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Cinco encíclicas sociais que você precisa ler do Papa Leão XIII
Doutrina

Cinco encíclicas sociais que
você precisa ler do Papa Leão XIII

Cinco encíclicas sociais que você precisa ler do Papa Leão XIII

As intervenções de Leão XIII em matéria política e econômica deram origem a um corpo completo, consistente e muito bem articulado de doutrina social, com o qual nossa época tem necessidade urgente de aprender.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Julho de 2019Tempo de leitura: 7 minutos
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Um dos muitos benefícios de estudar história da Igreja é que, em tempos difíceis, isto pode nos proporcionar modelos inspiradores e motivos para manter viva a esperança.

Antes de Leão XIII (Gioacchino Vincenzo Raffaele Luigi Pecci, 1810-1903, que reinou de 1878 a 1903), a Igreja Católica no séc. XIX estava sitiada e na defensiva. Ela era marginalizada e desprezada de muitas maneiras; os liberais “ilustrados” que estavam à frente da Europa (tal como hoje) menosprezavam-lhe as palavras e atitudes “medievais” e previam-lhe o desaparecimento como coisa mais do que certa. Ao líder supremo da Igreja, aparentemente, não cabia outra coisa a fazer senão protestar e lançar anátemas contra um mundo que já não lhe dava ouvidos. Os laicistas de então não podiam sequer imaginar que a Igreja conseguiria responder corajosamente aos desafios da época, conquistando um grande prestígio moral onde ela havia perdido territórios e apoio político.

E no entanto foi justamente isso que aconteceu, graças ao surpreendente pontificado de Leão XIII, que durou 25 anos e meio, um dos mais longos da história, perdendo apenas para o pontificado de Pio IX (que durou 31 anos e meio) e de João Paulo II (que durou 26 anos e meio).

As principais intervenções de Leão XIII em matéria política e econômica deram origem a um corpo completo, consistente e muito bem articulado de doutrina social, unindo, em uma ética social consistente, o que dizem as Escrituras, os Padres e Doutores da Igreja, além das intervenções anteriores do Magistério. Se levarmos em conta que Leão XIII escreveu quase 100 encíclicas, endereçadas a diferentes públicos e abordando uma variedade enorme de assuntos, pode ser um pouco intimidador recomendar um número, modesto que seja, de “leituras obrigatórias”. Mas, felizmente, não se trata de uma tarefa nada difícil, porque ninguém menos do que o próprio Leão XIII declarou, no fim do seu pontificado, em sua carta retrospectiva Annum Ingressi Sumus, de 1902, quais de suas tantas encíclicas sociais eram para ele as mais importantes.

São cinco as encíclicas que, tomadas em conjunto, compõem como que um “minicurso” sobre os fundamentos da Doutrina Social Católica: 

  1. Diuturnum Illud, de 1881, sobre a origem da autoridade civil; 
  2. Immortale Dei, de 1885, sobre a constituição cristã dos Estados;
  3. Libertas Praestantissimum, de 1888, sobre a verdadeira e a falsa noção de liberdade;
  4. Sapientiae Christianae, de 1890, sobre os deveres dos cidadãos cristãos para com os seus Estados; e 
  5. Rerum Novarum, de 1891, sobre o trabalho e o capital, isto é, os direitos e deveres de empresários e trabalhadores.

1) Em Diuturnum Illud, Leão XIII demonstra por que Deus é e deve ser a fonte de toda sociedade política, assim como de todas as formas de autoridade que os governantes exercem. De fato, os homens que são eleitos para o governo não são a fonte de seus próprios poderes, nem estão sujeitos ao povo do mesmo modo como o estão a Deus, que os irá julgar a todos mais severamente, por causa do peso da responsabilidade que assumiram. Corrigindo incontáveis erros de origem iluminista sobre a origem e a finalidade do poder político, típicos dos ocidentais modernos, esta encíclica apresenta também uma excelente explicação sobre o que se costuma chamar “desobediência civil”, mas que, em verdade, nada mais é do que uma obediência firme às leis supremas de Deus.

2) Em Immortale Dei, Leão XIII esmiúça em detalhes como seria a constituição cristã ideal para um Estado e explica por que é impossível sustentar que um Estado não tem obrigação alguma para com Deus e a Igreja nem o dever de formar seus cidadãos na virtude moral. Como já fizera antes, Leão XIII argumenta contra “os princípios e fundamentos de uma nova concepção de lei”. O que ele tem em mente é a teoria do “contrato social”, que, em aberta contradição com a lei tanto divina como natural, compromete a estabilidade do Estado, que depende em grande medida da profissão eficaz da religião, quer dizer, do cumprimento dos deveres primários de cada cidadão para com Deus. Esta encíclica contém ainda uma das melhores explicações já feitas sobre as semelhanças e diferenças entre a sociedade civil e a sociedade constituída pela Igreja Católica: ela ilustra com clareza excepcional quais são as esferas de autoridade próprias de cada uma e como elas podem, ocasionalmente, sobrepor-se ou entrar em conflito.

3) Intimamente relacionada com tudo isso, temos a encíclica Libertas Praestantissimum, que é até hoje a análise mais compreensiva e aguda sobre o sentido da liberdade humana que já nos foi presenteada pela cátedra de Pedro. Isso explica por que ela é um dos documentos citados com mais frequência pelos sucessores de Leão XIII. Esta encíclica fala sobre a dependência da vontade humana da lei, da verdade e da graça; sobre a escravidão a que conduz a liberdade, quando usada de forma abusiva; sobre a interconexão entre as leis eterna, natural e humana; sobre a corrupção universal a que nos leva o liberalismo político, entendendo por esse nome a doutrina de filósofos do séc. XVIII como John Locke; sobre o evidente absurdo que é a separação entre Igreja e Estado [1]; e sobre os casos em que pode ser permitido tolerar falsas religiões, a fim de evitar assim maiores males.

