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O que o aborto tem a ver com o ocultismo?
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O que o aborto tem a
ver com o ocultismo?

O que o aborto tem a ver com o ocultismo?

É o que você vai descobrir neste testemunho impressionante de Abigail Seidman, a mulher que migrou milagrosamente do mundo sinistro do paganismo para o movimento pró-vida.

LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Maio de 2016
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Quando a mãe de Abigail Seidman fez um aborto, mais de 25 anos atrás, a sua família entrou em um dos mundos mais obscuros e sinistros com que as pessoas podem ter a infelicidade de entrar em contato. Foi a própria Abigail quem migrou do ateísmo para o movimento pró-vida e, agora, conta com exclusividade ao LifeSiteNews.com os bastidores da indústria do aborto nos Estados Unidos.

Ela revela que a descensão de sua mãe para a "cultura da morte", trabalhando ativamente em uma clínica de aborto, não foi motivada por causas sociais ou econômicas — como sói acontecer com algumas pessoas —, mas por uma religião, literalmente.

Abigail descreve a clínica de aborto de sua mãe "repleta de imagens e práticas ocultas". Os funcionários do local consideravam "o aborto como uma forma de sacrifício", que deveria ser realizado como um ritual para adorar divindades pagãs que personificam a morte. Infelizmente, em sua juventude, Abigail e seu filho não nascido acabaram vítimas dessa mentalidade, através de um aborto que a sua mãe a encorajou a praticar.

Esse não é o tipo de coisa que as pessoas gostem de imaginar, e muitas talvez até neguem que seja verdade. Seidman, porém, insiste que os pró-vidas precisam saber a ligação que existe entre o aborto e o mundo das trevas — e que isso pode ser uma peça chave para destruir a indústria do aborto pelas raízes.

Confira abaixo, na íntegra, a entrevista que ela concedeu em 2010 ao LifeSiteNews.com.


Uma questão preliminar. A qual religião você pertence agora, se é que pertence a alguma?

Estou no processo de ser admitida à Igreja Católica Romana. Participo da Iniciação Cristã de Adultos e entro formalmente na Igreja na Vigília Pascal de 2011. Depois de um período de estudo e meditação começando em torno de outubro e novembro de 2009, aceitei Jesus como meu salvador em junho de 2010 e participei de uma comunidade evangélica por alguns meses antes de decidir que o meu lugar era, na verdade, a Igreja Católica.

Antes de minha volta à fé cristã, fui meio ateia e meio agnóstica desde que meus pais saíram da Igreja Episcopal, quando eu tinha 6 anos. Nunca fui uma praticante séria da wicca pagã e da "nova era", mas me envolvi nesse meio por conta do ambiente em que estava. Só estacionei de vez no ateísmo para me sentir segura — porque assim os rituais pagãos que eu tinha presenciado não passariam de superstições idiotas sem nenhum poder espiritual verdadeiro, o que era muito mais confortável do que acreditar na verdade sobre eles.

Também sentia que o Cristianismo não me aceitaria de novo se eu retornasse (uma crença inculcada por minha mãe, que me proibia de associar-me proximamente com cristãos, e repetidamente me dizia que Jesus não iria me aceitar de volta uma vez que eu tivesse duvidado d'Ele, pelo que minha única alternativa era continuar afastada d'Ele). Era uma tática comum de amedrontamento entre os pagãos: "Os cristãos não vão aceitar você depois do que você fez, melhor ficar conosco e trabalhar pelo triunfo da deusa contra o deus cristão".

Quais aspectos do interior de uma clínica de aborto você percebeu serem naturalmente ocultistas? De que forma e até que ponto o ocultismo participava do processo de aborto?

A clínica onde minha mãe trabalhava estava repleta de imagens e práticas ocultas. Havia artes e estátuas de divindades femininas pagãs no escritório, na sala de espera, na de aconselhamento e na de recuperação, além de uma música "nova era" (ocasionalmente incluindo canções de deusas) sendo tocada em toda parte. As conselheiras eram primeiramente escolhidas por suas qualificações "espirituais", e algumas sequer possuíam diploma em alguma área relevante (como psicologia, aconselhamento ou serviço social). Uma delas era cozinheira profissional e se tinha transformado em prostituta (ou "prostituta sagrada", como elas preferiam pensar).

Depois que a clínica fechava à noite, a equipe toda se juntava para fumar maconha e às vezes tomar alucinógenos, se houvesse disponíveis. Isso era visto como uma atividade espiritual, e não como uma prática recreacional. Na verdade, elas zombavam de quem usava drogas simplesmente para curtir, ao invés de usá-las para "abrir as suas mentes" a "realidades espirituais e planos superiores de existência".

Também havia cerimônias especiais envolvidas, em que membros da equipe clínica engravidavam intencionalmente para fazer abortos, os quais eram conduzidos depois de horas com um grupo maior. Eu não participava dessas cerimônias, já que, na ocasião, ainda não tinha tido um aborto eu mesma, então não posso dar detalhes; mas, certa vez, eu cuidei da filha de uma funcionária da clínica durante uma dessas sessões, no andar de cima da clínica, e lembro-me de ouvir algumas canções e algo como "o médico não estar presente" (ele era homem e a cerimônia era apenas para mulheres), então o aborto obviamente seria realizado por uma pessoa não qualificada. As mulheres na clínica eram treinadas com técnicas de aborto clandestino no caso de que Roe v. Wade fosse revertida [1].

