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O que o autor de “O Senhor dos Anéis” pensava sobre o casamento
Doutrina

O que o autor de “O Senhor
dos Anéis” pensava sobre o casamento

O que o autor de “O Senhor dos Anéis” pensava sobre o casamento

Carta de J. R. R. Tolkien para o seu filho Michael revela visão profundamente cristã e realista do escritor a respeito do matrimônio. “A fidelidade no casamento cristão”, ele admite, “acarreta em grande mortificação”.

Equipe Christo Nihil Praeponere1 de Outubro de 2015Tempo de leitura: 10 minutos
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Além de escrever com excelência, J. R. R. Tolkien – o autor de "O Senhor dos Anéis", "O Hobbit" e "O Sillmarillion" – foi também um devotado católico e dedicado pai de família. É o que se percebe pela leitura de suas obras e, sobretudo, de suas biografias e cartas pessoais.

Uma delas, endereçada a seu filho Michael [1], é de grande preciosidade. Contém a visão nitidamente cristã de Tolkien em relação ao casamento e lança uma luz extraordinária na doutrina moral da Igreja sobre a sexualidade.

Companheiros em um naufrágio

A carta em questão foi escrita em março de 1941 e descreve todo um itinerário do relacionamento entre homem e mulher, desde a clássica distinção entre os tipos de amor até a redenção do casamento por Jesus.

Tolkien começa sua narrativa pela famosa história da Queda:

"Este é um mundo decaído. A desarticulação do instinto sexual é um dos principais sintomas da Queda. O mundo tem 'ido de mal a pior' ao longo das eras. As várias formas sociais mudam, e cada novo modo tem seus perigos especiais: mas o 'duro espírito da concupiscência' vem caminhando por todas as ruas, e se instalou em todas as casas, desde que Adão caiu."

O romantismo do autor d'O Senhor dos Anéis não obscurece a visão que ele tem da realidade. Estamos marcados pelo pecado original e, nessa condição, não só o ser humano é capaz de ter sexo sem levar em conta o espírito da pessoa com quem se envolve – "para o grande dano de sua alma (e corpo)" –, como a própria relação de amizade "que deveria ser possível entre todos os seres humanos é praticamente impossível entre um homem e uma mulher":

"O diabo é incessantemente engenhoso, e o sexo é seu assunto favorito. Ele é da mesma forma bom tanto em cativá-lo através de generosos motivos românticos ou ternos quanto através daqueles mais vis ou mais animais. Essa 'amizade' tem sido tentada com freqüência: um dos dois lados quase sempre falha. Mais tarde na vida, quando o sexo esfria, tal amizade pode ser possível. Ela pode ocorrer entre santos. Para as pessoas comuns ela só pode ocorrer raramente: duas almas que realmente possuam uma afinidade essencialmente espiritual e mental podem acidentalmente residir em um corpo masculino e em um feminino e ainda assim podem desejar e alcançar uma 'amizade' totalmente independente de sexo. Porém, ninguém pode contar com isso."

Na "romântica tradição cavalheiresca" – nota Tolkien –, é possível perceber uma relativa dose de virtudes humanas, que fazem o amor meramente natural desfrutar, "se não de pureza, pelo menos de fidelidade, abnegação, 'serviço', cortesia, honra e coragem". Só isso, porém, não é suficiente para remir a sexualidade de sua decadência. Esse amor "pode ser muito nobre", ele admite, mas:

" Ele tende a tornar a Dama uma espécie de divindade ou estrela guia (...). Isso é falso, é claro, e na melhor das hipóteses fictício. A mulher é outro ser humano decaído com uma alma em perigo.

Ele leva (ou, de qualquer maneira, levou no passado) o rapaz a não ver as mulheres como elas realmente são, como companheiras em um naufrágio, e não como estrelas guias.

Um resultado observado é que na verdade ele faz com que o rapaz torne-se cínico. Leva-o a esquecer os desejos, necessidades e tentações delas. Impõe noções exageradas de 'amor verdadeiro', como um fogo vindo de fora, uma exaltação permanente, não-relacionado à idade, à gestação e à vida simples, e não-relacionado à vontade e ao propósito.

Um resultado disso é fazer com que os jovens — homens e mulheres — procurem por um 'amor' que os manterá sempre bem e aquecidos em um mundo frio, sem qualquer esforço da parte deles; e o romântico incurável continua procurando até mesmo na sordidez das cortes de divórcio."

A graça que aperfeiçoa a natureza

"Gratia non tollit, sed perficit naturam – a graça não destrói a natureza, mas a leva à perfeição" [2], ensina Santo Tomás de Aquino. Assim também, a Redenção operada por Jesus não transforma o casamento de modo "mágico", como se todos os defeitos de nossa natureza decaída sumissem num estalar de dedos. Tolkien mostra compreender bem isso, quando, ao falar sobre o casamento à luz da graça, explica em que consiste a natureza, tanto do homem, quanto da mulher:

"Você pode encontrar na vida (como na literatura) mulheres que são volúveis, ou mesmo puramente libertinas — não me refiro a um simples flerte, o treino para o combate real, mas às mulheres que são tolas demais até mesmo para levar o amor a sério, ou que são de fato tão depravadas ao ponto de desfrutar as 'conquistas', ou mesmo que apreciem causar dor — mas essas são anormalidades, embora falsos ensinamentos, uma má criação e costumes deturpados possam encorajá-las.

Muito embora as condições modernas tenham modificado as circunstâncias femininas, e o detalhe do que é considerado decoro, elas não modificaram o instinto natural. (...) Uma mulher jovem, mesmo uma 'economicamente independente', como dizem agora (o que na verdade geralmente significa subserviência econômica a empregadores masculinos ao invés de subserviência a um pai ou a uma família), começa a pensar no 'enxoval' e a sonhar com um lar quase que imediatamente. Se ela realmente se apaixonar, o navio naufragado pode de fato acabar nas rochas.

De qualquer maneira, as mulheres são em geral muito menos românticas e mais práticas. Não se iluda com o fato de que elas são mais 'sentimentais' no uso das palavras — mais espontâneas com 'querido' e coisas do gênero. Elas não querem uma estrela guia. Elas podem idealizar um simples jovem como um herói, mas elas não precisam realmente de tal deslumbramento tanto para se apaixonarem como para permanecerem assim. Se elas possuem alguma ilusão, é a de que podem 'remodelar' os homens. Elas aceitarão conscientemente um canalha e, mesmo quando a ilusão de reformá-lo mostrar-se vã, continuarão a amá-lo.

Elas são, é claro, muito mais realistas sobre a relação sexual. A não ser que sejam corrompidas por péssimos costumes contemporâneos, elas via de regra não falam de modo 'obsceno'; não porque sejam mais puras do que os homens (elas não são), mas porque não acham isso engraçado. Conheci aquelas que aparentavam achar isso engraçado, mas é fingimento. Tais coisas podem lhes ser intrigantes, interessantes, atraentes (em boa parte atraentes demais): mas é um interesse natural honesto, sério e óbvio; onde está a graça?