4) Dando um passo a mais, Leão XIII publicou a encíclica Sapientiae Christianae, acerca dos direitos e responsabilidade dos cristãos como membros das sociedades modernas. Como era de se esperar, o Papa fala com sabedoria e prudência sobre o mar de dúvidas que tem o cidadão católico: o que é o verdadeiro patriotismo ou piedade nacional, e como ele se relaciona com a devoção à Igreja? Qual é a missão dos leigos e da família católica no mundo, quais são as regras que hão-de guiar as escolhas políticas de um católico e que tipo de comportamento em âmbito público pode ser considerado uma ofensa a Deus? Como a Providência divina quer que a Igreja e o Estado trabalhem juntos para que os cidadãos possam alcançar sua perfeição natural e sobrenatural? Além disso, Leão XIII aborda uma série de outras questões como, por exemplo, a atitude que deve ter um leigo diante dos erros de um Bispo e por que os cristãos que fracassam em viver a fé são culpados de um pecado mais grave que o dos judeus que rejeitaram o Messias.

O Papa também fala, com uma clareza muito maior que a dos líderes dos movimentos dos direitos civis que surgiram anos depois, sobre os porquês de seguir a própria consciência contra os ditames imorais de um governo.

5) Rerum Novarum, por fim, é a encíclica mais conhecida de Leão XIII. Infelizmente, muitos caíram na tentação de buscar nela um sumário completo da Doutrina Social Católica, algo que ela obviamente não contém nem pretende oferecer. O Papa fez questão de salientar, no próprio documento, que ele já havia escrito outras encíclicas (como as mencionadas acima) que deveriam ser lidas antes, a fim de compreender de forma adequada o contexto das considerações predominantemente econômicas de Rerum Novarum. Tais considerações incluem, entre outras coisas, 

  • o porquê de o socialismo ser totalmente injusto e estar fadado a tornar piores as situações que ele promete melhorar
  • o porquê de a instituição da propriedade privada (ou seja, a posse individual de bens próprios) ser benéfica ao indivíduo, à família e ao Estado; 
  • o porquê de a família ser, em certo sentido, anterior ao mesmo Estado; o porquê de ser útil e necessário o dever do Estado de promover o bem comum do maior número possível de pessoas; e, enfim, 
  • o porquê de o Estado ter a obrigação de proteger e fazer cumprir os direitos e responsabilidades das várias classes sociais. 

Fala-se também claramente dos deveres tanto de patrões como de empregados; explica-se qual é a regra principal e mais perfeita para o uso correto do dinheiro (isso por si só não nos deveria dar vontade de ler o documento todo?); define-se e defende-se contra possíveis objeções a ideia de “salário justo” e de “salário familiar”; e defendem-se com vigor as uniões ou “guildas” de trabalhadores e, portanto, o “direito de associação”. Sempre que leio esta encíclica, fico maravilhado ao ver como os grandes problemas e sofrimentos econômicos do séc. XX (e, certamente, do séc. XXI) já tinham sido previstos; as suas causas, expostas; e as suas soluções, propostas.

No magistério de Leão XIII, encontramos um projeto sistemático de engajar o mundo moderno, projeto que ele buscou levar à prática com todas as forças e sem desvios ao longo de um quarto de século. Apesar de ter sido profundamente crítico e pessimista quanto à direção em que estava caminhando o Ocidente, e mesmo sabendo que os filósofos secularistas eram um veneno mortal, Leão XIII manteve-se animado por um visão marcadamente positiva sobre o que Cristo e a Igreja podiam fazer pelo homem moderno, que necessita ser salvo dos ídolos que suas próprias mãos fabricaram.

Notas

  1. A esse respeito, consulte-se o excelente artigo “Relações entre a Igreja e o Estado”, da pena do Pe. Leonel Franca (in: Obras completas do Pe. Leonel Franca, SJ, v. 5: Alocuções e artigos, t. 1. Rio de Janeiro: Agir, 1954, pp. 11-54).

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Por que antigamente não se celebrava São José?
Liturgia

Por que antigamente
não se celebrava São José?

Por que antigamente não se celebrava São José?

É justo que a Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos.

Fr. Isidoro de IsolanoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 4 minutos
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Muitos perguntam por que os antigos não celebravam a festa de São José.

Devemos responder que os Santos Padres — que foram colunas da Igreja — dedicaram-se a tornar conhecida aos povos a natureza divina de Nosso Senhor, esmagando contra a pedra da fé as inúmeras heresias que se levantaram contra a divindade dele. E por isso deixaram de lado solenidades como a de São José (sobretudo os Padres do Ocidente e mais ainda a Igreja romana, que, conservando pura a fé, destruiu todas as heresias que se levantaram contra a santa e verdadeira doutrina).

Outra razão: José se encontra entre os patriarcas do Antigo e do Novo Testamento, e raras vezes se celebravam os patriarcas. Por isso disse Ubertino de Casal, da Ordem dos Frades Menores: “A Igreja não celebra a festa de São José porque ele desceu ao limbo e pertence ao Antigo Testamento”.

