Quando eu era jovem, meus pais nos levavam a mim e meus irmãos a vários museus de Nova Iorque, como o Metropolitan Museum of Art e os Cloisters. Em geral, tinha menos interesse na arte do que em mergulhar nos mundos a que me conduziam meus livros. Isso, porém, foi mudando com o passar dos anos. Comecei a desenvolver gosto pela arte tão-logo descobri seus ricos tesouros: como um bom livro, a arte nos descortina todo um mundo de mistério e beleza. Ela permite a seus espectadores penetrar os pensamentos do artista pela contemplação do tema da obra a partir da perspectiva do próprio artista. Desse modo, a boa arte inspira uma nova e mais profunda compreensão do tema apresentado e permite aos observadores maravilhar-se com sua beleza.

A arte sacra tem esse efeito nos homens. Foi por isso que São João Paulo II afirmou em sua Carta aos Artistas que a Igreja precisa da arte e vice-versa. A arte sacra cativa a mente humana, atraindo-a para a transcendência das realidades divinas. Isso pode constatar-se, particularmente, na genialidade de O Juízo Final, de Michelangelo, pois o artista espalha por toda a obra pistas sutis e didáticas que conduzem os observadores a uma compreensão mais profunda dos mistérios da fé. Em sua arte, Michelangelo oferece uma profunda compreensão da teologia da graça.

A graça é um dom de Deus. Quando aceita, é o meio de participar da vida divina. Quando fala sobre a graça, Santo Tomás de Aquino o faz no contexto em que ela prepara e auxilia os homens a alcançar seu fim sobrenatural. Os homens não podem chegar ao céu sem ela, embora por natureza desejem o bem [em geral]. Portanto, precisam da graça para alcançar o Bem sobrenatural [1].

Por conta própria, ou seja, sem a ajuda da graça, os homens podem praticar atos naturalmente bons, mas não podem chegar ao céu sem este dom sobrenatural. Na Suma Teológica, Santo Tomás afirma, citando Agostinho, que sem a graça o homem “não pode alcançar a vida eterna; pode, porém, praticar certas obras conducentes a determinados bens que lhe sejam conaturais, como ‘trabalhar no campo, beber, comer, ter amigos’ etc., como diz Agostinho” (I-II 109, 5). Os homens necessitam da graça para transformar o desejo natural do bem num desejo que os fará lutar por bens sobrenaturais e irá preparar-lhes a alma para escolhê-los. Tomás de Aquino recorre aos escritos de Santo Agostinho para esclarecer este ponto: “O homem, por sua vontade, pode fazer obras meritórias da vida eterna; mas, como diz Agostinho no mesmo livro, para isso é necessário que a vontade seja assistida pela graça de Deus” (ibid.) [2]. Portanto, o fato mesmo de os homens desejarem e lutarem para viver virtuosamente resulta de terem já aceitado a graça divina para fazê-lo.

Além de definir a graça como o que eleva as disposições do homem para realizar o bem com vistas a um fim superior, Santo Tomás a caracteriza como o que aperfeiçoa a natureza. A graça não limita ou destrói a natureza, mas nela se apoia [3]. Deus oferece a graça aos homens ao longo da vida. No entanto, eles têm de aceitar o que lhes é oferecido com tanta facilidade e amor. Portanto, o livre-arbítrio tem um papel fundamental na busca da salvação. 

Detalhe com as almas dos justos em “O Juízo Final”.

Michelangelo demonstra com grande beleza essa correlação entre graça e livre-arbítrio em O Juízo Final. No canto inferior direito da pintura, Michelangelo mostra as almas levantando-se do túmulo. Ele traça uma distinção clara entre as almas dos justos e as dos condenados. As dos justos olham para o céu. Por terem-na aceitado, a graça elevou e aprofundou nelas a inclinação para o bem e as ordenou a Cristo, seu fim último. Consequentemente, esta abertura à participação no dom da vida divina aqui na terra permitiu que a graça de Deus as atraísse e levasse às alturas do céu, onde experimentarão a plenitude da intimidade divina. Michelangelo mostra como o esforço das almas dos justos para alcançar a meta celeste deu-lhes a capacidade de suportar tudo na terra pela glória da bem-aventurança eterna. O artista revela-o por meio dos santos no céu, particularmente os mártires, que carregam os instrumentos de sua paixão, qual um lembrete triunfante do poder da graça divina em suas vidas. Essa graça deu aos mártires o poder de superar o medo da morte física e de suportar a rejeição, o sofrimento e até a morte por fidelidade a Cristo, tão anelado por seus corações, que eles agora finalmente o possuem.

Em flagrante contraste, as almas dos condenados, desamparadas, aparecem estiradas no chão, olhando para uma direção qualquer, menos para o alto. Michelangelo retrata como essas almas viveram na terra. A vergonha as faz dirigir o olhar para baixo, em direção à terra que amaram desordenadamente e onde buscaram prazeres fugazes. Durante a vida, elas foram oprimidas pelo vínculo desordenado a seus pecados e confortos materiais. Rejeitaram uma e outra vez o convite de Deus a buscar o Bem sobrenatural. A recusa reiterada da graça divina, manifesta em suas ações, provocou enfim sua própria destruição. Sua apatia e indiferença levou-as até as profundezas do inferno. 