Elas precisam, é claro, ser ainda mais cuidadosas nas relações sexuais (...). Erros lhes causam danos física e socialmente (e matrimonialmente). Mas elas são instintivamente monogâmicas, quando não-corrompidas.
Os homens não são. Não há por que fingir. Os homens simplesmente não o são, não por sua natureza animal. A monogamia (ainda que há muito venha sendo fundamental às nossas idéias herdadas) é para nós, homens, uma porção de ética 'revelada', em concordância com a fé e não com a carne. Cada um de nós poderia gerar de forma saudável, por volta dos nossos 30 anos, algumas centenas de filhos e apreciar o processo."

"Para um homem cristão, não há saída"

"Este é um mundo decaído, e não há consonância entre nossos corpos, mentes e almas. Entretanto, a essência de um mundo decaído é que o melhor não pode ser alcançado através do divertimento livre, ou pelo o que é chamado 'auto-realização' (em geral um belo nome para auto-indulgência, completamente hostil à realização de outros aspectos da personalidade), mas pela negação, pelo sofrimento. A fidelidade no casamento cristão acarreta nisto: grande mortificação.

Para um homem cristão não há saída. O casamento pode ajudar a santificar e direcionar os desejos sexuais dele ao seu objeto apropriado; a graça de tal casamento pode ajudá-lo na luta, mas a luta permanece. A graça não irá satisfazê-lo — tal como a fome pode ser mantida à distância com refeições regulares. Ela oferecerá tantas dificuldades à pureza própria desse estado quanto fornece facilidades. Homem algum, por mais que amasse verdadeiramente sua noiva quando jovem, viveu fiel a ela como esposa na mente e no corpo, sem um exercício consciente e deliberado da vontade, sem abnegação. Isso é dito a poucos — mesmo àqueles educados 'na Igreja'. Aqueles de fora parecem que raramente ouviram tal coisa.

Quando o deslumbramento desaparece, ou simplesmente diminui, eles acham que cometeram um erro, e que a verdadeira alma gêmea ainda está para ser encontrada. A verdadeira alma gêmea com muita freqüência mostra-se como sendo a próxima pessoa sexualmente atrativa que aparecer. Alguém com quem poderiam de fato ter casado de uma maneira muito proveitosa 'se ao menos...'. Por isso o divórcio, para fornecer o 'se ao menos...'.

E, é claro, via de regra eles estão bastante certos: eles cometeram um erro. Apenas um homem muito sábio no fim de sua vida poderia fazer um julgamento seguro a respeito de com quem, entre todas as oportunidades possíveis, ele deveria ter casado da maneira mais proveitosa! Quase todos os casamentos, mesmo os felizes, são erros: no sentido de que quase certamente (em um mundo mais perfeito, ou mesmo com um pouco mais de cuidado neste mundo muito imperfeito) ambos os parceiros poderiam ter encontrado companheiros mais adequados.

Mas a 'verdadeira alma gêmea' é aquela com a qual você realmente está casado. Na verdade, você faz muito pouco ao escolher: a vida e as circunstâncias encarregam-se da maior parte (apesar de que, se há um Deus, esses devem ser Seus instrumentos ou Suas aparências). (...) Neste mundo decaído, temos como nossos únicos guias a prudência, a sabedoria (rara na juventude, tardia com a idade), um coração puro e fidelidade de vontade."

Conselhos de um homem casado

Tolkien e sua esposa, Edith. Retrato de 1966.

J. R. R. Tolkien, como se sabe, foi um homem casado. Tendo vivido em boa parte do século XX, o escritor presenciou a reascensão do divórcio no mundo, mas, em sua sabedoria, decidiu não participar da confusão. O casamento dele com Edith Bratt durou 55 longos anos, até que a morte os separasse.

Desde o princípio, porém, ele havia compreendido que o amor está necessariamente ligado à renúncia e à abnegação de si mesmo. Quando conheceu Edith, aos 16 anos, ele ficou instantaneamente encantado e chegou mesmo a começar um namoro com a moça. O seu "guardião" e pai espiritual, no entanto, temendo que o romance atrapalhasse a sua formação, aconselhou-o a não mais ver Edith, até que ele chegasse à maioridade.

"Tive de escolher entre desobedecer e magoar (ou enganar) um guardião que havia sido um pai para mim, mais do que a maioria dos pais verdadeiros, mas sem qualquer obrigação, e 'desistir' do caso de amor até que eu completasse 21", ele escreve. "Não me arrependo de minha decisão, embora ela tenha sido muito difícil (...). Por quase três anos eu não vi ou escrevi à minha amada. Foi extremamente difícil, doloroso e amargo."

Com 24 anos, eles finalmente se casaram e deram início a um relacionamento feliz e duradouro, do qual vieram quatro filhos: John (que se tornou padre), Michael, Christopher e Priscilla.

Numa época em que membros do próprio clero veem (e chegam a pregar) a castidade como algo inatingível, as palavras de Tolkien são uma lufada de ar fresco para muitos jovens casais que querem entregar-se a Deus pelo sacramento do Matrimônio. Mostram que continua sendo um erro gravíssimo concluir "que a norma ensinada pela Igreja é em si própria apenas um 'ideal' que deve posteriormente ser adaptado, proporcionado, graduado" [3], como se Deus nos mandasse o impossível e o impraticável.

Com as nossas próprias forças, é verdade, a luta pela pureza e pela perfeição será sempre árdua e praticamente fadada ao fracasso. Com a graça de Deus, no entanto, ela não só é possível, como deve ser a meta para a qual caminhamos com sempre maiores amor e fervor.

"Cristo redimiu-nos!": brada o Papa São João Paulo II, em sua encíclica Veritatis Splendor [3]. Mais que filhos de Adão e Eva, somos, agora, filhos de Jesus e Maria! Percorramos, pois, confiante e generosamente o caminho da Cruz, que, neste mundo, é o único caminho para amarmos a Deus.

Escutemos, por fim, um último conselho do autor d'O Senhor dos Anéis a seu filho, Michael, e vejamos se não são as palavras acaloradas de um pai que ama o seu filho e quer vê-lo no Céu:

"Da escuridão da minha vida, tão frustrada, coloco diante de você a única grande coisa para se amar sobre a terra: o Santíssimo Sacramento. Nele você encontrará romance, glória, honra, fidelidade e o verdadeiro caminho de todos os seus amores sobre a terra. Mais do que isso, você encontrará a Morte: pelo divino paradoxo, o qual encerra a vida e demanda a entrega total; e ainda pelo único gosto (ou antegosto) do qual o que você procura em seus relacionamentos terrenos (amor, fidelidade, alegria) pode ser mantido ou tomar aquela compleição de realidade – de duração eterna – que todo coração humano deseja."

Referências

  1. Carta n. 43, a Michael Tolkien (6-8 de março de 1941). In: As Cartas de J. R. R. Tolkien (org. de Humphrey Carpenter e trad. de Gabriel Oliva Brum). Curitiba: Arte & Letra, 2006.
  2. Suma Teológica, I, q. 1, a. 8, ad 2.
  3. Carta Encíclica Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993), n. 103.

