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Cinquenta Tons de “surras” e “pauladas”
Sociedade

Cinquenta Tons de “surras” e “pauladas”

Cinquenta Tons de “surras” e “pauladas”

Descubra a verdade por trás de “Cinquenta Tons de Cinza”, a patética história que transforma um maníaco sadomasoquista em herói romântico

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Fevereiro de 2015
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Em um tempo longínquo, a sociedade costumava enviar sádicos para um terapeuta ou para a prisão, não para o próprio quarto. Mas, com o advento de Fifty Shades of Grey ["Cinquenta Tons de Cinza", em português], os dias de sanidade mental da humanidade estão contados. O recorde de vendas do livro e o sucesso de bilheteria do filme denunciam o estado doentio da modernidade e convidam pais, mães e filhos a uma importante reflexão.

A obra, escrita por uma mulher e recentemente adaptada para o cinema, conta a história de "amor" nada saudável entre o magnata Christian Grey e a jovem estudante Anastásia Steele. O relacionamento dos dois é regido por um "contrato", no qual Christian é denominado o "dominante", e Anastásia, a "submissa". As cláusulas do documento são estarrecedoras: "a Submissa (...) deve oferecer ao Dominante, sem perguntar nem duvidar, todo o prazer que este lhe exija"; "o Dominante pode açoitar, surrar, dar chicotadas e castigar fisicamente à Submissa (...) por motivos de disciplina, por prazer ou por qualquer outra razão, que não está obrigado a expor"; "a Submissa aceitará açoites, surras, pauladas, chicotadas ou qualquer outra disciplina que o Dominante administrar, sem duvidar, perguntar nem queixar-se".

O mesmo contrato ainda fixa um prazo de validade de "três meses", durante os quais Anastásia se torna "propriedade" de Christian. A lista de aberrações é interminável. "Açoites", "açoites com pá", "chicotadas", "gelo", "cera quente" são talvez as únicas "fantasias" nomináveis do livro. É este arsenal de torturas o protagonista de "Cinquenta tons de cinza".

Um estudo conduzido pelo Journal of Women's Health ["Jornal de Saúde da Mulher"] traz uma importante relação entre os atos da trama sadomasoquista e os aspectos reais de violações sexuais. No desenrolar dos acontecimentos,

Christian lança mão de estratégias típicas de abusadores, incluindo perseguição (ele deliberadamente segue Anastásia Steele e usa um telefone e um computador para rastrear sua localização), intimidação (ele a ameaça com punições e violência, incluindo pressioná-la a atividades com as quais ela fica desconfortável), isolamento social (ele afasta Anastásia de amigos e família) e violência sexual (ele usa álcool para forçar o seu consentimento e a constrange a atividades sexuais desconfortáveis).

Como resposta, Anastásia experimenta reações típicas de mulheres violadas, incluindo ameaça constante (por exemplo, de que Christian está tentando rastreá-la, está nervoso com ela e vai puni-la ou machucá-la); identidade alterada (Anastásia descreve a si mesma como um "assombrado fantasma pálido"); estresse (Anastásia começa a ter comportamentos para manter a paz no relacionamento, como reter informação sobre a sua localização para evitar a ira de Christian); ânsia pela sanidade e normalidade no relacionamento; e enfraquecimento e aprisionamento, já que as suas condutas se mecanizam em resposta ao abuso de Christian.

Sabendo qual o verdadeiro teor dessa história assombrosa, urge identificar, afinal, qual a origem da sua repercussão. Na Inglaterra, a trilogia de E. L. James vendeu mais do que "Harry Potter" e "O Código da Vinci". Nos Estados Unidos, foram 10 milhões de cópias compradas em apenas seis semanas. No mundo inteiro, o filme bateu recorde de bilheteria, beirando a cifra de 240 milhões de dólares. Como uma narrativa sádica e violenta é capaz de alcançar tamanho sucesso?

A primeira resposta – e, certamente, a primeira que vem à mente do leitor – é o sexo. O êxito de "Cinquenta Tons de Cinza" se deveria principalmente às passagens eróticas inseridas pela autora no livro. O fato de 68% da audiência do filme ser composta por mulheres é um dado importante. Mostra como a pornografia – um problema eminentemente masculino – tem se adaptado também para o universo feminino. Do material explícito e visual usado para os homens, o demônio adapta livros e letras para destruir também as mulheres.

Mas, ainda que o aspecto sexual responda muito, não responde tudo. Para Kirsten Andersen, correspondente do LifeSiteNews.com, o sucesso de tramas como "Cinquenta Tons de Cinza" e Twilight ["Crepúsculo"] "tem sua origem na batalha que se trava em todos nós desde o dia em que aparecemos gritando, nus e indefesos, neste mundo", tem a ver com o fato de que "nós todos queremos ser profundamente amados", ainda que, muitas vezes, vejamos a nós mesmos como seres "pateticamente desprezíveis". Os romances exploram, portanto, a radical necessidade do ser humano por amor e redenção – na maioria das vezes, porém, do jeito errado.

