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Aquela Via-Sacra no Coliseu

Há 10 anos, no Coliseu, Joseph Ratzinger convidava todos os fiéis católicos a um sério exame de consciência diante da Paixão de Cristo, na Via Sacra

O Coliseu é um dos cartões postais mais famosos da Cidade de Roma. Construído por volta do ano 70 d.C., a mando do imperador romano Vespasiano, o local é frequentemente associado aos mártires cristãos. Em 1741, o papa Bento XIV declarou-o sagrado e consagrou-o à Paixão de Cristo. E desde 1964, graças a um costume iniciado por Paulo VI, o Coliseu é o lugar onde os papas se reúnem com os fiéis de Roma para meditar as 14 estações da Via Crucis.

Embora não exista nenhuma evidência histórica que confirme os relatos de martírios dentro do Coliseu, o simbolismo é inequívoco. O cristianismo nasceu debaixo da bota do Império Romano e foi regado a sangue durante um longo período. Portanto, não se pode considerar inadequada a relação entre o maior ícone dos romanos e os mártires do cristianismo. Deveras, o Coliseu é o palco adequado para reviver os momentos finais da paixão do Senhor, sobretudo as suas três quedas, que nada mais são do que as quedas do seu Corpo Místico: a Igreja.

A Tradição ensina que assim como Cristo viveu a sua páscoa, também a Igreja deverá entrar na glória do Reino por meio de uma paixão, morte e ressurreição [1]. Diz o Catecismo: "O Reino não se consumará, pois, por um triunfo histórico da Igreja segundo um progresso ascendente, mas por uma vitória de Deus sobre o último desencadear do mal". Como será isso? Mais uma vez o Catecismo responde: "A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra, porá a descoberto o 'mistério da iniquidade', sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade."

O Catecismo fala abertamente em apostasia. Ao longo da história da Igreja, grandes foram as perseguições seculares, ora de governos iníquos, ora de ideologias anticristãs. Mas o real inimigo da fé está, e sempre esteve, dentro da própria Igreja: "A maior perseguição da Igreja não vem de inimigos externos, mas nasce do pecado na Igreja" [2]. As heresias, os cismas, a rebeldia contra o Magistério e contra o papa foram, na sua maior parte, iniciadas por padres e bispos. Ário, Nestório, Pelágio, Lutero et caterva. Todos sacerdotes e heresiarcas. Todos semeadores de joio no meio do trigal.

É dentro deste contexto que se compreendem aquelas severas advertências do Cardeal Joseph Ratzinger, durante a Via Sacra de 2005. No Coliseu, diante dos holofotes do mundo todo, falou-se de uma "uma barca que está para afundar, uma barca que mete água por todos os lados." Falou-se da Igreja e do horror que nos causava a sujeira do seu vestido e do seu rosto. "Somos nós mesmos que os sujamos! Somos nós mesmos que Vos traímos sempre, depois de todas as nossas grandes palavras, os nossos grandes gestos", lamentava-se.

Em sua meditação, escrita a pedido do então pontífice São João Paulo II, Ratzinger apontou três pontos graves na crise da Igreja. O primeiro diz respeito à Eucaristia: "Quantas vezes se abusa do Santíssimo Sacramento, da sua presença, frequentemente como está vazio e ruim o coração onde Ele entra". Desde a Reforma Litúrgica de 1969, é perceptível uma abusiva e errônea aplicação dos decretos conciliares que, sob os augúrios de uma criatividade sem freios, tende a minimizar o quanto pode os gestos de reverência e adoração. O jargão mais ouvido é este: "A Eucaristia deve ser comida, não adorada". A Hóstia Santa revela todo o despojamento de Jesus, entregando-se ao homem não mais como homem, mas como alimento salvífico. Trata-se do próprio Jesus na aparência do pão e do vinho. Dominus est (Jo 21, 7). Como, destarte, não adorá-la? Como não se ajoelhar, não honrá-la com incensos e perfumes? Ora, responde Santo Agostinho, "não só não pecamos adorando-a, mas pecaríamos se não a adorássemos" [3]. É justamente porque não nos preparamos devidamente, adorando-a "em espírito e verdade" (Jo 4, 23), que a recebemos como se se tratasse de mero pedaço de pão.

Segundo ponto: "Quantas vezes se contorce e abusa da sua Palavra! Quão pouca fé existe em tantas teorias, quantas palavras vazias! Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele!" Virou moda entre os teólogos modernos "repensar" a teologia. Repensar a ressurreição. Repensar o pecado. Repensar a encarnação. E nem é preciso dizer que esse "repensar" significa esvaziar todo o conteúdo espiritual de Cristo, tornando-o um personagem do passado, que nada mais tem a dizer-nos, senão "exemplos" morais e ideológicos. Um Cristo assim não só não faz sentido, como se torna desprezível.

Por fim: "Quanta soberba, quanta autossuficiência! Respeitamos tão pouco o sacramento da reconciliação, onde Ele está à nossa espera para nos levantar das nossas quedas!" Em quantos lugares os confessionários foram substituídos por salinhas e escritórios para atendimento psicológico. O sacramento com que Cristo nos perdoa e nos insere de novo em sua amizade é reduzido a conselhos mundanos, não raras vezes, pautados em filosofias liberais e pecaminosas. "Tudo isto está presente na sua paixão", ponderou na época o futuro Bento XVI, "a traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe trespassa o coração."

