CNP
Christo Nihil Praeponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Evangelize compartilhando!
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®
“Eu fui estuprada violentamente aos 16, mas o aborto foi muito pior”
Pró-Vida

“Eu fui estuprada violentamente aos 16,
mas o aborto foi muito pior”

“Eu fui estuprada violentamente aos 16,
mas o aborto foi muito pior”

“Algo terrível aconteceu naquela noite. Mas nem se compara com a dor e o remorso que eu fui acumulando, e que Satanás foi acumulando sobre mim, ao longo dos anos que se seguiram ao aborto.”

TammyTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Maio de 2018
imprimir

Aos 16 anos de idade, poucos dias antes de meu 17.º aniversário, tive meu primeiro encontro [1]. Eu estava nervosa. Ele jogava futebol americano e era popular. Nós comemos e assistimos a um filme. Eu ainda tinha algum tempo antes de voltar para casa, então fomos dar umas voltas de carro na região rural em que morávamos. Fomos a uma das propriedades de sua família e fizemos um passeio olhando cavalos. Meu primeiro encontro, que parecia para mim como um sonho completo, converteu-se imediatamente em um pesadelo, quando ele me estuprou com violência em um celeiro.

A princípio, eu não contei nada a ninguém. Afinal de contas, logo depois ele me ameaçou, dizendo que eu me arrependeria se contasse para alguém, que ele acabaria comigo e que ninguém acreditaria em mim. Algumas semanas depois, eu contei tudo a uma amiga. Depois de conversar com algumas pessoas e de descobrir que ele já havia espalhado sua própria versão do que havia acontecido naquela noite, de fato, ninguém acreditou em mim. Pessoas em quem eu confiava, pessoas que eu amava, pessoas que eu esperava que fossem me apoiar, não fizeram nada disso. Comecei então a negar tudo aquilo para mim mesma e tentar apagar da minha memória o que tinha acontecido.

Na ocasião, eu não pensei muito sobre a possibilidade de estar grávida, porque eu tinha uma visão distorcida sobre o assunto: já que tinha sido um estupro, pensei, era de alguma forma menos provável que eu ficasse grávida. Foi só quando comecei a sentir os sintomas que passei a me dar conta de que, talvez, eu pudesse estar grávida.

Peguei o carro sozinha e fui a uma cidade diferente para comprar um teste de gravidez. Fiz o teste no banheiro de um posto de combustível, a fim de que ninguém em minha terra natal soubesse de nada. Antes de fazê-lo, eu já tinha meio que planejado o que faria se o teste desse positivo: eu tinha o nome de um “centro para crise na gravidez” (CCG, ver nota), que eu pensava ser uma clínica de aborto [2]. Eu estava muito assustada e revoltada ali, sozinha, no banheiro daquele posto. Estava revoltada com Deus, perguntando como Ele poderia ter deixado aquilo acontecer comigo, e comigo mesma, por ter me colocado em uma situação de permitir que aquilo acontecesse.

De um telefone público, liguei para o CCG e eles disseram que eu poderia ir até lá imediatamente. Foi o que fiz. Estava a cerca de uma hora de carro. A essas alturas, já não confiava em ninguém e tinha escolhido não contar nada, nem a amigos, nem a nenhum familiar. Senti que isso só confirmaria o que as pessoas já estavam dizendo sobre eu estar “inventando um estupro”. Fui ao CCG porque pensei que se tratava de uma clínica de aborto, na esperança de ter um naquele mesmo dia.

As pessoas ali foram muito gentis comigo e contaram-me tudo o que eu já sabia sobre a vida que estava dentro de mim. Não me senti em nenhum momento julgada por eles. Eles só tinham alguns dias específicos da semana em que realizavam ultrassonografias, e eu teria de retornar dois dias depois para fazer uma. Chorando, eu lhes disse que estava tão apavorada que não conseguiria encarar as pessoas por causa da gravidez; disse ainda que iria a uma clínica de aborto assim que saísse dali. As conselheiras me disseram que, mesmo que eu passasse por um aborto, eu poderia sentir-me bem-vinda para voltar lá e falar com elas sobre isso. Até o dia de hoje, 17 anos depois, eu ainda tenho amizade com uma dessas pessoas.

Estremecendo com medo de enfrentar o ridículo, esgotada por causa das calúnias que o estuprador já estava espalhando a meu respeito, dirigi-me a uma clínica de aborto naquele mesmo dia. Era o oposto do CCG: este era caloroso e acolhedor, mesmo passando a impressão de uma clínica médica; a clínica de aborto era fria e sem vida. Havia pessoas na sala de espera, mas ninguém era capaz de olhar um para o outro ou reconhecer, de alguma forma, a presença das outras pessoas. Não houve privacidade nem delicadeza alguma para se falar com a recepcionista a meu respeito. Ela disse que eles poderiam me examinar, mas eu teria de agendar um retorno para fazer o procedimento no dia seguinte. Respondi a ela que não poderia faltar à escola outro dia, então ela disse que eles dariam um jeito de cuidar do meu caso.

Não houve nenhuma espera e nenhuma pergunta. A preocupação deles se resumia a saber se eu tinha dinheiro para lhes pagar. Eles sequer deram bola para o fato de eu estar sozinha. Foi absolutamente a pior experiência da minha vida — pior até mesmo que o estupro. Eu ficava dizendo para mim mesma que tudo iria ficar bem, que eu havia sido estuprada, então eu estava justificada, e eu iria superar isso. Eu não acreditava em nada daquilo, por isso eu ficava repetindo para mim mesma sem parar. Dizia a Deus que era tudo culpa dele. Eu estava muito nervosa na hora. Mas eu sabia que havia um bebê dentro de mim. Eu sabia que a vida começava com a concepção, mas, na minha cabeça de 17 anos, eu simplesmente não estava conectando as coisas.