Em "Cinquenta Tons de Cinza", por exemplo, o senhor Grey é pintado como o "redentor" de Anastásia. A menina virgem que nunca teve sorte no amor teria finalmente encontrado o seu par. O modo como ele a intimida e os serviços humilhantes a que ela se presta, porém, mostram o erro brutal que estão cometendo. Nem ele a redime, tampouco ela é amada; no relacionamento erótico e dominador dos dois – repleto de medo, ciúmes e ameaças –, ambos vão, pouco a pouco, se destruindo. (Só em uma ficção de muito mau gosto algo deste tipo poderia acabar bem.)

A razão disso é que o ser humano, além de seu corpo, possui uma alma. Enquanto seu corpo se entrega desordenadamente ao prazer, algo no mais íntimo do seu ser clama pelo infinito, pelo eterno, por Deus. Por isso, mil atos sexuais – por mais inventivos e pitorescos que possam parecer – não são capazes de fazer ninguém, absolutamente, feliz. "Coisas ruins acontecem quando tentamos ser Deus, ou quando deixamos que alguém preencha o papel de Deus para nós", escreve Kirsten Andersen. "O único amor salvífico que iremos encontrar neste mundo é divino em sua origem – não romântico".

Não é preciso, pois, ter "bola de cristal" para prenunciar o trágico fim em que acabará qualquer casal que queira imitar Christian e Anastásia. E não adianta vir com a conversa de que "o que eles fizeram no filme, fica no filme, não tem nada a ver com o mundo real". O chamado "mercado erótico" já está comemorando o sucesso de "Cinquenta Tons de Cinza", seja no exterior, seja em terras tupiniquins. A obra de E. L. James não é uma "história inofensiva" para mero entretenimento. É mais uma iniciativa – na linha das muitas começadas pela Revolução Sexual – para forçar limites morais, destruindo a família natural, o projeto de Deus para a sexualidade humana e a própria dignidade da mulher.

Sim, a pergunta a ser feita é: o que este livro e este filme têm a dizer sobre o valor da mulher? Você gostaria que sua filha entrasse em um relacionamento com Christian Grey? Ou que seu filho se tornasse um sádico e torturador sexual? Anastásia Steele é, felizmente, uma personagem fictícia, mas os efeitos malignos de "Cinquenta Tons de Cinza" – a patética história que transforma um maníaco em herói romântico – estão prontos para entrar em cena na vida real: nesta, e nas próximas gerações.

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A Revolução Sexual e suas mentiras
Sociedade

A Revolução Sexual e suas mentiras

A Revolução Sexual e suas mentiras

A história ensinada em praticamente todas nossas instituições públicas não passa, na verdade, de uma ideologia. Os adeptos da revolução não “jogaram o livro” fora; eles reescreveram-no, porque é isso o que eles sempre fazem.

Jonathon van Maren,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Outubro de 2018
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“O modo mais eficaz de destruir as pessoas”, notou certa vez George Orwell, “é negando e apagando-lhes da memória o próprio entendimento que elas têm da sua história”. Na cultura atual, o próprio conhecimento da história será em pouco tempo coisa do passado.

Apresentadores de programas noturnos às vezes fazem comédia desse crescente “Alzheimer” cultural perguntando a pessoas nas ruas questões banais como: “Quem foram os Aliados na Segunda Guerra Mundial?”, e recebendo respostas vergonhosas. Mas há um lado notadamente menos engraçado do nosso esquecimento. Nós estamos correndo o grande risco, como diz o velho ditado, não apenas de repetir a história por nos termos esquecido dela, mas de repeti-la sem sequer estarmos cientes disso.

Foi esse ponto que o experiente jornalista e autor canadense Ted Byfield fez questão de enfatizar mais de uma vez quando conversamos algum tempo atrás. “Nós estamos abandonando rápido muitos dos princípios sociais e morais fundamentais sobre os quais nossa civilização se encontra fundada”, disse ele. “Estamos cortando apaixonadamente o galho em que nos sentamos… Muito poucas pessoas, instruídas ou não, sabem de onde vieram esses princípios, e como viemos a abraçá-los. Ignoramos nossa herança e história, e isso é muito perigoso.”

Ted Byfiel está certo. Quando há vários anos eu comecei a pesquisar sobre a história da sociedade ocidental, fiquei muito surpreso com o simples fato de que muitas coisas que eu havia aprendido — ou pelo menos tinha sido levado a acreditar — não eram verdade. Se há muitos professores universitários generosos e eruditos, alguns dos quais tive o privilégio de conhecer, há também muitos hippies senis que trocaram suas comunas por uma forma mais fértil de disseminar a própria ideologia: a academia. Em auditórios diante de milhares de estudantes, eles vendem sua própria versão de como a história se desenrolou, deixando a maioria de nós completamente ignorante de como as coisas realmente aconteceram.

Desde que finalizei minha graduação em história, tenho percebido com frequência uma ironia: muitos pais cristãos lutam contra as influências da cultura a fim de inculcar em seus filhos os valores tradicionais e uma visão de mundo cristã, para depois bancar-lhes os estudos universitários e dar à faculdade quatro anos para convencer seus filhos a abandonarem essa visão de mundo.

Alfred Kinsey, uma fraude ainda celebrada nas universidades.

