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“A pornografia é a teoria, o estupro é a prática”
Sociedade

“A pornografia é a teoria,
o estupro é a prática”

“A pornografia é a teoria, o estupro é a prática”

Os homens não nascem estupradores, mas, por algum motivo, muitos deles tendem cada vez mais a justificar a violência sexual. Por quê? Porque a pornografia transformou o corpo de mulheres e meninas em mercadoria.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Maio de 2019
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“A pornografia é a teoria”, escreveu certa vez a conhecida feminista Robin Morgan, “o estupro é a prática”.

De fato, as feministas em geral costumavam pensar que a pornografia, na melhor das hipóteses, era algo desumano e degradante, um produto criado por homens e para homens que retratava as mulheres como meros objetos de desejos masculinos; na pior das hipóteses, era a celebração violenta da destruição do feminino, em que as mulheres eram espancadas, estupradas, humilhadas e, em todo caso, agredidas para satisfazer os prazeres perversos de misóginos que afirmavam ser um “fetiche” o seu ódio às mulheres.

Hoje, porém, espera-se que as feministas sejam “pró-sexo”, o que significa que elas têm de apoiar a pornografia, pois seria inútil opor-se aos mais de 80% da população masculina que a consomem.

Lembro-me de um debate sobre pornografia durante uma de minhas primeiras aulas de ciência política na universidade: na classe inteira, apenas eu e um outro colega nos opomos à pornografia. A maioria dos rapazes permaneceu sentada, em silêncio, numa tentativa de não interferir na discussão, ao passo que eram algumas das alunas as mais ferozes defensoras desta imundície; era como se elas tivessem que provar alguma coisa.

A pornografia — diz o nosso novo dogma sexual — é inofensiva, senão benéfica. E quando comecei a afirmar em alguns artigos meus que a pornografia promove a “cultura do estupro”, a reação dos homens que não conseguem abandoná-la foi rápida e agressiva.

Por isso, comecei a entrar em contato com especialistas na área, com pessoas que estudaram o impacto da pornografia em homens e mulheres. A entrevista mais reveladora e chocante que já fiz foi com a dr.ª Mary Anne Layden, diretora do Programa de Trauma Sexual e Psicopatologia, do Departamento de Psiquiatria da Universidade da Pensilvânia. Já tive ocasião de citar o trabalho dela sobre pornografia e violência antes, e quis descobrir em primeira mão o que os seus estudos tinham revelado.

— Quando — perguntei à dr.ª Layden — começaram seus estudos sobre a relação entre violência e pornografia?

— Quando comecei a atuar como psicoterapeuta há cerca de 30 anos — respondeu —, comecei a tratar pacientes que tinham sido vítimas de violência sexual, e senti-me particularmente tocada pelos danos que a violência sexual nelas tinha causado. Depois de mais ou menos 10 anos atuando na área […], finalmente percebi que jamais tinha tratado um único caso de violência sexual que não envolvesse pornografia… Alguns casos eram de estupro, outros de incesto, outros de abuso infantil, outros de assédio sexual; mas, apesar da diversidade de casos, a pornografia estava presente em cada um deles. Assim, pareceu-me haver ali alguma relação. Com o passar do tempo, comecei a me interessar pelos aspectos comuns aos criminosos sexuais, porque me dei conta de que jamais resolveríamos o problema da violência sexual tratando, uma por uma, as vítimas que foram atingidas por ele. Não havia terapeutas suficientes no mundo; mas havia, isso, sim, demasiadas vítimas no mundo. Não podíamos resolver isto tratando cada vítima em particular; era necessário ver as coisas de cima e descobrir qual era a causa geral do problema.

E, como a dr.ª Layden descobriu, era a indústria pornográfica que estava por trás de tudo. “Os homens não nascem estupradores”, disse-me ela. Mas, por algum motivo, muitos deles tendem cada vez mais a justificar a violência sexual. Por quê? Porque a pornografia transformou o corpo de mulheres e meninas em mercadoria. A pornografia está moldando a forma como os homens vêem as mulheres.

— Trata-se de um produto — disse enfaticamente a dr.ª Layden. — É todo um negócio, e creio que muitos rufiões deixariam de o fazer se não houvesse dinheiro envolvido; mas se trata de um negócio, e a partir do momento que se diz que isso é um produto, que é algo que se pode comprar, então é algo que também se pode roubar. As duas coisas estão entrelaçadas: se você pode comprá-lo, pode também roubá-lo, e é até “melhor” que o roube, porque não será necessário pagar por ele. Assim, a indústria da exploração sexual, seja um clube de strip, seja a prostituição ou a pornografia, é onde você o compra; a violência sexual (o estupro, o abuso, o assédio) é onde você o rouba. Estas coisas estão indissoluvelmente ligadas. Não há maneira de traçar uma linha de demarcação clara entre o estupro e a prostituição, entre a pornografia e o abuso de menores. Não há linhas claras de separação. Os que praticam essas coisas possuem um conjunto comum de crenças, e quando analisamos os resultados da pesquisa podemos distinguir algumas delas. Desta forma, sabemos que os indivíduos que se expõem a conteúdos pornográficos costumam pensar, por exemplo, que as vítimas de estupro “gostam” de ser estupradas; que elas “não sofrem muito” quando são violentadas; que “elas receberam o que queriam”; que as mulheres inventam acusações falsas de estupro, porque o estupro, na verdade, não existe (o sexo é bom ou ótimo, e não há meio termo); que ninguém fica realmente traumatizado depois da experiência etc. Todas essas ideias fazem parte do “mito do estupro”, e quem consome pornografia aceita o “mito do estupro” em grau muito superior às outras pessoas. Por isso, temos a impressão de que a pornografia as está ensinando a pensarem como um estuprador e agirem como um.

