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Onde está escrito que só a Bíblia vale?
Doutrina

Onde está escrito
que só a Bíblia vale?

Onde está escrito que só a Bíblia vale?

Cristo não disse aos Apóstolos: “Sentai-vos, escrevei ou viajai e distribui Bíblias”, mas sim: “Ide e pregai; quem vos ouve, a mim ouve”.

Pe. Leonel Franca6 de Novembro de 2017
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“A Bíblia, e só a Bíblia: eis a única regra de fé”. Verdade capital, fundamento de todo o cristianismo e que, por isso mesmo, se devera encontrar expresso com uma clareza insofismável na própria Escritura. No entanto, abro a Bíblia, percorro-a de cabo a rabo, e não a encontro uma só vez nem sequer acenada! Que terrível decepção! Para firmar a sua norma de fé, o protestantismo começa por violá-lo flagrantemente. A contradição irrompe logo pela primeira porta e crava-se no coração do sistema.

Lutero e os seus discípulos encalçados pela lógica dos católicos deram-se a folhear as Escrituras à cata de textos que os justificassem. Baldado esforço. Nenhum protestante instruído ousaria fazer gala das investigações exegéticas dos primeiro reformadores. Nem foram mais felizes os que lhes sucederam na desesperada empresa. Assim, da sua excursão pela imensa seara bíblica colheu o Sr. C. Pereira [1] não mais de três textos. Quereis ver-lhes a força demonstrativa?

O Pe. Leonel Franca, autor destas linhas.

O primeiro é de S. João (5, 39): “Examinai as Escrituras”. O seu significado nem de longe acena à tese protestante. Cristo num discurso apologético prova contra os seus adversários a divindade de sua missão. Invoca primeiro o testemunho do Padre, depois o do Precursor, apela em seguida para os seus milagres e finalmente num argumento ad hominem aduz a verificação das profecias escritas: “Vós examinais [2] as Escrituras cuidando ter nelas a vida  eterna; pois são elas que dão testemunho de mim”.

Ver nestas palavras — dirigidas não aos discípulos, mas aos adversários, propostas não como regra de fé do cristianismo, senão como prova apologética do seu messiado — uma confirmação da teoria protestante, é zombar da Escritura e insultar o bom senso dos leitores.

O segundo texto é tirado de S. Mateus (13, 43). Ao terminar a explicação da parábola do trigo e do joio diz Jesus: “Quem tem ouvidos de ouvir, ouça”. O Sr. C. Pereira vê aí toda a doutrina da Reforma: só a Bíblia é regra da fé; só o livre exame deve interpretá-la. Se, a grande esforço, não chegais a enxergar naquelas palavras todas estas importantíssimas verdades, a culpa é vossa. Falta-vos aquela agudeza de intuição que caracteriza a exegese do ilustrado gramático.

O Apocalipse de S. João subministra-lhe outro passo não menos peremptório: “Bem-aventurado aquele que lê e ouve as palavras desta profecia” (1, 3). O que diz o Discípulo amado, entende-se facilmente. Ler e ouvir a palavra inspirada é fonte de felicidade. A Igreja a lê todos os dias na sua liturgia e aconselha repetidamente a sua leitura aos fiéis. Mas daí à afirmação protestante vai um abismo que nem a hermenêutica mais atrevida é capaz de saltar.

Com estas infantilidades proferidas em tom de seriedade aruspicina, julga-se o Sr. C. Pereira no direito de concluir: “estes passos e muitos outros [3] da Sagrada Escritura importam em um reconhecimento formal do direito, e, ainda mais, do dever do livre exame e juízo privado no estudo do código divino”. Quem tem ouvidos de ouvir ouça... e pasme diante desta lógica de por aí além!

Mas se a Escritura, nem mesmo torturada, dá um só texto em favor do protestantismo, a sua origem, a sua índole, as suas declarações formais depõem concordemente contra ele.

Jesus Cristo só ensinou de viva voz, não escreveu uma só linha. E todo o cristianismo deveria apoiar-se num livro! E Cristo não nos deu este livro! E Cristo não disse aos seus apóstolos: “Sentai-vos, escrevei ou viajai e distribui Bíblias”; senão: “Ide e pregai; quem vos ouve, a mim ouve”. E os apóstolos foram fiéis à sua missão; poucos escreveram e pouco, todos pregaram e muito.

Já a Igreja estava fundada, já o cristianismo se havia propagado e não havia ainda um livro do Novo Testamento! O primeiro evangelho de S. Mateus, escrito em aramaico, saiu na Palestina vários anos depois da ascensão do Senhor; o último, de S. João, veio à luz nos derradeiros anos do primeiro século. Durante este tempo a Igreja crescia e prosperava em todo o mundo. Qual era então a regra de fé dos cristãos? Qual o veículo da doutrina integral de Jesus? O ensino oral, vivo, autêntico dos apóstolos ou dos a quem eles confiaram o governo e a doutrina das cristandades [4].