A clínica de aborto estimou que eu tinha entre 14 e 16 semanas de gravidez, então eles usaram ultrassom durante o procedimento. O monitor estava virado, então eu não podia ver. Eu não sei se ele parou de funcionar, ou se a enfermeira cometeu um erro, mas eu escutei o coração do meu filho bater, e foi então que a conexão finalmente aconteceu. Eu disse ao médico que queria que ele parasse, mas ele disse que era tarde demais para parar. Então eu apaguei, porque eles me deram um Diazepam para relaxar. As enfermeiras ajudaram a me limpar e a me vestir. Elas faziam tudo bem rápido porque precisavam do lugar. Eu não me sentia pronta nem para me mover nem para ir a lugar algum, mas elas não estavam nem aí: não se preocuparam com o que eu estava sentindo, não se ofereceram para me levar até o meu carro, nem perguntaram se alguém podia dirigir para mim.

Entrei no carro com dores e chorei por duas horas antes de sequer pensar em voltar para casa. Eu não deveria nem mesmo ter pegado o carro naquele dia. O problema estava resolvido de acordo com o “protocolo” social, e eu deveria estar aliviada e pronta para seguir em frente com a minha vida, mas alívio foi a última coisa que eu senti naquele momento. Eu me lembro de ter um diálogo comigo mesma, uma espécie de diálogo entre o bem e o mal: “Você fez o que tinha de fazer”, disse primeiro. “Você acha mesmo que tinha outra opção? A maioria das pessoas entenderia o que você acabou de fazer.” Mas então eu disse para mim mesma: “Você sabia que era um bebê. Como você pôde? Você é uma pessoa horrível.” Eu pensei que não podia ser realmente uma cristã, tendo feito o que acabara de fazer.

Por muitos anos, eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para dar um fim àquela dor. Tenho poucas lembranças da faculdade, porque eu estava sempre bebendo. Também lutei com uma desordem alimentar e, honestamente, não sei como sobrevivi, não fosse pela graça de Deus. Eu ainda frequentava a igreja durante esse tempo, mas parte de mim se sentia morta e eu ainda me perguntava: “Como Deus poderia me amar? Como Ele poderia um dia me perdoar por ter assassinado meu filho?

Depois de muito aconselhamento eu parei de beber e diminuí a desordem alimentar. Durante as sessões de terapia, nós focamos no estupro por um certo tempo e trabalhamos nisso, o que me ajudou, mas quase nunca tocávamos no assunto do aborto. Minha terapeuta chegou a me dizer: “Você fez realmente o que tinha de fazer naquela situação. Você tinha sido estuprada.”

Encontrei um rapaz cristão na igreja, e nós nos abstivemos de relações sexuais até nossa noite de núpcias. Senti que eu já tinha lixo o suficiente na minha vida e queria fazer as coisas direito, honrar a Deus. Mas o tempo passava e eu ainda sofria de depressão e lutava com minha desordem alimentar.

Eu sempre senti que, por causa da experiência que eu havia tido com o CCG, mais tarde na minha vida eu gostaria de me envolver com esse tipo de ministério. Nós tínhamos acabado de celebrar o National Sanctity of Human Life Day (lit., “Dia Nacional da Santidade da Vida Humana”) na minha igreja, e eu contei a meu pastor que o CCG mais próximo de nós estava a cerca de uma hora de distância, e que havia uma grande necessidade de um centro em nossa área. Ele sentiu que Deus estava me inspirando, e encorajou-me a começar um centro local.

Então eu reuni pessoas e começamos a planejar a instalação de um CCG. Durante esse processo, ao visitar outros centros e aprender os serviços que eram oferecidos aí, pela primeira vez ouvi falar do ministério pós-aborto. Eu me aprofundei em leituras sobre síndrome pós-aborto e me dei conta de que era esse o meu grande problema, o motivo pelo qual eu sofria tanto. Tudo passou a fazer sentido.

Então, alguns anos atrás, fui a um estudo bíblico sobre aborto, onde finalmente entendi e aceitei o perdão e a graça de Deus. Com isso, também superei a desordem alimentar que eu tinha. Ainda fico deprimida às vezes, mas é algo controlado, que não domina mais a minha vida. Comecei agora um ministério pós-aborto através de nosso CCG local e estou ajudando outras mulheres a se curarem desse trauma.

Estou aqui para dizer que o aborto nunca é a solução. Ele só fará com que uma situação já dolorosa e difícil se torne ainda pior. Durante meu procedimento de aborto eu fiquei aterrorizada. Fiquei fazendo perguntas sobre o que estava prestes a acontecer e ninguém parecia querer me dar uma resposta. Olhando para trás, acho que eles queriam correr comigo antes que eu tivesse a oportunidade de mudar minha cabeça.

Por muitos anos depois do que aconteceu, eu sofria crises de ansiedade e até ataques de pânico às vezes, sempre que eu escutava qualquer coisa remotamente parecida com a batida de um coração. Por muito tempo eu não entendi a que exatamente eu estava reagindo. Só muitos anos depois, quando meu marido e eu estávamos esperando nosso primeiro filho, eu passei a relacionar minha ansiedade a certos sons.

Eu vivi meu próprio inferno privado até passar por um estudo bíblico sobre aborto e encontrar a cura. A dor que eu senti por todos aqueles anos literalmente parecia que ia me matar às vezes. Eu estava muito deprimida. Houve momentos em que eu me cortei pensando que isso poderia liberar um pouco da dor que eu sentia dentro de mim. Houve muitos momentos em que eu pensei em dar um fim à minha vida e outras tantas vezes eu cheguei perto de tentar. Eu honestamente pensei que minha desordem alimentar iria eventualmente me matar, e essa se tornou, na verdade, a minha intenção com os comportamentos doentios que eu tinha. Era como se eu merecesse sofrer, sem viver nada que se parecesse com uma vida feliz, por causa do que eu havia feito.