A pornografia, como todo produto, fez do corpo feminino o que a economia sempre faz com qualquer produto: se algo se torna mercadoria, acaba perdendo valor. É simples assim. Mas quando a estratégia de mercado consiste em inflamar a luxúria e apelar para o poder de degradar as mulheres, os resultados são devastadores. Como a dr.ª Layden afirmou em nossa entrevista, nós deixamos inclusive de nos ver como seres humanos.

— Quando você deprecia o corpo das mulheres — continuou ela —, quando você trata as pessoas como coisas, há consequências, e uma delas é a violência sexual, e outra consequência é também a deterioração dos relacionamentos. Existe uma série interessante de estudos que joga um pouco de luz sobre como se dá esse fenômeno. Os pesquisadores mostraram aos voluntários algumas imagens de conteúdo levemente sexual, de homens e mulheres em trajes de banho ou apenas com a roupa de baixo. As imagens eram vistas de cabeça para baixo e de cabeça para cima, e depois os pesquisadores observavam os processos que tinham lugar no cérebro dos voluntários, porque isto permite determinar que parte do cérebro é utilizada para processar a visualização de determinadas imagens. O que vemos com os homens é que, quando as pessoas olham para um deles, e o veem em traje de banho ou só com a roupa de baixo, elas usam a parte do cérebro que processa rostos humanos; mas quando olhamos para mulheres em traje de banho ou só com a roupa de baixo, usamos a parte do nosso cérebro que processa instrumentos e objetos, e quando você processa uma mulher como um instrumento ou objeto, a tendência é utilizá-lo. As regras de que nos servimos quando lidamos com instrumentos ou objetos diz que, se eles não estão cumprindo a sua função, é melhor jogá-los fora e procurar outros. As feministas diziam anos atrás que os homens estavam tratando as mulheres como objetos sexuais, e pensávamos que isso não passava de uma metáfora. Mas não era uma metáfora. Era, sim, uma descrição da realidade: os homens estavam usando a mesma parte do cérebro que utilizam para processar objetos e coisas, e há uma consequência para a sociedade quando você começa a tratar o sexo como um produto e a mulher como uma coisa.

Obviamente, os que evidenciam estes fatos e os que se opõem à pornografia são condenados como “retrógrados”, “puritanos” e “antissexo”. Quando o lembrei à dr.ª Layden, ela não se mostrou nem um pouco impressionada.

— O desejo de amor — disse ela — está incrustado em nós. Um de meus colegas disse uma vez: “O verdadeiro perigo é que isto põe a perder o amor em um mundo em que somente o amor traz felicidade”. Isso resume o que estamos fazendo, que todos estamos “programados” para amar e ser amados. É isso que alimenta o nosso coração faminto, e nós temos agora uma geração que está esfomeada e tem o coração ávido; mas o que eles têm consumido é lixo sexual, eles estão se tornando “obesos sexuais” porque é tão grande a sua fome [de amor] que estão dispostos a comer até mesmo esse lixo, se não há outro alimento disponível. Por isso, o que precisamos, em parte, são pessoas que falem sobre a beleza do sexo, sobre a maravilha do sexo, sobre como o sexo une os casais comprometidos e os ajuda a manterem suas promessas de fidelidade mútua; precisamos de pessoas que falem que existe, sim, uma sexualidade boa, que enobrece, que anima e se baseia no amor, mas que todo esse lixo sexual que aí está não é nada disso.

Que pensar, no fim das contas? Que os que se opõem à pornografia não são “antissexo”. São apenas gente sábia o bastante para reconhecer que a pornografia é veneno. Quando usada como um sucedâneo do amor, ela equivale a dar um copo de água salgada para alguém morrendo de sede: ela irá provocar ainda mais desejo, mas sem proporcionar satisfação alguma. Para a dr.ª Mary Anne Layden, isso é autoevidente, e ela pretende que o maior número possível de pessoas seja capaz de o ver assim também.

— Se eu dissesse às pessoas: “Quero que tenham uma alimentação saudável e deixem de ir ao McDonald’s”, elas não me chamariam de “anticomida”. Elas apenas diriam que eu quero promover uma alimentação saudável […]. Ora, o mesmo acontece com a sexualidade: quero promover uma sexualidade saudável, amorosa, que enobreça e alimente a alma, e não uma “sexualidade fast food”.

E como consegui-lo? Com altíssimos índices de adicção à pronografia, isso sequer é possível? A dr.ª Layden tem tantas sugestões, que é difícil resumi-las:

— Acho que deveríamos nos educar a nós mesmos; precisamos contar a verdade aos outros; cada um tem de falar a verdade porque, uma vez que sabemos de tudo isso, calar-se é tornar-se cúmplice. Precisamos ir às nossas escolas e centros de ensino e dizer aos responsáveis: “Vocês precisam proteger nossas crianças”. Precisamos exigir dos nossos governantes que impeçam a difusão de ideias como “com consentimento, vale tudo”, o que significa impedir a legalização da prostituição. Ideias como aquela dizem aos homens que a prostituição não é um problema, e assim mais e mais homens irão atrás de prostitutas. Precisamos criar leis contra o que prejudica as pessoas; é preciso que a sociedade se indigne de verdade quando um caso de violência sexual é varrido para debaixo do tapete, por ter sido cometido por uma celebridade, por exemplo. Precisamos nos reunir e ter a jornalistas, advogados e pais de mãos dadas, como um time forte, para dizer que a nossa sociedade é digna de ser salva, que as nossas crianças são dignas de ser protegidas, que a sexualidade é algo sagrado. Mas precisamos fazê-lo em conjunto, e isso exige um esforço conjunto… Quando ouço alguém dizer que não, não é possível pôr o leite derramado de volta na embalagem, digo que há 50 anos 60% dos habitantes de Nova Iorque eram fumantes, e hoje somente 18% das pessoas fumam na cidade. É possível, sim, “pôr o leite de volta na embalagem”. Nós podemos fazê-lo e vale a pena fazê-lo.

