O que você acharia de ter como amigo um cão grande, cinza, parecido com um lobo desgrenhado, que parece surgir do nada quando você está em apuros e desaparece depois de os malvados fugirem? Ele seria o melhor amigo de um garoto. João Bosco tinha um cão assim, ou o era o cachorro que o tinha. Difícil dizer qual das duas alternativas é a correta.

Ora, há dois tipos de pessoa que jamais deveriam ensinar garotos: pessoas que não gostam deles ou não sabem o que é um garoto, e pessoas que não gostam de homens ou não sabem o que eles são. São João Bosco foi o maior professor de garotos já visto pelo mundo moderno, e isso se deve parcialmente ao fato de ele ter permanecido um garoto por toda a vida.

Quando João Bosco era apenas uma criança, sonhou que diversos tipos de animais ferozes o perseguiam; mas, enquanto fugia, uma voz feminina lhe disse para pastoreá-los. Depois disso, tornaram-se um rebanho de dóceis ovelhas. João levou a sério o sonho e, quando cresceu e se tornou pároco em Turim, viu diversos animais selvagens e ferozes vagando pelas ruas. Eram garotos sem-teto daquela grande cidade, escurecida pela fuligem das fábricas. Eles estavam destinados a crescer e se tornar piores do que animais. O coração de João Bosco foi em busca deles

O que você faria se quisesse levar Deus até meninos brutos moradores de rua? Digamos logo que, independentemente do que você fizesse, seria útil ter um físico apropriado para isso. João Bosco tinha. Ele cresceu realizando um trabalho pesado no terreno de sua mãe, do qual ela e seu irmão tiveram de cuidar depois da morte do pai, arando, plantando, colhendo, cuidando das vacas, cavalos e porcos, além da vinha. Mas João tinha um hobby que não tinha a ver com pás e forquilhas. Ele costumava montar um pequeno palco diante dos amigos e repetir o que o sacerdote dissera no domingo, mas acrescentava coisas que o padre não havia dito. João andava apoiado nas próprias mãos e fazia acrobacias. Fazia truques de mágica, tirando moedas da orelha das pessoas. Quando garoto, fazia as coisas que viria a fazer para outros garotos. Ele já era um atleta de Deus

Muitos sacerdotes de Turim não gostavam de João Bosco porque só se preocupavam com roupas limpas e em tomar chá, enquanto João andava na corda bamba diante de vinte garotos, chamando a atenção deles com sua força e agilidade e ganhando seus corações com seu bom humor e caridade.

Então, tentaram impedi-lo de agir. Não é uma novidade no mundo. Deus faria João Bosco ser bem-sucedido, apesar da murmuração e da inveja de outros membros do clero. Isso também não é nenhuma novidade.

Quem foi o primeiro garoto que o Padre João Bosco — Dom Bosco, como o chamavam — salvou da pobreza e da ignorância? Certo dia, Dom Bosco ouviu por acaso o sacristão de sua igreja repreendendo um adolescente, um rapaz desalinhado e maltrapilho vindo das ruas. Ele queria que o rapaz assistisse à Missa, mas este disse que não sabia como fazê-lo. “Então vá embora!”, vociferou o sacristão, mas Dom Bosco interrompeu. 

“Deixe-me ficar com o garoto”, disse ele. 

O nome do garoto era Bartolomeo Garelli. Tinha quinze anos. Ele não sabia quando tinha de se ajoelhar na Missa nem quando ficar em pé. Não sabia sequer como fazer o sinal da cruz. Então, Dom Bosco ensinou-o a fazer essas coisas e o fez prometer que voltaria no dia seguinte. Como o sacerdote foi gentil com o garoto, ele manteve sua promessa. Mas foi além dela, assim como João Bosco foi além da simples gentileza. Bartolomeo levou consigo dois outros garotos. Assim teve início o ministério de Dom Bosco com a juventude marginalizada de Turim. Quando o garoto tinha um lar, Dom Bosco ia até o local para visitá-lo e conhecer a sua família. Quando o garoto estava faminto, Dom Bosco lhe dava alimento. Como nós, todos os meninos precisavam da graça de Deus. Então, Dom Bosco os levava até a igreja e lhes ensinava a fé. Eles precisavam brincar; então, levava-os ao parque, onde misturava as instruções com jogos e feitos atléticos.                     

Não devemos pensar que Dom Bosco era apenas um homem comum e bondoso com as crianças. Era uma pessoa brilhante. Ao longo da vida, escreveu mais livros do que muitas pessoas. Foram quase cem obras! Seus superiores lhe deram a chance de ser professor universitário. Ele teria aceitado a tarefa, pois era um sacerdote obediente, mas disse que ainda julgava necessário cuidar das crianças pobres — e foi para isso que Deus o chamou. Trezentos garotos. E seu ministério estava só começando!

