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Onde está escrito que só a Bíblia vale?
Doutrina

Onde está escrito
que só a Bíblia vale?

Onde está escrito que só a Bíblia vale?

Cristo não disse aos Apóstolos: “Sentai-vos, escrevei ou viajai e distribui Bíblias”, mas sim: “Ide e pregai; quem vos ouve, a mim ouve”.

Pe. Leonel Franca6 de Novembro de 2017Tempo de leitura: 8 minutos
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“A Bíblia, e só a Bíblia: eis a única regra de fé”. Verdade capital, fundamento de todo o cristianismo e que, por isso mesmo, se devera encontrar expresso com uma clareza insofismável na própria Escritura. No entanto, abro a Bíblia, percorro-a de cabo a rabo, e não a encontro uma só vez nem sequer acenada! Que terrível decepção! Para firmar a sua norma de fé, o protestantismo começa por violá-lo flagrantemente. A contradição irrompe logo pela primeira porta e crava-se no coração do sistema.

Lutero e os seus discípulos encalçados pela lógica dos católicos deram-se a folhear as Escrituras à cata de textos que os justificassem. Baldado esforço. Nenhum protestante instruído ousaria fazer gala das investigações exegéticas dos primeiro reformadores. Nem foram mais felizes os que lhes sucederam na desesperada empresa. Assim, da sua excursão pela imensa seara bíblica colheu o Sr. C. Pereira [1] não mais de três textos. Quereis ver-lhes a força demonstrativa?

O Pe. Leonel Franca, autor destas linhas.

O primeiro é de S. João (5, 39): “Examinai as Escrituras”. O seu significado nem de longe acena à tese protestante. Cristo num discurso apologético prova contra os seus adversários a divindade de sua missão. Invoca primeiro o testemunho do Padre, depois o do Precursor, apela em seguida para os seus milagres e finalmente num argumento ad hominem aduz a verificação das profecias escritas: “Vós examinais [2] as Escrituras cuidando ter nelas a vida  eterna; pois são elas que dão testemunho de mim”.

Ver nestas palavras — dirigidas não aos discípulos, mas aos adversários, propostas não como regra de fé do cristianismo, senão como prova apologética do seu messiado — uma confirmação da teoria protestante, é zombar da Escritura e insultar o bom senso dos leitores.

O segundo texto é tirado de S. Mateus (13, 43). Ao terminar a explicação da parábola do trigo e do joio diz Jesus: “Quem tem ouvidos de ouvir, ouça”. O Sr. C. Pereira vê aí toda a doutrina da Reforma: só a Bíblia é regra da fé; só o livre exame deve interpretá-la. Se, a grande esforço, não chegais a enxergar naquelas palavras todas estas importantíssimas verdades, a culpa é vossa. Falta-vos aquela agudeza de intuição que caracteriza a exegese do ilustrado gramático.

O Apocalipse de S. João subministra-lhe outro passo não menos peremptório: “Bem-aventurado aquele que lê e ouve as palavras desta profecia” (1, 3). O que diz o Discípulo amado, entende-se facilmente. Ler e ouvir a palavra inspirada é fonte de felicidade. A Igreja a lê todos os dias na sua liturgia e aconselha repetidamente a sua leitura aos fiéis. Mas daí à afirmação protestante vai um abismo que nem a hermenêutica mais atrevida é capaz de saltar.

Com estas infantilidades proferidas em tom de seriedade aruspicina, julga-se o Sr. C. Pereira no direito de concluir: “estes passos e muitos outros [3] da Sagrada Escritura importam em um reconhecimento formal do direito, e, ainda mais, do dever do livre exame e juízo privado no estudo do código divino”. Quem tem ouvidos de ouvir ouça... e pasme diante desta lógica de por aí além!

Mas se a Escritura, nem mesmo torturada, dá um só texto em favor do protestantismo, a sua origem, a sua índole, as suas declarações formais depõem concordemente contra ele.

Jesus Cristo só ensinou de viva voz, não escreveu uma só linha. E todo o cristianismo deveria apoiar-se num livro! E Cristo não nos deu este livro! E Cristo não disse aos seus apóstolos: “Sentai-vos, escrevei ou viajai e distribui Bíblias”; senão: “Ide e pregai; quem vos ouve, a mim ouve”. E os apóstolos foram fiéis à sua missão; poucos escreveram e pouco, todos pregaram e muito.

Já a Igreja estava fundada, já o cristianismo se havia propagado e não havia ainda um livro do Novo Testamento! O primeiro evangelho de S. Mateus, escrito em aramaico, saiu na Palestina vários anos depois da ascensão do Senhor; o último, de S. João, veio à luz nos derradeiros anos do primeiro século. Durante este tempo a Igreja crescia e prosperava em todo o mundo. Qual era então a regra de fé dos cristãos? Qual o veículo da doutrina integral de Jesus? O ensino oral, vivo, autêntico dos apóstolos ou dos a quem eles confiaram o governo e a doutrina das cristandades [4].

Em que dia, em que ano, em que época cessou esta economia para dar lugar ao reino do livro? Só a Bíblia o deveria dizer. Di-lo? Não. Antes como depois da Bíblia, a Igreja continua sempre como a fundou Cristo, como a estabeleceram os apóstolos, afirmando o direito de ensinar de viva voz, de examinar e interpretar os livros que se apresentam como inspirados. Na história, nenhum vestígio de ab-rogação da antiga regra de fé.

Seria mesmo possível esta ab-rogação? Seria possível que a Igreja, mais tarde, substituísse outra norma de crer à que foi ensinada, praticada e inculcada pelo próprio Cristo e pelos apóstolos?