Eu, assim como a dr.ª Mary Anne Layden, não sou “antissexo”, embora não me oponha a ser chamado de retrógrado. Eu sou, contudo, totalmente “antipornografia”, e isso porque a pornografia está transformando em “retrógrados” relacionamentos saudáveis, amorosos e fiéis. Ela está roubando da geração atual a sua capacidade de aproveitar relacionamentos duradouros e felizes. É por isso que temos a responsabilidade de dar voz ao chamado da dr.ª Layden e de muitos outros especialistas a lutarmos contra o mal da pornografia, onde quer que ele se encontre. Os que afirmam que a pornografia é inofensiva estão, ao fim e ao cabo, muitíssimo mal informados.

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O canto gregoriano ressurgirá!
Liturgia

O canto gregoriano ressurgirá!

O canto gregoriano ressurgirá!

O acesso ao canto gregoriano nunca foi tão fácil para aqueles que o procuram. Por isso, o grande tesouro da música litúrgica não desaparecerá; ressurgirá novamente das cinzas à medida que a Igreja recuperar a sacralidade de seu culto.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Novembro de 2019
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Poucos documentos tiveram um impacto tão duradouro no cultivo da música sacra quanto o motu proprio de São Pio X Tra le Sollecitudini, promulgado em 22 de novembro de 1903, festa de Santa Cecília, padroeira dos músicos.

O Papa pretendia, com a escrita desse motu proprio, dar início a uma reforma geral da música sacra na vida da Igreja. Sua ideia de reforma não implicava rejeitar o passado e adotar novidades (parece que isso foi justamente o que muitos católicos pensaram ao longo dos últimos cinquenta anos), mas antes retornar de modo resoluto à fonte da Tradição e deixar que o fluxo veloz dessa água pura limpasse os resíduos acumulados em períodos decadentes. 

Ao falar em períodos decadentes, São Pio X não tinha em mente a Idade Média, a era gloriosa da Cristandade, que os liturgistas do pós-guerra consideraram, de modo geral, um distanciamento da simplicidade familiar dos primeiros cristãos. Como Pio XII viria a afirmar 44 anos depois na encíclica Mediator Dei, o Espírito Santo estimula desenvolvimentos litúrgicos em cada época como novos caminhos para santificar o povo de Deus. Tais desenvolvimentos formam uma linha contínua.

Assim, o que acontece num século posterior reforça e elabora o que já está presente in nucleo. Por exemplo, a mudança, em tempos remotos, de uma espécie de Comunhão na mão — não da maneira como é praticada hoje, como Dom Athanasius Schneider mostra cuidadosamente em seus livros Dominus Est e Christus Vincit — para a Comunhão na boca foi um desenvolvimento orgânico que surgiu da própria reverência e adoração à Eucaristia, as quais já estavam presentes e cresciam sob a influência do Espírito Santo. 

Corrupções também podem ocorrer quando uma nova característica ou prática contradiz a letra ou o espírito do que já está estabelecido. Assim, para usar o mesmo exemplo, a reintrodução da Comunhão na mão foi uma clara corrupção, não um desenvolvimento ou uma restauração. Mais importante para nosso tema: a introdução de estilos operísticos ornamentados na Missa, durante os períodos clássico e romântico, foi uma corrupção porque transformou a liturgia num concerto e a desviou de sua orientação sobrenatural.

Esta era a perspectiva de São Pio X: embora sem dúvida fosse um admirador da música de Haydn, Mozart e de compositores italianos em si mesma, considerava seu estilo inadequado para o templo de Deus e os santos mistérios representados nela. Como explica o documento Tra le Sollecitudini, Deus já havia estabelecido com generosidade uma música intensamente contemplativa para a liturgia do rito romano, a saber, o canto gregoriano, um tipo de música que cresceu de modo orgânico com esse rito, sempre o embelezou e dá o tom para toda a música sacra adequada para o templo de Deus.

Os ensinamentos de São Pio X moldaram decisivamente o magistério posterior, de seus sucessores Pio XI e Pio XII, passando pela Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, do Vaticano II, até a exortação apostólica Sacramentum Caritatis, de Bento XVI. Em todos esses documentos encontramos um reconhecimento irrestrito da primazia do canto gregoriano para o rito romano, embora composições de outros estilos sejam bem-vindas, contanto que estejam em harmonia com a ação litúrgica — algo que, infelizmente, não pode ser dito da maior parte daquilo que passa por “música de igreja” atualmente.

A nobre perspectiva de São Pio X não é irrealista ou inalcançável. Ao longo da primeira metade do século XX e durante boa parte da década de 1960, escolas de todo o mundo ensinavam canto gregoriano às crianças, sacerdotes cantavam a Missa solene (embora a Missa rezada fosse mais popular) e comunidades religiosas cantavam o Ofício Divino. O canto gregoriano era uma característica tão proeminente do catolicismo, que Hollywood criava “atmosferas católicas” instantaneamente com poucos segundos de canto. 

