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Distorcendo o primeiro mandamento
Espiritualidade

Distorcendo o primeiro mandamento

Distorcendo o primeiro mandamento

O diabo pavimenta a estrada para o inferno "maquiando" o primeiro mandamento. Eis o grande perigo da idolatria.

Equipe Christo Nihil Praeponere5 de Dezembro de 2013Tempo de leitura: 3 minutos
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Quando se repete, nas aulas de catequese, que o primeiro mandamento é "Amar a Deus sobre todas as coisas", seria bom que se sublinhasse a palavra todas. Desde as menores — nossos bens e propriedades — às mais valiosas — a família que temos e a nossa própria vida —, nada deve figurar acima de Deus — já que é d'Ele tudo o que somos e recebemos.

De fato, diz o Catecismo que "Deus amou primeiro". Seguir os mandamentos é simplesmente "a resposta de amor que o homem é chamado a dar a seu Deus" (§ 2083). Quando o homem decide se entregar totalmente a Ele, adorando-O e sendo fiel à Sua vontade, não faz mais do que agir com generosidade diante de um amor muito maior que o que oferece. É o que testemunha São João Evangelista, quando escreve: "De tal modo Deus amou o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16). E ainda: "Amamos, porque Deus nos amou primeiro" (1 Jo 4, 19).

No entanto, o risco que se corre é o de esquecer com que grande amor o homem foi amado e com que preço foi comprado — com o próprio sangue de Deus derramado no Calvário.

Pior: se há quem ignore tamanha prova de amor, há quem a conheça e, ainda assim, resista em tributar honra, glória e adoração ao Senhor. Neste ponto, os cristãos precisamos bater no peito — dizendo as palavras do Confiteor, "mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa" — e reconhecer a nossa grande dívida, pois não temos vivido de acordo com as máximas do Evangelho; não temos nos ocupado "em primeiro lugar com o Reino de Deus e a sua justiça" (Mt 6, 33). Ao contrário, preocupando-nos demasiadamente com o dia de amanhã, temos nos esquecido do Amanhã Eterno ao qual todos um dia chegaremos.

A tolice de ajuntar "tesouros na terra", conduta contra a qual Jesus advertiu severamente — "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam" ( Mt 6, 19) —, é uma tentação atraente. Porém, é o que é todo pecado: uma mentira, uma distorção das dimensões da realidade.

Quem preferisse os bens terrestres às riquezas celestiais cometeria a sandice de uma noiva que ganha um anel de seu esposo, mas, apaixonando-se pelo presente, esquece-se do noivo. É a comparação que usa Santo Agostinho:

"Irmãos, suponhamos que um esposo fizesse um anel para sua esposa e esta tivesse mais amor pelo anel recebido que pelo esposo que lho fabricou; não é verdade que com aquele presente se revelaria que a esposa tem um coração adúltero, embora ela ame algo que é presente do esposo? É claro que ela ama algo que foi feito pelo seu esposo, mas se ela dissesse: 'Basta-me o seu anel, e não me interessa ver o seu rosto', que tipo de esposa seria esta? Quem não abominaria esta loucura? Quem não condenaria este sentimento de adúltera?" [1]

É "este sentimento de adúltera" o pecado que se concebe como idolatria. Na leitura de todo o Antigo Testamento é possível notar como o povo de Israel precisa muitas vezes batalhar consigo mesmo para resistir à tentação de adorar deuses fabricados pelos homens ao invés de cultuar o próprio Deus.

Hoje, a situação não é diferente. O cristão permanecerá toda a sua vida neste mundo lutando consigo mesmo para colocar em ordem a sua natureza corrompida e manchada pelo pecado. A luta contra a carne é a guerra contra o pior inimigo da alma, já que a concupiscência se trata de um "inimigo interno", que habita em nossa própria casa. A vitória definitiva sobre esta realidade só acontecerá na ressurreição dos mortos, quando todos os santos reinarão diante de Deus em corpo glorioso.