Eu quero que as pessoas ouçam minha história. Por mais difícil que seja, elas precisam ouvir. Algo terrível se passou comigo naquele encontro, naquela noite. Naquela ocasião, eu fui traída pelas pessoas mais próximas a mim. Tudo isso foi extremamente doloroso, mas nem se compara com a dor, a culpa, a vergonha, o remorso ou o ódio a mim mesma que eu fui acumulando, e que Satanás foi acumulando sobre mim, ao longo dos anos que se seguiram ao aborto.

Na época, eu pensei estar justificada pelo que eu tinha feito, porque eu não tinha escolhido estar naquela situação: eu tinha engravidado por causa de um estupro. Eu sabia que havia uma vida dentro de mim, mas achava que não tinha importância, por causa do modo como ela tinha ido parar lá. Eu nunca estive tão errada. Abortar uma criança que é resultado de um estupro afeta a mulher como em qualquer outra circunstância. Trabalhando no CCG, tenho conversado com muitas mulheres que passaram por um aborto ao longo dos anos, e o que eu aprendi é que nós todas partilhamos a mesma dor. Não há absolutamente diferença nenhuma. O resultado final é sempre o mesmo.

Minha esperança é que, ouvindo a minha história, mais vítimas de estupro falem sobre suas experiências também, a fim de darmos um basta à história de que o estupro justifica a legalização do aborto. Eu amo e me compadeço da vida daquela criança, assim como faria com qualquer um dos meus outros filhos. Todos os dias eu penso quantos anos ela teria e com quem ela se pareceria se estivesse viva. Eu não sei se a teria criado por mim mesma ou entregado à adoção, mas é terrivelmente injusto que ela não tenha tido uma chance de viver. Ainda que a vida dela tenha sido abreviada por causa do aborto, isso não impediu que a sua existência tivesse sentido e propósito: contando minha história a você, eu faço memória da minha filha e asseguro que a vida dela não foi em vão.

Referências

  1. Tammy é esposa, mãe de duas crianças, coordenadora de um ministério pró-vida, membro de um “centro para crise na gravidez” e escritora pró-vida no site “Save the 1” (nota da autora).
  2. Os chamados crisis pregnancy centers (CPCs) são clínicas que, nos Estados Unidos, onde o aborto é legalizado, aconselham mulheres com dificuldades na gravidez a não seguirem esse caminho. A confusão de Tammy se explica pela estratégia, adotada por esses centros pró-vida, de se parecerem imparciais — o que, nem é preciso dizer, ajuda a salvar muitas vidas, não obstante as críticas ferozes da imprensa liberal e de grupos pró-aborto à iniciativa (nota do tradutor).

Recomendações

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Crescendo na fé com as encíclicas do Papa Pio XII
Doutrina

Crescendo na fé com
as encíclicas do Papa Pio XII

Crescendo na fé com
as encíclicas do Papa Pio XII

O Papa Pio XII escreveu de tudo; suas encíclicas podem ser lidas com grandes proveito espiritual; e nós com certeza seremos católicos mais sábios depois de as termos lido e meditado.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Fevereiro de 2019
imprimir

Há 60 anos, mais exatamente no dia 9 de outubro de 1958, morria Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, que serviu a Igreja como Papa Pio XII, de 1939 a 1958. Embora haja muita agitação envolvendo Papas mais recentes (principalmente após o Vaticano II), as pessoas raramente se dão ao trabalho de aprender a respeito dos Papas anteriores ao Concílio.

A imagem de Pio XII já vem se desgastando há um bom tempo com alegações absurdas de cumplicidade com os nazistas — acusações que, mesmo havendo sido abundantemente refutadas, são sempre trazidas à tona de novo para encher novos bolsos jornalísticos. A verdadeira grandeza do homem e o enorme legado que ele deixou à Igreja, no entanto, raramente são objeto de consideração.

É surpreendente a facilidade com que os católicos somos capazes de esquecer os grandes documentos de um Pontífice falecido, como se o seguinte ofuscasse ou até mesmo fizesse calar a obra de seu predecessor. Nossa visão do desenvolvimento da doutrina cristã deve ser não hegeliana (na qual um estágio posterior confronta e suplanta um anterior, só para ser ele mesmo subsumido em uma nova e inesperada síntese), mas newmaniana [1] (na qual tudo o que é importante e veio antes é cultivado e carregado ao longo do tempo, a fim de formar a base do pensamento e da ação subsequentes).

O Papa Pio XII é um exemplo disso. Ele era intelectualmente ousado, estava pronto para lidar com qualquer assunto, dialogava com o pensamento moderno e sempre estava à procura de novas formas para explicar as antigas verdades da fé. Mas ele também era fiel à herança de Leão XIII, Pio X, Bento XV e Pio XI, Papas que sempre estavam em suas referências e dos quais ele se servia como um compositor que escreve um tema com variações.

Summi Pontificatus, de 1939, foi a encíclica inaugural de Pio XII. Com a paz precária que vivia a Europa sendo aniquilada pela blitzkrieg nazista, o Papa apresenta a visão católica dos princípios que mantêm os homens e as nações em unidade e implora ao mundo que retorne à sã doutrina da Igreja sobre as realidades políticas. Ainda que Pio XII voltasse a tratar de questões sociais em muitos documentos ao longo dos quase 20 anos subsequentes, ele não mais escreveu uma encíclica social e, até hoje, a própria Summi Pontificatus é raramente classificada assim, por não conformar-se ao padrão da encíclica Rerum Novarum.

