No início de seu pontificado, o Papa várias vezes chamou atenção para “nossos muitos irmãos e irmãs que dão testemunho do nome de Jesus, até o ponto do martírio” [i].

Nos mesmos dias desses apelos vindos de Roma, em abril de 2013, o bispo romeno Alexandru Mesian percorreu várias cidades da Itália para apresentar ao público o testemunho de um desses mártires de nosso tempo, seu predecessor na diocese greco-católica de Lugoj.

O nome dele é Ioan Ploscaru. Ele morreu em 1998 com a idade de 87 anos, quinze dos quais passados na prisão. Seu crime foi um só: ter permanecido fiel à Igreja de Roma, recusando-se a mudar para a Igreja Ortodoxa, conforme a ordem do governo comunista.

O jovem Ioan Ploscaru.

A Segunda Guerra Mundial mal acabara e, assim como na Ucrânia, também na Romênia o regime quis varrer a Igreja Greco-Católica local, com seus bispos, sacerdotes e milhões de fiéis, colocando-a na ilegalidade e pondo-os à força dentro da Igreja Ortodoxa. Diante da recusa deles, em 1948, todos os bispos foram detidos. Seu destino era morrer no cárcere. Outros bispos foram ordenados clandestinamente. Entre eles estava Ioan Ploscaru, que recebeu a imposição das mãos do núncio vaticano em Bucareste, a 30 de novembro de 1948. Mas ele só aguentaria nas catacumbas por alguns meses. Em agosto de 1949 seria preso também.

Então teve início o seu calvário, que ele narrou com detalhes em um livro de memórias. O livro foi publicado na Romênia em 1993, mas só cruzou as fronteiras vinte anos depois, numa edição italiana muito bem editada, impressa pelas Edizioni Dehoniane, em Bolonha. (Hoje o livro já conta com uma tradução espanhola e francesa.)

Trata-se de um livro extraordinário por várias razões. Ele lembra os “Contos de Kolimá”, de Shalamov, quando retrata a ferocidade dos carcereiros, cruéis ao ponto do inimaginável, entre humilhações que incluíam “[fazer os prisioneiros] comer as próprias fezes, urinar nas bocas dos outros, forçá-los a confessar ter praticado atos sexuais aberrantes com os próprios pais”. Mas a obra também lembra a serenidade descritiva e a ironia de Soljenítsin em seu “Arquipélago Gulag”.

O relato é sobretudo de uma experiência de fé. Que brilha mesmo nas noites mais tenebrosas. Que arrebata de estupor mesmo os mais depravados. Que enche de piedade mesmo os mais terríveis perseguidores.

O regime comunista romeno caiu em 1989. No ano seguinte, Ioan Ploscaru pôde reassumir sua catedral, devolvida a ele pelo metropolita ortodoxo de Lugoj. 

O que segue é uma breve antologia de seu livro de memórias, com os títulos dos capítulos de onde foram tiradas as respectivas passagens.

Ioan Ploscaru, em encontro com o Papa São João Paulo II.

Cadeias e Terror

por Ioan Ploscaru

A todos nós, sacerdotes e bispos greco-católicos, foi oferecida a liberdade em troca da conversão para a Igreja Ortodoxa. A mim, pessoalmente, propuseram-me esta troca várias vezes, a começar pela minha primeira detenção. Mas não se pode pôr em risco a própria consciência. Se eu tivesse cedido, teria sido um grande desastre para a minha consciência e uma fonte de confusão para aqueles com os quais convivia.

Nas memórias que escrevi não há lamentações severas, muito menos estados de espírito desesperados, porque quando oferecemos todos esses sofrimentos a Deus eles se tornam suportáveis. Mas eu não teria sido capaz de os suportar sozinho, se Jesus não tivesse estado sempre ao meu lado e ao lado de todos nós.

Considerei os nossos carcereiros como “instrumentos”, e não faço nenhuma acusação contra nenhum deles: ao contrário, desejo que esses inquisidores tenham uma verdadeira conversão a Deus e um arrependimento verdadeiro e claro por tudo o que fizeram.

Fiquei preso durante quinze anos, quatro deles em isolamento. Libertado em 1964, fui ainda vigiado, seguido, perseguido. Mesmo nos anos seguintes, continuei, por vezes, a ter medo.

Que Deus seja louvado pelos séculos dos séculos por todos os sofrimentos que tive de suportar. 

Na “securitate” de Timisoara

Minha cela ficava no porão. As janelas estavam quebradas e fazia muito frio na cela. Fiquei lá durante todo o mês de dezembro até janeiro de 1950. O frio era uma tortura para mim. Fui levado muitas vezes até os interrogadores à noite. Eles mandavam-me de volta e, após meia hora, eu era acordado de novo para outro interrogatório. O frio da cela gelada me consumia. Eu dormia muito pouco, sempre com a vontade de acordar de novo e me mexer. O frio entrava pela janela quebrada, deixando vestígios de geada em minha barba e roupa. Em três semanas perdi muito peso. Rezei e ofereci todo o frio e todas as provações ao Salvador.