Mas, enfim, os apóstolos escreveram alguma coisa; escreveram  evangelhos e epístolas. Porventura pretenderam encerrar nestes escritos todo o cristianismo, todo o depósito das verdades reveladas? Basta considerar-lhes a índole e natureza para responder imediatamente e sem tergiversar: não.

S. Mateus escreve para provar aos hebreus que Jesus é o Messias prometido. Da vida do Salvador escolhe os fatos que lhe faziam ao intento e omite os outros. S. Marcos, que resume a pregação de S. Pedro, é ainda mais conciso e poucas notícias novas adianta às que já escrevera S. Mateus. Aos evangelistas anteriores S. Lucas acrescenta algumas parábolas, alguns milagres, alguns episódios da vida do Senhor. S. João, a pedido dos fiéis, toma a pena para pôr em maior relevo a divindade de Cristo, contra as heresias nascentes dos corintianos, ebionitas e nicolaítas.

E as epístolas? Escrevem-nas os seus autores, segundo a oportunidade, para corrigir um erro, extirpar um preconceito, expor uma doutrina, premunir contra uma heresia, dar um conselho, etc. Surgem escândalos na igreja de Corinto? Dirige-lhe S. Paulo duas epístolas veementes. Ilaqueiam os judaizantes a boa fé dos Gálatas? Escreve-lhes o apóstolo precavendo-os contra as suas insídias. A Timóteo, a Tito manda conselhos, exortações, instruções sobre o modo de governar a Igreja, etc.

Em todo o Novo Testamento não há um só compêndio ordenado da doutrina cristã, nada que se pareça com um manual, um código, um catecismo destinado a substituir o magistério vivo e ser para o futuro o canal exaustivo do ensinamento cristão. À vista deste caráter evidentemente ocasional de todos os livros inspirados do N.T., como afirmar que só a Bíblia é fonte de fé, que só nela se encerram todas as verdades religiosas?

Os Apóstolos na Ascensão do Senhor.

Há mais. Os próprios apóstolos que deixaram escritos e precisamente os que por último escreveram, são os primeiros a declarar que não escreveram tudo, são os primeiros a insistir em que se conserve a tradição do seu ensino oral. S. João remata o seu Evangelho advertindo que Jesus fez muitas outras coisas que não se acham escritas no seu livro nem em livro algum (cf. Jo 20, 30; 21, 25). O mesmo apóstolo termina as suas duas últimas epístolas dizendo expressamente que não quis confiar tudo à tinta e ao pergaminho, reservando para o comunicar de viva voz: os ad os loquemur (cf. 2Jo, 12; 3Jo, 14).

S. Paulo não se cansa de inculcar a necessidade da tradição oral. Aos tessalonicenses: “Estai firmes, irmãos, e conservai as tradições que aprendestes ou de viva voz ou por epístola nossa” (2Ts 2, 15). Na mesma carta: “Nós vos prescrevemos […] que vos aparteis de todos os irmãos que andem desordenadamente e não segundo a tradição que receberam de nós” (2Ts 3, 6). A Timóteo: “O que de mim ouviste por muitas testemunhas, ensina-o a homens fiéis que se tornem idôneos para ensinar aos outros” (2Tm 2, 2). Aí está claro o ensino vivo,  transmitido por tradição de uns a outros. O apóstolo já velho, nas vésperas do martírio, adverte a Timóteo a necessidade de prover quem continue o seu magistério. Nada de livre exame das Escrituras; sempre o ensino oral feito por mestres autorizados.

Nas suas duas epístolas ao mesmo discípulo, insiste ainda São Paulo para que conserve o bom depósito: “bonum depositum custodi” (1Tm 6, 20; 2Tm 1, 14). Com os corintos, na sua primeira epístola, congratula-se porque haviam conservado as suas tradições orais: “sicut tradidi vobis, praecepta mea sustinetis” (1Cor 1, 14).

De todos estes textos o Sr. C. Pereira nem uma palavra! Em vez de cantar em todos os tons o mesmo estribilho: a Bíblia, e só a Bíblia, fora melhor que a patenteasse aos seus leitores e lhes dissesse sinceramente: “Julgai. Em todo o N.T. nem uma só vez se propõe explicitamente ou implicitamente a regra protestante.  Em mil lugares diversos se inculca a necessidade do ensino vivo, a importância de conservar a tradição, a insuficiência da Escritura, que, segundo afirma S. João, não encerra tudo o que ensinou o Salvador. Jesus Cristo nunca mandou aos seus discípulos que folheassem em um livro para achar a sua doutrina, mandou pelo contrário aos fiéis que ouvissem aos que Ele mandara pregar: Quem vos ouve, a mim ouve; se algum não ouvir a Igreja, seja considerado como infiel e publicano, isto é, não pertencente à minha Igreja; se algum não vos receber nem ouvir as vossas palavras, saindo da casa ou da cidade, sacudi o pó dos sapatos; Pai, oro, não só por esses (apóstolos), mas por todos os que hão de crer em mim mediante a sua palavra a fim de que sejam todos uma coisa só. Foi Jesus ainda quem prometeu o seu Espírito de Verdade, a sua assistência espiritual, todos os dias até à consumação dos séculos, para que os apóstolos, vivendo moralmente em seus sucessores, continuassem até ao fim dos tempos a ensinar sempre tudo o que Ele nos mandou. Eis, meus caros leitores, o que diz a Bíblia”.

Assim devera falar o Sr. C. Pereira, se desejasse ser sincero e realmente lhe interessasse o conhecimento exato e fiel das Escrituras. Mas é mais fácil repisar o estafadíssimo chavão: A Bíblia, só a Bíblia. É mais cômodo passar a esponja na história e continuar a escrever: Roma fecha a Bíblia; só a Reforma abriu aos povos o Livro da palavra de Deus.

