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Por que não somos idólatras
Igreja Católica

Por que não somos idólatras

Por que não somos idólatras

O que diz o primeiro mandamento do Decálogo e por que as acusações de idolatria imputadas aos católicos não passam de ignorância e distorção das Escrituras.

Equipe Christo Nihil Praeponere15 de Abril de 2015Tempo de leitura: 8 minutos
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"Vocês são idólatras! Pois Deus proíbe que sejam feitas imagens. Está escrito...". E por aí vai. Raros são os católicos que nunca ouviram, ou leram, algo parecido vindo de protestantes; e, lamentavelmente, não são raros aqueles que se deixam incomodar por esse tipo de palavrório. O ódio às imagens, todavia, não é recente. Se olhamos para a História da Igreja, vemos que já nos séculos VII-VIII se ergueram os quebradores das imagens, os iconoclastas, que sucumbiram sob a verdadeira fé. Nos tempos modernos, levantando a mesma bandeira de guerra contra as imagens, os protestantes intentam apenas reviver das cinzas a iconoclastia, recorrendo, para tanto, às Escrituras, ainda que de modo superficial.

E o que dizem, quando querem acusar a Igreja Católica de idolatria? Antes de tudo, o refrão: "Está escrito...". E o que está escrito?

"Não terás outros deuses além de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que existe em cima dos céus ou debaixo da terra. Não te prostrarás diante dos ídolos, nem lhes prestarás culto, pois eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento" (Ex 20, 3-5a).

Pois bem, a Igreja Católica é fidelíssima ao primeiro mandamento, fidelíssima a esse trecho do livro do Êxodo que só pode ser entendido plenamente dentro de toda a Sagrada Escritura. Pois "também está escrito":

"Farás dois querubins de ouro polido nas duas extremidades do propiciatório: um de cada lado, de modo que os querubins estejam nos dois extremos do propiciatório" (Ex 25, 18-19. 37, 7).

"'Faze uma serpente venenosa e coloca-a sobre uma haste. Aquele que for mordido, mas olhar para ela ficará com vida'. Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e colocou-a sobre um poste" (Nm 21, 8-9).

"O altar do incenso devia conter certo peso de ouro refinado. O projeto também descrevia o carro dos querubins de ouro, que com as asas estendidas cobrem a arca da aliança do Senhor. Davi declarou: 'tudo isso me chegou num escrito da mão do Senhor'" (1 Cr 28, 18-19).

"No santíssimo, Salomão mandou instalar dois querubins de madeira de oliveira de dez côvados de altura [...]. Salomão revestiu os querubins de ouro. Mandou também esculpir, nas paredes em redor do templo, figuras variadas: querubins, palmas, cálices de flores [...]" (1 Rs 6, 23-38).

"Dentro e fora do Templo, em volta de todas as paredes internas e externas, tudo estava coberto de figuras, querubins e palmeiras" (Ez 41, 17-18).

"Estavam aí o altar de ouro para o incenso e a arca da aliança, toda recoberta de ouro, na qual se encontrava uma urna de ouro que continha o maná, o bastão de Aarão que tinha florescido, e as tábuas da aliança. Sobre a arca estavam os querubins da Glória, que com sua sombra cobriam a bandeja para o sangue da expiação" (Hb 9, 4-5).

E agora? Primeiro, Deus ordena não fazer imagens e, depois, ordena fazê-las. O que acontece? O problema é que Deus se contradiz ou que nós não O entendemos? Não podemos furtar-nos dessa questão.

Indubitavelmente, Deus não se contradiz – senão seria apenas mais um 'deusinho', "feito por mãos humanas" (Sl 113, 4), e não o verdadeiro Deus. O problema tem seu início quando a Bíblia é lida por meio de versículos isolados, sem a necessária unidade de toda a Escritura [1], e quando sua interpretação é submetida inteiramente ao leitor, posto como 'autoridade máxima' do exame bíblico. Tal problema é tão infesto que a própria Sagrada Escritura o denuncia. O episódio da tentação de Jesus no deserto, por exemplo, torna claro como é possível adulterar a palavra de Deus, dando-lhe uma interpretação completamente equivocada: o demônio abriu a Escritura e citou-a para tentar Jesus (cf. Mt 4, 6; Lc 4, 9-10). "Está escrito...", disse [2].

