| Categoria: Doutrina

O tributo de um sacerdote a seu pai falecido

Neste mês, os Estados Unidos deram adeus a Antonin Scalia, pai de família católico e juiz da Suprema Corte norte-americana. A Missa de Exéquias do magistrado foi celebrada por ninguém menos que seu filho, o padre Paul Scalia.

Os Estados Unidos perderam, no último dia 13 de fevereiro, um de seus juízes e servidores mais leais e importantes. Antonin Scalia era membro da Suprema Corte desde 1986, quando foi nomeado pelo então Presidente Ronald Reagan. Conhecido por suas posições conservadoras, também era um homem de profunda fé católica — pai de 9 filhos e avô de mais de 30 netos.

A Missa de Exéquias por sua alma foi celebrada no último dia 20, no Santuário Nacional da Imaculada Conceição, na capital Washington, e foi presidida por ninguém menos que seu filho sacerdote, o padre Paul Scalia. Durante a belíssima homilia que proferiu, ele não só recordou fatos ligados à vida de seu pai, como fez um verdadeiro compêndio da fé católica na vida eterna. Vale a pena assistir na íntegra à sua emocionante pregação (e também rezar pelo descanso eterno de Antonin Scalia):

Eminentíssimo Cardeal Wuerl,

Excelentíssimos Dom Viganò, Dom Loverde, Dom Higgins,

Meus irmãos no sacerdócio, diáconos, distintos convidados, queridos amigos e fiéis aqui reunidos,

Em nome de minha mãe e de toda a família Scalia, quero agradecer pela presença de todos aqui, pelas palavras de consolo e, mais ainda, pelas muitas orações e missas oferecidas pela morte de nosso pai, Antonin Scalia.

Agradeço em particular ao Cardeal Wuerl, primeiro por ter vindo tão rápida e amavelmente para consolar nossa mãe. Foi um consolo para ela e, portanto, também para nós. Agradeço também por permitir-nos celebrar essa Missa "paroquial" de Exéquias aqui nesta basílica dedicada a Nossa Senhora. Que grande privilégio e consolação para nós fazer o nosso pai atravessar essa Porta Santa e ganhar para ele a indulgência prometida aos que por elas entram com fé.

Agradeço a presença de Dom Loverde, bispo de nossa diocese em Arlington, um pastor pelo qual nosso pai nutria grande respeito e consideração. Obrigado pela visita imediata a nossa mãe, por suas palavras de consolo e por suas orações.

A família sairá para o enterro privado imediatamente após a Missa e não terá tempo para receber visitas. Por isso, quero expressar os nossos agradecimentos agora. A todos manifestamos o nosso mais profundo obrigado. Vocês verão no programa a menção de um memorial que acontecerá em 1.º de março. Esperamos por vocês nessa ocasião e rezamos para que o Senhor os recompense pela grande bondade que demonstraram para conosco.

Estamos reunidos aqui por causa de um homem. Um homem que muitos de nós conhecemos pessoalmente, e que outros tantos conheceram pelo menos por reputação; um homem amado por muitos, desprezado por outros; um homem conhecido por grande controvérsia, e por grande compaixão. Este homem, é claro, é Jesus de Nazaré.

É Ele quem nós proclamamos: Jesus Cristo, Filho do Pai, nascido da Virgem Maria, crucificado, sepultado, ressuscitado, sentado à direita do Pai. É por causa d'Ele, por Sua vida, morte e ressurreição, que nosso luto não é como o daqueles sem esperança, mas, confiantes, nós encomendamos Antonin Scalia à misericórdia de Deus.

Dizem as Escrituras que "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre". E isso define um bom caminho para as nossas meditações e orações aqui hoje. Olhamos, com efeito, em três direções: para o ontem, em ação de graças; para o hoje, em petição; e para a eternidade, com esperança.