Minha mãe hospedou uma "festa de extração menstrual" em nossa casa uma vez, em 1992, quando havia muito medo circulando sobre a possibilidade de Bush ser reeleito e nomear muitos juízes pró-vida ou conseguir um Congresso Republicano para governar e assim restringir o aborto legal. (Extração menstrual é um procedimento de baixa complexidade que consiste em sugar a matéria do útero imediatamente antes da vinda da menstruação, e pode ser usado como um método de aborto precoce.)

Como era mais ou menos o clima nesse ambiente?

Lembro-me que o clima era negro e aterrorizante — não manifestamente assustador, mas de um tipo de dar frio no estômago. Sempre tive uma "sensação" de haver algo "errado" ou "perigoso" lá — quase a sensação de uma presença, a qual agora eu reconheço como sendo exatamente o oposto da Presença que eu sinto dentro de uma igreja.

Agora também enxergo outras coisas que fazem sentido, como o fato de a bebê de que eu cuidava naquele dia, durante o ritual na clínica, nunca sorrir, nem brincar. Ela gritava a maior parte do tempo, exceto quando era cuidada pela mãe, depois disso ela caía em um sono espasmódico por um tempo. Por outro lado, os meus filhos autistas, que são difíceis de lidar, ficam bem calmos quando estão na igreja (qualquer igreja) e se comportam — alguém poderia dizer — "milagrosamente" bem! Acho que crianças são naturalmente mais sensíveis às coisas espirituais, não tendo aprendido ainda a filtrá-las ou a desligar a própria consciência. Eu me lembro de estar bem consciente e alegre com a presença de Deus na igreja quando eu era pequena, apesar de os meus pais sempre abaixarem os olhos e me dizerem para acalmar-me e parar de fingimento.

Vídeo de uma entrevista concedida por Abigail ao programa "The Abortion Matrix". A sequência do material está no YouTube.

Quais divindades eram adoradas nesses rituais que você menciona?

A principal figura adorada era A Deusa. Figuras de divindades femininas de várias tradições (hindu, grega, romana, babilônica, egípcia etc.) eram vistas como 'arquétipos' ou 'rostos' dessa única deusa verdadeira, que estaria em oposição com (e, no fim, triunfaria sobre) o Deus judaico-cristão. Elas ensinavam que a deusa era mais antiga, que tinha criado o mundo e as pessoas para viverem pacificamente em uma "idade de ouro" pré-histórica de governo matriarcal, antes da ascensão do patriarcado e da civilização. Deus era pintado como uma figura diabólica, que invejava o poder da Deusa e que tinha inventado a ideia do estupro e ensinado os homens a praticá-lo, dando fim à convivência humana em um estado natural e livre de violência.

As mulheres eram encorajadas a escolherem figuras de deusas em particular como suas modelos ou padroeiras pessoais (quase como os católicos escolhem um santo de devoção). A cultura era lésbica e sexista (e, nesse sentido, diferente dos outros indivíduos ou grupos pagãos sobre os quais eu pesquisei e com que entrei em contato), onde deusas eram adoradas — nunca deuses —, e homens não eram chamados para participar das cerimônias e raramente eram admitidos como companheiros sexuais ou românticos das mulheres.

O único empregado masculino da clínica era o médico, e ele era estritamente profissional: aparecia, realizava os procedimentos e saía. Consegui conhecê-lo relativamente bem ao longo dos anos e ele só estava no negócio pelo dinheiro, ele via a espiritualidade como algo ridículo. Ele preferia trabalhar em um ambiente médico e profissional (as outras clínicas em que ele trabalhou, incluindo aquela em que meu primeiro aborto foi realizado, não eram em nada diferentes de qualquer consultório médico, nem na aparência, nem no procedimento), mas os vícios dele e da esposa em compras faziam-no trabalhar sempre e onde quer que ele pudesse, pelo que ele tolerava a conversa da "deusa". Ele também era um tanto quanto viciado em sexo. Por isso, o desejo da equipe da clínica em ter sexo livremente e abortar quando fosse possível definitivamente agiu em seu favor, e a maior parte das funcionárias tinha sexo com ele em um determinado momento, com exceção das lésbicas convictas.

Curiosamente, a tal Deusa também era conhecida como o Grande Dragão (que elas diziam ser a sua "forma real") —, o qual eu me surpreendi em descobrir que existia na Bíblia também, ainda que definitivamente não como uma pessoa a ser adorada! Falo sério, eu não tinha ideia. Minha exposição à Bíblia e à teologia cristã era mínima, para dizer muito, até cerca de um ano atrás. Tanto que eu cheguei a cair de costas quando li o livro do Apocalipse.

Eu sempre tive um pouco de medo de Maria devido ao meu passado e à vontade de repudiar qualquer coisa parecida a um culto de deusa. O Apocalipse e a sua descrição do grande dragão em guerra com a verdadeira Rainha do Céu, a mãe de Cristo (cf. Ap 12, 1ss), foi verdadeiramente uma revelação para mim, que derrubou a última objeção que eu tinha a tornar-me católica e deixar de ser uma protestante não denominacional. Eu tinha ouvido Maria ser fortemente denunciada por minha mãe e suas amigas, mas o argumento era o de que ela era a mulher cristã oprimida ideal e tinha sido inventada por homens patriarcais sádicos como um modelo impossível para as mulheres seguirem, sendo ela ao mesmo tempo virgem e mãe. (O ideal delas era serem promíscuas e sem filhos, como Ártemis ou Diana.) Desde então, eu encontrei na maternidade espiritual de Maria um grande conforto para mim, na minha atual condição de mãe sem filha e filha sem mãe. Minha mãe parou de falar comigo quando eu me fortaleci na fé cristã e no movimento pró-vida, mas eu aceitei bem isso quando descobri que até a sua presença no telefone parecia ser uma espécie de "toxina espiritual".