Eu aprendi, por exemplo, no primeiro ano de história, que não houve Revolução Sexual coisíssima nenhuma, porque os infames relatórios de Alfred Kinsey em 1950 haviam “revelado” que norte-americanos de todas as classes sociais já estavam praticando todo tipo imaginável de ato sexual. Praticamente ninguém era fiel a seu cônjuge, relações homossexuais eram comuns e até a bestialidade era supostamente frequente.

Essa ainda é a história que vem sendo ensinada sem questionamento — mesmo que os relatórios Kinsey tenham sido desbancados, e ele mesmo tenha sido desacreditado por inúmeras culpas, desde ter permitido atos horríveis de pedofilia para chegar a seus dados até tê-los distorcido de propósito para contestar a ética sexual cristã. Aqueles, porém, que ainda se dedicam de coração a celebrar a velha e doentia Revolução de 60 muito têm a perder com a divulgação desse conjunto perturbador de fatos históricos.

O mesmo se deu com a antropóloga Margaret Mead e seu famoso livro Coming of Age in Samoa (“Adolescência, sexo e cultura em Samoa”), de 1928 — uma obra que estourou na consciência ocidental “revelando” que outras culturas rejeitavam códigos tradicionais de comportamento sexual e estavam prosperando em consequência disso.

Depois de ter sido o livro de antropologia mais famoso já escrito (leitura obrigatória nas universidades de todo o mundo ocidental), mais tarde ficou provado que suas pesquisas foram mal conduzidas e eram até mesmo fraudulentas. De fato, as fontes de Margaret Mead revelaram a um professor que acompanhou suas teses anos depois que suas excitantes histórias haviam sido apenas uma piada. Ainda assim, você não verá a obra da antropóloga ser examinada criticamente na maior parte das universidades — ainda que seja ela a sustentar grande parte das atitudes de nossa sociedade em relação à chamada liberação sexual.

Dr. Bernard Nathanson, médico aborteiro que se converteu à causa pró-vida.

A rede de fraudes continuou com o aborto. O Dr. Bernard Nathanson — médico que ajudou a fundar (com líderes feministas eminentes, como Betty Friedan) a NARAL, uma associação para repelir leis contrárias ao aborto — foi uma voz fundamental para promover a maior clínica de abortos do mundo, no estado de Nova Iorque. Depois de se tornar pró-vida, como resultado de estudos avançados feitos na área da embriologia, ele revelou em uma série de memórias que o número de abortos clandestinos usado pela NARAL e o movimento abortista para defender a legalização da prática era inventado.

A informação é corroborada pelo fato de nenhuma fonte histórica confiável fornecer qualquer evidência dos números impressionantes de abortos ilegais que o establishment pró-aborto diz acontecerem nos Estados Unidos até hoje. Existem ainda dezenas de pessoas nos campi usando o argumento de que o aborto não diminui quando se torna ilegal. E por quê? Porque eles nunca aprenderam história alguma de fato, apenas a narrativa fictícia criada para o consumo público.

Esses são apenas três exemplos alarmantes de centenas que poderiam ser dadas. Nossas elites culturais — a mídia, o cinema, a academia e até muitos do establishment político — estão envolvidas demais no terrível experimento que foi a Revolução Sexual para examinar honestamente a sua história ou os seus trágicos resultados. Nossa história não é nossa. A história ensinada em praticamente todas as nossas instituições públicas não passa, na verdade, de uma ideologia.

Os revolucionários sexuais não “jogaram o livro” fora; eles reescreveram-no, porque é isso o que revolucionários sempre fazem. Isso chamou minha atenção em particular há alguns meses durante uma viagem à China. Nossa guia turística, Anna, levava a mim e a um amigo meu da Cidade Proibida, passando pela Praça de Tiananmen, até o Mausoléu de Mao Tsé-Tung, onde o falecido ditador ainda repousa em um caixão de vidro. Depois de escutá-la exaltando por horas o ditador, perguntei-lhe como era possível que ela acreditasse que Mao havia sido bom para a China quando, segundo algumas estimativas, ele foi responsável pela morte de quase 70 milhões de pessoas. Primeiro ela se irritou e depois ficou agitada. Informou-me que Mao havia sido um “grande líder” e concluiu nossa discussão anunciando que “negar Mao seria como negar o Partido Comunista”! E, com isso, a verdade histórica foi facilmente descartada por obrigação ideológica.

A fim de entender a insanidade sexual e a carnificina que tomaram conta de nossa cultura em praticamente todas as frentes, é preciso devolver à história o seu lugar de honra. Nós temos de analisar honestamente e entender como chegamos a esse ponto. Sem isso, sequer começaremos a tomar consciência do que nos cabe fazer. Precisamos armar nossos filhos e as futuras gerações com a verdade do que realmente aconteceu na história, e com o porquê de nós acreditarmos no que acreditamos.

É precisamente isso o que me disse Ted Byfield, agora em seus 80 anos, quando lhe perguntei o que os mais jovens poderiam fazer para começar um processo de renovação cultural. Ler história com urgência, disse-me. As pessoas ficarão impressionadas quando descobrirem o que realmente aconteceu — “elas ficarão surpresas com as coisas completamente sem sentido que fizemos no século passado; o que precisa ser enfatizado em nossa geração é a descoberta do que aconteceu; em outras palavras, é preciso entrar em contato com a história.”

