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A teologia por trás do uso do véu na Igreja
Espiritualidade

A teologia por trás
do uso do véu na Igreja

A teologia por trás do uso do véu na Igreja

O véu assinala a mulher como uma pessoa de oração, que sabe por que e por quem vai à igreja. As pessoas podem até chamá-la de carola e ultrapassada pelas costas, mas seu coração permanece em paz: seu esforço é feito por amor, e essa é a única coisa que importa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Janeiro de 2020Tempo de leitura: 16 minutos
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A nobre língua latina, que alimentou a piedade durante séculos; a serenidade do canto gregoriano; o esplendor dos paramentos sacerdotais e a visível ênfase na natureza sacrificial da Missa, em que o Senhor da glória torna presente de novo sua oferenda na Cruz em benefício dos vivos e dos mortos — em maior ou menor grau, todas essas coisas e outras mais desapareceram rapidamente depois do Concílio Vaticano II, sob o ilusório pretexto de que o “homem moderno” precisava de algo mais imediatamente acessível do que solenidade, silêncio e sacralidade. Isso foi sem dúvida um grande erro, como leigos, sacerdotes e até bispos têm afirmado de modo cada vez mais franco nas últimas décadas. Em grande medida, o trabalho de restauração tem sido relegado ao nível das bases.

Em debates sobre as reformas pós-conciliares, católicos tradicionais muitas vezes insistem no banimento do latim, do canto gregoriano, da celebração ad orientem e da recepção da Comunhão de joelhos. Isso não surpreende, já que essas mudanças são as mais perceptíveis, e foi muito profundo seu crescente efeito sobre a natureza do culto católico. Porém, houve outras mudanças sutis que com o passar do tempo também afetaram nosso modo de compreender a Fé. Um exemplo é o abandono da genuflexão na seguinte passagem do Credo: Et incarnatus est de Spiritu Sancto, ex Maria Virgine, et homo factus est. Da mesma forma, a maioria das pessoas já não curva a cabeça por reverência quando é pronunciado o santíssimo nome de Jesus.

Corte de uma pintura de José Gallegos y Arnosa.

Uma dessas mudanças foi a extinção quase completa do uso do véu pelas mulheres nas igrejas, quando estão em momento de oração. Antes do Concílio, quando alguém entrava numa igreja para assistir à Missa, via todas as mulheres com a cabeça coberta, fosse por boinas, gorros, véus ou toalhas de renda. Embora ocasionalmente possamos ver hoje mulheres de véu ou chapéu numa Missa Novus Ordo (esse número é maior em países não ocidentais que ainda não foram tomados pelo espírito moderno), em geral, o costume desapareceu fora de locais em que a Missa tradicional em latim sobreviveu ou retornou. E mesmo nestes locais o costume não é de modo algum praticado universalmente. Mulheres que adotam uma postura defensiva podem afirmar que o direito canônico não exige o uso do véu, que o bispo não o autoriza e que o pároco não o menciona. Na verdade, aqueles que olham para o uso do véu como sinal de uma era em que (creem eles) as mulheres eram consideradas cidadãs de segunda classe alegram-se com o fato de o véu ter sido marginalizado.  

Porém, antes de descartarmos a mudança como exemplo de algo ultrapassado que foi deixado de lado por não ser mais relevante, temos de analisar o que significava o costume em si e se ele simboliza uma verdade importante, tão válida para nós como para nossos predecessores. Os costumes de piedade popular muitas vezes carregam consigo raízes religiosas e humanas mais profundas do que podemos pensar inicialmente. Neste mundo agitado, coisas boas do passado são muitas vezes abandonadas porque as pessoas se esqueceram de uma verdade fundamental que precisa, mais do que nunca, ser escutada e seguida.

O ensinamento do Apóstolo

A tradição do uso do véu pelas mulheres nas igrejas tem como fundamento as palavras de São Paulo: 

Quanto ao homem, não deve cobrir sua cabeça, porque é imagem e esplendor de Deus; a mulher é o reflexo do homem. Com efeito, o homem não foi tirado da mulher, mas a mulher do homem; nem foi o homem criado para a mulher, mas sim a mulher para o homem. Por isso, a mulher deve trazer o sinal da submissão sobre sua cabeça, por causa dos anjos (1Cor 11, 7-10). 

A palavra costumeiramente traduzida por “véu” é exousia, que significa “poder” ou “autoridade” [1]. Uma tradução bem literal da passagem ficaria assim: “a mulher deve ter um poder [ou autoridade] sobre sua cabeça”. Ocasionalmente, vemos o texto transformado numa paráfrase: “um poder sobre sua cabeça, simbolizado por um véu”. Isso está mais claro, mas ainda podemos nos perguntar: por que um véu? Temos de voltar à tradição da Igreja para encontrar a resposta.

De acordo com alguns Padres e Doutores da Igreja, essa passagem se refere aos anjos que encobrem seu rosto quando estão na presença de Deus adorando-o diante de seu trono [2]:

Eu vi o Senhor sentado num trono muito elevado; as franjas de seu manto enchiam o templo. Os serafins se mantinham junto dele. Cada um deles tinha seis asas; com um par de asas velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam. Suas vozes se revezavam e diziam: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus do universo! A terra inteira proclama a sua glória!” (Is 6, 1-3).

Os anjos cobrem ou vendam seu rosto como sinal de reverência perante o poder e a majestade gloriosos de Deus; estão sob sua autoridade. São Paulo estaria dizendo, então, que assim como os anjos cobrem seu rosto diante do trono de Deus, também as mulheres deveriam cobrir sua cabeça para adorar. Mas por que apenas as mulheres? Os homens não estão também na presença de Deus? A resposta pode ser encontrada numa série de analogias que São Paulo realiza numa passagem anterior do mesmo capítulo. “Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem, senhor de Cristo é Deus” (1Cor 11, 3). Isto é, Cristo está para o Pai como o marido está para Cristo, e o marido está para Cristo assim como a mulher está para o marido — numa sequência de autoridade decrescente. Observemos como é notável a última parte dessa analogia: em seu relacionamento com o marido, a mulher cristã é comparada à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade em sua relação com o Pai. Portanto, o sentido último da vocação de uma mulher como esposa e mãe é participar, imitar e manifestar o mistério da missão de Cristo: sua entrega é um reflexo do sacrifício de Cristo. 

Uma imitação específica de Cristo e da Igreja

Para esclarecer ainda mais o sentido dessa passagem, temos de levar em conta o que São Paulo diz aos Efésios ao acrescentar outra dimensão ao simbolismo. “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos” (Ef 5, 22-24). O marido está para a mulher assim como Cristo está para a Igreja. A partir disso, vemos que do mesmo modo uma esposa é chamada a imitar e participar do trabalho da Igreja, que segue Cristo e este segue o Pai. Um grande mistério sobrenatural é prefigurado nas coisas terrenas: a obediência das esposas está enraizada na obediência de Cristo ao Pai e na submissão da Igreja ao Senhor, e brota delas.

A obediência a que uma mulher se submete no matrimônio é uma escolha, uma resposta do seu coração a um dom do Senhor; assim como uma religiosa promete obediência a seus superiores como parte da vocação de servir a um só Senhor. A obediência da esposa está inserida no contexto de um sacramento; não é uma questão de dependência natural ou de inferioridade. Uma esposa se submete ao seu marido principalmente por amor a Deus e em obediência ao chamado dele. O sacrifício de si, mantido pela graça de Deus e corretamente entendido pela esposa, não ameaça sua condição de igualdade em relação ao marido [3].

O Filho é igual ao Pai (como afirmou Orígenes e foi posteriormente definido); no entanto, o Filho é obediente ao Pai. Uma coisa tão suavemente conhecida em muitas relações de amor humano está, além da imaginação, presente nos segredos centrais do céu. Pois o Filho em seu eterno agora deseja a subordinação, e ela lhe pertence. Ele quer que sejam assim; com obediência e de modo filial Ele é inseparável do Pai, assim como o Pai é, com autoridade e modo paternal, inseparável dele. E todas as três Pessoas são eternamente inseparáveis — e iguais [4].

No interior da Santíssima Trindade, a distinção de Pessoas não põe em perigo a unidade da Divindade, compartilhada igual e essencialmente por Pai, Filho e Espírito Santo. Na Trindade, essa hierarquia-na-igualdade é refletida na ordem da salvação ocasionada pelo envio de Cristo pelo Pai, na relação esponsal entre Cristo e a Igreja e, novamente, na ordem do matrimônio.