Talvez alguns se surpreendam com o fato de que Thomas Merton, que se tornou tão controverso no período mais tardio de sua vida, por causa de seu envolvimento com política e atividades inter-religiosas, tenha se oposto firmemente ao abandono do latim e do canto. Como disse em 1964 a Dom Inácio Gillet, Abade Geral dos Cistercienses de Estrita Observância:

Isto é o que penso sobre o latim e o canto gregoriano: são obras de arte que nos proporcionam uma experiência monástica e cristã insubstituível. Têm força, energia e profundidade sem precedentes. Todos os ofícios em inglês que foram propostos são muito pobres — além disso, não é de modo algum difícil tornar o latim e o canto compreensíveis e valorizados. De modo geral, no noviciado, sou bem-sucedido nesse quesito, naturalmente com algumas exceções, que não os compreendem bem. No entanto, tenho de acrescentar algo mais sério. Como se sabe, tenho muitos amigos artistas, poetas, autores, editores etc. Ora, eles são perfeitamente capazes de apreciar nosso canto e mesmo nosso latim. Mas todos, sem exceção, estão escandalizados e aflitos quando lhes digo que este Ofício e esta Missa provavelmente não estarão mais aqui em dez anos. Isso é péssimo. Os monges não compreendem o tesouro que possuem e o jogam fora a fim de buscar algo diferente. Os leigos, por sua vez, que na sua maioria sequer são cristãos, são capazes de amar essa arte inigualável.

A dificuldade veio, mais propriamente, de uma falsa noção de “atualização” ou modernização — perspectiva que ganhou influência lentamente e, ao fim e ao cabo, dominou a reforma litúrgica e sua implementação, segundo a qual as antigas formas de oração e modos de arte são estranhas ao homem moderno, alienantes, excessivamente rigorosas e uma tentação para o elitismo e o escapismo. Porém, esse juízo tão negativo não parece ter sido comum entre muitos católicos, que não pediram que sua herança cultural lhes fosse tirada, nem é a prática dos católicos hoje, que redescobrem essas coisas e admiram sua beleza e pertinência, como as criteriosas “pessoas do mundo” das quais Merton fala. 

A vida nos faz lembrar repetidas vezes da verdade contida neste ditado de Chesterton: “O ideal cristão não foi experimentado e considerado deficiente. Descobriram que ele era difícil e o deixaram de lado.” Peço licença ao grande homem para adaptar sua afirmação: O ideal gregoriano para a música litúrgica não foi experimentado e considerado deficiente. Descobriram que ele era difícil e o deixaram de lado. Porém, mesmo neste caso podemos questionar seu grau de dificuldade. 

Sim, os próprios (cantos variáveis para domingos específicos ou festas) são bastante desafiadores e requerem uma schola treinada. Porém, o Ordinário da Missa — Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus, Agnus Dei — e as respostas comuns podem e são frequentemente cantadas com gosto por todos, inclusive as crianças, que reproduzem intuitivamente o que escutam. Por trabalhar há 30 anos como diretor de coral juvenil e por ter ensinado canto e trabalhado com pessoas que o ensinaram a todo tipo de gente, conheço a realidade: descobriram que ele era indesejado e o deixaram de lado. Sempre que é desejado, o gregoriano prospera e beneficia a todos.

O acesso ao canto gregoriano nunca foi tão fácil para aqueles que o procuram. Todos os antigos livros de canto litúrgico foram reeditados; todos os livros da Abadia de Solesmes para a forma ordinária ainda estão disponíveis; com um clique é possível escutar online ou imprimir a maioria dos cânticos; tutoriais gratuitos podem orientar a auto-aprendizagem, e oficinas com grande assistência ocorrem anualmente. O grande tesouro da música litúrgica não desaparecerá; ressurgirá novamente das cinzas à medida que a Igreja recuperar a sacralidade de seu culto.

Embora haja sinais promissores de que a música litúrgica católica, após décadas de secularização lucrativa e banalidade horizontal, esteja começando a passar por uma verdadeira renovação em continuidade com a Tradição da Igreja, a forma como a música é executada na maioria das paróquias indica que ainda estamos longe de uma implementação universal dos sólidos princípios de São Pio X. De acordo com muitos estudiosos, a principal característica da modernidade é seu “profundo pluralismo”, e essa mentalidade parece existir entre católicos no que diz respeito ao culto litúrgico: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, seguíamos cada qual nosso caminho” (Is 53, 6). 

Que as orações de Santa Cecília e São Pio X nos inspirem a venerar novamente “o ícone musical do catolicismo romano” (Joseph Swain), para a glória de Deus e a santificação das almas.

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Deus me vê, mas e eu?
Espiritualidade

Deus me vê, mas e eu?

Deus me vê, mas e eu?

Considerar a presença de Deus é um chamado constante à retidão de vida. Se Ele está sempre comigo, então devo ser sempre fiel, pronto para cumprir com sua vontade a todo momento… Sem “descanso”.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Novembro de 2019
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E se tivéssemos permanente consciência de que Deus está a nos olhar o tempo todo, aonde quer que vamos? 

