Esaú foi profano ao vender o seu direito de primogenitura e presunçoso ao reivindicar a bênção. Mais tarde, ele realmente se arrependeu, mas já era tarde demais. E temo que, assim como Esaú agiu assim nos tempos antigos, muitos cristãos agem da mesma forma atualmente. Desprezam as bênçãos de Deus quando são jovens, fortes e saudáveis; depois, quando envelhecem, ficam fracos ou adoecem, não pensam em arrepender-se, mas acham que podem aproveitar e desfrutar dos privilégios do Evangelho como algo natural, como se os pecados dos anos anteriores não tivessem significado nenhum. E então, talvez, a morte os surpreenda; e depois disso, quando já é tarde demais, eles se arrependem. Então, eles proferem um forte e amargo clamor perante Deus; e quando veem almas felizes ascendendo ao Céu na plenitude das bênçãos do Evangelho, dizem ao Deus que ofenderam: “Abençoai-me, abençoai-me também, ó meu Pai” (Gn 27, 34).
Será que não é bastante comum ver homens e mulheres negligenciarem a religião em seus melhores dias? Foram batizados, aprenderam quais são os seus deveres, aprenderam a rezar, conhecem o Credo, a sua consciência foi iluminada, têm a oportunidade de ir à igreja. É o seu privilégio de nascença, por terem nascido da água e do Espírito, mas vendem-no, tal como o fez Esaú. Eles são tentados por Satanás com alguma vantagem deste mundo e abrem mão do seu direito de primogenitura em troca do que certamente perecerá, levando-os a perecer com ele. Esaú foi tentado pela sopa que viu nas mãos de Jacó. Satanás aprisionou o seu olhar de luxúria, e ele contemplou a sopa, assim como Eva contemplou o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Adão e Eva venderam o seu direito de primogenitura em troca do fruto de uma árvore — esse foi o acordo deles. Esaú vendeu o seu em troca de um prato de lentilhas — esse foi o dele. E os homens hoje em dia muitas vezes vendem os seus, não por algo tão simples quanto frutas ou ervas, mas por algum benefício maligno ou algo semelhante, que na época julgavam valer a pena comprar a qualquer preço; talvez para desfrutar de algum pecado específico, ou, mais comumente, para ceder à negligência geral e à preguiça espiritual, porque não gostam de uma vida rigorosa e não têm coração para servir a Deus. Portanto, são pessoas profanas, pois desprezam o grande dom de Deus.
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Então, quando tudo termina e suas almas são vendidas a Satanás, eles parecem nunca compreender que perderam o seu direito de primogenitura. Acham que continuam exatamente onde estavam antes de se entregarem ao mundo, à carne e ao diabo; presumem que, quando decidirem se tornar mais decentes ou mais religiosos, terão todos os seus privilégios de volta, como antes. Assim como Sansão, propõem seguir em frente como antes e recompor-se. E, como Esaú, em vez de se arrependerem pela perda do direito de primogenitura, eles vão buscar a bênção como se fosse algo natural. Esaú saiu para caçar veados alegremente e logo os levou para seu pai. Ele estava animado, sua voz era alegre. Não lhe ocorreu que Deus estivesse zangado com ele pelo que havia acontecido anos atrás. Ele achava que tinha a bênção garantida, como se não tivesse vendido o direito de primogenitura.
Então, infelizmente, ele enxergou a verdade e soltou um forte e amargo clamor, quando já era tarde demais. Teria sido melhor se ele tivesse clamado antes de ter ido pedir a bênção, e não depois disso. Arrependeu-se quando já era tarde demais — teria sido melhor se ele tivesse se arrependido a tempo. O mesmo digo sobre as pessoas que pecaram de alguma forma. É bom que elas não se esqueçam de que pecaram. É bom que lamentem e deplorem os seus pecados passados. Podem ter a certeza de que lamentarão por eles no outro mundo, se não lamentarem aqui. O que é melhor, soltar um clamor amargo agora ou depois? Depois, quando a bênção da vida eterna lhes for negada pelo justo Juiz no último dia, ou agora, para que possam ganhá-la? Sejamos sábios o suficiente para que o nosso sofrimento seja neste mundo, e não no próximo. Se nos humilharmos agora, então Deus nos perdoará. Não podemos escapar da punição, aqui ou no futuro; devemos fazer a nossa escolha: sofrer e lamentar um pouco agora, ou muito depois.
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Quereis saber como um penitente deve se aproximar de Deus? Lede a parábola do filho pródigo. Ele também desperdiçou sua herança, assim como Esaú. Ele também procurou a bênção, assim como Esaú. Sim, mas vede como ele agiu de maneira diferente! Aproximou-se do pai com profunda contrição e humildade. Disse: “Pai, pequei contra o Céu e contra ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus servos.” Mas Esaú disse: “Levanta-te, meu pai, e come da caça de teu filho, a fim de que tua alma me abençoe” (Gn 27, 31). Um foi buscar os privilégios de filho; o outro, o trabalho árduo de servo. Um matou e preparou a caça com as próprias mãos, e não a provou; para o outro, prepararam o bezerro cevado, o anel para a mão, os sapatos para os pés, a melhor túnica, além de música e dança.
Não preciso dizer que estas reflexões são muito apropriadas para este tempo [litúrgico]. Desde os tempos mais remotos até os dias de hoje, estas semanas que antecedem a Páscoa têm sido reservadas todos os anos para lembrarmos e confessarmos os nossos pecados. Desde os primórdios da cristandade, não houve um único ano em que os cristãos não fossem exortados a refletir sobre até que ponto abriram mão do seu privilégio, como preparação para receberem a bênção. No Natal, renascemos com Cristo; na Páscoa, celebramos a festa eucarística. Na Quaresma, por meio da penitência, unimos os dois grandes sacramentos. Estais preparados, meus irmãos, para dizer — haverá algum cristão vivo que ouse dizê-lo? — que não pecastes, em maior ou menor grau, contra a misericórdia gratuita de Deus, concedida a vós no Batismo, apesar dos vossos méritos, ou melhor, contra eles? Quem dirá que aproveitou tão bem a sua primogenitura a ponto de a bênção ser a sua recompensa justa, e que não tem pecados a confessar nem ira a ser aplacada?
Vede, então, que a Igreja vos propõe este tempo para tal propósito. “Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação” (2Cor 6, 2). É agora que, com a ajuda de Deus, deveis tentar vos libertar do pesado fardo das transgressões passadas, para vos reconciliardes com aquele que já vos concedeu os seus méritos expiatórios, e vós os profanastes.

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