Não obstante, esses pecados dentro da Igreja, longe de tolher a esperança cristã, desvendam a face do Cristo que sofre continuamente por nós. Ele, como no caminho do Calvário, não fica eternamente no chão. Levanta-se mais uma vez para nos levantar definitivamente. É sempre d'Ele a última palavra. "Vós erguer-Vos-eis. Vós levantastes-Vos, ressuscitastes e podeis levantar-nos também a nós. Salvai e santificai a vossa Igreja. Salvai e santificai a todos nós", rezava Ratzinger na nona estação. Vale recordar que o símbolo maior do Império Romano é hoje a tradicional casa dos cristãos, na celebração da Paixão de Cristo. Deus venceu o imperador!

Que esta Sexta-Feira Santa leve-nos a meditar todos esses pontos elencados pelo Papa Emérito — a nossa recepção da Sagrada Eucaristia, os pecados do clero e os abusos contra a confissão —, para que recebamos de Cristo a necessária purificação do nosso coração.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. Catecismo da Igreja Católica, 675-677
  2. Encontro do Papa Bento XVI com os jornalistas durante o voo para Portugal.
  3. In Ps., 98,9; PL 37,1264.

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O diálogo pode substituir a missão?

O diálogo pode substituir a missão? Em discurso a universitários de Roma, o Papa emérito Bento XVI reafirma a importância do anúncio do Evangelho.

Em Aula Magna para inaugurar o ano acadêmico da Pontifícia Universidade Urbaniana, de Roma, o Papa Bento XVI enfrentou o espinhoso problema da evangelização. O discurso do Pontífice emérito, lido por seu secretário pessoal, Georg Gänswein, no último dia 21 de outubro, responde se, afinal, “o diálogo pode substituir a missão" e se, ao invés de anunciar a verdade do Evangelho, “não seria mais apropriado encontrar-se no diálogo entre as religiões e servir juntos à causa da paz no mundo". O texto italiano, na íntegra, está no site Kath.net. Segue, abaixo, uma boa tradução da leitura para os católicos de língua portuguesa.

“Católica": esta definição da Igreja, que pertence à profissão de fé desde os tempos mais antigos, carrega consigo alguma coisa de Pentecostes. Recorda-nos que a Igreja de Jesus Cristo nunca visou um só povo ou uma só cultura, mas, desde o início, era destinada à humanidade. As últimas palavras que Jesus disse a seus discípulos foram: “Ide e fazei meus discípulos todos os povos" (Mt 28, 19). E no momento de Pentecostes os Apóstolos falaram em todas as línguas, manifestando, pela força do Espírito Santo, toda a amplitude de sua fé.

Desde então, a Igreja tem crescido realmente em todos os continentes. (...) O profeta Zacarias anunciou um reino messiânico que se estenderiade mar a mar e seria um reino de paz (cf. Zc 9, 9s). Com efeito, onde é celebrada a Eucaristia e os homens, a partir do Senhor, se convertem emum só corpo, faz-se presente algo daquela paz que Jesus Cristo prometeu dar a seus discípulos.

(...)

O Senhor Ressuscitado encarregou os seus Apóstolos e, através deles, os discípulos de todos os tempos, de levarem sua palavra aos confins da terra e de fazer os homens seus discípulos. O Concílio Vaticano II, retomando no decreto Ad Gentes uma tradição constante, trouxe à luz as profundas razões desse encargo missionário e confiou-o com força renovada à Igreja de hoje.

Mas, será que serve? – muitos se perguntam, hoje, dentro e fora da Igreja – A missão ainda é, de fato, algo da atualidade? Não seria mais apropriado encontrar-se no diálogo entre as religiões e servir juntos à causa da paz no mundo? A “contra pergunta" é: o diálogo pode substituir a missão? Com efeito, hoje, muitos são da ideia de que as religiões deveriam respeitar-se e, no diálogo entre elas, fazer um esforço comum pela paz. Nesse modo de pensar, na maioria das vezes se pressupõe que as diversas religiões sejam variações de uma única e mesma realidade; que “religião" seja um gênero comum, que assume formas diferentes segundo as diferentes culturas, mas expressa uma mesma realidade. A questão da verdade, essa que na origem moveu os cristãos mais do que ninguém, vem posta entre parênteses. Pressupõe-se que a autêntica verdade de Deus, em última análise, é inatingível e que, no máximo, se pode tornar presente o que é inefável somente com uma variedade de símbolos. Essa renúncia à verdade parece realista e útil para a paz entre as religiões no mundo.

Todavia, segue sendo letal para a fé. De fato, a fé perde o seu caráter vinculante e a sua seriedade, se tudo se reduz a símbolos no fundo intercambiáveis, capazes de adiar só de longe o inacessível mistério do divino.

(...)