De fato, o uso da Sagrada Escritura para justificar as próprias ideias e interesses, mutilando-a e adulterando-a, gera sérias consequências e tem sido cada vez mais frequente. Lembremo-nos de Lutero – outrora monge católico – e seus seguidores. Esses mutilaram o cânon bíblico, retirando diversos livros de 'suas bíblias', e disseram o sola scriptura. Ora, foi da Escritura que retiraram tal lema e a lista dos livros que lá não deveriam permanecer? Desde a tentação de Jesus no deserto, passando por todas as heresias da História da Igreja até os nossos dias, más intenções, mutilações e ignorância bíblicas têm nos acompanhado, fazendo a palavra de Deus 'padecer' uma verdadeira paixão em seu 'corpo' dilacerado pelas más interpretações.

Quanto à perícope do livro do Êxodo (20, 3-5a) e outras sobre as imagens, a proibição refere-se aos ídolos e, portanto, às imagens dos ídolos. Um ídolo é uma figura representativa de um deus falso, comum entre os povos pagãos. Diz o salmista: "Os ídolos das nações são prata e ouro, feitos por mãos humanas; têm boca e não falam, têm olhos e não veem, têm ouvidos e não ouvem, têm nariz e não cheiram. Têm mãos e não palpam, têm pés e não andam; da garganta não emitem sons" (Sl 113, 4-8).

Quando Deus diz: "Não farás para ti imagem esculpida", a palavra utilizada para "imagem" é temunah (תְּמוּנָה), empregada justamente para falar dos ídolos, dos deuses pagãos, tanto que, na famosa versão dos Setenta – tradução do hebraico para a língua grega, feita nos séc. III-II a.C. –, a palavra é traduzida por eidolon (εἴδωλον), ídolo, com acepção muito diversa da palavra eikon (εἰκών), ícone.

Ou seja, "o primeiro mandamento condena o politeísmo. Exige do homem que não acredite em outros deuses além de Deus, que não venere outras divindades além da única" [3]. Ensina, ademais, o Catecismo: "A idolatria não diz respeito apenas aos falsos cultos do paganismo. Continua a ser uma tentação constante para a fé. Ela consiste em divinizar o que não é Deus. Há idolatria desde o momento em que o homem honra e reverencia uma criatura em lugar de Deus" [4]. Atenção para as palavras: "uma criatura em lugar de Deus"! Ainda sobre o primeiro mandamento, Santo Tomás de Aquino comenta:

"'Não terás outros deuses diante de mim'. Para compreendê-lo é preciso dizer que os antigos de muitos modos transgrediam este Mandamento. Alguns, com efeito, prestavam culto aos demônios: 'Todos os deuses dos povos são demônios' (Sl 95,5). Este é o maior de todos os pecados, é horrível. Ainda hoje muitos transgridem esse Mandamento ao dar ouvidos aos adivinhos e sortilégios. Santo Agostinho ensinava que tais coisas não se fazem sem que se contraia algum pacto com o demônio: 'Não quero que vós tenhais sociedade com os demônios' (1Cor 10, 20) [...]. Outros cultuavam os corpos celestes, julgando serem deuses os astros [...]. Outros cultuavam os elementos inferiores: 'Tomaram o fogo, ou o vento (...) por deuses' (Sab 13, 2). Os homens que usam mal as coisas inferiores, amando-as excessivamente, caem no mesmo erro. Diz o Apóstolo: 'O avaro, o qual é um idólatra' (Ef 5, 5). Outros erravam cultuando homens, aves ou outros animais, ou a si mesmos [...]" [5].

Se queremos, portanto, entender o sentido real do primeiro mandamento, escutemos o Senhor – Aquele que é maior do que Moisés (Hb 3, 3) –, quando testado por um doutor da Lei: "O primeiro mandamento é este: 'Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é um só. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força'" (Mc 12, 29-30; Mt 22, 37-38). Como se vê, o Senhor não faz referência alguma a imagens! Porém, a idolatria é claramente condenada, pois, com o dever de amarmos a Deus acima de tudo e com totalidade, sendo Deus um só, proíbem-se os ídolos, e as imagens enquanto ídolos. Não se trata, desse modo, de proibição sobre qualquer espécie de escultura, de pintura, de desenho etc., caso contrário a arte como um todo estaria proibida, além de fotografias e objetos de decoração.