É com o coração exultante que o autor dos Salmos meditava sobre esse mistério. Todo o Salmo 138, por exemplo — “Senhor, vós me sondais e conheceis, sabeis quando me sento ou me levanto…” —, não passa de um grande louvor à onisciência e onipresença divinas. O porquê de louvá-las, é o próprio salmista quem no-lo apresenta, ao finalizar com estes versos: “Senhor, sondai-me, conhecei meu coração, examinai-me e provai meus pensamentos! Vede bem se não estou no mau caminho, e conduzi-me no caminho para a vida!” (v. 23-24). Noutro lugar o salmista dirá, já não em forma de súplica, mas em tom declaratório: “Tenho sempre o Senhor ante meus olhos, pois se o tenho ao meu lado não vacilo!” (Sl 15, 8). 

Ou seja, considerar a presença de Deus é um chamado constante à fidelidade, à retidão de vida, à vigilância. Se Ele está sempre comigo, se em lugar algum posso me ocultar de seu espírito, se não há lugar para onde fugir de sua face (cf. Sl 138, 7), então devo ser sempre fiel, preocupar-me em agir retamente o tempo todo, estar pronto para cumprir com sua vontade a todo momento… Sem “descanso”.

Mas entenda-se bem: qual o conceito que temos de descanso? É o de quem chega exausto a casa após um dia inteiro de trabalho e pode, até que enfim, meter-se uma bermuda, enfiar o chinelo de dedo e despejar-se tranquilo na poltrona. Durante todo o dia, o bom trabalhador foi solicitado, cobrado, exigido… À noite, porém, ele quer descansar, alheio a tudo e a todos, sem que lhe solicitem, cobrem ou exijam nada.

Agora, veja o pai de família se pode comportar-se assim, tendo em casa uma esposa, tão ou mais cansada do que ele, para ajudar e um punhado de filhos, repletos de energia, para educar, sem falar de tantas coisas da casa que inevitavelmente quebrarão e ele terá de consertar. Não, não há descanso para o pai de família, não pelo menos se ele quiser servir bem os de sua casa… Pois bem, se tantos agem dessa forma movidos por um amor meramente humano, por que deveriam ser menos generosos os cristãos, os servos do Deus vivo, que trazem dentro de si (ou deveriam trazer), ardente, intensa, inextinguível, cada vez maior, a chama da caridade divina?

E, no entanto, aonde têm ido os nossos corações? Por que (des)caminhos têm errado? Para onde vão dirigidos os nossos pensamentos? Com que estão sendo gastas nossas energias?

Comecemos pela tortura que pode representar para muitos a ideia de um Deus onisciente e onipresente, que observa todos os nossos passos. Diante dessa verdade, o que muitos gostariam de fazer? Cantar um salmo ou um hino de louvor? 

Para o homem justo do Antigo Testamento, até que sim; para o homem redimido por Cristo, curado e libertado no Sangue de Nosso Senhor, pode até ser. Para Adão, porém, e para a maior parte da humanidade que ainda ignora o Evangelho, a atitude mais provável seria esconder-se atrás de um arbusto ou, pior, rebelar-se abertamente contra o Criador. Em sua malícia, em seu desejo de pecar, o que muitos gostariam de fazer mesmo (e tantos outros efetivamente fazem) é proclamar que Deus não existe, só para viverem a seu modo e “sem consequências”.

A esse respeito, o Pe. Reginald Garrigou-Lagrange dá-nos conta de que 

Uma serva de Deus ouviu um dia estas palavras: “Eu vos dei uma religião de vida, e vós a fizestes uma religião de fórmulas. Eu sou um criador de felicidade e vós fizestes de mim um tirano, não vendo nos meus preceitos senão aquilo que vos desagrada” [1]. 

Ou seja, o que acontece a muitos de nós é nos servirmos do parâmetro errado. Ao invés de pedirmos com o salmista: “Examinai-me, Senhor, provai-me os pensamentos! Vede se não estou no mau caminho!”, voltamos o olhar primeiro à nossa vontade e, a partir disso, julgamos todo o resto. Ao invés de nos voltarmos humildemente para Deus, conformando-nos a Ele, esperamos o contrário: que Ele mude os seus decretos para nos agradar. Não estamos buscando a Deus, em suma, mas a nós mesmos

Poderíamos entrar aqui em considerações intermináveis a respeito de como não estamos dispostos a renunciar a nossos gostos ou opiniões para aceitarmos o ensinamento moral da Igreja em tantos temas… Mas aproveitemos o mês de novembro para falar dos novíssimos e resumir toda a questão. Quando formos julgados, no último dia, a quem prestaremos contas, afinal: a Deus ou a nós mesmos? O juízo será com base nas leis de Deus ou nas regras que nós mesmos criamos para nos livrar dele e da difícil tarefa de nossa santificação? 

Ora, se o tribunal é de Deus, se é Ele o parâmetro com que seremos julgados na eternidade, por que não começar já agora a se colocar debaixo desse olhar e clamar: “Examinai-me, Senhor! Julgai meus pensamentos! Vede se não estou no mau caminho hoje, porque naquele dia, Senhor, no dia de minha morte, pode ser tarde demais”?

Aqui podemos compreender melhor o que significa estar na presença de Deus. Trata-se de reproduzir, a todo instante, nosso julgamento particular, pedindo a Ele perdão pelas falhas em que caímos cotidianamente e, ao mesmo tempo, luz para que sejamos preservados dos pecados futuros. Significa abaixar constantemente a cabeça e reconhecer: não sou eu quem faz as leis, não sou eu quem determina o que é certo e o que é errado, não sou eu quem define o bem e o mal, não serei eu a julgar-me no último dia. Há um Outro a quem eu devo prestar contas. 