“A Virgem da Anunciação”, por Antonello de Saliba.

A ferida da rebelião pecaminosa foi curada pela morte de Cristo e a salvação da homem foi obtida precisamente por meio da obediência à vontade de Deus, que teve início com o fiat da Virgem Maria (“Faça-se em mim segundo a vossa palavra”). De modo semelhante, visto como uma participação no mistério de Cristo e de sua Igreja, o relacionamento da esposa com seu marido é salvífico; para ser mais preciso, é um sacrifício livremente consagrado ao único sacrifício de Cristo e inserido nele. Todos os cristãos são chamados a imitar a Virgem, a se unirem a Cristo e mutuamente nele, mas essa vocação tem naturezas distintas para homens e mulheres. Embora Maria seja o arquétipo para todos os cristãos, a vida dela como modelo da verdadeira feminilidade apresenta certas verdades aplicáveis particularmente às mulheres. O véu e qualquer outro símbolo associado às mulheres deve ser considerado à luz do fiat da Virgem, seu abandono à vontade de Deus, o ato por meio do qual ela esmagou a cabeça da serpente — assim como a submissão de Cristo à vontade do Pai “até a morte” significou a derrota de Satanás. “Eis aqui a escrava do Senhor.” “Não a minha, mas a vossa vontade seja feita.” Ao se oferecer, a Virgem se tornou a “ajudante” necessária para que o novo Adão, o grande Sumo Sacerdote, oferecesse o único sacrifício por todos: seu Corpo e Sangue. 

A corresponsabilidade do marido

Para obtermos um quadro completo, temos de nos lembrar do referido ensinamento que São Paulo transmite aos maridos no capítulo 5 da Carta aos Efésios. O Apóstolo diz que os maridos devem representar Cristo; devem servir como cabeça da igreja doméstica. O que isso significa? A verdadeira autoridade vinda dos sacramentos vivificantes tem pouco a ver com a compreensão que o homem caído tem do poder e do governo sobre outros em benefício próprio. 

Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós, se faça vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso escravo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir (Mt 20, 25-28). 

Os maridos devem agir como Cristo Rei — o Rei entronizado na Cruz: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5, 25). A autoridade do marido é legítima quando exercida segundo a imitação de Cristo. Santo Tomás de Aquino apreende bem esse ponto: “A esposa sujeita-se a Deus submetendo-se ao seu marido sob Deus” [subiicitur viro sub Deo], ou seja, ela é submissa ao marido na medida em que ele mesmo está “sob Deus”, isto é, governando de acordo com os mandamentos de Deus [5].

Portanto, em todo matrimônio marido e mulher são chamados a imitar e manifestar um ao outro e ao mundo o amor de Cristo e da Igreja, ele mesmo moldado pelo mistério de amor que existe no interior da Santíssima Trindade. Essa imitação e manifestação só pode ocorrer pela graça de Deus, o Deus que é Amor; ela requer oração constante, além de discernimento, paciência e perseverança. O equilíbrio entre hierarquia-na-igualdade e igualdade-na-hierarquia só pode ser mantido pela consciência permanente de nossa vocação para amar — governar e servir mediante o amor e pelo amor. O relacionamento adequado entre marido e mulher e o precioso dom da procriação foram afetados pela Queda (cf. Gn 3, 16), como podemos ver nos homens que abusam de sua autoridade como maridos e em homens que são muito tímidos ou efeminados para assumir suas responsabilidades. Podemos ver todo tipo de problema: homens que governam para satisfazer seu egoísmo; homens que se recusam a governar pelo bem de qualquer pessoa; mulheres que se recusam taxativamente a ser governadas; mulheres que agem como capachas e não questionam abusos de autoridade. Creio que esse é o motivo pelo qual achamos tão estimulante e encorajador o exemplo de um bom casamento no qual os cônjuges vivem em paz e alegria. Ele mostra que isso pode realmente ser feito por meio do esforço humano determinado e a graça de Deus resultante de nossas súplicas.

Deste modo, na teologia de São Paulo o véu é um símbolo de consagração e autossacrifício. Assim como a Igreja se submete a Cristo e Cristo Filho obedece ao Pai, uma esposa está “sob” o poder e a proteção de seu marido. Do ponto de vista litúrgico, faz sentido que a mulher porte um sinal exterior dessa verdade interior, um símbolo público e visível de sua vocação como esposa, especialmente quando está perante o Senhor em adoração. O véu dá testemunho silencioso da dignidade e poder dela em sua submissão ao marido. Em sentido lato, ele é sacramental: um simples objeto que simboliza uma profunda realidade espiritual. Assim como as religiosas dão testemunho ao mundo por meio de seu hábito (incluindo o véu), da mesma forma as esposas dão testemunho da natureza especial do matrimônio cristão ao cobrirem sua própria cabeça na Missa. Esse belo símbolo dá à esposa uma oportunidade de viver sua vocação de modo mais pleno por fazer com que ela e outras pessoas, inclusive suas filhas, recordem seu traço de humildade mariana. Podemos ir mais longe: esse delicado símbolo daquilo que é exemplo perfeito da “pequenez” teresiana pode ser um meio poderoso de reparação para aqueles que se rebelam contra sua identidade ou são infiéis ao seu chamado.

Tradição codificada em símbolos

Considerando o que vimos, é possível explicar outro detalhe de 1Cor 11 que pode passar despercebido. No início do capítulo, o Apóstolo insiste em que os cristãos de Corinto devem preservar as instruções que ele lhes transmitira. “Eu vos felicito, porque em tudo vos lem­brais de mim, e guardais as minhas instruções, tais como eu vo-las transmiti. Mas quero que saibais que senhor de todo homem é Cristo, senhor da mulher é o homem, e o senhor de Cristo é Deus.”

Parte da sagrada tradição que ele transmitiu a eles é o ensino sobre as esposas e a submissão delas aos maridos, e é nesse contexto que o “poder” simbolizado pelo véu entra em sua exortação. Em outras palavras, São Paulo exorta todos a se esforçarem para “imitar Cristo” (1Cor 11, 1) a fim de preservar as tradições que contêm e confirmam a boa doutrina e uma vida santa. “Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa” (2Ts 2, 15). Esse é com certeza um ensinamento ao qual devemos nos aferrar no mundo moderno. A atual desintegração da vida familiar ocorre, até certo ponto, porque a tradição apostólica da hierarquia familiar não tem sido preservada nem pela família nem pela própria hierarquia eclesiástica.

O ensinamento de São Paulo parece deixar claro que o uso de algo que sirva para cobrir a cabeça só possui sentido “sacramental” pleno para mulheres casadas ou comprometidas  (incluindo religiosas que são casadas com Cristo e noviças que estão se preparando para esse casamento místico). Quando a estudamos de modo contextualizado, vemos que a recomendação segundo a qual “a mulher deve ter um véu sobre sua cabeça”, entendida  como símbolo do poder do homem (exousia), refere-se não ao homem e à mulher enquanto tais, mas às mulheres casadas relativamente aos seus maridos. (Também notamos, porém, que o mesmo capítulo dá instruções aplicáveis a todas as mulheres; São Paulo alterna entre as mulheres em geral e as casadas, dizendo coisas diferentes apropriadas a cada grupo.) Por essa razão, o costume tradicional de todas as mulheres usarem véu na igreja parece se justificar no chamado natural e sobrenatural de cada mulher a ser esposa — seja de Cristo, na vida religiosa, seja de um marido em um casamento cristão. Mesmo antes de esse chamado ser atualizado, e ainda que isso jamais ocorra, trata-se de uma realidade ontológica e espiritual que precisa ser reconhecida, honrada e inserida no grande mysterium fidei celebrado na Santa Missa.

Razões práticas

Também há razões práticas para o uso do véu, e como elas se aplicam tanto às mulheres casadas como às solteiras, corroboram a antiga convenção que prescrevia o uso do véu por todas as mulheres na igreja.

Antes de mais nada, o uso do véu pode evitar a distração tanto para quem o usa como para outras pessoas. Quantas vezes não nos pegamos olhando para outras pessoas na igreja, em vez de nos concentrarmos na oração? O véu pode ser útil às mulheres. Aquelas que estão protegidas e cobertas por ele podem se concentrar melhor [6], recordando-se qual é a principal razão pela qual estão na igreja: trata-se de um momento sagrado, e estou aqui para adorar a Deus.