Até lá, no entanto, a batalha é quotidiana, não pára um só minuto. Muitas vezes, as insídias perigosas do demônio soarão inofensivas… Não pense o homem que as tentações serão para que o homem traia explícita e diretamente a Deus, que serão sugestões de infidelidade aberta e escancarada. O diabo começa a pavimentar a estrada para o inferno "maquiando" o primeiro mandamento: se o homem cai na armadilha, continua "amando" a Deus, mas não sobre todas as coisas. E aqui começa a sua perdição.

Não se engane o homem: "Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza" (Mt 6, 24).

Referências

  1. Santo Agostinho, Tractatus in Epistulam Iohannis ad Parthos, II, 11 (PL 35, 1995).

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A descoberta do corpo de Santo Estêvão
Santos & Mártires

A descoberta
do corpo de Santo Estêvão

A descoberta do corpo de Santo Estêvão

Mais de 300 anos após a morte de Santo Estêvão, Protomártir, uma revelação privada a um sacerdote indicaria o lugar exato de seu sepultamento… E por suas relíquias, depois, numerosos milagres seriam realizados. Conheça essa história.

Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Agosto de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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O Martirológio Romano antigo anota, no dia 3 de agosto, “em Jerusalém, a invenção [isto é, a descoberta] do corpo do beatíssimo Santo Estêvão Protomártir, e dos Santos Gamaliel, Nicodemos e Abibon, como fora revelado por Deus ao Presbítero Luciano, em tempo do Imperador Honório”.

Até pouco tempo atrás, esse evento era celebrado no Calendário Romano Geral [1], figurando como uma segunda festa em honra a Santo Estêvão, além da já conhecida festa do dia 26 de dezembro, quando se celebra o seu martírio. 

Apesar da distância que separa as duas festas, a verdade é que, segundo a tradição, tanto a descoberta do corpo Protomártir quanto a sua paixão teriam acontecido na mesma data. Mas, segundo a explicação contida na Legenda Áurea,

a Igreja mudou a data daquela festa por duas razões. A primeira é que, como Cristo nasceu na Terra a fim de que o homem nascesse no Céu, convinha que a festa da natividade de Cristo fosse seguida pela festa natalícia de Santo Estêvão, que foi o primeiro a suportar por Cristo o martírio, o que é nascer no céu, para que assim ficasse claro que esta natividade se segue daquela. Daí o canto: “Heri Christus natus est in terris, ut hodie Stephanus nasceretur in coelisOntem Cristo nasceu na Terra, para que hoje Estêvão nascesse no Céu”. A segunda razão é que a festa da invenção era celebrada mais solenemente que a festa de sua paixão, e isso por conta da reverência à natividade do Senhor e dos muitos milagres que na invenção dele o Senhor manifestou. Como, pois, a paixão dele é mais digna que sua invenção, também por isso deve ser mais solene, por esse motivo a Igreja transferiu a festa da paixão para aquele tempo em que seria tida em maior reverência [2].

O que mais nos deve interessar, no entanto, é a história de como essa descoberta se deu, e é também a Legenda Áurea que nos fornece esse belo relato, que destacamos abaixo. 


A descoberta do corpo do protomártir Estêvão ocorreu no ano do Senhor de 417, sétimo do reinado de Honório [...] e aconteceu da seguinte forma.

“Homens devotos carregando o corpo de S. Estêvão”, por Benjamin West.

Um presbítero de Jerusalém, chamado Luciano — incluído por Genádio, autor deste relato, entre os homens ilustres que merecem ser celebrados —, estava numa sexta-feira deitado, quase dormindo, quando lhe apareceu um velho de grande estatura, belo rosto, longa barba, vestido com um manto branco incrustado de pequenas pedras preciosas e cruzes de ouro, calçado de sapatos dourados. Ele tinha na mão um cajado de ouro, com o qual o tocou dizendo: “Procure cuidadosamente nosso túmulo, pois fomos colocados em um local inconveniente, e vá dizer a João, bispo de Jerusalém, que nos coloque em um lugar honrado, pois, quando a seca e a tribulação abalarem o mundo, Deus decretou que lhes será propício através de nossos sufrágios”. 

O presbítero Luciano perguntou: “O senhor quem é?”. 