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Religiosa morta em sacrifício satânico é beatificada pela Igreja
Santos & Mártires

Religiosa morta em
sacrifício satânico é beatificada pela Igreja

Religiosa morta em sacrifício satânico é beatificada pela Igreja

Morta por ódio à fé, a religiosa italiana Maria Laura Mainetti teve seu martírio reconhecido pela Igreja. Ela foi vítima de “três meninas influenciadas por uma seita satânica”. As três haviam recebido aulas de catequese da irmã, quando mais novas.

Carol GlatzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Junho de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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Uma religiosa brutalmente esfaqueada em um sacrifício satânico foi beatificada como mártir no dia 6 de junho, na cidade do norte da Itália na qual ela servia.

O Papa Francisco exaltou a beatificação da irmã Maria Laura Mainetti, 60 anos, membro da Congregação das Filhas da Cruz, depois de rezar o Angelus no mesmo dia com peregrinos reunidos na Praça de São Pedro:  

[Ela foi] assassinada há vinte e um anos por três meninas influenciadas por uma seita satânica. Que crueldade! Precisamente ela, que amava os jovens mais do que qualquer outra coisa, e que amou e perdoou aquelas mesmas meninas, prisioneiras do mal. A irmã Maria Laura deixa-nos o seu programa de vida: “Fazer cada pequena coisa com fé, amor e entusiasmo”.

A cerimônia de beatificação aconteceu em Chiavenna, na diocese de Como, onde a irmã serviu como professora, catequista e líder de sua comunidade religiosa.

A irmã Maria Laura Mainetti, agora beata.

O Cardeal Marcello Semeraro, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, presidiu a cerimônia de beatificação e a Missa. No altar havia um relicário contendo uma pedra manchada com o sangue da beata; o material foi encontrado no lugar de seu assassinato. 

O Cardeal disse que a religiosa pediu a Deus a graça da “verdadeira caridade”, que significa amar a Deus mais que a si mesmo e ao próximo como a si mesmo.

Nascida em 20 de agosto de 1939, perto de Milão, ela sentiu o chamado à vocação religiosa depois que um padre lhe disse: “Tu deves fazer algo de belo pelos outros”.

Ela começou a dar aulas em 1960, em escolas elementares cuidadas por sua congregação, em diferentes cidades da Itália. Dedicou sua vida a prestar auxílio a pessoas marginalizadas, como dependentes químicos, delinquentes juvenis, miseráveis e prostitutas.

As assassinas da irmã Maria Laura foram três garotas que tiveram aulas de catequese com ela quando mais novas. De acordo com o depoimento que deram ao tribunal, as adolescentes — uma com 16 e duas com 17 anos — queriam sacrificar uma pessoa religiosa a Satanás e escolheram a irmã, ao invés do pároco, por ela ser franzina e mais fácil de atacar.

As três haviam planejado esfaquear a religiosa seis vezes para indicar o número bíblico da Besta, em 6 de junho de 2000, o sexto dia do sexto mês do ano.

Quando a atacaram e capturaram, a religiosa rezou pelas garotas, pedindo a Deus que as perdoasse

As jovens mulheres foram condenadas por homicídio, mas receberam sentenças reduzidas pois o tribunal determinou a sua insanidade parcial à época do crime. Liberadas da prisão, elas receberam novas identidades, passando a viver em cidades diferentes da Itália.

Em junho de 2020, o Papa reconheceu o martírio da irmã Maria Laura Mainetti, por ela sua morte in odium fidei, isto é, “por ódio à fé”. Agora, a canonização da religiosa depende do reconhecimento de um milagre atribuído a sua intercessão.


[Comentário de nossa equipe: Por que “as adolescentes queriam sacrificar uma pessoa religiosa a Satanás”? Porque queriam ajuntar ao crime de homicídio um pecado de sacrilégio. Pode ser que, aos olhos da Justiça secular, essa distinção tenha pouca importância. Mas, para as pessoas envolvidas com o mundo das trevas, ela faz toda a diferença: é um fato que realmente aumenta a gravidade da falta cometida. 

É por essa mesma razão que o furto das espécies eucarísticas consagradas não é um roubo qualquer; que a ofensa feita a um sacerdote é mais grave que a feita a um simples leigo etc. O que é santo, ou o que foi separado para o culto a Deus, tem maior valor. E o que o demônio puder fazer para “manchar” a obra de Deus, profanando as coisas (ou, no caso, as pessoas) consagradas a Ele, ele fará, como se pode ver.

O que deixa os anjos maus sem dúvida ainda mais revoltados, é que até mesmo os atos pecaminosos que eles incitam, no entanto, terminam redundando na glória de Deus e dos seus santos. Foi justamente o caso desta religiosa, agora beatificada pela Igreja. A brutalidade de que ela foi vítima, o perdão que concedeu a seus algozes na hora da morte, o sacrifício que ela, em seu coração, ofereceu a Deus — enquanto suas assassinas pensavam estar favorecendo o reino de Satanás… Tudo não passou de instrumentos nas mãos da divina Providência.

Para saber mais a respeito da ação dos anjos bons e maus, não se esqueça do curso que Pe. Paulo Ricardo está preparando justamente sobre esse assunto: “Anjos e Demônios”.]

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Corpus Christi não acabou!
Liturgia

Corpus Christi não acabou!

Corpus Christi não acabou!

A Eucaristia é um mistério tão grandioso que, antigamente, a Igreja dedicava uma semana inteira só para meditar a seu respeito. Era a oitava de Corpus Christi, que se encerrava com a festa do Coração de Jesus. Saiba como viver ainda hoje essa tradição.

Equipe Christo Nihil Praeponere9 de Junho de 2021Tempo de leitura: 10 minutos
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Há não muito tempo, a festa de Corpus Christi, assim como a Páscoa, o Natal e Pentecostes, tinha uma oitava [1], como explica neste texto o professor Peter Kwasniewski:

Corpus Christi foi originalmente instituído como uma oitava. Quem quer que acredite que Nosso Senhor está real, verdadeira e substancialmente presente no Santíssimo Sacramento, não seria capaz de celebrar esse “incompreensível mistério de amor” por apenas um dia e então ir embora, como quem risca uma tarefa numa lista de afazeres para cumprir a próxima. Não, é preciso que haja o louvor completo, pleno e pródigo de oito dias: o tempo pára, e nós nos deleitamos na glória do Deus encarnado em nosso meio até que se findem os tempos e cessem os sinais.

É tão óbvio esse instinto eclesial que, quando Nosso Senhor mesmo apareceu a Santa Margarida Maria Alacoque para pedir a instituição de uma festa em honra ao seu Sagrado Coração, Ele especificou que a queria “na sexta-feira depois da oitava de Corpus Christi. É por isso que ela ocorre na sexta-feira da semana seguinte a essa festa. Ela [a festa do Sagrado Coração] manteve seu lugar nos calendários de 1962 e 1969, uma posição que poderia parecer aleatória na ausência da oitava [...].

Ou seja, a festa do Corpo do Senhor [2], na quinta-feira após a festa da Santíssima Trindade, tem uma relação muito próxima com a festa do Sagrado Coração de Jesus, celebrada na sexta-feira da semana seguinte. (Foi em 1955, ainda sob Pio XII, que caiu a oitava de Corpus Christi.)

