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Como um casal católico e um terço fizeram este médico voltar à Igreja
Testemunhos

Como um casal católico e um terço
fizeram este médico voltar à Igreja

Como um casal católico e um terço fizeram este médico voltar à Igreja

“Quando cheguei à quinta dezena de Ave-Marias, comecei a chorar. Forte, compulsivamente, como uma criança desamparada.”

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Maio de 2018
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Este testemunho é de um aluno do nosso site, chamado Tiago, e foi enviado ao nosso suporte há pouco mais de dois anos, no dia 16 de maio de 2016, segunda-feira depois de Pentecostes. Na ocasião, ele acabara de receber o sacramento da Confirmação e estava prestes a se unir em santo Matrimônio.

Mesmo com a distância no tempo, achamos muito oportuna a publicação deste depoimento, não só porque pode ajudar muitas pessoas que se encontram no mesmo caminho, mas também porque ele ajuda a ilustrar muitas coisas que o próprio Padre Paulo Ricardo explica ao falar de como acontece uma conversão e como Deus se serve dos mais variados instrumentos para nos chamar à vida da graça.


Esta é a história da minha reconversão a Deus e volta à Igreja. Falo “reconversão” porque já acreditei em Deus fielmente durante a minha infância. Fui criado em uma família católica, batizado enquanto bebê. Aos 11 e 12 anos fiz catequese na Igreja e recebi o sacramento da Eucaristia.

Ao me tornar adolescente, aos poucos fui entrando na chamada “idade da razão”. Chamo assim por ser um período em que moldamos nossa personalidade, o que é comum a todos os adolescentes. É um tempo no qual buscamos nossa identidade, nos identificamos com certos grupos sociais e clamamos por reconhecimento da nossa individualidade. Para muitos é a idade da rebeldia, de contrariar os pais, a escola e as regras definidas pela sociedade. Onde todos os outros são quadrados e você é o legal da história. Não tive muito dessa fase. Ou seja, não fui um adolescente particularmente rebelde.

Por outro lado, conforme ia me moldando e buscando razões para as coisas, fui me distanciando de Deus. Afinal, estamos imersos em um mundo pautado por pautas equivocadas, nas quais a razão e ciência, teoricamente, entrariam em conflito com a religião. Na verdade, essa é uma das maiores mentiras que já me contaram, e ainda contam para a maioria das pessoas. Mas o porquê de isso ser uma mentira é papo para outra conversa. Junte-se a isso aquela busca por individualidade, racionalismo, prazeres recentemente descobertos e um total despreparo — por parte da maioria de nossos educadores, até mesmo dentro da Igreja — e você terá a fórmula perfeita para a gênese de um ateu, alguém que se distancia da Igreja, ou pior: as duas coisas.

No meu caso, inicialmente foi somente a distância da Igreja. Aos poucos fui me afastando, deixando de rezar, enxergando cada vez mais aquilo como errado, ultrapassado. Já mais próximo da idade adulta, a doutrinação de amigos mais velhos, da televisão, internet, e professores esquerdizados, me mostraram o óbvio naquele momento: somente sendo muito pouco inteligente para acreditar nas “ladainhas” da Igreja. Por certo deveria existir um Deus, onipotente, mas não seria o mesmo Deus da Igreja: retrógrada, dogmática, rígida.

Logo que entrei na faculdade, fui conhecendo pessoas e fazendo alguns amigos. Muitos deles, pessoas inteligentíssimas, que me ensinaram coisas pelas quais sou grato até hoje. Fiz faculdade de medicina, em universidade federal, o que, na época, era garantia de que você conviveria com algumas das mentes mais brilhantes (no sentido acadêmico), tendo em vista a dificuldade do vestibular. Minhas noções morais foram se adaptando e se moldando aos novos ensinamentos.

Graças a Deus, a maioria dos meus amigos eram pessoas retas e com padrões morais corretos. Porém, foi durante os primeiros anos da faculdade que comecei a questionar a existência de Deus. Como poderia um Deus todo-amor e onipotente ser conivente com tantas desgraças no mundo? Crianças de dois anos de idade com câncer no cérebro, malformações, pais de família morrendo enfermos com dois ou três filhos ainda a criar, guerras, assaltos, estupros, enfim…  Uma infinidade de tragédias que acontecem todos os dias. E a Igreja? Via muitos ditos “fiéis” saindo da missa ou culto (no caso dos protestantes) e no dia seguinte cometendo os mais variados pecados, variando desde uma mentira descarada até a traição da esposa. Portanto, seguiram-se vários anos de negação da fé.

Eu me bastava. Era o meu senhor. Médico, formado, com ótimo salário, desfrutando das coisas boas da vida. Tinha começado a namorar uma mulher incrível: linda, inteligentíssima e com princípios sólidos. Por sorte, estamos juntos até hoje, sendo que é minha noiva. Ela é católica, e sempre foi praticante. Em alguns momentos mais, noutros menos.

Lembro com pesar do quanto tentei dissuadi-la de sua fé. Durante uma conversa, cheguei a dizer claramente que não queria batizar meus filhos quando os tivesse. Que preferiria que eles atingissem a idade da razão para decidirem por eles mesmos. Afinal, eu era o senhor-razão, o cara que se bastava. Ela discordou frontalmente da minha argumentação, dizendo que fazia questão de batizar seus futuros filhos na Igreja Católica. Discordamos por mais algum tempo e, quando ambos cansaram de conflito, sem chegar num acordo, encerramos o assunto. Não conversamos mais sobre isso.