Por conseguinte, para a Igreja Católica, as imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Sua Santíssima Mãe, dos Santos Anjos e dos Santos, não são ídolos e "o culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. Com efeito, 'a honra prestada a uma imagem remonta ao modelo original' e 'quem venera uma imagem venera nela a pessoa representada'. A honra prestada às santas imagens é uma 'veneração respeitosa', e não uma adoração, que só a Deus se deve" [6]. Uma carta escrita entre os anos de 726 e 730 d.C. ao ímpio Leão III, imperador iconoclasta, é resposta acertadíssima também aos iconoclastas modernos:

"E dizes que nós adoramos pedras, paredes e painéis de madeira. Não é assim como dizes, ó Imperador, mas para nossa memória e nosso estímulo, e para que nossa mente lerda e fraca seja dirigida para o alto por meio daqueles aos quais se referem esses nomes, invocações e imagens; e não como se fossem deuses, como tu dizes – longe de nós! De fato, não pomos nossa esperança nesses 'objetos'. E se é uma imagem do Senhor, dizemos: Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, socorre-nos e salva-nos. Se é da sua santa Mãe, dizemos: Santa mãe de Deus, mãe do Senhor, intercede junto ao teu Filho, nosso verdadeiro Deus, para a salvação das nossas almas! Se é do mártir, dizemos: Ó santo Estêvão, protomártir, tu que derramaste o sangue pelo Cristo, com tua liberdade de falar, intercede por nós! E para qualquer mártir que venceu o martírio, assim dizemos, elevamos semelhantes orações por meio deles. E não é verdade que chamamos os mártires de deuses, como dizes, ó Imperador" [7].

Infelizmente, muitos continuarão com uma impiedade desenfreada e tagarelando incompreensões. Deveras, muito mais seria necessário dizer sobre os abusos na interpretação da Sagrada Escritura e as acusações injustificadas feitas à Igreja Católica, provenientes em primeiro lugar da ignorância e, quem sabe, da má intenção; porém, é certo que quem não quer ouvir, não ouve. Que o Senhor tenha piedade de todos nós.

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Uma reflexão sobre São João Maria Vianney
Santos & Mártires

Uma reflexão sobre
São João Maria Vianney

Uma reflexão sobre São João Maria Vianney

Embora os santos sejam a resposta para as crises do mundo, eles não ambicionam sê-lo — e provavelmente sequer se tornariam santos se o fizessem. O que eles querem é amar a Deus apaixonadamente, apesar das crises.

Michael PakalukTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 5 minutos
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No dia 4 de agosto de 1859 morria, em sua vila na França, João Batista Vianney, aos 73 anos de idade. A isso se seguiria uma das mais rápidas beatificações e canonizações da modernidade (antes das reformas desses processos, realizadas pelo Papa João Paulo II): Pio X beatificou o Cura d’Ars em 1905, e Pio XI o canonizou em 3 de maio de 1925. 

Há uma famosa citação de São Josemaria Escrivá, de que as crises no mundo são crises de santos (cf. Caminho, 301). Podemos concordar entusiasticamente com a afirmação sem entender precisamente o que ela significa. Seu sentido parece variar tanto quanto podem variar o indivíduo, a crise e a própria santidade. Pensemos em exemplos pertinentes: São Juan Diego, São Thomas More, São John Henry Newman, Santa Teresa de Calcutá e São João Paulo II. Hoje, porém, vamos refletir sobre São João Maria Vianney.

Olhando para trás, Vianney parece ser um dos muitos grandes sacerdotes e religiosos educados logo após a Revolução Francesa e o Período do Terror. Ele testemunhou a execução de sacerdotes e o fechamento de igrejas sob ordens das autoridades civis. Para ele, no entanto, a necessidade de sacerdotes tornou-se mais palpável, não menos. E ele não estava só: entre os que foram ordenados ao diaconato com ele em Lyon estavam Marcelino Champagnat (canonizado por João Paulo II em 1999) e Jean-Claude Colin — fundador dos Maristas.

Embora os santos sejam a resposta para as crises, eles não ambicionam ser “respostas para crises” — e provavelmente sequer se tornariam santos se o fizessem. O que eles desejam é amar a Deus apaixonadamente, apesar das crises. O biógrafo de São João Vianney, Joseph Vianney, interpreta sob esse prisma os famosos esforços dele com o latim e a filosofia.