Neste texto, porém, gostaríamos de apresentar outra razão para que, não obstante a supressão dessa oitava, os fiéis com suas famílias continuem a honrar o Santíssimo Sacramento por mais uma semana — e os sacerdotes, se possível, celebrem nas igrejas Missas votivas em honra desse mistério. O motivo é bem simples e pode ser apresentado nestas cinco expressões: Lauda Sion, Pange lingua, Adoro te devote, Sacris solemniis e Verbum supernum prodiens. Esses são os títulos dos poemas que Santo Tomás de Aquino compôs sobre a Eucaristia, textos de uma riqueza grandiosa, que não podem ser esgotados em um único dia.

Essas pérolas foram escritas em latim, evidentemente, mas possuem versões portuguesas que podem ser encontradas com facilidade na internet. Mas, por belas que sejam as traduções, é sempre melhor acessar e procurar entender os originais latinos, especialmente por terem vindo da pena do “mais santo dos sábios e mais sábio dos santos”.

A sequência de Corpus Christi

Temos, em primeiro lugar, a mais extensa das sequências para Missa que foram preservadas no rito romano: o Lauda Sion, composta de 24 estrofes. É tão longo esse texto que uma alternativa menor é oferecida na liturgia, a começar por sua 21.ª estrofe: Ecce panis angelorum (na tradução litúrgica brasileira: “Eis o pão que os anjos comem”). 

Este canto é um verdadeiro tratado sobre a Eucaristia e um cumprimento quase literal de três de seus versos: Quantum potes tantum aude, quia maior omni laude, nec laudare sufficis (lit., “Quanto podes, tanto ousa, porque é maior que toda loa, nem de louvá-lo és capaz”; na tradução litúrgica brasileira: “Tanto possas, tanto ouses, em louvá-lo não repouses: sempre excede o teu louvor!”). Ou seja, Santo Tomás compôs toda esta sequência em honra ao Santíssimo Corpo do Senhor — e, como vimos, não só esta sequência, mas muitos outros cantos —, e ainda assim não foi o suficiente… Afinal, do próprio Deus presente no Santíssimo Sacramento nunca falaremos o suficiente.

Quod non capis, quod non vides, animosa firmat fides, praeter rerum ordinem (lit., “O que não entendes, o que não vês, garante-o a fé ardente, além da ordem das coisas”; na tradução litúrgica brasileira: “Se não vês nem compreendes, gosto e vista tu transcendes, elevado pela fé”). Essa ideia é uma constante nas composições de Santo Tomás, ressaltando a fé como uma espécie de “sexto sentido”, que supre o defeito dos outros cinco — como diz o Pange lingua: Praestet fides supplementum sensuum defectui (lit., “Seja a fé suplemento ao defeito dos sentidos”; na tradução litúrgica brasileira: “Venha a fé por suplemento os sentidos completar”). 

De fato, quando olhamos para o altar, após a consagração, o que vemos é pão; quando comungamos, tanto a hóstia quanto o vinho consagrados têm gosto de pão e vinho… A fé, porém, nos diz que, pelo milagre da transubstanciação, todo o pão e todo o vinho foram realmente transformados no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor. Não há mais pão nem vinho, embora nossos sentidos experimentem o contrário. Por isso diz, também, o Adoro te devote: visus, tactus, gustus in te fállitur, sed audítu solo tuto créditur (lit., “Adoro-te com devoção: a vista, o tato, o gosto sobre ti se enganam, mas crê-se sem medo com a só audição”).

Caro cibus, sanguis potus: manet tamen Christus totus, sub utráque specie (lit., “A carne, comida; o sangue, bebida: está porém o Cristo todo sob ambas as espécies”; na tradução litúrgica brasileira: “Alimento verdadeiro, permanece o Cristo inteiro quer no vinho, quer no pão”). Outra lição importante é passada aqui: como Jesus, depois da Ressurreição, não pode mais morrer; como seu Corpo e Sangue estão para sempre unidos, sem possibilidade de separação, quando o sacerdote consagra o pão e o vinho, fica presente, tanto em um quanto em outro, Nosso Senhor inteiro. É por isso que nós, católicos, não precisamos comungar sob as duas espécies; “no que diz respeito ao fruto, os que recebem uma só espécie não são privados de nenhuma graça necessária à salvação” [3].

Nessa mesma linha, continua o canto, o Deus que se dá a um fiel é o mesmo que se dá ao outro, sem divisão: A suménte non concísus, non confráctus, non divísus: intéger accípitur. Sumit unus, sumunt mille: quantum isti, tantum ille: nec sumptus consúmitur (lit., “Por quem toma não partido, nem quebrado ou dividido, mas é íntegro recebido. Toma um, tomam mil, tantos estes quanto aquele, mas nem tomado é consumido”; na tradução litúrgica brasileira: “É por todos recebido, não em parte ou dividido, pois inteiro é que se dá! Um ou mil comungam dele, tanto este quanto aquele: multiplica-se o Senhor”).

O problema das comunhões sacrílegas

Outra lição valiosíssima dessa sequência, infelizmente esquecida em nossos dias, é o das comunhões indignas. Diz Santo Tomás: Sumunt boni, sumunt mali: sorte tamen inaequáli, vitae vel intéritus. Mors est malis, vita bonis: vide paris sumptionis quam sit dispar éxitus (lit., “Tomam bons, tomam maus, com sorte porém desigual, de vida ou de ruína. A morte é para os maus, a vida para os bons: vê como da mesma mesa haja tão diversa saída”; na tradução litúrgica brasileira, “Dá-se ao bom como ao perverso, mas o efeito é bem diverso: vida e morte traz em si. Pensa bem: igual comida, se ao que é bom enche de vida, traz a morte para o mau”). 

Sim, essas palavras são apenas um eco de São Paulo: “Todo aquele que comer este pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpado quanto ao corpo e sangue do Senhor” (1Cor 11, 27). Mas esse versículo, curiosamente, não consta em nenhum lugar no atual lecionário — e considerando que, devido a sua extensão, a primeira parte do Lauda Sion dificilmente é cantada em nossas paróquias, o resultado prático é que as pessoas simplesmente jamais ouvem falar da possibilidade (muitíssimo real, muitíssimo frequente) das comunhões sacrílegas. A esse respeito, observa ainda o prof. Peter Kwasniewski:

O alerta de São Paulo para que evitemos receber o Corpo e o Sangue do Senhor indignamente, isto é, para a nossa própria condenação, foi omitido de todas as Missas no Novus Ordo por quase meio século. E, no entanto, na Missa latina tradicional, esses versículos são escutados ao menos três vezes todos os anos: uma na Quinta-feira Santa [...] e duas em Corpus Christi [...]. Os católicos que frequentam o usus antiquior sempre terão essas palavras desafiadoras colocadas diante de suas consciências. Sejamos francos: o conceito de uma Comunhão indigna simplesmente desapareceu da consciência católica em geral.

Como consequência do silêncio (e apostasia) do clero — e da má catequese de nossos dias —, então, o pão dos filhos é tragicamente “lançado aos cães” (conforme expressão da própria sequência: Ecce panis angelorum, factus cibus viatorum, vere panis filiorum, non mittendus canibus; lit., “Eis o pão dos anjos, feito pão dos viandantes, verdadeiro pão dos filhos, que não se deve dar aos cães”). 