Se tivermos sempre o Senhor deste modo ante os nossos olhos, não só nos mostrando o caminho correto, mas dando-nos a graça para percorrê-lo, como havemos de vacilar? Se nos lembrarmos constantemente do Rei de tremenda majestade, Rex tremendae majestatis, que nos julgará, como não havemos de excitar em nós o temor de Deus, que é o princípio da sabedoria (cf. Pr 9, 10)? 

E se é verdade, ainda, que “no dia do juízo os homens prestarão contas de toda palavra vã que tiverem proferido” (Mt 12, 34), como não havemos de pensar que o menor de nossos atos, mesmo o mais insignificante deles, carrega consigo todo o peso da eternidade?

Referências

  1. Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, O homem e a eternidade: a vida eterna e a profundidade da alma. Trad. port. de José Eduardo Câmara de Barros Carneiro. Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 13.

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Quando uma alma do Purgatório vem nos visitar...
Espiritualidade

Quando uma alma
do Purgatório vem nos visitar...

Quando uma alma do Purgatório vem nos visitar...

Para que não se esfrie o nosso zelo em socorrer as benditas almas do Purgatório, principalmente com a Missa, Deus não se cansa de multiplicar prodígios. Eis aqui dois deles, relatados por sacerdotes de confiança do século XIX.

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Novembro de 2019
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Nada se conforma mais ao espírito cristão do que oferecer o Santo Sacrifício para o alívio das almas dos defuntos, e seria um grande infortúnio se o zelo dos fiéis esfriasse nesse campo. Deus parece multiplicar prodígios a fim de impedir que cedamos a um relaxamento tão catastrófico [1]. O seguinte incidente é confirmado por um sacerdote da diocese de Bruges, na Bélgica, digno de confiança, que o recebeu de sua fonte primária, e em cujo depoimento se pode ver a certeza plena de uma testemunha ocular do fato.

Em 13 de outubro de 1849, faleceu com 52 anos na paróquia de Ardoye, em Flandres, uma senhora chamada Eugenie Van de Kerckove, cujo marido, John Wybo, era fazendeiro. Era uma mulher piedosa e caridosa, pois dava esmolas com uma generosidade proporcional aos seus recursos. Até o final da vida, nutriu uma intensa devoção à Santíssima Virgem e semanalmente, às sextas e sábados, praticava a abstinência de carne para honrá-la. Embora sua conduta não tenha sido livre de certas falhas domésticas, noutros aspectos ela levou uma vida exemplar e edificante.

Uma criada chamada Bárbara Vennecke, de 28 anos, moça virtuosa e devota que assistira a patroa em sua última doença, continuou a servir seu mestre, John Wybo, viúvo de Eugenie.

Cerca de três semanas depois de seu falecimento, a defunta apareceu para sua criada sob as seguintes circunstâncias: era tarde da noite; Bárbara dormia tranquilamente quando escutou claramente alguém lhe chamar três vezes pelo nome. Acordou de um salto e viu sua senhora diante de si, sentada no lado da cama, usando um uniforme de trabalho composto por uma saia e um paletó curto. Diante dessa visão, embora tomada de perplexidade, Bárbara não ficou nada assustada, por estranho que pareça, e manteve sua presença de espírito. A aparição se dirigiu a ela: “Bárbara”, disse, apenas pronunciando seu nome. “O que deseja, Eugenie?”, replicou a criada. A senhora disse: “Pegue aquele pequeno rastelo que eu lhe pedia para guardar e mexa o monte de areia no quartinho — você sabe a qual me refiro. Lá você encontrará uma quantia em dinheiro. Use-a para oferecer Missas em minha intenção (dois francos para cada uma), pois ainda estou sofrendo.” “Farei isso, Eugenie”, respondeu Bárbara, e no mesmo instante a aparição sumiu. A criada, ainda muito calma, dormiu outra vez e repousou tranquilamente até a manhã.

Ao despertar, Bárbara achou que fora enganada por um sonho, mas tinha ficado tão impressionada, estava tão desperta, tinha visto sua antiga senhora numa forma tão distinta, tão cheia de vida, tinha recebido dos lábios dela orientações tão precisas, que não podia deixar de mencionar [o fato]. “Nossos sonhos não são assim. Vi minha senhora pessoalmente; ela apareceu diante de mim e falou comigo. Não é um sonho, mas algo real.”         

Portanto, tal como fora orientada, pegou o rastelo, revirou a areia e retirou uma bolsa que continha o total de quinhentos francos. 

Diante de tais circunstâncias estranhas e extraordinárias, a boa garota viu-se na obrigação de buscar aconselhamento com seu pastor e foi até ele para contar tudo o que tinha acontecido. O venerável Abbe R., então pároco de Ardoye, respondeu que as Missas solicitadas pela alma da defunta deveriam ser celebradas, mas para que o dinheiro fosse usado era necessário obter o consentimento do fazendeiro, John Wybo, que prontamente aceitou que a quantia fosse usada para um propósito tão sagrado. Então, as Missas foram celebradas e por cada uma foi dada a quantia de dois francos. 

Chamamos a atenção para a circunstância da taxa, porque ela correspondia ao piedoso costume da falecida. A taxa para o oferecimento de uma Missa determinada pelo tarifário diocesano era cerca de um franco e meio, mas a esposa de Wybo, por consideração com o clero, obrigado naquele período de escassez a ajudar muitos pobres, oferecia dois francos por cada Missa que mandava celebrar, segundo seu costume.