Você já notou algum efeito da oração pró-vida nos trabalhos dentro da clínica?

O melhor exemplo de como a oração pró-vida é efetiva eu o conto em uma história que postei no blog do meu grupo pró-vida local. Nos dias de abortos, a minha mãe me mandava acompanhar as pacientes no estacionamento da clínica. Havia muitas pessoas pró-vida que vinham à clínica nesses dias. Algumas eram conselheiras de rua [2], outras vinham para protestar, e outras ainda eram guerreiras na oração. Havia uma mulher em particular que nunca disse uma palavra, nunca sequer interagiu com outros pró-vidas. Ela era uma senhorinha fraca, de idade bem avançada, que toda sexta andava até a clínica, se ajoelhava na esquina da calçada (um pouco distante da entrada) e rezava o Rosário. Às vezes ela ficava ali por horas, não importando o clima, com os seus joelhos magros queimando, congelando ou suando sobre o pavimento. Eu a via toda sexta em que estava lá, e ela sempre sorria para mim quando eu chegava e de novo quando eu saía, mas nunca dizia uma palavra.

Em um dia de inverno, ela veio e rezou por pelo menos três horas, sob uma chuva congelante. A dona da clínica saiu do lado de fora, viu-a e pediu às acompanhantes que a convidassem para tomar um chá quando ela terminasse. Quando ela se levantou, eu fui lá e convidei-a para entrar. Ela aceitou, e eu a ajudei a entrar, enquanto a proprietária trazia uma garrafa de chá. Nós três nos sentamos juntas em um dos sofás na área de aconselhamento. A velha senhora (de quem eu nunca descobri o nome) bebia o seu chá e sorria tranquilamente, acenando solenemente com a cabeça enquanto a proprietária explicava que os seus esforços de oração eram em vão; que ela estava sendo inconveniente de modo desnecessário e até fazendo mal a si mesma se ajoelhando na calçada; que ela faria muito melhor ficando no conforto de sua casa, já que nada ( nada, ela enfatizou) jamais dissuadiria a proprietária, o médico ou a equipe de parar de realizar abortos; e que, simplesmente ajoelhando e rezando sem interagir com ninguém, ela dificilmente iria convencer alguma mulher a mudar de opinião. Quando ela finalmente terminou de falar, a senhora pôs a sua xícara sobre a mesa e disse: "Deus sabe o que eu estou fazendo aqui, e é para Ele que importa, mesmo se não importa a você ou a qualquer outra pessoa. Minhas orações têm valor diante de Deus. E se eu conseguir mudar um coração, apenas um que seja — e ela olhava bem nos meus olhos enquanto dizia isso —, então tudo isso aqui terá valido a pena. Eu sei que Deus me recompensará no final." A dona da clínica abaixou os olhos, suspirou e balançou a cabeça. A senhora ficou de pé, agradeceu-nos pelo chá e foi embora.

Também me lembro de uma funcionária da clínica que tentou formar uma espécie de parceria com algumas clínicas locais pró-vida [3], porque a incomodava que as mulheres que rejeitassem fazer um aborto fossem simplesmente enxotadas porta afora sem receberem nenhuma outra assistência. Ela começou algumas amizades com essas equipes e agendou visitas recíprocas às instalações de uma e de outra clínica, chegando eventualmente a um acordo de que, se uma mulher mudasse de ideia sobre o aborto durante o processo de aconselhamento, ela seria imediatamente enviada para uma clínica pró-vida e assessorada pela própria equipe da clínica de aborto sobre como chegar lá. (O centro pró-vida naturalmente recusou um acordo recíproco de fazer agendamentos de aborto para mulheres que não fossem movidas por seus argumentos a favor da vida.) Eu não sei em que deu isso tudo a longo prazo, já que ela não está mais empregada lá; só sei que o novo lugar da clínica — que foi obrigada a mudar devido à compra e à demolição do prédio antigo para uma nova construção — está hoje localizada fundo a fundo com a mesma clínica pró-vida. Coincidência?

Também tive algumas interações positivas com uma conselheira de rua em particular, que agora está velha e não sai mais para as clínicas, mas que aparentemente ainda está ativa no trabalho de angariar fundos para o movimento pró-vida local. Ela tinha um filho adotado da minha idade e realmente sentia muito que eu, como adolescente, fosse enganada e abusada por minha mãe e suas amigas. Era como se ela pudesse ver, através da frente fria que cobria o meu coração, que eu queria ser livre do mundo pervertido em que eu estava sendo criada.

Você tem alguma ideia do nível de envolvimento que têm as clínicas de aborto com as realidades que você presenciou?

Eu realmente não sou capaz de dizer. Acredito que as clínicas independentes e de orientação feminista tendam a ser mas similares ao que eu presenciei. A dona da clínica que eu descrevi era uma grande amiga do recém-falecido Dr. George Tiller [4] e as descrições que eu li de sua clínica parecem indicar que, também lá, algo a mais acontecia além do simples negócio. Muitas das clínicas, se não a maioria delas, são estritamente empresariais (incluindo, em geral, as afiliadas da Planned Parenthood), o que não impede indivíduos ou grupos que trabalham nessas clínicas, ou defensores do aborto em geral, de estarem envolvidos, em algum grau, com o ocultismo. Acredito que muitos deles estejam, ainda que outros tantos sejam também ateus ou cristãos liberais.

Acredito que os ocultistas constituam o "núcleo" do movimento pró-aborto, assim como os cristãos renascidos formam o "núcleo" do movimento pró-vida, e eu não vejo problema algum em chegarmos ao coração da coisa e em informar as pessoas "pró-escolha" (particularmente os cristãos bem intencionados, mas desorientados) com quem e com o quê elas estão verdadeiramente se associando.