Referências

  1. Trata-se de Eduardo Carlos Pereira (1855-1923), mineiro de origem que durante vários anos lecionou português e latim no estado de São Paulo. Foi uma das principais vozes do presbiterianismo em terras brasileiras no século XIX e inícios do século passado. Publicou, por volta de 1920, um estudo intitulado O Problema Religioso do América Latina, de tom marcadamente anti-católico. Foi contra as afirmações contidas nesta obra que o Pe. Leonel Franca escreveu, em 1922, o livro A Igreja, a Reforma e a Civilização, de cuja 5.ª edição são transcritas no presente artigo apenas alguns trechos (Equipe CNP. Todas as demais notas são do autor).
  2. O contexto mostra evidentemente que scrutamini é forma de indicativo, não de  imperativo.
  3. Que pena terem eles ficado no tinteiro do erudito pastor.
  4. Em duas admiráveis conversões relatadas por S. Lucas salienta-se com admirável relevo a necessidade do ensino oral. Saulo, prostrado no caminho de Damasco pergunta a Jesus: Senhor, que quereis que eu faça? — Levanta-te, entra na cidade, e aí te dirão o que deverás fazer. Act., IX, 6. Não lhe dá uma Bíblia. — Voltava de Jerusalém o eunuco  da rainha Candace de Etiópia e lia Isaías. Filipe, apóstolo, movido pelo Espírito Santo  aproxima-se e pergunta-lhe: crês porventura que entendes o que estás lendo? — E como o poderei entender, torna o eunuco, se não houver alguém que mo explique? Sobe então o apóstolo ao carro e, tomando ocasião do passo que acabara de ler, evangeliza-o e administra-lhe o batismo. Act., VIII, 26, sgs. — Onde a suficiência da Escritura interpretada pelo livre exame?

Notas

  • Transcrição de Pe. Leonel Franca, A Igreja, a Reforma e a Civilização. 5.ª ed., Rio de Janeiro, Vozes, 1948, pp. 212-217.

Comentários

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Participar da Missa: você está fazendo isso errado!
Liturgia

Participar da Missa:
você está fazendo isso errado!

Participar da Missa: você está fazendo isso errado!

“O altar é um Calvário”: eis a consciência que precisamos para participar bem da liturgia e comportar-nos melhor na igreja. Todo o resto, principalmente o “auê”, pode ficar muito bem, obrigado, do lado de fora.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 8 minutos
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Recebemos nas redes sociais, alguns meses atrás, o seguinte comentário, como resposta ao nosso último texto sobre o latim na liturgia

O sacerdote orar em latim, de costas para os fiéis… Misericórdia! Minha avó contava que tinha pessoas que oravam o terço durante a missa, outras dormiam, ou seja, não participavam de nada do mistério da missa

Sim, você certamente já ouviu, também, algum comentário do gênero. Infelizmente, é essa a impressão que muitas pessoas, se não a maioria, têm sobre como era rezada a Santa Missa antes da reforma litúrgica após o Concílio Vaticano II. Não é raro que se ouça aqui e ali, inclusive a respeito das mudanças que sofreu o rito romano, alguém comparar a Missa de São Pio V a uma espécie de “Velho Testamento” da liturgia católica. Antes, o povo inteiro estava “à espera”, ansiando pelo acesso “pleno” aos mistérios sagrados, que se ocultavam sob uma língua incompreensível, um sacerdócio afastado do povo, uma Igreja “fria” e “imobilizada”, que não se comunicava efetivamente com os fiéis... Até que veio o Novus Ordo.

Sacerdote celebrando no rito romano antigo.

Por trás desse preconceito com a antiga liturgia e os antigos costumes católicos está uma visão de progresso malsã, que não raro pode colocar em xeque a própria infalibilidade da Igreja. Afinal, se Pentecostes foi “adiado” até 1969, por assim dizer, onde estava o Espírito Santo nesse meio tempo? Como fica a promessa de Nosso Senhor de que estaria com seus discípulos omnibus diebus, “todos os dias”, usque ad consummationem saeculi, “até a consumação dos séculos” (Mt 28, 20)? 

O Papa emérito Bento XVI se manifestou diversas vezes contra essa visão, primeiro como Cardeal — em O Sal da Terra, por exemplo: “Uma comunidade põe-se a si mesma em xeque quando declara como estritamente proibido o que até então tinha tido como o mais sagrado e o mais elevado, e quando considera, por assim dizer, impróprio o desejo desse elemento” (Rio: Imago, 2005, p. 141) — e também depois, já Pontífice, ao autorizar amplamente a celebração da Missa antiga: “Na história da Liturgia, há crescimento e progresso, mas nenhuma ruptura”, disse ele na ocasião. “Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial”. Noutras palavras, se não conseguimos apreciar a liturgia antiga, o problema não era com a Igreja; é conosco.

Nossos antepassados conviveram por mais de 400 anos com a liturgia do Concílio de Trento e, considerando a quantidade de santos que se formaram na escola dessa divina liturgia, chega a soar como um insulto a acusação de que, ao longo desse tempo, as pessoas “não participavam de nada do mistério da missa”. 

Comece-se pelo fato de que o conceito que temos de participação [1] na liturgia é muitíssimo deficiente, quando não completamente equivocado

É deficiente porque, hoje, tendemos a pensar que só participa bem a pessoa que sabe todas as respostas da Missa de cor, que sabe entoar todos os cantos que o ministério de música puxar, que sabe a hora certa de ficar de pé, sentar e ajoelhar-se etc., quando, na verdade, uma pessoa pode estar fazendo tudo isso sem adentrar minimamente o mistério que está diante dela. A esse respeito, valeria a pena recordar, retomando uma lição de Santo Tomás de Aquino (cf. STh II-II 83, 13), que na oração a atenção às palavras é menos importante que a atenção à presença de Deus. Na liturgia, que é a oração pública da Igreja, deve dar-se o mesmo: a ideia é que estejamos concentrados no Senhor; todo o resto é acessório e subordina-se a isso.