Outra razão para o uso do véu na igreja é certa “privacidade”, uma necessidade de estar a sós com Deus, em vez de manter uma postura de intimidade e sociabilidade com outras pessoas. Na Missa, o divino Esposo visita a alma cristã esponsal; deveríamos estar preparados para a visita dele. A moderna ênfase desmedida na dimensão social do culto frequentemente leva a uma perda de contato com a única realidade que torna todo o resto real: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que deveria ser recebido com plena e absoluta atenção da alma. O véu assinala a mulher como uma pessoa de oração, que sabe por que e por quem vai à igreja. As pessoas podem até chamá-la de carola e ultrapassada pelas costas, mas seu coração permanece em paz: seu esforço é feito por amor, e essa é a única coisa que importa.

Uma mulher que usa véu diz ao seu próximo: estamos aqui reunidos para adorar a Deus. Assim, ela presta um serviço aos outros, ajudando-os a se lembrarem o que é realmente a Missa. No final das contas, outras mulheres podem seguir-lhe o exemplo.

Portanto, há muitas razões que mostram a conveniência do uso do véu. Para as esposas, sobretudo, tem a mesma natureza que o hábito tem para as religiosas: é um sinal de seu chamado à consagração ao Senhor, com e por meio de seu marido. Em vez de ser um sinal de opressão das mulheres, é sinal de um amor genuíno e comprometido, assim como a Cruz é o maior sinal de amor já dado à humanidade.

Até esse modesto costume de nossos ancestrais é, então, parte de uma renovação litúrgica mais ampla e bem-sucedida que incorpora o passado adequadamente, compreende as verdadeiras necessidades do presente e preserva a beleza e o simbolismo do culto católico para os séculos vindouros. 

Notas

  1. Segundo Ronald Knox, alguns comentadores afirmam que Paulo está tentando, por meio dessa palavra grega, cunhar uma palavra hebraica que signifique o véu usado tradicionalmente por uma mulher judia.
  2. Esses anjos, usualmente identificados como querubins, são descritos dessa forma por Isaías, Ezequiel e o Apocalipse de São João, e sistematicamente em toda a tradição rabínica judaica. Para referências bíblicas, ver Cornélio a Lápide, Commentaria in Scripturam Sacram (Paris: Vives, 1868), 18: 355-56.
  3. A doutrina segundo a qual as mulheres não são iguais aos homens é herética e análoga à heresia do subordinacionismo, que nega a igualdade entre o Filho e o Pai. Isso está claro na encíclica Casti Connubii, do Papa Pio XI, que ensina que homens e mulheres possuem “igualdade na diferença” e “igualdade em chefia e subordinação”.
  4. Charles Williams, citado em Mary McDermott Shideler, The Theology of Romantic Love, Grand Rapids: William B. Erdmans Publishing Co., 1962, 81-82.
  5. Cf. Lectura super primam epistolam ad Corinthios, c. XI, l. 3, n. 612.
  6. Obviamente, estou falando de um véu mais longo, e não da versão estilo “toalhinha” que vemos às vezes. Não precisa ser feito de renda (embora esse tecido tenha a conveniência de poder ser afixado ao cabelo), mas pode ter o comprimento de um lenço comum de um material leve. Há também a questão dos chapéus. Embora seja verdade que chapéus possam cumprir a função de cobrir a cabeça (e de fato já cumpriram), pertencem mais ao mundo da moda do que à esfera da vida sacramental e litúrgica. Eles não possuem o peso simbólico pleno do véu.

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O sacrilégio mais grave é o seu!
Espiritualidade

O sacrilégio mais grave é o seu!

O sacrilégio mais grave é o seu!

O pecado de sacrilégio é grave e, das coisas sagradas, o que é cometido “contra a Eucaristia é o mais grave de todos”. Mas tudo se torna ainda mais sério quando os profanadores são justamente os que mais deveriam amar a Nosso Senhor.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Foi profanada, no último dia 22 de setembro, na comuna de Caltanissetta, ilha italiana da Sicília, a igreja de Santa Águeda, virgem e mártir dos primeiros séculos da era cristã. Os autores do crime, dois rapazes, já foram presos e, segundo informação do site Messa in latino, o ato se deu da seguinte forma: depois de roubarem coisas de valor na biblioteca,

eles entraram na igreja, onde começaram a furtar objetos sagrados e cometer atos de vandalismo. Em particular, violaram a urna de vidro onde repousa uma imagem de Nossa Senhora dormindo (Madonna dormiente), da qual arrancaram um braço e roubaram o broche de ouro que lhe fecha o manto. Danificaram o altar, retirando o cibório com hóstias consagradas e o vaso com os santos óleos, arrancaram e ajuntaram todos os candelabros da igreja, escondendo-os atrás de uma porta, provavelmente para voltar e levá-las em um segundo momento. 

As pessoas que não crêem em Deus, em Cristo e na sua Igreja, lêem relatos assim e concluem, dando de ombros: “Mais um caso de furto”. Os mais revoltados talvez digam: “Restitua-se o que foi furtado, punam-se os culpados, e ‘vida que segue’”. 

Fotografia da profanação em Caltanissetta.

Mas a nos diz que há algo mais. Alguns sites católicos italianos notaram com acerto que vândalos de igrejas não são ladrões convencionais. Não se pode ignorar, é claro, que em certos aspectos uma igreja é muito mais fácil de roubar que outros edifícios, onde as coisas de valor são guardadas a sete chaves ou ficam completamente escondidas de olhos curiosos. Na igreja, ao contrário, tudo o que há, embora destinado ao culto de Deus, é também de utilidade do homem: é diante das belas imagens sagradas que os fiéis católicos fazem suas orações, e quanto mais belas e valiosas são, mais elas movem a piedade e convidam à meditação. É preciso investir em segurança, é claro, mas certas medidas, cabíveis em qualquer estabelecimento bancário ou comercial, são completamente inviáveis numa igreja. Além disso, os objetos consagrados ao culto divino têm, geralmente, um valor pecuniário muito alto — e isso certamente atrai os bandidos. 

Ainda assim, é preciso perguntar: por que, entre tantos alvos, escolher justamente uma igreja para saquear? Para levar a cabo um empreendimento desse gênero, é preciso ter perdido, no mínimo, o senso de respeito ao sagrado. Dizemos “no mínimo” porque é sabido que muitos roubos desse tipo acontecem com intenções sacrílegas ainda mais perversas, como usar as espécies eucarísticas para cultos satânicos, por exemplo (sim, há pessoas que realmente cultuam Satanás). E o ponto é que as pessoas que procedem com essa intenção não são movidas simplesmente pela cobiça, mas por um impulso realmente demoníaco. 

Sim, o que aconteceu nessa igreja foi um furto, mas não foi um furto. Até o Estado costuma reconhecer e punir delitos contra o sentimento religioso em geral. Tanto no Brasil quanto na Itália há artigos do Código Penal prevendo isso.

Mas esta não é uma reflexão jurídica. Trata-se, antes, de um texto para que tomemos consciência do peso que têm os sacrilégios — e de que eles são piores quanto mais elevados os objetos profanados, e também (ai de nós!) quanto mais importantes os sujeitos que os cometem.

Comecemos pelos objetos. Com a palavra, S. Tomás, explicando como “as espécies de sacrilégio se distinguem conforme as coisas sagradas”: 

Quanto às coisas sagradas, há diversos graus correspondentes às diferenças dessas coisas. No grau supremo estão os sacramentos, que santificam os homens, dos quais o principal é a Eucaristia, já que nela está o próprio Cristo. Por esse motivo, o sacrilégio contra a Eucaristia é o mais grave de todos. Depois dos sacramentos, vêm os vasos sagrados, que se usam na administração dos sacramentos, as imagens dos santos e as suas relíquias nas quais se honram ou desonram os próprios santos. Em seguida, o que pertence aos ornatos das igrejas e seus ministros. Finalmente, os bens móveis ou imóveis destinados ao sustento dos ministros. Quem quer que viole o que está aqui enumerado, peca e incorre no crime de sacrilégio (STh II-II 99, 3 c.).