Conte-nos, por favor, mais alguma coisa que você considere surpreendente em sua experiência vis-à-vis com o ocultismo, ou algo que você considera insuspeitável para o pró-vida comum.

Acho que a coisa com que os pró-vidas mais se surpreendem, em minhas discussões com eles até agora, é que o paganismo, a wicca e o culto a divindades femininas são levados a sério por muitos liberais, defensores do aborto, feministas etc. Não se trata meramente de "bicho-papão". Se uma pessoa acredita ou não que essas crenças e práticas espíritas têm algum poder, o fato é que há uma porção significante de pessoas que acredita, e o faz tão intensamente quanto nós acreditamos no Cristianismo ou em outros credos.

Tenho sido encarada com um pouco de descrença por parte de cristãos pró-vida que parecem não ser capazes de compreender que alguém honestamente acredite em outra religião e simplesmente não se rebele contra o Cristianismo. Trata-se geralmente daqueles que foram cristãos a vida inteira e mantidos numa espécie de "bolha", sem a consciência de que há algumas pessoas — mesmo no mundo de hoje — que não receberam a mesma educação, pessoas que talvez sequer tenham sido expostas ao Cristianismo, exceto em um vago sentido cultural (celebrando o Natal como um feriado secular etc). É preciso fazer mais trabalho educacional sobre isso, porque eu sei que o "núcleo" do movimento pró-vida está formado geralmente por pessoas que sempre foram cristãs (especialmente os mais jovens), mas muitos deles são um pouco ingênuos ou mimados.

Com o que eu escrevo e com o que eu falo, tenho chegado a muitos ateus, e a informação tem sido em grande parte bem recebida. Estou planejando trabalhar em um guia para alcançar praticantes do paganismo também, já que há inúmeros argumentos seculares para defender a vida, sem falar que uma abordagem científica pode funcionar com quase todo mundo (e a ciência definitivamente está do nosso lado!).

Pelo menos para mim, a conversão religiosa é secundária à conversão pró-vida. Fui pró-vida por muitos, muitos anos antes de aceitar o Cristianismo e, ainda que não fosse uma ativista engajada à época, já fazia doações para grupos seculares pró-vida, como o Feminists for Life ("Feministas pela Vida"), e votava em candidatos pró-vida sempre que possível, além de privadamente expor e explicar a minha posição para os meus amigos. Eu preferiria ver mil ateístas pró-vida no mundo do que um só cristão que defende o aborto.

Referências

  1. Roe v. Wade foi a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, dada em 1973, que legalizou a prática do aborto no país.
  2. "Conselheira de rua" é uma tradução imprecisa da expressão sidewalk counselor. Trata-se de um trabalho desenvolvido por ativistas pró-vida, que param pessoas em frente a clínicas de aborto para convencê-las a não fazer um aborto, caso tenham um em mente, ou a desaprovarem a prática, caso sejam favoráveis a ela.
  3. Em inglês, essas clínicas são chamadas de crisis pregnancy centers ("centros para crise na gravidez", lit.) e realizam um importante trabalho de ajudar gestantes em dificuldades a fazerem uma escolha sensata pela vida de seus filhos.
  4. O Dr. George Tiller, assassinado em 2009, era um dos poucos médicos norte-americanos conhecidos por realizar abortos tardios, isto é, nas últimas semanas de gestação.

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O que Deus pede de nós em tempos de crise?
EspiritualidadeHistória da Igreja

O que Deus pede
de nós em tempos de crise?

O que Deus pede de nós em tempos de crise?

Nosso Senhor não irá nos julgar por aquilo que um padre, um bispo ou seja lá quem for disse, fez ou deixou de fazer. A pergunta que Ele nos fará é: você fez o que eu lhe pedi para fazer? E o caso será encerrado.

Robert B. Greving,  Crisis MagazineTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Dezembro de 2017
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Ronald Knox disse certa vez que “quem viaja a bordo da barca de São Pedro seria melhor que não olhasse muito de perto para o interior da sala de máquinas”. A menos que você tenha vivido dentro de uma caverna pelos últimos cinco, dez ou cinquenta anos, saiba que a barca tem atravessado alguns mares turbulentos. Alguns diriam que estamos com Colombo navegando rumo a um novo mundo; outros, que o nome escrito na lateral da barca é Titanic. De qualquer modo, vale a pena ressaltar que, seja lá qual for a maneira de ler o sinais dos tempos, em certo sentido, em um sentido bem verdadeiro, nada disso importa.

Não digo que não devamos rezar pela Igreja ou pelo Papa e os bispos, nem que não devamos ficar preocupados quando padres ou prelados, e até mesmo aqueles do mais alto escalão, dizem coisas que nos fazem ficar com a pulga atrás da orelha, para dizer o mínimo. Não digo que não devamos confrontar o erro, chamar as coisas pelo nome, ou que devamos fechar os olhos para o escândalo. O que quero dizer é que, em certo sentido, em um sentido bem verdadeiro, não nos devemos preocupar com nada disso, porque a única coisa com a qual devemos realmente nos preocupar não é, de forma nenhuma, afetada por tais problemas. E essa única coisa é a nossa própria alma.

