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Como um casal católico e um terço fizeram este médico voltar à Igreja
Testemunhos

Como um casal católico e um terço
fizeram este médico voltar à Igreja

Como um casal católico e um terço fizeram este médico voltar à Igreja

“Quando cheguei à quinta dezena de Ave-Marias, comecei a chorar. Forte, compulsivamente, como uma criança desamparada.”

Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Maio de 2018
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Este testemunho é de um aluno do nosso site, chamado Tiago, e foi enviado ao nosso suporte há pouco mais de dois anos, no dia 16 de maio de 2016, segunda-feira depois de Pentecostes. Na ocasião, ele acabara de receber o sacramento da Confirmação e estava prestes a se unir em santo Matrimônio.

Mesmo com a distância no tempo, achamos muito oportuna a publicação deste depoimento, não só porque pode ajudar muitas pessoas que se encontram no mesmo caminho, mas também porque ele ajuda a ilustrar muitas coisas que o próprio Padre Paulo Ricardo explica ao falar de como acontece uma conversão e como Deus se serve dos mais variados instrumentos para nos chamar à vida da graça.


Esta é a história da minha reconversão a Deus e volta à Igreja. Falo “reconversão” porque já acreditei em Deus fielmente durante a minha infância. Fui criado em uma família católica, batizado enquanto bebê. Aos 11 e 12 anos fiz catequese na Igreja e recebi o sacramento da Eucaristia.

Ao me tornar adolescente, aos poucos fui entrando na chamada “idade da razão”. Chamo assim por ser um período em que moldamos nossa personalidade, o que é comum a todos os adolescentes. É um tempo no qual buscamos nossa identidade, nos identificamos com certos grupos sociais e clamamos por reconhecimento da nossa individualidade. Para muitos é a idade da rebeldia, de contrariar os pais, a escola e as regras definidas pela sociedade. Onde todos os outros são quadrados e você é o legal da história. Não tive muito dessa fase. Ou seja, não fui um adolescente particularmente rebelde.

Por outro lado, conforme ia me moldando e buscando razões para as coisas, fui me distanciando de Deus. Afinal, estamos imersos em um mundo pautado por pautas equivocadas, nas quais a razão e ciência, teoricamente, entrariam em conflito com a religião. Na verdade, essa é uma das maiores mentiras que já me contaram, e ainda contam para a maioria das pessoas. Mas o porquê de isso ser uma mentira é papo para outra conversa. Junte-se a isso aquela busca por individualidade, racionalismo, prazeres recentemente descobertos e um total despreparo — por parte da maioria de nossos educadores, até mesmo dentro da Igreja — e você terá a fórmula perfeita para a gênese de um ateu, alguém que se distancia da Igreja, ou pior: as duas coisas.

No meu caso, inicialmente foi somente a distância da Igreja. Aos poucos fui me afastando, deixando de rezar, enxergando cada vez mais aquilo como errado, ultrapassado. Já mais próximo da idade adulta, a doutrinação de amigos mais velhos, da televisão, internet, e professores esquerdizados, me mostraram o óbvio naquele momento: somente sendo muito pouco inteligente para acreditar nas “ladainhas” da Igreja. Por certo deveria existir um Deus, onipotente, mas não seria o mesmo Deus da Igreja: retrógrada, dogmática, rígida.

Logo que entrei na faculdade, fui conhecendo pessoas e fazendo alguns amigos. Muitos deles, pessoas inteligentíssimas, que me ensinaram coisas pelas quais sou grato até hoje. Fiz faculdade de medicina, em universidade federal, o que, na época, era garantia de que você conviveria com algumas das mentes mais brilhantes (no sentido acadêmico), tendo em vista a dificuldade do vestibular. Minhas noções morais foram se adaptando e se moldando aos novos ensinamentos.

Graças a Deus, a maioria dos meus amigos eram pessoas retas e com padrões morais corretos. Porém, foi durante os primeiros anos da faculdade que comecei a questionar a existência de Deus. Como poderia um Deus todo-amor e onipotente ser conivente com tantas desgraças no mundo? Crianças de dois anos de idade com câncer no cérebro, malformações, pais de família morrendo enfermos com dois ou três filhos ainda a criar, guerras, assaltos, estupros, enfim…  Uma infinidade de tragédias que acontecem todos os dias. E a Igreja? Via muitos ditos “fiéis” saindo da missa ou culto (no caso dos protestantes) e no dia seguinte cometendo os mais variados pecados, variando desde uma mentira descarada até a traição da esposa. Portanto, seguiram-se vários anos de negação da fé.

Eu me bastava. Era o meu senhor. Médico, formado, com ótimo salário, desfrutando das coisas boas da vida. Tinha começado a namorar uma mulher incrível: linda, inteligentíssima e com princípios sólidos. Por sorte, estamos juntos até hoje, sendo que é minha noiva. Ela é católica, e sempre foi praticante. Em alguns momentos mais, noutros menos.

Lembro com pesar do quanto tentei dissuadi-la de sua fé. Durante uma conversa, cheguei a dizer claramente que não queria batizar meus filhos quando os tivesse. Que preferiria que eles atingissem a idade da razão para decidirem por eles mesmos. Afinal, eu era o senhor-razão, o cara que se bastava. Ela discordou frontalmente da minha argumentação, dizendo que fazia questão de batizar seus futuros filhos na Igreja Católica. Discordamos por mais algum tempo e, quando ambos cansaram de conflito, sem chegar num acordo, encerramos o assunto. Não conversamos mais sobre isso.

Em algumas ocasiões, fomos a casamentos de amigos. Tinha uma aversão cada vez maior a casamentos. Todo aquele ritual “chato” e “retrógrado” para uma festa de ostentação depois. Via, algumas vezes, casais que se separavam em menos de um ano após o casamento. Assistia a este espetáculo num misto de afirmação do que sentia e satisfação irônica — afinal, isso corroborava minha tese de que Deus não existia e que o casamento é uma “besteira”. Não me entendam mal. Eu acreditava na união de um casal. Só não acreditava nos valores de Deus e da Igreja: para a vida toda, indissolubilidade, etc… Gostava muito da máxima: que seja eterno enquanto dure.