De uma perspectiva humana, diz Joseph, alguém poderia ter pensado que a crise na França teria sido enfrentada com mais eficácia por uma apologética brilhante na Sorbonne, ou por uma oratória atraente na catedral de Notre-Dame. Mas a Igreja precisava ainda mais de pastores do campo “para demonstrar com a santidade de suas vidas a verdade do Evangelho, no qual as pessoas já não acreditavam mais. A criança de Dardilly fora escolhida dentre todas as outras para ser o modelo daqueles sacerdotes santos, que são indispensáveis para a execução do plano divino”.

Posteriormente, um clérigo levou ao confessionário em Ars um complexo caso de consciência para pedir aconselhamento ao Cura. Ele viu, então, um problema, que havia deixado perplexos os maiores especialistas em teologia moral, ser resolvido de pronto pelo simples pastor, com elegância e persuasão. Questionado por seu irmão no sacerdócio sobre onde havia adquirido um conhecimento teológico tão perspicaz, o santo respondeu apontando para seu genuflexório.

O Cura estava profundamente convencido de suas indignidades, não recebia consolações por causa de sua virtude e orava com fervor para jamais ser alvo de atenção. Por exemplo, através de suas orações, milhares de peregrinos que se dirigiam a Ars eram curados de doenças físicas. Mas, aparentemente, em resposta às orações dele, as pessoas raramente eram curadas no local. Em vez disso, ele lhes dizia para retornarem a casa e fazerem a novena de Santa Filomena — e, no nono dia, elas ficavam curadas, sem alarde e estando bem longe de Ars.

É bastante conhecido o fato de que ele passava de 16 a 17 horas por dia no confessionário. Esse número já é, por si mesmo, impressionante o suficiente. Mas é preciso lembrar, também, de que não havia sistema de aquecimento em sua igreja. Ele costumava gracejar que, no fim do dia, durante o inverno, ele primeiro via os seus pés para só depois os sentir. Dizia ele que costumava apalpar os pés para ter certeza de que ainda estavam lá.

No calor intenso do verão, os peregrinos que esperavam na fila podiam sair da igreja por um momento a fim de tomar um pouco de ar fresco e não desmaiar. Ele, porém, ficava o tempo inteiro atrás de uma cortina, numa caixa, sentindo o hálito dos penitentes e muitas vezes o seu odor, já que a maioria deles era pobre.

E então ele se punha a escutar pecados por 16 ou 17 horas. Era essa a grande causa de seu sofrimento. “Sou tomado pela melancolia nesta terra miserável”, disse ele certa vez a um companheiro no sacerdócio, “minha alma se entristece até à morte. Meus ouvidos não escutam senão coisas dolorosas que me tomam o coração de tristeza”. Seu biógrafo compara a situação a São Pedro sendo obrigado a testemunhar a Paixão 17 horas por dia.

Ele dormia em tábuas por apenas algumas horas na noite e tinha de suportar uma dor crônica. Somente a graça e o amor podem explicar a energia que ele tinha ao longo do dia. Não era possível que uma pessoa sobrevivesse por meios naturais ingerindo uma quantidade tão pequena de comida. Numa etapa posterior de sua vida, por obediência ele passou a comer um pouco de pão e tomar um pouco de leite após a Missa. Seu biógrafo narra este incidente emblemático: “Irmão Jerônimo, que muitas vezes estava presente nessa ligeira refeição, logo percebeu que ele sempre comia primeiro o pão e depois tomava o leite. ‘Mas, senhor cura’, observou um dia quando notou a dificuldade com que o pão era engolido, ‘seria muito melhor se molhasse o pão no leite’. ‘Sim, eu sei’, foi a sua resposta gentil.” 

E era muito mais difícil para um pároco do que para um religioso, ele dizia: “Um sacerdote precisa de reflexão, oração e união íntima com Deus. O cura, no entanto, vive no mundo; ele conversa, envolve-se com política, lê os jornais, fica com a cabeça cheia deles; depois, lê o breviário e celebra a Missa, e infelizmente faz isso como se fosse uma coisa comum!”

De fato… infelizmente! As palavras dele se aplicam a leigos e a sacerdotes seculares. E “estas crises mundiais são crises de santos”.