A opinião comum é que as religiões estão, por assim dizer, uma junto à outra, como os continentes e os países no mapa geográfico. Todavia, isso não é exato. As religiões estão em movimento a nível histórico, assim como estão em movimento os povos e as culturas. Existem religiões à espera. As religiões tribais são desse tipo: têm seu momento histórico e, todavia, estão à espera de um encontro maior que as conduza à plenitude.

Nós, como cristãos, estamos convencidos de que, no silêncio, elas esperam o encontro com Jesus Cristo, a luz que vem d'Ele, a única que pode conduzi-las completamente à sua verdade. E Cristo as espera. O encontro com ele não é a irrupção de um estranho que destrói sua própria cultura ou sua própria história. É, ao invés, o ingresso em algo maior, de que eles estão a caminho. Por isso, esse encontro é sempre, ao mesmo tempo, purificação e maturação. Por outro lado, o encontro é sempre recíproco. Cristo espera a sua história, a sua sabedoria, a sua visão das coisas.

Hoje vemos cada vez mais nitidamente outro aspecto: enquanto nos países de sua grande história, o cristianismo se converteu em algo cansado e alguns ramos da grande árvore nascida do grão de mostarda do Evangelho se tornaram secas e caíram na terra, do encontro entre Cristo e as religiões em espera brota nova vida. Onde antes só havia cansaço, manifestam-se e levam alegria as novas dimensões da fé.

As religiões, em si mesmas, não são um fenômeno unitário. Nelas, sempre vão distintas dimensões. De um lado está a grandeza do tender, mais além do mundo, para o Deus eterno. Mas, de outro, encontram-se nela elementos surgidos da história dos homens e da prática das religiões, de onde podem vir, sem dúvida, coisas belas e nobres, mas também coisas baixas e destrutivas, aí onde o egoísmo do homem se apoderou da religião e, em vez de uma abertura, ela se transformou em um fechamento no próprio espaço.

Por isso, a religião nunca é simplesmente um fenômeno só positivo ou só negativo: nela um e outro aspecto se mesclam. Em seus inícios, a missão cristã percebeu de modo muito forte sobretudo os elementos negativos das religiões pagãs que encontrou. Por essa razão, o anúncio cristão foi em um primeiro momento extremamente crítico das religiões. Apenas superando suas tradições que em parte considerava também demoníacas, a fé pôde desenvolver sua força renovadora. Com base em elementos desse tipo, o teólogo evangélico Karl Barth colocou em contraposição religião e fé, julgando a primeira de modo absolutamente negativo, como comportamento arbitrário do homem que tenta, a partir de si mesmo, apoderar-se de Deus. Dietrich Bonhoeffer retomou essa definição pronunciando-se a favor de um cristianismo “sem religião". Trata-se, sem dúvida, de uma visão unilateral que não se pode aceitar. E todavia é correto afirmar que cada religião, para permanecer em seu devido lugar, ao mesmo tempo deve ser sempre crítica da religião. Isso vale, claramente, desde suas origens e com base em sua natureza, para a fé cristã, que, por um lado, olha com profundo respeito para a profunda espera e a profunda riqueza das religiões, mas, por outro, vê de modo crítico também o que é negativo. Sem dizer que a fé cristã deve sempre desenvolver de novo essa força crítica com relação à sua própria história religiosa.

Para nós, cristãos, Jesus Cristo é o Logos de Deus, a luz que nos ajuda a distinguir entre a natureza das religiões e a sua distorção.
Em nosso tempo se faz cada vez mais forte a voz dos que querem convencer-nos de que a religião como tal está superada. Só a razão crítica deveria orientar o agir do homem. Por trás de semelhantes concepções, está a convicção de que, com o pensamento positivista, a razão em toda a sua pureza adquiriu definitivamente o domínio. Na realidade, também esse modo de pensar e de viver está historicamente condicionado e ligado a determinadas culturas históricas. Considerá-lo como o único válido diminuiria o homem, subtraindo dele dimensões essenciais de sua existência. O homem se torna menor, não maior, quando não há espaço para um ethos que, com base em sua autêntica natureza, vá para além do pragmatismo, quando não há espaço para o olhar dirigido a Deus. O lugar próprio da razão positivista está nos grandes campos da ação da técnica e da economia, e todavia esta não encerra toda a humanidade. Assim, cabe a nós abrir de novo as portas que, além da mera técnica e do puro pragmatismo, conduzem a toda a grandeza de nossa existência, ao encontro com o Deus vivo.

Essas reflexões, ainda que um pouco difíceis, deveriam mostrar que hoje, em um mundo profundamente mudado, continua sendo razoável o encargo de comunicar aos outros o Evangelho de Jesus Cristo.
Há, todavia, um segundo modo, mais simples, para justificar hoje essa tarefa. A alegria exige ser comunicada. O amor exige ser comunicado. A verdade exige ser comunicada. Quem recebeu uma grande alegria, não pode guardá-la apenas para si mesmo, deve transmiti-la. O mesmo vale para o dom do amor, para o dom do reconhecimento da verdade que se manifesta.

Quando André encontrou Cristo, não pôde senão dizer a seu irmão: “Encontramos o Messias" (Jo 1, 41). E Felipe, ao qual foi dado o dom do mesmo encontro, não pôde senão dizer a Natanael que havia encontrado aquele sobre o qual tinham escrito Moisés e os profetas (cf. Jo 1, 45). Anunciamos Jesus Cristo não para procurar para a nossa comunidade o maior número de membros possíveis; e tanto menos pelo poder. Falamos d'Ele porque sentimos o dever de transmitir a alegria que nos foi doada.