Muitas vezes sentia um vazio, uma solidão, mesmo estando rodeado por muitas coisas e pessoas. Sempre encontrava a resposta em alguma coisa mundana, como uma nova viagem, uma roupa, um filme. Porém a resposta nunca saciava de verdade. Fingia que estava tudo bem, que logo iria passar. E realmente, às vezes passa. Pois mesmo em uma existência vazia e sem muito sentido, temos lampejos de felicidade. No geral, a vida era boa.

Sempre tive um grupo bem variado de amigos. Pelo fato de ter saído de casa para morar sozinho em outra cidade ainda com 18 anos de idade, aprendi a conviver com vários grupos e a respeitar as diferenças. Quando conversava com algum amigo religioso, sempre evitava tocar em assuntos sobre Deus. Quando falavam algo a respeito disso, me fechava no meu mundinho, sem dar abertura a qualquer palavra sobre isso. Minha posição era certa e irredutível.

Após ter mudado de cidade mais uma vez, dessa vez para morar com a minha namorada (na época), conheci outras tantas pessoas. Em especial, um casal de amigos que fizemos. Os dois eram católicos praticantes e pessoas maravilhosas. Estudavam (e ainda estudam) bastante sobre assuntos religiosos, sempre buscando se aprofundar na fé. Ao mesmo tempo, são pessoas inteligentíssimas, cultas e sábias. A amizade deles nos fazia muito bem, e nossos laços foram se estreitando. Aos poucos, minha armadura foi caindo. Bem lentamente, fui começando a escutar algumas colocações, opiniões e conclusões a que eles chegavam, mesmo discordando. São um casal exemplar, que demonstram amor a todo momento, sem falsidade. A forma como se olham causa emoção até no mais duro dos corações. Enfim, são um casal-modelo.

Certo dia, em um de nossos jantares, fui surpreendido pela visão de casamento do meu amigo: “Vemos o casamento da forma como a Igreja vê: no dia em que nos casamos, nos tornamos uma só carne, uma só pessoa”. Aquilo me tocou profundamente. Que coisa mais linda! Ao mesmo tempo, via com certa estranheza, pois parecia papo de maluco! Uma só carne? Impossível. Como esse mesmo amigo meu fala, acertadamente: “Quando estamos de fora, é muito difícil enxergar como quem está dentro. É, na maioria das vezes, incompreensível”.

Há uns 6 meses atrás, marcamos a data do nosso casamento. Já havia concordado em casar na Igreja, para satisfazer a minha noiva. Poderia casar na Igreja, tendo em vista que era batizado, recebi o sacramento da Eucaristia e nossa paróquia não exige o sacramento da Confirmação (Crisma) para casar. Fomos à nossa paróquia certo dia, para uma entrevista com o padre. Neste dia, minha vida começou a mudar.

O padre começou um questionário, para ver se cumpríamos os requisitos para realizar o Matrimônio na Igreja. No momento da questão se eu tinha recebido o sacramento da Confirmação, respondi a verdade, como em todas as outras perguntas: “Não”. O Padre respondeu: “Sem problema, meu filho. Hoje a Igreja não exige mais este sacramento como condição necessária ao Matrimônio”. Mas logo lançou uma pergunta no ar: “Mas você gostaria de fazer catequese e receber este sacramento, mesmo que fosse depois do seu casamento?” Pensei um pouco e respondi: “Padre, não vou mentir para o senhor. Não responderei que sim só da boca pra fora. Mas lhe prometo algo: que pensarei no assunto”. A entrevista continuou, e na sequência, fomos jantar com aquele casal de amigos dos quais falei antes.

A sementinha foi plantada. Aquilo não saía da minha cabeça. Parecia a coisa certa a ser feita. Durante o jantar, meus amigos me falaram sobre o site do Padre Paulo Ricardo, e sobre seus cursos. Quando cheguei em casa, prontamente acessei o site e vi os vários cursos lá presentes. Um deles me chamou a atenção: Catecismo da Igreja Católica. Me inscrevi, ganhei da minha noiva o livro do Catecismo e iniciei o curso.

Aos poucos, as aulas foram chamando minha atenção e dediquei cada vez mais tempo a elas. Estava admirado com tudo aquilo! Como esse padre falava bem, com uma oratória invejável e inteligência admirável. O que começou como uma aula ou duas por dia tomou conta de todo o meu tempo livre. Estava cativado por aqueles ensinamentos, apesar de ainda não estar totalmente aberto a aceitar Deus na minha vida.

Num belo dia, no quarto de repouso médico do hospital no qual trabalho, que nunca teve nenhum tipo de adereço religioso, apareceu um terço. Do nada. Até hoje não sei quem colocou ele lá. Como trabalho em emergência, e naquele momento estava sem pacientes para atender, decidi que rezaria o Terço. Mas um problema apareceu: além de não saber qual oração rezaria em qual tempo, muitas orações não conhecia de cor. Abri o celular e acessei um site que explicava o Terço. Me coloquei a rezar, de mente aberta.

Na quarta dezena de Ave-Marias, um fenômeno interessante se passou comigo: senti um calor muito forte nas mãos, e um formigamento que percorria meus braços. Continuei rezando, e aquela sensação se tornou mais e mais forte. Quando cheguei à quinta dezena de Ave-Marias, comecei a chorar. Forte, compulsivamente, como uma criança desamparada. Na verdade, era o que eu era, naquele momento: uma pessoa desamparada, certo da presença de Deus ali comigo, naquele momento. Envergonhado por todo esse tempo que eu tinha passado longe dEle e por todos os pecados cometidos sem reparação.