Em algumas ocasiões, fomos a casamentos de amigos. Tinha uma aversão cada vez maior a casamentos. Todo aquele ritual “chato” e “retrógrado” para uma festa de ostentação depois. Via, algumas vezes, casais que se separavam em menos de um ano após o casamento. Assistia a este espetáculo num misto de afirmação do que sentia e satisfação irônica — afinal, isso corroborava minha tese de que Deus não existia e que o casamento é uma “besteira”. Não me entendam mal. Eu acreditava na união de um casal. Só não acreditava nos valores de Deus e da Igreja: para a vida toda, indissolubilidade, etc… Gostava muito da máxima: que seja eterno enquanto dure.

Muitas vezes sentia um vazio, uma solidão, mesmo estando rodeado por muitas coisas e pessoas. Sempre encontrava a resposta em alguma coisa mundana, como uma nova viagem, uma roupa, um filme. Porém a resposta nunca saciava de verdade. Fingia que estava tudo bem, que logo iria passar. E realmente, às vezes passa. Pois mesmo em uma existência vazia e sem muito sentido, temos lampejos de felicidade. No geral, a vida era boa.

Sempre tive um grupo bem variado de amigos. Pelo fato de ter saído de casa para morar sozinho em outra cidade ainda com 18 anos de idade, aprendi a conviver com vários grupos e a respeitar as diferenças. Quando conversava com algum amigo religioso, sempre evitava tocar em assuntos sobre Deus. Quando falavam algo a respeito disso, me fechava no meu mundinho, sem dar abertura a qualquer palavra sobre isso. Minha posição era certa e irredutível.

Após ter mudado de cidade mais uma vez, dessa vez para morar com a minha namorada (na época), conheci outras tantas pessoas. Em especial, um casal de amigos que fizemos. Os dois eram católicos praticantes e pessoas maravilhosas. Estudavam (e ainda estudam) bastante sobre assuntos religiosos, sempre buscando se aprofundar na fé. Ao mesmo tempo, são pessoas inteligentíssimas, cultas e sábias. A amizade deles nos fazia muito bem, e nossos laços foram se estreitando. Aos poucos, minha armadura foi caindo. Bem lentamente, fui começando a escutar algumas colocações, opiniões e conclusões a que eles chegavam, mesmo discordando. São um casal exemplar, que demonstram amor a todo momento, sem falsidade. A forma como se olham causa emoção até no mais duro dos corações. Enfim, são um casal-modelo.

Certo dia, em um de nossos jantares, fui surpreendido pela visão de casamento do meu amigo: “Vemos o casamento da forma como a Igreja vê: no dia em que nos casamos, nos tornamos uma só carne, uma só pessoa”. Aquilo me tocou profundamente. Que coisa mais linda! Ao mesmo tempo, via com certa estranheza, pois parecia papo de maluco! Uma só carne? Impossível. Como esse mesmo amigo meu fala, acertadamente: “Quando estamos de fora, é muito difícil enxergar como quem está dentro. É, na maioria das vezes, incompreensível”.

Há uns 6 meses atrás, marcamos a data do nosso casamento. Já havia concordado em casar na Igreja, para satisfazer a minha noiva. Poderia casar na Igreja, tendo em vista que era batizado, recebi o sacramento da Eucaristia e nossa paróquia não exige o sacramento da Confirmação (Crisma) para casar. Fomos à nossa paróquia certo dia, para uma entrevista com o padre. Neste dia, minha vida começou a mudar.

O padre começou um questionário, para ver se cumpríamos os requisitos para realizar o Matrimônio na Igreja. No momento da questão se eu tinha recebido o sacramento da Confirmação, respondi a verdade, como em todas as outras perguntas: “Não”. O Padre respondeu: “Sem problema, meu filho. Hoje a Igreja não exige mais este sacramento como condição necessária ao Matrimônio”. Mas logo lançou uma pergunta no ar: “Mas você gostaria de fazer catequese e receber este sacramento, mesmo que fosse depois do seu casamento?” Pensei um pouco e respondi: “Padre, não vou mentir para o senhor. Não responderei que sim só da boca pra fora. Mas lhe prometo algo: que pensarei no assunto”. A entrevista continuou, e na sequência, fomos jantar com aquele casal de amigos dos quais falei antes.

A sementinha foi plantada. Aquilo não saía da minha cabeça. Parecia a coisa certa a ser feita. Durante o jantar, meus amigos me falaram sobre o site do Padre Paulo Ricardo, e sobre seus cursos. Quando cheguei em casa, prontamente acessei o site e vi os vários cursos lá presentes. Um deles me chamou a atenção: Catecismo da Igreja Católica. Me inscrevi, ganhei da minha noiva o livro do Catecismo e iniciei o curso.

Aos poucos, as aulas foram chamando minha atenção e dediquei cada vez mais tempo a elas. Estava admirado com tudo aquilo! Como esse padre falava bem, com uma oratória invejável e inteligência admirável. O que começou como uma aula ou duas por dia tomou conta de todo o meu tempo livre. Estava cativado por aqueles ensinamentos, apesar de ainda não estar totalmente aberto a aceitar Deus na minha vida.

Num belo dia, no quarto de repouso médico do hospital no qual trabalho, que nunca teve nenhum tipo de adereço religioso, apareceu um terço. Do nada. Até hoje não sei quem colocou ele lá. Como trabalho em emergência, e naquele momento estava sem pacientes para atender, decidi que rezaria o Terço. Mas um problema apareceu: além de não saber qual oração rezaria em qual tempo, muitas orações não conhecia de cor. Abri o celular e acessei um site que explicava o Terço. Me coloquei a rezar, de mente aberta.