Consequentemente, a linguagem corporal delas ao ressuscitar, assim como seu destino final, revelam que os homens não deveriam ser condescendentes ou apáticos na busca da santidade. Cada dia requer dos homens uma abertura à ação da graça divina em suas almas. Os homens só podem buscar e conseguir ativamente uma vida de virtude se aceitarem o dom divino de Deus, pois é a graça o que dá aos homens o poder de superar vícios e imperfeições, viver uma vida moral e realizar boas obras. Quando os homens permitem à graça de Deus agir, o efeito é belo e poderoso, pois a graça transcende os homens. Em The Way to Christ: Spiritual Exercises [“O caminho até Cristo: exercícios espirituais”], São João Paulo II diz que a graça é “uma energia — uma força que tende a manter [os homens] perto de Deus, a transformá-los interiormente, enobrecendo-os”. As almas ascendentes de Michelangelo expressam essa realidade: a aceitação da graça divina e a dependência dela permitem-lhes experimentar uma união íntima com Deus e, por meio dessa graça — lembra São Paulo —, elas são salvas pela fé (cf. Ef 2, 8). 

Detalhe com o retrato do Juiz na obra de Michelangelo.

Na prática, porém, os homens deparam com obstáculos à consecução do Bem sobrenatural, como mostram as almas dos condenados. Seu desejo de obter o bem estagnou-se, pois sucumbiram ao desejo de felicidade material, tornaram-se complacentes com seus pecados e indiferentes ao alcance de seu verdadeiro fim. A graça de Deus (que os teria transformado, se aceita) é deixada de lado e, assim, lhes serve antes de condenação. Em O Juízo Final, Cristo lembra àquelas almas as oportunidades perdidas para obter a graça: “Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era peregrino, e não me acolhes­tes; nu, e não me vestistes; enfermo e na prisão, e não me visitastes” (Mt 25, 42s). O drama da luta interior dos homens para alcançar o Bem supremo revela-se na obra-prima de Michelangelo pela representação de demônios a levar os homens para o inferno, enquanto anjos trabalham, puxando-as para o céu, a fim de libertá-las do poder dos demônios.

Como o pecado enfraquece e destrói a vida da graça na alma, os homens devem sempre empenhar-se para permanecer em estado de graça, a qual os dispõe a aceitar e agir conforme a mesma graça na obtenção do Bem sobrenatural. Ao cooperarem ativamente com esse dom divino, os homens se esforçam para alcançar a perfeição na imitação do Pai (cf. Mt 5, 48), sabendo que, longe de Deus, nada podem fazer para alcançar a santidade. 

Tomás de Aquino, no entanto, enfatiza também a importância da vontade individual neste processo, já que os homens devem cooperar ativamente com a graça divina. O Doutor Angélico observa, pois, que a capacidade de tornar-se santo radica na vontade, pois é por meio da aceitação diária da graça de Deus e da escolha pela busca da virtude que os homens podem superar certa condescendência e crescer numa amizade mais profunda com Deus.

Mas os homens não terminam essa jornada sozinhos, como o indica a subida das almas dos justos. Michelangelo as retrata da seguinte maneira: ou são elevadas ao céu por anjos, ou aparecem a erguer-se com os braços estendidos, símbolo da total dependência que o homem tem da graça divina na busca da perfeição. Anjos e santos, por sua vez, estendem as mãos para as puxar até seu lar celestial. Ao mostrar estas almas sendo carregadas ou “escalando” até o céu, principalmente pelo esforço de outros, Michelangelo sugere que a oração de intercessão, o estímulo e o bom exemplo dos demais são meios por que Deus auxilia os homens em sua jornada à beatitude eterna.

O auxílio oferecido às almas ascendentes revela ainda dois outros pontos: primeiro, Deus põe pessoas no nosso caminho para nos ajudar a atingir o fim último; segundo, este auxílio mostra a importância das amizades. Como todos estão in statu viæ, ou seja, juntos na jornada em busca da perfeição, as pessoas são peregrinas e companheiras de viagem. Mesmo que a jornada de cada um seja [acidentalmente] distinta, os homens compartilham um mesmo destino: o céu. Portanto, o caminho para lá não deveria ser solitário. Deus criou os homens para percorrerem juntos essa jornada, oferecendo e recebendo ajuda uns dos outros. Neste sentido, a amizade tem um papel fundamental na jornada da vida, pois os amigos deveriam inspirar, encorajar e ajudar uns aos outros em sua peregrinação terrena.