A discussão, por exemplo, que está acontecendo nos Estados Unidos a respeito da Comunhão para pessoas em pecado público (especialmente políticos favoráveis ao aborto) nem sequer é tocada no Brasil, quando deveria ser óbvio para qualquer católico que uma pessoa que defende o assassinato de crianças no ventre materno não deveria jamais se aproximar da Sagrada Eucaristia; e, se ela promove publicamente essa causa, deve sim ter a Comunhão negada pelos ministros da Igreja. 

Santo Tomás (cf. STh III 80 6c.) e dois mil anos de Tradição e Magistério o afirmam claramente; nosso Código de Direito Canônico o ordena expressamente (cf. Cân. 915: “Não sejam admitidos à sagrada comunhão os excomungados e os interditos, depois da aplicação ou declaração da pena, e outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto”); mas, pelo visto, nossa época é mais sábia que os santos e Doutores que nos precederam...

“Quanto podes, tanto ousa”

Dos hinos compostos por Santo Tomás, o Pange lingua é sem dúvida o mais conhecido, principalmente por suas duas últimas estrofes, iniciadas em Tantum ergo sacramentum (“Tão sublime sacramento”). É prescrito pela liturgia que ele seja cantado nas Vésperas do ofício de Corpus Christi, bem como durante as bênçãos com o Santíssimo.

Também muito belo e conhecido é o Adoro te devote, onde Santo Tomás recorda que, do Sangue de Nosso Senhor, uma única gota seria suficiente para remir o mundo inteiro (Cuius una stilla salvum fácere totum mundum quit ab omni scélere; lit., “Do qual uma só gota o mundo inteiro salvar pode de todo crime”).

Menos conhecidos, mas nem por isso menos bem elaborados, são os hinos Sacris solemniis e Verbum supernum prodiens, prescritos respectivamente para as Matinas (atual Ofício das Leituras) e Laudes de Corpus Christi. Deles são extraídos os cantos menores Panis angelicus (“Pão angélico”) e O salutaris hostia (“Ó Hóstia salutar”).

No primeiro, apresenta-se uma verdade, também questionada hoje por teólogos modernos: a de que a celebração da Eucaristia está reservada somente aos sacerdotes, e a mais ninguém: Sic sacrificium istud instituit, cuius officium committi voluit solis presbyteris, quibus sic congruit, ut sumant, et dent ceteris (lit., “Assim este sacrifício instituiu, cujo ofício só aos presbíteros quis reservar, aos quais compete tomá-lo e dá-lo aos demais; na tradução litúrgica brasileira, o solis desaparece: “Instituído estava o sacrifício, que aos seus ministros Cristo confiou. Devem tomá-lo e dá-lo aos seus irmãos, seguindo assim as ordens do Senhor”).

No segundo canto, brilha um dos mais belos versos de todas as composições do Aquinate: O res mirabilis: manducat Dominum pauper, servus et humilis (lit., “Ó coisa admirável: come ao Senhor o pobre, o servo e o humilde”; na tradução litúrgica brasileira, “Oh maravilha: a carne do Senhor é dada a pobres, frágeis criaturas”.

Todos os cantos se encerram com súplicas escatológicas: no Adoro te devote, por exemplo, o fiel que canta ao Santíssimo Sacramento pede a Deus a graça de contemplá-lo um dia face a face, no Céu: Jesu, quem velátum nunc aspício, oro fiat illud quod tam sítio; ut te reveláta cernens fácie, visu sim beátus tuae glóriae (lit., “Ó Jesus, a quem velado agora vejo, peço venha logo aquilo que tanto desejo: que, vendo-te de face desvelada, seja eu feliz com a visão da tua glória”).

É uma pena que o latim encontre tão poucos amantes; que nossas liturgias não usem mais o canto gregoriano; que a teologia de Santo Tomás seja tão desprezada em nossos dias. Resgatar tudo isso, porém, pode ser um ótimo começo para redescobrirmos a grandeza da Santíssima Eucaristia. Não percamos tempo, portanto, e empreguemos não só estes dias, mas toda a nossa vida, na meditação desse precioso mistério.

Notas

  1. Também sobre esse assunto, pontifica Gregory DiPippo: “As oitavas são para a contemplação de mistérios que são grandes demais para um dia só, e é certamente verdadeiro que repetita juvant (‘as coisas repetidas agradam’), um provérbio que o rito romano, com seu conservadorismo habitual, historicamente levou muito ao coração.”
  2. Também vale a pena notar que, no rito antigo, a festa de Corpus Christi se limitava a celebrar o Corpo do Senhor; no dia 1.º de julho, havia uma festa de I classe (o equivalente às solenidades de hoje) reservada só ao Preciosíssimo Sangue de Cristo. Infelizmente, a reforma de Paulo VI aboliu essa celebração, que está restrita agora ao âmbito das Missas votivas.
  3. Concílio de Trento, Doutrina e cânones sobre a comunhão sob as duas espécies e a comunhão das crianças, 16 jul. 1562, s. XXI, c. 3 (DH 1729).

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Sexo antes do casamento é pecado mesmo?
Doutrina

Sexo antes do casamento é pecado mesmo?

Sexo antes do casamento é pecado mesmo?

Mesmo que se calassem as Escrituras, mesmo que não houvesse um só versículo sobre a fornicação, ela ainda seria pecado. É contra a natureza humana, porque é contra as exigências que a própria razão impõe ao uso humano, não animal, da sexualidade.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Junho de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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Uma adolescente enviou-nos há dias a seguinte mensagem, que reproduzimos com pequenas modificações. (A divisão em 8 pontos é nossa, para facilitar a leitura da resposta. Omitimos também algumas considerações finais, por não virem ao caso.)

Estava estudando sobre “sexo antes do casamento”, quando me deparei com o seu blog.

1. O que mais me intriga em relação a essa questão é que no Antigo Testamento essa questão de virgindade pré-matrimonial era uma regra apenas para as mulheres, e não estava relacionada com a pureza sexual e uma maior virtude, mas sim com relação à gravidez, para que, quando uma mulher engravidasse, se tivesse a certeza [de] que o filho era realmente israelita.

2. Essa questão de pureza sexual surgiu no Novo Testamento com o apóstolo Paulo, mas lembremos que Paulo não era perfeito e, atualmente, não seguimos tudo [o] que ele ensinou (como a questão da obrigatoriedade do véu, por exemplo).

3. E outro fato muito importante é que, nas épocas bíblicas, as pessoas geralmente se casavam um pouco depois da puberdade, ou seja, tinham relações sexuais desde o início do desenvolvimento da sua sexualidade. Hoje é um absurdo ter relações sexuais desde tão cedo, e é até crime no nosso país. 

4. Outro ponto importante é que hoje existem preservativos que impedem doenças sexualmente transmissíveis e impedem também alguma gravidez indesejada. 

5. Jesus nunca falou que o sexo fora do casamento era pecado. O senhor cita no blog Mt 5, 28, mas fica claro que no verso ele se refere a quando um homem comprometido deseja algo com outra mulher. 

6. O senhor disse também: “O sexo fora do casamento é uma forma de usar o outro e não de amar”. Mas poderíamos nós julgar o outro? Falar o que ele sente? Duas pessoas podem se amar e não querer casar por questões financeiras, por exemplo. 

