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“Foi o Alcorão que me converteu ao Cristianismo”
Testemunhos

“Foi o Alcorão que me
converteu ao Cristianismo”

“Foi o Alcorão que me converteu ao Cristianismo”

De sacerdote muçulmano a missionário católico: conheça o incrível testemunho do indiano Mario Joseph, que descobriu Jesus Cristo lendo o Alcorão.

Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Dezembro de 2015
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O indiano de ascendência turca Mario Joseph é o terceiro de uma família muçulmana de seis irmãos. Depois de uma gestação difícil, em que os médicos chegavam a temer por sua vida, Mario foi "dedicado" por sua mãe a Alá e, desde cedo, teve uma vida muito diferente da que seus irmãos levavam. Separado para o serviço religioso, ele cresceu sem ir à escola, até os 8 anos, quando começou a frequentar um colégio islâmico para assumir a função de " mawlana", uma espécie de clérigo do Islã. Antes de completar 18, Mario Joseph já era imã e chefe religioso de uma comunidade muçulmana na Índia.

O que ele não imaginava era que a sua vida virasse totalmente de ponta cabeça, depois que ele procurasse conhecer a fundo um dos profetas mencionados no Alcorão. Seu nome era Jesus Cristo.

Abaixo, excertos de uma entrevista concedida pelo agora missionário cristão Mario Joseph, à apresentadora Cristina Casado, do programa Cambio de agujas, do canal HM Televisión.

"Quem é Jesus?"

"Eu trabalhava em uma mesquita, como 'pároco', e um dia, enquanto eu pregava em minha comunidade que Jesus Cristo não era Deus – pois, para mim, Deus era apenas Alá e, como ele nunca se havia casado, não tinha nenhum filho –, alguém da multidão, talvez até um muçulmano, perguntou-me: 'Quem é Jesus?'. Eu estava pregando que ele não era Deus, mas a sua pergunta era: 'Quem é Jesus?'."

"Para saber quem ele era, li o Corão inteiro mais uma vez – 114 capítulos, 6.666 versículos. Quando li, encontrei o nome do profeta Maomé em 4 lugares, mas o nome de Jesus, eu achei em 25. A partir de então, comecei a ficar um pouco confuso. Por que o Alcorão dava mais preferência a Jesus?"

"Uma segunda coisa era que eu não conseguia ver o nome de nenhuma mulher no Corão, nem o da mãe de Maomé, nem o de sua esposa, nem o de suas filhas, nada. Lá, há um único nome de mulher que encontrei: Maria, mãe de Jesus, e nenhum outro. O capítulo 3 do Corão se chama 'Família de Maria' e o 19, simplesmente 'Maria'. Um capítulo todo dedicado a ela. Então, eu fiquei curioso para saber por que o Corão dizia todas aquelas coisas."

"Na surata III, versos de 45 a 55, há dez coisas que o Corão fala a respeito de Jesus: a primeira é 'Palavra de Deus'; a segunda, 'Espírito de Deus'; e a terceira, 'Jesus Cristo'. O Corão também diz que Jesus falou quando era pequeno, com 2 dias, logo depois de seu nascimento (v. 46); diz que ele criou um pássaro vivo a partir do barro, que ele pegou um pouco de lama, soprou e a lama se tornou um pássaro vivo (o que significava que ele podia dar vida, eu supunha); diz que ele curou um cego de nascença, um leproso etc (v. 49). Curiosamente, o Alcorão diz que Jesus dava a vida aos mortos, subiu aos céus, que ainda está vivo e que vai voltar de novo."

"Quando eu vi todas essas coisas, meu pensamento foi: e o que o Corão diz sobre Maomé? Sabe, de acordo com o Corão, o profeta não é nem Palavra de Deus, nem Espírito de Deus, não falou quando tinha 2 dias, nunca criou nenhum pássaro com barro, nunca curou nenhum doente, nunca ressuscitou nenhum morto – ele mesmo morreu e, segundo o Islã, não está vivo e não vai voltar. Então, há muita diferença entre esses dois profetas."

"Eu não chamava Jesus de Deus. Minha ideia era de que ele era um profeta, porém maior do que Maomé. Então, um dia, eu fui a um professor, que tinha me ensinado por 10 anos no colégio árabe, e perguntei-lhe: 'Professor, como Deus criou o universo?' Ele disse: 'Deus criou o universo por meio da palavra, através da Palavra'. E eu perguntei, então: 'A Palavra é criadora ou criatura?' Se ele dissesse que a Palavra de Deus era criadora, isso significaria que Jesus é criador e, portanto, os muçulmanos deviam fazer-se cristãos. Se ele dissesse que a Palavra é criação, ele cairia em contradição porque, se tudo foi criado pela Palavra, como Deus, então, teria criado a Palavra? Não podendo dizer que a Palavra é criadora nem criatura, ele, furioso, empurrou-me da sua sala e disse: 'A Palavra não é criadora, nem criatura, saia já daqui'."

"Lê a Bíblia"

"Então, eu disse ao meu professor: 'A Palavra não é criadora, nem criatura, e por isso os cristãos dizem que a Palavra é Filho de Deus'. Daí, ele me disse que, se há um filho de Deus, eu deveria mostrar-lhe a esposa de Deus. Sem esposa, impossível ter um filho. Mostrei-lhe um trecho do Corão, que diz que Deus pode ver, não tendo olhos; falar, não tendo língua; e ouvir, não tendo ouvidos. 'Se é assim, eu disse, ele pode ter um filho sem uma esposa.'"

"Nós tivemos uma grande discussão, e sabe o que eu fiz no final? Peguei meu Corão, abracei-o contra o meu peito e disse: 'Alá, dizei-me o que eu devo fazer. O vosso Corão diz que Jesus está vivo ainda e Maomé não está mais. Dizei-me qual deles eu devo aceitar.' Depois da minha oração, abri o Corão – sem perguntar a ninguém, apenas a Alá – e li o capítulo X, versículo 94, que dizia: 'Se tiveres alguma dúvida sobre esse Corão que te dou, lê a Bíblia ou pergunta ao seu povo, aqueles que leem a Bíblia'."

"Então, se você me perguntar quem me fez cristão, eu direi que não foi nenhum sacerdote, nenhuma religiosa, nenhum bispo, nenhum cardeal, nem mesmo o Papa. Foi o Corão que me converteu ao Cristianismo."

"Depois disso, então, eu decidi estudar a Bíblia e comecei a frequentar uma casa de retiros chamada Divine Retreat Center, na Índia. Enquanto eu fazia meus estudos bíblicos, houve muitos pontos da Bíblia que me tocaram. No primeiro dia, o padre leu o Evangelho de S. João, capítulo I, versículo 1 seguintes: 'No princípio, era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus, e a Palavra se fez carne.' O meu Corão dizia que Jesus era a Palavra de Deus, e agora a Bíblia também. Eu comecei a achar os dois livros muito parecidos e fiquei muito feliz em saber que eu precisava do Corão e da Bíblia, de ambos. Eu estava desse jeito: um dia me tornava cristão, no outro, muçulmano..."

"Até que eu ouvi mais uma palavra: João, I, 12, uma palavra que eu acolhi com muita docilidade. Está escrito na Bíblia que, àqueles que aceitam Jesus, Ele dá-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Sabe, em todos os versos do Corão, Alá chama os seres humanos de escravos, e Alá é senhor. Mas o senhor não pode amar o seu escravo, nem o escravo amar o seu senhor, e eu não gosto de ser chamado por alguém de escravo. Mas, quando ouvi aquele versículo, eu imediatamente falei: 'Eu preciso de Jesus, porque eu quero ser um filho de Deus.' Foi então que eu comecei a chamar a Deus de pai porque, até então, não sabia que podia chamá-Lo de pai, assim como fez Jesus, ensinando a oração do Pai-Nosso. Se você me perguntar, eu não consigo expressar a minha alegria toda vez em que chamo a Deus de pai. Sempre que eu penso que o Criador do universo é meu pai, eu sinto uma alegria inexprimível, uma experiência que não consigo explicar. Foi ali que eu decidi aceitar Jesus."