Seremos anunciadores credíveis de Jesus Cristo quando o tivermos encontrado realmente no profundo da nossa existência, quando, através do encontro com Ele, nos for doada a grande experiência da verdade, do amor e da alegria.
Faz parte da natureza da religião a profunda tensão entre a oferta mística a Deus, na qual nos entregamos totalmente a Ele, e a responsabilidade pelo próximo e pelo mundo por Ele criado. Marta e Maria são sempre inseparáveis, ainda que, de vez em quando, a ênfase possa recair sobre uma ou sobre a outra. O ponto de encontro entre os dois polos é o amor no qual tocamos ao mesmo tempo Deus e as suas criaturas. “Conhecemos e cremos no amor" (1 Jo 4, 16): essa frase exprime a autêntica natureza do cristianismo. O amor, que se realiza e se reflete de modo multiforme nos santos de todos os tempos, é a autêntica prova da verdade do cristianismo.

Fonte: Kath.net | Tradução: Christo Nihil Praeponere

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Quando Ratzinger se uniu aos protestantes para defender a fé

A união de Ratzinger com dois teólogos protestantes, a fim de combater a Teologia da Libertação

Sobre a condenação de Roma à teologia liberal marxista, o vaticanista John Allen comenta que "foi uma má sorte histórica para os teólogos da libertação terem-se cruzado com Joseph Ratzinger, que ia ser um formidável opositor"01.

Ratzinger foi nomeado Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé em 1981. Antes, porém, havia exercido o cargo de professor de Teologia Dogmática em diferentes universidades alemãs, dentre elas, a de Tubinga, onde lecionava também outro teólogo conhecido: Hans Kung. O clima teológico de então - conta Bento XVI em sua autobiografia - estava sob o domínio da filosofia marxista de Ernst Bloch e da teologia política de Metz e Moltmann. Tinha-se a impressão de que tudo estava para ruir; o cristianismo era agora mitigado por uma esperança utópica, cuja finalidade não dizia mais respeito à salvação eterna e aos sacramentos, mas a uma práxis de libertação política, alinhada aos interesses do Partido. Com pesar, Ratzinger se lamentava da "maneira blasfema como então se zombava da cruz como sendo um sadomasoquismo, [d]a hipocrisia com que alguns - quando lhes era útil - continuavam se apresentando como fiéis à religião, a fim de não correrem o risco de perder os instrumentos para suas próprias finalidades"02.

A experiência com os teólogos da libertação, por conseguinte, fez com que o Cardeal - já à frente da Congregação para Doutrina da Fé - se lembrasse imediatamente dos anos em que teve de enfrentá-los na Universidade de Tubinga. Ora, era óbvio que, como exímio teólogo, ele não podia passar ao largo daquela discussão, como se se tratasse apenas de uma divergência de ideias. A Teologia da Libertação minava todo o fundamento da fé cristã, substituindo-o por um pietismo ateu, por uma ação política do ser humano em que permanecia a esperança, "mas no lugar de Deus entreva o partido, e com isso o totalitarismo de uma adoração ateísta, pronta para imolar a seu falso deus todo humanitarismo"03. Sendo assim, durante o tempo em que lecionou em Tubinga, Ratzinger lançou mão de todos os meios justos e possíveis - tal qual faria anos mais tarde - para frear os desejos da incipiente - mas não menos perigosa - Teologia da Libertação; inclusive aliando-se a dois teólogos protestantes. Ele explica:

[...] A situação na Faculdade Teológica Evangélica era essencialmente mais dramática do que a nossa. Mas, afinal, estávamos no mesmo barco. Com dois teólogos evangélicos, o patrólogo Ulrich Wickert e o especialista em missiologia Wolfgang Beyerhaus, elaborei um plano comum de ação. Achávamos que as controvérsias confessionais anteriores eram de somenos importância em comparação com o desafio diante do qual agora estávamos, e no qual tínhamos de representar, conjuntamente, a fé no Deus vivo e no Cristo, o Verbo encarnado.04

A atitude de Joseph Ratzinger, num primeiro momento, pode parecer desconcertante e incoerente, haja vista a sua má fama de "intolerante" e "cardeal panzer". Mas não o é. Tendo em mente os perigos que tal teologia traria tanto para o fundamento da fé católica quanto para o da fé protestante, ele soube enxergar que não era possível discutir as 95 teses de Lutero enquanto Roma pegava fogo. Era preciso primeiro apagar o incêndio ou nem mesmo os protestantes teriam mais algo contra o que protestar, uma vez que era o próprio Cristo agora que estava em xeque. Com efeito, não fossem os esforços conjuntos de Ratzinger e dos dois teólogos protestantes, as sequelas mais ou menos visíveis da Teologia da Libertação, "feitas de rebelião, divisão, dissenso, ofensa, anarquia"05, teriam tido um efeito muito mais feroz do que o que já se sente hoje.