Pense no jardim de sua paróquia e imagine que há ali quinze garotos jogando bola. Seria algo digno de atenção, não? Não para Dom Bosco. Nos arredores de sua paróquia brincavam trezentos garotos. Nem todos os sacerdotes ficavam felizes com isso. Tampouco as pessoas da paróquia. Meninos são barulhentos. Eles pisoteiam a grama. Às vezes, a bola quica nos canteiros. Um dos meninos pode pisar um lírio. Coisas terríveis como essas podem acontecer. Portanto, temos de imaginar Dom Bosco liderando os garotos numa caminhada dominical por quilômetros no campo, chegando a uma igreja e pedindo autorização para celebrar Missa acompanhado de todos aqueles meninos; em seguida, fazendo o café da manhã ao ar livre, seguido de brincadeiras, aulas de catecismo e da longa caminhada de volta a Turim, durante a qual cantam hinos — como faria um coral —, rezam o Rosário. Os meninos se lembrariam daqueles domingos para o resto de suas vidas.    

Dom Bosco acabou fundando os salesianos, cujo nome foi inspirado em São Francisco de Sales. Os salesianos seguem a sabedoria de seu fundador. A chave era a amabilidade, e não o castigo. Dom Bosco sempre conseguia a obediência dos garotos por tratá-los com gentileza, elogiando as suas boas ações e mostrando o quanto os amava e que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para alimentá-los, dar-lhes abrigo, ensiná-los e ajudá-los a crescer espiritualmente. Ora, eu poderia escrever agora cinquenta páginas sobre a Ordem, seus milhares de casas e as centenas de milhares de meninos que receberam ajuda delas durante a vida do próprio Dom Bosco. Mas não posso escrever cinquenta páginas, nem você teria tempo para lê-las. Por isso, mencionarei duas coisas que aqueciam o coração daqueles meninos.   

Uma delas era a mãe deles. Muitos garotos eram órfãos. Independentemente de sua situação, Dom Bosco era homem, e um menino também precisa dos cuidados de uma mãe, algo que ele não podia lhes dar. Por isso, implorou a sua mãe Margarita para se juntar a eles. Isso representava um grande sacrifício para ela, que teria de deixar sua pequena casa de campo e a fazenda da qual havia cuidado desde que se casara, para ir até a suja e barulhenta Turim, a grande cidade, e ser mãe, arrumadeira, enfermeira e professora de centenas de meninos. Mas ela o fez. Eles a chamavam de mamãe Margarita, e a colaboração dela dava liberdade a Dom Bosco para fazer mais e mais — ensinar, sempre ensinar, fundar o Oratório de São Francisco, contratar professores, fundar um seminário no interior e colher a recompensa das vocações para o sacerdócio. Homem e mulher, mãe e filho, trabalhando juntos como se estivessem numa dança, ao compasso da vontade de Deus.

A outra coisa era um cão chamado Grigio. Sem contar a cabeça, ele tinha noventa centímetros de altura. Pegue uma fita métrica e a estique até o chão. Esse era o tamanho de Grigio, sem contar o pescoço e a cabeça. Ele tinha um pelo grosso branco acinzentado e um focinho parecido com o de um lobo. Ele conseguia amedrontar os ladrões e assassinos que se aglomeravam nos becos de Turim. Onde Dom Bosco havia encontrado Grigio? Em lugar nenhum. Dom Bosco não o encontrou. Foi justamente o contrário. Lembremo-nos: “Não fostes vós que me escolhestes”, disse Jesus aos Apóstolos, “mas eu vos escolhi”. Nas muitas ocasiões em que Dom Bosco voltava do campo para Turim, ou enquanto andava pelas ruas da cidade à noite, aquele magnífico animal aparecia do nada para andar ao lado dele, no exato momento em que assassinos estavam prestes a saltar diante de Dom Bosco no escuro e matá-lo. Certa vez, Grigio imobilizou um homem mau pela garganta, e o teria matado se o homem não tivesse implorado a Dom Bosco que mandasse o cão embora. Os meninos amavam Grigio, mas jamais conseguiam fazê-lo comer o que lhe davam. Grigio recusava, mesmo quando o deixavam entrar no refeitório. Grigio aparecia quando Dom Bosco precisava de sua proteção; depois, ia embora. Isso era tudo.    

Ele inclusive apareceu para o sacerdote e um amigo seu trinta anos mais tarde, quando estavam perdidos de noite num pântano cheio de areia movediça. “Se ao menos Grigio estivesse aqui!”, clamou Dom Bosco quando, de fato, lá estava o cão, que os tirou do perigo por um caminho em ziguezague. 

O cão pode ter sido um anjo da guarda. Mas e os nossos cães? Não seriam anjos da guarda se pudessem?