Mas tantas vezes nosso conceito de participação na liturgia é também equivocado. Quando a Constituição Sacrosanctum Concilium, do Vaticano II, fez referência “àquela plena, consciente e ativa participação (actuosam participationem) nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da Liturgia exige e que é, por força do Batismo, um direito e um dever do povo cristão” (n. 14), é difícil imaginar que os Padres conciliares tenham pensado, por exemplo, em palminhas efusivas, performances coreográficas e uma assembleia dialogante, a todo o tempo respondendo ao sacerdote como num programa de auditório... 

Não, esse nunca foi o sentir da Igreja a respeito da divina liturgia. Tomar parte nos santos mistérios não significa posicionar-se como uma Marta agitada ao redor do altar, procurando algo que fazer. A atividade dos fiéis na igreja consiste muito mais na atitude contemplativa de Maria, que se põe “aos pés do Senhor para ouvi-lo falar” (Lc 10, 39).

Aqui é importante destacar o seguinte: cada um participa da Missa na medida de sua capacidade e da forma que lhe for mais conveniente. Não é correto impor a todo o povo fiel uma forma única de tomar parte nos mistérios sagrados, como se todas as outras fossem erradas… O respeito e a reverência, evidentemente, são devidos sempre, mas eles não se manifestam apenas no fiel que, com o Missal ou um folheto em mãos, responde ao padre, acompanha todas as orações e penetra-lhes o significado. Antigamente, era mesmo muito comum que as pessoas recitassem o Rosário durante a Missa ou praticassem outra forma de devoção que as ajudasse a acompanhar os santos mistérios. 

Sim, nossa visão atual de participação litúrgica deplora isso (o ar escandalizado do comentário que transcrevemos acima não nos deixa mentir), mas o costume era encarado com bastante naturalidade há não muito tempo. Fosse a Via-Sacra, algo sobre a Paixão do Senhor ou orações afins, o importante é que os fiéis, na quietude de seus bancos, se unissem ao sacerdote que oferecia o santo Sacrifício, oferecendo-se a si mesmos “em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus” (Rm 12, 1). Com a palavra a esse respeito, o Papa Pio XII:

Não poucos fiéis, com efeito, são incapazes de usar o “Missal Romano” ainda quando escrito em língua vulgar; nem todos são capazes de compreender corretamente, como convém, os ritos e as cerimônias litúrgicas. A inteligência, o caráter e a índole dos homens são tão vários e dissemelhantes que nem todos podem igualmente impressionar-se e serem guiados pelas orações, pelos cantos ou pelas ações sagradas feitas em comum. Além disso, as necessidades e as disposições das almas não são iguais em todos, nem ficam sempre as mesmas em cada um. Quem, pois, poderá dizer, levado por tal preconceito, que tantos cristãos não podem participar do sacrifício eucarístico e aproveitar-lhe os benefícios? Certamente que o podem fazer de outra maneira, e para alguns mais fácil: por exemplo, meditando piamente os mistérios de Jesus Cristo ou fazendo exercícios de piedade e outras orações que, embora na forma difiram dos sagrados ritos, a eles todavia correspondem pela sua natureza (Mediator Dei, n. 98).

O problema, portanto — voltemos ao ponto inicial —, não era lá atrás com a Igreja; o problema é hoje, conosco. Essas práticas de piedade a que Pio XII faz referência, muito comuns no rito antigo, só floresceram graças a uma atmosfera de silêncio sagrado que agora, infeliz e tragicamente, já não existe na maior parte das liturgias católicas — seja como consequência de aspectos da própria reforma de 1969, seja como efeito da dissipação geral em que nos encontramos.

O que fazer, então? Pedir ao Papa que baixe um decreto mandando todos “fecharem a matraca” durante a Missa? De acordo com o Cardeal Robert Sarah, em seu O Poder  do Silêncio, essa está muito longe de ser a solução para a nossa crise atual:

O silêncio é uma atitude da alma. Ele não pode ser imposto por decreto sem parecer exagerado, vazio e artificial. Nas liturgias da Igreja, o silêncio não pode ser uma pausa entre dois rituais; ele em si é um ritual por completo, que a tudo envolve. Trata-se do tecido a partir do qual devem ser feitas todas as nossas liturgias. Nada nelas deve interromper a atmosfera silenciosa que constitui sua configuração natural (n. 250). 

O Prefeito do Culto Divino fala aqui a partir de sua consciência de fé, pois o silêncio brota naturalmente dos corações que se sabem na presença de Deus — e aqui está o grande segredo de tudo. Silenciar, para os animais, pode ser muito bem um simples “calar a boca”; para os seres humanos, porém, a ausência de barulho não quer dizer muita coisa. Quantas vezes, por exemplo, mesmo mudos, não nos encontramos interiormente agitados, com um sem-número de sons e imagens na cabeça? Se não houver um treinamento contínuo fora da liturgia, um verdadeiro cultivo da vida interior, nem sacerdotes nem o povo fiel serão capazes de reproduzir um silêncio autêntico e sagrado na Santa Missa.

É preciso também ter ao menos uma noção básica do que acontece na liturgia — coisa que, infelizmente, muita gente não tem. Curiosa e paradoxalmente, um pretexto muito difundido para se acabar com o latim na liturgia era de que o povo não entendia nada da Missa — ou, como colocou nosso comentarista, as pessoas “não participavam de nada do mistério”. Cabe-nos perguntar, porém, se agora, “rasgado o véu do templo”, alguma coisa realmente mudou. Será que passamos a entender mais, a participar melhor da Missa? 