O exemplo do então professor de Teologia Dogmática, Joseph Ratzinger, serve como parâmetro para os cristãos, sobretudo numa época em que o cristianismo se torna cada vez mais perseguido e odiado. Obviamente, dentro de seus respectivos templos, os padres continuarão ensinando que a Igreja Católica é "a única Igreja de Cristo [...] que o nosso Salvador, depois da sua ressurreição, confiou a Pedro para apascentar (cf. Jo 21,17)"06, ao passo que os protestantes continuarão condenando o culto à Virgem Maria como idolatria. Não se trata de relativismo. Bento XVI sempre defendeu que, na base de todo diálogo, deve-se existir antes uma profunda consciência de sua própria identidade. Mas isso não pode ser um empecilho para a defesa da vida desde a sua concepção até à morte natural, para a defesa da família entre um homem e uma mulher e para a defesa da educação dos filhos pelos pais. Esses são temas que afetam a todos e não podem, sob pretexto algum, ser negligenciados.

A divisão dos cristãos constitui um escândalo que clama aos céus; e este escândalo poderá ser ainda maior caso se deixe reinar no Brasil a cultura da morte.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. BLANCO, Pablo. Joseph Ratzinger, uma biografia. São Paulo: Quadrante, 2005
  2. RATZINGER, Joseph. Lembranças da minha vida. São Paulo: Paulinas, 2007.
  3. Ibidem, n.2
  4. Ibidem, n.2
  5. Discurso do Papa Bento XVI aos prelados da Conferência Episcopal dos bispos do Brasil do regional Sul 3 e 4 em visita «Ad Limina Apostolorum»
  6. Declaração Dominus Iesus, n. 16

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Bento XVI escreve a um ateu

​Oito meses após sua renúncia, Bento XVI rompe o silêncio e lembra ao mundo que na base de todo o diálogo está a sinceridade, de ambos os lados.

Bento XVI voltou a surpreender o mundo recentemente, após um longo período de recolhimento, desde que apresentou sua renúncia, em fevereiro passado. Em uma carta de 11 páginas, o Papa Emérito respondeu às críticas do ateu italiano Piergiorgio Odifreddi, feitas no livro "Caro Papa, escrevo-te", a propósito da pesquisa teológica e dos escândalos envolvendo a Igreja.

No texto, o Papa Emérito demonstra uma incrível capacidade de diálogo, passeando, sem medo, por temas bastante espinhosos. Sem menosprezar o esforço de Odifreddi, Bento XVI elogia a busca por um diálogo aberto com a fé da Igreja Católica, ao mesmo tempo em que também o adverte de um juízo equivocado quanto à pessoa de Cristo, convidando-o "a tornar-se um pouco mais competente do ponto de vista histórico". "O que o senhor diz sobre a figura de Jesus não é digno do seu nível científico", reclama o teólogo.

A carta é de uma sabedoria espantosa. Para além dos julgamentos cínicos que ora circundam as redações de tantos jornais e cátedras universitárias, o Papa afasta com maestria a figura de "cardealpanzer" que durante anos tentaram imputar-lhe. Algo que talvez explique o silêncio sintomático das manchetes jornalísticas - que, obviamente, deram destaque apenas às palavras de Bento XVI sobre a pedofilia -, frente ao conteúdo denso da missiva do Santo Padre. Com uma mídia acostumada a fazer sonetos à lua, esperar que se faça um retrato honesto do que fala a Santa Igreja é flertar com o ridículo.

Refutando a tese de Odifreddi, com a qual o professor julga ser a teologia mera "ficção científica", Bento XVI recorda que a função dessa nobre ciência é, justamente, "manter a religião ligada à razão, e a razão, à religião". Com efeito, a carta do Papa Emérito lembra o conceito de Santo Agostinho sobre a "teologia física". Desde os seus primórdios, os pensadores cristãos procuraram afastar a fé em Jesus Cristo da origem comum de outras religiões, diga-se, os mitos e a política, dando ao conhecimento a primazia de seus estudos. Por isso, é falsa a acusação de que no cristianismo não se encontra nada de relevante ao pensamento filosófico, uma vez que foi precisamente nesta fé que "o racionalismo se tornou religião e não mais seu adversário" [1].

Do mesmo modo que uma fé radicada nos mitos pode ser perigosa, também a razão sem a fé pode causar grandes estragos. Não por acaso o século das luzes culminou nos estilhaços da II Guerra Mundial, já que "o que gera a insanidade é exatamente a razão", dizia G.K. Chesterton [2]. Por conseguinte, responde o Papa, "no meu diálogo com Habermas, mostrei que existem patologias da religião e – não menos perigosas – patologias da razão. Ambas precisam uma da outra, e mantê-las continuamente conectadas é uma importante tarefa da teologia".

A propósito dos crimes de pedofilia, Bento XVI responde que "se não é lícito calar sobre o mal na Igreja, também não se deve silenciar, porém, sobre o grande rastro luminoso de bondade e de pureza, que a fé cristã traçou ao longo dos séculos". Seria uma grande tolice medir a Igreja pela régua dos traidores. Assim como a história da arquitetura remete às grandes obras, a do povo de Deus remete aos grandes santos, e não o contrário.