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Orações para discernir a própria vocação
Oração

Orações para discernir a própria vocação

Orações para discernir a própria vocação

Aos que ainda estão escolhendo o próprio estado de vida, oferecemos abaixo algumas orações a fim de pedir a Deus luzes para conhecer o caminho que Ele nos tem preparado, força para começar a jornada e constância para percorrê-lo até o fim.

Wilhelm NakatenusTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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“Na empresa da própria santificação”, escreve o Pe. Antonio Royo Marín, “cada um há de pôr a suprema esperança de sua vida, o máximo interesse, empregando todas as forças recebidas de Deus segundo a medida do dom de Cristo. Só a este preço alcançará o cristão sua plena perfeição sobrenatural, que se traduzirá depois em um peso incomensurável de glória para toda a eternidade” (2Cor 4, 17) [1].

Mas esse belo empreendimento, o único que realmente vale a pena, não se leva a cabo de forma genérica, impalpável, no limbo dos “bons desejos”, mas nas circunstâncias concretas em que o Senhor põe a cada um de nós. Por isso, poucas coisas são tão necessárias ao fiel do que escolher o gênero de vida em que há de realizar, com matizes próprios, a única santidade cristã, a mesma que cultivam, substancialmente, os sacerdotes, no estado eclesiástico; os religiosos, na vida consagrada; os esposos e pais, nas ocupações da família; e os leigos celibatários, como fermentos de pureza na massa da sociedade.

Ora, como nenhuma decisão séria que tenha ressonâncias de eternidade deve ser feita com leviandade e sem reflexão, a escolha do próprio estado de vida, convém prepará-la com muita oração, imitando nisso o exemplo de Cristo, que dirigia ao Pai frequentes orações antes dos principais momentos de sua missão na terra. Com a intenção de ajudar os leitores que ainda estão discernindo a própria vocação, oferecemos abaixo algumas orações para pedir a Deus luzes para conhecer o caminho que Ele nos tem preparado, força para começar a jornada e a constância para percorrê-lo até o fim.


Orações para discernir e escolher o estado de vida
(Coeleste palmetum, XXXII, pp. 365–366)

1. Oração a Deus Pai para pedir a divina sabedoria e o Espírito Santo (cf. Sb 9). — Deus eterno e todo-poderoso, que todas as coisas criastes pela Vossa palavra e que, por Vossa sabedoria, formastes o homem: fazei-a descer do Vosso santo céu e enviai-a do trono de Vossa glória, para que, junto de mim, tome parte em meus trabalhos, e para que eu saiba o que Vos agrada. Que homem pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor? Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções; porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados. E quem conhece Vossas intenções, se Vós não lhe dais a sabedoria, e se do mais alto dos céus não lhe enviais o Vosso Espírito Santo? Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra.

Hino Vinde, Espírito Santo. — Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos Vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra. — Oremos: Ó Deus, que instruíste os corações dos Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, concedei-nos amar, no mesmo Espírito, o que é reto e gozar sempre a sua consolação. Por Cristo, Senhor Nosso. Amém.

2. Oração a Jesus, para oferecer-se com indiferença a todos os estados. — Eis-me aqui, ó meu Jesus, de pé diante de Vós, indiferente a todos os estados; seguirei sem demora aquele a que Vós me chamardes. Quereis que deixe minha terra, família e casa paterna? Meu coração está firme! Nem a pátria nem os parentes, nem riquezas nem cobiças me hão de reter. Quereis que, tendo a tudo abdicado, Vos sirva na pobreza, na castidade e na obediência religiosa? Meu coração está firme! Quereis que viva em estado eclesiástico? Meu coração está firme! Só Vos peço não me permitais ali chegar por vias ilícitas nem ali viver indignamente. Chamai-me antes deste mundo a Vós por uma morte súbita! Quereis que viva célibe no mundo ou contraia santo matrimônio? Dai-me conhecer Vosso beneplácito: meu coração está firme! Às alegrias e tristezas, às doçuras e asperezas me ofereço. Estou pronto a ir convosco tanto para a prisão como para a morte (cf. Lc 22, 33).

3. Oração à Bem-aventurada Virgem. — A vós, ó Estrela do Mar, entre as vagas instáveis desta vida, elevo meu olhar! Dirigi, ó Mãe da Eterna Luz, o meu coração ao Polo, vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, e guiai-me àquele estado de vida em que eu dignamente sirva a este mesmo Filho vosso e chegue, enfim, ao tão ansiado porto da pátria celeste. Amém.