Por outra parte, a missão, os milagres e os benefícios de José permaneceram ocultos por muito tempo. E quando a Igreja logrou a paz (n.d.t.: com o Edito de Milão, em 313), os feitos de José tornaram-se públicos, chegando assim ao conhecimento dos povos católicos.

Também devemos acrescentar que, nos primeiros séculos, só eram cultuados os mártires; e, além disso, pensava-se que as festas do Nascimento do Salvador, da Circuncisão, Adoração dos Magos, Apresentação do Senhor no Templo e fuga para o Egito eram comuns a Jesus Cristo, à Virgem Santíssima e a São José. E, por isso, não buscavam outra festividade que honrasse o santo pai do Senhor, José.

Mas, com o passar do tempo — provada suficientemente a divindade do Salvador para todos quantos quisessem crer; explicadas também as passagens obscuras das Sagradas Escrituras; e sendo claramente conhecido por todos que José, ainda que fosse esposo da Santíssima Virgem, viveu com ela em perpétua virgindade, ligados por um mesmo voto —, é razoável crer que Deus tenha querido honrar José na Igreja militante com dignidades especiais, e é justo que a Mãe Igreja tribute um culto especial àquele que Cristo venerou como pai. E como não o permitissem os inícios da Igreja nascente nem, depois, as perseguições dos tiranos e hereges, faz sentido que essas honras tenham lugar nestes últimos tempos. Portanto, não tememos afirmar que é agradabilíssimo a Deus que se elevem súplicas e pedidos a José. Pois como o Filho de Deus iria negar algo a José, se no seu íntimo sempre o amou? Que filho agradecido pode esquecer os benefícios paternos? Ainda mais o Filho de Deus, que faz nascer o sol sobre bons e maus (cf. Mt 5, 45).

Não hesitemos nem temamos nos dirigir a José para implorar sua graça; em vez disso, confiemos que tais pedidos são agradabilíssimos ao Deus imortal e à Rainha dos anjos. O mesmo Filho de Deus — sob ameaças de penas temporais e eternas — mandou observar este grande preceito: “Honra teu pai”. E se a razão nos persuade disso e também a natureza o exige, por que vacilamos em fazer um ato tão agradável ao Filho de Deus: o ato de honrar com elogios a José, seu pai, como o designa o Evangelho? O que honra o pai, honra o filho dele. Quem ama o esposo, também ama a esposa; e se oferece presentes àquele, também compraz a ela.

Entre os habitantes do Céu não diminui a caridade nem o afeto mútuo, nem se perdem as súplicas que lhes são dirigidas: tudo se transforma em perfeição. Por isso, os que aqui se amaram santamente, ao chegar à pátria celeste, irão se amar ainda mais. Lá não haverá inveja: a alegria e todas as demais coisas serão comuns. E, se isso ocorre com os santos, que acontecerá com o Deus verdadeiro, que é o Santo dos santos? E assim, quando o Filho de Deus enxerga na luz de sua glória que alguém ama São José, que procura honrá-lo ou implora sua intercessão, alegra-se grandemente; e para glorificar — como filho — o seu pai nutrício, ouve essas súplicas e as atende bondosamente, derramando os dons celestiais com maior abundância sobre aqueles que o invocam por sua mediação.

Acaso duvidamos que a Rainha do Céu e da terra deseje com toda a sua alma a glorificação e a honra de seu verdadeiro esposo? Só poderá dizer que essas honras não comprazem os habitantes do Céu quem pensar, de forma insensata, que a caridade dos santos possa definhar. 

Por isso, fiel devoto da Santíssima Virgem, quando rezares o Terço, não deixes de acrescentar ao final dele alguma oração em honra do seu divino esposo São José. Com ele, tua oração será mais agradável a Deus e alegrarás de uma só vez o Céu e a terra. O Céu, porque toda a corte celeste se regozija quando vê o pai nutrício do Salvador ser honrado; e a terra, porque o homem nascido dela e nossa santa mãe Igreja — que é a terra dos que vivem na vida da graça — recebem os dons celestiais pelos méritos e súplicas de São José.

Notas

  • Fr. Isidoro de Isolano, “Por qué los antiguos no celebraban la fiesta de San José”. In: Suma de los dones de San José. Madrid: BAC, 1953, pp. 642-645.

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“Não coma um demônio”
Espiritualidade

“Não coma um demônio”

“Não coma um demônio”

Relato de um exorcista nos dá uma razão a mais para sempre rezar antes das refeições. Não pode haver melhor remédio para combater a fome do diabo, “que rodeia como um leão procurando a quem devorar”, do que a bênção e o refúgio em Deus.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 8 minutos
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Por que rezar antes das refeições? Já publicamos aqui um texto a esse respeito, ensinando o valor dessa prática principalmente na educação das crianças. Hoje, queremos apresentar uma reflexão um pouco diferente, contendo o interessante relato de um padre exorcista. Seu nome é Mons. Stephen Rossetti e ele mantém na internet uma espécie de “diário”, com histórias muito interessantes de seu ministério. Esta, em particular, tem um título particularmente intrigante: Don’t eat a demon — literalmente, “não coma um demônio”. Eis o que ele conta:

Eu estava almoçando com uma de nossas fiéis leigas agraciadas [por Deus com dons extraordinários]. Temos várias delas. Essa pessoa [em particular] tem o dom de realmente ver demônios. Os pratos de comida foram colocados pela serviçal à nossa frente, mas ela não começou a comer. Foi notável. Finalmente, ela levantou os olhos e disse: “O sr. não vai abençoar a comida?

