Dos textos delas destacamos as seguintes palavras do Cardeal Joseph Ratzinger: “[Que] se crie a impressão de que nada no Missal jamais poderá ser mudado, como se qualquer reflexão a respeito de possíveis reformas futuras fosse necessariamente um ataque ao Concílio — a uma tal ideia eu só poderia dar o nome de absurda” (n.d.t.).
  2. Deve-se notar, en passant, que só a supressão do antiquíssimo ofício da Prima já constitui, em si, razão suficiente para levantar sérias dúvidas sobre toda a campanha de revisão anunciada na Sacrosanctum Concilium, permitindo-nos enterrar de uma vez por todas a mentira de que a reforma litúrgica teve como finalidade “restaurar o antigo culto”. Cf. Wolfram Schrems, The Council’s Constitution on the Liturgy: Reform or revolution?, Rorate Caeli, 3 mai. 2018 (n.d.a.).
  3. Return to Our Roots: Recovering Western Liturgical Traditions: America, 26 mai. 2008 (n.d.a.).

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Nossa pátria é o Céu: não temamos a morte!
Espiritualidade

Nossa pátria é o Céu:
não temamos a morte!

Nossa pátria é o Céu: não temamos a morte!

“Importa meditar e pensar amiúde em que já renunciamos ao mundo e vivemos aqui provisoriamente como peregrinos e hóspedes. Qual o peregrino que não se apressa em voltar à pátria? Nossa pátria é o paraíso.”

Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Dezembro de 2020Tempo de leitura: 2 minutos
imprimir

A meditação a seguir foi extraída do Ofício das Leituras da Sexta-feira da 34.ª Semana do Tempo Comum. Seu tom, no entanto, continua muito apropriado para este tempo do Advento, em que esperamos a vinda de Cristo.


Do tratado sobre a morte, de São Cipriano, bispo e mártir
(Cap. 18.24.26: CSEL 3, 308.312-314)

Superemos o pavor da morte com o pensamento da imortalidade

Lembremo-nos de que devemos fazer a vontade de Deus e não a nossa, de acordo com a oração que o Senhor ordenou ser rezada diariamente. 

Que coisa mais fora de propósito, mais absurda: pedimos que a vontade de Deus seja feita e quando ele nos chama e nos convida a deixar este mundo, não obedecemos logo à sua ordem! Resistimos, relutamos e, quais escravos rebeldes, somos levados cheios de tristeza à presença de Deus, saindo daqui constrangidos pela necessidade, não por vontade dócil. E ainda queremos ser honrados com os prêmios celestes a que chegamos de má vontade. Por que então oramos e pedimos que venha o reino dos céus, se o cativeiro terreno nos encanta? Por que, com preces frequentemente repetidas, suplicamos que se apresse o dia do reino, se maior desejo e mais forte vontade são servir aqui ao demônio do que reinar com Cristo?

“O Sonho de Jacó”, de Nicolas Dipre.

Se o mundo odeia o cristão, por que tu o amas, a ele que te aborrece, e não preferes seguir a Cristo que te remiu e te ama? João em sua carta clama, fala e exorta a que não amemos o mundo, deixando-nos levar pelos desejos da carne: “Não ameis o mundo nem o que é do mundo. Quem ama o mundo não tem em si a caridade do Pai; porque tudo quanto é do mundo é concupiscência dos olhos e ambição temporal. O mundo passará e sua concupiscência; quem, porém, fizer a vontade de Deus, permanecerá eternamente” (cf. 1Jo 2, 15-17). Ao contrário, tenhamos antes, irmãos diletos, íntegro entendimento, fé firme, virtude sólida, preparados para qualquer desígnio de Deus. Repelido o pavor da morte, pensemos na imortalidade que se lhe seguirá

Com isso, manifestamos ser aquilo em que acreditamos. Irmãos caríssimos, importa meditar e pensar amiúde em que já renunciamos ao mundo e vivemos aqui provisoriamente como peregrinos e hóspedes. Abracemos o dia que designará a cada um sua morada, restituindo-nos ao paraíso e ao reino, uma vez arrebatados daqui e quebrados os laços terrenos. Qual o peregrino que não se apressa em voltar à pátria? Nossa pátria é o paraíso. O grande número de nossos queridos ali nos espera: pais, irmãos, filhos. Deseja estar conosco para sempre a grande multidão já segura de sua salvação, ainda solícita pela nossa. Quanta alegria para eles e para nós chegarmos nós até eles e a seu abraço! Que prazer estar ali, no reino celeste, sem medo da morte, tendo a vida para sempre! Que imensa e inesgotável felicidade!

Lá, o glorioso coro dos apóstolos; lá, o exultante grupo dos profetas; lá, o incontável povo dos mártires coroados de glória e de triunfo pelos combates e sofrimentos; lá as virgens vitoriosas, que pelo vigor da continência corporal subjugaram a concupiscência da carne; lá remunerados os misericordiosos, que pelos alimentos e liberalidades aos pobres fizeram obras de justiça, e, observando o preceito do Senhor, transferiram seu patrimônio terreno para os tesouros celestes. Para lá, irmãos caríssimos, corramos com ávida sofreguidão. Que Deus considere este nosso modo de pensar! Que Cristo olhe este propósito do espírito e da fé! Os maiores prêmios de sua caridade ele os dará àquele cujos desejos forem intensos.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.