Na quarta dezena de Ave-Marias, um fenômeno interessante se passou comigo: senti um calor muito forte nas mãos, e um formigamento que percorria meus braços. Continuei rezando, e aquela sensação se tornou mais e mais forte. Quando cheguei à quinta dezena de Ave-Marias, comecei a chorar. Forte, compulsivamente, como uma criança desamparada. Na verdade, era o que eu era, naquele momento: uma pessoa desamparada, certo da presença de Deus ali comigo, naquele momento. Envergonhado por todo esse tempo que eu tinha passado longe dEle e por todos os pecados cometidos sem reparação.

Tomei forças e terminei o terço. Depois disso, senti uma paz inexplicável, certo de que havia encontrado a resposta para minha vida dali em diante: Deus. Já não via mais o casamento como via anteriormente e, no curso de noivos que fizemos, passei a enxergá-lo como a Igreja vê e a desejar avidamente esse dia. Minha noiva estava muito satisfeita. Finalmente eu tinha me convertido. Que mulher paciente!

Continuei o estudo do Catecismo. As aulas do Padre Paulo já tinham terminado, tendo em vista que seu curso ainda não está completo: ia até os Sacramentos, faltando o Matrimônio e a terceira e quarta partes do livro do Catecismo. Teria que estudar sozinho o restante do livro. Enquanto fazia isso, fui tomado por uma vontade muito grande de receber o sacramento da Confirmação. Não me conformava com o fato de que receberia o sacramento do Matrimônio sem antes receber o belo e necessário sacramento da Confirmação do Batismo.

Certo dia, fui falar com o padre da minha paróquia. Expliquei a ele toda a minha história e falei que me sentia pronto e desejoso para o sacramento da Confirmação. O padre se comoveu, me parabenizou, deu as boas vindas e falou que consentiria em que eu recebesse este sacramento. Que dia feliz! Saí de lá muito emocionado. Marcamos a data para o próximo dia possível: um domingo de Pentecostes, 12 dias antes do meu casamento! Esse dia foi ontem. A cerimônia foi linda e emocionante. Neste dia percebi a missão que me aguarda daqui pra frente: a de estar ainda mais dentro da Igreja e mais próximo de Deus, assim como o meu dever de mostrar esse caminho a outras pessoas: evangelizar.

Por isso escrevi este texto. Já contei essa história a alguns amigos, e todos se emocionaram muito. Religiosos reforçaram sua fé, e os que não crêem talvez se abriram um pouco para a verdade. Nossa missão, como católicos, como cristãos, é difundir a palavra. Da forma falada e com exemplos — o mais importante. De nada adianta sermos cristãos e levarmos uma vida transviada, cheia de pecados graves.

Tenho plena consciência de que não estamos livres do pecado. Nossa condição humana, após o pecado original, nos torna pecadores por natureza. E é isso uma das bases do cristianismo: ter consciência dessa nossa natureza, olhar para o Céu e pedir a Deus Pai, todo-poderoso, que nos desvie do caminho do pecado. E quando inevitavelmente pecarmos, assumir nosso erro, repudiar o pecado do fundo do nosso coração, pedir um perdão sincero, suplicando a Deus — que na Igreja toma a forma do sacramento da Penitência — resolutos a não voltar a pecar. Fugir disso é o que nos torna como os animais: seres inconscientes, que só buscam o prazer, sem culpa.

Portanto, caros irmãos católicos, deixo um pedido aos que seguem uma vida reta e voltada para a verdade: não se furtem à sua missão. Não fujam da sua cruz. Nossa Igreja já está enfraquecida há algum tempo, tomada de fiéis que não vivem na plenitude a sua religiosidade. Vamos dar um basta nisso. Vamos mostrar, por atos e virtudes, que temos algo que vale a pena ser buscado e elevado à sua real posição de glória: Deus. Que mostremos, a todos que não crêem, os reais valores da Igreja Católica, e que consigamos restaurar a imagem deturpada que boa parte da sociedade, injustamente, tem da nossa Igreja.

Isso não se consegue em alguns meses, nem mesmo em alguns anos. É uma estrada longa e dolorosa. Mas cabe a nós tomar essa cruz, erguê-la e glorificá-la, para que sejamos ministros da palavra de Deus e da vida de Jesus Cristo, nosso Senhor!

Para encerrar, gostaria de agradecer profundamente o Padre Paulo Ricardo e toda a sua equipe, por terem tornado esse meu aprendizado o que ele foi: uma estrada fascinante, admirável e cativante!

Que Deus abençoe todos vocês!
Tiago.

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“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero
Sociedade

“Definitivamente satânica”: um
exorcista fala da ideologia de gênero

“Definitivamente satânica”: um exorcista fala da ideologia de gênero

Este exorcista está convencido de que “a forma como essa coisa de gênero tem se espalhado é demoníaca”, por mais que as pessoas não enxerguem, ou se recusem a fazê-lo.

Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Novembro de 2018
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Crianças “treinadas” desde cedo para “descobrir” a própria sexualidade ou questionar o próprio “gênero”, pais punidos pelo Estado por não aceitar que seus filhos recebam a “educação sexual” tendenciosa da escola, programas de TV cada vez mais abertamente ideológicos e pervertidos, inclusive para o público infantil… A lista de investidas que os ideólogos de gênero têm promovido nos últimos anos, em todas as áreas, parece não ter mais fim. Talvez seja necessário, em um futuro próximo, isolar-se numa caverna para escapar à sua influência.

Um episódio recente de promoção dessa agenda — protagonizado pela famosa cantora Celine Dion, cuja posição favorável à família e contra o divórcio já foi elogiada em outros tempos por sítios católicos — acendeu o alerta de muitos para o poder de sedução e de manipulação dessa ideologia. A artista fez campanha para a linha internacional de roupas infantis “NuNuNu”, inaugurando uma marca com a finalidade de “liberar as crianças dos papéis tradicionais de menino e menina”.