À medida que as pessoas fizerem isso, finalmente as coisas começarão a fazer mais sentido.

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Os filhos abortados do rock n’roll
Sociedade

Os filhos abortados do rock n’roll

Os filhos abortados do rock n’roll

Eles se devotaram a pregar e viver sob o lema “sexo, drogas e rock n’roll”. Mas quase ninguém fala do que acontecia na manhã seguinte, quando era hora de arcar com as consequências dos próprios atos.

Jonathon van Maren,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Outubro de 2018
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Há uma tragédia que acontece unicamente com o aborto. Trata-se de um procedimento que cruelmente dá fim à vida de um pequeno bebê, mas cuja feiúra quase nunca se dá a olhos vistos. A criança fica viva por apenas alguns instantes, mas frequentemente deixa um vazio enorme, que invade as profundezas dos que descartaram a vida daquele pequenino para o outro mundo. Sua ausência deixa perguntas impossíveis de ser respondidas: “Quem eu seria? Quanto você teria me amado? Quem eu poderia ter sido para você?”

Essas questões deixaram marcas na literatura norte-americana, permearam as canções de artistas angustiados, e a grande lacuna do que poderiam ter sido essas crianças tornou-se praticamente onipresente na arte dos cantores e escritores de nossos tempos rebeldes. Em poucos lugares isso é tão verdadeiro quanto nas biografias dos cantores responsáveis pela trilha sonora das assombrosas mudanças sociais do último século, aqueles que proclamaram sua fé na tríade “sexo, drogas e rock n’roll.

As estrelas do rock, que caíram nas graças de milhões de fãs apaixonados, tiveram de pagar um preço por suas tentativas de viver uma “eterna juventude” — ainda que, na maior parte das vezes, tenham sido suas mulheres e filhos as maiores vítimas de suas irresponsabilidades.

Elvis Presley.

Joyce Bova abortou um filho de Elvis Presley sem lhe contar nada — à época, ele ainda estava casado com Priscilla, a quem o astro abandonou depois de ela dar à luz sua única filha viva até hoje. Elvis tinha uma política pessoal hedionda de descartar mulheres se elas engravidassem.

O filho de Bob Dylan com Suze Rotolo foi abortado em 1963, e o evento trágico foi um catalisador para o fim do relacionamento dos dois, um ano depois.

Eric Clapton supostamente teria forçado sua namorada Lory Del Santo a abortar o único filho dos dois, Conor, e embora ela tenha se recusado a fazê-lo, o garotinho morreu com quatro anos, depois de despencar de um arranha-céus em Nova Iorque.

Não surpreende que os abortos estivessem em alta demanda entre os altaneiros canarinhos dos anos 60 que cruzavam continentes, cantando odes à liberdade pessoal pela qual alguém, em algum lugar, teria de pagar.

Janis Joplin passou por um aborto mal feito em Tijuana, no México, mas ainda assim decidiu tornar-se, depois, benfeitora da mesma clínica ilegal.

Suzi Quatro, uma das poucas artistas femininas de sucesso prolongado no rock, era constantemente torturada pelo aborto que fizera depois de engravidar de um executivo musical casado. Apesar de sua carreira, ela não conseguia escapar da consciência de suas raízes ítalo-católicas, e o bebê espreitava as arestas de seus pensamentos por décadas. “Aquilo nunca foi embora”, ela observava com tristeza. “Quando meus dois filhos nasceram, eu não conseguia tirar da minha cabeça quem aquele primeiro bebê poderia ter se tornado. Ele ou ela teria 46 anos agora. Qualquer mulher que tenha passado por um aborto e diga a você que não foi nada, está mentindo.”

A ética pró-vida de imigrantes católico-italianos nem sempre conseguiu segurar a todos, infelizmente. A mãe de Frank Sinatra, por exemplo, trabalhou como parteira e fornecia abortos clandestinos “seguros” para mulheres em Hoboken, Nova Jersey. Ela ganhou um registro criminal por seus esforços, tendo sido presa pelo menos duas vezes por cometer abortos ilícitos. Depois, pelo menos dois de seus netos também morreriam nas mãos de aborteiras — Ava Gardner provocou dois abortos ao longo de seu casamento com Frank Sinatra. O casamento dos dois era tumultuado, repleto de ciúmes e explosões de raiva, e Ava diria depois que não queria trazer filhos para a instabilidade do relacionamento que tinham os dois. O cantor teria ficado de coração partido ao descobrir os filhos que ele nunca chegou a conhecer.

Mesmo antes da era “sexo, drogas e rock n’roll”, o aborto era uma prática comum entre as estrelas musicais norte-americanas.

Ray Charles.

Uma amante da lenda dos R&B, o cego Ray Charles, revelou ter abortado um filho dos dois depois de um caso, quando ele ainda era casado com Della Robinson. Mas a amante nunca contou isso ao astro.

Inúmeros biógrafos apontam que a infertilidade da lenda do jazz Ella Fitzgerald era certamente devido a um aborto no passado.

A cantora do mesmo gênero Billie Holiday contou a um escritor de um aborto caseiro agonizante que ela foi obrigada por sua mãe a fazer ainda jovem.