4. Oração ao Anjo da guarda. — Ó meu Anjo, a cuja tutela fui confiado por Deus; ó guia e companheiro de minha peregrinação, assisti-me neste tão grave negócio de minha salvação! Mostrai-me que caminho devo escolher para alcançar o fim para o qual fui criado, isto é, a eterna bem-aventurança, a fim de merecer contemplar e louvar convosco o meu Deus para sempre. Amém.

5. Oração para perseverar no bom propósito. — Ó benigníssimo Deus, mostrastes-me o caminho que hei de trilhar; manifestastes-me Vossos juízos e leis, dando-me saber que desejais ser servido neste estado… Concedei-me, pois, a Vossa graça, para perseverar constante neste meu propósito e alcançar a eterna salvação. Amém.

Referências

  1. Espiritualidad de los seglares. Madrid: BAC, 1967, p. 28.

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Cristãos “esquisitos”?
Sociedade

Cristãos “esquisitos”?

Cristãos “esquisitos”?

Incenso, véus, canto gregoriano e sacramentais estão de volta… E a iniciativa é justamente dos jovens! Mas de onde vem o interesse das novas gerações pela religião? E por que elas se sentem tão atraídas pelas formas tradicionais de culto?

John Horvat IITradução: Equipe Christo Nihil Praeponere4 de Agosto de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Muitos autores de esquerda têm dificuldade em explicar a atração dos jovens pela religião, particularmente em suas formas mais tradicionais. Em tese, essa atração não deveria existir. Ela dá curto-circuito na lógica das narrativas prediletas da esquerda. Jovens deveriam sentir-se atraídos por narrativas revolucionárias que pregam o progresso e a igualdade. A história, dizem os esquerdistas, é uma sucessão de disputas de poder que dividem as pessoas entre exploradores e explorados. Jovens religiosos não se encaixam na narrativa porque buscam um Deus que é amor e perdão.

Quando esse autores não conseguem identificar a luta de classes nessa atração religiosa, resolvem elaborar uma ladainha de acusações, tachando os jovens crentes de “racistas”, “misóginos”, “homofóbicos” e até “elitistas”.

Recentemente, a jornalista Tara Isabella Burton causou alvoroço com um ensaio publicado em The New York Times, intitulado Christianity Gets Weird [“O cristianismo torna-se esquisito”]. Ela se identifica como uma jovem cristã tradicional, atraída pelas formas externas mais antigas. Ama incenso, véus, canto gregoriano e sacramentais. No entanto, como moça pós-moderna alheia às principais narrativas ocidentais, ela acha difícil explicar sua atração pelo esplendor medieval e pela “pompa histórica” do culto em latim.

Os liberais que acompanham a tendência sentem uma perplexidade semelhante. Eles tentam minimizar essa atração rotulando-a como uma “moda” da juventude. Dizem que a culpa disso é o apego superficial e fetichista a uma “estética sobrenatural”, que os deixa exasperados, e rotulam de “esquisito” aquilo que não conseguem entender. Isabella e muitos outros que se unem a ela online adotaram o rótulo com certa ironia.

Portanto, cristãos “esquisitos” estão aparecendo na cena cultural, muitas vezes em espaços na internet onde podem se reunir e compartilhar suas opiniões.

A jornalista afirma que “cada vez mais jovens cristãos, desiludidos com binarismos políticos, incertezas econômicas e com o vazio espiritual que define a América moderna, encontram alívio numa visão da fé claramente antimoderna”. 

Os membros das gerações Y e Z percebem o vazio do deserto cultural pós-moderno. Também rejeitam o vazio das principais igrejas protestantes, que atenuaram as verdades sobrenaturais e exaltaram trivialidades. Esses peregrinos online detestam os aspectos estéreis, feios e cruéis da vida moderna.

Eles anseiam por algo verdadeiro e profundo. Sua propensão a “voltar” à Idade Média e à fé tradicional é o pior pesadelo de um esquerdista. Este fica perturbado não apenas por causa da atração que esses jovens sentem por um cristianismo vigoroso, mas também por sua rejeição dos fundamentos antimetafísicos da ordem de esquerda, que foram intensificados pela desagregação política e econômica dessa ordem, provocada pelo coronavírus.