Ao longo do último mês de novembro, a Igreja nos levou a refletir sobre os Novíssimos — literalmente, as “últimas coisas” —, indicando que nossa preocupação última deve ser a nossa santidade pessoal. É fácil, e talvez desculpável, ficar perturbado com o que algum padre, bispo, político “católico” ou escola “católica” disse, fez ou deixou de fazer. Eu sou o primeiro a admitir que posso, sim, ficar mordido com essas coisas. E, como disse, há alguma justiça nisso. Nós amamos a Igreja e, devemos reconhecer, é mesmo preocupante vê-la em um estado de “diluição”. A Igreja deveria ser nossa “rocha”, mas a sensação atual, para muitos de nós, é a de que ela se assemelha mais à areia movediça. Mas, é aí que está o ponto, o que devemos fazer diante de tudo isso?

Quando morrermos — e esta é a única coisa com a qual devemos nos preocupar —, Nosso Senhor não irá nos julgar a partir do que um padre, um bispo, um Papa ou seja lá quem for disse, fez ou deixou de fazer. Ao contrário, Ele nos julgará por um critério bem simples: você fez aquilo que eu lhe pedi para fazer? E o caso será encerrado.

No romance Emma, de Jane Austen, a personagem que dá nome ao livro e seu amigo, sr. Knightley, conversam sobre outra personagem, Frank Churchill, que aparentemente fracassou em seus deveres como filho. Enquanto Emma busca todas as razões possíveis para desculpar o jovem, ao sr. Knightley não acode nenhuma. Ele finalmente diz: “Há uma coisa, Emma, que um homem pode sempre fazer se ele quiser, e essa coisa é o dever, não por interesse e vaidade, mas por força e resolução”. Essa também deveria ser a nossa atitude.

Vejamos por outro ângulo. Houve alguma vez na história uma época em que a Igreja, do Papa ao pároco, e deste ao paroquiano no banco da igreja, tenha sido perfeita? Não. São Paulo pareceu ter gasto a maior parte do seu tempo resolvendo disputas e corrigindo heresias. Os primeiros cinco séculos da história da Igreja (pelo menos) foram gastos formando-se um credo e, mesmo então, ao menos uma vez, a maioria (formada por arianos) não o professou corretamente. A Idade Média viu o Papa mudar-se para Avignon e lá ficar por quase 70 anos, e ainda depois, por mais 25 anos, tivemos três homens reivindicando o papado. E nem se fale da Renascença. O século XVII teve os jansenistas; o XVIII, os iluministas e a Revolução Francesa. No século XIX, o Concílio Vaticano I foi suspenso porque tropas italianas invadiram a Cidade Eterna.

Santa Joana d’Arc, por John Everett Millais.

Muitos ainda falam da “época de ouro” da Igreja antes do Vaticano II. Embora possa existir certa verdade nisso, a questão que deve ser levantada é: onde e quando as sementes do dilúvio do “espírito do Vaticano II” foram lançadas senão naquela “época de ouro”? A Igreja — em seus membros — nunca foi perfeita.

No entanto, também sempre houve santos. Sempre existiram aqueles poucos indivíduos que, como temos dito, não se transtornavam por causa do que alguém fazia ou deixava de fazer; em vez disso, fizeram eles mesmos o que deviam fazer, por mais humilde ou simples que fosse o trabalho. Eles perseguiam sua própria santidade. E faziam-no com os mesmos meios que você e eu temos à nossa disposição — oração, sacramentos, a graça de Deus e a própria vontade. Nenhum deles dependeu da santidade pessoal de outras pessoas na Igreja. Em todos estes tempos difíceis, houve grandes santos.

Eu disse acima que não deveríamos falar da Renascença, mas vamos fazer isso agora. O papado sangrava por conta de escândalos pessoais e da heresia de Martinho Lutero. Na Inglaterra, todos os bispos, exceto um, submeteram-se a Henrique VIII. Mesmo assim, Thomas More tornou-se um santo, indo calmamente para a guilhotina e fazendo piadas, não porque seu pároco fizesse ótimos sermões ou porque houvesse um ótimo projeto pastoral em sua diocese, não por causa da pureza ou clareza doutrinária do clero, mas porque ele mesmo levou uma vida de santidade. (E o fez ao mesmo tempo em que sustentava uma família, trabalhava como advogado e estava envolvido em todos os tipos de assuntos políticos.) Ele não murmurou, não reclamou nem apresentou desculpas, mas olhou para sua própria alma.

“Estas crises mundiais são crises de santos”, dizia São Josemaria Escrivá, que derramou lágrimas quando a Igreja parecia ruir durante as décadas de 1960 e 1970. Isso quer dizer que essas crises não são, em primeiro lugar, crises de Papas, bispos, padres, ou de universitários, teólogos e políticos, mas, sim, de você e eu, que deveríamos ser santos no lugar em que Deus nos colocou. Hoje nós temos um fardo ainda maior nessa matéria, porque com a quantidade de pregações e conselhos espirituais disponíveis em livros e outras mídias, nós realmente não temos nenhuma desculpa para não conhecer nosso dever e o modo de cumpri-lo. Quanto esforço temos empregado nisso?

Ninguém pode impedir que sejamos santos exceto nós mesmos! Por isso, por todos os meios possíveis, corrijamos e exortemos os outros, ajudemos financeiramente aqueles que são dignos e boicotemos aqueles que não o são, mas, em primeiro lugar e acima de tudo, rezemos, frequentemos os sacramentos, imploremos pela graça de Deus e façamos, enfim, a única coisa que podemos fazer: ser santos. É tudo que Deus nos pede.

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O Papa que veio do Purgatório pedir orações a uma santa
Santos & Mártires

O Papa que veio do
Purgatório pedir orações a uma santa

O Papa que veio do Purgatório pedir orações a uma santa

Surpresa por ver um espectro envolto em chamas, esta santa descobriu que estava diante de ninguém menos que o Papa. Conheça a história desta impressionante aparição.

Pe. François Xavier SchouppeTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Dezembro de 2017
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Permitam-me contar-lhes uma famosa aparição de um Papa a uma santa.