Em que dia, em que ano, em que época cessou esta economia para dar lugar ao reino do livro? Só a Bíblia o deveria dizer. Di-lo? Não. Antes como depois da Bíblia, a Igreja continua sempre como a fundou Cristo, como a estabeleceram os apóstolos, afirmando o direito de ensinar de viva voz, de examinar e interpretar os livros que se apresentam como inspirados. Na história, nenhum vestígio de ab-rogação da antiga regra de fé.

Seria mesmo possível esta ab-rogação? Seria possível que a Igreja, mais tarde, substituísse outra norma de crer à que foi ensinada, praticada e inculcada pelo próprio Cristo e pelos apóstolos?

Mas, enfim, os apóstolos escreveram alguma coisa; escreveram  evangelhos e epístolas. Porventura pretenderam encerrar nestes escritos todo o cristianismo, todo o depósito das verdades reveladas? Basta considerar-lhes a índole e natureza para responder imediatamente e sem tergiversar: não.

S. Mateus escreve para provar aos hebreus que Jesus é o Messias prometido. Da vida do Salvador escolhe os fatos que lhe faziam ao intento e omite os outros. S. Marcos, que resume a pregação de S. Pedro, é ainda mais conciso e poucas notícias novas adianta às que já escrevera S. Mateus. Aos evangelistas anteriores S. Lucas acrescenta algumas parábolas, alguns milagres, alguns episódios da vida do Senhor. S. João, a pedido dos fiéis, toma a pena para pôr em maior relevo a divindade de Cristo, contra as heresias nascentes dos corintianos, ebionitas e nicolaítas.

E as epístolas? Escrevem-nas os seus autores, segundo a oportunidade, para corrigir um erro, extirpar um preconceito, expor uma doutrina, premunir contra uma heresia, dar um conselho, etc. Surgem escândalos na igreja de Corinto? Dirige-lhe S. Paulo duas epístolas veementes. Ilaqueiam os judaizantes a boa fé dos Gálatas? Escreve-lhes o apóstolo precavendo-os contra as suas insídias. A Timóteo, a Tito manda conselhos, exortações, instruções sobre o modo de governar a Igreja, etc.

Em todo o Novo Testamento não há um só compêndio ordenado da doutrina cristã, nada que se pareça com um manual, um código, um catecismo destinado a substituir o magistério vivo e ser para o futuro o canal exaustivo do ensinamento cristão. À vista deste caráter evidentemente ocasional de todos os livros inspirados do N.T., como afirmar que só a Bíblia é fonte de fé, que só nela se encerram todas as verdades religiosas?

Os Apóstolos na Ascensão do Senhor.

Há mais. Os próprios apóstolos que deixaram escritos e precisamente os que por último escreveram, são os primeiros a declarar que não escreveram tudo, são os primeiros a insistir em que se conserve a tradição do seu ensino oral. S. João remata o seu Evangelho advertindo que Jesus fez muitas outras coisas que não se acham escritas no seu livro nem em livro algum (cf. Jo 20, 30; 21, 25). O mesmo apóstolo termina as suas duas últimas epístolas dizendo expressamente que não quis confiar tudo à tinta e ao pergaminho, reservando para o comunicar de viva voz: os ad os loquemur (cf. 2Jo, 12; 3Jo, 14).

S. Paulo não se cansa de inculcar a necessidade da tradição oral. Aos tessalonicenses: “Estai firmes, irmãos, e conservai as tradições que aprendestes ou de viva voz ou por epístola nossa” (2Ts 2, 15). Na mesma carta: “Nós vos prescrevemos […] que vos aparteis de todos os irmãos que andem desordenadamente e não segundo a tradição que receberam de nós” (2Ts 3, 6). A Timóteo: “O que de mim ouviste por muitas testemunhas, ensina-o a homens fiéis que se tornem idôneos para ensinar aos outros” (2Tm 2, 2). Aí está claro o ensino vivo,  transmitido por tradição de uns a outros. O apóstolo já velho, nas vésperas do martírio, adverte a Timóteo a necessidade de prover quem continue o seu magistério. Nada de livre exame das Escrituras; sempre o ensino oral feito por mestres autorizados.

Nas suas duas epístolas ao mesmo discípulo, insiste ainda São Paulo para que conserve o bom depósito: “bonum depositum custodi” (1Tm 6, 20; 2Tm 1, 14). Com os corintos, na sua primeira epístola, congratula-se porque haviam conservado as suas tradições orais: “sicut tradidi vobis, praecepta mea sustinetis” (1Cor 1, 14).