Eu sou”, respondeu ele, “Gamaliel, aquele que alimentou o Apóstolo Paulo e ensinou-lhe a lei. Junto comigo está enterrado o Santo Estêvão, que foi lapidado pelos judeus fora da cidade para que o seu corpo fosse devorado pelas feras e aves. Mas isso foi proibido por Aquele a quem o mártir serviu e por quem conservou sua fé intacta. Eu o recolhi com grande reverência e o enterrei em uma nova tumba. Outro que jaz comigo é Nicodemos, meu sobrinho, que certa noite encontrou Jesus e recebeu o batismo sagrado de Pedro e de João. Por causa disso, indignados, os príncipes dos sacerdotes resolveram matá-lo, e só não o fizeram devido à reverência que nos dedicavam. No entanto, eles confiscaram todos os seus bens, depuseram-no de seu cargo e bateram tanto nele que o deixaram meio morto. Então eu o levei para minha casa, onde ele sobreviveu alguns dias, e quando morreu eu o sepultei junto do bem-aventurado Estêvão. Há uma terceira pessoa comigo, Abibas, meu filho, que recebeu o batismo junto comigo, quando tinha a idade de vinte anos. Ele permaneceu virgem e dedicou-se à lei ao lado de Paulo, meu discípulo. Minha mulher, Aetéa, e meu filho Selêmias, que não quiseram aceitar a fé em Cristo, não foram dignos de receber nossa sepultura. Você encontrará suas tumbas vazias e inúteis, pois estão sepultados em outro lugar.”

Dito isto, São Gamaliel desapareceu. 

Ao acordar, Luciano orou ao Senhor para que, se aquela visão fosse verdadeira, aparecesse uma segunda e uma terceira vez. Na sexta-feira seguinte, Gamaliel apareceu-lhe como da primeira vez e perguntou por que ele havia negligenciado o que lhe dissera. Luciano disse: “Não, senhor, eu não negligenciei, mas pedi ao Senhor que, se essa visão fosse de Deus, que ela me aparecesse uma terceira vez”. Disse Gamaliel: “Como você refletiu sobre o modo de identificar os restos mortais de cada um, vou lhe dar os meios para conseguir fazê-lo”. E mostrou-lhe três recipientes de ouro e um quarto de prata, um cheio de rosas vermelhas e outros dois de rosas brancas. Gamaliel mostrou o quarto deles, o de prata, cheio de açafrão, dizendo: 

“Estes recipientes são os nossos ataúdes e estas rosas são os nossos restos. O recipiente cheio de rosas vermelhas é o ataúde de Santo Estêvão, pois foi o único de nós a receber a coroa do martírio. Os outros dois, cheios de rosas brancas, são meu ataúde e o de Nicodemos, pois perseveramos com coração sincero na aceitação de Cristo. O quarto, de prata, cheio de açafrão, é o ataúde de meu filho Abibas, que se destacou pelo brilho da virgindade e que deixou este mundo limpo. 

Dito isto, desapareceu. 

Na sexta-feira da semana seguinte, Gamaliel apareceu irado e repreendeu severamente a demora e a negligência de Luciano, que imediatamente foi a Jerusalém e contou tudo ao bispo João. Este e outros bispos foram até o lugar mencionado por Luciano, e logo que começaram a cavar a terra tremeu e sentiram um suavíssimo odor. Odor admirável, que pelos méritos dos santos curou setenta homens de diversas enfermidades. As relíquias dos santos foram honradamente transportadas para a igreja de Sião, em Jerusalém, onde Santo Estêvão tinha servido como arquidiácono. Nessa hora caiu uma grande chuva. Beda menciona a visão e a descoberta dos corpos em sua crônica [3].


Essa impressionante história recolhe as aparições de um santo e vários milagres extraordinários. Mas não são os únicos registros a respeito das relíquias de Santo Estêvão. Santo Agostinho, que foi contemporâneo do evento, também atestou o poder miraculoso dos restos mortais do Protomártir, narrando vários milagres atribuídos a eles em sua Cidade de Deus (l. XXII, 8).

Por essa razão, é muito salutar aproveitar este dia para invocar o patrocínio de Santo Estêvão. E também para lembrar, contra a rejeição protestante do culto aos santos, o valor que desde o alvorecer da Igreja tiveram as relíquias dos santos mártires. Os primeiros seguidores de Nosso Senhor já eram católicos, como atestam as atas do martírio de São Policarpo e numerosos escritos dos Santos Padres [4]. 