Finalizando a carta, o Santo Padre diz ao seu interlocutor: "A minha crítica, em parte, é dura. Mas a franqueza faz parte do diálogo; só assim o conhecimento pode crescer". Grande Bento XVI. Com sua sabedoria simples - e ao mesmo tempo profunda - o Papa Emérito sai de seu retiro e recorda que na base de todo diálogo está a sinceridade.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. RATZINGER, Joseph; D'ARCAIS, Paolo. Deus Existe. Planeta.
  2. CHESTERTON, Gilbert K. Ortodoxia. Mundo Cristão.

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Lápis para Bento XVI

Organizadores da campanha pretendem reunir testemunhos num livro e entregá-los a Bento XVI

Uma campanha chamada "Lápis para Bento XVI" pretende reunir testemunhos de pessoas ao redor do mundo que foram influenciadas pelos escritos do Papa Emérito. Segundo os organizadores, que mantêm um site dedicado ao prefeito da Casa Pontifícia - e também secretário pessoal de Ratzinger - Dom Georg Ganswein, a ideia é reunir todas as mensagens em um livro e entregá-las, juntamente com uma caixa de lápis, a Bento XVI. O predecessor de Francisco sempre preferiu o grafite na hora de escrever seus textos.

Durante o voo de retorno à Roma após a JMJ no Brasil, o Papa Francisco explicava aos jornalistas como é conviver com o Papa Emérito. Na ocasião, o Santo Padre se referiu a seu antecessor, chamando-o de avô. "Em uma família, quando o avô está em casa, ele é honrado, amado e ouvido", esclareceu o Pontífice. Ao refletir sobre essas palavras, a equipe do georgganswein.com decidiu iniciar a campanha. No site, os jovens justificam a ideia dizendo que "todos nós aprendemos de Bento XVI o real significado de ser um cristão, através de suas palavras, gestos, de todo o seu ser. Ele faz parte de nossas vidas de um jeito ou de outro".

Recentemente, correu o mundo a notícia da jovem ex-ateia que se converteu lendo os livros do Papa Emérito. Megan Hodder, então leitora ávida de Dawkins, Harris e Hitchens - os cães de caça do ateísmo militante -, esperava encontrar nos manuscritos de Ratzinger preconceitos e irracionalidades para fundamentar seu ateísmo. Feliz (e surpreendente) engano. "Ao contrário", lembra a moça, "fui colocada diante de um Deus que era o Logos (...) o parâmetro de bondade e verdade objetiva que se expressa a Si mesmo e para o qual nossa razão se dirige e no qual ela se completa"01.

Quem também se viu estimulado a redescobrir a fé, através dos ensinamentos do Papa Bento, foi o jornalista Peter Seewald, seu biógrafo. Seewald teve a oportunidade de entrevistar o então Cardeal Joseph Ratzinger para o livro entrevista "O Sal da Terra". Na época, o jornalista estava num processo de discernimento espiritual e foram as palavras de Ratzinger que lhe deram "o impulso necessário para dar o grande passo que faltava depois de inúmeros pequenos passos que já tinha dado". O que mais lhe impactou foi a agudeza do pensamento de Bento XVI; "suas respostas, expostas com precisão e simplicidade, e sobretudo com uma lógica irrefutável, compendiavam de maneira fascinante o enorme tesouro da herança cristã" 02.

Bento XVI já escreveu mais de 600 artigos e uma centena de livros - traduzidos em várias línguas - ora sobre teologia, ora sobre assuntos pastorais. Seu último grande trabalho foi a trilogia "Jesus de Nazaré", na qual harmoniza a pesquisa histórica cristã com a Tradição da Igreja. Em 2008, a Editora Vaticano publicou o primeiro volume da Opera Omnia de Ratzinger, trazendo em seu escopo as principais contribuições do teólogo à discussão litúrgica.

A campanha "Lápis para Bento XVI" deseja expressar o amor, o respeito e a apreciação das centenas de pessoas que tiveram nele o auxílio necessário na busca pelo Senhor. "É uma maneira", escrevem os organizadores, "de pedir-lhe que nunca pare de escrever, a fim de que um dos mais estupendos instrumentos de Deus possa continuar a ressoar". A equipe do site georgganswein.com pede aos interessados que escrevam seus testemunhos para o e-mail info@georgganswein.com até o próximo dia 30 de setembro.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere / Informações: Rome Reports

Referências

  1. A ortodoxia ateísta que me trouxe à fé
  2. SEEWALD, Peter. Meu Deus! Como voltei para Deus
  3. Pencils for Benedict

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Bento XVI curou-me de um tumor, diz jovem

O jovem Peter Srsich está convencido de que foi curado de um câncer graças à oração do Papa Bento XVI.

Um jovem norte-americano de 19 anos assegura que foi curado de um tumor no tórax graças à oração de Sua Santidade, o Papa emérito Bento XVI. Peter Srsich é universitário do estado do Colorado e visitou o Santo Padre durante uma audiência geral, no ano passado. Depois de contar ao Papa sua história, ele recebeu a imposição das mãos justamente em seu peito, onde se encontrava o seu linfoma.