De todos estes textos o Sr. C. Pereira nem uma palavra! Em vez de cantar em todos os tons o mesmo estribilho: a Bíblia, e só a Bíblia, fora melhor que a patenteasse aos seus leitores e lhes dissesse sinceramente: “Julgai. Em todo o N.T. nem uma só vez se propõe explicitamente ou implicitamente a regra protestante.  Em mil lugares diversos se inculca a necessidade do ensino vivo, a importância de conservar a tradição, a insuficiência da Escritura, que, segundo afirma S. João, não encerra tudo o que ensinou o Salvador. Jesus Cristo nunca mandou aos seus discípulos que folheassem em um livro para achar a sua doutrina, mandou pelo contrário aos fiéis que ouvissem aos que Ele mandara pregar: Quem vos ouve, a mim ouve; se algum não ouvir a Igreja, seja considerado como infiel e publicano, isto é, não pertencente à minha Igreja; se algum não vos receber nem ouvir as vossas palavras, saindo da casa ou da cidade, sacudi o pó dos sapatos; Pai, oro, não só por esses (apóstolos), mas por todos os que hão de crer em mim mediante a sua palavra a fim de que sejam todos uma coisa só. Foi Jesus ainda quem prometeu o seu Espírito de Verdade, a sua assistência espiritual, todos os dias até à consumação dos séculos, para que os apóstolos, vivendo moralmente em seus sucessores, continuassem até ao fim dos tempos a ensinar sempre tudo o que Ele nos mandou. Eis, meus caros leitores, o que diz a Bíblia”.

Assim devera falar o Sr. C. Pereira, se desejasse ser sincero e realmente lhe interessasse o conhecimento exato e fiel das Escrituras. Mas é mais fácil repisar o estafadíssimo chavão: A Bíblia, só a Bíblia. É mais cômodo passar a esponja na história e continuar a escrever: Roma fecha a Bíblia; só a Reforma abriu aos povos o Livro da palavra de Deus.

Referências

  1. Trata-se de Eduardo Carlos Pereira (1855-1923), mineiro de origem que durante vários anos lecionou português e latim no estado de São Paulo. Foi uma das principais vozes do presbiterianismo em terras brasileiras no século XIX e inícios do século passado. Publicou, por volta de 1920, um estudo intitulado O Problema Religioso do América Latina, de tom marcadamente anti-católico. Foi contra as afirmações contidas nesta obra que o Pe. Leonel Franca escreveu, em 1922, o livro A Igreja, a Reforma e a Civilização, de cuja 5.ª edição são transcritas no presente artigo apenas alguns trechos (Equipe CNP. Todas as demais notas são do autor).
  2. O contexto mostra evidentemente que scrutamini é forma de indicativo, não de  imperativo.
  3. Que pena terem eles ficado no tinteiro do erudito pastor.
  4. Em duas admiráveis conversões relatadas por S. Lucas salienta-se com admirável relevo a necessidade do ensino oral. Saulo, prostrado no caminho de Damasco pergunta a Jesus: Senhor, que quereis que eu faça? — Levanta-te, entra na cidade, e aí te dirão o que deverás fazer. Act., IX, 6. Não lhe dá uma Bíblia. — Voltava de Jerusalém o eunuco  da rainha Candace de Etiópia e lia Isaías. Filipe, apóstolo, movido pelo Espírito Santo  aproxima-se e pergunta-lhe: crês porventura que entendes o que estás lendo? — E como o poderei entender, torna o eunuco, se não houver alguém que mo explique? Sobe então o apóstolo ao carro e, tomando ocasião do passo que acabara de ler, evangeliza-o e administra-lhe o batismo. Act., VIII, 26, sgs. — Onde a suficiência da Escritura interpretada pelo livre exame?

Notas

  • Transcrição de Pe. Leonel Franca, A Igreja, a Reforma e a Civilização. 5.ª ed., Rio de Janeiro, Vozes, 1948, pp. 212-217.

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O Natal não é a festa de aniversário de Jesus
Liturgia

O Natal não é a festa
de aniversário de Jesus

O Natal não é a festa de aniversário de Jesus

Alguns pensam que celebrar o Natal é comemorar o aniversário de Jesus, e chegam até a cantar “parabéns pra você”. Mas esse nunca foi o sentir da Igreja a respeito deste tempo litúrgico.

Dom Henrique Soares da Costa14 de Dezembro de 2017
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Alguns pensam que celebrar o Natal é comemorar o aniversário de Jesus; alguns chegam até a cantar “parabéns pra você”! Coisa totalmente fora de propósito, contrária ao sentimento da Igreja e fora do sentido da celebração dos cristãos. Então, se não celebramos o aniversário de Jesus, o que fazemos no Natal?

Antes de tudo é necessário entender o que é a Liturgia, a Celebração da Igreja.

Vejamos. O nosso Deus, quando quis nos salvar, agiu na nossa história. Primeiramente agiu na história de toda a humanidade, guiando de modo secreto e sábio todos os seres humanos e sua história. Basta que pensemos nos santos pagãos do Antigo Testamento — santos que não pertenceram ao povo de Israel: Sto. Abel, Sto. Henoc, São Matusalém, São Noé, São Melquisedec, São Jó, São Balaão… Nenhum destes pertencia ao povo de Deus… e no entanto, Deus agia através deles… Depois, Deus agiu de modo forte, aberto, intenso na história do povo de Israel, com as palavras de fogo dos profetas, com a mão estendida e o braço potente nas obras maravilhosas em benefício do seu povo eleito.