O Pe. João Batista Reus reagia a esse argumento em seu Curso de Liturgia dizendo o seguinte: “A missa é uma ação, não um curso de instrução religiosa. No Calvário não havia explicações. O altar é um Calvário. Todo cristão sabe o que significa: imolar-se” (3.ª ed. Petrópolis: Vozes, 1952, p. 53).

Pois bem, é disso que se trata. Sabemos o que significa imolar-se? Ou nos animalizamos a ponto de perder até isso?

Quando as Missas públicas voltarem ao fim da quarentena (em alguns lugares já estão retornando), acerquemo-nos do altar de nossas igrejas como quem se aproxima do Calvário, da Cruz de Cristo, da solene imolação que nos deu a salvação. É dessa consciência que precisamos para participar bem da liturgia e comportar-nos melhor na igreja. Todo o resto, principalmente o “auê”, pode ficar muito bem, obrigado, do lado de fora.

Notas

  1. Há quem se pergunte se o correto é assistir ou participar da Santa Missa. Sobre isso, leia-se esse artigo do site Veritatis Splendor. De qualquer modo, há uma miríade de verbos que podem ser usados nesse contexto: a Missa se reza, se diz (no caso do padre), se escuta ou se ouve (no caso dos fiéis), dela se participa e a ela se assiste, e não há problema no uso de nenhum desses verbos, desde que sejam entendidos em um sentido concorde com o que orienta a Igreja sobre a santa liturgia.

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Uma ofensa ao bom senso
Sociedade

Uma ofensa ao bom senso

Uma ofensa ao bom senso

Ao colocar um homem “trans” para representar a paternidade, a empresa Natura sabia bem o que estava fazendo. Mas não é em campanhas de “cancelamento” na internet, e sim no exemplo dos santos, que vamos encontrar a melhor defesa dos valores cristãos.

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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Uma marca de cosméticos decide fazer uma campanha publicitária para o “dia dos pais”. Mas a campanha deveria ser original, provocativa, instigadora, de modo que não passasse despercebida. A propaganda, afinal de contas, sempre foi “a alma dos negócios”. Nada melhor, portanto, que conseguir uma grande repercussão na mídia, ainda que às custas de uma polêmica. E o que gera polêmica nos dias de hoje? Sim, questões de “gênero”.

Ao colocar um homem “trans” para representar a paternidade, a empresa Natura sabia muito bem o que estava fazendo. De um lado e do outro, os ânimos logo se acirraram, o pastor Silas Malafaia pediu boicote, a imprensa fez matérias e matérias a respeito, e os brasileiros, como de costume, produziram memes. Muitos memes. Enquanto isso, as ações da Natura na Bolsa subiram lindamente, registrando índices que a marca não obtinha há um bom tempo. Que os empresários do ramo atribuam esse resultado a outros fatores, é mero casuísmo. O fato é que a questão virou o assunto do momento, para bem ou para mal.

Em resposta à celeuma criada pela propaganda, o Pe. Júlio Lancelotti disparou: “O que ofende a tal moral cristã? O pai trans que cuida de seu filho? Ou o abandono, a fome, o desrespeito, o veto ao auxílio emergencial às mães que criam seus filhos sozinhas?” Para o sacerdote, devemos começar a “pensar com a cabeça” e “deixar de ser gado”.

Pensar com a cabeça. Quem conhece minimamente o Catecismo deve saber que a Igreja Católica não professa uma religião fideísta. Sem os exageros do racionalismo, os católicos defendemos bravamente o uso natural da razão para a investigação científica, investigação da verdade que as coisas carregam em si mesmas. Por isso, entre a fé e a ciência não pode haver desacordo, afirma o Concílio Vaticano I, “porquanto o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé, dotou o espírito humano da luz da razão” (Dei Filius, IV). Isso significa que os juízos do Magistério acerca de questões morais e bioéticas não são simplesmente repetições fundamentalistas de textos bíblicos, mas expressões autênticas do reto uso da inteligência, que se debruça sobre as coisas e extrai delas, por meio da meditação, sua mais profunda essência.

“Fé e Razão unidas”, de Ludwig Seitz.

Com efeito, a posição católica sobre sexualidade humana é, naturalmente, fruto desse estudo racional — sim, também iluminado pela fé, mas ainda racional —, que reflete a genuína natureza do homem e da mulher. Pela razão mesma, podemos encontrar a substância e os acidentes próprios de cada ser, pelo que temos uma identidade, que não pode ser manipulada a partir de um desejo inusitado. E ainda que o pensamento moderno ignore esses princípios, a fim de adaptar a realidade ao gosto pessoal de cada um, ninguém jamais poderá escapar disto: veritas est adæquatio intellectus et rei. A verdade não é criada pela razão humana, mas reconhecida e acolhida por esta. Apenas uma mente muito perturbada pode “fugir” dessa regra.

O problema com a peça publicitária em questão é, consequentemente, intelectual. Antes de ofender “a tal moral cristã”, por assim dizer, ela ofende o bom senso, a inteligência das pessoas, a razão natural e a natureza das coisas. Não existe cirurgia plástica ou propaganda capaz de mudar a natureza de um ser. A própria comunidade LGBT reconhece isso, ainda que sem perceber, quando se opõe a uma mulher “cis” interpretando um homem “trans” [1]. De fato, não é a mesma coisa. A sexualidade humana não é intercambiável como é a de alguns peixes. A perplexidade de grande parte do público, nesse sentido, é simplesmente a reação espontânea de quem percebe estar trocando gato por lebre. E perceber isso não é coisa de “gado”; é coisa de gente.