Não fosse isso o suficiente, a empresa em questão tem em seu histórico um mural de fotos para lá de controverso, com máscaras sem rosto, espelhos refletindo caveiras, bodes segurando livros infantis, crianças com tatuagens de piratas e anéis sombrios.

Para o monsenhor John Esseff, padre há 65 anos e exorcista experiente, que conversou com a escritora católica Patti Armstrong, colunista de National Catholic Register, “a forma como essa coisa de gênero tem-se espalhado é demoníaca”. O sacerdote exerce seu ministério na diocese de Scranton, no estado norte-americano da Pensilvânia, já foi diretor espiritual de Santa Teresa de Calcutá e ajudou a fundar e dirigir um instituto de formação para exorcistas.

“Quando uma criança nasce”, ele se pergunta, “quais as primeiras coisas que se dizem dela? Que é um menino ou que é uma menina. É a coisa mais natural do mundo de se dizer. Dizer que não há nenhuma diferença, ao contrário, é algo satânico. Eu não sei nem mesmo quantos gêneros deve haver agora, mas há apenas dois criados por Deus.”

Ainda que o demônio esteja em guerra com a humanidade desde o princípio, o padre John destaca que os ataques satânicos neste período da história têm-se tornado mais intensos. “O maligno sente que, de alguma forma, ele pode fazer essas coisas sem ser reconhecido. Ele é um mentiroso, e há grandes mentiras sendo contadas.”

Diante das fortes declarações do exorcista, houve quem sugerisse na internet que religiosos contrários à ideologia de gênero estariam acusando de “satanismo” a cantora Celine Dion. De fato, tanto o comercial quanto a marca apoiada por ela encontram-se repletos de elementos sombrios e perturbadores. Mas, ainda que não fosse o caso, nem por isso a proposta veiculada se tornaria menos perigosa. Muito pelo contrário, quanto mais disfarces usa o demônio, maior o seu poder de infiltração e conquista.

Trata-se, a propósito, de um grande erro da nossa época em relação ao mal: achar que a ação do demônio limita-se a rituais ocultistas, a possessões ou a manifestações malignas evidentes e indisfarçáveis. Não, o que o sacerdote acima está alertando é que Satanás age de modo sutil, muitas vezes “sem ser reconhecido”.

Como consequência de as pessoas não mais acreditarem na Verdade, não mais terem fé na Revelação divina, não mais levarem a sério o Credo e os preceitos da religião cristã, não mais escutarem a Palavra de Deus, elas acabam dando ouvidos às mentiras e ilusões do inimigo de Deus — entre as quais se inclui justamente a ideologia de gênero.

O Papa Bento XVI notou certa vez, com perspicácia, que por trás dessa ideia de que, à parte sua sexualidade como dado natural, o ser humano poderia moldar como bem entendesse o seu “gênero”, está uma “revolução antropológica”, uma noção não só herética de humanidade, mas avessa à própria razão natural. Não estivessem já confundidos pelas ideologias e obstinados em sua malícia, os homens de nossa época seriam facilmente curados com uma simples aula de catequese. Se desde crianças tivessem aprendido que o ser humano é corpore et anima unus — “uno de corpo e alma”, na expressão do Catecismo (n. 362) —, não se deixariam enganar por uma ideia tão maluca e distante tanto do bom senso quanto da realidade das coisas.

Ideias como essa, no entanto, não são apenas “mentirinhas” de mau gosto, contos sem nenhuma influência no dia-a-dia das pessoas… Quantas vidas não foram e não estão sendo “transtornadas”, no sentido mais literal da palavra, por uma teoria supostamente “científica” e com ares de modernidade!

Ponhamos de vez em nossa cabeça: a falta de fé e, com ela, as heresias e apostasias de nosso tempo não são inofensivas, ao contrário do que nossa época liberal tem sido levada a acreditar. Não é preciso invocar espíritos maus ou praticar rituais satânicos para estar a serviço do Anticristo. Na verdade, nunca foi tão fácil pertencer a esse corpo maligno que, “macaqueando” o Corpo místico de Cristo, a Igreja, constrói um verdadeiro império, e de proporções mundiais.

Se Santo Tomás de Aquino já falava, no século XIII, do Anticristo como cabeça dos maus (cf. Suma Teológica, III, q. 8, a. 8), nunca como agora esse organismo teve contornos tão nítidos, tão visíveis e tão… humanos. Na educação, nos governos civis, nos meios de comunicação, o satânico está por toda parte — e a ideologia de gênero é apenas um instrumento, muito poderoso e destruidor, desse sistema perverso.

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A paz é dos que temem a Deus
Espiritualidade

A paz é dos que temem a Deus

A paz é dos que temem a Deus

Neste mundo, é mais desejável e promissora a agitação dos “que estão acordados e vêem o perigo” de o barco afundar, do que a tranquilidade “fria, autossuficiente e orgulhosa” dos que não temem a Deus.

Beato John Henry NewmanTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Novembro de 2018
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Não hesitarei em expressar aqui minha firme convicção de que seria um ganho para este país se ele fosse muito mais supersticioso, mais intolerante, mais sombrio, mais violento em sua religião do que no presente ele tem demonstrado ser.

Não que eu considere desejáveis, é claro, os temperamentos aqui implicados, o que seria um evidente absurdo. Mas os considero infinitamente mais desejáveis e promissores do que uma obstinação pagã e uma tranquilidade fria, autossuficiente e orgulhosa.