Seu esquecimento é muito de se lamentar, no entanto, pois em muitos de seus parágrafos a Summi Pontificatus articula princípios sociais básicos em linguagem particularmente vigorosa. O Papa enfatiza que a tendência moderna ao estatismo (a “onicompetência” do Estado secular) é um erro pernicioso a se combater, e que o conceito cristão de um Estado fundado nos preceitos da lei natural exige que se dê suporte ao desenvolvimento da excelência moral e religiosa dos seus cidadãos.

Duas encíclicas inovadoras emergiram em 1943: Mystici Corporis Christi e Divino Afflante Spiritu.

Sua Santidade, o Papa Pio XII.

Dos documentos papais dedicados à eclesiologia (o estudo da Igreja enquanto tal), a Mystici Corporis Christi é seguramente o mais importante e deveria ser de leitura obrigatória para todos os católicos. Por que a Escritura chama a Igreja de “corpo” e, em particular, de corpo de Cristo? Qual a diferença entre um corpo físico, um corpo moral e um corpo místico? Como a Igreja foi gerada ao longo do tempo, e como Cristo quis “precisar” de nós, seus membros? Em que consiste nossa união com Cristo, e a união dos outros com Ele? Por que nós devemos amar a Igreja, e qual a melhor forma de fazê-lo? É com essas questões que lida essa meditação cheia de beleza e rica de doutrina.

Divino Afflante Spiritu é normalmente exaltada como uma encíclica que provocou uma “revolução copernicana” na exegese católica, a qual teria abandonado o “literalismo ingênuo” de Leão XIII na encíclica Providentissimus Deus. Mas esse é apenas (mais) um exemplo daquela interpretação tendenciosa dos documentos da Igreja que se tornou como que a marca registrada dos apparatchiks universitários. Na realidade, uma leitura imparcial mostra que Pio XII queria harmonizar as legítimas descobertas da ciência exegética moderna com as verdades inegociáveis da fé, tais como a inspiração divina e a inerrância de qualquer declaração autoral na Sagrada Escritura. Nesse sentido, o que ele fez foi menos modificar do que aumentar e refinar o pensamento de Leão XIII, lançando as bases para a Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina Dei Verbum, do Concílio Vaticano II.

Célebres, e com razão, são as encíclicas Mediator Dei, de 1947, e Humani Generis, de 1950. Em ambas Pio XII se opôs firmemente às tendências na Igreja que eram, e ainda são, nocivas à saúde do culto e da teologia católicas (já que as duas são inseparáveis).

A Mediator Dei contém um ensinamento positivo substancial sobre a natureza, o propósito e a simbologia eficaz da sagrada liturgia. Quando eu li pela primeira vez essa encíclica, anos atrás, fiquei assombrado com minha profunda ignorância do que acontecia na igreja todos os domingos. Desde então, cresceu em mim a certeza de que a pior aflição que assalta a Igreja pós-conciliar é o esquecimento do que seja o santo Sacrifício da Missa e, em particular, como ele envolve a mim, aqui e agora. Além disso, essa encíclica nos previne contra as próprias tendências litúrgicas que se tornariam dominantes em nossa época, como o antiquarianismo.

O dogma do 4.º Concílio Ecumênico, o de Calcedônia, que proclamou as naturezas divina e humana em Cristo como sendo distintas sem separação e unidas sem confusão, é o objeto da majestosa encíclica Sempiternus Rex Christus, de 1951, escrita por ocasião do 1.500º aniversário daquele Concílio; as encíclicas Evangelii Praecones, de 1951, e Fidei Donum, de 1957, falam da promoção das missões católicas ao redor do mundo, as quais estavam florescendo durante seu pontificado; a encíclica Sacra Virginitas, de 1954, exalta a virgindade consagrada; a encíclica Musicae Sacrae, de 1955, defende a música sacra tradicional e critica a música religiosa secularizada (o que faz desse documento ainda mais relevante hoje do que era 63 anos atrás); a encíclica Haurietis Aquas, de 1956, trata da devoção ao Sagrado Coração de Jesus com grande intensidade e pureza de fé; a encíclica Miranda Prorsus, de 1957, advertia os católicos de então, hipnotizados que estavam pelo cinema, pela rádio e pela televisão, a tomarem o cuidado de não entregar suas almas à indústria do entretenimento.

Cada uma das encíclicas acima pode ser lida com grande proveito espiritual, estejamos nós sozinhos na tranquilidade de nosso quarto ou reunidos em um grupo de oração e de estudos. E nós com certeza seremos católicos mais sábios depois de as termos lido.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Nove encíclicas que você precisa ler do Papa Pio XI
Doutrina

Nove encíclicas que
você precisa ler do Papa Pio XI

Nove encíclicas que
você precisa ler do Papa Pio XI

Se houve alguma vez um homem que soube qual seria a forma do futuro, esse homem foi Pio XI. Para beber hoje de sua sabedoria, nada é tão importante quanto revisitar o seu magistério como Papa.

Peter KwasniewskiTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Fevereiro de 2019
imprimir

O último dia 10 de fevereiro marca o 80.º aniversário da morte do Papa Pio XI, que reinou no trono de Pedro de 1922 a 1939. Em um mundo de produção textual instantânea e incessante, talvez não deveríamos surpreender-nos com o fato de alguém que começou seu pontificado há quase um século ser esquecido em grande parte.

Mas Pio XI merece ser mais bem conhecido e mais afetuosamente amado por suas encíclicas esplêndidas, cheias de amor, clareza e coragem. De fato, esses documentos são uma fonte preciosa, não só para o tenso período entre guerras durante o qual esse Papa foi chamado a servir à Igreja de Cristo, mas para todas as épocas.