Dois meses depois da aparição, Bárbara foi novamente despertada durante a noite. Desta vez, seu quarto estava iluminado por uma luz intensa, e sua senhora, bela e revigorada como nos tempos de juventude, vestida com um manto de resplandecente alvura, apareceu diante dela, olhando-a com um sorriso amável. “Bárbara”, disse ela com uma voz clara e audível, “muito obrigada; estou livre”. Desapareceu depois de dizer essas palavras, e o quarto ficou escuro como antes. A criada, impressionada com o que testemunhara, foi tomada de alegria. A aparição deixou uma viva impressão na mente dela, e até hoje ela preserva uma lembrança consoladora do episódio. Esses detalhes foram contados por ela, com a aprovação do venerável Abbe L., que era vigário em Ardoye quando os fatos ocorreram.

No início de suas conferências sobre a imortalidade da alma, proferidas alguns anos antes de sua morte para os alunos de Soreze, o célebre Padre Lacordaire relatou o incidente a seguir.

O príncipe polonês de X., incrédulo e materialista confesso, havia acabado de escrever uma obra contra a imortalidade da alma. Estava prestes a enviá-la para a gráfica, quando um dia, caminhando por seu parque, uma mulher com o rosto banhado em lágrimas jogou-se aos pés dele e lhe disse num tom de profunda tristeza: “Meu bom príncipe, meu marido faleceu há pouco. Neste momento, a alma dele talvez esteja sofrendo no Purgatório. Sou tão pobre, que não tenho sequer a pequena quantia necessária para mandar celebrar uma Missa por ele. Por caridade, peço seu auxílio em nome de meu pobre marido.”

Embora o cavalheiro estivesse convencido de que a mulher fora enganada por sua credulidade, não teve coragem de lhe negar ajuda. Depositou na mão dela uma moeda de ouro. Tomada de alegria, a mulher foi correndo para a igreja e implorou ao sacerdote que oferecesse algumas Missas pelo repouso da alma de seu marido. Cinco dias depois, no início da noite, o príncipe, isolado em seu escritório, revisava o manuscrito do livro e retocava alguns detalhes quando, ao levantar os olhos, viu perto de si um homem usando um traje de camponês. “Príncipe”, disse o visitante desconhecido, “vim para lhe agradecer. Sou marido daquela pobre mulher que outro dia lhe implorou por esmola, a fim de que pudesse mandar oferecer o Santo Sacrifício da Missa pelo repouso de minha alma. Sua caridade foi agradável a Deus: foi Ele quem me permitiu vir para lhe agradecer.” 

Ditas essas palavras, o camponês desapareceu como uma sombra. A emoção do príncipe foi indescritível. Por isso, atirou sua obra ao fogo e aderiu de forma tão plena à verdade, que sua conversão foi perfeita. Ele perseverou até a morte.  

Notas

  1. Já dissemos isto aqui em outra ocasião, mas não custa repetir. Uma coisa são as visões e aparições do além que, por permissão divina, acontecem aos homens; outra bem diferente são as evocações, provocadas pelos homens, em sessões espíritas: aquelas, além de serem raras, lembram-nos a importância de sufragarmos as santas almas do Purgatório com nossas orações; estas, pelo contrário, brotam quase sempre de uma curiosidade malsã e, além disso, constituem uma grave desobediência à lei de Deus (Nota da Equipe CNP).

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Tchau, moral! Adeus, virtude!
Sociedade

Tchau, moral! Adeus, virtude!

Tchau, moral! Adeus, virtude!

O ser humano não consegue viver sem um critério de como agir. Como o homem moderno rejeitou o cristianismo herdado de seus antepassados, restou-lhe apenas uma opção: eliminar a moral e a virtude da vida pública e substituí-las por simulacros.

David G. Bonagura Jr.Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Novembro de 2019
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Faz muito tempo que nossa nação renunciou ao ensino da moralidade [1]. Hoje, a palavra “moral” é pouco pronunciada, pois foi substituída por “valores”, um termo mais subjetivo e agradável aos ouvidos do que seu predecessor, que evoca padrões objetivos e um comportamento ordenado. A sorrateira mudança para “valores” ocorreu quase sem esforço depois que forças seculares expulsaram Deus de nossos sistemas escolares e da esfera pública.

Compreende-se melhor a moral quando uma ordem estabelecida confere a ela uma finalidade, e essa necessidade durante muito tempo foi suprida pela crença no Deus criador de um universo ordenado. Ora, não é de admirar que o comportamento humano tenha sofrido desvios preocupantes, uma vez que secularistas proeminentes passaram a negar a existência de qualquer finalidade no mundo ou na vida humana.

Agora a sociedade secular está presa numa armadilha criada por ela mesma. Por um lado, defende com ferocidade o direito de um indivíduo a “definir seu próprio conceito de existência, de sentido, de universo e do mistério da vida humana”, segundo as infames palavras do juiz Anthony Kennedy [2]. Se uma pessoa quiser matar um bebê in utero, redefinir o matrimônio ou remodelar sua sexualidade, nenhuma lei ou instituição poderá impedi-la

Por outro lado, deve haver um código para regular o comportamento até certo ponto, a fim de evitar a anarquia. Portanto, no lugar da moral, que (aliada ao seu outro complemento esquecido: a virtude) outrora moldou o comportamento humano adequado desde dentro, os secularistas impõem leis externas para regular nosso comportamento a partir de fora.

Essas leis são de dois tipos: leis de consentimento e de controle. 