Pelo modo de ela proceder, eu sabia que algo estava acontecendo. Respondi: “Algo errado com a comida?” Ela acenou com a cabeça, mas nada disse. “Há alguns demônios sobre ela?”, perguntei-lhe. “Sim”, ela disse. Dei [então] a típica bênção sobre os alimentos. Ela disse que os demônios rapidamente saíram. De novo, ao chegar a sobremesa, ela hesitou. “Há demônios sobre ela também?”, perguntei-lhe de novo. “Sim”, ela disse. Desta vez, fiz com que ela dissesse a bênção, e eles saíram.

Isso pode fazer você se perguntar: o que se passou na cozinha?! Bem, esse foi um raro incidente (até onde sei) de demônios sobre a comida vistos por ela. Suspeito que algum dos cozinheiros tenha amaldiçoado o alimento antes de ele sair. Pode parecer estranho, mas tenho descoberto que há mais pessoas amaldiçoando coisas, e envolvidas em práticas ocultistas, do que eu esperava.

Se eu tivesse ingerido a comida sobre a qual estavam os demônios, não sei ao certo o que teria acontecido. Sem dúvida não teria sido algo agradável. Eu decerto teria tido uma indigestão ou algo do tipo.

Moral da história: não vá a lugar algum sem o seu próprio místico! [Risada.] Ao mesmo tempo, você pode imaginar como eu fiquei bem mais atento à bênção sobre os alimentos antes de comê-los… Quem deseja comer um demônio, afinal [1]?

Antes de tratar da bênção sobre os alimentos propriamente dita, falemos um pouco do valor que realmente têm os malefícios feitos por outrem contra nós. Infelizmente, nessa matéria, muito facilmente as pessoas tendem ao extremo da credulidade e da superstição, atribuindo a determinados ritos e entidades um poder que eles definitivamente não têm. Sobre isso, vale a pena considerar o que escreveu certa vez o Fr. Boaventura Kloppenburg:

Para nós cristãos […] não há dúvida: o demônio existe e atua realmente entre os homens. Mas daí não se pode inferir sem mais nem menos que o demônio está também à disposição dos feiticeiros e malfeitores para executar fielmente suas perversas vontades. A questão da eficácia dos feitiços deve ser resolvida numa outra base: terá o homem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficaz uma atuação ou intervenção destas forças do mal? O homem pode, não há dúvida, querer ou desejar a presença do demônio, pode mesmo consciente e deliberadamente entregar-se a ele, pode ajoelhar-se perante Satanás, adorá-lo e oferecer-lhe sacrifícios. Tudo isso, por mais deplorável, repugnante e pavoroso que seja, pode estar no abuso da liberdade humana. É o “mistério da iniquidade”, o tremendo mistério da desgraçada possibilidade de pecar, de revoltar-se contra o Criador e de pactuar com o mal. Outra, todavia, é a questão de saber se o demônio pode ser como que forçado ou obrigado pelo homem mau a comparecer e a executar suas ordens: bastará a má vontade de um feiticeiro ou babalaô para lançar a ação diabólica contra uma outra pessoa?

Nossa firme resposta é totalmente negativa: o homem não tem a faculdade ou a possibilidade de provocar por sua própria iniciativa e de modo eficiente uma atuação perceptível do demônio ou de qualquer outro espírito do além. Esta é a razão por que sustentamos que o feitiço, o malefício, o despacho ou a magia são, como tais, ineficazes (Nossas superstições. Petrópolis: Vozes, 1959, p. 22s).

Na mesma linha, o Pe. Royo Marín admite que “são raríssimos os verdadeiros malefícios (ainda que, de fato, possam dar-se) e não se deve facilmente dar crédito às calamidades que sem fundamento se atribuem aos feiticeiros” (Teología moral para seglares, vol. 1. Madri: BAC, 1996, p. 356).

O verdadeiro malefício

Em suma, esse ato de invocar os demônios para prejudicar os outros tem sempre um valor relativo. Essas coisas não funcionam como “sacramentos às avessas”; as palavras de bruxos e feiticeiros não necessariamente operam o que significam. E por um motivo bem simples: também os anjos decaídos, invocados por essas pessoas, estão submetidos à ordem da divina Providência. Muito antes de ser adversários de Deus, os demônios são criaturas; seu poder é sempre muitíssimo limitado, e até a sua liberdade de ação é aproveitada por Deus em favor dos eleitos, como diz o Apóstolo: “Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28).

Portanto, não devemos nos preocupar: até os fios de cabelo de nossas cabeças estão todos contados (cf. Lc 12, 7). Assim como o justo Jó não foi acossado por Satanás sem antes apresentar-se diante de Deus e pedir-lhe permissão para agir, nós não estamos simplesmente à mercê dos espíritos maus, como se eles fossem “minideuses” onipotentes e o Deus único e verdadeiro nada pudesse contra eles. 

Consideremos também que o pior malefício que pode nos atingir é aquele que nós mesmos provocamos, quando caímos no pecado ou fazemos dele um projeto de vida. Eis o verdadeiro mal, do qual temos de pedir todos os dias a Deus que nos livre. 

Se as coisas não vão bem em nossa vida, desenganemo-nos de pensar que a culpa é do “mau olhado” do vizinho ou dos “trabalhos” que alguém fez para nós. Nossos pecados pessoais têm um papel muito mais importante na nossa ruína do que a suposta “inveja” dos outros. Nosso pior inimigo não são os satanistas, nem o próprio Satanás, pois nem este nem aqueles têm o poder de precipitar-nos no inferno; na maioria esmagadora das vezes, somos nós, com nossos “pensamentos e palavras, atos e omissões”, que causamos nossa própria desgraça — primeiro nesta vida, mas depois, e principalmente, na outra.