O que aconteceu na Sicília, portanto, à luz da fé, é de suma gravidade. A punição dos culpados segundo as leis civis é importante, sem dúvida, mas não é o suficiente para consertar a ofensa que ali se fez a Deus. É por isso que, sempre que acontece um sacrilégio contra o Santíssimo Sacramento, a primeira coisa que os padres fazem é convocar os fiéis para fazer atos de desagravo. Essa mobilização nasce da consciência de que Deus merece o nosso respeito e amor; mas quando, ao invés, os homens o ultrajam, é dever dos que o amam consolá-lo… Como os anjos consolaram Nosso Senhor no Horto, como a Verônica enxugou a face de Cristo na Via Crucis

É pelos contínuos pecados dos homens que Jesus teria dito ao Padre Pio: “Estarei em agonia até o fim do mundo”. Não porque Cristo, no Céu, ainda sofra; o que acontece é que os pecados que cometemos hic et nunc, aqui e agora, estavam na mente de Nosso Senhor quando Ele viveu a sua dolorosa Paixão. As Hóstias consagradas que foram profanadas em Caltanissetta parecem não dizer respeito a nós, porque nunca ouvimos falar desta cidade, porque ela está muito distante, porque temos mais com que nos preocupar… Mas não, elas foram vistas por Jesus quando Ele ofereceu o seu sacrifício no Calvário.

E se esse sacrilégio foi visto, também o foram todos os outros que acontecem em nossas igrejas, tão perto de nós, e às vezes até por nossa culpa, por nossa negligência, por nossa indiferença. Nosso Senhor viu as nossas comunhões mal feitas e distraídas, viu as comunhões que tomamos em pecado mortal, viu as partículas eucarísticas que caíram de nossas mãos quando as esfregamos em nossa roupa. O mesmo santíssimo Corpo que Ele deitou no madeiro para ser crucificado, o mesmo preciosíssimo Sangue que Ele derramou por nossa salvação, Ele viu cair e derramar-se no chão de nossas igrejas, pelo descuido, pela falta de zelo e pela impiedade de seus ministros. E tudo isso, atenção, certamente pesou muito mais em seu Coração do que o sacrilégio desses dois jovens de Caltanissetta.

Não, não se trata de minimizar a gravidade do que esses rapazes fizeram. Mas é que existe uma outra dimensão do sacrilégio que precisamos considerar: ele é tanto pior quanto maior a dignidade do sujeito que a comete. Por isso, é muitíssimo mais grave a profanação cometida por um cristão batizado que a feita por um pagão; muitíssimo mais pesado o sacrilégio perpetrado por um sacerdote que o realizado por um leigo; muitíssimo mais séria a infidelidade de um pai de família que a de uma criança etc. O porquê disso é S. Tomás, novamente, quem o explica: 

Primeiro, porque há nos grandes mais facilidades para resistir ao mal, por exemplo, naqueles que se distinguem pela ciência e pela virtude. Por isso, fala o Senhor: “O servo que conhece a vontade de seu senhor e nada faz, será castigado mais rudemente” (Lc 12, 47). Segundo, porque há ingratidão. Com efeito, tudo o que traz grandeza ao homem é um benefício de Deus, ao qual o homem, pecando, torna-se ingrato. A este respeito, qualquer grandeza, mesmo a que está nos bens temporais, agrava o pecado: “Os poderosos serão poderosamente castigados” (Sb 6, 7). Terceiro, porque há particular repugnância entre o ato do pecado e a grandeza da pessoa: por exemplo, quando um príncipe se põe a violar a justiça, ele que é seu guardião, ou quando um sacerdote entrega-se à fornicação, ele que fez voto de castidade. Quarto, porque há o exemplo, ou o escândalo, como diz Gregório, quando um pecador está constituído em honra por causa do lugar respeitável que ocupa, seu pecado é um exemplo mais extenso. Com efeito, o pecado dos grandes chega ao conhecimento de maior número de pessoas que com ele ficam mais indignadas (STh I-II 73, 10 c.).

Isso quer dizer que, pelas graças maiores que foram dadas a nós, católicos, pelas numerosas bênçãos de que Deus nos cumulou, pela dignidade a que fomos elevados pelo Batismo, pela responsabilidade que temos, enfim, com as almas dos outros, nossos “esquecimentos, friezas e desprezos” — como diz o Ato de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus — são muito mais ofensivos a Nosso Senhor.

Por isso, antes mesmo de começarmos a rezar em reparação pelo sacrilégio de Caltanissetta, ponhamos a mão na consciência, por assim dizer, e façamos cessar os meus sacrilégios, os sacrilégios da minha família, os sacrilégios da minha paróquia, os sacrilégios da minha diocese, os sacrilégios do meu país — tudo na medida das possibilidades de cada um, é claro. Os pecados dos outros devem servir para nós de lição primeiro, para que não os repitamos

Mas esses pecados — especialmente os sacrilégios, especialmente as profanações do Santíssimo Sacramento — também precisam ser reparados! 

Alguém pode perguntar: se Cristo já pagou por esse sacrilégio terrível que foi cometido, por que precisamos nós tomar os nossos Terços, dobrar os nossos joelhos, gastar a nossa saliva rezando, sacrificando-nos e procurando aplacar a Deus? Ao que responderemos assim: Deus, sendo todo-poderoso, evidentemente não precisa de nós para salvar o mundo, e no entanto Ele quis precisar de nossas mãos, de nossas bocas e de nossos joelhos para fazê-lo. Isso significa que, assim como S. Paulo, todos nós podemos completar em nossa carne aquilo que “falta” à Paixão do Senhor (cf. Cl 1, 24). 

O que poderia ter faltado à Paixão de nosso Redentor? 

Nada, poderíamos dizer, por um lado. Mas tudo, devemos dizer, por outro. Porque, se a minha união à Paixão de Cristo não acontecer; se eu não beber o cálice do Sangue que Ele derramou pela minha salvação, todos os sofrimentos que Ele suportou, todas as injúrias que Ele sofreu, todos os ultrajes que recebeu, tudo isso terá sido, para mim, em vão.

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A “solidão da fé” e a nova família de Cristo
Espiritualidade

A “solidão da fé”
e a nova família de Cristo

A “solidão da fé” e a nova família de Cristo

Nosso Senhor veio inaugurar uma nova família. Mas, aqui, sua Igreja ainda se encontra dispersa, e num mundo apóstata e anticristão como nosso, os irmãos de Jesus experimentarão cada vez mais a tremenda “solidão da fé”.

Equipe Christo Nihil Praeponere24 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 9 minutos
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Quando, em resposta à sua mãe e seus parentes mais próximos que o procuravam, Nosso Senhor disse: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus, e a põem em prática” (Lc 8, 21), era inaugurada uma nova família, formada não já por laços de sangue, como o antigo povo de Israel, mas unida por um vínculo espiritual. Essa família é a Igreja e, assim como o Cristo, também ela foi prenunciada no Antigo Testamento. Veja-se o que escreve, por exemplo, o profeta Malaquias (“oráculo do Senhor”):

Vá, antes, um de vós e feche as portas. Não acendereis mais inutilmente o fogo no meu altar. Não tenho nenhuma complacência convosco — diz o Senhor dos exércitos — e nenhuma oferta de vossas mãos me é agradável. Porque, do nascente ao poente, meu nome é grande entre as nações e em todo lugar se oferecem ao meu nome o incenso, sacrifícios e oblações puras. Sim, grande é o meu nome entre as nações — diz o Senhor dos exércitos (Ml 1, 10-11). 

Como se pode ver, é uma profecia a respeito não só da Igreja, mas também da Eucaristia; mais propriamente, do fato de que Ecclesia de Eucharistia vivit, isto é, “a Igreja vive da Eucaristia” [1]. O sacrifício antigo cessou, e o novo passou a ser oferecido em todos os lugares, assim como a salvação se estendeu de Israel para todo o orbe — porque “grande é o meu nome entre as nações”, diz o Senhor. As Missas oferecidas ao redor do mundo são esses “incenso, sacrifícios e oblações puras” de que fala o profeta. Também em tempos de pandemia é válido recordar isso, pois, mesmo com as igrejas fechadas e o culto público suspenso em muitos lugares, os sacerdotes católicos não deixaram de oferecer a Deus, ainda que em privado, “a hóstia pura, hóstia santa, hóstia imaculada, o pão santo da vida eterna e o cálice da eterna salvação” [2].

Essa família, porém, que se reúne em torno do Cordeiro tanto na fé quanto na liturgia, é apresentada por Nosso Senhor na perícope do Evangelho acima de modo abrupto e, alguém seria tentado a dizer, quase inconveniente. Os protestantes chegam a usar o versículo em questão para combater a veneração católica a Nossa Senhora, como se perguntassem: se o próprio Cristo a tratou com tanta “rispidez”, por que deveríamos fazer diferente?