O Papa Inocêncio III morreu no dia 16 de julho de 1216. No mesmo dia, ele apareceu a Santa Lutgarda, no monastério de Aywières, região central da Bélgica. Surpresa por ver um espectro envolto em chamas, ela perguntou de quem se tratava e o que queria.

“Sou o Papa Inocêncio”, ele respondeu.

“Mas seria possível que o senhor, nosso pai comum, se encontrasse em um estado assim?”, ela perguntou.

“Sim, eu de fato me encontro neste lugar”, ele respondeu. “Estou expiando três faltas que teriam causado minha perdição eterna. Graças à bem-aventurada Virgem Maria, obtive o perdão delas, mas tenho de fazer reparação. Ai de mim! Aqui é terrível e isto durará por séculos, se tu não vieres em meu auxílio. Em nome de Maria, que obteve para mim o favor de recorrer a ti, ajuda-me.”

Depois de dizer estas palavras, ele desapareceu.

Lutgarda anunciou a morte do Papa a suas irmãs, e juntas elas se dedicaram à oração e a obras penitenciais em favor do augusto e venerável Pontífice, cujo falecimento lhes foi comunicado algumas semanas depois, vindo de outra fonte.

Efígie do Papa Inocêncio III, representado como um dos maiores legisladores da história, esculpida por Joseph Kiselewski em 1950 e presente no Capitólio dos EUA.

Devo admitir que a leitura deste incidente me impactou muito e eu com prazer o deixaria passar em silêncio, pois relutava em pensar que um Papa, e ainda mais este Papa, tivesse se condenado a um Purgatório tão longo e terrível.

Sabemos que Inocêncio III, que presidiu em 1215 o célebre Concílio de Latrão, foi um dos maiores Pontífices a se sentar no trono de S. Pedro. Seu zelo e sua piedade levaram-no a realizar grandes feitos pela Igreja de Deus e pela santa disciplina. Como admitir, então, que um homem dessa estirpe fosse julgado com tamanha severidade pelo Tribunal Supremo? Como reconciliar essa revelação de Santa Lutgarda com a misericórdia divina?

Por conta dessas questões, passei a tratar essa aparição como algo ilusório, procurando por razões que dessem suporte a essa ideia.

O que descobri, no entanto, ao contrário disso, foi que a veracidade dessa aparição é admitida pelos mais sérios autores, não sendo rejeitada por nenhum sequer. Ademais, o biógrafo dessa santa, Tomás de Cantimpré, é muito transparente ao escrever e, ao mesmo tempo, bastante reservado. “Devo explicar, leitor”, ele escreve ao fim de sua narrativa, “que foi da própria boca da piedosa Lutgarda que eu ouvi as faltas reveladas pelo defunto, as quais eu omito aqui por respeito a um tão grande Pontífice.”

À parte isso, considerando o evento em si mesmo, poderíamos encontrar uma boa razão para questioná-lo? Não sabemos nós, afinal de contas, que Deus não faz acepção de pessoas — e que os Papas aparecem diante do seu tribunal, portanto, assim como o mais humilde dos fiéis —, que todos, grandes e pequenos, são iguais diante dEle, e que cada um recebe de acordo com suas obras? Não sabemos igualmente que aqueles que governam os outros têm uma grande responsabilidade, e terão de fazer uma severa prestação de contas?

Judicium durissimum his, qui praesunt, fiet: “Será duríssimo o juízo dos que governam” (Sb 6, 6). É o Espírito Santo quem o declara. Pois bem, Inocêncio III reinou por dezoito anos e durante tempos muito turbulentos; além disso, acrescentam os Bolandistas, não está escrito que os julgamentos de Deus são inescrutáveis, e com frequência muito diferentes dos julgamentos dos homens? Judicia tua abyssus multa: “Teus juízos são como o grande abismo” (Sl 35, 7).

A realidade dessa aparição não pode, portanto, ser razoavelmente posta em dúvida e eu não vejo nenhuma razão para omiti-la, dado que Deus não revela mistérios dessa natureza senão com o fim de que sejam conhecidos para a edificação de sua Igreja.

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O presépio dos egoístas
Sociedade

O presépio dos egoístas

O presépio dos egoístas

Para muitas pessoas, a Sagrada Família não cabe mais no presépio de Natal. São aqueles que abandonaram o projeto cristão para “ter a vida só para si mesmos”.
Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Dezembro de 2017
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Vocês vão ter de nos perdoar a insistência sobre o tal presépio com dois “Josés”, mas é uma oportunidade única para falarmos sobre a guerra cultural que se trava hoje, diante de nossos olhos. Se em nosso último texto evitamos falar sobre o aspecto sexual dessa batalha, agora se nos torna inevitável analisá-lo, dado o caráter claramente sexual da própria blasfêmia em análise.

Nós sabemos, não é incomum aparecerem pessoas dizendo que os cristãos conservadores falam de moral sexual com uma obsessão quase fanatizante. — Existem tantos outros pecados a serem abordados nas pregações! Por que a insistência nisto? — Concordamos com a afirmação de que pecados há outros muito piores. A soberba e a inveja, que são os pecados dos anjos decaídos, são muito mais graves do que os pecados ditos carnais. A verdade porém é que, conforme o juízo de Santo Afonso de Ligório, doutor da Igreja, “noventa e nove por cento dos réprobos é pelo pecado da impureza que se condenaram” [1]. E Nossa Senhora de Fátima disse aos três pastorinhos que “vão mais almas para o inferno por causa dos pecados da carne do que por qualquer outra razão”. Talvez devêssemos acusar este santo doutor e esta santa Senhora de obsessão também? Certamente não.