Como proceder diante da maldição?

Mas concedamos: talvez tenhamos sido, sim, alvo de um verdadeiro malefício. 

Neste caso, pensemos que ele só nos adveio depois de uma misteriosa permissão de Deus. E Ele não permite mal algum do qual não nos possa tirar um bem maior. Para Jó, a perda dos bens, da família e até da própria saúde só o fez crescer ainda mais na fé e na confiança em Deus. Habacuc, por sua vez, num cântico que a Igreja entoa pelos séculos em seu Ofício Divino, profetiza que se alegrará mesmo em meio às privações:

Porque a figueira não florescerá,
e as vinhas não deitarão os seus gomos.
Faltará o fruto da oliveira,
e os campos não darão de comer.
As ovelhas serão arrebatadas do aprisco,
e não haverá bois nos estábulos.
Eu, porém, me regozijarei no Senhor,
e exultarei em Deus, meu salvador (Hab 3, 17s).

Para nós, porém, o que será? Como reagiremos quando a desolação bater à nossa porta; quando, por assim dizer, a “maldição” nos visitar?

“A Oração Antes da Refeição”, de Jan Steen.

A história acima mostra como uma pequena bênção anulou uma maldição. Que instrumento tão simples e, ao mesmo tempo, tão eficaz Deus colocou em nossas mãos: uma refeição contaminada, pelas palavras constitutivas de um sacerdote, ou mesmo pela simples oração invocativa de um leigo, torna-se abençoada. Não é extraordinário? Quantos males não poderíamos evitar, e quantos bens não poderíamos ganhar, se simplesmente buscássemos rezar mais, invocando a proteção divina sobre nossos lares, abençoando nossos filhos ao chegarem e ao saírem de casa, fazendo uma prece pelo bom sucesso de uma viagem, consagrando nossos dias e noites a Deus e, também, orando em família antes e após as refeições? Alguém duvida de que muitas desgraças se abatem sobre nós, sobretudo as de ordem espiritual, justamente porque deixamos de nos encomendar a Deus e à sua proteção?

Que remédio pode haver melhor, portanto, para combater a fome do diabo, “que rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar” (1Pd 5, 8), do que a bênção e o refúgio em Deus? Só Ele, afinal de contas, pode fazer superabundar a graça onde, antes, abundou o mal. Só Ele é capaz de realmente afugentar os demônios dos “pratos” da nossa vida.

Isso envolve, evidentemente, muito mais do que uma simples oração antes e após as refeições. Mas tampouco caiamos na tentação de desprezar essas pequenas coisas. Se você ainda não tem o costume de rezar ao comer, comece hoje mesmo. Talvez nós e nossos familiares estranhemos no começo, talvez uma vez ou outra acabemos esquecendo de rezar e tenhamos de o fazer com um bocado de comida já dentro da boca... Mas, à medida que esse ato salutar se converter em hábito, veremos como, em pouco tempo, já não conseguiremos mais levar nada à boca sem antes agradecer a Deus o alimento que Ele nos dá e as graças de que Ele nos cumula todos os dias de nossa vida.

Abaixo, disponibilizamos um formulário simples de Benedictio mensae, em latim e português, para uso de todos. (Quem quiser incrementar sua oração em latim com alguns salmos e versículos bíblicos, ou com partituras para a bênção e ação de graças cantadas, pode acessar este arquivo, produzido pelos monges beneditinos de Norcia.)

1. Bênção antes das refeições.Bénedic, Dómine, nos et haec tua dona quae de tua largitáte sumus sumptúri. Per Christum Dóminum nostrum. ℟. Ámen. | Abençoai-nos, Senhor, a nós e a estes dons que da vossa liberalidade recebemos. Por Cristo, Senhor nosso. ℟. Amém.
Ante prándium: ℣. Mensae caeléstis partíceps faciat nos, Rex aetérnae glóriae. ℟. Ámen. | Almoço: ℣. Que o Rei da eterna glória nos faça participantes da mesa celestial. ℟. Amém.
Ante cénam: ℣. Ad cénam vitae aetérnae perdúcat nos, Rex aetérnae glóriae. ℟. Ámen. | Jantar: ℣. Que o Rei da eterna glória nos conduza à Ceia da vida eterna. ℟. Amém.

2. Bênção depois das refeições.Agimus tibi grátias, omnípotens Deus, pro univérsis benefíciis tuis, qui vivis et regnas in sáecula saeculórum. ℟. Ámen. | Nós vos damos graças, Deus onipotente, por todos os vossos benefícios, Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. ℟. Amém.
℣. Deus det nobis suam pacem. ℟. Et vitam aetérnam. Ámen. | ℣. Que Deus nos dê a sua paz. ℟. E a vida eterna. Amém.

Notas

  1. Evidentemente, nenhum católico é obrigado a acreditar nessa história. Só a apresentamos na esperança de trazer algumas lições frutuosas para nossos leitores. Quem achar, porém, que ela nada acrescenta à sua própria vida, simplesmente a ignore, segundo aquilo do Apóstolo: Omnia legentes, quae bona sunt tenentes, “Examinai tudo, ficai com o que é bom”.