A verdade é que o Deus que promulgou o quarto mandamento não é diferente do que se fez homem no seio da Virgem Maria. Por isso, está fora de cogitação que Jesus tenha querido destratar, ou tenha efetivamente desonrado a sua Mãe. Admiti-lo seria questionar a própria perfeição do Verbo feito carne. Ao contrário do que sugere essa interpretação tendenciosa protestante, a lição que precisamos extrair das palavras de Jesus é bem outra. 

Voltemos à ideia inicial de que Nosso Senhor veio inaugurar um novo tipo de família, pois é o que expressam mais duas passagens do Evangelho:

  1. Em resposta a uma mulher do meio do povo que exclama: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!”, Nosso Senhor replica: “Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!” (Lc 11, 27-28). Isto é, o que importa, agora, não é simplesmente o amor natural de uma mãe que dá a luz o seu filho e o amamenta, dando-lhe sustento físico. Isso é bom, sem dúvida, mas também os animais o podem fazer. Contam mais, a partir da Nova Aliança, a paternidade e a maternidade espirituais, de quem gera almas para Deus.
  2. Na mesma linha, em discussão com os fariseus, Nosso Senhor diz que, embora sejam “a raça de Abraão”, pelas obras que praticam o pai deles é o diabo (cf. Jo 8, 37-40). Isto é, pelo sangue, eles podem até ser descendentes de Abraão, mas o que importa, agora, não é mais a geração carnal. Somos mais filhos de quem imitamos do que de quem nascemos.

Isso tem uma importância, para nós, muito maior do que podemos imaginar num primeiro momento. Ao lembrar a superioridade da fé, da obediência e das virtudes sobre a carne, o sangue e os laços humanos, Jesus queria alertar a todos os seus discípulos, de todos os tempos, que, se for preciso escolher, um dia, entre a amizade do mundo e a de Deus, não devemos hesitar em voltar as costas para os mais próximos a nós, mesmo que estes sejam membros de nossa própria família!

É claro, pode ser que, em alguns casos, não precise ser assim. Com Nosso Senhor, no seio da Sagrada Família, não precisou, pois São José e Maria Santíssima foram os pais mais perfeitos que jamais existiram. Os santos que tiveram pais igualmente santos, como Teresinha do Menino Jesus, também gozaram em sua casa de uma tranquilidade invejável. Mas em muitos lares não é assim. Na verdade, poderíamos até dizer que a regra é que não o seja. A norma dentro das famílias é esta, anunciada pelo próprio Senhor: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra. Vim trazer não a paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa” (Mt 10, 34-36).

Note-se o peso desta frase: por causa de Cristo, “os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa”. Sim, as pessoas mal casadas imediatamente se reconhecem na descrição, mas Nosso Senhor não está falando disso [3]. Trata-se de algo mais profundo: cônjuges também, mas pais e filhos, irmãos e irmãs, quando não há concórdia, isto é, quando não têm os corações (corda) no mesmo lugar, podem se comportar como verdadeiros estranhos, mesmo morando debaixo do mesmo teto.

Não à toa, tantas pessoas se sentem mais acolhidas e chegam a estimar mais os seus irmãos de fé que os seus de sangue. E não, não é “ódio” à própria família, não é “renegar” as próprias origens, não é “achar-se superior” aos de sua casa. É simplesmente o movimento sobrenatural de quem sabe que há uma família, que se reúne aqui na Terra e que se reunirá para sempre no Céu, e que vale a pena desprezar todo o resto para fazer parte dela

E, muitas vezes, aqueles que estão mais próximos não nos deixarão outra alternativa, a não ser dizer, com suas atitudes e comportamentos: “Ou nós ou o seu Cristo”. Só para dar um exemplo: uma família recém-formada, que quer educar os filhos na fé, não conseguirá frequentar as festas da família maior no final do ano, quando se reúnem em torno da mesa de Natal xingamentos e músicas indecentes, e às vezes até depravação sexual e embriaguez. Ressoarão nos ouvidos do casal católico as palavras de Nosso Senhor: “Quem ama o seu pai e a sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim” (Mt 10, 37). Será doloroso apartar-se dos que lhe deram a vida física, mas se isso for necessário para que eles mantenham em suas almas a vida sobrenatural, assim será. 

Sim, isso é muito duro. Mas um teólogo contemporâneo já havia advertido: La solitudine della fede sarà tremenda, “A solidão da fé será tremenda” [4]. A solidão da fé será tremenda, quando o filho católico precisar trancar-se no próprio quarto e isolar-se do convívio com os seus para preservar a própria pureza, porque na sala toda a família está a assistir a um filme ou uma novela indecentes; a solidão da fé será tremenda, quando a mãe de família tiver de suportar o abandono do marido infiel e tiver de criar os próprios filhos sozinha, porque quer ser fiel ao próprio casamento; a solidão da fé será terrível, quando uma pessoa se converter a Cristo e ver os mais próximos se precipitando no Inferno e fazendo de sua vida, já aqui, um Inferno. 

Só que, concluamos, trata-se de uma solidão ilusória. Pois, se seu pai ou sua mãe, seu filho ou sua filha, seus irmãos ou seus primos não reconhecem mais você, Cristo Nosso Senhor não só o conhece, como lhe chama de pai, de mãe, de irmão, de irmã. Nós, católicos, devemos ser muito gratos a nossos familiares, especialmente a nosso pai e nossa mãe, que nos deram a vida natural — não sem razão temos o quarto mandamento para cumprir [5]! —, mas o nosso coração deve alargar-se muitíssimo mais de pensar na família a que fomos incorporados pelo Batismo e pela fé em Jesus! Ainda que pareça, não estamos sozinhos jamais, pois Jesus é o nosso primeiro companheiro fiel, nosso primeiro familiar. Depois dele, há uma multidão de santos e anjos, incontável, que podemos invocar a todo tempo em nossas provações familiares e em nossas dificuldades interiores.

Na Missa, nós experimentamos poderosamente esse mistério, que é chamado no Credo de “comunhão dos santos”. Ali, em torno do altar do Senhor, daquele que se fez nosso parente, nosso familiar, nosso irmão, estão a bem-aventurada Virgem Maria, São Miguel Arcanjo, os Apóstolos São Pedro e São Paulo, desde o início da Missa, quando lhes confessamos os nossos pecados e pedimos sua intercessão [6]. Os anjos são invocados constantemente, para levar nossas orações até Deus — e eles o fazem.

Portanto, se é verdade que “a solidão da fé será tremenda” nesse nosso mundo, cada vez mais pagão e apóstata; se, de fato, ao nosso redor todos parecem não ter fé e mesmo os que a tinham parecem perdê-la, devem inspirar-nos sempre confiança as palavras de Nosso Senhor: “Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino” (Lc 12, 32). Não deve nos assustar o fato de os fiéis se reduzirem a um punhado. De fato, o rebanho é pequeno (pusillus grex), e não é de agora. Mas, ao mesmo tempo, somos filhos do Deus dos exércitos (Deus sabaoth), o Deus das legiões de anjos que, invisíveis, engrossam o coro dos bem-aventurados e tornam o número dos eleitos muito maior do que parece a um primeiro olhar. Agora nos encontramos dispersos, e a solidão da fé, muitas vezes, parece que nos vai engolir. Mas Deus nos fez “sacerdotes e povo de reis, e iremos reinar sobre a Terra” (cf. Ap 1, 6).

Isso significa também que, já aqui, teremos a graça de ver muitos de nossos próximos se converterem, graças à nossa oração, ao nosso testemunho e ao nosso apostolado. Afinal de contas, porque amamos os nossos, queremo-los junto de nós, queremo-los junto de Cristo. E trabalharemos para isso, com a ajuda da graça de Deus!

Mas não nos assustemos com o mistério da iniquidade, com o abuso que tantos fazem do livre-arbítrio. Porque também nós, não fosse a grande misericórdia de Deus, estaríamos no mesmo caminho do mundo. Por isso, não só pelos que não crêem, mas também por nós, não tardemos a invocar, especialmente agora, a intercessão do Arcanjo São Miguel: como diz o Alleluia de sua Missa no rito tridentino, Sancte Michael Archangele, defende nos in praelio, ut non pereamus in tremendo judicio — “São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate para que não pereçamos no tremendo juízo”. 

Sim, tremenda será não só a “solidão da fé”, mas também o julgamento de Deus. De nossa perseverança, até o fim desta vida, depende a nossa salvação por toda a eternidade.