Sem dúvida, a paz de espírito, uma consciência tranquila e um semblante alegre são um dom do Evangelho e o sinal de um cristão. Mas os mesmos efeitos (ou melhor, o que parecem ser os mesmos efeitos) podem advir de causas bem diferentes. Jonas dormiu em meio à tempestade, e o mesmo fez Nosso Senhor; mas um dormiu em uma segurança má, e o Outro na “paz que supera todo entendimento”. Os dois estados não podem ser confundidos; são perfeitamente distintos um do outro. Do mesmo modo, são distintas a calma do homem mundano e a do cristão.

Jonas e o grande peixe.

Considerai agora o exemplo dos tripulantes a bordo do navio. Eles gritaram a Jonas: “Que fazes aqui, dorminhoco?”, como também os Apóstolos disseram a Cristo: “Senhor, estamos perecendo.” Eis o caso dos supersticiosos: eles situam-se entre a falsa paz de Jonas e a verdadeira paz de Cristo; estão melhores do que aquela, ainda que estejam muito aquém desta.

Aplicando isso à atual religião do mundo civilizado, cheia como está de segurança e alegria, de decoro e benevolência, noto que essas características podem advir tanto de muita religião quanto de sua ausência; podem ser fruto de uma mente superficial e de uma consciência cega, ou daquela fé que está em paz com Deus por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo.

De minha parte, vendo o que eu vejo do mundo, não tenho dúvidas de que o gênio de nossa época provém do sono de Jonas; e de que ele não passa, portanto, de uma fantasia de religião, muito inferior em dignidade ao alarme bem fundado dos supersticiosos, que estão acordados e vêem o perigo, ainda que não estejam tão avançados na fé a ponto de abraçar-lhe o remédio.

Eu não gostaria de ser duro, mas sabendo que “o mundo jaz no maligno”, considero altamente provável que vós, tanto quanto estais no mundo (como deveis estar, e nós todos estamos em alguma medida), estais, a maioria de vós, parcialmente infectados com esse seu erro, com essa religiosidade superficial, que é o resultado de uma consciência cega; e, por isso, eu me dirijo seriamente a vós. Acreditando na existência de uma praga geral na terra, julgo que vós provavelmente tendes vossa parte nos sofrimentos, os sofrimentos voluntários, que ela está espalhando entre nós.

O temor de Deus é o princípio da sabedoria: se vós, pecadores como sois, não O virdes como um fogo devorador e não vos aproximardes dEle com reverência e santo temor, não podereis sequer ver a porta estreita. Não quero que me indiqueis nenhum tempo particular de vossas vidas em que renunciastes ao mundo (como se costuma dizer) e vos convertestes. Isso é um engano. Temor e amor devem andar juntos; sempre o temor, sempre o amor, até o dia de vossa morte.

Sim, vós deveis saber o que é semear em lágrimas aqui, se quiserdes ceifar alegria na outra vida. Se não conhecerdes o peso de vossos pecados — e isso não apenas na mera imaginação, mas na prática; não apenas confessando-o em uma frase formal de lamentação, mas diariamente e no segredo do vosso coração —, não podereis abraçar a oferta de misericórdia que vos é prometida no Evangelho, por meio da morte de Cristo. Se não souberdes o que significa temer junto com os tripulantes aterrorizados ou com os Apóstolos, não podereis dormir com Cristo aos pés de vosso Pai celeste.

Por mais miseráveis que fossem as superstições das idades sombrias, por mais revoltantes que fossem as torturas agora comuns entre os pagãos do Oriente, melhor, muito melhor é torturar o próprio corpo todos os dias e fazer desta vida um inferno sobre a terra do que permanecer em uma breve tranquilidade aqui, até que a cova se abra larga abaixo de nós e nos desperte para uma consciência infrutífera e um remorso eternos. Pensai nas próprias palavras de Cristo: “Que pode dar o homem em troca de sua alma?” Novamente Ele diz: “Temei aquele que, havendo separado a alma do corpo, tem o poder de precipitar a um e a outro no inferno; sim, eu vos digo, a este temei.”

Não ouseis pensar que haveis chegado ao lugar mais profundo de vossos corações, pois vós não sabeis o mal que aí se oculta. Quanto tempo e com que sinceridade não deveis rezar, quantos anos não deveis passar em cuidadosa obediência, antes que tenhais qualquer direito a pôr de lado a tristeza e a exultar no Senhor? Em certo sentido podeis, de fato, consolar-vos com isso, pois, embora não ouseis ainda supor que estais no número dos reais eleitos de Cristo, a partir disso sabereis que Ele deseja vossa salvação, que Ele morreu por vós, que Ele lavou vossos pecados pelo Batismo e sempre vos ajudará; e esse pensamento vos deve alegrar, enquanto examinais e repassais vossas vidas e vos voltais para Deus em espírito de sacrifício.

Ao mesmo tempo, porém, enquanto estiverdes aqui, não podereis jamais estar certos da própria salvação e deveis, portanto, sempre temer enquanto tendes esperança. Vós conheceis cada vez mais os vossos pecados à medida que vedes a misericórdia de Deus em Cristo. E é este o verdadeiro estado cristão, bem como a melhor forma de aproximar-se do sono calmo e sereno de Cristo em meio à tempestade: não alegria perfeita e certeza do Céu, mas profunda resignação à vontade de Deus, entrega de nós mesmos a Ele, de corpo e alma; na esperança de que seremos salvos, sim, mas fixando nossos olhos mais sinceramente nEle do que em nós, isto é, agindo para a glória de Deus, procurando agradá-lO e dedicando-nos a Ele com obediência varonil e valorosas boas obras; e, então, ao olharmos para o nosso interior, pensando em nós mesmos com uma certa aversão e desprezo por sermos pecadores, mortificando nossa carne, contrariando nossos apetites e esperando tranquilamente aquele dia em que, se formos dignos, seremos despojados do nosso presente “eu” e renovados no Reino de Cristo.