Dom Henrique Soares é bispo da Diocese de Palmares, Pernambuco.

Finalmente, Deus agiu de modo pleno e total, fazendo-se pessoalmente presente, em Jesus Cristo, que é o cume, o centro e a finalidade da revelação e da ação de Deus: em Jesus, tudo quanto Deus sonhou para nós se realizou de modo pleno, único, absoluto, completo e definitivo! Então, o nosso Deus não se revela principalmente com ensinamentos, com doutrinas e conselhos, mas com ações concretas e palavras concretas de amor! E tudo isso chegou à plenitude na vida, nos gestos, palavras e ações de Jesus Cristo!

Pois bem: são estas obras salvíficas de Deus, realizadas de modo pleno em Jesus, que nós tornamos presente na nossa vida quando celebramos a Santa Liturgia, sobretudo a Eucaristia! Na força do Espírito Santo de Jesus, através das palavras, dos gestos e dos símbolos litúrgicos, os acontecimentos do passado — todos resumidos em Cristo: na sua Encarnação, no seu Nascimento, Ministério, Morte e Ressurreição e no Dom do seu Espírito — tornam-se presentes na nossa vida.

Vejamos, agora, o caso do Natal. Quando a Igreja celebra as cinco festas do Natal, ela quer celebrar não o aniversarinho do menininho Jesus… O que ela quer fazer e faz é tornar presente para nós, na força do Espírito Santo, a graça da vinda do Cristo! Celebrando a liturgia do Natal, o acontecimento do passado (a Manifestação do Filho de Deus) torna-se presente no hoje da nossa vida! Na liturgia do Natal a Igreja não diz: “Há dois mil anos nasceu Jesus”! Nada disso! O que ela diz é: “Alegremo-nos todos no Senhor: hoje nasceu o Salvador do mundo, desceu do céu a verdadeira paz!” (Antífona de Entrada da Missa da Noite do Natal).

Então, celebrando as santas festas do Natal, celebramos a Manifestação do Salvador no nosso hoje, na nossa vida, no nosso mundo! A liturgia tem essa característica: na força do Santo Espírito torna presente realmente, de verdade, aquele acontecimento ocorrido no passado. Não é uma repetição do acontecimento, nem uma recordação! É, ao invés, aquilo que a Bíblia chama de memorial, isto é, tornar presente os atos de salvação de Deus!

Agora vejamos: a Eucaristia é a celebração, o memorial da Páscoa do Senhor. Como é, então, que no Natal a gente celebra a Missa, que é a Páscoa? Como é que já no Natal a Igreja mete a celebração da Páscoa? É que a Eucaristia não é simplesmente a celebração da paixão, morte e ressurreição de Cristo! Essa seria uma idéia muito mesquinha, estreita! Em cada Missa é todo o mistério da nossa salvação que se faz presente, é tudo aquilo que Deus realizou por nós, desde a criação até agora… e tudo isso tem o seu centro em Jesus: na sua Encarnação, na sua vida e na sua pregação, e alcança seu cume na sua morte e ressurreição, na sua ascensão e no dom do Santo Espírito. Então, celebramos as cinco festas do Natal celebrando a Missa, porque aí o mistério, o acontecimento da nossa salvação se torna presente e atuante na nossa vida.

Voltando para casa após a Missa do Natal, podemos dizer: “Hoje eu vi, hoje eu ouvi, hoje eu experimentei, hoje eu testemunhei e hoje eu anuncio: nasceu para nós, nasceu para o mundo um Salvador! Ele veio, ele não nos deixou, ele se fez nosso companheiro de estrada!” Celebrando a Eucaristia do Natal, recebemos a graça do Natal, entramos em comunhão com o Cristo que veio no Natal, porque recebemos no Corpo e Sangue do Senhor o próprio Cristo que nasceu para nós, e, agora, Cristo ressuscitado, pleno do Santo Espírito! É incrível, mas a graça do Natal chega a nós mais do que chegou para Maria e José e os pastores e os magos. Porque eles viram um menininho no presépio, enquanto nós o recebemos dentro de nós, seu Corpo no nosso corpo, seu Sangue no nosso sangue, sua Alma na nossa alma, seu Espírito no nosso espírito… e não mais um menininho frágil, com esta nossa vidinha humana, mas o próprio Filho agora glorificado, com uma natureza humana imortal e gloriosa, que nos transformará para a vida eterna.

Então, que neste Natal ninguém cante parabéns para o Menino Jesus, nem fique com inveja dos pastores e dos magos… Também para nós hoje nasceu um Salvador: o Cristo ressuscitado, glorioso, que recebemos no seu Corpo e Sangue e cujo mistério celebramos nos gestos, palavras e símbolos da liturgia!

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O que Deus pede de nós em tempos de crise?
EspiritualidadeHistória da Igreja

O que Deus pede
de nós em tempos de crise?

O que Deus pede de nós em tempos de crise?