Notas

  1. Com essas palavras começa a Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, do Papa S. João Paulo II, de 17 abr. 2003.
  2. São as milenares palavras da mais importante Oração Eucarística da Igreja, o Cânon Romano, em uma tradução literal do original latino. No Brasil, infelizmente, toda essa oração foi simplificada (para não dizer coisa pior). No trecho em questão, por exemplo, a hóstia “pura, santa e imaculada” simplesmente desapareceu. Sobre como isso se deu, cf. Dom Clemente Isnard, “Os primórdios da reforma litúrgica no Brasil” (Encontro dos Liturgistas do Brasil, Belo Horizonte, 28 de janeiro de 2002), em: A Sagrada Liturgia: 40 anos depois (Estudos da CNBB, 87). São Paulo: Paulus, 2003, pp. 22-32.
  3. Cremos que ninguém negará que é possível casar-se mal. Se alguém ainda duvida, no entanto, ouça este comentário de S. João Crisóstomo a Mt 19, 10-12: “Oferece menos dificuldades combater contra a concupiscência e contra si mesmo do que combater contra uma mulher má” (Hom. in Matt. 62, 3, em: S. Tomás, Catena Aurea in Matt. XIX, 3).
  4. Romano Guardini, O fim dos tempos modernos. Lisboa: Livraria Morais Editora, 1964, p. 135.
  5. Sobre os deveres que se devem cumprir dentro da família, cf. Pe. A. Royo Marín, “Los deberes familiares”, em: Teología moral para seglares, v. 1, Madri: BAC, 1996, pp. 779s.
  6. No Confiteor do rito antigo, os fiéis confessavam seus pecados não só “a Deus todo-poderoso e a vós, irmãos e irmãs”, mas também beatae Mariae semper Virgine, beato Michaele Archangelo, beato Ioanni Baptistae, sanctis Apostolis Petro et Paulo, omnibus sanctis, isto é, “à bem-aventurada sempre Virgem Maria, ao bem-aventurado Miguel Arcanjo, ao bem-aventurado São João Batista, aos santos Apóstolos São Pedro e São Paulo, a todos os santos”. Os nomes de todos eles eram invocados a seguir, como intercessores por nós junto a Deus. Em muitos outros lugares da Missa, infelizmente, a referência aos santos foi atenuada com a reforma litúrgica de 1969.

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Holocausto: tudo começou com o assassinato do primeiro inocente
Pró-Vida

Holocausto: tudo começou
com o assassinato do primeiro inocente

Holocausto: tudo começou com o assassinato do primeiro inocente

Agora, que 75 anos nos separam do fim do Holocausto, não nos esqueçamos o momento em que toda aquela tragédia começou. Tudo teve início quando o primeiro homem inocente foi, não obstante sua inocência, deliberadamente assassinado.

John GrondelskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Este ano marca o 75.º aniversário da libertação de Auschwitz, campo de concentração nazista. Localizado no território da Polônia ocupada pelos alemães, Auschwitz começou como um campo para prisioneiros políticos poloneses, mas tornou-se um epítome simbólico do Holocausto, o extermínio sistemático do povo judeu. Também ao longo deste ano celebraram-se vários aniversários na senda do Dia da Vitória na Europa (n.d.t.: o dia 8 de maio), dia da derrota do Terceiro Reich: entre eles, o aniversário da libertação do campo de concentração de Dachau, em 29 de abril.

S. João Paulo II, em sua Encíclica “Evangelium vitae”, caracterizou os tempos modernos como uma luta entre a “cultura da vida” e a “cultura da morte”. Embora ele tenha escrito a Encíclica em 1995, seria um erro pensar que a “cultura da morte” é um fenômeno exclusivo das décadas recentes.

Auschwitz recorda-nos que os regimes totalitários do séc. XX adotaram a morte como instrumento de política estatal, que solapou a inviolabilidade da vida humana de cada indivíduo. Judeus (e não apenas judeus) foram sujeitos à execução arbitrária nas mãos de nazistas alemães, não por um “crime” de que pudessem ser culpados (embora os alemães formalistas tenham criado “crimes” — inclusive “raciais” — para justificar o que faziam), mas porque as vítimas eram quem eram. Ser judeu na Europa ocupada pelos nazistas era motivo suficiente para ser morto. Auschwitz foi simplesmente a encarnação de toda essa mentalidade.

“Ser judeu na Europa ocupada pelos nazistas era motivo suficiente para ser morto.”

Autores contemporâneos insistem em restringir o termo “Holocausto” ao extermínio dos judeus europeus, à “Solução Final” da questão judaica (Endlösung der Judenfrage). Eu entendo o esforço por reconhecer a singularidade do que ocorreu aos judeus europeus, tanto em escopo quanto em grau.

Mas não podemos esquecer que a eliminação dos judeus europeus foi parte de uma agenda racial e eugênica muito mais ampla abraçada pelos nazistas, que começou muito mais cedo com o extermínio de cidadãos alemães da própria Alemanha, por considerar-se que viviam uma “vida indigna de ser vivida” (lebensunwertes Leben). Na verdade, essa mesma ideia surgiu treze anos antes dos treze anos de reino de terror que foi o nazismo: a expressão “lebensunwertes Leben” apareceu no título de um livro publicado em 1920 por… dois professores. 

O Holocausto foi uma encarnação particularmente cruel dessa ideia, mas ela não surgiu do nada: as sementes do Holocausto foram plantadas no momento em que o direito de uma vida inocente deixou de ser autojustificável; quando a vida inocente em si mesma deixou de ser motivo o bastante para que a protegessem; quando a vida inocente passou a precisar de um outro motivo para permanecer inviolável. A essência disso foi bem captada no filme Julgamento de Nuremberg (1961), na cena em que o juiz americano Dan Haywood (Spencer Tracy) visita o nazista Ernst Janning (Burt Lancaster) em sua última cela prisional. “Aquelas pessoas… aqueles milhões de pessoas… eu nunca pensei que fosse chegar a tanto. Acredite”, declarou Janning. 

“Herr Janning”, respondeu Haywood, “chegou a tanto na primeira vez que você condenou à morte um homem que você sabia ser inocente”.

Embora Auschwitz tenha-se tornado um símbolo do extermínio dos judeus europeus, não nos podemos esquecer dos muitos outros crimes contra a vida humana praticados em toda a rede de campos de concentração montada pelos nazistas. Dachau era praticamente uma comunidade religiosa católica — ou mesmo um seminário —, e escreverei posteriormente sobre alguns daqueles sacerdotes que, em algum momento, partiram de Dachau para os Estados Unidos. Os ciganos também foram massacrados nos campos. Prisioneiros foram usados em experimentos “médicos” discutíveis — que estavam mais para sádicos (por exemplo, os “experimentos com água gelada” em Dachau, nos quais sacerdotes e prisioneiros de guerra soviéticos eram imersos em água gelada para ver quanto tempo sobreviviam e, assim, aplicar os dados colhidos desses Untermenschen, desses povos inferiores, ao pedigree da nação germânica, que sobrevoava, em bombardeiros, o gélido Atlântico Norte). O grau de colaboração de cientistas, em geral, e de médicos, em particular, com os nazistas era elevado. O dr. Josef Mengele era apenas o zênite daqueles que prostituíam suas profissões.

O desfecho da II Guerra Mundial levou, pelo menos, a um esforço temporário de proteger o direito à vida e a dignidade humana em instrumentos legais projetados pelos arquitetos da ordem pós-guerra. A nova constituição da Alemanha Ocidental, por exemplo, consagrou seu compromisso de abertura à “inviolabilidade da dignidade humana”. A ética médica do pós-guerra (por exemplo, o Código Internacional de Ética Médica da Associação Médica Mundial) exortou os doutores a sempre “respeitar a vida humana” e a obter [dos pacientes] consentimento informado. As lições do Holocausto foram universalizadas como uma ética da inviolabilidade da dignidade humana.

O Holocausto tem, é claro, uma dimensão única como testamento da dimensão letal do antissemitismo. Isso ninguém pode negar. Mas agora que celebramos o 75.º aniversário da libertação de Auschwitz — tanto como símbolo da Solução Final quanto como nadir de um período de três meses e meio, em 1945, quando campos de concentração foram libertados e seus horrores dados a conhecer —, não nos esqueçamos de uma verdade fundamental: tudo isso começou quando o primeiro homem inocente foi, não obstante, deliberadamente assassinado.