Métodos de coerção

Os interrogatórios e os espancamentos ocorriam logo acima da nossa cela. Compreendemos o que estava acontecendo por meio dos sons, que ouvíamos aterrorizados. Em seguida, ouvíamos os gritos daqueles que estavam sendo espancados. Eles batiam nas solas dos pés com uma barra de ferro. Então, a vítima tinha de correr se não quisesse que seus pés ficassem inchados. A tortura se repetia. Muitos tiveram os ossos dos pés deslocados.

Porém, mais pesado que o espancamento era o isolamento. Eles nos trancavam numa cela vazia e derramavam água sobre o chão de cimento. Após um ou dois dias, os pés inchavam e o coração já não conseguia suportar. A vítima caía na água ou pedia para ser levada para “confessar”.

Jilava

As buscas eram um método de humilhação. Eles inspecionavam o ânus, os genitais, a boca, os ouvidos. Um homem nu era para eles um objeto de escárnio. Tais buscas eram feitas várias vezes por mês, sem contar as que eram feitas arbitrariamente pelos guardas.

Na cela à qual tínhamos sido relegados, o chão era de cimento e estava sempre úmido, assim como as paredes, já que essa parte do edifício ficava abaixo do nível do solo. Para dormir, tínhamos apenas uma faixa de 35 centímetros de largura por pessoa. Ninguém conseguia dormir de barriga para cima, apenas de lado. Quando alguém já não podia suportar a posição e tinha de mudá-la, todos tinham de acordar: cada um tocava no ombro do outro e todos tinham de se virar para o outro lado.

O castigo mais pesado que o comandante nos infligiu remonta ao mês de julho de 1950, quando mandou fechar as janelas, fazendo-nos ficar durante uma semana sem ar e sem ir para o exterior do edifício. Em pleno verão, numa sala de 18 pés quadrados [5,4m2], 35 pessoas viviam em meio ao ar sufocante. Algumas ficavam com erupções cutâneas, outras desmaiavam.

Sighetu, prisão de extermínio

O maior tormento na prisão de Sighetu foi a fome. A dieta nesta prisão foi calculada com grande cuidado para que o detido não morresse imediatamente, mas perecesse gradualmente de fome. A comida era escassa e podre.

Novamente na “securitate” de Timisoara

As religiosas católicas eram obrigadas a ficar de pé em água gelada no inverno e a capinar, primeiro com uma picareta e depois com as mãos, para arrancar pedaços de rocha, colocá-los nos aventais e levá-los para as margens do rio. Quase todas essas irmãs, depois de serem libertadas, morreram pouco tempo depois de tuberculose ou foram atormentadas por um reumatismo deformador e agudo.

No Ministério do Interior em Bucareste

Os interrogatórios eram muito severos. Todos os dias me batiam com os punhos, com cadeiras, com pontapés, e batiam minha cabeça contra a parede. Como se isso não fosse suficiente, um dia me levaram para a câmara de tortura. Tinham preparado duas vigas às quais fui amarrado para depois ser espancado. Enquanto eles preparavam-nas, rezei e ofereci a Deus os meus sofrimentos e a minha vida.

A prisão de Gherla

Chegamos a um momento crítico. Os prisioneiros tinham protestado contra o fato de as janelas terem sido tapadas com placas de madeira, e a direção desencadeou uma repressão violenta. A polícia disparou dos telhados, usou mangueiras de incêndio, deixou os prisioneiros passando fome e, no final, arrastou-os para fora das celas e espancou-os com barras de ferro. Os corredores foram cobertos com rios de sangue. Disseram que mais de trinta morreram. Até o médico da prisão pegou uma barra de metal e começou a nos bater com ela.

Estava conosco um grupo de agricultores da Moldávia. Eles relataram as atrocidades que tinham sido cometidas com a chegada da coletivização. Alguns aceitaram a situação, outros se opuseram a ela. Estes últimos foram levados para uma sala na prefeitura, onde eram aguardados pelos “procuradores”, que eram operários de fábrica. Aqueles que se recusavam, tinham de passar no meio deles. Os “procuradores” tinham chaves de fendas e furadores de ferro, com os quais apunhalavam sem hesitar os corpos dos “reacionários”. Aqueles cujos órgãos vitais — fígado, rins, pulmões, bexiga — tinham sido feridos, morreram pouco depois. Os outros sobreviveram com ferimentos graves.