Michelangelo diz mais sobre a teologia da graça ao demonstrar em O Juízo Final o poder dos sacramentos e da oração. Os fiéis confiam no poder dos sacramentos e da oração em sua subida à beatitude eterna. Deus concede a graça aos homens por meio dos sacramentos, os veículos primários da graça. O artista italiano o exprime no canto direito desta cena dramática, onde retrata um sacerdote a dar a bênção final a um moribundo. Noutra seção, Michelangelo retrata um anjo a puxar rumo ao céu, mediante um Rosário, duas pessoas amarradas uma à outra. Portanto, para Michelangelo, a recepção dos sacramentos e o comprometimento com a vida de oração são essenciais para entrar no céu.

Como as almas justas aceitaram a graça de Deus e permaneceram abertas a ela ao longo da vida, “combatendo o bom combate”, há muita alegria no céu, pois alcançaram o Bem supremo pelo qual lutaram na terra. Michelangelo traça um forte contraste entre isso e o terror dos que estão no inferno, os quais rejeitaram sistematicamente a graça de Deus na terra e, portanto, serão torturados para sempre (em corpo e alma), sabendo que foi sua própria e obstinada recusa dos dons divinos o que os levou para a morte. O Juízo Final de Michelangelo serve assim de poderoso lembrete da luta diária para chegar ao céu, da teologia da graça e da importância da vontade individual na aceitação e na cooperação ativa com a graça, que Deus dispensa tão generosamente aos homens.

Notas

  1. O objeto próprio e especificativo da vontade é o bem apreendido pelo intelecto, isto é, o ente sob a razão genérica de apetibilidade. Isso significa que a vontade, embora deseje o bem necessariamente, por sua própria natureza, é livre, não obstante, para preferir uma coisa à outra, na medida em que nenhum bem particular pode ser objeto adequado e plenamente saciativo de uma potência aberta ao bem em toda a sua amplitude. Somente Deus, bondade subsistente, é capaz disso, motivo pelo qual a visão direta da essência divina — dom sobrenatural reservado aos bem-aventurados — liga de tal modo o ato da vontade, que ela não pode não querê-la e amá-la. Ora, como nesta vida não podemos ver a Deus por essência, nossa vontade só tem diante de si o leque de bens particulares oferecido pela criação, o que exige dela um ato livre, movido pela graça, para preferir aos bens criados o Bem sobrenatural que lhe é revelado pela fé: “Ora, a vida eterna é esta: Que te conheçam a ti como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17, 3). (N.T.).
  2. No presente estado de natureza caída, o homem tem potência física para querer e fazer o bem moral, ou seja, praticar atos de virtude adquirida; do contrário, dever-se-ia concluir que a vontade está a tal ponto corrompida em sua natureza, que lhe é absolutamente impossível querer e fazer o bem, de forma que todos os seus atos são pecaminosos, o que é doutrina condenada pela Igreja (v.gr., pelo Concílio de Constança, pelo Papa Leão X, pelo Concílio de Trento etc.). O que o homem não tem no presente estado é potência moral expedita para querer e fazer todo o bem moral de maneira contínua e perfeita, a menos que seja curado pela graça sanante. A razão disto é que, devido à analogia existente entre as ordens natural e sobrenatural, a vontade privada da graça está para a realização do bem moral assim como um doente crônico está para a realização do ato físico próprio do órgão comprometido. Com efeito, quem é manco pode ver, ouvir e cheirar como qualquer homem saudável, mas não pode caminhar como um, de quem difere em que este pode realizar todos os seus atos, enquanto o manco é incapaz de realizar, como alguém saudável, todos os seus atos (cf. Caetano, In STh I-II 83, 3 n. 18). Logo, ao homem, enquanto espiritualmente enfermo, é necessária a graça (sanante) inclusive no que diz respeito à integridade da vida moral no plano da natureza; e, enquanto ente criado, é-lhe necessária para ser elevado ao plano sobrenatural e, assim, tornar-se capaz de atos propriamente salutares. Cf. Santiago Ramírez, OP, De gratia, vol. 1, pp. 127.s147, nn. 115ss.133. (N.T.).
  3. Cf. Santo Tomás de Aquino, STh I-II 110, 2: “Não é conveniente que Deus proveja menos aos que ama para que tenham o bem sobrenatural do que às criaturas, as quais ama para que tenham o bem natural. Ora, às criaturas Deus provê de modo tal, que não somente as move a atos naturais, senão que lhes confere certas formas e virtudes, que são princípios de atos, para que, segundo elas, se inclinem a tais atos; e assim, os movimentos pelos quais são movidas por Deus tornam-se conaturais e fáceis às criaturas […]. Muito mais, pois, <Deus> infunde naqueles a quem move à consecução do bem sobrenatural eterno algumas formas ou qualidades sobrenaturais, segundo as quais são por Ele movidas suave e prontamente a conseguir o bem eterno; e assim, o dom da graça é certa qualidade”; II-II 23, 2: “É necessário que, para <realizar-se> o ato de caridade, exista <antes> em nós alguma forma habitual acrescida à potência natural”.

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