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José ou João Batista: quem foi o maior, afinal?
Santos & Mártires

José ou João Batista:
quem foi o maior, afinal?

José ou João Batista: quem foi o maior, afinal?

Se Nosso Senhor mesmo afirma que São João Batista é o maior entre os nascidos de mulher, por que tantos católicos insistem em afirmar que, depois da Santíssima Virgem Maria, São José é o maior de todos os santos?

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Há alguns meses, recebemos no suporte do site a seguinte pergunta: “Recentemente, li um artigo do site sobre o ano de S. José, e algo me capturou a atenção, a saber: ‘[…] crescer em devoção a este [S. José] que é, depois de Maria, o maior de todos os santos de Deus’. No entanto, não teria nosso próprio Senhor dito em Mt 11, 11: ‘Entre os nascidos de mulher não se levantou ninguém maior do que João, o Batista’? Como resolver esse dilema?”

Resposta: Nosso Senhor não se refere em Mt 11, 11 à grandeza de João Batista em sentido absoluto, como se ele fora, de todos os homens já nascidos ou por nascer, o maior em santidade e graça, mas em sentido relativo, por comparação com os santos do Antigo Testamento. João Batista, com efeito, foi o maior dos profetas, o que se vê pelos privilégios e ofícios que Deus lhe atribuiu, dentre os quais se podem destacar os seguintes:

  1. Foi santificado, isto é, purificado do pecado original ainda no útero materno e ali mesmo começou a anunciar, por seu frêmito de alegria, a presença do Messias (cf. Lc 1, 44);
  2. Instituiu, por inspiração especial, o batismo de penitência e, por disposição divina, teve a honra de batizar a Cristo no rio Jordão (cf. Mc 1, 7-11);
  3. Foi o primeiro a pregar a proximidade do Reino dos Céus, ao qual levou e converteu muitíssimos pecadores (cf. Mc 1, 5);
  4. Foi comparado pelo profeta Malaquias a um anjo (cf. Mt 11, 10; Ml 3, 1) e representado, como em seus tipos, pelos profetas que o precederam, especialmente por Elias (cf. Mt 11, 14);
  5. Teve, além do dom de profecia, a coroa da virgindade e a palma do martírio (cf. Mc 6,14-39), o que lhe merece gloriosas auréolas no céu.

Não há dúvida de que, por todos esses títulos e pela função especialíssima que lhe confiou a divina Providência (cf. Lc 1, 15ss), João Batista pode ser considerado o ponto alto de todo o Antigo Testamento e, por conseguinte, digno da mais profunda veneração.

Mas o mesmo Jesus, que louva tão sublimes predicamentos, na mesma passagem de Mt 11, 11 afirma: “No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”, o que se pode entender, como nota S. Tomás de Aquino, em referência a três coisas:

  1. Quer aos beatos que estão no céu, porque é melhor ter chegado à pátria do que ainda estar em caminho. Por isso, o menor no céu é maior, isto é, está em melhor condição do que o maior santo na terra;
  2. Quer a Cristo mesmo, que, sendo mais jovem que João, é contudo maior do que ele em dignidade (cf. Jo 1, 15), por ser o próprio Verbo feito carne;
  3. Quer, enfim, a diferentes estados dentro da Igreja, porquanto é maior o mérito das virgens que o dos casados, e o dos profetas que o dos simples fiéis; mas é maior ser pai nutrício do Verbo encarnado e esposo castíssimo da Virgem Maria do que ser profeta e precursor de Cristo.

Além disso, vale lembrar que o grau de santidade se mede em função da proximidade ou união a Deus, já que dizemos ser santo justamente quem tem com Deus como que uma só vontade ou coração. Ora, é evidente que, depois de Nossa Senhora, nenhum outro santo esteve tão próximo de Cristo e se aproximou tão estreitamente quanto possível da ordem hipostática do que S. José: só a ele, e a ninguém mais, foi confiado o cuidado especial “de alimentar, educar e proteger a Deus feito homem”. A conclusão impõe-se por si mesma.

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Mulheres, não se casem com qualquer um!
Sociedade

Mulheres,
não se casem com qualquer um!

Mulheres, não se casem com qualquer um!

O medo da solidão parece estar levando muitas mulheres cristãs a abandonar suas crenças para garantir uma aliança de compromisso. Mas será que vale mesmo a pena abrir mão da própria fé, só para ficar com um homem?

Anna HitchingsTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Janeiro de 2021Tempo de leitura: 10 minutos
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Este é o testemunho de uma mulher católica, contendo impressões bastante pessoais a respeito da situação em que o mundo se encontra no que tange aos relacionamentos entre os católicos. É um relato que descreve alguns aspectos da realidade, sim, mas que não pretende esgotá-la.

Concedemos que algumas afirmações da autora podem parecer mais duras, especialmente quando ela se refere à falta de homens bons. Convidamos os homens de boa vontade, no entanto, a fazerem um sincero exame de consciência sobre tudo o que é dito abaixo, acolhendo o que há de verdadeiro neste testemunho — e rejeitando o que porventura acharem que não corresponde à verdade dos fatos.

Oportunamente, no futuro, podemos publicar o testemunho de algum homem com o título inverso, apresentando também os problemas das mulheres modernas, especialmente a sua adesão ao feminismo. De qualquer modo, já temos material abundante a esse respeito aqui. Por ora, esperamos que todos tenham a maturidade para entender que o fruto proibido não foi comido nem só por Eva, nem só por Adão.