É um grande contrassenso, aliás, contrapor a ideia “do pai trans que cuida do filho” ao problema do “abandono” e da “fome” de algumas crianças, como se uma coisa justificasse a outra. Ora, muitos filhos de parceiros homossexuais são gerados por inseminação artificial ou fecundação in vitro, a partir de sêmen ou óvulo doados por anônimos. Nesses procedimentos, os médicos precisam desenvolver vários embriões para que ao menos um deles consiga “vingar”. É assim que muitos seres humanos acabam congelados em clínicas de fertilização, esperando pelo seu próximo comprador ou pelo descarte. Ações como essas, obviamente, não resolvem o problema de crianças abandonadas, por mais “bonito” e “engraçadinho” que seja um comercial. Ao contrário, elas só criam novos (e piores) dilemas.

De resto, a campanha da Natura é mais um capítulo, intencional ou não, de um projeto muito maior para a fabricação de um “novo normal”. É sobre isso que as pessoas precisam meditar antes de se lançarem em campanhas de “cancelamento” na internet. Ir à página de alguém, que é apenas mais uma personagem nessa história, para dizer palavras de ordem e xingamentos, não faz sentido, não é inteligente, nem caridoso. Comportamentos assim apenas reforçam a narrativa de que cristãos e conservadores são “homofóbicos”, “transfóbicos” etc. Isso significa, em velho jargão, dar “munição ao inimigo”.

A reação adequada à agenda do “novo normal” precisa inspirar-se no proceder de homens santos, que foram “prudentes como as serpentes e simples como as pombas”. Nesse sentido, o testemunho de S. Carlos Lwanga, mártir de Uganda, é bastante eloquente para o nosso contexto, porque ele teve de resistir precisamente à imposição de uma “moral” sexual avessa à pureza e à castidade cristã. Para isso, ele não precisou recorrer a armas mundanas, ao ataque pessoal e ofensivo. S. Carlos Lwanga e seus companheiros apenas cumpriram aquilo que foi pedido por S. Paulo aos Filipenses: fizeram todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serem “irrepreensíveis e inocentes, filhos de Deus íntegros no meio de uma sociedade depravada e maliciosa”, onde brilharam como luzeiros no mundo (2, 14–15).

Carlos estava entre os serviçais do rei de Uganda, quando conheceu a fé católica e decidiu receber os sacramentos. Por ser muito estimado por todo o séquito real, o superior da Sociedade dos Missionários da África designou-o para educar e proteger os pajens reais (jovens serviçais do rei). Carlos Lwanga tratou logo de os instruir na fé e na moral cristã, sobretudo para resguardá-los do assédio sexual dos membros da corte. Isso provocou a ira do rei: Mwanga viu-se diretamente lesado em seus direitos, uma vez que era comum os monarcas manterem relações com seus serviçais. E o cristianismo havia posto um fim a essa prática. 

A resposta foi fulminante. Mwanga fez um ultimato: ou seus pajens renegavam a fé, ou seriam mortos. Carlos Lwanga, percebendo o risco que sofriam, batizou os que ainda não haviam recebido os sacramentos e preparou-os para o martírio. Todos foram mortos. Lwanga, por sua vez, foi queimado vivo, na presença de seus 22 companheiros, em 3 de junho de 1886.

Notem os detalhes. Carlos Lwanga não levantou insurreições contra o rei, mas dedicou-se a formar a consciência dos jovens numa moral firme e agraciada pelos sacramentos. Ele não ousou “matar pela fé”: ele morreu por ela, o que faz toda a diferença. Não se pode acusá-lo de “fanatismo”, “histeria”, “intolerância” ou qualquer outro rótulo pejorativo, como adoram fazer as mentes liberais que ditam as regras nestes tempos. Um fanático, bem sabemos, age contra a humanidade. Ele decide, por meio de coação, quem deve viver ou morrer. O mártir, ao contrário, dá testemunho da verdade com o próprio sangue. O mártir é um herói da humanidade.

A ideologia de gênero é o rei Mwanga da nossa época. Não sendo capaz de provar a validade de suas teorias, necessita impor-se por meio de artifícios retóricos, como a propaganda, ou por delinquência intelectual com a inserção forçosa do tema nos currículos escolares: “Os homens, sabendo que suas obras são más, odiaram a luz e elaboraram teorias falsas para justificar seus pecados” [2]. Há mais: usam a força em nome da mentira. Assim, vemos pais presos por educarem seus filhos na correta sexualidade humanabispos amordaçados em seus direitos de expressão e cidadaniamanobras políticas odiosas para ludibriar a população acerca do assunto etc.

Qual deve ser, nesse contexto, a reação do discípulo de Cristo? A mesma dos santos: defender com firmeza a verdade, sem perder de vista o amor ao próximo, ainda que isso nos custe a execração pública ou mesmo a morte. Somos defensores da fé e da razão. Não precisamos — nem admitimos! — de homens bombas ou de mentiras para dar testemunho de nossas convicções. Aliás, bem dizia o Cardeal Ratzinger há alguns anos, “nenhuma ideologia pode cancelar do espírito humano a certeza de que só existe matrimônio entre duas pessoas de sexo diferente, que através da recíproca doação pessoal, que lhes é própria e exclusiva, tendem à comunhão das suas pessoas” [3].

Peçamos, pois, a intercessão de S. Carlos Lwanga e seus companheiros nesta grande luta. Até o martírio, se preciso for!

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Orações para discernir a própria vocação
Oração

Orações para discernir a própria vocação

Orações para discernir a própria vocação

Aos que ainda estão escolhendo o próprio estado de vida, oferecemos abaixo algumas orações a fim de pedir a Deus luzes para conhecer o caminho que Ele nos tem preparado, força para começar a jornada e constância para percorrê-lo até o fim.