Tomei forças e terminei o terço. Depois disso, senti uma paz inexplicável, certo de que havia encontrado a resposta para minha vida dali em diante: Deus. Já não via mais o casamento como via anteriormente e, no curso de noivos que fizemos, passei a enxergá-lo como a Igreja vê e a desejar avidamente esse dia. Minha noiva estava muito satisfeita. Finalmente eu tinha me convertido. Que mulher paciente!

Continuei o estudo do Catecismo. As aulas do Padre Paulo já tinham terminado, tendo em vista que seu curso ainda não está completo: ia até os Sacramentos, faltando o Matrimônio e a terceira e quarta partes do livro do Catecismo. Teria que estudar sozinho o restante do livro. Enquanto fazia isso, fui tomado por uma vontade muito grande de receber o sacramento da Confirmação. Não me conformava com o fato de que receberia o sacramento do Matrimônio sem antes receber o belo e necessário sacramento da Confirmação do Batismo.

Certo dia, fui falar com o padre da minha paróquia. Expliquei a ele toda a minha história e falei que me sentia pronto e desejoso para o sacramento da Confirmação. O padre se comoveu, me parabenizou, deu as boas vindas e falou que consentiria em que eu recebesse este sacramento. Que dia feliz! Saí de lá muito emocionado. Marcamos a data para o próximo dia possível: um domingo de Pentecostes, 12 dias antes do meu casamento! Esse dia foi ontem. A cerimônia foi linda e emocionante. Neste dia percebi a missão que me aguarda daqui pra frente: a de estar ainda mais dentro da Igreja e mais próximo de Deus, assim como o meu dever de mostrar esse caminho a outras pessoas: evangelizar.

Por isso escrevi este texto. Já contei essa história a alguns amigos, e todos se emocionaram muito. Religiosos reforçaram sua fé, e os que não crêem talvez se abriram um pouco para a verdade. Nossa missão, como católicos, como cristãos, é difundir a palavra. Da forma falada e com exemplos — o mais importante. De nada adianta sermos cristãos e levarmos uma vida transviada, cheia de pecados graves.

Tenho plena consciência de que não estamos livres do pecado. Nossa condição humana, após o pecado original, nos torna pecadores por natureza. E é isso uma das bases do cristianismo: ter consciência dessa nossa natureza, olhar para o Céu e pedir a Deus Pai, todo-poderoso, que nos desvie do caminho do pecado. E quando inevitavelmente pecarmos, assumir nosso erro, repudiar o pecado do fundo do nosso coração, pedir um perdão sincero, suplicando a Deus — que na Igreja toma a forma do sacramento da Penitência — resolutos a não voltar a pecar. Fugir disso é o que nos torna como os animais: seres inconscientes, que só buscam o prazer, sem culpa.

Portanto, caros irmãos católicos, deixo um pedido aos que seguem uma vida reta e voltada para a verdade: não se furtem à sua missão. Não fujam da sua cruz. Nossa Igreja já está enfraquecida há algum tempo, tomada de fiéis que não vivem na plenitude a sua religiosidade. Vamos dar um basta nisso. Vamos mostrar, por atos e virtudes, que temos algo que vale a pena ser buscado e elevado à sua real posição de glória: Deus. Que mostremos, a todos que não crêem, os reais valores da Igreja Católica, e que consigamos restaurar a imagem deturpada que boa parte da sociedade, injustamente, tem da nossa Igreja.

Isso não se consegue em alguns meses, nem mesmo em alguns anos. É uma estrada longa e dolorosa. Mas cabe a nós tomar essa cruz, erguê-la e glorificá-la, para que sejamos ministros da palavra de Deus e da vida de Jesus Cristo, nosso Senhor!

Para encerrar, gostaria de agradecer profundamente o Padre Paulo Ricardo e toda a sua equipe, por terem tornado esse meu aprendizado o que ele foi: uma estrada fascinante, admirável e cativante!

Que Deus abençoe todos vocês!
Tiago.

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Eucaristia: “até os demônios crêem, e tremem”
Doutrina

Eucaristia:
“até os demônios crêem, e tremem”

Eucaristia: “até os demônios crêem, e tremem”

“Então, eu ouvi um outro som, desta vez um gemido indisfarçável, seguido de um som agudo enquanto alguém gritava: ‘Deixa-me em paz, Jesus! Por que me torturas?’”

Equipe Christo Nihil Praeponere19 de Junho de 2019
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A “rotina” pode fazer com que, muitas vezes, percamos um pouco a noção do que sejam a Santa Missa, a Eucaristia e a recepção da Comunhão sacramental. Os abusos litúrgicos que acontecem, aos montes, em tantas de nossas paróquias também acabam não contribuindo muito para fazer brilhar o mistério que aí se realiza. O seguinte testemunho do Mons. Charles Pope (tradução e grifos nossos), no entanto, talvez nos ajude a considerar melhor a grandeza do que estamos a celebrar nesta semana de Corpus Christi:

Foi quase 15 anos atrás, na velha igreja de Santa Maria, aqui no Distrito de Columbia, celebrando Missa em latim (na Forma Extraordinária do Rito Romano). Era uma Missa solene [...na qual] algo bem interessante estava prestes a acontecer.

Como vocês devem saber, a antiga Missa em latim é celebrada ad orientem (isto é, voltada ao “leste litúrgico”). O padre e todo o povo voltam-se para a mesma direção. O que isso significa para o celebrante, na prática, é que o povo fica às suas costas. Era o momento da consagração. Nessa hora, o padre deve fazer uma leve inclinação, com seus antebraços sobre a mesa do altar e a Hóstia em seus dedos.

Também como deve ser, as veneráveis palavras da consagração foram ditas em voz baixa, mas clara: Hoc est enim Corpus meum (“Isto é o meu Corpo”). A sineta tocava enquanto eu me ajoelhava.