Olhamos para Jesus Cristo ontem — isto é, para o passado — em ação de graças pelas bênçãos de que cumulou o nosso pai. Na última semana, muitos contaram coisas que o nosso pai fez por elas, mas aqui hoje, nós contamos o que Deus fez pelo nosso pai, como Ele o abençoou. Damos graças, antes de tudo, pela morte redentora e pela ressurreição vivificante de Jesus Cristo. Nosso Senhor morreu e ressuscitou não apenas por todos nós, mas também por cada um de nós. E nesse momento nós olhamos para o ontem de Sua morte e Sua ressurreição, e damos graças porque Ele morreu e ressuscitou pelo nosso pai. Nós também damos graças porque Jesus lhe deu vida nova pelo Batismo, o alimentou com a Eucaristia e o curou por meio da Confissão. Damos graças porque Jesus o abençoou com 55 anos de matrimônio com a mulher que ele amava — uma mulher capaz de segui-lo em cada passo e até mesmo mantê-lo responsável.

Deus abençoou o nosso pai com uma profunda fé católica — a convicção de que a presença e o poder de Cristo continuam no mundo hoje através do Seu Corpo, a Igreja. Ele amou a clareza e a coerência da doutrina da Igreja, teve em grande consideração as suas cerimônias, e especialmente a beleza de sua antiga liturgia. Acreditou no poder dos Sacramentos como meios de salvação — como Cristo que operava nele para a sua própria salvação.

Contudo, certa vez, numa tarde de sábado, ele me repreendeu por ouvir confissões durante a tarde daquele mesmo dia. E eu espero que seja alguma fonte de consolação (se houver algum advogado presente) o fato de que nem o colarinho romano podia poupar alguém de suas críticas. O problema, naquela noite, não era eu estar ouvindo confissões, mas ele ter entrado justamente na fila do meu confessionário. E ele rapidamente saiu dela. Ele disse depois: "De jeito nenhum eu me confessar com você!" O sentimento era mútuo.

Deus abençoou o nosso pai, como se sabe, com um amor pelo seu país. Ele conhecia bem as dificuldades com que foi fundada a nossa nação. E viu nessa fundação, assim como os seus próprios fundadores a viram, uma bênção. Uma bênção que rapidamente se perde quando a fé é banida da esfera pública, ou quando nos recusamos a levá-la a público. Ele entendeu que não há nenhum conflito entre o amor a Deus e o amor à própria pátria, entre a fé de alguém e o seu serviço público. Nosso pai entendeu que, quanto mais se aprofundava em sua fé católica, melhor cidadão e servidor público ele se tornava. Deus o abençoou com um desejo de ser um bom servidor da pátria, porque primeiro ele o era de Deus.

Entretanto, nós da família Scalia damos graças a Deus por uma bênção particular que Ele lhe concedeu. Deus abençou o nosso pai com um amor por sua família. Nós ficamos muito felizes em ler e ouvir as várias palavras de louvor e admiração por ele, por seu intelecto, por seus escritos, por seus discursos, por sua influência etc. Mas o mais importante para nós — e para ele — é que ele foi pai. Ele foi o pai que Deus nos deu para a grande aventura que é a vida em família. É claro que às vezes ele esqueceu ou misturou os nossos nomes; mas nós, seus filhos, somos em nove. Ele nos amou, e procurou mostrar esse amor, e procurou compartilhar o dom da fé que ele estimava. E ele nos deu um ao outro, para que tivéssemos apoio mútuo. Essa é a maior riqueza que os pais podem acumular e, neste momento, nós somos particularmente gratos por isso.

Antonin Scalia, a mulher e os nove filhos, em foto de 1986 (Bob Daugherty/Associated Press)

Nós olhamos, então, para o passado, para Jesus Cristo ontem, e fazemos memória de todas essas bênçãos, honrando e glorificando Nosso Senhor, porque é tudo obra d'Ele.