"O meu pai só estava obedecendo ao Corão"

"Nessa época, eu estava fora de casa. Os meus pais pensavam que eu estava em minha mesquita, e o pessoal da mesquita achava que eu estava em minha casa. Quando eles se comunicaram, perceberam que eu não estava em nenhum dos dois lugares. Então, eles procuraram por mim em todo lugar, publicaram um aviso em vários jornais e na televisão, até finalmente me encontrarem em uma casa de retiros católica."

"Quando meu pai chegou lá, foi terrível. Ele me espancou muito, até eu sangrar pelo nariz e ficar inconsciente. Daí, ele me levou para casa. Eu não sei como, porque estava inconsciente, mas de alguma forma ele me levou. Quando voltei a mim, eu estava em uma sala pequena, sem roupas, completamente nu, com os meus braços e pernas acorrentados . Eu não podia nem mesmo falar porque havia pó de pimenta em minha boca, em meu nariz e em meus olhos, e, nonde quer que houvesse uma ferida em minha pele, eles também colocavam alguma pimenta, para me queimar. Eles fizeram tudo isso porque está escrito no Corão, em mais de 18 passagens, para lutar contra os infiéis – e está escrito, em alguns lugares, para matar quem rejeita o Islã. O meu pai só estava obedecendo à lei do Corão."

"Durante todos aqueles dias, eles não me deram nada para comer ou beber. Desidratado, eu tentava lamber um pouco do sangue que escorria, para molhar a minha garganta. Veio então o meu irmão e passou urina em minha boca. (Eles dizem que esse é o castigo que merece quem acredita em Cristo.) Depois de muitos dias sem água nem comida, meu estômago começou a se retorcer e meu corpo começou a ficar fraco. Eu era como um recém-nascido. Cheguei a perder até o meu poder de memória. Não conseguia nem mesmo pensar, por não ter o que comer ou beber. Parecia um cadáver."

"Não sei quantos dias passei naquela sala – acho que mais de 20 –, até que, um dia, meu pai entrou na sala e tirou minha corrente para saber se havia vida no meu corpo. Eu estava desacordado, mas ele apertou tão forte a minha garganta que eu não conseguia mais respirar. Quando abri os meus olhos, então, vi que ele tinha um facão na sua mão. Ele disse: 'Este é o seu último momento. Sem misericórdia. Se você precisa de Alá, eu permito que você viva. Se precisa de Jesus, eu o mato.' Eu conheço bem o meu pai. Ele realmente ia me matar."

"Quando percebi que aquele era o meu último momento de vida, pensei: 'Bom, Jesus morreu, mas Ele voltou; se eu morrer em Jesus, também devo conseguir a minha vida de volta.' Pensei comigo que seria um tipo de alegria morrer em Jesus. Decidi-me, então, e, de repente, uma luz caiu em minha testa, como um luar, e eu senti uma espécie de choque elétrico, uma descarga que atravessava as minhas veias. Eu estava energizado. De algum lugar, a energia passava pelo meu corpo e eu não conseguia me controlar, havia muita energia nos meus ossos."

"Então, eu empurrei as mãos de meu pai para baixo e gritei: 'JESUS!' Quando eu gritei, o meu pai caiu com a faca no chão. Assim que ele caiu, apareceu uma grande ferida em seu peito, que começou a sangrar. Uma espécie de espuma corria da sua boca, e ele gritava. Todos estavam chocados – meus irmãos, minha mãe e minhas irmãs. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Eles pensaram que meu pai já estivesse morto. Pegaram-no, então, e correram com ele para o hospital."

"Ao sair, porém, eles esqueceram de trancar a porta do lado de fora. Eu, mesmo depois de tantos dias sem comer, como um recém-nascido, tinha uma energia que não sou capaz de explicar. Vesti, então, as roupas do meu pai, saí e corri para o ponto de táxi a fim de fugir para Potta. No caminho, o taxista, que era cristão e conhecia a minha história, comprou-me alguns doces e um suco. Ainda hoje, eu tenho contato com o taxista e ele é um bom amigo meu."

"Naquele dia, eu entendi que meu Jesus está vivo, mesmo agora. Quando clamei por Ele em minha necessidade, Ele salvou-me. Isso quer dizer que Ele está presente aqui, mesmo enquanto eu falo com você. Em todo lugar, eu sei que Ele está presente, porque, agora, 18 anos depois da minha conversão, eu jamais pensei que os muçulmanos me permitiriam viver por tanto tempo. Eu cheguei a pregar no Oriente Médio, os árabes vieram, mas nada aconteceu. Isso significa que meu Jesus está vivo e está me protegendo."

"Mesmo depois dessa experiência, já tentaram me matar muitas vezes. Na verdade, os meus pais simularam uma cerimônia de funeral para mim. Sabe o que é isso? Eles fizeram uma estátua minha, enterraram em um túmulo e escreveram a data do meu nascimento e o dia do meu falecimento, ou seja, o dia em que eu me fiz cristão, quando recebi o Batismo. Aquela é a data da minha morte para eles, e eles me enterraram. Então, eu tenho o meu próprio túmulo na minha cidade natal."

"Eu sei disso porque um dos meus amigos cristãos, quando passou por lá, tirou uma foto do túmulo e mandou para mim. Depois de tudo o que aconteceu, eu não tenho nenhum contato com minhas irmãs, que eu amo muito, nem com minha mãe... Eu realmente as amo, mas, sem chances. Humanamente falando, não tenho esperanças, mas Deus pode tocá-los um dia, então eu sigo rezando. Mesmo que eles não aceitem o Cristianismo, eu estou sempre dizendo: 'Jesus, por favor, leve-os ao Céu'. Onde quer que eu esteja, eu preciso deles, então essa é a minha oração sempre."

"Jesus está preparando uma grande mansão para mim"

"Nunca tive medo da morte, nem você deveria ter. Medo da morte é, na verdade, bobagem, porque todos os que nasceram deverão morrer um dia. Cem por cento. Com medo ou não, todos têm que morrer. Essa é a única coisa certa que você sabe na terra. Agora, enquanto falo com você, não tenho certeza se isso será transmitido, porque qualquer coisa pode acontecer. Não sei se jantarei hoje à noite, se voltarei para a Índia, se meus filhos farão bons estudos e conseguirão um diploma, não tenho certeza de nada, de nada. A única coisa certa que existe nesta terra é que eu morrerei. Tudo o mais é incerto."

"Então, nunca tema a morte. Esteja certo de que ela virá um dia. O que você pode fazer é pensar. Se você acredita em Maomé e morre, qual será a sua situação? O profeta Maomé morreu, as pessoas o enterraram e, depois, não sabemos para onde ele foi. Se eu morrer nele, não sei para onde irei. Todos os deuses hindus – existem tantos deuses e deusas em meu país! –, todos viveram, criaram história, morreram, as pessoas os enterraram, e não sabemos para onde eles foram. Então, se eu acredito em todos eles, não sei qual é o meu futuro. Mas Cristo, que morreu, voltou. Por isso, eu tenho a esperança de que, se eu morrer em Cristo, eu voltarei. É melhor, portanto, estar certo da morte e morrer em Cristo."

"Jesus diz bem claramente em João, XIV, 2-3: 'Na casa de meu Pai há muitas moradas. Vou preparar um lugar para vós. E depois que eu tiver ido e preparado um lugar para vós, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também.' Sabe, eu estou muito feliz por saber que Jesus está preparando uma grande mansão para mim no Céu porque, uma vez que terminada, Ele volta para me buscar. Eu acho que é uma mansão muito grande porque, nos últimos anos, os muçulmanos tentaram e não conseguiram me matar, o que significa que a construção ainda está em andamento e, quando tudo estiver pronto, Ele voltará para me buscar. Só então os muçulmanos poderão me matar. Até lá, ninguém pode."