Mas atrás de mim notei uma espécie de perturbação; uma voz agitada ou como um sussurro veio dos primeiros bancos atrás de mim, à minha direita, e então um gemido ou murmúrio. “O que foi isso?”, eu me perguntei. Não se parecia mesmo com um som humano; parecia mais o grunhido de um grande animal, como um javali ou um urso, juntamente com um resmungão que também não parecia humano. Elevei a Hóstia e novamente me perguntei: “O que foi isso?” Silêncio, então. Como celebrante na antiga Missa latina, não me era fácil virar para olhar. Mas eu ainda pensava: “O que foi isso?”

Era o momento da consagração do cálice. Mais uma vez eu me inclinei levemente, pronunciando clara e distintamente, mas em voz baixa: Hic est enim calix sanguinis mei, novi et aeterni testamenti; mysterium fidei; qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum. Haec quotiescumque feceritis in mei memoriam facietis (“Tomai e bebei dele todos vós, pois este é o Cálice do meu Sangue, do Sangue da nova eterna aliança, mistério da fé, o qual será derramado por vós e por muitos para a remissão dos pecados. Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim”).

Então, eu ouvi um outro som, desta vez um gemido indisfarçável, seguido de um som agudo enquanto alguém gritava: “Deixa-me em paz, Jesus! Por que me torturas?” De repente irrompeu um ruído como de uma briga e alguém saiu gemendo como se tivesse sido machucado. As portas se abriram e fecharam. Depois, silêncio.

[...] Eu não podia virar para olhar pois estava elevando o Cálice bem acima da minha cabeça. Mas eu percebi naquele instante que uma pobre alma atormentada pelo demônio havia se deparado com Cristo na Eucaristia e não podia suportar sua presença real sendo exibida para todos verem. Vieram-me à mente, então, as palavras da Escritura: “Até os demônios crêem, e tremem” (Tg 2, 19).

[...] Mas assim como São Tiago usou essas palavras para recriminar a pouca fé de seu rebanho, também eu tinha com o que me acusar. Por que um homem perturbado pelo demônio estava mais consciente da Presença Real e mais impressionado por ela do que eu estava? Ele ficou movido em um sentido negativo e fugiu. Por que não estava eu mais movido do que ele, em um sentido positivo? E quanto aos outros fiéis, que estavam nos bancos? Eu não duvido de que todos ali acreditávamos, com a inteligência, na Presença Real. Mas é algo bem diferente e muito mais belo ser movido até as profundezas da própria alma! É tão fácil ficarmos sonolentos na presença do Divino, esquecendo-nos da Presença milagrosa e impressionante que está à nossa disposição.

Registre-se que, naquele dia, quase 15 anos atrás, ficou ainda mais claro para mim que eu segurava em minhas mãos o Senhor da glória, o Rei dos céus e da terra, o justo Juiz e Dominador dos reis da terra. — Estaria o Senhor verdadeiramente presente na Eucaristia? — É melhor que você acredite, pois até os demônios o fazem!

Ao ler o relato desse sacerdote, é inevitável que nos venham à mente os inúmeros trechos do Evangelho em que os demônios reagem de modo muito similar à presença de Nosso Senhor. Em comentário a essas passagens, os Doutores da Igreja nos ensinam que, embora não tenham fé divina e sobrenatural, os maus anjos têm um certo conhecimento da divindade de Cristo, e por isso não lhe podem ser indiferentes. Santo Agostinho diz, por exemplo, que Jesus se manifestou aos demônios “não enquanto vida eterna e luz que ilumina os piedosos, mas por certos efeitos temporais de seu poder e por sinais ocultos de sua presença, mais perceptíveis aos espíritos angélicos, mesmo que malignos, do que à fraqueza humana” [1]; e São Jerônimo, por sua vez, que “tanto os demônios como o Diabo mais suspeitavam do que compreendiam que Ele era o Filho de Deus” [2].

Ou seja, os mesmos espíritos malignos que dois mil anos atrás reagiam com fúria e gritos à presença do Deus feito carne, são retratados respondendo com igual ódio e indignação à presença real de Jesus na Eucaristia. Que o fato acima seja verídico ou não, é o de menos: ninguém é obrigado a crer nas palavras de um padre. Mas ao ensino do Senhor e da sua Santa Igreja de que, “sim, na Eucaristia está verdadeiramente o mesmo Jesus Cristo que está no Céu e que nasceu, na terra, da Santíssima Virgem Maria” [3] — nisto sim, todos estamos obrigados a crer, por fidelidade a Deus revelante, que não se engana nem nos pode enganar.

“Problemático” falar disso, não? Pouco “ecumênico”, alguém diria. Mas não é de hoje: as palavras de Cristo sobre sua presença no Santíssimo Sacramento, desde o discurso do pão da vida até as recentes manifestações magisteriais sobre a Eucaristia, sempre foram uma grande “pedra de tropeço”. — Que haja quem acredite piamente que o próprio Deus, Criador do céu e da terra, se fez homem, já é grande absurdo… — assim pensa o mundo. — Agora, que haja, nesse grupo já seleto de pessoas, um grupo mais ousado ainda a ponto de proclamar que Deus, além de se fazer homem, ainda se esconde sob a aparência de um simples pedaço de pão, é escândalo em cima de escândalo.

Aquele grupo que crê na Encarnação são os cristãos; este grupo que crê também na transubstanciação são os católicos. De modo que, se para o mundo, os cristãos já são loucos, para os próprios cristãos, nós, católicos, somos o ápice da loucura. Por crermos na Eucaristia, os protestantes nos têm por fanáticos e idólatras, que se prostram diante de uma “bolacha”; por causa desse dogma em especial, somos “como que o lixo do mundo, a escória de todos” (1Cor 4, 13).

E como os católicos somos chamados a reagir a tudo isso? Com luto, lágrimas e depressão? Não, muito pelo contrário!