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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“Na empresa da própria santificação”, escreve o Pe. Antonio Royo Marín, “cada um há de pôr a suprema esperança de sua vida, o máximo interesse, empregando todas as forças recebidas de Deus segundo a medida do dom de Cristo. Só a este preço alcançará o cristão sua plena perfeição sobrenatural, que se traduzirá depois em um peso incomensurável de glória para toda a eternidade” (2Cor 4, 17) [1].

Mas esse belo empreendimento, o único que realmente vale a pena, não se leva a cabo de forma genérica, impalpável, no limbo dos “bons desejos”, mas nas circunstâncias concretas em que o Senhor põe a cada um de nós. Por isso, poucas coisas são tão necessárias ao fiel do que escolher o gênero de vida em que há de realizar, com matizes próprios, a única santidade cristã, a mesma que cultivam, substancialmente, os sacerdotes, no estado eclesiástico; os religiosos, na vida consagrada; os esposos e pais, nas ocupações da família; e os leigos celibatários, como fermentos de pureza na massa da sociedade.

Ora, como nenhuma decisão séria que tenha ressonâncias de eternidade deve ser feita com leviandade e sem reflexão, a escolha do próprio estado de vida, convém prepará-la com muita oração, imitando nisso o exemplo de Cristo, que dirigia ao Pai frequentes orações antes dos principais momentos de sua missão na terra. Com a intenção de ajudar os leitores que ainda estão discernindo a própria vocação, oferecemos abaixo algumas orações para pedir a Deus luzes para conhecer o caminho que Ele nos tem preparado, força para começar a jornada e a constância para percorrê-lo até o fim.


Orações para discernir e escolher o estado de vida
(Coeleste palmetum, XXXII, pp. 365–366)

1. Oração a Deus Pai para pedir a divina sabedoria e o Espírito Santo (cf. Sb 9). — Deus eterno e todo-poderoso, que todas as coisas criastes pela Vossa palavra e que, por Vossa sabedoria, formastes o homem: fazei-a descer do Vosso santo céu e enviai-a do trono de Vossa glória, para que, junto de mim, tome parte em meus trabalhos, e para que eu saiba o que Vos agrada. Que homem pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor? Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções; porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados. E quem conhece Vossas intenções, se Vós não lhe dais a sabedoria, e se do mais alto dos céus não lhe enviais o Vosso Espírito Santo? Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra.

Hino Vinde, Espírito Santo. — Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra. — Oremos: Ó Deus, que instruíste os corações dos Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, concedei-nos amar, no mesmo Espírito, o que é reto e gozar sempre a sua consolação. Por Cristo, Senhor Nosso. Amém.

2. Oração a Jesus, para oferecer-se com indiferença a todos os estados. — Eis-me aqui, ó meu Jesus, de pé diante de Vós, indiferente a todos os estados; seguirei sem demora aquele a que Vós me chamardes. Quereis que deixe minha terra, família e casa paterna? Meu coração está firme! Nem a pátria nem os parentes, nem riquezas nem cobiças me hão de reter. Quereis que, tendo a tudo abdicado, Vos sirva na pobreza, na castidade e na obediência religiosa? Meu coração está firme! Quereis que viva em estado eclesiástico? Meu coração está firme! Só Vos peço não me permitais ali chegar por vias ilícitas nem ali viver indignamente. Chamai-me antes deste mundo a Vós por uma morte súbita! Quereis que viva célibe no mundo ou contraia santo matrimônio? Dai-me conhecer Vosso beneplácito: meu coração está firme! Às alegrias e tristezas, às doçuras e asperezas me ofereço. Estou pronto a ir convosco tanto para a prisão como para a morte (cf. Lc 22, 33).

3. Oração à Bem-aventurada Virgem. — A vós, ó Estrela do Mar, entre as vagas instáveis desta vida, elevo meu olhar! Dirigi, ó Mãe da Eterna Luz, o meu coração ao Polo, vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, e guiai-me àquele estado de vida em que eu dignamente sirva a este mesmo Filho vosso e chegue, enfim, ao tão ansiado porto da pátria celeste. Amém.

4. Oração ao Anjo da guarda. — Ó meu Anjo, a cuja tutela fui confiado por Deus; ó guia e companheiro de minha peregrinação, assisti-me neste tão grave negócio de minha salvação! Mostrai-me que caminho devo escolher para alcançar o fim para o qual fui criado, isto é, a eterna bem-aventurança, a fim de merecer contemplar e louvar convosco o meu Deus para sempre. Amém.

5. Oração para perseverar no bom propósito. — Ó benigníssimo Deus, mostrastes-me o caminho que hei de trilhar; manifestastes-me Vossos juízos e leis, dando-me saber que desejais ser servido neste estado… Concedei-me, pois, a Vossa graça, para perseverar constante neste meu propósito e alcançar a eterna salvação. Amém.

Referências

  1. Espiritualidad de los seglares. Madrid: BAC, 1967, p. 28.

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Cristãos “esquisitos”?
Sociedade

Cristãos “esquisitos”?

Cristãos “esquisitos”?

Incenso, véus, canto gregoriano e sacramentais estão de volta… E a iniciativa é justamente dos jovens! Mas de onde vem o interesse das novas gerações pela religião? E por que elas se sentem tão atraídas pelas formas tradicionais de culto?

John Horvat IITradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Muitos autores de esquerda têm dificuldade em explicar a atração dos jovens pela religião, particularmente em suas formas mais tradicionais. Em tese, essa atração não deveria existir. Ela dá curto-circuito na lógica das narrativas prediletas da esquerda. Jovens deveriam sentir-se atraídos por narrativas revolucionárias que pregam o progresso e a igualdade. A história, dizem os esquerdistas, é uma sucessão de disputas de poder que dividem as pessoas entre exploradores e explorados. Jovens religiosos não se encaixam na narrativa porque buscam um Deus que é amor e perdão.