7. Os jovens, a partir de quando atingissem a idade adulta, não poderiam ter o direito de desenvolver sua sexualidade? Não deveriam ser eles orientados para terem relações sexuais com responsabilidade, ao invés de serem reprimidos? 

8. Dizer que isso é pecado só porque Paulo disse não é algo um pouco vasto [sic]? 

1) A primeira colocação, de “O que mais me intriga” até “para que se tivesse certeza [de] que o filho era israelita”, além de gratuita, é falsa. O sexo pré-matrimonial é outro nome para o pecado de fornicação simples, isto é, a cópula consensual entre um homem e uma mulher não ligados entre si nem a outrem por vínculo conjugal. O Antigo Testamento o proíbe em algumas passagens, referindo-se não só às mulheres, mas sobretudo aos varões (cf. Dt 23, 18; Os 4, 11; Eclo 19, 3s; 41, 21; Tb 4, 13). Obviamente, um dos motivos pelos quais a fornicação é pecado, ou seja, contrária ao direito natural, é por dificultar a identificação do pai legítimo e, por conseguinte, o reconhecimento da prole como pertencente a uma determinada estirpe ou comunidade. Mas não é a única razão, nem expressa preocupações meramente pragmáticas. 

2) A segunda colocação, de “Essa questão de pureza legal” até “como a questão da obrigatoriedade do véu”, tem algo de verdade e um pouco de confusão. 

a) É verdade que, comparado com o Antigo, o Novo Testamento representa uma evolução em termos morais, especialmente em matéria sexual. Exemplo disso é a proibição dos pecados internos ou de mero desejo (cf. Mt 5, 28), aos quais a antiga Lei não dera tanta importância, ao menos em comparação com o Evangelho. É falso, no entanto, que somente no Novo Testamento tenha “surgido” o pecado de fornicação, como se S. Paulo ou outro apóstolo tivesse proibido o que até então era permitido. Vimos no item anterior que a prática já era condenada no Antigo [1].

b) Além disso, confundem-se aqui questões de ordem distinta. O véu que S. Paulo manda as fiéis de Corinto usarem (cf. 1Cor 11, 15) é, naturalmente, uma disciplina ritual suscetível de mudança, em função de necessidades ou costumes locais; a sexualidade não, por ser uma inclinação natural básica e em si mesma ordenada à reprodução, a qual, portanto, deve ser regulada e exercida segundo as exigências da razão humana, a mesma para todos, em todos os tempos e lugares [2]. 

3) A terceira colocação, de “E outro fato muito importante” até “no nosso país”, parece deslocada e irrelevante para o ponto em debate, que é a moralidade ou imoralidade do sexo pré-matrimonial. A puberdade é um fato biológico, em virtude do qual o indivíduo se encontra, ao menos fisicamente, preparado para a vida sexual. É mera aptidão para procriar. Em que momento, atingida a idade púbere, se considera aceitável ou oportuno o exercício da sexualidade, é coisa que também pode variar em função de certos fatores (culturais, demográficos, sanitários etc.). Em Israel, como em muitas outras civilizações antigas do Oriente Próximo, nas quais a expectativa de vida era, de regra, bastante baixa, seria mesmo de se esperar que os casamentos fossem celebrados cedo, tão-logo os jovens entrassem em idade féritil, por volta dos 12–14 anos [3]. 

Aliás, essa é provavelmente uma das razões por que no Antigo Testamento se fala pouco da fornicação simples. Como os jovens se casavam cedo, em uma sociedade eminentemente tribal, não havia “tempo” para os desregramentos tão frequentes hoje em dia. A maturidade sexual era quase simultânea à contração de núpcias, de maneira que, se se pecava contra a castidade, se pecava também, quase sempre, contra a fidelidade conjugal. 

4) A quarta colocação, de “Outro ponto importante” até “gravidez indesejada”, não serve de justificativa para o sexo pré-matrimonial, porque revela justamente um dos muitos efeitos negativos de sua “normalização”, qual seja: o divórcio entre cópula e reprodução, sexo e família. O sexo antes do casamento começa a tornar-se comum a partir do momento em que, individual e socialmente, já não se vê (ou não se quer ver) a vinculação intrínseca entre o ato sexual e sua finalidade própria, que é a geração de uma nova vida, cuja criação adequada, tanto física quanto intelectual e moral, só é possível dentro da família, com a cooperação perpétua de um pai e de uma mãe [4]. Se os casais fossem fiéis e castos nem houvesse fornicação e adultério no mundo, dificilmente existiriam DSTs nem, portanto, a “necessidade” de usar preservativo para evitar “gestações indesejadas”. 

Assim como o fornicador busca o prazer sexual sem querer as consequências que lhe são inerentes, mantendo-se assim num estado de imaturidade e egoísmo, o bulímico busca por um momento a sensação de saciedade sem querer o risco de engordar, privando-se assim dos nutrientes necessários. A analogia porém é fraca, porque aquele peca por malícia, este age às vezes por compulsão; a desnutrição deste é física, enquanto a daquele é pior, por afetar antes a alma que o corpo. 

5) A quinta colocação, de “Jesus nunca falou” até “com outra mulher”, está correta, mas desconsidera algumas coisas. De fato, em Mt 5, 28 Nosso Senhor fala do pecado de adultério, nem consta nos Evangelhos qualquer palavra dele contra a fornicação simples. Mas daí não se segue que ela seja permitida ou mesmo compatível com o restante da doutrina cristã.

a) Em primeiro lugar, o objetivo dos Evangelhos é testemunhar a natureza messiânica e divina de Cristo, provada em sua vida e palavras, em suas profecias e milagres, em sua morte e ressurreição, e não o de apresentar uma “súmula” dos ensinamentos de Jesus (cf. Jo 16, 12; 21, 25), como se abarcassem todo o dito por Ele, sem necessidade de atender à pregação oral dos Apóstolos, ao Magistério e à Tradição da Igreja ou mesmo à simples capacidade de dedução. Cristo, por exemplo, não falou de muitos outros pecados sexuais: não falou do estupro, não falou do rapto, não falou do incesto nem do sacrilégio e dos atos contra a natureza. Daí se há de concluir que não são pecados?

b) Em segundo lugar, o fato mesmo de Cristo e as Escrituras como um todo insistirem na malícia do adultério, e não tanto na de outras práticas imorais, é em si mesmo significativo. É sinal de que, para judeus e cristãos, o matrimônio é o único contexto em que o uso da sexualidade é lícito, porque se funda numa relação de fidelidade e entrega mútua que não pode ser rompida sem grave responsabilidade de uma das partes [5]. 

6) A sexta colocação, de “O senhor disse também” até “por questões financeiras, por exemplo”, perde de vista uma verdade importante. Nós podemos, sim, julgar os outros, menos porém por suas intenções que pelas ações que praticam. Os atos humanos têm sempre uma dimensão objetiva, que é precisamente o que os especifica como atos de tal ou qual tipo, tanto na linha da virtude quanto na do vício. Um ato não se define como furto, por exemplo, apenas pela intenção subjetiva do agente, mas antes de tudo pelo objeto mesmo da ação, isto é, por aquilo a que a vontade tende própria e primariamente ao escolher realizá-la [6]: subtrair coisa alheia ao justo possessor, independentemente do “para que” se subtrai. 