Nosso Senhor não irá nos julgar por aquilo que um padre, um bispo ou seja lá quem for disse, fez ou deixou de fazer. A pergunta que Ele nos fará é: você fez o que eu lhe pedi para fazer? E o caso será encerrado.

Robert B. Greving,  Crisis MagazineTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Dezembro de 2017
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Ronald Knox disse certa vez que “quem viaja a bordo da barca de São Pedro seria melhor que não olhasse muito de perto para o interior da sala de máquinas”. A menos que você tenha vivido dentro de uma caverna pelos últimos cinco, dez ou cinquenta anos, saiba que a barca tem atravessado alguns mares turbulentos. Alguns diriam que estamos com Colombo navegando rumo a um novo mundo; outros, que o nome escrito na lateral da barca é Titanic. De qualquer modo, vale a pena ressaltar que, seja lá qual for a maneira de ler o sinais dos tempos, em certo sentido, em um sentido bem verdadeiro, nada disso importa.

Não digo que não devamos rezar pela Igreja ou pelo Papa e os bispos, nem que não devamos ficar preocupados quando padres ou prelados, e até mesmo aqueles do mais alto escalão, dizem coisas que nos fazem ficar com a pulga atrás da orelha, para dizer o mínimo. Não digo que não devamos confrontar o erro, chamar as coisas pelo nome, ou que devamos fechar os olhos para o escândalo. O que quero dizer é que, em certo sentido, em um sentido bem verdadeiro, não nos devemos preocupar com nada disso, porque a única coisa com a qual devemos realmente nos preocupar não é, de forma nenhuma, afetada por tais problemas. E essa única coisa é a nossa própria alma.

Ao longo do último mês de novembro, a Igreja nos levou a refletir sobre os Novíssimos — literalmente, as “últimas coisas” —, indicando que nossa preocupação última deve ser a nossa santidade pessoal. É fácil, e talvez desculpável, ficar perturbado com o que algum padre, bispo, político “católico” ou escola “católica” disse, fez ou deixou de fazer. Eu sou o primeiro a admitir que posso, sim, ficar mordido com essas coisas. E, como disse, há alguma justiça nisso. Nós amamos a Igreja e, devemos reconhecer, é mesmo preocupante vê-la em um estado de “diluição”. A Igreja deveria ser nossa “rocha”, mas a sensação atual, para muitos de nós, é a de que ela se assemelha mais à areia movediça. Mas, é aí que está o ponto, o que devemos fazer diante de tudo isso?

Quando morrermos — e esta é a única coisa com a qual devemos nos preocupar —, Nosso Senhor não irá nos julgar a partir do que um padre, um bispo, um Papa ou seja lá quem for disse, fez ou deixou de fazer. Ao contrário, Ele nos julgará por um critério bem simples: você fez aquilo que eu lhe pedi para fazer? E o caso será encerrado.

No romance Emma, de Jane Austen, a personagem que dá nome ao livro e seu amigo, sr. Knightley, conversam sobre outra personagem, Frank Churchill, que aparentemente fracassou em seus deveres como filho. Enquanto Emma busca todas as razões possíveis para desculpar o jovem, ao sr. Knightley não acode nenhuma. Ele finalmente diz: “Há uma coisa, Emma, que um homem pode sempre fazer se ele quiser, e essa coisa é o dever, não por interesse e vaidade, mas por força e resolução”. Essa também deveria ser a nossa atitude.

Vejamos por outro ângulo. Houve alguma vez na história uma época em que a Igreja, do Papa ao pároco, e deste ao paroquiano no banco da igreja, tenha sido perfeita? Não. São Paulo pareceu ter gasto a maior parte do seu tempo resolvendo disputas e corrigindo heresias. Os primeiros cinco séculos da história da Igreja (pelo menos) foram gastos formando-se um credo e, mesmo então, ao menos uma vez, a maioria (formada por arianos) não o professou corretamente. A Idade Média viu o Papa mudar-se para Avignon e lá ficar por quase 70 anos, e ainda depois, por mais 25 anos, tivemos três homens reivindicando o papado. E nem se fale da Renascença. O século XVII teve os jansenistas; o XVIII, os iluministas e a Revolução Francesa. No século XIX, o Concílio Vaticano I foi suspenso porque tropas italianas invadiram a Cidade Eterna.

Santa Joana d’Arc, por John Everett Millais.

Muitos ainda falam da “época de ouro” da Igreja antes do Vaticano II. Embora possa existir certa verdade nisso, a questão que deve ser levantada é: onde e quando as sementes do dilúvio do “espírito do Vaticano II” foram lançadas senão naquela “época de ouro”? A Igreja — em seus membros — nunca foi perfeita.

No entanto, também sempre houve santos. Sempre existiram aqueles poucos indivíduos que, como temos dito, não se transtornavam por causa do que alguém fazia ou deixava de fazer; em vez disso, fizeram eles mesmos o que deviam fazer, por mais humilde ou simples que fosse o trabalho. Eles perseguiam sua própria santidade. E faziam-no com os mesmos meios que você e eu temos à nossa disposição — oração, sacramentos, a graça de Deus e a própria vontade. Nenhum deles dependeu da santidade pessoal de outras pessoas na Igreja. Em todos estes tempos difíceis, houve grandes santos.