"Então, eu não tenho medo da morte, isso é um fato. A única coisa em que penso é: e depois da morte, o que há? Para ter vida eterna, você precisa de Jesus, e não só isso, você precisa da Igreja Católica."

"Digo isso especificamente porque cada religião diz que a barreira entre Deus e o homem é o pecado. No Islã, para o pecado, há a oferta de animais. No hinduísmo, há a reencarnação. Mas só no Cristianismo o próprio Jesus remove o meu pecado e a minha punição e me faz puro para levar-me até o Céu. Jesus é meu Salvador. Ele é perfeito homem, porque sou homem, meu Salvador deve ser um homem; e Ele é perfeito Deus, porque eu preciso da vida eterna, e só Ele pode dar-me."

"É muito simples dizer-lhe por quê. A consequência do pecado é a morte. Assim como, para remover a escuridão, você deve trazer luz, para remover a morte, você deve trazer vida. Mas a vida de quem? No Antigo Testamento, eles davam a vida de um animal, porque acreditavam que a vida estava no sangue, e sangue animal. Os muçulmanos ainda estão fazendo isso. Mas, para remover minha morte, eu preciso ter vida eterna. Ora, de onde posso ter vida eterna? Só de Deus, e isso é dado por Jesus na Cruz."

"Por isso, quando eu participo de Seu corpo e sangue, eu estou participando de Sua vida, tomando parte de Sua vida. É por isso que Jesus me chama de 'irmão', e Jesus e nós, ambos, chamamos Deus de 'pai'. É uma união com Ele, na qual nós obtemos a vida eterna. Para receber isso sempre, você deve ser católico. Porque Jesus disse claramente: 'Se você come o meu corpo e bebe o meu sangue, nunca morrerá e, mesmo se morrer, eu o ressuscitarei' (cf. Jo, VI). Foi assim que eu decidi tornar-me cristão e, especialmente, católico."

Uma palavra à Europa

"Nós somos muito fracos em educar nossos filhos na fé. Somos muito fracos. E essa fraqueza originou-se em nós quando começamos a falar demais de 'liberdade'. Quando começamos a dar muitas liberdades que não são permitidas por Deus – como, por exemplo, 'casamento' gay, aborto e drogas, que são legalizados em todos os países agora –, ninguém tem o direito de questionar ninguém. Nem os pais têm o direito de questionar os filhos. Essa 'liberdade' é um verdadeiro obstáculo para transmitir a fé."

"Além disso, nessa 'liberdade', os pais são incapazes de mandar as crianças às aulas de Catecismo. No Islã, como se trata de uma religião política – eles tentam regular o mundo com a lei da sharía –, acaba-se obrigando as crianças a irem à escola. Desde a infância, eles são treinados em sua fé para serem fanáticos. Eu digo que devemos respeitar o ser humano, devemos dar-lhe total liberdade, mas, ao mesmo tempo, desde a infância, devemos educar as crianças no catolicismo. Se isso for possível, definitivamente a Europa mudará."

"Dois dias atrás, depois de chegar aqui, eu estava rezando pela Europa e perguntei ao Senhor qual era a mensagem que Ele tinha para esse continente, especialmente para a Espanha. A mensagem que eu recebi vinha do livro do Apocalipse, capítulo II, versículos de 2 a 4. Diz o Senhor: 'Sei o quão duro trabalhaste por mim.' A Espanha fez muitos trabalhos em nome de Jesus. 'E sei o quanto sofreste por mim.' Ela também passou por muitos sofrimentos por causa de Jesus. 'Sei como enfrentaste os falsos profetas.' A Espanha lutou contra falsos profetas por muitos anos. E Deus diz: 'Mas, agora, tenho uma queixa contra ti. Perdeste aquele primeiro amor. Perdeste aquele primeiro amor. Retorna àquele amor.' Então, para a Europa, Deus está dizendo apenas uma coisa: 'Retorna a esse amor', como os seus antepassados, 'retorna'."

"Todos nós rezaremos e trabalharemos por isso. Essa é a minha ambição, é a razão pela qual estou aqui. Não era meu desejo estar aqui, mas Deus mandou-me à Europa. Há muitos profetas que estão vindo para a Europa. E há tantos profetas e santos na Europa que passam despercebidos por nós. Com todos nós rezando e trabalhando juntos, no fim, as mudanças acontecerão."

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Os dez princípios do conservadorismo
Política

Os dez princípios do conservadorismo

Os dez princípios do conservadorismo

O conservadorismo é um estado da mente, um tipo de caráter, uma maneira de olhar para a ordem social e civil. Eis aqui dez princípios gerais desse conjunto de opiniões, formulados pelo filósofo Russell Kirk.

Russell KirkTradução:  Padre Paulo Ricardo12 de Novembro de 2018
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Não sendo nem uma religião nem uma ideologia, o conjunto de opiniões designado como conservadorismo não possui nem uma Escritura Sagrada nem um Das Kapital que lhe forneça um dogma. Na medida em que seja possível determinar o que os conservadores crêem, os primeiros princípios do pensamento conservador provêm daquilo que professaram os principais escritores e homens públicos conservadores ao longo dos últimos dois séculos. Sendo assim, depois de algumas observações introdutórias a respeito deste tema geral, eu irei arrolar dez destes princípios conservadores.

Talvez seja mais apropriado, a maior parte das vezes, usar a palavra “conservador” principalmente como adjetivo. Porque não existe um Modelo Conservador, sendo o conservadorismo, na verdade, a negação da ideologia: trata-se de um estado da mente, de um tipo de caráter, de uma maneira de olhar para a ordem social civil.

A atitude que nós chamamos de conservadorismo é sustentada por um conjunto de sentimentos, mais do que por um sistema de dogmas ideológicos. É quase verdade que um conservador pode ser definido como sendo a pessoa que se acha conservadora. O movimento ou o conjunto de opiniões conservadoras pode comportar uma diversidade considerável de visões a respeito de um número considerável de temas, não havendo nenhuma Lei do Teste (Test Act) [1] ou Trinta e Nove Artigos (Thirty-Nine Articles) [2] do credo conservador.

Em suma, uma pessoa conservadora é simplesmente uma pessoa que considera as coisas permanentes mais satisfatórias do que o “caos e a noite primitiva” [3]. (Mesmo assim, os conservadores sabem, como Burke, que a saudável “mudança é o meio de nossa preservação”.) A continuidade da experiência de um povo, diz o conservador, oferece uma direção muito melhor para a política do que os planos abstratos dos filósofos de botequim. Mas é claro que a convicção conservadora é muito mais do que esta simples atitude genérica.

Não é possível redigir um catálogo completo das convicções conservadoras; no entanto, ofereço aqui, de forma sumária, dez princípios gerais; tudo indica que se possa afirmar com segurança que a maioria dos conservadores subscreveria a maior parte destas máximas. Nas várias edições do meu livro The Conservative Mind (“A Mentalidade Conservadora”, ainda sem tradução para o português), fiz uma lista de alguns cânones do pensamento conservador — a lista foi sendo levemente modificada de uma edição para a outra; em minha antologia The Portable Conservative Reader, ofereço algumas variações sobre este assunto.

Agora, lhes apresento uma resenha dos pontos de vista conservadores que difere um pouco dos cânones que se encontram nestes meus dois livros. Por fim, as diferentes maneiras através das quais as opiniões conservadoras podem se expressar são, em si mesmas, uma prova de que o conservadorismo não é uma ideologia rígida. Os princípios específicos enfatizados pelos conservadores, em um dado período, variam de acordo com as circunstâncias e as necessidades daquela época. Os dez artigos de convicções abaixo refletem as ênfases dos conservadores americanos da atualidade.