Peter tinha 17 anos quando lhe diagnosticaram, após um exame de radiografia, um tumor no tórax. "Fizemos nele um exame de raios-x e este revelou um tumor das dimensões de uma bola de softball no tórax", afirmou a mãe do jovem, Laura Srsich. "O diagnóstico foi que ele estava no quarto estágio do linfoma de Hodgkin."

A família Srsich recorreu ao tratamento do câncer em um hospital infantil do Colorado e, ao mesmo tempo, recebeu o apoio da fundação Make-a-Wish (que significa, literalmente, "faça um desejo"), que trabalha em cerca de 50 países do mundo ajudando crianças e adolescentes em dificuldades. "A primeira coisa que Peter disse foi: eu gostaria de me encontrar com o Papa em Roma", declarou sua mãe.

O seu desejo foi atendido em maio de 2012, quando Peter e sua mãe foram recebidos pelo Papa Bento XVI na Praça de São Pedro, no Vaticano, durante uma audiência geral. "Quando me levantei para falar com ele, surpreendeu-me sua humanidade", conta Peter. "Foi uma experiência de humildade para mim ver como ele era humilde."

Ali, o Pontífice ouviu Peter, que lhe contou as circunstâncias de sua viagem e o drama pelo qual passava. Depois, o rapaz ofereceu ao Papa uma pulseira verde, na qual estava escrito: "Rezando por Peter". Em troca, o sucessor de São Pedro ofereceu-lhe uma bênção.

Para a família de Peter, não foi uma bênção qualquer. "Ele pôs sua mão justamente no tórax, onde estava o tumor. Não podia saber onde ele se encontrava, mas colocou sua mão justamente aí", conta Peter. Um ano depois, o jovem se encontra em perfeitas condições de saúde. No segundo ano da faculdade, ele espera poder tornar-se sacerdote.

Para Peter, a renúncia do Santo Padre só reforçou ainda mais a sua visão do encontro. Ele crê que Bento XVI colocou Deus e a Igreja acima de si mesmo e de suas exigências pessoais, um gesto de enorme humildade. "Sempre me lembrarei dele como um dos homens mais humildes do mundo e, em particular, pelo ato que acaba de cumprir", disse Peter.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere | Informações: Vatican Insider

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Bento XVI, o humilde servo da vinha do Senhor

Há oito anos subia ao Trono de Pedro um dos maiores papas da história da Igreja

O dia de hoje, 19 de abril de 2013, recorda uma data especial. Há oito anos se iniciava o pontificado de Bento XVI, como ele mesmo iria se definir, o "pobre e humilde servo da vinha do Senhor". Palavras estranhas para um mundo cada vez mais mergulhado na autossuficiência e no orgulho. Mas, passado todo esse tempo, o que ninguém pode negar é que Joseph Ratzinger realmente foi pobre e humilde, mesmo sendo quem era: o Arcebispo de uma Arquidiocese, o Prefeito de uma Congregação importante, o Papa. Na verdade, o que ele era, de fato, se resume nestas poucas palavras: um servo que fez o que deveria fazer (Lc 17, 10).

Joseph Ratzinger nunca foi do agrado da mídia. Não era alguém ávido por aplausos. Aliás, sempre criticou aqueles que o buscavam por pura "hipocrisia religiosa". O estimado teólogo se preocupava mais com Deus e com a melhor maneira de servi-lo. E por isso, não hesitava em agir contra sua vontade para fazer a de Seu Senhor. Não é de se espantar, por conseguinte, que diria aos seus colegas da Congregação para Doutrina da Fé a respeito da sua eleição como Bispo de Roma, que lhe acontecera o mesmo que Jesus dissera a Pedro: "Virás o dia em que serás conduzido a um lugar que não queres ir"(Jo 21, 18).

É claro que um homem assim causaria espanto no mundo, sobretudo naqueles seduzidos pelo prurido de escutar novidades (II Tm 4, 3). Quem se opõe ao erro está sujeito ao escarnecimento público, ao martírio da ridicularização. E isso foi o que menos faltou na vida de Ratzinger. Nazista, cardeal panzer, homofóbico, reacionário. A lista de calúnias é imensa. Todas vindas de um grupo que quer a Igreja prostrada diante do mundo, quando, na verdade, é o mundo que precisa se prostrar, pois é ele que está sujo pela miséria do pecado, da imundice, da podridão, da crise da queda do Éden. É o mundo que necessita da Igreja e dos seus Sacramentos.

Durante esses gloriosos oito anos de pontificado, poucos puderam perceber a grandeza e, ao mesmo tempo, a pequenez por detrás daquela batina branca. Bento XVI representa claramente o paradoxo do Cristianismo, comentado por Chesterton em sua "Ortodoxia". Todas aquelas vestes sacerdotais que enchiam os olhos dos que acompanhavam suas Missas, escondiam um homem de hábitos simples e humildes. Bento XVI sabia que tudo aquilo não era para ele, mas para um Outro:

"Se a Igreja deve continuar a converter, a humanizar o mundo, como pode, na sua liturgia, renunciar à beleza, que é unida de modo inseparável ao amor e, ao mesmo tempo, ao esplendor da Ressurreição? Não, os cristãos não devem se contentar facilmente, devem continuar fazendo de sua Igreja o lar do belo, portanto do verdadeiro, sem o que o mundo se torna o primeiro círculo do inferno". [1]