Achille Ratti veio de uma família humilde, teve a carreira tranquila de um acadêmico com doutorado em Teologia e serviu à Igreja como prefeito da Biblioteca Vaticana. Seus êxitos subsequentes como núncio na Polônia e como arcebispo de Milão fizeram dele uma boa opção para o trono de São Pedro após a morte de Bento XV.

Não demorou muito para que a Igreja e o mundo notassem a fibra de que era feito o novo Pontífice. Sua encíclica inaugural, Ubi Arcano Dei Consilio, de 1922, descrevia a situação do mundo após a Primeira Guerra Mundial com uma argúcia espiritual de que nenhum historiador secular era capaz, e propunha, como única solução cogente que se adotasse de maneira séria a doutrina social católica.

Essa insistência em implementar o magistério social da Igreja — um esforço em articular uma alternativa genuinamente católica ao socialismo crescente, ao fascismo efervescente e ao capitalismo selvagem — ocuparia Pio XI em muitas de suas mais de 30 encíclicas. O velho adágio “quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas” parece especialmente pertinente às encíclicas de Pio XI. Hoje, os fiéis enfrentam os mesmos desafios sobre os quais ele escreveu, ainda que a “clave” ou o “andamento” da música tenha mudado.

A próxima encíclica na ordem, e de enorme significado para o magistério da Igreja, foi a amplamente debatida Quadragesimo Anno, promulgada em 1931 por ocasião dos 40 anos da Rerum Novarum de Leão XIII. De todas as encíclicas sociais desde Leão XIII até João Paulo II, nenhuma é tão forte, incisiva e completa quanto esta, com sua análise dos fundos internacionais e das correntes de exploração que dão forma aos mercados econômicos. Já é passada a hora de resgatarmos o patrimônio de nossa fé, retomando as mais ricas fontes da sabedoria social da Igreja, entre as quais merece ser contada indubitavelmente essa encíclica.

O Papa Pio XI.

Característica fundamental do ensinamento de Pio XI foi, também, o reinado de Jesus Cristo sobre todos os homens, sociedades, nações e instituições. Essa visão do primado e do domínio absoluto de Cristo motivava seus pensamentos, desejos, intervenções e conselhos. E é essa visão que permanece altamente relevante para nós. A Igreja Católica só florirá neste período de “pós-modernidade” à medida que conhecer e viver os ensinamentos que o Papa Pio XI tão corajosamente proclamou em sua encíclica Quas Primas, de 1925, uma das mais importantes cartas papais do século XX. Por meio desse documento, Pio XI estabeleceu uma nova festa, em honra a Cristo Rei — uma festa que se tornou familiar aos católicos em todo o mundo, ainda que sua intenção original tenha sido de alguma forma obnubilada pelas mudanças litúrgicas subsequentes.

A clássica encíclica Casti Connubii, de 1930, com sua visão nobre e realista do Matrimônio, é a melhor abordagem jamais promulgada por um Papa ao entendimento católico sobre esse sacramento. Nós corremos o sério risco de interpretar mal o ensinamento seguinte de João Paulo II sobre o casamento se não procurarmos lê-lo à luz da Casti Connubii e em continuidade com ela. Não há melhor encíclica para preparar os noivos católicos ao Matrimônio.

Foi também esse Papa que nos brindou com a Magna Charta da educação cristã da infância e da juventude: a encíclica Divini Illius Magistri, de 1929. Os pais que educam seus filhos em casa notarão com alegria que Pio XI defende essa situação como a norma e o padrão dados por Deus, ao passo que a educação em escolas é a exceção moderna, carregada de perigos para a formação moral e religiosa das crianças.

Isso, evidentemente, não impede o Papa de explicar os princípios que todos os educadores, seja dentro da família, seja numa profissão, devem observar na educação de discípulos cristãos. Essa encíclica tem uma importância particular para os dias de hoje, quando muitos dos males deplorados por Pio XI, como a educação sexual, se tornaram “rotina”. Muito do que ele tem a dizer, também, sobre pedagogia efetiva e a hierarquia dos sujeitos permanece válido e aplicável.

As duas encíclicas de 1937 sobre as aberrações soviética e nazista — Divini Redemptoris e Mit Brennender Sorge — transportam poderosamente o leitor para as eras sangrentas às quais elas foram dirigidas. Apesar de seus aspectos específicos para aquele tempo, há uma filosofia política católica articulada nessas encíclicas que permanece verdadeira para nossa época, bem como um crítica potente de erros que, mesmo tendo sido continuamente refutados pelos fatos, de alguma forma nunca pararam de surgir nas sociedades, seja nas afluentes e ociosas, seja nas pobres e desesperadas.

Na encíclica Ad Catholici Sacerdotii, de 1935, o Papa Pio XI abre o coração a todos os padres do mundo e a todos os que se tornarão sacerdotes. Esse documento é um dos tratados mais apaixonados, eloquentes e equilibrados jamais escritos a respeito da natureza, dos privilégios e das exigências do sacerdócio católico. Por essa razão, sua leitura deveria ser exigida de todos os seminaristas. Pio XI ao mesmo tempo canta elevados elogios a essa magnífica vocação e aponta para suas exigências irrenunciáveis. A impressão que fica, na mente de quem lê a encíclica, é que o estado de vida sacerdotal, assim como o chamado a vivê-la, é um dom sublime e gratuito do Pai das luzes — chamado que mais pessoas deveriam escutar e estado ao qual mais pessoas deveriam aspirar. Eu acredito, na verdade, que a simples leitura dessa encíclica faria aumentar o número de vocações ao sacerdócio.