Primeiro, um conservador crê que existe uma ordem moral duradoura. Esta ordem é feita para o homem, e o homem é feito para ela: a natureza humana é uma constante e as verdades morais são permanentes.

Esta palavra ordem quer dizer harmonia. Há dois aspectos ou tipos de ordem: a ordem interior da alma e a ordem exterior da comunidade. Vinte e cinco séculos atrás, Platão ensinou esta doutrina, mas hoje em dia até as pessoas instruídas acham difícil de compreendê-la. O problema da ordem tem sido uma das principais preocupações dos conservadores desde que a palavra conservador se tornou um termo político.

O nosso mundo do século XX experimentou as terríveis conseqüências do colapso na crença em uma ordem moral. Assim como as atrocidades e os desastres da Grécia do século V a.C., a ruína das grandes nações, em nosso século, nos mostra o poço dentro do qual caem as sociedades que fazem confusão entre o interesse pessoal, ou engenhosos controles sociais, e as soluções satisfatórias da ordem moral tradicional.

O filósofo político Russell Kirk, autor destas linhas.

Foi dito pelos intelectuais progressistas que os conservadores acreditam que todas as questões sociais, no fundo, são uma questão de moral pessoal. Se entendida corretamente, esta afirmação é bastante verdadeira. Uma sociedade onde homens e mulheres são governados pela crença em uma ordem moral duradoura, por um forte sentido de certo e errado, por convicções pessoais sobre a justiça e a honra, será uma boa sociedade — não importa que mecanismo político se possa usar; enquanto se uma sociedade for composta de homens e mulheres moralmente à deriva, ignorantes das normas, e voltados primariamente para a gratificação de seus apetites, ela será sempre uma má sociedade — não importa o número de seus eleitores e não importa o quanto seja progressista sua constituição formal.

Segundo, o conservador adere ao costume, à convenção e à continuidade. É o costume tradicional que permite que as pessoas vivam juntas pacificamente; os destruidores dos costumes demolem mais do que o que eles conhecem ou desejam. É através da convenção — uma palavra bastante mal empregada em nossos dias — que nós conseguimos evitar as eternas discussões sobre direitos e deveres: o Direito é fundamentalmente um conjunto de convenções. Continuidade é uma forma de atar uma geração com a outra; isto é tão importante para a sociedade com o é para o indivíduo; sem isto a vida seria sem sentido. Revolucionários bem sucedidos conseguem apagar os antigos costumes, ridicularizar as velhas convenções e quebrar a continuidade das instituições sociais — motivo pelo qual, nos últimos tempos, eles têm descoberto a necessidade de estabelecer novos costumes, convenções e continuidade; mas este processo é lento e doloroso; e a nova ordem social que eventualmente emerge pode ser muito inferior à antiga ordem que os radicais derrubaram um seu zelo pelo Paraíso Terrestre.

Os conservadores são defensores do costume, da convenção e da continuidade porque preferem o diabo conhecido ao diabo que não conhecem. Eles crêem que ordem, justiça e liberdade são produtos artificiais de uma longa experiência social, o resultado de séculos de tentativas, reflexão e sacrifício. Por isto, o organismo social é uma espécie de corporação espiritual, comparável à Igreja; pode até ser chamado de comunidade de almas. A sociedade humana não é uma máquina, para ser tratada mecanicamente. A continuidade, a seiva vital de uma sociedade não pode ser interrompida. A necessidade de uma mudança prudente, recordada por Burke, está na mente de um conservador. Mas a mudança necessária, redarguem os conservadores, deve ser gradual e discriminatória, nunca se desvencilhando de uma só vez dos antigos cuidados.

Terceiro, os conservadores acreditam no que se poderia chamar de princípio do preestabelecimento. Os conservadores percebem que as pessoas atuais são anões nos ombros de gigantes, capazes de ver mais longe do que seus ancestrais apenas por causa da grande estatura dos que nos precederam no tempo. Por isto os conservadores com freqüência enfatizam a importância do preestabelecimento — ou seja, as coisas estabelecidas por costume imemorial, de cujo contrário não há memória de homem que se recorde. Há direitos cuja principal ratificação é a própria antiguidade — inclusive, com freqüência, direitos de propriedade. Da mesma forma a nossa moral é, em grande parte, preestabelecida. Os conservadores argumentam que seja improvável que nós modernos façamos alguma grande descoberta em termos de moral, de política ou de bom gosto. É perigoso avaliar cada tema eventual tendo como base o julgamento pessoal e a racionalidade pessoal. O indivíduo é tolo, mas a espécie é sábia, declarou Burke. Na política nós agimos bem se observarmos o precedente, o preestabelecido e até o preconceito, porque a grande e misteriosa incorporação da raça humana adquiriu uma sabedoria prescritiva muito maior do que a mesquinha racionalidade privada de uma pessoa.

Quarto, os conservadores são guiados pelo princípio da prudência. Burke concorda com Platão que entre os estadistas a prudência é a primeira das virtudes. Toda medida política deveria ser medida a partir das prováveis conseqüências de longo prazo, não apenas pela vantagem temporária e pela popularidade. Os progressistas e os radicais, dizem os conservadores, são imprudentes: porque eles se lançam aos seus objetivos sem dar muita importância ao risco de novos abusos, piores do que os males que esperam varrer. Com diz John Randolph de Roanoke, a Providência se move devagar, mas o demônio está sempre com pressa. Sendo a sociedade humana complexa, os remédios não podem ser simples, se desejam ser eficazes. O conservador afirma que só agirá depois de uma reflexão adequada, tendo pesado as conseqüências. Reformas repentinas e incisivas são tão perigosas quanto as cirurgias repentinas e incisivas.

Quinto, os conservadores prestam atenção no princípio da variedade. Eles gostam do crescente emaranhado de instituições sociais e dos modos de vida tradicionais, e isto os diferencia da uniformidade estreita e do igualitarismo entorpecente dos sistemas radicais. Em qualquer civilização, para que seja preservada uma diversidade sadia, devem sobreviver ordens e classes, diferenças em condições materiais e várias formas de desigualdade. As únicas formas verdadeiras de igualdade são a igualdade do Juízo Final e a igualdade diante do tribunal de justiça; todas as outras tentativas de nivelamento irão conduzir, na melhor das hipóteses, à estagnação social. Uma sociedade precisa de liderança honesta e capaz; e se as diferenças naturais e institucionais forem abolidas, algum tirano ou algum bando de oligarcas desprezíveis irá rapidamente criar novas formas de desigualdade.

Hitler e Mussolini, exemplos de ideólogos que “transformaram boa parte do século XX em um inferno terrestre”.

Sexto, os conservadores são refreados pelo princípio da imperfectibilidade. A natureza humana sofre irremediavelmente de certas falhas graves, bem conhecidas pelos conservadores. Sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita poderá jamais ser criada. Por causa da inquietação humana, a humanidade tornar-se-ia rebelde sob qualquer dominação utópica e se desmantelaria, mais uma vez, em violento desencontro — ou então morreria de tédio. Buscar a utopia é terminar num desastre, dizem os conservadores: nós não

somos capazes de coisas perfeitas. Tudo o que podemos esperar razoavelmente é uma sociedade que seja sofrivelmente ordenada, justa e livre, na qual alguns males, desajustes e desprazeres continuarão a se esconder. Dando a devida atenção à prudente reforma, podemos preservar e aperfeiçoar esta ordem sofrível. Mas se os baluartes tradicionais de instituição e moralidade de uma nação forem negligenciados, se dá largas ao impulso anárquico que está no ser humano: “afoga-se o ritual da inocência” [4]. Os ideólogos que prometem a perfeição do homem e da sociedade transformaram boa parte do século XX em um inferno terrestre.