Na cela havia quase sessenta de nós amontoados. Eram agricultores, e estavam amarrados com pesadas correntes presas com pregos, para que não pudessem tirar a roupa nem se lavar. Nos pontos em que as correntes ficavam apertadas, formava-se uma crosta de sangue coagulado.

Na penitenciária de Pitesti

O bispo de Lugoj, Ioan Ploscaru, beija a mão de São João Paulo II.

Em Pitesti, aqueles que estavam acorrentados foram deixados assim de setembro até quase o Natal. Pior ainda: como eles se queixaram de estar cheios de piolhos, suas correntes foram apertadas. Os condenados a menos de quinze anos não foram acorrentados. Peguei exatamente quinze anos — a sentença mais longa, à qual foram acrescentadas outras três de oito anos cada uma —, de modo que às vezes eles me metiam em correntes e às vezes me tiravam delas. Não fiquei triste com as correntes; longe disso, eu as beijava e oferecia a Jesus: “Senhor, se agora estivésseis conosco, certamente seríeis preso e talvez até executado!” Beijava a minha roupa áspera e suja, tratando-a como a mais amada veste litúrgica, e considerava as barras como testemunhas sagradas do martírio: cheio de gratidão, eu as beijava como sinal de aceitação afetuosa. Eu fazia isso a cada vez que entrava numa nova cela.

A prisão de Pitesti era um desastre. Naquele inverno de 1960, o telhado de chapa de metal foi arrancado pelo vento. As celas eram muito insalubres. O teto frio condensava a umidade, de modo que a água estava sempre pingando sobre as nossas roupas, deixando-nos sempre molhados. Quase todas as camas eram beliches triplos, nos quais ficavam dois detentos em cada nível. Em celas como a minha, havia mais de setenta pessoas.

Dej, prisão de extermínio

As regras na prisão de Dej eram mais rigorosas do que em qualquer outra penitenciária. Essa crueldade desumana era a prova de que havia a intenção não só de nos isolar, mas de nos exterminar fisicamente.

Não nos era permitido deitar nas camas durante o dia. Forçavam-nos a sentar num banco sem encosto; por causa disso ficávamos exaustos à noite. Conversávamos por meio de sussurros, toda comunicação era proibida. À noite, tínhamos de dobrar as nossas roupas e colocá-las no banco, para que não fossem usadas como cobertor. O uso de lençóis era estritamente proibido.

No inverno, as janelas tinham de permanecer abertas, para que houvesse “ar fresco”, diziam os carcereiros. E no verão ficavam fechadas. Havia até castigo para quem se atrevesse a fazer exercícios.

Apesar da proibição da supervisão, não desistimos de rezar. Ao contrário, rezávamos com maior zelo, convencidos de que Deus estava do nosso lado e nós do lado dele. Todos os dias — desde quando acordávamos, às 5 da manhã, até às 10 da noite — todos ficávamos em silêncio, recitando as nossas orações e meditando por um longo tempo.

As “negras”

Em fevereiro de 1963, passei por um oficial e não reparei nele. Por não o cumprimentar, fui punido com cinco dias de isolamento, nas chamadas celas “negras”. Foi um inverno duro. Quando fui levado para lá, os outros ficaram com medo. Muitas vezes aqueles que saíam da cela de isolamento eram trazidos de volta em macas, com os corpos rígidos por causa do frio.

Fui deixado sozinho na cela escura e fria; como sempre, beijei o trinco e ofereci os meus sofrimentos a Jesus. Estávamos na Quaresma, e pensei que poderia fazer os exercícios espirituais. Seria um período de penitência. Todos os dias recebi oito pedacinhos de pão e uma xícara de água: o pão da dor e a água da tribulação, eu pensava. Dormir no chão duro não me pareceu muito difícil. Já estava habituado a isso. Era mais difícil suportar o frio, porque eu não tinha nada com que me cobrir.

Independentemente de todas as privações a que fui submetido na cela “negra”, esses cinco dias foram para a minha alma uma grande consolação. Evocando a paixão e a morte do nosso Salvador Jesus Cristo, os meus sofrimentos foram leves. Permaneci constantemente em meditação e oração. “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? A angústia? A perseguição? A fome? A nudez? O perigo? A espada?”, perguntou São Paulo Apóstolo. 

No final do período de cinco dias, fiquei triste por deixar a “negra”, onde me vi sozinho com Jesus. Quando o guarda veio me dizer que eu podia sair, quase tive a impressão de que estava me separando de um lugar amado.

Notas

  1. Como este texto foi publicado originalmente em abril de 2013, para esta publicação de 2022 tivemos de adaptar passim a introdução feita pelo jornalista Sandro Magister. Também acrescentamos a indicação das novas traduções do livro escrito pelo bispo romeno. (N.T.)