Vivemos um período único na história. A política nunca foi tão polarizada, a sociedade de massas nunca esteve tão próxima da amoralidade (embora a Roma de Nero tenha chegado perto disso) e para as mulheres nunca foi tão difícil encontrar um homem bom

Reconheço que a última afirmação é ousada, mas permita-me desenvolvê-la. 

Nós vivemos a lamentar o estado em que se encontra a sociedade (a juventude, as universidades, a mídia etc.), que parece se envolver em situações cada vez mais difíceis, oriundas de ideias, comportamentos e políticas regressivas.

A adesão a alguma religião e a presença nas igrejas nunca foi tão baixa, especialmente entre os jovens e, de modo particular, entre os homens. O vício em pornografia é um flagelo de proporções epidêmicas entre os homens e até entre meninos de onze anos. Numa palavra, o mundo está uma bagunça.

Você ouviu falar disso antes.

Há, porém, um efeito colateral importante de tudo isso que não recebe a devida atenção: tem sido cada vez mais difícil para as mulheres (particularmente as cristãs) encontrar bons maridos nesse novo ambiente. A situação é tão terrível que, hoje, as mulheres tendem cada vez mais a abandonar suas convicções religiosas por causa de relacionamentos amorosos.

Talvez esse assunto não seja considerado tão sério quanto o aborto sob demanda ou a perda da liberdade de expressão, mas eu afirmo que ele é tão importante quanto esses temas, se não mais. O futuro de nossa sociedade depende de matrimônios, famílias e cidadãos bons e sólidos. Precisamos de famílias para gerar jovens educados e instruídos que continuarão combatendo o bom combate em todos os temas que afligem nossa sociedade.     

Mas, para alguém como eu — uma católica solteira com 32 anos —, a situação é, de fato, desoladora.

Se eu conversar com as mulheres do meu círculo social, todas elas dirão a mesma coisa: simplesmente não há homens disponíveis. Com isso queremos dizer que há uma assustadora escassez de homens entre 25 e 35 anos que frequentem a igreja, estejam solteiros e sejam maduros.  

A maioria dos homens que conheço têm duas dessas qualidades, mas muitas vezes não têm a última. Os solteiros que vão à igreja geralmente são desajeitados e carecem de habilidade social básica (um verdadeiro banho de água fria para as mulheres). Os mais mundanos não estão solteiros nem são religiosos. E ainda que não sejam religiosos, a maioria dos rapazes têm pontos de vista e valores de centro-esquerda diametralmente opostos aos nossos.

Por essa razão, é um esforço vão aventurar-nos fora do ambiente eclesial. (Sem falar na escassez de homens que estão mesmo abertos à ideia de castidade, mas esse é um assunto completamente diferente.) Não nego que haja bons rapazes solteiros por aí; é claro que há. Muitas das minhas amigas mais próximas foram afortunadas o bastante para conhecer e se casar com homens maravilhosos, inteligentes e com princípios, mas um número ainda maior de mulheres não teve a mesma sorte.  

Eu as encontro constantemente em festas e outros eventos sociais — católicas belas, inteligentes e solteiras que só querem encontrar um homem a quem amar e honrar. No entanto, esse grupo de mulheres parece crescer cada vez mais, ao passo que o número de homens devotos e casáveis está caindo rapidamente.

No início da década de 1960, 87% dos homens australianos se identificavam como cristãos. Essa porcentagem caiu para 49%. Não é necessário dizer que o número de homens que vão à igreja é ainda menor. Essa tendência tampouco existe apenas na Austrália; parece ser, antes, a norma em todo o Ocidente.

Fui a um casamento em Seattle no ano passado e conheci uma mulher que tinha mais ou menos a minha idade. Ela me perguntou se deveria se mudar para a Austrália para encontrar um marido, devido à falta de homens católicos em seu círculo social. 

O fato de ser uma experiência quase universal fala por si. Infelizmente, o crescente desespero alimentado por essa tendência começa a mostrar resultados preocupantes. Conheço pessoalmente três católicas nos seus 20 ou 30 anos que renunciaram às suas crenças para se relacionar com um homem (todos os casos ocorreram ao longo dos últimos anos). Uma delas conheceu um homem pela internet; mais tarde, descobriu que ele era casado (embora separado) e tinha filhos, mas mesmo assim ela foi em frente. 

Contrariando o conselho de seu pároco, outra delas se casou fora da Igreja com um agnóstico a quem namorou por pouco tempo. A terceira começou a sair com um ateu que havia conhecido na universidade. Um ou dois anos depois, ela abandonou a Igreja e as pessoas de quem era mais próxima para poder se casar com ele.

Não se tratava de católicas “de IBGE”. Todas eram católicas de berço, bem educadas na fé e muito ativas em suas respectivas paróquias e comunidades. Mas essas são apenas as que eu conheço pessoalmente. Com certeza há outras.

Muitas pessoas não compreendem isso. Na verdade, eu mesma me esforço para compreender a situação. Independentemente do grau de desespero para se casar, como qualquer outra coisa poderia ser mais importante do que a própria fé? 

Na história da Igreja, as mulheres foram tradicionalmente o bastião da integridade moral. Alguém já disse que, se quisermos julgar a bússola moral de uma sociedade, temos de prestar atenção em suas mulheres. Se entrarmos em qualquer igreja, com certeza veremos mais mulheres do que homens.

De acordo com quase todas as estatísticas, é mais comum que as mulheres permaneçam fiéis à religião, o que torna ainda mais surpreendente cada um dos incidentes relatados acima.