Sétimo, os conservadores estão convencidos que liberdade e propriedade estão intimamente ligadas. Separe a propriedade do domínio privado e Leviatã se tornará o mestre de tudo. Sobre o fundamento da propriedade privada, construíram-se grandes civilizações. Quanto mais se espalhar o domínio da propriedade privada, tanto mais a nação será estável e produtiva. Os conservadores defendem que o nivelamento econômico não é progresso econômico. Aquisição e gasto não são as finalidades principais da existência humana; mas deve-se desejar uma sólida base econômica para a pessoa, a família e a comunidade.

Sir Henry Maine, em sua Village Communities, defende vigorosamente a causa da propriedade privada, como diferente da propriedade pública: “Ninguém pode ao mesmo tempo atacar a propriedade privada e dizer que aprecia a civilização. A história destas duas realidades não pode ser desintrincada”. Pois a instituição da propriedade privada tem sido um instrumento poderoso, ensinando a responsabilidade a homens e mulheres, dando motivos para a integridade, apoiando a cultura geral e elevando a humanidade acima do nível do mero trabalho pesado, proporcionando tempo livre para pensar e liberdade para agir. Ser capaz de guardar o fruto do próprio trabalho; ser capaz de ver o próprio trabalho transformado em algo de duradouro; ser capaz de deixar em herança a sua propriedade para sua posteridade; ser capaz de se erguer da condição natural da oprimente pobreza para a segurança de uma realização estável; ter algo que é realmente propriedade pessoal — estas são vantagens difíceis de refutar. O conservador reconhece que a posse de propriedade estabelece certos deveres do possuidor; ele reconhece com alegria estas obrigações morais e legais.

Oitavo, os conservadores promovem comunidades voluntárias, assim como se opõem ao coletivismo involuntário. Embora os americanos tenham se apegado vigorosamente aos direitos privados e de privacidade, também têm sido um povo conhecido por seu bem sucedido espírito comunitário. Na verdadeira comunidade, as decisões que afetam de forma mais direta as vidas dos cidadãos são tomadas no âmbito local e de forma voluntária. Algumas destas funções são desempenhadas por organismos políticos locais, outras por associações privadas: enquanto permanecem no âmbito local e são caracterizadas pelo comum acordo das pessoas envolvidas, elas constituem comunidades saudáveis. Mas quando as funções, quer por deficiência, quer por usurpação, passam para uma autoridade central, a comunidade se encontra em sério perigo. Se existe algo de benéfico ou prudente em uma democracia moderna, isto se dá através da volição cooperativa. Se, então, em nome de uma democracia abstrata, as funções da comunidade são transferidas para uma coordenação política distante, o governo verdadeiro, através do consentimento dos governados, cede lugar para um processo de padronização hostil à liberdade e à dignidade humanas.

Uma nação não é mais forte do que as numerosas pequenas comunidades pelas quais é composta. Uma administração central, ou um grupo seleto de administradores e servidores públicos, por mais bem intencionado e bem treinado que seja, não pode produzir justiça, prosperidade e tranqüilidade para uma massa de homens e mulheres privada de suas responsabilidades de outrora. Esta experiência já foi feita; e foi desastrosa. É a realização de nossos deveres em comunidade que nos ensina a prudência, a eficiência e a caridade.

Nono, o conservador percebe a necessidade de uma prudente contenção do poder e das paixões humanas. Politicamente falando, poder é a capacidade de se fazer aquilo que se queira, a despeito da aspiração dos próprios companheiros. Um estado em que um indivíduo ou um pequeno grupo é capaz de dominar as aspirações de seus companheiros sem controles é um despotismo, quer seja monárquico, aristocrático ou democrático. Quando cada pessoa pretende ser um poder em si mesmo, então a sociedade se transforma numa anarquia. A anarquia nunca dura muito tempo porque é intolerável para todos e contrária ao fato irrefutável de que algumas pessoas são mais fortes e espertas do que seus próximos. À anarquia sucede-se a tirania ou a oligarquia, nas quais o poder é monopolizado por pouquíssimos.

O conservador se esforça por limitar e balancear o poder político para que não surjam nem a anarquia, nem a tirania. No entanto, em todas as épocas, homens e mulheres foram tentados a derrubar os limites colocados sobre o poder, a favor de um capricho temporário. É uma característica do radical que ele pense o poder como uma força para o bem — desde que o poder caia em suas mãos. Em nome da liberdade, os revolucionários franceses e russos aboliram os limites tradicionais ao poder; mas o poder não pode ser abolido; e ele sempre acha um jeito de terminar nas mãos de alguém. O poder que os revolucionários pensavam ser opressor nas mãos do antigo regime, tornou-se muitas vezes mais tirânico nas mãos dos novos mestres do estado.

Sabendo que a natureza humana é uma mistura do bem e do mal, o conservador não coloca sua confiança na mera benevolência. Restrições constitucionais, freios e contrapesos políticos (checks and balances), correta coerção das leis, a rede tradicional e intricada de contenções sobre a vontade e o apetite — tudo isto o conservador aprova como instrumento de liberdade e de ordem. Um governo justo mantém uma tensão saudável entre as reivindicações da autoridade e as reivindicações da liberdade.

Décimo, o pensador conservador compreende que a estabilidade e a mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade robusta. O conservador não se opõe ao aprimoramento da sociedade, embora ele tenha suas dúvidas sobre a existência de qualquer força parecida com um místico Progresso, com P maiúsculo, em ação no mundo. Quando uma sociedade progride em alguns aspectos, geralmente ela está decaindo em outros. O conservador sabe que qualquer sociedade sadia é influenciada por duas forças, que Samuel Taylor Coleridge chamou de Conservação e Progressão (Permanence and Progression). A Conservação de uma sociedade é formada pelos interesses e convicções duradouros que nos dão estabilidade e continuidade; sem esta Conservação as fontes do grande abismo se dissolvem, a sociedade resvala para a anarquia. A Progressão de uma sociedade é aquele espírito e conjunto de talentos que nos instiga a realizar uma prudente reforma e aperfeiçoamento; sem esta Progressão, um povo fica estagnado.

Por isto o conservador inteligente se esforça por reconciliar as reivindicações da Conservação e as reivindicações da Progressão. Ele pensa que o progressista e o radical, cegos aos justos reclamos da Conservação, colocariam em perigo a herança que nos foi legada, num esforço de nos apressar na direção de um duvidoso Paraíso Terrestre. O conservador, em suma, é a favor de um razoável e moderado progresso; ele se opõe ao culto do Progresso, cujos devotos crêem que tudo o que é novo é necessariamente superior a tudo o que é velho.

O conservador raciocina que a mudança é essencial para um corpo social da mesma forma que o é para o corpo humano. Um corpo que deixou de se renovar, começou a morrer. Mas se este corpo deve ser vigoroso, a mudança deve acontecer de uma forma harmoniosa, adequando-se à forma e à natureza do corpo; do contrário a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer que devora o seu hospedeiro. O conservador cuida para que numa sociedade nada nunca seja completamente velho e que nada nunca seja completamente novo. Esta é a forma de conservar uma nação, da mesma forma que é o meio de conservar um organismo vivo. Quanta mudança seja necessária em uma sociedade, e que tipo de mudança, depende das circunstâncias de uma época e de uma nação.

Assim, este são os dez princípios que tiveram grande destaque durante os dois séculos do pensamento conservador moderno. Outros princípios de igual importância poderiam ter sido discutidos aqui: a compreensão conservadora de justiça, por exemplo, ou a visão conservadora de educação. Mas estes temas, com o tempo que passa, eu deverei deixar para a sua investigação pessoal.