Atualmente, as leis de consentimento governam as relações sexuais, e agora que o matrimônio não é mais o território adequado para a sexualidade, elas têm se tornado cada vez mais necessárias. Sendo o consentimento o único padrão, os atos sexuais já não podem mais ser considerados certos ou errados. A única coisa que importa é saber se as partes envolvidas estão de acordo com o ato. A sexualidade humana é hoje governada por decisões subjetivas de indivíduos, e não por padrões objetivos preservados por uma ordem criada. Isso explica por que atualmente todo tipo de atividade sexual é permitido. Em nosso mundo secular, só pode haver crime quando uma pessoa não está de acordo com tal atividade. 

Leis de controle não limitam uma pessoa, mas uma situação, tal como a competência para possuir uma arma ou aumentar o preço do aluguel. Naturalmente, sempre houve leis desse tipo, e elas não são más em si mesmas. Porém, a versão atual delas se tornou imperativa para secularistas que, por causa de seus princípios, não podem dizer a uma pessoa como viver de acordo com a moral.

Consequentemente, a única alternativa deles é controlar situações potenciais, limitando a oportunidade que uma pessoa tem para prejudicar outra. Pela lógica secularista, não podemos ensinar a um homem o mandamento: “Não matarás”. Em vez disso, temos de dizer: “Não possuirás uma arma”. Negligencia-se discretamente o fato de as leis de controle serem uma imposição da vontade de uma pessoa sobre outra.

Em nosso mundo secular, há apenas uma forma de proteger os seres humanos de ações escandalosas: uma lei externa que obriga a pessoa a obedecer ou a sofrer as consequências. Se as pessoas aderissem aos padrões de consentimento e controle, viveríamos em harmonia. Ao menos é o que se espera. 

Na tradição católica, em contrapartida, a lei e as consequências penais são o último recurso para reprimir uma conduta imoral. Segundo essa tradição, há muitas ações imorais em si mesmas, para além da violação de consentimento. Sem dúvida alguma, o código moral cristão, tal como a lei civil, contém diversas formas negativas: “Não farás [isto ou aquilo]”. Não obstante, essas normas fazem parte de uma visão mais ampla a respeito do sentido da vida humana e, consequentemente, do modo como os seres humanos devem e não devem se comportar. 

Em vez de simplesmente coagir a vontade, tal como o faz a lei civil, o código moral cristão recorre ao intelecto, persuadindo-nos a aceitar como verdadeira uma visão a respeito da maneira como deveríamos viver. A obediência a esse código também tem uma recompensa positiva: a vida eterna com Deus no Céu. A lei civil subsiste para reprimir aqueles que rejeitam esse código.

A moralidade cristã se fortalece ainda mais quando as pessoas religiosas se esforçam para adquirir virtudes, ou o hábito de realizar boas ações. Tornamo-nos virtuosos ao realizar atos de virtude repetidas vezes, enraizando-os em nosso próprio ser. Pessoas realmente virtuosas não dependem mais de proibições negativas porque estão sempre motivadas a fazer a coisa certa em todas as situações. Pessoas virtuosas atingem um nível ainda mais elevado quando amam Nosso Senhor Jesus Cristo. Então, escreve São Paulo: “Se vos deixais guiar pelo Espírito, não estais sob a Lei… Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança” (Gl 5, 18.22-23).

Além da moral, nosso mundo secular descartou também a virtude, já que esta também implica um modo correto de viver. Em seu lugar, temos hoje campanhas de autoestima e exortações insípidas em prol da amabilidade. Essa defesa é bem-intencionada, mas é ineficaz porque carece de um fundamento razoável que explique por que as pessoas deveriam agir desta ou daquela maneira. O apelo não é direcionado ao intelecto, nem mesmo à vontade, mas às emoções, o que equivale a edificar a própria casa sobre a areia.

O ensino da moralidade e da virtude não é — nem jamais foi — uma garantia de que todas as pessoas se tornarão santas e jamais agirão de forma equivocada. Porém, o ensino delas aumenta a probabilidade de os indivíduos escolherem viver de forma íntegra, porque eles recebem de três fontes (as virtudes, a moral e a lei), e não apenas de uma, a motivação para agirem assim. Quando reduzimos nossas defesas, nos tornamos mais vulneráveis ao ataque.

Não podemos esperar que a lei civil faça o trabalho realizado outrora por uma ordem moral razoável e por uma formação virtuosa do caráter. O experimento norte-americano [3] deu certo porque essas coisas estavam presentes durante a formação do país e em sua expansão, mesmo antes da chegada do primado do direito a algumas localidades anteriormente instáveis. A rejeição da moralidade e da virtude pela América secular pode bem ser o passo que arruinará nosso grande experimento.

Notas

  1. O autor fala desde os Estados Unidos. Mas, de modo geral, as considerações feitas por ele se encaixam como uma luva também em nossa situação (Nota da Equipe CNP).
  2. Anthony Kennedy foi, até 2018, juiz associado da Suprema Corte dos Estados Unidos, função equivalente à dos ministros de nosso Supremo Tribunal Federal (Nota da Equipe CNP).
  3. Como já dito, o autor fala a partir do lugar onde vive. A expressão “experimento norte-americano” (em inglês, the American experiment) faz referência a um conjunto de ideias que orientou a independência dos Estados Unidos em 1776, e que pode ser encontrado principalmente nos escritos dos chamados “pais fundadores” dos EUA (os Founding Fathers). À parte, porém, essa particularidade, o que aqui vai escrito se aplica perfeitamente bem a qualquer sociedade. Nenhuma nação pode prosperar, no verdadeiro sentido do termo, se não estiver edificada sobre “uma ordem moral razoável” e “uma formação virtuosa do caráter” (Nota da Equipe CNP).

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