Eu disse acima que não deveríamos falar da Renascença, mas vamos fazer isso agora. O papado sangrava por conta de escândalos pessoais e da heresia de Martinho Lutero. Na Inglaterra, todos os bispos, exceto um, submeteram-se a Henrique VIII. Mesmo assim, Thomas More tornou-se um santo, indo calmamente para a guilhotina e fazendo piadas, não porque seu pároco fizesse ótimos sermões ou porque houvesse um ótimo projeto pastoral em sua diocese, não por causa da pureza ou clareza doutrinária do clero, mas porque ele mesmo levou uma vida de santidade. (E o fez ao mesmo tempo em que sustentava uma família, trabalhava como advogado e estava envolvido em todos os tipos de assuntos políticos.) Ele não murmurou, não reclamou nem apresentou desculpas, mas olhou para sua própria alma.

“Estas crises mundiais são crises de santos”, dizia São Josemaria Escrivá, que derramou lágrimas quando a Igreja parecia ruir durante as décadas de 1960 e 1970. Isso quer dizer que essas crises não são, em primeiro lugar, crises de Papas, bispos, padres, ou de universitários, teólogos e políticos, mas, sim, de você e eu, que deveríamos ser santos no lugar em que Deus nos colocou. Hoje nós temos um fardo ainda maior nessa matéria, porque com a quantidade de pregações e conselhos espirituais disponíveis em livros e outras mídias, nós realmente não temos nenhuma desculpa para não conhecer nosso dever e o modo de cumpri-lo. Quanto esforço temos empregado nisso?

Ninguém pode impedir que sejamos santos exceto nós mesmos! Por isso, por todos os meios possíveis, corrijamos e exortemos os outros, ajudemos financeiramente aqueles que são dignos e boicotemos aqueles que não o são, mas, em primeiro lugar e acima de tudo, rezemos, frequentemos os sacramentos, imploremos pela graça de Deus e façamos, enfim, a única coisa que podemos fazer: ser santos. É tudo que Deus nos pede.

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O Papa que veio do Purgatório pedir orações a uma santa
Santos & Mártires

O Papa que veio do
Purgatório pedir orações a uma santa

O Papa que veio do Purgatório pedir orações a uma santa

Surpresa por ver um espectro envolto em chamas, esta santa descobriu que estava diante de ninguém menos que o Papa. Conheça a história desta impressionante aparição.

Pe. François Xavier SchouppeTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Dezembro de 2017
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Permitam-me contar-lhes uma famosa aparição de um Papa a uma santa.

O Papa Inocêncio III morreu no dia 16 de julho de 1216. No mesmo dia, ele apareceu a Santa Lutgarda, no monastério de Aywières, região central da Bélgica. Surpresa por ver um espectro envolto em chamas, ela perguntou de quem se tratava e o que queria.

“Sou o Papa Inocêncio”, ele respondeu.

“Mas seria possível que o senhor, nosso pai comum, se encontrasse em um estado assim?”, ela perguntou.

“Sim, eu de fato me encontro neste lugar”, ele respondeu. “Estou expiando três faltas que teriam causado minha perdição eterna. Graças à bem-aventurada Virgem Maria, obtive o perdão delas, mas tenho de fazer reparação. Ai de mim! Aqui é terrível e isto durará por séculos, se tu não vieres em meu auxílio. Em nome de Maria, que obteve para mim o favor de recorrer a ti, ajuda-me.”

Depois de dizer estas palavras, ele desapareceu.

Lutgarda anunciou a morte do Papa a suas irmãs, e juntas elas se dedicaram à oração e a obras penitenciais em favor do augusto e venerável Pontífice, cujo falecimento lhes foi comunicado algumas semanas depois, vindo de outra fonte.

Efígie do Papa Inocêncio III, representado como um dos maiores legisladores da história, esculpida por Joseph Kiselewski em 1950 e presente no Capitólio dos EUA.

Devo admitir que a leitura deste incidente me impactou muito e eu com prazer o deixaria passar em silêncio, pois relutava em pensar que um Papa, e ainda mais este Papa, tivesse se condenado a um Purgatório tão longo e terrível.

Sabemos que Inocêncio III, que presidiu em 1215 o célebre Concílio de Latrão, foi um dos maiores Pontífices a se sentar no trono de S. Pedro. Seu zelo e sua piedade levaram-no a realizar grandes feitos pela Igreja de Deus e pela santa disciplina. Como admitir, então, que um homem dessa estirpe fosse julgado com tamanha severidade pelo Tribunal Supremo? Como reconciliar essa revelação de Santa Lutgarda com a misericórdia divina?

Por conta dessas questões, passei a tratar essa aparição como algo ilusório, procurando por razões que dessem suporte a essa ideia.