Eric Voegelin costumava dizer que a grande linha de demarcação na política moderna não é a divisão entre progressistas de um lado e totalitários do outro. Não, de um lado da linha estão todos os homens e mulheres que imaginam que a ordem temporal é a única ordem e que as necessidades materiais são as únicas necessidades e que eles podem fazer o que quiserem do patrimônio da humanidade. No outro lado da linha estão todas as pessoas que reconhecem uma ordem moral duradoura no universo, uma natureza humana constante e deveres transcendentes para com a ordem espiritual e a ordem temporal.

Referências

  • Adaptado de “A Política da Prudência”. Tradução do original inglês feita pelo Pe. Paulo Ricardo e publicada originalmente em 18 de setembro de 2006.

Notas

  1. Test Act: lei inglesa de 1673 que exigia dos titulares de cargos civis e militares professarem a fé da Igreja Anglicana através de uma fórmula de juramento (N. do T.).
  2. Declaração oficial da doutrina da Igreja Anglicana (N. do T.).
  3. A frase Chaos and Old Night provém do poema épico “Paraíso Perdido” (Paradise Lost), de John Milton (I, 544). Milton usa esta frase para se referir à “matéria” a partir da qual Deus ordenou e criou o mundo (N. do T.).
  4. William Buttler Yeats, The Second Coming (N. do T.).

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Você certamente não faria esta pergunta a Santo Tomás de Aquino...
Fé e Razão

Você certamente
não faria esta pergunta
a Santo Tomás de Aquino...

Você certamente não faria esta pergunta a Santo Tomás de Aquino...

… mas alguém fez. “O que é mais forte?”, perguntaram-lhe. “A verdade, o vinho, o rei ou a mulher?” Veja a resposta magistral do maior dos Doutores ao que parece a mais tola das perguntas.

Santo Tomás de AquinoTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Novembro de 2018
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Certa feita, enquanto participava das costumeiras disputas acadêmicas na Universidade de Paris [1], Santo Tomás de Aquino foi confrontado com a seguinte questão, que mais parece uma brincadeira de aluno do que um problema filosófico: O que é mais forte? A verdade, vinho, o rei ou a mulher?

O que mais surpreende, porém, não é tanto a pergunta quanto a seriedade com que lhe respondeu o Doutor Angélico. Para a nossa sorte, a resposta do Aquinate, ou ao menos um resumo do que ele disse, nos foi preservada por escrito e é um excelente testemunho de que, além de bem humorado, Tomás de Aquino sabia dar às perguntas mais “bobas” as respostas mais brilhantes e encontrar em meio ao que para nós pode parecer “tolice” as verdades mais importantes.

Vejamos abaixo como o Doutor Angélico resolve esse “intrincado” problema [2]!


Se a verdade é mais forte do que o vinho, o rei e a mulher

1. Quanto à primeira questão, perguntou-se se a verdade é mais forte do que o vinho, o rei e a mulher.

E parece que seja o vinho, pois é o que mais afeta o homem. Mas o mesmo se aplica ao rei, que obriga o homem ao que é mais difícil, a saber: pôr em risco a própria vida. E o mesmo vale ainda com respeito à mulher, a quem estão sujeitos inclusive os reis.

2. Mas, em sentido contrário, lê-se em III Esdras, 4, 35 [3]: “A verdade é mais forte”.

3. Resposta. Deve-se dizer que esta é a questão que foi proposta a alguns jovens, tal como narra o livro de Esdras.

Em primeiro lugar, deve-se saber que, se consideramos essas quatro coisas em si mesmas (ou seja, o vinho, o rei, a mulher e a verdade), não podemos compará-las, uma vez que não pertencem ao mesmo gênero. No entanto, se as consideramos por referência a algum efeito comum, elas convêm em um mesmo aspecto e podem assim ser comparadas. Ora, o efeito em que elas se assemelham é a imutação do coração humano. É preciso saber, por conseguinte, qual delas é a mais capaz de imutar o coração do homem.

Pois bem, deve-se ter em mente que o homem está sujeito a alterações quanto ao corpo e quanto à sua natureza animal, que é sensível e inteligível. A parte inteligível, por sua vez, é prática e especulativa.

a) Pois bem, dentre as coisas que estão naturalmente ordenadas a imutar a disposição do corpo, o vinho é a principal, já que embriaga e deixa a voz entorpecida.

b) Mas, dentre as coisas que imutam o apetite sensitivo, a principal é o prazer, sobretudo o venéreo; e, nesse sentido, a mulher é mais forte.

c) Do mesmo modo, no que se refere à ação e às coisas humanas, o rei é quem mais poder detém.

d) Na ordem, porém, das coisas especulativas, a verdade é a mais excelente e poderosa.

Ora, as forças corporais estão subordinadas às animais, e estas, por sua vez, às intelectuais. As virtudes intelectuais de ordem prática, no entanto, subordinam-se às puramente especulativas.

Por conseguinte, a verdade, considerada em si mesma, é mais digna, excelente e forte.

Notas

  1. Trata-se do Quodlibet XII, q. 14 a. 1, traduzido pela nossa equipe com base na versão digital do Corpus Thomisticum, disponível aqui.
  2. Duas vezes ao ano, pelo Natal e pela Páscoa, celebravam-se nas universidades medievais do século XIII as chamadas disputas quodlibetais (quæstiones de quolibet), um período de discussões acadêmicas, feitas em público e não sem certa solenidade, sobre temas os mais variados, propostos livrementes pelos professores e alunos assistentes. Era uma forma ao mesmo tempo livre e rigorosa, amoldada ao método da demonstração silogística, de exercitar a inteligência e promover o debate no meio universitário. A um mestre regente se propunha algum problema, fosse de filosofia ou teologia, que ele devia solucionar em seguida do modo mais claro possível. A solução do problema era depois transcrita e arquivada. Foi assim que nos chegaram as quæstiones protagonizadas pelo Angélico.
  3. Trata-se de um livro apócrifo do Antigo Testamento.

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Do rei Davi aos dias atuais, uma breve história do canto gregoriano
Liturgia

Do rei Davi aos dias atuais,
uma breve história do canto gregoriano

Do rei Davi aos dias atuais, uma breve história do canto gregoriano

Justamente por sua história, “a Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano”. Mas como se formou esse patrimônio de nossa fé? Por que seria importante resgatá-lo ainda hoje?

Peter Kwasniewski,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Novembro de 2018
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Alguém poderia pensar que não há muito o que dizer sobre algo que se chama “cantochão”. Afinal de contas, a palavra mesma já indica que se trata de algo plano e que é um canto.

Na verdade, o único sentido em que se pode dizer que o canto gregoriano é “plano” é que suas belas melodias foram compostas para cantar-se sem acompanhamento e harmonização, como convém à antiga cultura monástica da qual elas nasceram. Isto a que chamamos canto gregoriano é uma das formas de arte mais ricas e sutis na música ocidental — na música de qualquer cultura, melhor dizendo.

A tradição de cantar a Escritura, uma prática conhecida como cantilena, começou pelo menos mil anos antes do nascimento de Cristo. Vários livros do Antigo Testamento, especialmente os Salmos e as Crônicas, atestam a função central que desempenhava a música no culto do Templo. Algumas melodias gregorianas ainda em uso são notavelmente próximas das melodias cantadas nas sinagogas hebraicas, como o tonus peregrinus usado para o Salmo 113, In exitu Israel, o antigo tom do Evangelho e o tom do Prefácio.

Como o saltério de Davi foi composto justamente com o propósito de ser usado no culto divino, e sendo o livro messiânico por excelência, vemos Pedro, Paulo e os Padres apostólicos citando-o abundantemente em sua pregação. Os primeiros cristãos escolhiam espontaneamente o saltério como seu “livro de oração”. A liturgia cristã como um todo, então, emergiu desta combinação de saltério e sacrifício. O primeiro é o “incenso verbal” de nossas orações e louvores, o culto prestado por nossa inteligência; o segundo, a morte e destruição cruenta de um animal, é o oferecimento total de nosso ser a Deus. Na Missa, esses dois elementos se combinam de um modo maravilhoso para formar o sacrifício racional consistente na oferta perfeita de Jesus Cristo sobre o altar, que une nossas orações e louvores aos dEle, tornando-os dignos da Santíssima Trindade.