Na verdade, essas histórias são tão chocantes que uma delas bastaria para ser, há poucas décadas, a causa de um enorme escândalo para suas respectivas amigas e comunidades. Mas o novo clima social parece alimentar esse tipo especial de urgência para estar com um homem. A qualquer custo.

Sempre houve um estigma social em torno das mulheres que chegam solteiras aos 30 anos. Talvez isso seja percebido de forma mais intensa em ambientes cristãos, nos quais o casamento entre pessoas mais jovens é visto positivamente. Eu mesma comecei a entrar em pânico quando comecei a me aproximar do meu aniversário de 30 anos, por temer o julgamento daqueles que estavam ao meu redor e por sentir pavor dos rumores de que eu era muito fria ou simplesmente não era capaz de conseguir um marido. Além disso, as mulheres que chegaram aos 30 também sofrem uma pressão biológica, caso queiram ter filhos.

Entendo o pânico, o conflito e o medo, pois passei por tudo isso. Como tantas outras jovens, acreditava piamente que me casaria quando fizesse 25 anos. Minha ansiedade e minha dúvida cresceram constantemente durante todos os aniversários, enquanto meu dedo permanecia sem aliança.

Como, durante a vida inteira, estive convencida de que o matrimônio era minha vocação, foi um choque doloroso e claramente humilhante chegar aos 32 anos solteira. Por isso entendo perfeitamente o desespero que agora está levando as mulheres a iniciarem ou a se apegarem a relacionamentos, mesmo que sejam nocivos, prejudiciais ou ilícitos. 

A vida é muito mais interessante quando temos no horizonte a perspectiva de conseguir um marido. Não surpreende que às vezes as mulheres permaneçam muito tempo (ou até se casem) com homens que são claramente inapropriados para elas. É bastante real o temor de que essa pode ser a única oportunidade de se casarem, e a alternativa pode ser o retorno a uma vida entediante, imprevisível e inútil. 

Elas pensam: “Com certeza não era o que eu esperava, mas pelo menos não estou sozinha, certo?” A solidão é o verdadeiro inimigo na mente de muitas mulheres. É melhor ficar com o diabo que conhecemos do que com aquele que desconhecemos. Embora essa mentalidade sempre tenha existido, a escassez de bons rapazes em nosso mundo parece tê-la sobrecarregado. 

O medo da solidão parece estar levando as mulheres de fé a abandonar suas crenças para garantir uma aliança de compromisso. Assim como qualquer outra mulher, não quero ficar solteira pelo resto da minha vida, mas isso com certeza não quer dizer que eu ache que vale a pena abrir mão de tudo o que prezo, que me dá esperança, sentido e propósito na vida, apenas para ficar com um homem.

Nenhum homem jamais poderia substituir tais coisas, e eu nem esperaria que ele o fizesse. Por isso, preocupa-me bastante o fato de um número cada vez maior de mulheres perder de vista essa verdade axiomática. Precisamos de mais rapazes no caminho da verdade e da bondade? É claro que sim! Sou profundamente grata pela influência que pessoas como o Dr. Jordan Peterson e Ben Shapiro têm exercido sobre tantos homens, jovens e adultos.

Deveríamos fazer tudo o que estivesse ao nosso alcance para ajudar os homens a tomar a direção correta e encontrar a verdade e o sentido em sua vida. Homens guiados por bons princípios, que têm propósito e direção na vida não são apenas atraentes para as mulheres, são bens inestimáveis para a sociedade. Entretanto, muitas mulheres com quem converso acham que sua chance jamais aparecerá.

Começo agora a encarar a possibilidade de que, talvez, eu fique solteira para sempre. Eu me contorço pelo desconforto e a ansiedade gerados apenas por admiti-lo, mas preciso ser realista. No plano pessoal, a fé me ensina que, se não me casar, essa provavelmente é a vontade de Deus para mim. Posso não gostar disso, pode ser algo que talvez me encha de pavor e desespero, mas provavelmente teria me sentido assim se há dez anos alguém tivesse me dito que eu estaria solteira hoje.

Embora eu tenha realmente sofrido ao fazer 32 anos, sei que minha vida é valiosa, relevante e digna de ser vivida, apesar de não ter seguido o curso que eu imaginava. Além disso, creio que, se Deus quiser que eu permaneça solteira, então será isso que me trará mais satisfação e felicidade na vida.

Serei honesta: neste momento, isso me parece mais verdadeiro em minha mente do que em meu coração. Ainda claudico para aceitar essa circunstância porque, no fundo, não quero aceitar que um sonho alimentado por tanto tempo talvez jamais se realize.

Tenho a sensação de que aceitar essa possibilidade me prenderá a algo inevitável. 

Mas também sei, por bom senso e por experiência, que isso não é verdade; isto é, que se eu aceitar a vontade de Deus — qualquer que seja ela —, me tornarei livre. Pode ser difícil e doloroso, mas só o será a curto prazo. Também reconheço que existe uma diferença importante entre estar sozinha e ser solitária.

Suplico a outras mulheres que estão em minha situação: pensem nisso! Sei como é fácil entrar em desespero se achamos que ficaremos para sempre “na fila de espera”. Mas também sei que nenhum homem nem o matrimônio podem nos tornar realizadas na vida — eles são apenas um bônus (se você tiver sorte). Se aceitar isso, e se passar a se dedicar ao aperfeiçoamento da vida que tem hoje, em vez de buscar a vida que você idealiza, não se perderá no caminho.  

Porque onde está o seu tesouro, lá também está seu coração.

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