Referências

  • Trecho do sermão “The Religion of the Day”, traduzido e levemente adaptado de “Parochial and Plain Sermons”, do B. John Henry Newman, v. 1, Longmans, Green and Co., London, 1907, pp. 320-324 (c. 24).

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O corpo incorrupto de Santa Catarina Labouré
Santos & Mártires

O corpo incorrupto
de Santa Catarina Labouré

O corpo incorrupto de Santa Catarina Labouré

Muitos já ouviram falar da Medalha Milagrosa, mas poucos conhecem o corpo igualmente milagroso de Catarina Labouré, a vidente de Nossa Senhora das Graças, encontrado intacto mais de 50 anos depois de sua morte.

Joan Carroll CruzTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere27 de Novembro de 2018
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Catarina Labouré, a vidente de Nossa Senhora a quem se deve a existência da Medalha Milagrosa, nasceu no seio de uma numerosa família de camponeses na pacífica vila de Fain-les-Moutiers, na França. Sua mãe morreu quando ela contava ainda nove anos de idade. Foi quando a menina tomou a bem-aventurada Virgem Maria por mãe e protetora. Piedosa desde a mais tenra infância, Catarina jejuava duas vezes por semana, não obstante as tarefas domésticas fatigantes que realizava na fazenda do pai. Além disso, participava diariamente da Santa Missa na capela das Irmãs da Caridade, a um quilômetro e meio de casa.

Havendo tomado a decisão de entrar para a vida religiosa, Catarina negou duas propostas de casamento, e seu pai, esperando desencorajar a filha, mandou-a viver junto com um irmão, que conduzia um restaurante em Paris, onde ela obedientemente servia às mesas. As circunstâncias, ao fim e ao cabo, permitiram que ela entrasse para a Ordem das Irmãs da Caridade, na Rue du Bac, em Paris, e foi ali que se cumpriu a sua vocação.

Como jovem postulante, ela costumava ver Nosso Senhor em frente ao Santíssimo Sacramento durante a Missa, e por três vezes teve visões místicas e simbólicas de São Vicente de Paulo sobre o relicário que continha seu coração incorrupto, conservado na capela da casa onde se deram todas as suas visões. Sem dúvida, as mais extraordinárias eram as que envolviam a Virgem Maria.

No dia 18 de julho de 1830, véspera da festa de São Vicente de Paulo, fundador de sua Ordem, Santa Catarina foi despertada durante a noite por seu anjo, que lhe apareceu com o aspecto de uma criança de cerca de cinco anos, toda radiante, e que a conduziu para dentro da capela. Ali ela recebeu a visita de Nossa Senhora, que tomou o assento reservado ao diretor das irmãs. Prostrando-se diante da aparição, Catarina recebeu a graça de pôr suas mãos dobradas sobre os joelhos da Virgem, que lhe disse: “Vem aos pés deste altar. Ali serão derramadas graças sobre ti e sobre todos os que pedirem por elas, ricos e pobres.”

A segunda aparição ocorreu em 27 de novembro de 1830, enquanto Catarina fazia sua meditação vespertina. Ao ouvir o farfalhar da seda, que ela reconheceu da primeira aparição, Catarina olhou para o lugar de onde vinha o som e contemplou a Santíssima Virgem de pé, na capela, próxima a uma imagem de São José. A pequena esfera que a aparição mantinha perto de seu coração lentamente desapareceu e imediatamente seus dedos se adornaram de anéis, e destes saíam raios de luz, símbolos das graças que ela concederia a todos os que lhas pedissem.

Devagar foi aparecendo em volta de Nossa Senhora uma moldura ovalada com letras brilhantes que diziam: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. No mesmo instante, uma voz dizia:

Tu deves cunhar uma medalha a partir deste modelo. As pessoas que a usarem depois de indulgenciada receberão grandes graças, especialmente se a usarem em torno do pescoço; graças serão distribuídas abundantemente sobre aqueles que tiverem confiança.

A visão voltou as costas a Catarina e então apareceu o monograma da Virgem, que é encontrado no verso da Medalha Milagrosa.

A terceira visão foi praticamente idêntica a esta segunda, com a diferença de a Virgem ter-se movido para cima do tabernáculo e atrás dele, lugar que é agora ocupado por uma imagem esculpida com base nessa visão.

Esta alma privilegiada reportou tais visões apenas a sua superiora e a seu diretor espiritual, e muitas dificuldades tiveram de ser superadas antes de as medalhas serem cunhadas e distribuídas.

Depois de sua profissão, Catarina foi mandada para o abrigo da Rue de Reuilly, onde passou os próximos 46 anos de sua vida, realizando os trabalhos mais servis e repugnantes em favor dos mais velhos e dos enfermos. Suas irmãs de congregação sabiam todas que uma no meio delas era a aclamada vidente da Medalha Milagrosa, mas a identidade de Catarina só foi revelada em seu leito de morte. Tendo predito por várias vezes que não chegaria a ver o ano de 1877, a santa morreu em 31 de dezembro de 1876.

Observando as leis de Paris a respeito do enterro em jazigos particulares, seu venerável corpo foi posto dentro de um caixão triplo, em uma cripta na capela da Rue de Reuilly, 77, onde permaneceu intocado por 56 anos. Logo em seguida ao anúncio de sua beatificação, deu-se o costumeiro reconhecimento das relíquias. Em 21 de março de 1933, uma delegação de médicos e sacerdotes juntou-se na cripta para a exumação. O caixão externo de madeira tinha caído aos pedaços, mas o segundo caixão, de chumbo, encontrava-se bem preservado e não foi sem grande dificuldade que conseguiram retirá-lo do exato lugar onde fora colocado e no qual permanecera por mais de meio século.