Bento XVI em visita a Inglaterra em setembro de 2010

Durante suas viagens, sempre antecedidas de grandes barulhos da mídia anticlerical, Bento XVI tinha o dom de desarmar a qualquer um e fazê-los escutar. David Cameron, primeiro-ministro inglês, diria acerca da visita do Santo Padre ao Reino Unido em 2010 que "o Papa falou para um país de seis milhões de católicos, mas foi ouvido por 60 milhões de cidadãos". Vargas Llosa, Nobel de Literatura e agnóstico confesso, iria mais longe. Sobre a Jornada Mundial da Juventude em Madrid, Espanha, teria a humildade de reconhecer que foram dias "em que Deus parecia existir".

Bento XVI na Jornada Mundial da Juventude 2011 em Madri

Bento XVI na Fazenda da Esperança

Mas foi no Brasil, na sua visita à Fazenda da Esperança, um centro de recuperação de dependentes químicos, localizado na cidade de Guaratinguetá-SP, que Bento XVI surpreenderia a todos. Sem avisar a equipe de segurança, o Santo Padre decidiu abrir caminho entre um público de 2 mil pessoas, dentre os quais, ex-traficantes, drogados, prostitutas e criminosos, para abraçá-los e abençoá-los. O gesto fez com que o ex-dependente químico Antônio Eleutério Neto dissesse que Bento XVI era "um homem de uma humildade muito grande, muito próximo de Deus, que desarmou a todos com o seu sorriso."

Esse é o Papa Bento XVI. O homem da Palavra de Deus que evangelizou a todos através de seus gestos e discursos. Certamente, seu Ministério Petrino ficará marcado na história da Igreja recente como um dos mais importantes e fecundos para a espiritualidade cristã. Desde a sua contribuição teológica às suas ações pastorais. Que as próximas gerações possam encontrar neste tesouro deixado pelo Papa Emérito uma bússola segura para suas dúvidas e conflitos. Obrigado, Papa Emérito Bento XVI.

Por: Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. (1) MESSORI, Vittorio. "A Fé em crise? O Cardeal Ratzinger se interroga." Ed. Epul, São Paulo, 1985. p. 95-97.

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Pobre Bento XVI

A simplicidade e a humildade serão, de fato, características marcantes do pontificado do papa Francisco. Praticamente toda reportagem faz questão de ressaltar esses pontos, que são, realmente, elogiáveis. No entanto, a maior parte dos relatos da imprensa também faz questão de estabelecer um antagonismo entre Francisco e seu antecessor, Bento XVI. Não basta saber que o anel do novo papa é de prata, banhado a ouro; é preciso citar o de Ratzinger, feito de ouro maciço. Elogia-se o papa que mantém a cruz peitoral de ferro dos seus tempos de bispo, ao mesmo tempo em que se lembra que Bento XVI usava cruzes de ouro. A impressão é de que se pretende levar o leitor a pensar “esse, sim, é um bom papa, não é como o anterior", como se um conclave fosse um concurso de simpatia.

O mote começa a beirar o exagero quando cerimônias como a do início do pontificado são elogiadas por sua “simplicidade" em contraposição às liturgias de Bento XVI. Na verdade, a missa em quase nada foi diferente do que teria sido se o papa anterior a tivesse celebrado. É verdade que o novo pontífice não parece demonstrar o mesmo interesse pela liturgia que tinha Bento XVI, mas é preciso levar em consideração que Ratzinger jamais viu nas vestes litúrgicas um instrumento de ostentação e autopromoção. Sua visão da beleza como elemento apologético está bem documentada em sua obra. E, simplicidade por simplicidade, Bento sempre fez questão de usar adereços litúrgicos – cada um deles carregado de simbologia, ou seja, não se trata de mero enfeite – já usados por outros papas e pertencentes ao Vaticano, com custo zero.

Francisco se sente muito à vontade entre a multidão, mas é até injusto comparar um pontífice com décadas de experiência pastoral com um acadêmico introvertido que fez praticamente toda a sua carreira eclesiástica em universidades e na Cúria Romana. E, mesmo assim, Bento nunca fugiu dos fiéis ou nunca se mostrou avesso ao contato com as pessoas. O “abraço coletivo" que ganhou dos dependentes de drogas na Fazenda Esperança, em Guaratinguetá (SP), é um dos momentos mais tocantes de sua visita ao Brasil, em 2007.

A julgar pelas repetidas menções que faz a seu “amado predecessor", muito provavelmente o próprio papa Francisco rejeitaria comparações de estilo com a intenção de diminuir Bento XVI ou fazê-lo parecer fútil com suas cruzes douradas e sapatos vermelhos. Mas é difícil imaginar que os elogios ao papa simples e humilde vão continuar quando ele começar a se pronunciar sobre os tais “temas polêmicos" a respeito dos quais a imprensa sempre espera, em vão, por mudanças. Aí se perceberá que Bento XVI e Francisco não são tão diferentes quanto parecem.

Fonte: Gazeta do Povo – Por Marcio Antonio Campos