Neste dia de Corpus Christi, somos convocados, isso sim — principalmente por se tratar de dia de preceito —, a tomar as ruas de nossas cidades e, cheios de fé, proclamar nosso amor ao Santíssimo Sacramento com orações, cantos e muita alegria. Alegria principalmente por saber que o mesmo Jesus de Nazaré, que caminhou entre os homens dois mil anos atrás, continua realmente vivo em nossas igrejas, “habitando no meio de nós” todas as vezes que o sacerdote católico pronuncia as veneráveis palavras da consagração: “Isto é o meu corpo” e “Este é o cálice do meu Sangue”. Alegria por saber que, assim como Cristo, cabeça da Igreja, teve de passar por sua via crucis recebendo o desprezo do mundo, agora é a vez dos católicos, enquanto membros do seu corpo, passarem pela mesma execração pública.

Mas, ainda que nos ataquem com virulência, que nos chamem de idólatras e caçoem de nossa santa religião — mesmo se com isso os zombadores acabem se assemelhando aos demônios do Evangelho, e da história acima contada —, só o que nos deve encher o coração é um profundo desejo de que todos, sem exceção, venham a desfrutar um dia da mesma dádiva que nós, católicos, temos a graça de possuir… porque deve ser uma tremenda miséria entrar em um templo cristão e não ver, ao fundo, ocupando o centro de todas as atenções, a presença eucarística de Nosso Senhor Jesus Cristo, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade.

Referências

  1. De Civitate Dei IX, 21, citado por Santo Tomás de Aquino, Catena aurea (In Matth., c. VIII, l. 8). Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 323.
  2. Id., p. 323.
  3. Catecismo de São Pio X, n. 595.

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Silêncio, a especialidade de Deus
Espiritualidade

Silêncio, a especialidade de Deus

Silêncio, a especialidade de Deus

Quando o Espírito Santo vem chamar-nos, não o precede um arauto de armas nem sonoras trombetas que lhe anunciam a chegada. A especialidade do homem: o ruído. A especialidade de Deus: o silêncio.

Pe. Raul PlusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Junho de 2019
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À alma que quer ouvir os chamamentos divinos é necessário o recolhimento, em primeiro lugar, por causa da discrição de Deus.

Deus age sempre da mesma maneira: apraz-lhe ocultar-se. Só o descobrem os que estão atentos.

Às vezes as pessoas acham estranho que tantos cheguem a duvidar da existência de Deus. Acaso não prova a Criação que haja um Criador? Sim, certamente, mas se a razão afirma que Deus existe, a experiência não o percebe. O soberano Senhor oculta-se atrás das causas segundas. Ele, que é a causa total, não quer ser a causa única. Desde o seu distante quartel general ele tudo dirige; mas os homens, em contato sensível apenas com os intermediários, esquecem o chefe supremo de quem tudo depende. Toda causa segunda seria de uma indigência absoluta se Deus não lhe desse o poder de produção; mas como essa causa aparece em primeiro plano, o homem não vê mais do que a ela. É preciso refletir para descobrir a Deus.

Deus põe em tudo esta sublime discrição. Ele passeia por sua obra em todo tempo e lugar, mas procede como no Paraíso terrestre: sua marcha é silenciosa, e é preciso estar atento para perceber seu passo, que quase não faz barulho na areia, ali, muito perto, atrás do pequeno bosque.

Se tal discrição divina é palpável na ordem natural, quanto mais patente é, todavia, na ordem sobrenatural!

O Verbo decide vir à terra para encarnar-se. Credes que o fará impondo-se pelo brilho e pela pompa, e proclamando de certo modo: “Atenção! Entendei bem quem é que vos fala!”? De maneira alguma. Uma virgenzinha de quinze ou dezesseis anos, em uma pequena e insignificante aldeia de um pequeno país. Chama-se Maria; ninguém a conhece, salvo algumas amigas de seu povoado, Nazaré. Estando um dia em oração, recebe a proposta de chegar a ser Mãe de Deus. Duas palavras de aceitação: Ecce… Fiat! “Eis aqui… Faça-se!” — Neste mesmo instante o Verbo se faz carne.

Durante nove meses permanece oculto no seio de sua mãe como todo filho de homem… Vai nascer. Discretamente, sem publicidade alguma.

Ele tem de partir por causa do censo. Já sabeis o restante: o nascimento no campo, a manjedoura à meia-noite. Escutai: “Enquanto, sob um céu puro e no silêncio da terra, a noite estava na metade do seu curso, em segredo, longe do tumulto dos homens, o Verbo eterno do Pai assume a natureza humana e aparece aos homens, enquanto nos céus ressoava o hino: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa-vontade”.

Observemos as expressões: “No silêncio da terra, à noite, em segredo, longe do tumulto”. Eis aqui Deus.

E Deus age de igual maneira ao longo de toda a história evangélica: trinta anos de vida oculta; quando fala, não é para se anunciar, mas para dar testemunho do Pai; para semear seus ensinamentos, escolhe, de preferência, os humildes povoados à beira do caminho; quando vai ensinar coisas de maior profundidade, limita voluntariamente o seu auditório: Nicodemos e a mulher do poço de Jacó, o discurso antes e depois da Ceia. Quando mostra uma única vez algo de sua glória, não leva consigo mais do que três testemunhas. Se seus milagres podem granjear-lhe em excesso o favor das multidões, desaparece, como depois da multiplicação dos pães, ou manda guardar silêncio o agraciado. Recorre a seu poder de taumaturgo apenas para confirmar sua palavra. Os Apóstolos realizarão obras de mais brilho do que as suas.

Nada mais silencioso e, ao mesmo tempo, discreto do que a transubstanciação e a presença eucarística! Pronunciam-se algumas palavras, e a substância do pão já não existe. Jesus aí está sobre o altar, e na obscuridade do tabernáculo irá permanecer dia após dia, sem buscar atrair ruidosamente atenção! Se o vão visitar, é bom; mas, se não vai ninguém, tampouco reclama: tudo passa como se Ele não estivesse ali. Ter-se-ia notado alguma mudança no bairro, se o Salvador do mundo não se encontrasse ali abaixo, na igrejinha no fim da rua?