O caixão foi levado então a uma sala especialmente preparada para se examinar a relíquia. O agente funerário cortou a tampa do caixão chumbado e retirou-a, deixando entrever um caixão interno de madeira, que também estava aberto. Quando o médico suspendeu o pano que cobria o corpo, seus restos foram encontrados perfeitamente intactos. Uma testemunha ocular escreveu:

As mãos haviam deslizado para o lado, mas estavam brancas e em seu aspecto natural. O cordão do rosário havia apodrecido e as contas haviam se desprendido no caixão. A pele do rosto tinha a aparência levemente estriada, mas estava inteira. Os olhos e a boca estavam fechados [1].

Duas senhoras que haviam conhecido a Irmã Catarina reconheceram com facilidade as características de sua santa amiga.

O cirurgião da comunidade, Dr. Robert Didier, que foi testemunha da exumação, deixou registrado que:

…ao abrir o caixão, deparamos com uma massa acinzentada de serragem que havia tomado a forma do corpo; nessa superfície havia algumas evidências de mofo, mas nenhuma decomposição, apenas um odor levemente azedo.

Depois de remover a serragem cuidadosamente com a mão, era possível ver o pano mortuário; ele encontrava-se intacto, levemente úmido e podia ser facilmente retirado.

Limpo o corpo, tinha a aparência perfeitamente preservada, e em roupas que haviam mantido sua coloração e consistência normal.

As cornetas do hábito da religiosa haviam ficado sobre seu rosto, e isso, junto com o peso do pano mortuário e da serragem, fez achatar-se-lhe o nariz.

As mãos e o rosto tinham uma cor rosada com leves tons de marrom, mas também estavam intactos. Dois dedos da mão esquerda estavam um pouco enegrecidos, mas nós percebemos de imediato que a cor escura devia-se não à necrose do tecido, mas sim à tinta do hábito que havia passado para a mão do lado da rachadura do caixão de chumbo. Havendo apurados esses fatos, colocamos o pano de volta e fechamos o caixão para o traslado do corpo [2].

Após esse rápido exame, o corpo da santa foi trasladado em procissão solene para a casa principal das irmãs, onde foi recebido pelas irmãs, noviças e postulantes de sua Ordem, bem como pelos padres e noviços lazaristas. O caixão de chumbo, coberto com um tecido branco de seda no qual iam bordadas, em ambos os lados, imagens da Medalha Milagrosa, abria caminho em meio aos filhos e filhas de São Vicente de Paulo.

Às dez horas do dia seguinte, na presença de várias testemunhas, inclusive do cardeal e do cônego, que era o Promotor da Fé da Congregação dos Santos, o corpo foi mais uma vez desvelado em outra sala especialmente preparada para isso. O Dr. Didier registrou, então, o seguinte:

O corpo foi cuidadosamente retirado do caixão e colocado sobre uma mesa comprida.

O rosto, por conta de seu primeiro contato com o ar, havia se escurecido levemente desde o dia anterior; as roupas perfeitamente preservadas foram removidas com cuidado. Cabe notar que do lado esquerdo do corpo — o lado em contato com a rachadura do caixão de chumbo —, a roupa estava um pouco úmida e algumas partes do corpo (o braço esquerdo e o ombro) haviam experimentado um leve desgaste.

A pele nesta região estava um pouco inchada, enrijecida e exibia em sua superfície alguns resíduos esbranquiçados. Examinando o corpo, pudemos notar a perfeita flexibilidade dos braços e das pernas. Esses membros só haviam experimentado uma leve mumificação. A pele estava intacta e estriada por toda parte. Os músculos estavam preservados e podiam ser facilmente dissecados em uma aula de anatomia.

Nós cortamos o esterno ao meio. O osso mostrava uma consistência elástica e cartilaginosa e podia ser cortado com facilidade pela faca do cirurgião. Aberta a cavidade torácica, ficou-nos fácil remover o coração. Ele tinha encolhido bastante, mas manteve sua forma. Podíamos facilmente ver dentro dele os capilares fibrosos e restos das válvulas e músculos. Retiramos também algumas das costelas e a clavícula. Desmembramos os braços, que serão conservados à parte. As patelas dos joelhos foram removidas. Os dedos e as unhas dos pés encontravam-se em perfeitas condições. O cabelo permaneceu preso ao couro cabeludo.

Os olhos estavam em suas órbitas e as pálpebras meio fechadas. Nós podíamos afirmar que o globo ocular, mesmo caído e encolhido, achava-se íntegro, e até a coloração da íris, cinza azulada, permanecia.

Para garantir a preservação do corpo, injetamos uma solução de formaldeído, glicerina e ácido carbólico [3].

O corpo da santa foi colocado depois na capela da casa principal, sob o altar lateral de Nossa Senhora do Sol, onde repousa até hoje atrás de uma cobertura de vidro. As mãos erguidas e entrelaçadas por um rosário são feitas de cera. As mãos incorruptas da santa, que foram amputadas, são mantidas em um relicário especial, conservado agora no claustro das noviças, na casa principal. O coração da santa também foi colocado em um relicário especial, rica e reverentemente adornado, na capela da Rue de Reuilly, onde a santa havia rezado com tanta frequência enquanto cumpria seus deveres de estado.