Eu mencionaria por último a fascinante encíclica sobre o cinema, Vigilanti Cura, de 1936, escrita numa época em que essa forma de entretenimento estava atingindo seu ápice. Se houve alguma vez um homem que soube qual seria a forma do futuro, esse homem foi Achille Ratti. Aqui ele lamenta a iniciação à luxúria promovida por muitos filmes e oferece orientações rigorosas para a censura exercida pelos bispos e associações de fiéis leigos, baseada em princípios precisos, sensíveis à arte e moralmente saudáveis. Por isso, se nós pudermos retornar, de uma forma ou de outra, à sanidade singela e cândida de Vigilanti Cura, nós teremos dado um grande passo rumo à santidade.

O ocaso da vida do Papa Pio XI coincidiu com as trevas espessas que fariam irromper a Segunda Guerra Mundial. Em seu leito de morte, Pio XI ofereceu sua vida pela paz no mundo. Suas encíclicas colocam-nos em contato com um Papa de catolicismo inflexível que, justamente por se preocupar genuinamente com seu povo, não permitia que ele errasse por caminhos falsos, mas, ao contrário, apontava repetidamente para o caminho da vida traçado pela experiência e pela tradição católicas. De nossa parte, faríamos muito bem se bebêssemos de sua sabedoria, não nos deixando desviar por “lobos em pele de cordeiro” e evitando os falsos caminhos que o nosso mundo apresenta como os “expedientes inevitáveis” de uma sociedade pós-moderna.

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Discernir a própria vocação ou “fazer o que der na telha”?
Espiritualidade

Discernir a própria vocação
ou “fazer o que der na telha”?

Discernir a própria vocação
ou “fazer o que der na telha”?

Não se resolve o problema da vocação com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se há um chamado de Deus para mim, eu preciso descobri-lo no silêncio da oração e por “uma vida cristã seriamente vivida”.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Fevereiro de 2019
imprimir

Há alguns anos nós publicamos aqui uma matéria a respeito do chamado “discernimento vocacional perpétuo”. O texto e a expressão não eram de autoria nossa; pegamo-los emprestados de Michael W. Hannon, que escreve no site norte-americano First Things. Por muito tempo republicamos esta tradução em nossas redes sociais, mas, reavaliando melhor as ideias apresentadas pelo autor, decidimos despublicá-la e, agora, até para a edificação dos que nos lêem, queremos apresentar o porquê dessa atitude.

Expliquemos, em primeiro lugar, o porquê de havermos escolhido esse texto para publicação: a sua crítica é importante para levantar da inércia os homens e mulheres de nossa época, que ficam indefinidamente pensando no que querem ou no que vão fazer de sua vida, sem no entanto tomar uma atitude ou assumir responsabilidades de gente adulta. É essa inércia e indecisão — conectadas a uma espécie de “discernimento vocacional perpétuo” — que fazem nossos jovens trocarem de curso universitário como quem troca de roupa e viverem com os próprios pais até os 30 e 40 anos, quando em outros tempos eles já teriam constituído uma família ou entrado em uma congregação religiosa.

A solução apresentada por Michael Hannon, no entanto, ao mesmo tempo que procura condenar esse extremo de indecisão e imobilidade, pode facilmente levar à precipitação e a uma visão distorcida de “vocação”. No período talvez mais forte do texto, ele chega a dizer que “não necessariamente Deus nos diz o que fazer a respeito das grandes decisões da vida, incluindo a escolha entre a vida religiosa e a vida secular (sic). Ele nos abençoa com algumas opções boas e virtuosas e, então, deixa a decisão para nós”.

Alto lá…! Se por “deixar a decisão para nós” se entende que Deus não viola o nosso livre-arbítrio, não nos obrigando a seguir este ou aquele caminho, sim, está certo. Mas se por isso se entende que Ele não nos indica e não nos inspira com sua graça este ou aquele caminho, então, está errado. A palavra “vocação”, afinal de contas, significa “chamado”. Se é um chamado, há alguém que chama. (Se é um chamado à vida religiosa ainda por cima, ou à vida matrimonial, caminhos de santidade, é Alguém, com “a” maiúsculo, que chama.) Se Deus nos chama, de nossa parte o que precisamos fazer é escutar. Daí a necessidade de discernirmos, sim, nossa vocação pessoal, para além da vocação geral que, é óbvio, todos os batizados têm à santidade.

Também nessa questão há uma confusão séria presente no texto de Michael Hannon. À pergunta: “Se um cristão não deve presumir que Deus irá querer revelar-lhe sobrenaturalmente a sua ‘vocação pessoal’, como então ele deve conhecer a vontade de Deus para a sua vida?”, o autor diz o seguinte:

Eu me arriscaria a dizer que, se ele tem frequentado a igreja semanalmente e recebeu pelo menos uma catequese razoável ao longo do caminho, ele provavelmente já conhece a vontade de Deus para a sua vida. Cristo a resume sucintamente nos Dez Mandamentos, e ainda mais sucintamente em Mt 22, 34-40: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento” e “Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Nisso, bem como nos mandamentos da Igreja, consiste toda a instrução de que precisamos para alcançarmos a nossa felicidade e chegarmos à salvação eterna.

Sim, é verdade que a vontade de Deus a respeito da humanidade foi revelada de modo definitivo em Nosso Senhor Jesus Cristo, de modo que — como diz uma célebre passagem de S. João da Cruz, presente inclusive no novo Catecismo da Igreja Católica —, “se [...] alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia numa insensatez, mas ofenderia muito a Deus por não dirigir os olhares unicamente para Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma” (§ 65). Mas isso não significa que não devamos pedir a Deus que nos mostre, na oração (e sem prescindir da humanidade santíssima de Nosso Senhor!), aquilo que Ele tem reservado de modo particular para a nossa vida.