Levam uma criança à igreja. Vão-na batizar. O que significa isto? Que a SS. Trindade irá entrar nessa alma pequenina. Ouvi-o bem: a SS. Trindade, Deus, o Ser supremo, e no entanto quem pensa na importância desse ato?

Quando um rei, um imperador ou um chefe de Estado vai a uma cidade, quantos preparativos! quantas distinções! quanta gente em movimento! Mas aqui, nada.

Quanta discrição, por parte do Salvador, no governo da Igreja! No Evangelho, a grande personagem é o Pai. Uma vez concluída a Redenção, a grande personagem é o Espírito Santo, e já o dissemos antes: Spiritus docebit vos, “o Espírito vos há-de ensinar”. Nosso Senhor, como Mestre, “fracassa” com os Apóstolos. Depois de três anos de convívio, fogem todos no momento da agonia, um o trai, outro o nega. Será preciso que desça o Espírito Santo. Só então os medrosos do Horto das Oliveiras serão valentes e saberão enfrentar o martírio. Quanta sede tem Jesus de fazer-se pequeno, de evitar aparecer! Durante a sua vida, eclipsa-se diante do Pai; depois de sua morte, fa-lo-á diante do Espírito Santo.

Há mais, porém. A Igreja que Ele estabeleceu na terra e à qual confiou as chaves do Reino de Deus, não a irá governar senão por meio de outra pessoa; não aparecerá senão o seu Vigário. Ele está ali, evidentemente, por seu Espírito Santo, preservando a Igreja de todo erro, dando aos chefes escolhidos luz e força. Mas aqui também, quantas gentes passarão ao lado da Igreja de Jesus Cristo sem reconhecer a Jesus Cristo! E isso, sem dúvida, por culpa da insignificância ou da indignidade de um grande número de seus membros, mas também porque a boa semente nem sempre germina com êxito em meio à cizânia, e o Senhor estima, mais do que os brilhantes triunfos de uma divindade da Igreja que se imponha a todos, os humildes esforços de uma Igreja divina, cuja divindade aparece apenas aos que refletem mais ou aos que são mais puros.

Se esta é a maneira habitual de Deus agir, não será preciso tê-la em conta quando se trata de uma obra realizada nas profundezas da alma, ou seja, dos convites da graça?

Jesus ressuscitado entrou no Cenáculo sem que ruído algum denunciasse a sua chegada. Com maior razão, quando o Espírito Santo vem chamar-nos, não o precede um arauto de armas nem sonoras trombetas que lhe anunciam a chegada. Está a alma em estado de graça? Deus se encontra já no coração da praça. Ali, convida incessantemente à fidelidade. Não espereis estrépito, mas gemitus, dirá S. Paulo, uma humilde e silenciosa modulação o mais serena possível. A especialidade do homem: o ruído. A especialidade de Deus: o silêncio.

Ah! razão tem de sobra o autor [1] que descreve assim a ação de Deus em nossos corações: “Da mesma maneira que a água impregna a esponja docemente e sem ruído, o divino Espírito penetra sem violência na alma disposta a recebê-lo. Não se impõe; propõe-se. As visita forçadas repugnam à sua infinita delicadeza. Sua voz é doce, amiga do recolhimento e da paz. Para escutá-la, é preciso que se faça silêncio no interior”.

Referências

Notas

  1. O Pe. Augusto Drive, 4.º Diretor Geral do Apostolado da Oração, em seu excelente opúsculo Wes Dieu sous la conduite de Marie (nota do autor).

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Pornografia: um problema de saúde pública
Sociedade

Pornografia:
um problema de saúde pública

Pornografia: um problema de saúde pública

Finalmente a sociedade está se dando conta de que a injeção constante e direta de toxinas digitais na mente de uma geração inteira tem surtido efeitos muito, muito negativos.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere17 de Junho de 2019
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Enquanto uns poucos especialistas isolados, claramente comprometidos com certas agendas, insistem em defender a indústria pornográfica, o resto da sociedade está se dando conta rapidamente de que a injeção constante e direta de toxinas digitais na mente de uma geração inteira tem surtido efeitos muito, muito negativos.

Mês passado, por exemplo, um relatório elaborado no Reino Unido descrevia como o consumo de pornografia estava transformando as escolas em “campos de batalha”, onde as meninas se sentem impelidas a comportar-se como atrizes pornô e os rapazes vêem a vida com base no lixo que consomem online. Testemunhos como este são norma entre os adolescentes:

Tudo o que a gente vê nas redes sociais está reforçando o que há de pior na “cultura jovem”. Imagens de mulheres em poses provocativas com mensagens do tipo: “É assim que toda mulher quer ser vista”… Um amigo meu queria que a namorada se vestisse como uma atriz pornô e fizesse o que faz uma atriz pornô. A pornografia está muito acessível. A gente vê rapazes assistindo a vídeos no celular dentro de sala de aula e até nos ônibus.