O que descobri, no entanto, ao contrário disso, foi que a veracidade dessa aparição é admitida pelos mais sérios autores, não sendo rejeitada por nenhum sequer. Ademais, o biógrafo dessa santa, Tomás de Cantimpré, é muito transparente ao escrever e, ao mesmo tempo, bastante reservado. “Devo explicar, leitor”, ele escreve ao fim de sua narrativa, “que foi da própria boca da piedosa Lutgarda que eu ouvi as faltas reveladas pelo defunto, as quais eu omito aqui por respeito a um tão grande Pontífice.”

À parte isso, considerando o evento em si mesmo, poderíamos encontrar uma boa razão para questioná-lo? Não sabemos nós, afinal de contas, que Deus não faz acepção de pessoas — e que os Papas aparecem diante do seu tribunal, portanto, assim como o mais humilde dos fiéis —, que todos, grandes e pequenos, são iguais diante dEle, e que cada um recebe de acordo com suas obras? Não sabemos igualmente que aqueles que governam os outros têm uma grande responsabilidade, e terão de fazer uma severa prestação de contas?

Judicium durissimum his, qui praesunt, fiet: “Será duríssimo o juízo dos que governam” (Sb 6, 6). É o Espírito Santo quem o declara. Pois bem, Inocêncio III reinou por dezoito anos e durante tempos muito turbulentos; além disso, acrescentam os Bolandistas, não está escrito que os julgamentos de Deus são inescrutáveis, e com frequência muito diferentes dos julgamentos dos homens? Judicia tua abyssus multa: “Teus juízos são como o grande abismo” (Sl 35, 7).

A realidade dessa aparição não pode, portanto, ser razoavelmente posta em dúvida e eu não vejo nenhuma razão para omiti-la, dado que Deus não revela mistérios dessa natureza senão com o fim de que sejam conhecidos para a edificação de sua Igreja.

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O presépio dos egoístas
Sociedade

O presépio dos egoístas

O presépio dos egoístas

Para muitas pessoas, a Sagrada Família não cabe mais no presépio de Natal. São aqueles que abandonaram o projeto cristão para “ter a vida só para si mesmos”.
Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Dezembro de 2017
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Vocês vão ter de nos perdoar a insistência sobre o tal presépio com dois “Josés”, mas é uma oportunidade única para falarmos sobre a guerra cultural que se trava hoje, diante de nossos olhos. Se em nosso último texto evitamos falar sobre o aspecto sexual dessa batalha, agora se nos torna inevitável analisá-lo, dado o caráter claramente sexual da própria blasfêmia em análise.

Nós sabemos, não é incomum aparecerem pessoas dizendo que os cristãos conservadores falam de moral sexual com uma obsessão quase fanatizante. — Existem tantos outros pecados a serem abordados nas pregações! Por que a insistência nisto? — Concordamos com a afirmação de que pecados há outros muito piores. A soberba e a inveja, que são os pecados dos anjos decaídos, são muito mais graves do que os pecados ditos carnais. A verdade porém é que, conforme o juízo de Santo Afonso de Ligório, doutor da Igreja, “noventa e nove por cento dos réprobos é pelo pecado da impureza que se condenaram” [1]. E Nossa Senhora de Fátima disse aos três pastorinhos que “vão mais almas para o inferno por causa dos pecados da carne do que por qualquer outra razão”. Talvez devêssemos acusar este santo doutor e esta santa Senhora de obsessão também? Certamente não.

Além do mais, os que acusam os religiosos, com o dedo em riste, de falarem demais sobre sexualidade, normalmente o fazem não por oposição sólida e fundamentada, mas por uma questão de incômodo mesmo. Naturalmente, as pessoas não gostam de ver os próprios pecados denunciados em público. Ainda que seus nomes não sejam pronunciados, ainda que os olhares de quem prega sequer estejam dirigidos a elas, as verdades de fora despertam aquilo que está dentro delas: suas consciências.

E, nos nossos tempos, quantas não são as pessoas a tentarem abafar essa voz! Quantos não são os cristãos que, não se esforçando por viverem de acordo com a sua fé, terminam por acreditar no modo como vivem! Quantos outros, ainda, não vão ainda mais longe, militando pelo novo “estilo de vida” que decidem seguir — e contrariando abertamente o Evangelho e a doutrina de Cristo!

É isso o que fica patente no presépio dos dois Josés. Ali não há nenhuma proposta concreta de Natal, mas tão somente uma desconstrução do que é o verdadeiro Natal, do que é verdadeiramente a religião cristã, do que significa realmente a Sagrada Família.

Mais do que criticar, no entanto, essa “problematização”, é preciso deixar bem claro contra o que, bem concretamente, nossa modernidade está lutando.

Detalhe de “Adoração dos Pastores”, do Fr. Juan Bautista Maíno.