O problema dessa corrente contracultural é a sua dificuldade em se definir e se expressar. Seus seguidores jamais conheceram o mundo tradicional, e agora o admiram. São vítimas de uma cultura pós-moderna caótica, destituída de estrutura e estabilidade. Isabella afirma que uma rebeldia “punk” caracteriza o movimento, que parece ser contrário a tudo o que faz parte do establishment, inclusive a economia moderna.  

Esses jovens são movidos pela “ânsia de algo que está além do que a cultura americana contemporânea lhes pode oferecer, algo transcendente, politicamente significativo e pessoalmente desafiador”.

Eles não sabem exatamente o que estão a buscar, mas detectam algo que os fascina e se apegam a isso com paixão. Críticos superficiais rejeitam esse apego, pois acham que a adesão a aspectos externos pode levar a vários perigos.

Mas esses críticos estão errados.

Existe um nome para o que esses jovens cristãos buscam e encontram nas formas tradicionais de culto, como nas Missas em latim, no incenso e nas Vésperas solenes. Eles encontram uma beleza autêntica que toca e eleva sua alma, fazendo-os distanciar-se da feiura da modernidade. O pensamento filosófico ocidental chama essa beleza de sublime.

É com acerto que Edmund Burke considera o sublime a “emoção mais forte que a mente é capaz de sentir”. Ele consiste em coisas transcendentes que provocam fascínio por causa de sua magnificência. É algo que nos convida a superar o egoísmo e a autossatisfação e a olhar para coisas mais elevadas — o bem comum, a santidade e, em última análise, Deus —, coisas que dão sentido e propósito à vida.  

Quer se manifeste em obras de arte, em grandes feitos ou na liturgia religiosa, o sublime fomenta sentimentos de lealdade, dedicação e devoção que podem preencher o vazio do deserto pós-moderno. 

A Igreja se cerca de coisas sublimes, coisas que sem dúvida atraem e convertem as pessoas para o culto e o serviço a Deus (coisas que, infelizmente, foram abandonadas pelos progressistas). Elas são manifestações externas que revelam algo da própria grandiosidade de Deus. A natureza humana se sente naturalmente atraída por elas e por princípios e doutrinas que fascinam o intelecto, em razão de sua lógica e sabedoria.

Os jovens cristãos estão certos ao presumir que as coisas que provocam fascínio são parte de um modo de vida distinto daquele que encontram hoje no mundo. Também estão corretos em sua percepção do colapso irreversível da ordem esquerdista, que nada lhes oferece de sublime. Não há nada de “esquisito” em sua descoberta de uma ordem social cristã que trilha o caminho oposto das alternativas individualistas e estéreis, que são, elas sim, a verdadeira esquisitice na história humana.

Os esquerdistas pós-modernos não se sentem ameaçados quando o cristianismo tradicional aceita ser apenas mais um de tantos elementos no bufê cultural. Porém, quando as pessoas rejeitam a infraestrutura filosófica que sustenta o esquerdismo, eles perdem toda a tranquilidade. 

O problema, para esse sedentos jovens cristãos, não está no objeto de seu fascínio, mas em como dar os próximos passos que levariam, normalmente, a um aprofundamento de sua fé. É preciso ir além da “esquisitice” e abraçar com sinceridade o sublime, em toda a sua plenitude e autenticidade.

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Jejuar ainda? Por quê?
Espiritualidade

Jejuar ainda? Por quê?

Jejuar ainda? Por quê?

O jejum é um dos costumes religiosos mais antigos da história. Sua prática, no entanto, tem sido bastante desprezada por nossa sociedade consumista e sem autocontrole. Por que, então, mesmo assim, a Igreja continua a recomendá-la?

Pe. Blake BrittonTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere31 de Julho de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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O jejum é uma das práticas religiosas mais antigas da história. Hoje, porém, numa sociedade dominada pelo consumismo, pelo materialismo e por uma falta de autocontrole generalizada, a disciplina do jejum é bastante desprezada. A Igreja Católica ainda é uma das poucas instituições no mundo que defende a dignidade dessa prática e a sua importância para a vida espiritual. Portanto, devemos nos perguntar: por que a Igreja é tão “inflexível” a respeito desse antigo costume e quais as origens dele?