Além do que, outro grande estudo, divulgado mês passado, detalha a destruição causada na nossa cultura pela pornografia e confirma o consenso crescente de que a pornografia é, sim, um problema de saúde pública. O estudo, que entrevistou 6.463 estudantes (2.633 homens e 3.830 mulheres), entre 18 e 26 anos, indica que quase 80% deles já foram expostos à pornografia (cifra que eu julgo até muito baixa). Os efeitos disto são enormemente preocupantes. Um dos resultados da pesquisa evidencia o que temos alertado há já algum tempo: a pornografia atua como uma droga, e os usuários tendem a procurar conteúdos cada vez mais pesados e hard-core, a fim de satisfazer o próprio vício. Eis o que o estudo diz:

Tolerância/intensificação: Os efeitos adversos mais comuns da pornografia, reconhecidos pelos próprios usuários, são: a necessidade de estímulos mais prolongados (12%) e de estímulos sexuais mais numerosos (17,6%) para poder chegar ao orgasmo, e uma diminuição do prazer sexual (24,5%) […]. O presente estudo também sugere que a exposição prematura pode estar associada a uma potencial dessensibilização a estímulos sexuais, como indicado pela necessidade de estímulos mais prolongados e numerosos para alcançar o orgasmo durante o consumo de material explícito, e também pelo decréscimo generalizado da satisfação sexual. Constataram-se ainda várias mudanças de padrão no consumo de pornografia durante o período de exposição: escolha de um gênero diferente de material explícito (46%), uso de materiais que não concordam com a própria orientação sexual (60,9%) e a necessidade de utilizar conteúdos mais extremos, isto é, violentos (32%).

Curiosamente, o estudo também chegou à conclusão de que 10,7% dos homens e 15,5% das mulheres confessaram assistir diariamente a filmes pornôs e reconheceram estar viciados, sem que haja, na prática, nenhuma diferença na taxa de adicção entre homens e mulheres. Via de regra, quem está viciado em pornografia demora para admitir que está com problema; por isso, é bastante alto o número de usuários dispostos a reconhecer que se sentem viciados em pornografia.

Mesmo entre os que não se consideram viciados, o estudo indica que são comuns sintomas típicos de abstinência: 51% já tentaram parar ao menos uma vez, dos quais 72,2% já experimentaram um ou mais sintomas de crise de abstinência, incluindo solidão, perda de libido, insônia, irritabilidade, ansiedade, tremedeiras, impulsos agressivos, depressão, sonhos eróticos e distúrbios de atenção.

Como era de esperar, quanto mais cedo uma pessoa é exposta à pornografia, maiores são as chances de ela sofrer alguns de seus efeitos negativos, sendo maiores as probabilidades entre os que foram expostos aos 12 anos ou antes. E tenhamos em mente que a idade média em que os jovens descobrem a pornografia continua a cair e encontra-se, atualmente, na faixa dos 11 anos. Os autores do estudos sugerem, cautelosos, que futuras pesquisas poderão indicar os prejuízos a longo prazo causados em adultos expostos à pornografia ainda muito cedo. Com efeito, a maioria dos participantes do estudo afirmou que a pornografia é, sim, um problema de saúde pública, com muitas consequências negativas para a sociedade, mas se negou a apoiar qualquer política que restrinja o acesso a esse tipo de material. Os vícios, como toda a gente sabe, são difíceis de superar.

Como eu já disse antes e continuarei a dizer até as pessoas caírem em si: a pornografia é o inimigo número um das nossas comunidades, das nossas igrejas, das nossas famílias e dos nossos casamentos. Muitos cristãos têm treinado para as próximas batalhas nesta guerra cultural; muitas comunidades têm-se preparado para os perigos externos do totalitarismo secular. No entanto, a pornografia, infiltrando-se em nossos lares pelas telas de qualquer aparelho conectado à rede, está envenenando os relacionamentos e espaços de que vamos precisar, se quisermos sobreviver ao massacre cultural que enfrentaremos nos próximos anos.

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Quem não se recolhe, não escuta o Espírito Santo
Espiritualidade

Quem não se recolhe,
não escuta o Espírito Santo

Quem não se recolhe, não escuta o Espírito Santo

“Se deixássemos de lado todas as coisas da terra e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida” a doce voz do Espírito Santo “e as insinuações do seu amor”.

Equipe Christo Nihil Praeponere14 de Junho de 2019
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“O homem espiritual não se move principalmente a realizar alguma coisa pelo movimento de sua própria vontade, senão pelo instinto do Espírito Santo.”

(Pe. Antonio Royo Marín)

Depois de termos falado da “vida na carne” em seu sentido mais literal, por assim dizer, ou seja, de quem vive na lama do pecado mortal e vai se arrastando miseravelmente, dia após dia, até a condenação eterna, é chegado o momento de falarmos sobre a “vida na carne” que levam inclusive os que se encontram em estado de graça. A ideia aqui é darmos um passo a mais, deixando de lado o fosso e olhando para as pessoas que já entraram no “castelo interior” de suas almas.

Sim, porque ainda que o pecado grave continue sendo “uma tragédia possível para todos”, “para as almas fervorosas ou desejosas de sê-lo, o problema constante não é a luta contra o pecado, mas o esforço positivo pela perfeição” [1].

Ou seja, os cristãos precisamos tomar consciência de que não basta observar os Mandamentos: o jovem rico, depois de dizer ao Senhor que não matava, não cometia adultério, não furtava, não mentia etc., teve ainda de ouvir do Mestre: “Uma coisa te falta” (Mc 10, 21). Jesus fixou nele o olhar e amou a sua vida, mas não é suficiente deixar, ainda que sob o impulso do Espírito Santo, de fazer as coisas erradas; é preciso invocar o auxílio do mesmo Espírito também para fazer as coisas certas, e fazê-las bem.

Afastemos aqui, desde já, um grande erro: o de acharmos que a intervenção divina na história cessou com a vinda de Cristo, ou que se limita à vida de alguns poucos escolhidos, a uma “casta” separada para chegar à sétima morada, e pronto. A muitos parecerá “presunção”, de fato, esse clamor pelo Espírito, para que nos oriente e ilumine os caminhos que devemos seguir, mas o pe. Antonio Royo Marín garante que, considerando que a terceira Pessoa da Santíssima Trindade habita na alma do justo,

se deixássemos de lado todas as coisas da terra e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida sua doce voz e as insinuações do seu amor. Não se trata de uma graça extraordinária, mas totalmente normal e ordinária em uma vida cristã seriamente vivida [2].