O mesmo se aplica ao sexo pré-matrimonial. Os que o praticam podem justificar-se dizendo que “se amam”, quando, na verdade, fazem uso da sexualidade privando-o da “ordem exigida pelo bem da espécie humana não só a ser gerada do modo devido, mas também a ser educada em uma sociedade permanente entre homem e mulher tanto de fato como de direito” [7]. 

Além disso, vale notar: quem, estando solteiro, não pode arcar com os encargos mínimos (econômicos, afetivos etc.) do casamento não deve buscar os direitos ou privilégios de um casado. O contrário seria tratar o sexo como “passatempo” e o outro como simples fonte de prazer, sem o comprometimento que uma vida a dois — na qual são comuns as alegrias, mas também as contas — por si mesma reclama. 

7) A sétima colocação, de “Os jovens” até “serem reprimidos”, é algo contraditória. Com efeito, se atingiram a idade adulta, não são mais jovens, mas adultos e, como tais, devem viver uma sexualidade igualmente adulta, o que significa autodomínio, respeito à dignidade do corpo alheio, senso de compromisso e sacrifício. Sexo não é diversão nem “experimento” para curiosos. Não é uma “técnica” que precise ser “desenvolvida” ou “aprendida” como se aprende, por exemplo, a conduzir um veículo. É uma função orgânica com uma finalidade tão natural como é o ver para os olhos, o ouvir para os ouvidos e o comer para a boca. A diferença está em que o sexo é uma operação que se realiza a dois, e se o seu fim primário é a geração da prole, os dois envolvidos devem ter as condições necessárias à adequada criação dela, ou seja, estar pelo menos unidos por união formal e indissolúvel. 

8) Cremos que essas considerações são suficientes para desmentir a oitava e última colocação, a de que dizemos isso “só porque Paulo disse”. Sim, para os católicos a autoridade de Paulo tem grande peso. Afinal, cremos que suas cartas são divinamente inspiradas e gozam, portanto, de inerrância. É por isso, diga-se de passagem, que consideramos suas palavras contra a fornicação (cf. Ef 5, 5s; 1Cor 6, 9s.15-20; Gl 5, 19-21) como expressão não só da lei natural, que a proíbe pelo dano que causa à prole, mas de um direito divino positivo, que a proíbe, entre outras coisas, porque nos impede de alcançar nosso fim sobrenatural. No entanto, mesmo que se calassem as Escrituras, mesmo que não houvesse um só versículo sobre a fornicação, ela ainda seria pecado [8]. É contra a natureza humana, porque é contra as exigências que a própria razão impõe ao uso humano, não animal, da sexualidade.

Notas

  1. S. Paulo proíbe especial e insistentemente a fornicação em suas cartas porque escreve a fiéis vindos do paganismo, e os gentios, como observa S. Tomás de Aquino, não consideravam a fornicação um pecado (cf. STh I-II 103, 4 ad 3). O Apóstolo não “inova” a moral judaica, que ele, fariseu zeloso (cf. Fp 3, 4ss), sempre observara, mas faz questão de inculcar nos fiéis princípios que, se já eram claros para os hebreus, são indiscutíveis para os cristãos: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus” (Mt 5, 8).
  2. Cf. Martin Rhonheimer, La perspectiva de la moral. Fundamentos de la ética filosófica. Trad. esp. de José C. Mardomingo. 2.ª ed., Madri, Rialp, 2007: “As inclinações naturais são um ‘bem para o homem’ na medida em que forem captadas e reguladas pela razão” (p. 285); “[…] uma tendência humana, dado que é natural, é reconhecida pela razão de modo também natural como um bem humano. Mas revela sua identidade como ‘bem humano’ somente na medida em que é reconhecida pela razão como ‘boa’, e não já por ser ‘natural’” (p. 286); “Sem inclinação natural não haveria princípios práticos nem ações. Mas os princípios mesmos não são essas inclinações como juízos naturais, mas como juízos práticos universais do tipo ‘p é bom’ referidos a essas inclinações” (p. 289); “[…] estas inclinações naturais constituem bens humanos e princípios práticos na medida em que se tende a eles na ordem da razão, isto é, na medida em que a vontade tende a eles em conformidade com a ordem da razão, como ‘bem da razão’. A autoconservação e a sexualidade — como bens humanos, e não só como inclinações naturais — são sempre também vontade de autoconservação e querer (ou amar) outra pessoa. A captação destas inclinações pela razão ordena essas inclinações em conformidade com as exigências da razão, e só assim são objeto da vontade e princípio de ações humanas” (p. 290).
  3. No Brasil, a lei permite o casamento a partir dos 16 e até antes, excepcionalmente, em caso de gravidez, sempre que haja autorização dos pais ou responsáveis legais (cf. CDC, arts. 1517, caput, e 1520).
  4. Cf. Joseph Gredt, Elementa. 13.ª ed., Barcelona, Herder, vol. 2, 1961: “A sociedade conjugal, ou matrimônio, se se toma formalmente, é a união legítima, perpétua e exclusiva do homem e da mulher, nascida do mútuo consentimento deles e ordenada à procriação e à educação da prole. A causa, pois, formal ou o fim, ao menos principal, do matrimônio é a geração e a educação da prole, ou a propagação do gênero humano” (p. 462, n. 1012); “O homem não tem desde o início toda a sua perfeição, senão que, logo ao nascer, tanto corporal como espiritualmente, ou quanto ao intelecto e à vontade, está em estado de imperfeição, a partir do qual paulatinamente se desenvolve. Não pode, porém, desenvolver-se por si só, mas necessita de múltiplos auxílios. Ora, nesta assistência ao seu desenvolvimento, tanto corporal quanto espiritual, consiste a educação. A qual, por isso, é dupla: corporal, que se realiza dando alimento e tudo aquilo de que o corpo naturalmente necessita, e espiritual (à qual pertence a instrução religiosa e social), que se realiza pelo ensino [doctrina] não só especulativo, mas também prático, ou por admonição, correção, punição, de maneira que não somente o intelecto seja conduzido a conhecer a verdade, o que é necessário à consecução do fim último, mas também a vontade se incline a fazer o bem” (p. 367, n. 1017).
  5. É evidente, ademais, que o adultério, objetivamente considerado, é mais grave do que a fornicação simples, por ferir a um tempo duas virtudes — a castidade e a justiça —, ao passo que a fornicação fere, em geral, apenas a primeira delas (cf. M. Zalba, Theologiæ Moralis Compendium. Madri, BAC, 1958, vol. 2, p. 767, n. 1405).
  6. Cf. Martin Rhonheimer, op. cit.: “As ações intencionais básicas [isto é, enquanto especificadas por seu fim intrínseco e constitutivo, chamado finis operis por contraposição ao finis operantis, que é extrínseco à ação e corresponde grosso modo ao que este autor denomina ‘intenção’] possuem já em si mesmas uma identidade intencional que é objeto ou conteúdo de atos de eleição. As ações possuidoras dessa identidade têm sentido e são inteligíveis em si mesmas. A este conteúdo inteligível básico dotado de sentido, ‘primeiro’ enquanto fundamental, damos o nome de objeto de uma ação (por exemplo, ‘descansar’), o qual é objeto da razão prática enquanto bem a perseguir ou mal a evitar e cumpre uma descrição (intencional) sob a qual se escolhe esta ação. A estruturação objetivo-intencional das ações é obra da razão. Esta última constitui determinados tipos de ação, como ‘descansar’, ‘trabalhar’, ‘cometer adultério’, ‘assassinar alguém’, ‘alimentar-se’ etc. Todos esses atos não são sucessos naturais, estados físicos nem movimentos corporais, mas ações. Cada uma delas forma um tipo de ação ou uma espécie do gênero ação (um modo de ação)” (p. 151).
  7. M. Zalba, op. cit., p. 762, n. 1389.
  8. Cf. S. Tomás de Aquino, In IV Sent., d. 33, q. 1, a. 3, qc. 2c.: “Não há dúvida de que a fornicação simples é, de si, pecado mortal, ainda que não houvesse lei escrita”; STh II-II 154, 2c: “[…] sem dúvida alguma, há de sustentar-se que a fornicação simples é pecado mortal. Para evidenciá-lo, deve-se considerar que é pecado mortal todo pecado cometido diretamente contra a vida do homem. Ora, a fornicação simples importa uma desordem que recai em prejuízo da vida daquele que nasce de tal união [concubitu]. […] Ora, é evidente que para a educação do homem não só se requer o cuidado da mãe, pela qual é nutrido, mas muito mais o cuidado do pai, por quem deve ser instruído e defendido, e provido de bens tanto interiores quanto exteriores. E por isso é contra a natureza do homem que se unam não casados [quod utatur vago concubitu], senão que é necessário que se una um homem com uma mulher determinada, com a qual permaneça, não por um breve tempo, mas diuturnamente, ou mesmo por toda a vida. E daí provém que, naturalmente, seja importante para os machos da espécie humana a certeza da prole, já que lhes incumbe a educação dela. Esta certeza, porém, desapareceria se a união fosse indeterminada [concubitus vagus]. Ora, esta determinação de uma mulher certa chama-se matrimônio. E por isso se diz que é de direito natural. Mas porque a união sexual [concubitus] se ordena ao bem comum de todo o gênero humano, e os bens comuns caem sob a determinação da lei <humana> […], segue-se que esta conjunção entre um homem e uma mulher, que se chama matrimônio, há de ser determinada por alguma lei […]. Por isso, sendo a fornicação uma união indeterminada [concubitus vagus], por ser feita fora do matrimônio, é contra o bem da prole a ser educada. E por isso é pecado mortal. Não importa que alguém, fornicando com outra, providencie suficientemente educação à prole. Porque o que cai sob a determinação da lei julga-se segundo o que acontece comumente, e não segundo o que em algum caso pode acontecer”.