Convém aqui não misturarmos um capítulo importante de Teologia Dogmática com outro capítulo, igualmente necessário, de Teologia Mística. A frase de São João da Cruz, acima, é substancialmente diferente da do monge ucraniano citado por Hannon em seu texto: este, perguntado por um repórter se Deus falava com ele na oração, respondeu: “Ele não fala comigo, porque ele já falou tudo por meio do Evangelho e por meio das obras dos Santos Padres, dos santos”. É óbvio que, se pelo verbo falar se entende o modo como os seres humanos costumam se comunicar, falando com a boca e ouvindo com os ouvidos, Deus não fala com as pessoas a não ser de modo extraordinário.

Mas uma mínima experiência de vida de oração, uma leitura breve de um bom tratado de teologia mística, são suficientes para nos mostrar que Deus fala, sim, conosco, comunicando-nos as suas graças, movendo-nos com o seu Espírito e dizendo, sim, o que devemos ou não fazer, não só em matéria de “vocação pessoal”, mas principalmente nesses casos. Para dispensar longas citações, limitemo-nos a Santo Tomás de Aquino comentando o versículo “Porque os que são movidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rm 8, 14): “Esses são regidos como por certo condutor e diretor, que é o que faz em nós o Espírito, enquanto nos ilumina interiormente sobre o que devemos fazer [illuminat nos interius quid facere debeamus]” (Sup. Rom., c. VIII, l. 3).

— Ah, mas ele era “Santo” Tomás de Aquino… Deus falava interiormente com os santos mesmo… Por que eu deveria supor que Ele falaria comigo? Não seria presunção? — Absolutamente, não. Vejamos o que diz a esse respeito, por exemplo, o padre Antonio Royo Marín (Teología de la Perfección Cristiana, n. 638):

Consideremos com frequência que o Espírito Santo habita dentro de nós mesmos. Se deixássemos de lado todas as coisas da terra e nos recolhêssemos em silêncio e paz em nosso próprio interior, ouviríamos sem dúvida sua doce voz e as insinuações do seu amor. Não se trata de uma graça extraordinária, mas totalmente normal e ordinária em uma vida cristã seriamente vivida.

O problema do “discernimento vocacional perpétuo” não se resolve, portanto, com um ato de desistência e um dar de ombros como quem diz: “Farei o que eu quiser”. Se existe uma vocação de Deus para nós, precisamos descobri-la no silêncio da oração e através de “uma vida cristã seriamente vivida”. Como diz o Papa Bento XVI, em uma citação feita pelo próprio Michael Hannon ao fim de seu texto: “Ao ouvir a Deus e caminhar com Ele eu me torno realmente eu mesmo. O que importa não é a realização dos meus próprios desejos, mas a Sua vontade. Assim a vida se torna autêntica.”

Existe ainda, é claro, toda uma reflexão teológica sobre a docilidade que devemos ter ao Espírito Santo, assim que tomamos conhecimento da vontade de Deus a nosso respeito. Dela, no entanto, esperamos falar oportunamente noutra ocasião. Por ora, simplesmente procuremos nos libertar dessas ideias errôneas a respeito de vocação e vida de oração. Não tratemos a Deus como um “desconhecido” que falou no passado e agora nos abandonou à nossa própria sorte. Não, a oração cristã é uma via de mão dupla, na qual nós falamos com Deus e Ele responde sim às nossas petições, conforme promessa do próprio Cristo: “Pedi e vos será dado. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem procura, acha. A quem bate, será aberto.” (Mt 7, 7-8)

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Aborto e contracepção, dois “frutos da mesma planta”
Pró-Vida

Aborto e contracepção,
dois “frutos da mesma planta”

Aborto e contracepção,
dois “frutos da mesma planta”

“A cultura pró-aborto aparece sobretudo desenvolvida nos mesmos ambientes que recusam o ensinamento da Igreja sobre a contracepção.”

Papa São João Paulo II6 de Fevereiro de 2019
imprimir

Publicamos abaixo trecho da encíclica Evangelium Vitae, de São João Paulo II, na qual ele afirma, com muita razão, que o aborto e a contracepção são “frutos da mesma planta”.

A lição é importante porque, quando as pessoas pensam no problema do aborto, a solução imediata que muitas vezes lhes vem à mente é justamente ensinar aos jovens como “prevenir” a gravidez, colocando nas suas mãos todos os métodos contraceptivos à disposição no mercado.

Mas, se queremos educar as futuras gerações para o respeito ao outro e para a maturidade, será esse mesmo o caminho que devemos trilhar? Ou não precisaríamos, antes, de uma verdadeira mudança de mentalidade, que começasse dentro de nossas próprias famílias?


Para facilitar a difusão do aborto, foram investidas — e continuam a sê-lo — somas enormes, destinadas à criação de fármacos que tornem possível a morte do feto no ventre materno, sem necessidade de recorrer à ajuda do médico. A própria investigação científica, neste âmbito, parece quase exclusivamente preocupada em obter produtos cada vez mais simples e eficazes contra a vida e, ao mesmo tempo, capazes de subtrair o aborto a qualquer forma de controle e responsabilidade social.

Afirma-se frequentemente que a contracepção, tornada segura e acessível a todos, é o remédio mais eficaz contra o aborto. E depois acusa-se a Igreja Católica de, na realidade, favorecer o aborto, porque continua obstinadamente a ensinar a ilicitude moral da contracepção.