A capela onde ocorreram as visões de Santa Catarina Labouré é, sem dúvida nenhuma, uma das mais veneradas no mundo, não só por ter recebido várias visitas de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa e de São Vicente de Paulo, mas também por haver nela várias relíquias preciosas:

  • próximo ao corpo incorrupto de Catarina, por exemplo, está o altar de São Vicente de Paulo, fundador da Ordem, na frente de cuja estátua está exposto um relicário contendo o seu coração;
  • do outro lado da capela, sobre o altar lateral, encontra-se outro relicário magnífico: uma estátua de cera contendo os ossos de Santa Luísa de Marillac, religiosa que fundou, junto com São Vicente, a congregação das Filhas da Caridade;
  • do lado do altar principal está a cadeira de veludo azul que a própria Virgem Maria tomou como assento em sua primeira aparição a Catarina Labouré (os que visitam a capela são autorizados a tocar e beijar a cadeira, e muitos deixam sobre ela pedacinhos de papel em que vão escritos seus pedidos de oração).

Santa Catarina foi canonizada em 27 de julho de 1947. Sua memória litúrgica é celebrada no dia 28 de novembro, um dia após a festa da Medalha Milagrosa.

Referências

  1. Rev. Edmond Crapez, C. M., Blessed Catherine Labouré, Daughter of Charity of St. Vincent de Paul (Emmitsburg, MD: St. Joseph’s Provicial House, 1933), pp. 235-36.
  2. Ibid., pp. 239-40.
  3. Ibid., pp. 240-41.

Notas

  • Traduzido e levemente adaptado de “The Incorruptibles”, Charlotte: TAN Books, 2012, pp. 267-272.

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“Rei de tremenda majestade”
Liturgia

“Rei de tremenda majestade”

“Rei de tremenda majestade”

Celebrar a solenidade de Cristo Rei, ao fim do ano litúrgico, é celebrar o “Rei de tremenda majestade” diante do qual inevitavelmente teremos de comparecer ao término de nossa vida terrestre. Preparemo-nos!

Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Novembro de 2018
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O que significa celebrar, ao fim do ano litúrgico, a solenidade de Cristo, Rei do Universo?

Para responder a esta questão, poderíamos repassar algumas das preciosas lições da encíclica Quas Primas, de 11 de dezembro de 1925, com a qual o Papa Pio XI estabeleceu para o mundo inteiro essa festa litúrgica. Poderíamos lembrar, por exemplo, que embora o reino de Cristo seja “principalmente espiritual” e se refira “às coisas espirituais” (n. 10), “erraria gravemente aquele que negasse a Cristo-homem o poder sobre todas as coisas humanas e temporais” (n. 11).

Poderíamos comentar a causa histórica dessa instituição: o crescimento do laicismo, que persegue os cristãos e condena-os a guardarem a sua fé em uma gaveta, sob a alegação de que “o Estado é laico”. Poderíamos citar, então, como em 1925 o mundo acabava de sair da Primeira Guerra Mundial e assistia à ascensão de governos fortemente contrários à Igreja e a sua missão espiritual; como nessa época surgiram o nacional-socialismo na Alemanha, o fascismo na Itália, o socialismo na Rússia e no leste da Europa, sem falar do regime anticlerical de Plutarco Elías Calles no México, que deu origem à Guerra dos Cristeros.

Mas, como o próprio Pio XI reconhece no documento em questão:

Mais do que os documentos solenes do Magistério eclesiástico, têm eficácia na informação do povo nas coisas da fé e no levantá-lo às alegrias interiores da vida as festividades anuais dos sagrados mistérios. Os documentos, o mais das vezes, são tomados em consideração por poucos homens eruditos, as festas, porém, comovem e ensinam a todos os fiéis; aqueles só falam uma vez, esses, porém, por assim dizer, todo ano e em perpétuo; aqueles impressionam, de maneira salutar, sobretudo a mente, estas, porém, não só a mente mas também o coração, enfim todo o homem. Na verdade, sendo o homem composto de alma e de corpo, precisa ser solicitado pelas solenidades exteriores, de forma que pela variedade e beleza dos ritos sagrados, receba no ânimo os ensinamentos divinos e, convertendo-os em substância e sangue, sirvam-lhes ao progresso de sua vida espiritual (n. 13).

Sendo nós compostos, portanto, de corpo e alma, e podendo ter acesso às riquezas da liturgia católica pelo menos através da internet, deixemo-nos solicitar “pela solenidades exteriores” com que a Igreja desde sempre adornou o culto divino:

No vídeo acima, extraído da composição de Mozart para a Missa de Exéquias, a orquestra impressiona-nos com um canto a Jesus Cristo, “Rei de tremenda majestade”. Rex treméndae maiestátis, qui salvándos salvas gratis, salva me, fons pietátis, diz o texto litúrgico. “Rei de tremenda majestade, que de graça salvais os que devem ser salvos, salvai-me, fonte de piedade”.

A sequência Dies irae, da qual é retirada esta breve oração, está presente na Missa pelos defuntos da Forma Extraordinária do Rito Romano. Na Forma Ordinária, porém, ainda é possível cantá-la como hino facultativo na última semana da Liturgia das Horas (a sua composição para o canto gregoriano pode ser ouvida e aprendida aqui). Em episódio do programa “Ao vivo com Pe. Paulo”, já tivemos a oportunidade de meditar sobre esse hino completo.

Celebrar a solenidade de Cristo Rei, ao fim do ano litúrgico, é celebrar o “Rei de tremenda majestade” diante do qual compareceremos ao término de nossa passagem neste mundo. O belo arranjo de Mozart pode nos ajudar a ter uma noção (ainda que muito insipiente) do que será esse encontro terrível e ao mesmo tempo consolador entre a misericórdia divina e a grande miséria que somos nós.

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