Essa doutrina é confirmada por ninguém menos que Santo Tomás de Aquino, o qual explica que os filhos de Deus, que se deixam mover pelo Espírito Santo, “são regidos como por certo condutor e diretor, que é o que faz em nós o Espírito, enquanto nos ilumina interiormente sobre o que devemos fazer [illuminat nos interius quid facere debeamus]” [3].

Ainda que seja um exemplo tomado das alturas, olhemos para como São José, pensando em abandonar em segredo a Santíssima Virgem, foi visitado pelo Anjo e decidiu desposá-la. Sua primeira ideia não era pecaminosa; era a postura correta e que se esperava de um “homem justo”. A santidade, no entanto, pede que sejamos não apenas justos, no sentido mais comezinho da palavra, mas que ajamos sobrenaturalmente. Foi o que fez São José, preterindo sua primeira resolução e dispondo-se a seguir o conselho do Anjo. Não o tivesse feito, em que apuros não teriam ficado Maria e seu divino Filho? E a obra de nossa salvação, que riscos não teria corrido?

Também a nós é pedido que sigamos, no caminho da perfeição, algo mais do que a justiça simplesmente humana, sob pena de levarmos uma vida “na carne”, e não no Espírito: “A maior parte das pessoas religiosas, mesmo as boas e virtuosas, não seguem em sua conduta particular e na dos outros senão a razão e o bom senso, no qual muitos deles se sobressaem. Essa regra é boa, mas não é suficiente para a perfeição cristã” [4].

É por isso que, só para citar o exemplo de algo que faziam todos os santos, o Beato Carlos da Áustria, “antes de qualquer escolha importante, [...] retirava-se para a capela, sozinho, para poder ponderar a sua decisão diante do Santíssimo e ‘rezar a seu respeito’, como costumava dizer” [5]. Era um homem que tinha fé menos em cálculos humanos que no Espírito, o qual não só “nos ilumina interiormente sobre o que devemos fazer”, como dá todas as forças necessárias para que ponhamos mãos à obra.

A essas iluminações e forças que a terceira Pessoa da Trindade transmite a nossas almas a teologia mística dá o nome de graças atuais, e é da fidelidade a elas que depende o grande negócio da nossa salvação eterna. O Santo Cura d’Ars dizia que, “se se perguntasse aos condenados: por que estais no inferno?, eles responderiam: por ter resistido ao Espírito Santo; e se se perguntasse aos santos: por que estais no céu?, estes responderiam: por haver escutado o Espírito Santo” [6].

Mas — batamos uma vez mais nessa tecla, porque há muitos falando do Espírito, mas poucos vivendo nEle — quem poderá escutar a voz de Deus sem oração, sem “retiro” e sem recolhimento? Quem poderá sentir-lhe as inspirações estando no barulho de uma rave? Como poderá ser guiado pelo Espírito Santo quem o que faz é deixar-se conduzir, a todo momento, pelas solicitações do mundo? Como ouvirá a voz do doce Hóspede da alma quem o que faz é atender aos impulsos da própria carne? Como perceberá o toque suave da graça quem não é capaz de desligar, por alguns minutos que seja, as notificações do seu smartphone, as séries da sua Netflix ou as músicas de seu serviço de streaming?

Se deixássemos de lado todas as coisas da terra” — atentemo-nos de novo ao que diz o Pe. Royo Marín — “e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida” a voz de Deus “e as insinuações do seu amor”. Se não o ouvimos, portanto, nostra culpa, nostra maxima culpa: falta-nos “uma vida cristã seriamente vivida”; falta-nos deixarmos de lado as coisas da terra. Exemplo sumamente perfeito desse recolhimento tão necessário foi o de Jesus Cristo, o Verbo de Deus encarnado: antes de seu ministério público,

quarenta dias de deserto precedidos de trinta anos de silêncio. A este preço se salva o mundo. Recolher-se, e somente depois de recolher-se, dar-se. A “solidão” é quem nos julga. Não sejamos jamais “o vagabundo que nunca está em casa”. E recordemos sempre que “mede-se o valor de uma pessoa pela capacidade de isolamento que nela existe” [7].

Convençamo-nos de uma vez que não há outra forma de nos tornarmos cristãos de verdade senão silenciando e rezando; senão se recolhendo e, depois, entregando-se; senão correspondendo, em tudo o que fizermos — e não apenas em uma área específica da nossa vida, e não apenas indo à Missa aos domingos, e não apenas realizando este ou aquele ato de piedade —, às graças atuais com que Deus quer nos fazer santos, e grandes santos.

Se nos parece demasiado alta a meta, não nos deixemos desanimar! Exorcizemos de nossos corações a tristeza com que o jovem rico deixou a famosa cena evangélica; inflamemo-los diante do nobre ideal que Deus nos coloca diante dos olhos; combatamos com todas as forças esse espírito de tibieza, essa pusilanimidade, esse “ânimo pequeno” e falta de “ambição” espiritual, que pouco a pouco vai debilitando e paralisando, até a inércia — isso quando não faz voltar à vida velha nos pecados mortais... pois é certo que, na vida espiritual, quem não avança inevitavelmente recua.

Referências

  1. Pe. Raul Plus, La fidelidad a la gracia, trad. esp. de A. de Miguel Miguel, [s.l.: s.n.], 1951, p. 59.
  2. Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la perfección cristiana (n. 638), 14.ª ed., Madri: BAC, 2015, p. 781.
  3. Santo Tomás de Aquino, Super Epistulam ad Romanos, c. VIII, l. 3.
  4. Pe. Antonio Royo Marín, op. cit. (n. 637), p. 780.
  5. Giovanna Brizi, A vida religiosa do Beato Carlos da Áustria, 2.ª ed., Rio de Janeiro, Edições Lumen Christi, 2014, p. 41.
  6. Apud Pe. Raul Plus, op. cit., p. 6.
  7. Id., p. 36.

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