S. Basílio Magno, em suas homilias para a Quaresma, observa que o jejum é tão antigo quanto a humanidade. Na verdade, foi a primeira ordem que os seres humanos receberam de Deus: “Não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal” (Gn 2, 17). De acordo com S. Basílio, foi a incapacidade de jejuar que levou à Queda no Éden. O jejum como tal é um dos remédios para recuperar a dignidade original de nossa identidade como filhos de Deus: “Fomos banidos do Paraíso porque não jejuamos. Portanto, jejuemos para retornar a ele” (Hom. 1 sobre o jejum).

S. Basílio reconhece um duplo propósito nessa ordem primordial de jejuar. Primeiro, o jejum ajuda a alma a amadurecer. Qualquer psicólogo reconhecerá que a falta de disciplina e autocontrole são sinais claros de imaturidade. A incapacidade de ser paciente, tomar decisões sensatas e desfrutar com responsabilidade de comida, bebida ou relacionamentos representa uma grave lacuna no desenvolvimento humano. É por isso que a prática regular da autodisciplina por meio do jejum é tão crucial para a vida espiritual. Não se trata apenas de renunciar a algo porque a Igreja assim o determina. Quanto mais praticamos a abstinência, mais maduros nos tornamos, saindo da imaturidade da satisfação imediata para a maturidade do consumo regrado. Pois o jejum é o “companheiro da sobriedade e o artesão do autocontrole” (Ibid.).  

Portanto, o jejum nos ajuda a fomentar uma virtude específica — a saber, o autocontrole, uma qualidade não muito comentada em nossa época. São Paulo o identifica como um dos frutos do Espírito Santo: “O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança” (Gl 5, 22–23). O termo grego usado por Paulo é enkrateia (ἐγκράτεια), que é composto de duas outras palavras: en (de dentro) e kratos (de uma raiz que significa “aperfeiçoar”). Portanto, ter autocontrole significa literalmente “aperfeiçoar-se desde dentro”. Essa definição nos ajuda a entender melhor a segunda afirmação de S. Basílio a respeito das consequências do jejum.

Para S. Basílio, o jejum feito de forma correta ordena os apetites do nosso corpo para o bem da alma: “Quanto mais negar a carne, mais radiante de saúde espiritual se tornará a alma” (Hom. 2 sobre o jejum). Aqui vemos a influência dos Padres do Deserto na espiritualidade de S. Basílio. Esses cristãos da Antiguidade eram inflexíveis quanto à reconquista da dignidade perdida por Adão no Éden. Reconheciam que o erro de Adão estava relacionado à falta de disciplina. Ele cedeu aos seus desejos mais básicos, perdeu de vista a elevada vocação da humanidade como imago Dei (a “imagem e semelhança de Deus”). Assim, monges como Abbá João (525 d.C.) fizeram o seguinte alerta: “Deveríamos sempre evitar o apego [às coisas terrenas], pois isso é prejudicial à alma”. 

Jesus mesmo ensina que “não só de pão vive o homem” (Mt 4, 4). Os seres humanos não são meros animais. Temos apetites que vão além do carnal. Nossa vontade não está orientada pelo instinto. Deve haver uma razão mais profunda para as nossas ações. Quando meu estômago ronca por causa do jejum, tenho nisso um lembrete da fome espiritual que a minha alma experimenta em todos os momentos da minha existência. Essa também é a lógica do jejum antes da recepção da Sagrada Eucaristia. Por meio do jejum eucarístico, meu corpo fica temporariamente “fundido” à fome da minha alma por Cristo no Santíssimo Sacramento.

A alma anseia constantemente pela misericórdia e bondade de Deus. Estamos alimentando esse desejo ou deixamos a nossa alma faminta? Estamos alimentando o nosso espírito com os alimentos nutritivos da Eucaristia, da Confissão, da Sagrada Escritura e da oração contemplativa? 

Sabemos que o jejum foi parte integrante da vida de Jesus, tanto que passou quarenta dias no deserto abstendo-se de alimento terreno. O Senhor não faz nada por acaso ou sem planejar. Todos os acontecimentos de sua vida nos ensinam algo profundo sobre a nossa própria existência como pessoas e a nossa vocação como cristãos. Encontramos no jejum de Cristo uma forma de participar da vida divina de Deus. Ao crescermos no autocontrole a partir dos nossos impulsos imaturos e ao alimentarmos a nossa alma de forma adequada por meio do jejum, sem dúvida cresceremos na intimidade com o Senhor, que nos ama.

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