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Uma novena a Santa Teresinha
Oração

Uma novena a Santa Teresinha

Uma novena a Santa Teresinha

Por esta novena, extraída de um antigo devocionário, somos chamados não só a invocar a intercessão de Santa Teresinha do Menino Jesus e suplicar-lhe graças especiais, mas também a imitar as virtudes que ela viveu.

Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Setembro de 2020Tempo de leitura: 12 minutos
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Os mais devotos já sabem, mas não custa lembrar: começa hoje, 22 de setembro, a novena a Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, em preparação para a sua festa litúrgica, no dia 1.º de outubro (no calendário antigo, a memória dela se celebra no dia 3 de outubro, de modo que, se alguém “chegar atrasado”, pode iniciar a novena depois). As meditações abaixo foram extraídas e levemente adaptadas de um antigo devocionário à santa de Lisieux [1], e têm por objeto as virtudes que ela viveu e cultivou: fé ardente, esperança inabalável, amor, humildade, simplicidade etc.

As orações podem ser feitas juntamente com a tradicional (e muito mais simples) “Novena das Rosas” de S. Teresinha, que consiste em uma ação de graças à Santíssima Trindade [2], 24 Glórias em honra aos 24 anos que ela viveu na Terra, acrescidas da invocação “Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, rogai por nós!”, e um Pai-nosso e uma Ave-Maria.

É ocioso dizer que, embora seja costume fazer esses nove dias de oração para celebrar a memória de Teresinha, ambas as novenas podem ser feitas a qualquer tempo.


1.º dia — Fé ardente de S. Teresinha

Meditação. — Compenetrados de humildade, consideremos e admiremos em S. Teresinha do Menino Jesus o dom de misericórdia, concedido por Deus aos nossos dias, nos quais o triunfo da matéria ameaça sufocar e apagar nas almas o sublime dom da fé. Esta santinha viveu uma vida de fé, no pensamento e nas obras, respirou o sobrenatural, alimentou-se de Deus e a Ele ofereceu todas as suas penas interiores, a fim de reparar os pecados de incredulidade cometidos pelos homens.

Oração. — Ó S. Teresinha, flor puríssima do Carmelo, dada por Deus às almas para ensinar a todos o caminho certo e rápido do Céu, prostrados diante do vosso altar, abrimos o nosso coração à gratidão para com Deus pelos inúmeros dons que vos concedeu, sobretudo pelo dom da fé, que estabeleceu entre vós e o Céu uma relação contínua de ternura e de amor. Ó pequena esposa de Jesus, ensinai-nos, com o vosso admirável exemplo, as nossas relações para com Deus; lembrai-nos sempre que Ele está sobre nós e conosco por meio da sua santa graça; fazei com que O tenhamos sempre presente, quer na alegria, quer na dor, através do piedoso véu da fé, até que O possamos contemplar, face a face, convosco no pleno meio-dia da visão beatífica. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

2.º dia — Esperança de S. Teresinha

Meditação. — Consideremos em S. Teresinha a sublime esperança na misericordiosa bondade de Deus, que nela se efetuava na mais sincera e incondicionada confiança. Com efeito, reconhecendo-se ela pequenina e fraca, quis permanecer sempre tal, entre os braços amorosos de Deus, a fim de ser guiada e levada por Ele, através do caminho da perfeição, ao Céu; na alegria e na dor, na aridez e nas tentações, confiou sempre em Deus, que para ela foi a riqueza da sua pobreza, o sol nas suas trevas, o tudo do seu nada; e o Senhor a levou ao Céu.

Oração. — Ó S. Teresinha, pequena filha de Deus, que vivestes de esperança e confiança, apoiando-vos unicamente na palavra infalível e nas promessas indefectíveis de Deus, e sempre esperastes contra todas as esperanças humanas, e sorristes nas penas e nas tentações, ensinai-nos o vosso sublime segredo da felicidade, fazendo-nos viver no esquecimento e na desconfiança de nós mesmos, confiando somente em Deus. Abri sobre todos o Céu, dilatai os horizontes da divina misericórdia sobre todos os pecadores, fazei com que a nossa confiança em Deus nos garanta o seu poderoso auxílio em todas as nossas necessidades, e possamos saborear a vossa inefável alegria e paz abundante. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

3.º dia — Amor de S. Teresinha para com Deus

Meditação. — Consideremos outra característica da santidade de Teresinha: o seu grande amor para com Deus. Digna filha da Serafina d’Ávila, ela compreendeu que o amor, assim como é a essência da bem-aventurança eterna, é também a alma e o fastígio da santidade na Terra. Amar a Deus foi para Teresinha o trabalho, a ocupação e a alma do seu espírito. Tudo quanto ela teve, fez vibrar no amor: sua alma, seu coração, seu pensamento, sua palavra, toda a flor do seu ser, foi abrasada pelo amor. Ela soube oferecer e padecer desfolhando aos pés de Deus as rosas da sua caridade até a morte.

Oração. — Ó S. Teresinha, hóstia puríssima, imolada ao amor misericordioso de Deus, vós que tudo quanto fostes e possuístes, inflamastes de amor e aniquilastes na voragem da divina caridade. Ó rosa perfumada do Carmelo, ensinai-nos a amar a Deus, concedei-nos as intuições do vosso amor que foi a medida das vossas obras, desvelai-nos o grande segredo de engrandecer as pequeninas ações com o fogo da caridade; fazei com que o amor de Deus seja a única norma das nossas ações e o único título pelo qual nos tornemos dignos da glória eterna. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

4.º dia — Amor de S. Teresinha para com o próximo

Meditação. — Consideremos como o amor de Deus em Teresinha foi maravilhoso em seus efeitos de caridade para com o próximo. Quem ama deveras a Deus, ama necessariamente as suas criaturas, as quais, sendo sua viva imagem, são outrossim obras da sua criação, termo da sua Redenção, objeto do seu grande amor. E S. Teresinha amou em seus irmãos a Deus, esquecendo-lhes os defeitos e as culpas; ela não viu nem quis ver no próximo senão a imagem viva de Jesus, por cujo amor proporcionava a todos caridade, compaixão e perdão generoso.

Oração. — Ó S. Teresinha, que espalhastes generosamente sobre todos os vossos sorrisos e alegrastes com o vosso amor todos aqueles que vos rodearam sobre a Terra; vós, que no próximo vistes e amastes a Deus, e tanto mais o amastes quanto mais sabíeis que precisava da vossa caridade, concedei-nos a fineza e a doçura do vosso amor para com os nossos irmãos e fazei com que, compadecendo e perdoando as fraquezas do nosso próximo, mereçamos da divina clemência o perdão dos nossos pecados. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

5.º dia — Zelo de S. Teresinha pela salvação das almas

Meditação. — Consideremos o ardente zelo que consumiu o espírito de S. Teresinha em desejar a salvação das almas. Atormentada pela sede do Crucificado, Teresinha apaixonou-se para cooperar, com todos os meios que estavam ao seu alcance, com a grande obra da Redenção. E o seu apostolado foi tão prodigioso e admirável, que pôs a serviço da Igreja e em auxílio das almas todas as suas riquezas interiores: suas orações, suas imolações e seus sofrimentos pela conversão dos pecadores.

Oração. — Ó S. Teresinha, apóstolo generoso da glória de Deus, que tanto vos apaixonastes pela sede do Coração de Jesus, até sacrificardes a vossa vida pela salvação das almas, fazei com que nós também, santificando-nos a nós mesmos, salvemos, com o nosso exemplo, as almas do nosso próximo e concedei-nos que, no humilde âmbito de nossa condição, cada um de nós ofereça à Igreja e às almas a própria cooperação, a fim de estender sobre a Terra o pacífico Reino de Jesus Cristo. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

6.º dia — Amor de S. Teresinha pelos sofrimentos

Meditação. — Consideremos o amor que S. Teresinha nutriu pelos sofrimentos desde a sua infância. Logo que ela compreendeu que a vida é dor e que, para se santificar, é mister sofrer muito, pediu a Deus todo o gênero de dores: o martírio do coração e o martírio do corpo. Com efeito, sendo dotada de um espírito profundo, de um coração sensibilíssimo e de um nobre sentimento, saboreou, até a morte, as angústias e as agonias mais atrozes e meritórias, por serem desconhecidas pelos homens.