Para tanto, vamos nos servir de um ensinamento lapidar de Santo Tomás de Aquino, que, perguntando se Cristo devia nascer de uma virgem dada em casamento, apresenta-nos uma razão especial: “A Mãe do Senhor foi casada e virgem, porque na sua pessoa é honrada tanto a virgindade como o matrimônio, contra os heréticos que detratam aquela e este.”

Ora, o que se pode dizer aqui a respeito de Maria Santíssima é igualmente aplicável à figura de São José: os dois foram virgens e realmente casados um com o outro, e com isso Deus procurava ensinar a todos os homens o valor que têm tanto o celibato e a virgindade consagrados a Deus, quanto o matrimônio.

Não, a Igreja Católica não acredita que todas as pessoas foram feitas para se casarem. O próprio Jesus Cristo não achava isso: “Porque há eunucos”, Ele dizia, “que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus” (Mt 19, 12). Evidentemente, não se trata aqui de mutilar os próprios genitais, como fez Orígenes no início da Igreja. Jesus Cristo está falando de um sacrifício espiritual — cujo sentido “nem todos são capazes de compreender” (v. 11) —, mas que realmente faz parte da vivência dos discípulos do Senhor, desde o começo da Igreja.

Duas são, portanto, as decisões de vida simbolizadas no presépio, nas imagens da Sagrada Família: a decisão, “por toda a vida”, do Matrimônio; e o voto, também perpétuo, de quem se abstém da sexualidade por amor a Deus. Parecem dois extremos contraditórios, mas não o são. São compromissos profundamente ligados um ao outro, de modo que as grandes crises humanas, quando afetam uma dessas vocações, terminam inevitavelmente atingindo a outra.

O grande problema do celibato sacerdotal, por exemplo, que os homens de nossa época parecem não querer mais assumir, anda de mãos dadas com o grande fracasso moderno do matrimônio, como notou certa vez, com grande perspicácia, o Papa emérito Bento XVI:

Num certo sentido, esta crítica permanente contra o celibato pode surpreender, num tempo em que está cada vez mais na moda não casar. Mas este não-casar é uma coisa total, fundamentalmente diversa do celibato, porque o não-casar se baseia na vontade de viver só para si mesmo, de não aceitar qualquer vínculo definitivo, de ter a vida em todos os momentos em plena autonomia, decidir em qualquer momento como fazer, o que tirar da vida; e portanto um “não” ao vínculo, um “não” à definitividade, um ter a vida só para si mesmos.

Enquanto o celibato é precisamente o contrário: é um “sim” definitivo, é um deixar-se guiar pela mão de Deus, entregar-se nas mãos do Senhor, no seu “eu”, e portanto é um ato de fidelidade e de confiança, um ato que supõe também a fidelidade do matrimônio; é precisamente o contrário deste “não”, desta autonomia que não se quer comprometer, que não quer entrar num vínculo; é precisamente o “sim” definitivo que supõe, confirma o “sim” definitivo do matrimônio. [...] E se isto desaparecer, será destruída a raiz da nossa cultura. Por isso, o celibato confirma o “sim” do matrimônio com o seu “sim” ao mundo futuro, e assim queremos ir em frente e tornar presente este escândalo de uma fé que baseia toda a existência em Deus. [2]

Aqui chegamos, então, ao ponto central da crítica moderna tanto ao casamento quanto à virgindade. As pessoas que morrem de ódio por verem um padre ou uma freira que não se casaram são, por incrível que pareça, as mesmas que ficam aturdidas ao se depararem com uma família de filhos numerosos. Esquizofrenia? Incoerência? Não! A ojeriza da modernidade não é tanto à mortalha eclesiástica ou à aliança matrimonial, mas a qualquer coisa que represente compromisso, doação e fidelidade. O sintoma de que falamos aqui é outro, mas a doença é a mesma. Seu nome é egolatria.

O mais triste é que, não obstante o relativismo com que muitas vezes as pessoas tratam esses assuntos, todos sem exceção são capazes de reconhecer os frutos maduros do verdadeiro amor. No Natal, por exemplo, todos gostariam de ver as próprias casas abarrotadas de gente, com filhos, netos e sobrinhos correndo de um lado para o outro, um cônjuge do lado e muitos amigos com quem se reunir. Fatalmente, porém, muitas das escolhas que nós, os jovens, fazemos no presente só nos levarão para a solidão, para a tristeza e para o desespero. Esses frutos amargos, também, todos somos capazes de enxergar: são os frutos que inevitavelmente colhem todos os que deram “um ‘não’ ao vínculo, um ‘não’ à definitividade”, preferindo “ter a vida só para si mesmos”.

Cabe a nós decidir, em grande parte, o destino que vamos ter, tudo dependendo do exemplo que nos dispusermos a seguir. Se nossas casas estarão enfeitadas, neste Natal, com um belo presépio, que nossas famílias imitem, então, a verdadeira família de Nazaré — e não a família “fake” de quem preferiu dar corda às próprias paixões ao invés de se gastar por Deus e pelos outros.

Afinal de contas, como é triste a vida de quem se deixa levar pelo egoísmo!

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