A atriz Judy Garland foi forçada a realizar um aborto por um estúdio de cinema, pois, eles diziam, a maternidade arruinaria o aspecto doce e inocente que lhe tinha feito render tanto dinheiro.

Quando Tina Turner descobriu que seu abusivo marido Ike havia engravidado uma amante ao mesmo tempo que a ela… a cantora abortou o próprio filho.

Em meio aos jogos sujos de infidelidade que aconteciam nas elites musicais, eram seus filhos que “pagavam o pato”. Audrey Mae Sheppard, a primeira esposa da lenda do country Hank Williams, começou sua própria série de affairs para competir com as infidelidades do marido. Quando ficou grávida em 1950 — ninguém sabia se o filho era de Hank ou não —, ela teve um aborto ilegal em casa, e acabou parando em um hospital com uma infecção. Hank apareceu com presentes e tentou cobri-la de afeto, ao que ela respondeu com xingamentos, acusando-o de tê-la feito passar por aquela situação e rompendo com ele. Pouco tempo depois, Hank Williams escreveu uma música sobre tudo isso e intitulou-a Cold, cold heart (“Coração gelado”). O cantor morreu três anos depois com apenas 29 anos.

Patsy Cline, outra lenda country de curta duração, que morreu aos 30 em um trágico acidente de avião, também teve um aborto.

Steven Tyler e Julia Holcomb.

Como sempre, o aborto traz consigo o remorso e a dor pelos filhos ausentes e mudos, descartados antes que fosse possível descobrir quem eles realmente seriam.

Julia Holcomb, a jovem tiete que conheceu Steven Tyler, da banda “Aerosmith”, nos bastidores de um show de rock, embarcou em um vicioso relacionamento de três anos com o cantor. O caso dos dois quase virou casamento, mas terminou com o aborto do filho que eles conceberam juntos. Foi o amigo de Steven, Ray Tabano, que o convenceu em 1975 que um aborto era a única solução, e a experiência marcou-o permanentemente. “Foi uma grande crise”, escreveu o vocalista em sua autobiografia. “Convenceram-nos de que aquilo jamais daria certo, que iria arruinar nossas vidas.”

Mais tarde, seria do aborto, e não do filho, que o casal se arrependeria. Steven Tyler descreveu com horror o ato de ter visto o aborto acontecer. O bebê já estava com cinco meses. “Você vai ao médico, eles colocam a agulha na barriga dela, apertam aquele negócio (injeção salina) e você assiste. E a criança sai morta. Eu fiquei bem devastado. Na minha mente eu dizia: o que foi que eu fiz?” Julia depois escreveu que o bebê nasceu vivo e foi deixado para morrer.

Ray Tabano, o amigo que havia convencido Steven de que o aborto era a coisa certa a se fazer, admitiu que o impacto de tudo não foi como ele previra. “Eles tiveram um aborto e isso realmente deixou Steven perturbado”, contou o amigo. “Ele viu tudo acontecer e isso o perturbou por muito tempo.” Julia Holcomb se mudou com seus pais dois anos depois, e nunca mais falou com Steven. Ela agora é casada, tem seis filhos e é uma sólida defensora da causa pró-vida.

Testemunhar com os próprios olhos o que o aborto faz na realidade, como aconteceu com Steven Tyler, pode resultar, em muitos casos, numa incredulidade repulsiva. O grupo “Sex Pistols” chegou a gravar uma música aterrorizante sobre o aborto, baseada em uma fã que os acompanhava e havia realizado vários abortos. Diz uma das histórias que a mulher foi à porta da casa de John Lydon, vocalista da banda, segurando um bebê abortado dentro de um saco plástico transparente — em sua autobiografia, ele descreve a mulher, chamada Pauline, contando-lhe os abortos por que passou em todos os seus excruciantes detalhes.

O cantor satânico Marilyn Manson, por outro lado, que procurou transformar toda a sua vida em uma obra de arte que celebrasse a morte, descreveu o aborto de seu filho com tranquilidade e até com prazer em um de seus livros:

Os médicos introduziram na cérvix de Missi (Melissa Romero, namorada do cantor na década de 90) uma haste do tamanho de um palito de fósforo, com dois pequenos filamentos saindo para fora na parte de cima, dilatando o colo antes de arrancar o cérebro de nosso filho com um fórceps.

O perverso ato de Manson de celebrar a decapitação do próprio filho não é a norma. Ainda que as estrelas do mundo da música sejam em grande parte favoráveis ao aborto, suas biografias revelam com clareza o dano causado pela prática. Sharon, esposa de Ozzy Osbourne e que teve um aborto aos 17 anos, conta:

Foi a pior coisa que eu já fiz… Eu fui sozinha. Estava aterrorizada. O lugar estava cheio de outras jovens mulheres, e todas nós estávamos aterrorizadas, olhando umas para as outras, e ninguém era capaz de dizer uma palavra sequer. Eu gritava o tempo todo, e foi horrível. Eu não recomendaria isso jamais, a ninguém, porque é algo que volta para te assombrar. Quando tentei ter filhos, perdi três — acho que porque algo aconteceu com o colo do meu útero durante o aborto.

Até mesmo o rapper Eminem, conhecido por suas letras de música brutais e assassinas, compôs uma música que assumiu a forma de uma confissão detalhada de um aborto e do mal que havia sido feito a um “pequenino”.