São Gregório Magno, pintado por Francisco de Zurbarán.

O canto desenvolveu-se prodigiosamente ao longo do primeiro milênio de cristianismo. Pela época em que temos como Papa a São Gregório Magno, que reinou de 590 a 604, um corpo de cantos já existia para o sacrifício da Missa e a rotina diária de oração (o Ofício Divino, também conhecido como Liturgia das Horas). Ao dar forma final ao Cânon Romano, que é o traço mais característico do rito latino, São Gregório organizou esse repertório musical e, em consequência, o canto passou desde então a ser honrado com o seu nome: gregoriano.

Com o passar do tempo, não só os salmos e suas antífonas receberam forma musical, mas também as leituras da Escritura, as orações, as intercessões, as ladainhas, as instruções (como o Flectamus genua, da Sexta-feira Santa), tudo o que devesse, enfim, ser proclamado de alta voz. O conteúdo do repertório musical gregoriano remonta a antes do ano 800; seu acabamento deu-se por volta do ano 1200.

Como o canto era a música, feita “sob medida”, que havia crescido com a liturgia da Igreja, para onde esta viajasse, aquela viajaria junto. Ninguém sonhava em separar os textos da liturgia de sua música; eles eram como um composto de corpo e alma, ou um casal unido em santo e indissolúvel matrimônio. Seria possível comparar o canto às vestimentas usadas pelo ministro da liturgia. Uma vez desenvolvido esse vestuário cerimonial, ninguém em sã consciência pensaria em se livrar da casula, da estola, da alva, do amito e do manípulo. Esses são os trajes que os ministros do Rei têm o privilégio de usar! Assim também, os cantos são os trajes usados pelos textos litúrgicos.

O Concílio de Trento, no século XVI, confirmou o lugar do canto na liturgia e desencorajou o uso do canto polifônico excessivamente complexo, especialmente quando baseado em músicas seculares.

Apesar disso, ao longo do tempo as velhas melodias do canto foram se abreviando ou corrompendo, obrigadas que eram a se conformar a uma batida específica, considerada a apropriada para cada época. Por volta do início do século XIX, o canto gregoriano encontrava-se em um estado de séria ruína e negligência.

Mas a restauração de um tão valioso tesouro da Igreja — e de uma parte tão essencial de sua solene liturgia — devia iniciar-se mais cedo ou mais tarde. E ela veio por meio dos esforços conjuntos de um monge e um Papa. Dom Próspero Guéranger (1805-1875) fundou a Abadia de Solesmes em 1833 e transformou-a em centro de referência da observância monástica, com o Ofício Divino e a Missa cantados integralmente. Os monges de Solesmes debruçaram-se sobre manuscritos antigos em seu trabalho de restaurar as melodias e os ritmos característicos do canto gregoriano.

Pouco depois de sua posse em 1903, o Papa São Pio X encontrou-se em Roma com monges de Solesmes e confiou-lhes a missão de publicar todos os livros litúrgicos de canto, com melodias e ritmos corrigidos. Os monges obedeceram, e Pio X deu ao trabalho deles seu selo de aprovação. Dessa instrução papal nasceu uma longa lista de publicações influentes de (ou com o selo de) Solesmes, muitas das quais ainda se encontram em uso nos dias de hoje, como o Liber Usualis, o Graduale Romanum e o Antiphonale Monasticum.

De Solesmes e Pio X à Sacrosanctum Concilium, a Constituição do Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia, há uma linha lógica e contínua. Eis o que o último concílio ecumênico tinha a dizer sobre o assunto:

A ação litúrgica reveste-se de maior nobreza quando é celebrada de modo solene com canto… A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na ação litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar. Não se excluem todos os outros gêneros de música sacra, mormente a polifonia, na celebração dos Ofícios divinos, desde que estejam em harmonia com o espírito da ação litúrgica (n. 113.116).

O movimento litúrgico original, de onde vieram essas inspiradoras palavras, era dedicado a restaurar e recuperar as mais belas e ricas tradições da oração católica. Infelizmente, uma combinação explosiva de falso “antiquarismo” e modernismo cheio de novidades lançou um balde de água fria sobre esses esforços, deixando-nos uma zona de guerra de visões conflitantes na qual ainda nos achamos afundados — e na qual o canto gregoriano chegou quase à extinção. A boa notícia é que a maré está começando a mudar aqui e ali. O canto gregoriano não morrerá jamais porque se trata da música litúrgica perfeita.

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Maçonaria, “uma pertença incompatível com a fé católica”
Doutrina

Maçonaria, “uma pertença
incompatível com a fé católica”

Maçonaria, “uma pertença incompatível com a fé católica”

Pode até ser que a maçonaria, como alegam alguns, tenha deixado de conspirar contra a Igreja. Mas suas “ideias filosóficas e concepções morais” continuam sendo frontalmente “opostas à doutrina católica”. Saiba o porquê.

Congregação para a Doutrina da Fé,  Santa Sé8 de Novembro de 2018
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Em 26 de novembro de 1983 a Congregação para a Doutrina da Fé publicava uma Declaração sobre as associações maçônicas (cf. AAS 76, 1984, 300). A pouco mais de um ano de distância da sua publicação [1] pode ser útil explicar brevemente o significado deste documento.

Desde que a Igreja começou a pronunciar-se a respeito da maçonaria o seu juízo negativo foi inspirado por multíplices razões, práticas e doutrinais. Ela não julgou a maçonaria responsável apenas de atividades subversivas a seu respeito, mas desde os primeiros documentos pontifícios sobre o assunto e em particular na encíclica Humanum Genus de Leão XIII (20 de abril de 1884), o Magistério da Igreja denunciou na maçonaria ideias filosóficas e concepções morais opostas à doutrina católica. Para Leão XIII elas reportavam-se essencialmente a um naturalismo racionalista, inspirador dos seus planos e das suas atividades contra a Igreja [2]. Na sua Carta ao Povo Italiano “Custodi” (8 de dezembro de 1892) ele escrevia: “Recordemo-nos que o cristianismo e a maçonaria são essencialmente inconciliáveis, de modo que inscrever-se numa significa separar-se da outra”.

Não se podia, portanto, deixar de tomar em consideração as posições da maçonaria sob o ponto de vista doutrinal, quando nos anos 1970-1980 a Sagrada Congregação estava em correspondência com algumas Conferências Episcopais particularmente interessadas neste problema, em consequência do diálogo empreendido por parte de personalidades católicas com representantes de algumas lojas que se declaravam não hostis ou até favoráveis à Igreja.

Agora o estudo mais aprofundado levou a S.C.D.F. a manter-se na convicção da inconciliabilidade de fundo entre os princípios da maçonaria e os da fé cristã.

Prescindindo portanto da consideração da atitude prática das diversas lojas, de hostilidade ou não para com a Igreja, a S.C.D.F., com a sua declaração de 26 de novembro de 1983, pretendeu colocar-se no nível mais profundo e por outro lado essencial do problema: isto é, sobre o plano da inconciliabilidade dos princípios, o que significa no plano da fé e das suas exigências morais.

A partir deste ponto de vista doutrinal, em continuidade, de resto, com a posição tradicional da Igreja, como testemunham os documentos acima citados de Leão XIII, derivam depois as necessárias consequências práticas, que são válidas para todos aqueles fiéis que estivessem eventualmente inscritos na maçonaria.