Além do mais, os que acusam os religiosos, com o dedo em riste, de falarem demais sobre sexualidade, normalmente o fazem não por oposição sólida e fundamentada, mas por uma questão de incômodo mesmo. Naturalmente, as pessoas não gostam de ver os próprios pecados denunciados em público. Ainda que seus nomes não sejam pronunciados, ainda que os olhares de quem prega sequer estejam dirigidos a elas, as verdades de fora despertam aquilo que está dentro delas: suas consciências.

E, nos nossos tempos, quantas não são as pessoas a tentarem abafar essa voz! Quantos não são os cristãos que, não se esforçando por viverem de acordo com a sua fé, terminam por acreditar no modo como vivem! Quantos outros, ainda, não vão ainda mais longe, militando pelo novo “estilo de vida” que decidem seguir — e contrariando abertamente o Evangelho e a doutrina de Cristo!

É isso o que fica patente no presépio dos dois Josés. Ali não há nenhuma proposta concreta de Natal, mas tão somente uma desconstrução do que é o verdadeiro Natal, do que é verdadeiramente a religião cristã, do que significa realmente a Sagrada Família.

Mais do que criticar, no entanto, essa “problematização”, é preciso deixar bem claro contra o que, bem concretamente, nossa modernidade está lutando.

Detalhe de “Adoração dos Pastores”, do Fr. Juan Bautista Maíno.

Para tanto, vamos nos servir de um ensinamento lapidar de Santo Tomás de Aquino, que, perguntando se Cristo devia nascer de uma virgem dada em casamento, apresenta-nos uma razão especial: “A Mãe do Senhor foi casada e virgem, porque na sua pessoa é honrada tanto a virgindade como o matrimônio, contra os heréticos que detratam aquela e este.”

Ora, o que se pode dizer aqui a respeito de Maria Santíssima é igualmente aplicável à figura de São José: os dois foram virgens e realmente casados um com o outro, e com isso Deus procurava ensinar a todos os homens o valor que têm tanto o celibato e a virgindade consagrados a Deus, quanto o matrimônio.

Não, a Igreja Católica não acredita que todas as pessoas foram feitas para se casarem. O próprio Jesus Cristo não achava isso: “Porque há eunucos”, Ele dizia, “que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus” (Mt 19, 12). Evidentemente, não se trata aqui de mutilar os próprios genitais, como fez Orígenes no início da Igreja. Jesus Cristo está falando de um sacrifício espiritual — cujo sentido “nem todos são capazes de compreender” (v. 11) —, mas que realmente faz parte da vivência dos discípulos do Senhor, desde o começo da Igreja.

Duas são, portanto, as decisões de vida simbolizadas no presépio, nas imagens da Sagrada Família: a decisão, “por toda a vida”, do Matrimônio; e o voto, também perpétuo, de quem se abstém da sexualidade por amor a Deus. Parecem dois extremos contraditórios, mas não o são. São compromissos profundamente ligados um ao outro, de modo que as grandes crises humanas, quando afetam uma dessas vocações, terminam inevitavelmente atingindo a outra.

O grande problema do celibato sacerdotal, por exemplo, que os homens de nossa época parecem não querer mais assumir, anda de mãos dadas com o grande fracasso moderno do matrimônio, como notou certa vez, com grande perspicácia, o Papa emérito Bento XVI:

Num certo sentido, esta crítica permanente contra o celibato pode surpreender, num tempo em que está cada vez mais na moda não casar. Mas este não-casar é uma coisa total, fundamentalmente diversa do celibato, porque o não-casar se baseia na vontade de viver só para si mesmo, de não aceitar qualquer vínculo definitivo, de ter a vida em todos os momentos em plena autonomia, decidir em qualquer momento como fazer, o que tirar da vida; e portanto um “não” ao vínculo, um “não” à definitividade, um ter a vida só para si mesmos.

Enquanto o celibato é precisamente o contrário: é um “sim” definitivo, é um deixar-se guiar pela mão de Deus, entregar-se nas mãos do Senhor, no seu “eu”, e portanto é um ato de fidelidade e de confiança, um ato que supõe também a fidelidade do matrimônio; é precisamente o contrário deste “não”, desta autonomia que não se quer comprometer, que não quer entrar num vínculo; é precisamente o “sim” definitivo que supõe, confirma o “sim” definitivo do matrimônio. [...] E se isto desaparecer, será destruída a raiz da nossa cultura. Por isso, o celibato confirma o “sim” do matrimônio com o seu “sim” ao mundo futuro, e assim queremos ir em frente e tornar presente este escândalo de uma fé que baseia toda a existência em Deus. [2]

Aqui chegamos, então, ao ponto central da crítica moderna tanto ao casamento quanto à virgindade. As pessoas que morrem de ódio por verem um padre ou uma freira que não se casaram são, por incrível que pareça, as mesmas que ficam aturdidas ao se depararem com uma família de filhos numerosos. Esquizofrenia? Incoerência? Não! A ojeriza da modernidade não é tanto à mortalha eclesiástica ou à aliança matrimonial, mas a qualquer coisa que represente compromisso, doação e fidelidade. O sintoma de que falamos aqui é outro, mas a doença é a mesma. Seu nome é egolatria.