Os exemplos são infindáveis. Anita Pallenberg foi forçada a fazer um aborto por seu namorado, Keith Richards, dos “Rolling Stones”, para que ela pudesse estrelar em um filme no qual eles estavam trabalhando. A cantora Sinitta Malone já falou de um aborto terrível que ela teve nos anos 80 depois de conceber um filho com o magnata da música Simon Cowell — aborto que, ela conta, deixou ambos “devastados”.

Mesmo Madonna, uma apoiadora clamorosa do aborto, admite ter se arrependido do aborto por que passou quando sua carreira estava começando. “Você sempre se arrepende quando toma esse tipo de decisão”, ela contou à revista “Time” em 1996, “mas você precisa olhar para o seu estilo de vida e se perguntar: ‘Será que eu estou numa posição da minha vida em que eu posso devotar tempo para ser realmente o bom pai e a boa mãe que eu gostaria de ser?’”

A declaração de Madonna resume com franqueza a situação. Ainda que muitos cantores e estrelas do rock se arrependam dos abortos que praticaram, causaram ou financiaram, seus estilos de vida normalmente eram (e ainda são) incompatíveis com filhos. A verdade nua e crua é que promiscuidade geralmente acaba em gravidez, e bebês são um fardo para os que se gabam das alegrias da Revolução Sexual em seus microfones, diante de multidões barulhentas, pulando, repletas de jovens com os hormônios à flor da pele e querendo se divertir.

“Sexo, drogas e rock n’roll” — mas ninguém fala do que acontece na manhã seguinte, quando é hora de pagar o preço do que se fez. A ressaca bate, o traficante quer seu dinheiro e o teste de gravidez dá positivo. O que acontece em seguida? Como os bebês esquartejados do cenário musical norte-americano nos falam sem dizer nada, o aborto vem depois — e as crianças são reduzidas a uma mera “sujeira de sangue”. As músicas então dão lugar ao silêncio, e o vazio da perda é avassalador o bastante para engolir vidas inteiras.

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Pecado mortal, inferno antecipado
Espiritualidade

Pecado mortal, inferno antecipado

Pecado mortal, inferno antecipado

“Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará.”

Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Outubro de 2018
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Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, amados e muitos queridos irmãos em Cristo Jesus, eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Deus, vos escrevo e conforto no precioso sangue do seu Filho, desejosa de vos ver como verdadeiros filhos, sempre vivendo no autêntico e santo temor de Deus, de maneira que jamais desprezeis o sangue de Cristo.

Muito ao contrário, vós deveis desprezar e abominar o pecado mortal, que ocasionou a morte do Filho de Deus. De fato, bem merece repreensão quem entrega o próprio corpo à maldade e à impureza. Pensando na perfeita união de Deus com a humanidade, meus queridos irmãos, quero que isso não aconteça convosco. Especialmente tu, Vanni! Põe tua alma diante dos olhos, bem como a brevidade. Lembra-te de que deves morrer e não sabes quando. Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará. Mas convido os três a sacrificar os próprios corpos e a aceitar morrer por Cristo crucificado (na Cruzada), se for preciso. Antes disso, até que chegue a hora, quero que sejais santamente virtuosos confessando-vos e alegrando-vos sempre em ouvir a Palavra de Deus. Porque, como o corpo não pode ficar sem o alimento, também a alma não pode ficar sem ouvir a Palavra de Deus. Cuidado com os maus companheiros, pois seriam um obstáculo ao bom propósito.

Nada mais acrescento. Queridos e bondosos irmãos em Cristo Jesus, permanecei no santo e doce amor de Deus [1].

Como muitos outros grandes santos e místicos da Igreja, Santa Catarina de Sena escolheu passar a vida no meio do mundo. Ela estava imersa em Deus, sim, mas justamente por amor a Ele, vivia “com as mãos na massa”, entregando-se ao apostolado, levantando as pessoas à sua volta e levando-as à comunhão com o Deus que ela mesma havia encontrado. A carta acima, aqui transcrita na íntegra, é apenas um exemplo das muitas correspondências que ela escreveu alertando seus filhos espirituais do perigo do pecado mortal.

Nesta carta em especial, a santa fala da importância de “desprezar e abominar o pecado mortal, que ocasionou a morte do Filho de Deus”.

Quando pecamos mortalmente — isto é, quando nos afastamos gravemente da lei de Deus querendo e sabendo o que estamos fazendo —, é como se serrássemos o próprio galho em que estamos sentados: o pecado grave corta nosso relacionamento com o autor da vida, com o sustentador do nosso ser, com Aquele que nos concede todas as graças de que precisamos. De modo que — é o que sempre ensinou a Igreja e é o que repete Santa Catarina nesta carta — se morrêssemos nessa condição, nosso destino eterno seria o inferno: “Como seria triste a morte, se então te encontrasses em pecado mortal. Por um triste prazer, perderíamos um grande bem, que é a presença de Deus pela graça e, por fim, a vida eterna, que jamais acabará.”