A propósito da afirmação sobre a inconciliabilidade dos princípios, todavia, vai-se agora objetando de alguns lados que o essencial da maçonaria seria precisamente o fato de não impor algum “princípio”, no sentido de uma posição filosófica ou religiosa que seja vinculante para todos os seus aderentes, mas antes reunir conjuntamente, para além dos confins das diversas religiões e visões do mundo, homens de boa vontade com base em valores humanísticos compreensíveis e aceitáveis por todos.

A maçonaria constituiria um elemento de coesão para todos aqueles que crêem no Arquiteto do Universo e se sentem comprometidos em relação àquelas orientações morais fundamentais que estão definidas por exemplo no Decálogo; ela não afastaria ninguém da própria religião, mas pelo contrário constituiria um incentivo a aderir ainda mais a ela.

Nesta sede não podem ser discutidos os multíplices problemas históricos e filosóficos que se escondem em tais afirmações. Que também a Igreja Católica estimule no sentido de uma colaboração de todos os homens de boa vontade, não é decerto necessário salientá-lo depois do Concílio Vaticano II. O associar-se na maçonaria vai todavia além, decididamente, desta legítima colaboração e tem um significado muito mais saliente e determinante do que este.

Antes de tudo deve recordar-se que a comunidade dos “pedreiros-livres” e as suas obrigações morais se apresentam como um sistema progressivo de símbolos de caráter extremamente absorvente. A rígida disciplina do arcano que nela predomina reforça ulteriormente o peso da interação de sinais e de ideias. Este clima de segredo comporta, além de tudo, para os inscritos o risco de se tornarem instrumento de estratégias que lhes são desconhecidas.

Embora se afirme que o relativismo não é assumido como dogma, todavia propõe-se de fato uma concepção simbólica relativística, e portanto o valor “relativizante” de uma tal comunidade moral-ritual, longe de poder ser eliminado, resulta pelo contrário determinante.

Neste contexto, as diversas comunidades religiosas, a que pertence cada um dos membros das Lojas, não podem ser consideradas senão como simples institucionalizações de uma verdade mais ampla e incompreensível. O valor destas instituições parece, portanto, inevitavelmente relativo, em relação a esta verdade mais ampla, a qual se manifesta antes na comunidade da boa vontade, isto é na fraternidade maçônica.

Para um cristão católico, todavia, não é possível viver a sua relação com Deus numa dúplice modalidade, isto é, dividindo-a numa forma humanitária, superconfessional, e numa forma interior, cristã. Não pode cultivar relações de duas espécies com Deus, nem exprimir a sua relação com o Criador através de formas simbólicas de duas espécies. Isto seria algo de completamente diverso daquela colaboração, que para ele é óbvia, com todos aqueles que estão empenhados na prática do bem, embora a partir de princípios diversos. Por outro lado, um cristão católico não pode participar ao mesmo tempo na plena comunhão da fraternidade cristã e, por outro lado, olhar para o seu irmão cristão, a partir da perspectiva maçônica, como para um “profano”.

Mesmo quando, como já se disse, não houvesse uma obrigação explícita de professar o relativismo como doutrina, todavia a força “relativizante” de uma tal fraternidade, pela sua mesma lógica intrínseca, tem em si a capacidade de transformar a estrutura do ato de fé de modo tão radical que não é aceitável por parte de um cristão, “ao qual é cara a sua fé” (Leão XIII).

Esta subversão na estrutura fundamental do ato de fé, realiza-se, além disso, geralmente, de modo suave e sem ser advertida: a sólida adesão à verdade de Deus, revelada na Igreja, torna-se simples pertença de uma instituição, considerada como uma forma expressiva particular ao lado de outras formas expressivas, mais ou menos igualmente possíveis e válidas, do orientar-se do homem para o eterno.

A tentação de ir nesta direção é hoje ainda mais forte, enquanto corresponde plenamente a certas convicções prevalecentes na mentalidade contemporânea. A opinião de que a verdade não pode ser conhecida é característica típica da nossa época e, ao mesmo tempo, elemento essencial da sua crise geral.

Precisamente considerando todos estes elementos a Declaração da S. Congregação afirma que a inscrição nas associações maçônicas “está proibida pela Igreja” e os fiéis que nelas se inscreverem “estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão”.

Com esta última expressão, a S. Congregação indica aos fiéis que tal inscrição constitui objetivamente um pecado grave e, precisando que os aderentes a uma associação maçônica não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão, ela quer iluminar a consciência dos fiéis sobre uma grave consequência que lhes advém da sua adesão a uma loja maçônica.

A S. Congregação declara por fim que “não compete às autoridades eclesiásticas locais pronunciarem-se sobre a natureza das associações maçônicas, com um juízo que implique derrogação de quanto acima estabelecido” [3]. A este propósito o texto faz também referência à Declaração de 17 de fevereiro de 1981, a qual já reservava à Sé Apostólica todo o pronunciamento sobre a natureza destas associações que tivesse implicado derrogações da lei canônica então em vigor (cân. 2335).

Do mesmo modo, o novo documento emitido pela S.C.D.F. em novembro de 1983 exprime idênticas intenções de reserva relativamente a pronunciamentos que divergissem do juízo aqui formulado sobre a inconciliabilidade dos princípios da maçonaria com a fé católica, sobre a gravidade do ato de se inscrever numa loja e sobre a consequência que daí deriva para se aproximar da Sagrada Comunhão. Esta disposição indica que, apesar da diversidade que pode subsistir entre as obediências maçônicas, em particular na sua atitude declarada para com a Igreja, a Sé Apostólica nota-lhes alguns princípios comuns, que requerem uma mesma avaliação por parte de todas as autoridades eclesiásticas.

Ao fazer esta Declaração, a S.C.D.F. não entendeu desconhecer os esforços realizados por aqueles que, com a devida autorização deste Dicastério, procuraram estabelecer um diálogo com representantes da maçonaria. Mas, desde o momento que havia a possibilidade de se difundir entre os fiéis a errada opinião de que a adesão a uma loja maçônica já era lícita, ela considerou ser seu dever dar-lhes a conhecer o pensamento autêntico da Igreja a este propósito e pô-los em guarda quanto a uma pertença incompatível com a fé católica.

Só Jesus Cristo é, de fato, o Mestre da Verdade e só nEle os cristãos podem encontrar a luz e a força para viver segundo o desígnio de Deus, trabalhando para o verdadeiro bem dos seus irmãos.

Notas

  1. Neste ano de 2018, a declaração da Doutrina da Fé completa 35 anos (Nota da Equipe CNP).
  2. Da encíclica Humanum Genus, destaque-se o seguinte: “A doutrina fundamental dos naturalistas, que eles tornam suficientemente conhecida em seu próprio nome, é que a natureza humana e a razão humana deveriam em todas as coisas ser senhora e guia. Eles ligam muito pouco para os deveres para com Deus, ou os pervertem por opiniões errôneas e vagas. Pois eles negam que qualquer coisa tenha sido ensinada por Deus; eles não permitem qualquer dogma de religião ou verdade que não possa ser entendida pela inteligência humana, nem qualquer mestre que deva ser acreditado por causa de sua autoridade. E desde que é o dever especial e exclusivo da Igreja Católica estabelecer completamente em palavras as verdades divinamente recebidas, ensinar, além de outros auxílios divinos à salvação, a autoridade de seu ofício, e defender a mesma com perfeita pureza, é contra a Igreja que o ódio e o ataque dos inimigos é principalmente dirigido.” Ou seja, a luta dos maçons contra a Igreja não é uma conspiração destituída de razão; se a inimizade entre as duas instituições aparentemente cessou, as razões da incompatibilidade entre as duas não (Nota da Equipe CNP).
  3. Em outras palavras, bispos e padres não têm o poder de “desautorizar” a determinação que vem de Roma (Nota da Equipe CNP).

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