O mais triste é que, não obstante o relativismo com que muitas vezes as pessoas tratam esses assuntos, todos sem exceção são capazes de reconhecer os frutos maduros do verdadeiro amor. No Natal, por exemplo, todos gostariam de ver as próprias casas abarrotadas de gente, com filhos, netos e sobrinhos correndo de um lado para o outro, um cônjuge do lado e muitos amigos com quem se reunir. Fatalmente, porém, muitas das escolhas que nós, os jovens, fazemos no presente só nos levarão para a solidão, para a tristeza e para o desespero. Esses frutos amargos, também, todos somos capazes de enxergar: são os frutos que inevitavelmente colhem todos os que deram “um ‘não’ ao vínculo, um ‘não’ à definitividade”, preferindo “ter a vida só para si mesmos”.

Cabe a nós decidir, em grande parte, o destino que vamos ter, tudo dependendo do exemplo que nos dispusermos a seguir. Se nossas casas estarão enfeitadas, neste Natal, com um belo presépio, que nossas famílias imitem, então, a verdadeira família de Nazaré — e não a família “fake” de quem preferiu dar corda às próprias paixões ao invés de se gastar por Deus e pelos outros.

Afinal de contas, como é triste a vida de quem se deixa levar pelo egoísmo!

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A verdadeira história do Papai Noel
Santos & Mártires

A verdadeira história do Papai Noel

A verdadeira história do Papai Noel

Conheça a verdadeira biografia de Nicolau de Mira, o santo católico que deu origem à figura lendária do “Papai Noel”.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Dezembro de 2017
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São Nicolau, cuja memória a Igreja celebra neste dia 6 de dezembro, tornou-se conhecido por seu costume, segundo uma antiga tradição, de entregar presentes secretos aos pobres e necessitados, o que lhe valeu ser a figura hoje tão conhecida do “Papai Noel”, bastante comum nos festejos de Natal. 

Em nossos dias, porém, o mítico sobreviveu ao místico: a lenda explorada com fins comerciais acabou ofuscando a verdadeira biografia deste grande homem. Qual é, então, a sua verdadeira história?

Nicolau nasceu na antiga cidade de Pátara, território da atual Turquia, por volta do ano 270, sendo educado por uma família de pais nobres e muito virtuosos. Seu desejo de dedicar-se a Deus brotou na mais tenra idade, fazendo-o viver inteiramente devotado à Palavra de Deus, de tal maneira que, tendo herdado, com a morte dos pais, grande fortuna, fez-se apenas um administrador daqueles bens que se tornaram dos pobres.

Ao mudar-se para a cidade de Mira, onde quis viver mais secretamente, Nicolau, já muito virtuoso e de uma piedade divina, foi aclamado bispo, e logo ficou famoso tanto pelos inúmeros milagres que por ele Deus realizava quanto por sua grande caridade, da qual procediam as esmolas e os presentes “secretos” aos necessitados.

Ninguém confunda sua caridade, porém, com leniência ou complacência.

“São Nicolau de Bari esbofeteia o heresiarca Ário”, óleo sobre tela, de Giovanni Gasparro.

Nesse sentido, um episódio marcante de sua vida ficou registrado nas atas do Concílio de Niceia, a primeira grande reunião de bispos da Igreja Católica, ocorrida em 325. Na ocasião, os cristãos deparavam com uma grande e perigosa heresia: o arianismo, que negava a divindade de Jesus. O historiador católico Daniel-Rops relata que, quando os bispos ali reunidos ouviram “alguns fragmentos” dos escritos de Ário, “os erros mostraram-se tão patentes que uma onda de indignação sacudiu todos aqueles homens fervorosos” [1].

Um deles foi justamente o “bom velhinho”, São Nicolau: já cansado da insolência de Ário, conta-se que o corajoso bispo confrontou fisicamente o heresiarca, esbofeteando-lhe a boca.

Os prelados ao redor se assustaram e, mesmo discordando de Ário, viram-se obrigados a punir o “zelo excessivo” de Nicolau, trancafiando o bispo na prisão e confiscando o seu pálio e a cópia que ele possuía dos Evangelhos. A resposta do Céu à ira de São Nicolau, no entanto, parece ter sido bem outra. Alguns dias depois do ocorrido, os próprios Jesus e Maria visitaram o bispo em sua cela. “Por que estás aqui?”, teria perguntado Nosso Senhor a Nicolau, ao que ele respondeu: “Porque vos amo, meu Deus e Senhor” [2]. Imediatamente, foram-lhe devolvidos os símbolos de sua dignidade episcopal.

“São Nicolau de Bari”, óleo sobre tela, de Giovanni Gasparro.

É por isso que, em muitos ícones do santo, é possível vê-lo ladeado de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, respectivamente com um livro e um pálio nas mãos. Destituído do ofício episcopal por seus irmãos, o bispo de Mira terminou o grande Concílio de Niceia readmitido diretamente pelo próprio Deus.

Hoje, São Nicolau é muito venerado tanto no Oriente, onde nasceu e exerceu seu ministério episcopal, quanto no Ocidente. Foi da cidade italiana de Bari, afinal, onde se encontram suas relíquias, que a devoção ao “bom velhinho” se espalhou por todo o continente europeu.

Santo Tomás de Aquino, por exemplo, foi um grande devoto de São Nicolau. Foi em um 6 de dezembro, a propósito, que o Doutor Angélico, celebrando Missa numa capela dedicada a São Nicolau, recebeu de Deus uma visão que o fez dizer, poucos meses antes de entregar sua alma a Deus: “Tudo que escrevi até hoje parece-me unicamente palha, em comparação com aquilo que vi e me foi revelado”. Sem sombra de dúvida, um presente extraordinário recebido pelas mãos de São Nicolau.

Neste tempo de Advento, preparando a vinda do Senhor, peçamos a São Nicolau que obtenha também a nós este dom de Deus: o desapego deste mundo de palha e a posse inamissível do Cristo.

São Nicolau de Mira e de Bari,
rogai por nós!

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