Quando esse autores não conseguem identificar a luta de classes nessa atração religiosa, resolvem elaborar uma ladainha de acusações, tachando os jovens crentes de “racistas”, “misóginos”, “homofóbicos” e até “elitistas”.

Recentemente, a jornalista Tara Isabella Burton causou alvoroço com um ensaio publicado em The New York Times, intitulado Christianity Gets Weird [“O cristianismo torna-se esquisito”]. Ela se identifica como uma jovem cristã tradicional, atraída pelas formas externas mais antigas. Ama incenso, véus, canto gregoriano e sacramentais. No entanto, como moça pós-moderna alheia às principais narrativas ocidentais, ela acha difícil explicar sua atração pelo esplendor medieval e pela “pompa histórica” do culto em latim.

Os liberais que acompanham a tendência sentem uma perplexidade semelhante. Eles tentam minimizar essa atração rotulando-a como uma “moda” da juventude. Dizem que a culpa disso é o apego superficial e fetichista a uma “estética sobrenatural”, que os deixa exasperados, e rotulam de “esquisito” aquilo que não conseguem entender. Isabella e muitos outros que se unem a ela online adotaram o rótulo com certa ironia.

Portanto, cristãos “esquisitos” estão aparecendo na cena cultural, muitas vezes em espaços na internet onde podem se reunir e compartilhar suas opiniões.

A jornalista afirma que “cada vez mais jovens cristãos, desiludidos com binarismos políticos, incertezas econômicas e com o vazio espiritual que define a América moderna, encontram alívio numa visão da fé claramente antimoderna”. 

Os membros das gerações Y e Z percebem o vazio do deserto cultural pós-moderno. Também rejeitam o vazio das principais igrejas protestantes, que atenuaram as verdades sobrenaturais e exaltaram trivialidades. Esses peregrinos online detestam os aspectos estéreis, feios e cruéis da vida moderna.

Eles anseiam por algo verdadeiro e profundo. Sua propensão a “voltar” à Idade Média e à fé tradicional é o pior pesadelo de um esquerdista. Este fica perturbado não apenas por causa da atração que esses jovens sentem por um cristianismo vigoroso, mas também por sua rejeição dos fundamentos antimetafísicos da ordem de esquerda, que foram intensificados pela desagregação política e econômica dessa ordem, provocada pelo coronavírus.

O problema dessa corrente contracultural é a sua dificuldade em se definir e se expressar. Seus seguidores jamais conheceram o mundo tradicional, e agora o admiram. São vítimas de uma cultura pós-moderna caótica, destituída de estrutura e estabilidade. Isabella afirma que uma rebeldia “punk” caracteriza o movimento, que parece ser contrário a tudo o que faz parte do establishment, inclusive a economia moderna.  

Esses jovens são movidos pela “ânsia de algo que está além do que a cultura americana contemporânea lhes pode oferecer, algo transcendente, politicamente significativo e pessoalmente desafiador”.

Eles não sabem exatamente o que estão a buscar, mas detectam algo que os fascina e se apegam a isso com paixão. Críticos superficiais rejeitam esse apego, pois acham que a adesão a aspectos externos pode levar a vários perigos.

Mas esses críticos estão errados.

Existe um nome para o que esses jovens cristãos buscam e encontram nas formas tradicionais de culto, como nas Missas em latim, no incenso e nas Vésperas solenes. Eles encontram uma beleza autêntica que toca e eleva sua alma, fazendo-os distanciar-se da feiura da modernidade. O pensamento filosófico ocidental chama essa beleza de sublime.

É com acerto que Edmund Burke considera o sublime a “emoção mais forte que a mente é capaz de sentir”. Ele consiste em coisas transcendentes que provocam fascínio por causa de sua magnificência. É algo que nos convida a superar o egoísmo e a autossatisfação e a olhar para coisas mais elevadas — o bem comum, a santidade e, em última análise, Deus —, coisas que dão sentido e propósito à vida.  

Quer se manifeste em obras de arte, em grandes feitos ou na liturgia religiosa, o sublime fomenta sentimentos de lealdade, dedicação e devoção que podem preencher o vazio do deserto pós-moderno. 

A Igreja se cerca de coisas sublimes, coisas que sem dúvida atraem e convertem as pessoas para o culto e o serviço a Deus (coisas que, infelizmente, foram abandonadas pelos progressistas). Elas são manifestações externas que revelam algo da própria grandiosidade de Deus. A natureza humana se sente naturalmente atraída por elas e por princípios e doutrinas que fascinam o intelecto, em razão de sua lógica e sabedoria.

Os jovens cristãos estão certos ao presumir que as coisas que provocam fascínio são parte de um modo de vida distinto daquele que encontram hoje no mundo. Também estão corretos em sua percepção do colapso irreversível da ordem esquerdista, que nada lhes oferece de sublime. Não há nada de “esquisito” em sua descoberta de uma ordem social cristã que trilha o caminho oposto das alternativas individualistas e estéreis, que são, elas sim, a verdadeira esquisitice na história humana.

Os esquerdistas pós-modernos não se sentem ameaçados quando o cristianismo tradicional aceita ser apenas mais um de tantos elementos no bufê cultural. Porém, quando as pessoas rejeitam a infraestrutura filosófica que sustenta o esquerdismo, eles perdem toda a tranquilidade. 

O problema, para esse sedentos jovens cristãos, não está no objeto de seu fascínio, mas em como dar os próximos passos que levariam, normalmente, a um aprofundamento de sua fé. É preciso ir além da “esquisitice” e abraçar com sinceridade o sublime, em toda a sua plenitude e autenticidade.

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