Oração. — Ó S. Teresinha, mártir inocentíssima, que recolhestes em vosso coração virginal as lágrimas e as amarguras de um martírio que foi ignorado pelo mundo, e avaliado somente por Deus; ó pequena esposa do Crucificado, que pediste a graça de reproduzir na vossa alma as aparências amorosas e dolorosas do vosso muito amado Jesus, explicai-nos o profundo mistério do amor, oculto no sofrimento, e desvelai-nos os segredos da vossa alegria e dos vossos sorrisos na dor. Ó linda rosa, desfolhada debaixo dos pés sanguinolentos de Jesus, fazei com que nós também, purificados e santificados pelos sofrimentos, subamos ao Céu pela escada da cruz! — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

7.º dia — Humildade de S. Teresinha

Meditação. — Consideremos como toda a generosidade de S. Teresinha consiste na humildade. Compenetrada do seu nada, ela, em vez de desanimar, regozijou-se da sua pequenez, e pôs todo o cuidado em ficar sempre pequenina, bem sabendo que numa criatura a humildade é a única fascinação para atrair a Deus. E Deus, comovido pela sincera e profunda humildade da sua serva, inclinou-se até ela, para elevá-la ao cume mais alto da santidade e da glória.

Oração. — Ó S. Teresinha, que da vossa humildade fizestes o vosso trono, e na vossa pequenez deparastes toda a vossa força, e que desse abismo de soberania imperastes sobre o Coração de Deus, ensinai-nos esta virtude de luz. Que a humildade nos ponha no nosso próprio lugar diante de Deus, e nos faça conhecer e compreender que, tudo quanto somos e possuímos, temos recebido da sua generosa bondade, e tudo o que está em nós redunde na glória de Deus, nosso Criador e fim último da nossa existência. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

8.º dia — Simplicidade de S. Teresinha

Meditação. — Consideremos a virtude característica de S. Teresinha: a simplicidade, que é a virtude rainha das crianças, pela qual ela foi direitinha para o seu fim, sem se preocupar de mais nada. Por isso, esquecendo a si mesma e as criaturas, jamais procurou a própria satisfação e as utilidades pessoais; jamais buscou o amor e a estima dos homens, mas quis agradar unicamente a Deus, a quem consagrou todas as suas próprias ações, o perfume de todas as suas intenções e toda a chama do seu coração.

Oração. — Ó S. Teresinha, que tomastes em palavra a Palavra de Deus, e fizestes vosso estudo incessante e paraíso da vossa alma a santa simplicidade, vivendo deliciosamente a vida de infância espiritual, traçada pelo santo Evangelho. Inspirai-nos um amor apaixonado por esta virtude predileta de Jesus, e fazei com que, despindo-nos das ilusões da culpa e dos vãos artifícios do mundo, e compenetrados do único fim para que fomos criados, esforcemo-nos em consegui-lo diretamente, procurando só o que possa sossegar e beatificar eternamente o nosso espírito. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

9.º dia — Abandono em Deus de S. Teresinha

Meditação. — Consideremos como a vida de infância espiritual em S. Teresinha se manifestou acompanhada da virtude do mais completo abandono no amor misericordioso de Deus. A pequenez, a fraqueza, a pobreza e a confiança foram as veredazinhas que a levaram a este abandono, que é o termo do amor. Pois se amar é doar, Teresinha, que amava a Deus de um amor imenso, doara-se a Ele com o mais perfeito abandono, que fez de toda a sua vida o dom mais sublime e afetuoso.

Oração. — Ó S. Teresinha, ó alma generosa, toda entregue a Deus no abandono mais filial e completo, vós que adquiristes o inapreciável lucro de vos entregar totalmente a Deus, e tudo dEle recebestes e fostes levada, em seus braços, verdadeiro elevador da vossa alma, até o último porto de salvação, obtende-nos do Senhor este santo e filial abandono. Despojai o nosso coração de toda a desconfiança e resistência, que nos retardam a efusão da graça. Fazei com que, guiados pela suprema bondade de Deus, através das tempestades e dos naufrágios da vida, possamos chegar, pela vossa valiosa proteção, ao último porto de salvação e de paz. — Pai-nosso, Ave-Maria, Glória.

Oração para o dia da festa

Pintura de S. Teresinha, presente no “Royal English College” de Valladolid, Espanha (Flickr, Lawrence O.P.)

Prostrados diante do trono da vossa adorável majestade, Sacramento de amor, abrimos o nosso coração ao reconhecimento e ao amor, para vos darmos graças de terdes doado à Igreja e às almas S. Teresinha do Menino Jesus. Grande Deus, vós tendes falado milhares e milhares de vezes com todas as vozes da potência, da sabedoria e do amor, sempre e em toda parte, perante os homens que vos amam e adoram, e os que vos odeiam e ultrajam. Vós vos tendes manifestado para confundir a nossa presunção e a nossa miséria, para nos dizer que só vós sois o Criador, a Providência, o último fim de toda grandeza e felicidade. Nunca, porém, falastes como hoje, tão viva e deliciosamente, com a voz e a eloquência desta extraordinária santinha, deste anjo revestido de nossa carne, enferma e dolorida, a nossa querida S. Teresinha do Menino Jesus, feita vossa palavra para ensinar a todos o verdadeiro caminho do Evangelho e reconduzi-los ao Céu, seguindo o exemplo luminoso das suas admiráveis e imitáveis virtudes.

Nós vos rendemos graças, vos exaltamos e vos bendizemos, Senhor, que ainda continuais, misericordioso, a derramar sobre esta mísera humanidade, tão ingrata, mas sempre amada pelo vosso adorável Coração, os tesouros de vossas virtudes e graças. Escutai, pois, a prece que nós vos dirigimos por meio de S. Teresinha. Lembrai-vos, Senhor, que ela é a esposa predileta do vosso Coração e é também nossa irmã. Ela é filha deste século que muito se afastou de vós e vos ofendeu. Deus de bondade, Deus de misericórdia, tende piedade de nós! 

Vós não nos abandonareis, pois ainda vos lembrais de nós concedendo-nos tamanhos santos! Pelos méritos e pela intercessão desta santinha, dai à vossa Igreja paz e liberdade; concedei às nações e aos povos tranquilidade e amor, e fazei com que todas as almas entrem a fazer parte do vosso pacífico Reino, a fim de que, de um extremo a outro da Terra, todos, sociedade, família e indivíduos, reconheçam a soberania do vosso munífico Coração.

E vós, irmãzinha de nossos dias, de nossas penas, de nossas lágrimas, S. Teresinha do Menino Jesus, sorriso dos anjos, flor do Céu, caída sobre este abismo de lama e de choro, rogai por nós! Levantai a vossa voz até ao trono de Deus, falai a Ele por nós com a eloquência da vossa prece, aplacai-O e fazei-O voltar, sereno e benigno, no meio de nós. 

Pequena tesoureira do Coração divino, piedosa advogada de todos os pobres, de todos os miseráveis, abri a porta deste adorável e inesgotável Coração, e fazei descer copiosa a chuva das vossas rosas. Ó alma cândida e bela, nós esperamos a realização das vossas promessas! Lançai, a mão cheia, as vossas rosas sobre este século do qual fostes filha, e dignai-vos reconduzi-lo a Deus; sufocai com o perfume das vossas flores o seu ambiente saturado de impiedade e salvai-o. Atirai as vossas rosas sobre todas as almas, sobre todos os sofrimentos, sobre todos os calvários, para que mais fácil se nos torne o caminho para o Céu.

Ó rainhazinha dos corações, atraí-nos a vós com o perfume das vossas flores, ao bem, à virtude, ao Céu. Pequena consoladora, consolai-nos. Querida santinha, santificai-nos e obtende-nos, com a vossa poderosa mediação, sermos admitidos, um dia, à festa eterna do paraíso. Assim seja. — 3 Pai-nossos, Ave-Maria, e 1 Glória.

Notas

  1. Um carmelita descalço. O devoto de Santa Teresinha do Menino Jesus. S. Paulo, 1926, pp. 5-20.
  2. “Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu Vos agradeço todos os favores, todas as graças com que enriquecestes a alma de Vossa serva Teresa do Menino Jesus durante os 24 anos que passou na Terra. Pelos méritos de tão querida santinha, concedei-me a graça que ardentemente vos peço..., se for conforme a Vossa Santíssima vontade e para salvação de minha alma. Ajudai minha fé e minha esperança, ó Santa Teresinha, cumprindo, mais uma vez, sua promessa de que ninguém vos invocaria em vão, fazendo-me ganhar uma rosa, sinal de que alcançarei a graça pedida.”

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