Ao que tudo indica, Santa Catarina escrevia a uma pessoa que já tinha fé católica. Hoje, porém, antes de recomendar às pessoas que se arrependam de seus pecados e procurem um padre para se confessarem, é necessário que primeiro elas creiam! Precisamos nos convencer de que, como diz Nosso Senhor no Evangelho, “se alguém não permanecer em mim, será lançado fora”, “secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo e será queimado” (Jo 15, 6). As mil justificativas que nossa cabeça tenta arrumar para pecarmos — ou pior, para vivermos afundados na lama do pecado — não passam de tentações e precisam ser afastadas sem demora. O que está em jogo é nossa salvação eterna.

Mas o inferno de quem vive em pecado mortal se antecipa, de certo modo, já nesta vida. O martelo do “Rei de tremenda majestade” nem sentenciou ainda a alma ao inferno, e ela já sofre nesta vida as terríveis consequências de seu alijamento de Deus. A começar pelo fato de que, quando cai no pecado, a primeira coisa que costuma fazer o pecador é deixar a vida de oração.

Se estivesse realmente disposto a sair do buraco em que se enfiou — ou seja, se visse no pecado que cometeu o que ele deveria ser de fato: uma queda, após a qual é preciso levantar-se rápido, sem demora —, o pecador não tardaria a se pôr de joelhos, suscitar em seu coração um arrependimento vivo de sua culpa e suplicar o perdão divino pelo que fez. Mas não… ele prefere voltar as costas a Deus e levar a vida como se nada tivesse acontecido, adiando sua Confissão e conversão verdadeira para “amanhã, semana que vem ou mês que vem, quem sabe”…

Nessa toada, os dias de quem vive no pecado mortal se transformam ou em remorso ou em falta de fé. Ou a pessoa sente constantemente os “remordimentos” de sua consciência, chamando-a de volta para o caminho que abandonou, ou faz calar essa incômoda voz e deixa de acreditar em Deus, no pecado e no inferno, abraçando de uma vez a falsa paz do mundo. Assim é o inferno antecipado dos que perderam a graça de Deus: estão condenados ou à amargura ou à infidelidade, ou à desobediência ou ao ateísmo, ou a viver fugindo ou a viver negando a Verdade.

Para não cairmos nessa tragédia, é preciso que fortaleçamos a nossa fé: em Deus, em Cristo e na Igreja, sim, mas também no pecado, porque há muitos hoje na Igreja que dizem crer em Deus, mas que, ao mesmo tempo, perderam completamente a noção do pecado.

Não aconteça isso conosco! Coloquemos de uma vez por todas em nossa cabeça que o pecado mortal não é um simples acidente de percurso… Não, ele é o desviamento total da rota, é o veículo que deu perda total e do qual precisamos sair o quanto antes, antes que exploda, ainda que tenhamos fazer o caminho a pé, vivendo em constante penitência por nossos erros.

Quem caiu, portanto, levante-se logo e passe a viver o quanto antes “no autêntico e santo temor de Deus”. Não venhamos a desprezar, com nosso proceder, o preciosíssimo sangue de Cristo, derramado no madeiro para nossa salvação. Trabalhemos em nossa conversão com a urgência que essa obra reclama.

Referências

  1. Santa Catarina de Sena, Carta 157, “Conselho aos jovens”. In: Cartas Completas (trad. de João Alves Basílio). São Paulo: Paulus: 2016, pp. 524-25.

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Se Cristo andava com os pecadores, por que nem todos podem comungar?
Doutrina

Se Cristo andava com os pecadores,
por que nem todos podem comungar?

Se Cristo andava com os pecadores, por que nem todos podem comungar?

Se Jesus Cristo comia e bebia com os pecadores durante sua vida pública, por que nem todos podem comungar do Corpo e Sangue de Nosso Senhor na Eucaristia?

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Outubro de 2018
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Quem nunca ouviu versículos bíblicos sendo usados para a defesa de opiniões as mais disparatadas? Há alguns anos, em um vídeo que viralizou na internet, o Fantástico exibia o caso de um pastor protestante que, a partir de um versículo mal lido de Oséias, tinha chegado à conclusão (!) de que deveria “adulterar” uma fiel de sua igreja.

É claro que esse exemplo chega às raias do ridículo, mas serve para nos recordar como o ser humano pode distorcer e abusar do que Deus colocou à sua disposição. Antes de pensarmos, por exemplo, que uma citação da Escritura seja suficiente para legitimar uma posição qualquer, lembremo-nos que o próprio Satanás serviu-se de passagens sagradas fora de seu contexto para tentar Jesus no deserto (cf. Mt 4, 1-11; Mc 1, 12-13; Lc 4, 1-13).

Pois bem, assim como o inimigo de Deus conhece as Escrituras, também os inimigos da Igreja as conhecem, e até nosso orgulho ou vaidade pode se servir mal desse instrumento divino, fazendo com que nos iludamos ou, até pior, que façamos a cabeça de outras pessoas.

Um argumento muito comum, por exemplo, usado para justificar na Igreja o acesso indiscriminado à Sagrada Comunhão, ou até mesmo para defender uma vida de pecado, é o de que “Jesus comia e bebia com os pecadores”. — Se Ele se sentava à mesa com publicanos e pecadores públicos, se andava com eles e até se deixava tocar por eles, como aquela hemorroíssa que ficou curada apenas por encostar na orla de seu manto… quem seríamos nós, ou até: quem é a Igreja (quem são os padres!?) — diz-se com ares de orgulho — para dizer a este ou aquele pecador que não deve se aproximar da Comunhão, ou que não deve fazer tal e tal coisa?