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Vejo vocês na Eucaristia
Espiritualidade

Vejo vocês na Eucaristia

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A Eucaristia nos une numa só Igreja, santa, católica e apostólica. Pode ser que jamais nos conheçamos pessoalmente, mas a recepção da Sagrada Comunhão nos une no Corpo místico de Cristo. Não devemos esquecer essa verdade jamais.

Christina Marie SorrentinoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere2 de Junho de 2021Tempo de leitura: 3 minutos
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“Jovens, exorto-vos com toda a força de minha alma a que vos aproximeis da mesa da Comunhão sempre que puderdes. Alimentai-vos desse pão dos anjos, do qual haveis de obter toda a energia necessária para travar as batalhas interiores. Porque a verdadeira felicidade, caros amigos, não consiste nos prazeres do mundo nem nas coisas terrenas, mas na paz de consciência, que só obteremos se nosso coração e nossa mente forem puros.” — Beato Pier Giorgio Frassati

Quando entendi pela primeira vez que Jesus está realmente presente na Eucaristia? 

Pensei nessa pergunta recentemente durante uma hora de adoração eucarística. Não podia deixar de pensar nisso enquanto estava na igreja, olhando fixamente para a hóstia pequena e branca, o Cristo escondido perante meus olhos.

Lembro-me do momento em que meu coração foi completamente cativado por Cristo. Na época, eu tinha seis anos, e o episódio ocorreu após a celebração de uma Missa dominical. Minha mãe perguntara ao sacerdote se ele poderia explicar-me o que era a Missa. Lembro-me do sorriso radiante no rosto dele enquanto me levava gentilmente pela mão até o altar. Curiosa, olhei para a bela estrutura de mármore enquanto ele pegava o cálice e apontava para a pedra ao lado dele (era a pedra da aliança de casamento de sua avó). O padre me disse que era um cálice especial usado para armazenar o precioso sangue de Cristo. Não pronunciei nenhuma palavra, pois certamente estava tentando compreender aquilo da melhor maneira possível. Tinha apenas seis anos.

Então, o padre virou-se e apontou para a caixa dourada atrás do altar. Ajoelhou-se ao meu lado e me perguntou: “Sabe quem está ali?” O silêncio tomou conta de mim, enquanto permanecia de pé e refletia profundamente, até sussurrar que ali estavam as hóstias. Em seguida ele disse: “Sim, mas quem está ali?” Olhei vagamente para o tabernáculo. Meus olhos estavam fixos na estrutura dourada. Finalmente o padre apontou de novo e disse: “Jesus está ali. Jesus está no sacrário.”

Fiquei completamente admirada com suas palavras, e minha vida nunca mais foi a mesma. A partir daquele momento, depois de cada Missa eu me ajoelhava sobre os genuflexórios revestidos de veludo azul, localizados na capela de Nossa Senhora, de onde era possível ver o santuário. Lá eu permanecia, olhando fixamente para o tabernáculo durante o período que podia permanecer na igreja. Sempre que minha mãe e eu passávamos de carro diante de uma igreja, eu sempre ficava com vontade de entrar nela para ver Jesus.

Depois que aprendemos que Jesus Cristo, Deus feito homem, está real e verdadeiramente na Eucaristia, como poderíamos negar a verdade? Cristo se entrega a nós na Eucaristia — Corpo, Sangue, Alma e Divindade — e quer que recebamos as graças preciosas que Ele nos comunica por meio da Sagrada Comunhão, para que nos unamos à Trindade numa relação ainda mais profunda. Cristo quer que o desejemos e espera por nós em todos os sacrários espalhados pelo mundo. Ele está realmente presente para nós na Eucaristia.   

O dom de si que Jesus nos faz na Eucaristia é um amor que está além das palavras. Naquela pequena hóstia está o mais profundo amor que se pode imaginar, dado a nós pelo dom do sacerdócio em cada Missa que se celebra. O Filho de Deus vem até mim, apesar da minha fraqueza e dos meus pecados.

Nós, católicos, estamos unidos em torno da mesa do Senhor por meio da recepção do verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. A Eucaristia supera a divisão e nos une numa só Igreja, santa, católica e apostólica. Pode ser que jamais nos conheçamos pessoalmente, mas a recepção da Sagrada Comunhão nos une no Corpo místico de Cristo

Não devemos esquecer essa verdade jamais. “Vejo vocês” na Eucaristia.

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