Bem vista, porém, a objeção é falaciosa. De fato, pode acontecer que muitos recorram aos contraceptivos com a intenção também de evitar depois a tentação do aborto. Mas os pseudovalores inerentes à “mentalidade contraceptiva” — muito diversa do exercício responsável da paternidade e maternidade, atuada no respeito pela verdade plena do ato conjugal — são tais que tornam ainda mais forte essa tentação, na eventualidade de ser concebida uma vida não desejada.

De fato, a cultura pró-aborto aparece sobretudo desenvolvida nos mesmos ambientes que recusam o ensinamento da Igreja sobre a contracepção. Certo é que a contracepção e o aborto são males especificamente diversos do ponto de vista moral: uma contradiz a verdade integral do ato sexual enquanto expressão própria do amor conjugal, o outro destrói a vida de um ser humano; a primeira opõe-se à virtude da castidade matrimonial, o segundo opõe-se à virtude da justiça e viola diretamente o preceito divino “não matarás”.

Mas, apesar de terem natureza e peso moral diversos, eles surgem, com muita frequência, intimamente relacionados como frutos da mesma planta. É verdade que não faltam casos onde, à contracepção e ao próprio aborto se vem juntar a pressão de diversas dificuldades existenciais que, no entanto, não podem nunca exonerar do esforço de observar plenamente a lei de Deus. Mas, em muitíssimos outros casos, tais práticas afundam as suas raízes numa mentalidade hedonista e desresponsabilizadora da sexualidade, e supõem um conceito egoísta da liberdade que vê na procriação um obstáculo ao desenvolvimento da própria personalidade. A vida que poderia nascer do encontro sexual torna-se assim o inimigo que se há de evitar absolutamente, e o aborto a única solução possível diante de uma contracepção falhada.

Infelizmente, emerge cada vez mais a estreita conexão que existe, a nível de mentalidade, entre as práticas da contracepção e do aborto, como o demonstra, de modo alarmante, a produção de fármacos, dispositivos intrauterinos e preservativos, os quais, distribuídos com a mesma facilidade dos contraceptivos, atuam na prática como abortivos nos primeiros dias de desenvolvimento da vida do novo ser humano.

Recomendações

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.

Ela perdoou o assassino do próprio filho e...
Espiritualidade

Ela perdoou
o assassino do próprio filho e...

Ela perdoou
o assassino do próprio filho e...

...como recompensa, viu a alma dele ser libertada do Purgatório. “Querida mãe, porque mostraste misericórdia para com meu assassino”, disse-lhe em aparição o filho, “Deus mostrou misericórdia para comigo.”

Pe. François Xavier SchouppeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Fevereiro de 2019
imprimir

A caridade cristã, aquela misericórdia que Jesus Cristo tanto recomenda no Evangelho, compreende não apenas a assistência corporal dada aos necessitados, mas todo o bem que fazemos ao nosso próximo trabalhando para sua salvação, suportando-lhe os defeitos e perdoando-lhe as ofensas. Todas essas obras de caridade podem ser oferecidas a Deus pelos fiéis defuntos e possuem grande valor satisfatório.

São Francisco de Sales conta que, na cidade de Pádua, onde ele cumpriu parte de seus estudos, havia um costume detestável: os jovens se divertiam passeando pelas ruas à noite, armados com arcabuzes e gritando a todos os que encontravam: “Quem está aí?As pessoas eram obrigadas a responder, sob pena de levarem um tiro. Com isso, muitos eram feridos e até mesmo assassinados.

Aconteceu uma noite de um estudante, não tendo respondido à pergunta, ser acertado na cabeça por uma bala e ficar mortalmente ferido. O autor deste crime fugiu aterrorizado e procurou refúgio na casa de uma boa viúva que ele conhecia e cujo filho era seu companheiro de turma. Ele confessou a ela aos prantos que havia acabado de matar um desconhecido e implorou que lhe desse um abrigo em sua casa. Tomada de compaixão e não suspeitando ter diante de si ninguém menos que o assassino de seu filho, a senhora escondeu o fugitivo em um lugar seguro, onde os oficiais de justiça não seriam capazes de encontrá-lo.

Nem meia-hora havia transcorrido quando um tumulto se ouviu à sua porta. Um cadáver foi carregado e colocado diante dos olhos da viúva. Infelizmente, era seu filho que havia sido morto, e o assassino dele encontrava-se escondido em sua casa. A pobre mãe irrompeu em gritos de dilacerar o coração e, chegando ao esconderijo do assassino, disse-lhe: “Homem miserável! Que te fez o meu filho para que tu o assassinasses assim, de maneira tão cruel?”

O pobre desgraçado, descobrindo que havia matado seu amigo, começou a chorar em alta voz, arrancar os cabelos e apertar as mãos em sinal de desespero. Prostrando-se no chão, ele implorou o perdão de sua protetora e suplicou-lhe que o entregasse ao magistrado, a fim de expiar o crime tão terrível que havia cometido.

A mãe inconsolável lembrou-se naquele momento que era uma cristã e o exemplo de Jesus Cristo, rezando por seus algozes, deu-lhe impulso para realizar um ato heroico. Ela disse que, desde que ele pedisse perdão a Deus e emendasse de vida, ela o perdoaria e retiraria qualquer acusação contra ele.

Esse perdão foi tão agradável a Deus que Ele quis dar à generosa mãe uma prova impressionante disso, permitindo que a alma de seu filho lhe aparecesse, resplendente de glória e dizendo que ele estava prestes a gozar da bem-aventurança eterna. “Deus mostrou misericórdia para comigo, querida mãe”, disse aquela alma bendita, “porque tu mostraste misericórdia para com meu assassino. Por causa do perdão que tu lhe concedeste, eu fui libertado do Purgatório, onde, não fosse a assistência que tu me prestaste, eu teria de passar por longos anos de intenso sofrimento.”

Recomendações

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.