À parte o fato de que Nosso Senhor, falando aos Apóstolos, disse: “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10, 16), e ainda: “Tudo o que ligardes na terra será ligado nos céus” (Mt 18, 18) — e por isso a Igreja tem toda autoridade para regular as coisas espirituais —, o argumento de que Jesus andava com pecadores (e, portanto, todos podem comungar) parece poderoso aos que o escutam pela primeira vez, mas é falho. E é Santo Tomás de Aquino que identifica o erro e resolve o problema, em sua Suma Teológica (cf. III, q. 80, a. 4, ad 1):

Quando Cristo aparecia no seu aspecto próprio, não se deixava tocar pelas pessoas como sinal de uma união espiritual com ele, como é o caso na Eucaristia. Por isso, os pecadores, que o tocavam na sua própria figura, não cometiam nenhum crime de falsidade a respeito das realidades divinas, como o fazem os pecadores que comungam.

Cristo então estava ainda na “condição da nossa carne de pecado”. Era natural, pois, que ele se deixasse tocar pelos pecadores. Ora, tendo sido afastada a “condição da nossa carne de pecado” pela glória da ressurreição, ele proíbe de tocá-lo à mulher que mostrava falta de fé a respeito dele: “Não me retenhas, pois eu ainda não subi para o meu Pai” (Jo 20, 17), a saber, “no teu coração”, como Agostinho explica. Assim, os pecadores, que carecem da fé formada a respeito de Cristo, devem ser afastados da comunhão.

O argumento colocado pelo Aquinate é muito simples: tocar em Cristo é diferente de unir-se a Ele, assim como uma mulher casada pode ter contato com muitas pessoas, mas só com o seu marido ela mantém um relacionamento íntimo. É claro que Deus não nega a ninguém as suas graças; o que acontece na Comunhão sacramental, porém, envolve uma comunhão anterior, interna, de alma; sem isso, o ato de receber o Corpo e Sangue de Nosso Senhor não passará de uma “simulação”, de uma falsidade. É como quem dá um beijo, sinal de amor, mas por dentro não ama realmente aquele a quem beija. Como fez Judas.

A Comunhão não pode ser recebida por todo o mundo, portanto, não por um defeito da misericórdia divina, mas por uma falta de preparação adequada por parte do homem. Digno de receber este Santíssimo Sacramento ninguém o será plenamente, é verdade, mas desde sempre a Igreja exigiu dos fiéis um mínimo, sem o qual o ato de comungar não só deixa de produzir frutos, como se torna “causa de juízo e condenação”: “Todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente”, diz o Apóstolo, “será culpável do corpo e do sangue do Senhor” (1Cor 11, 27).

O chamado estado de graça faz parte desse “mínimo” necessário para receber a Sagrada Comunhão. Por isso, todos os que têm consciência de haver cometido um pecado mortal — isto é, de terem transgredido os Mandamentos em uma matéria grave, com plena consciência e deliberação (sabendo e querendo) — “devem ser afastados da comunhão”. Com essa expressão, Santo Tomás está falando, evidentemente, de um juízo que cada fiel em particular deve fazer antes de entrar na procissão da Comunhão: “Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma desse pão e beba desse cálice” (1Cor 11, 28).

Isso não exclui, porém, a possibilidade de os ministros da Igreja negarem a Santa Eucaristia a fiéis que estejam em pecado público, como políticos que sejam manifestamente favoráveis ao aborto ou pessoas que estejam em uma situação de vida que contradiga de modo notório a doutrina da Igreja sobre o Matrimônio. O próprio Aquinate comenta essa questão em sua Suma (cf. III, q. 80, a. 6) e o Código de Direito Canônico prevê claramente que “não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto” (cân. 915).

Talvez surpreenda a muitos esse modo de agir, e alguns até acusem a Igreja de querer “excluir” as pessoas. A esses, é sempre oportuno lembrar as duras palavras que Cristo dirigia aos fariseus, chamando-lhes “hipócritas”, “raça de víboras” e “filhos de Satanás”. Quando a Igreja manda que seus filhos comunguem com responsabilidade, prestando atenção à grandeza dAquele que recebem na Eucaristia, ela procura prevenir-nos justamente desse “fermento dos fariseus”, que fazem consistir sua religião mais em ritos externos do que em um impulso do coração; que querem mais aparecer diante dos homens do que fazer a vontade de Deus.

Porque, afinal de contas, o que importa não é se estamos comungando ou não nas Missas de domingo; se estamos fazendo novenas ou rezando muitos terços; se estamos pagando o dízimo à risca ou se somos católicos “de carteirinha”... Tudo isso é muito importante, sim, mas deve ser precedido de uma relação verdadeiramente íntima com Deus, na oração e no cumprimento dos Mandamentos — em uma conversão radical, que brote do interior.

Sem isso, “ainda que toquemos mil vezes o Corpo do Senhor”, como diz S. João Crisóstomo, jamais entraremos realmente comunhão com Ele.

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