Olhamos para Jesus hoje, em petição — para o momento presente, aqui e agora, em que estamos de luto por este que amamos e admiramos, e cuja falta sentimos. Hoje nós rezamos por ele. Rezamos pelo descanso da sua alma. Damos graças a Deus por sua bondade para com nosso pai, como é digno e justo. Mas também sabemos que, mesmo crendo, a sua fé foi muito imperfeita, como é também a nossa. Ele tentou amar a Deus no próximo, mas, assim como nós, fê-lo de modo muito imperfeito. Ele era um católico praticante — praticante no sentido de que ainda não tinha chegado à perfeição. Ou, melhor dizendo, Cristo ainda não o tinha levado à perfeição. E só aqueles que Cristo leva à perfeição podem entrar no Céu. Estamos aqui, portanto, para oferecer as nossas orações por esse aperfeiçoamento, por essa obra final da graça de Deus, de libertar o nosso pai de toda carga de pecado.

Mas não precisam levar em conta a minha palavra. O nosso próprio pai — não surpreendentemente — tinha algo a dizer sobre o assunto. Escrevendo anos atrás a um ministro presbiteriano com cujo funeral ele ficou admirado, ele resumiu com uma certa gentileza as armadilhas dos funerais (e por que ele não gostava dos elogios fúnebres). Ele escrevia que "mesmo quando o falecido foi uma pessoa admirável — na verdade, especialmente quando o falecido foi uma pessoa admirável — louvar as suas virtudes pode nos levar a esquecer que nós estamos rezando e agradecendo a Deus por Sua inexplicável misericórdia com um pecador." Mesmo agora, ele não teria se poupado disso. Estamos aqui, pois, como ele gostaria, para implorar a inexplicável misericórdia de Deus para com um pecador — este pecador, Antonin Scalia. Não mostremos um falso amor para com ele, nem deixemos que a nossa admiração o prive de nossas preces. Continuaremos a demonstrar a nossa afeição e fazer bem a ele se rezarmos por ele: para que toda mancha do pecado seja lavada, para que todas as feridas sejam curadas, para que ele seja purificado de tudo o que não seja Cristo. Para que ele descanse em paz.

Por fim, olhamos para Jesus sempre, para a eternidade. Ou, melhor, consideramos o nosso próprio lugar na eternidade, e se ela será com o Senhor. Mesmo quando rezamos por nosso pai, para que entre depressa na eterna glória, devemos lembrar de nós mesmos. Todo funeral nos lembra quão tênue é o véu que separa este e o outro mundo, o tempo e a eternidade, a oportunidade de conversão e o momento do juízo. Por isso, não podemos sair os mesmos daqui. Não tem sentido algum celebrar a bondade e a misericórdia de Deus para com o nosso pai se não estamos atentos e não respondemos a essas realidades em nossas próprias vidas. Devemos deixar que esse encontro com a eternidade nos mude, nos tire do pecado e nos converta para o Senhor. O dominicano inglês Pe. Bede Jarrett o disse de forma muito bela quando rezou, "Ó, poderoso Filho de Deus... enquanto preparas um lugar para nós, prepara-nos também para aquele lugar bem-aventurado, para que possamos estar contigo e com aqueles que amamos por toda a eternidade."

"Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre." Meus caros amigos, essa é também a estrutura da Missa — a melhor oração que podemos oferecer por nosso pai, porque não é nossa, mas do Senhor. A Missa lança o olhar a Jesus ontem, volta para o passado — a Última Ceia, a crucificação, a ressurreição — e faz esses mistérios e o seu poder presentes aqui, sobre esse altar. O próprio Jesus se torna presente aqui hoje, sob as espécies do pão e do vinho, a fim de que possamos unir todas as nossas orações de ação de graças, de luto e de petição com o próprio Cristo, como uma oferta ao Pai. E tudo isso, com o olhar na eternidade, que se estende até o Céu, onde esperamos gozar da perfeita união com o próprio Deus e ver novamente o nosso pai, e com ele regozijar na comunhão dos santos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Atenção: Os comentários devem ser respeitosos e relacionados estritamente ao assunto do post. Toda polêmica será prontamente banida. Todos os comentários são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, de maneira alguma, a posição do site padrepauloricardo.org. Reservamo-nos o direito de excluir qualquer comentário que julgarmos inoportuno ou que não esteja de acordo com a política do site.