É por isso que, como dizia por experiência própria São John Henry Newman, “aprofundar-se na História é deixar de ser protestante” [5]. 

Notas

  1. A festa da Invenção de Santo Estêvão foi retirada do calendário litúrgico em 1960, por João XXIII — antes, portanto, da reforma pós-conciliar de Paulo VI. Cf. a esse respeito Gregory DiPippo, Compendium of the Reforms of the Roman Breviary: The Reform of 1960. New Liturgical Movement, 3 nov. 2010; The Finding of St. Stephen the First Martyr. New Liturgical Movement, 3 ago. 2019.
  2. Retirado e adaptado de Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 611.
  3. Ibid., pp. 609-611.
  4. A esse respeito, cf. Ario Borges Nunes Jr., Relíquia: o destino do corpo na tradição cristã. São Paulo: Paulus, 2013; Joan Carroll Cruz, Relics: what they are and why they matter. Charlotte: TAN, 2015.
  5. Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã. Trad. de Fábio A. Vitta. São Paulo: Cultor de Livros, 2020, p. 32.

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Jesus Cristo não poderia ter sido mais claro!
Doutrina

Jesus Cristo
não poderia ter sido mais claro!

Jesus Cristo não poderia ter sido mais claro!

Se você ler o capítulo 6 de João, usar uma ferramenta tão básica como o “Google Tradutor” e estudar qualquer escrito dos primeiros cristãos, perceberá que a doutrina da presença real de Cristo na Eucaristia é inegável. E vem diretamente das Escrituras.

Jacob TateTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere30 de Julho de 2021Tempo de leitura: 9 minutos
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O capítulo 6 do Evangelho de São João é, geralmente, a principal fonte citada para sustentar o ensinamento católico sobre a Eucaristia: no sacrifício da Missa, pão e vinho são transubstanciados e se tornam o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade reais de Jesus Cristo, a fim de serem consumidos pelos fiéis. Esta é a fonte e o ápice de nossa fé e, sem dúvida, a principal coisa que nos separa de quase todas as outras religiões do planeta. Por isso, é extremamente importante entender essa passagem (bem como outras referências bíblicas à Eucaristia).

Os 15 primeiros versículos de Jo 6 detalham o milagre da multiplicação dos cinco pães e dois peixes, para alimentar a multidão. Este é um pano de fundo importante para o que está prestes a acontecer, pois Jesus usa este milagre recém realizado no dia seguinte, quando diz à multidão: “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois nela Deus Pai imprimiu o seu sinal” (v. 27).

A multidão então pede a Jesus um sinal para crer nele: “Perguntaram-lhe: ‘Que faremos para praticar as obras de Deus?’ Respondeu-lhes Jesus: ‘A obra de Deus é esta: que creiais naquele que ele enviou’. Perguntaram eles: ‘Que milagre fazes tu, para que o vejamos e creiamos em ti? Qual é a tua obra?’” (v. 28-30).

O povo pede um sinal, e Cristo responde fazendo um paralelo com o maná que os judeus receberam no deserto, afirmando que Deus dará um pão ainda melhor do que o dado por Moisés. Ele dará o pão do céu, o qual dará vida ao mundo — será este o sinal: “Jesus respondeu-lhes: ‘Em verdade, em verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu, mas o meu Pai é quem vos dá o verdadeiro pão do céu; porque o pão de Deus é o pão que desce do céu e dá vida ao mundo’” (v. 32-33). 

Vida para o mundo? A multidão diz: “É claro que queremos este pão!” Disseram-lhe: “Senhor, dá-nos sempre deste pão!” (v. 34).

Jesus responde com o que chamarei de o primeiro Eu sou: “E Jesus disse-lhes: ‘Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não terá fome; e aquele que crê em mim jamais terá sede’” (v. 35).

Aqui, Cristo se compara diretamente ao pão; mais importante ainda, com o pão que dá a vida, que foi dado por Moisés e comido pelos judeus. Mas isso ainda pode ser visto como uma metáfora: acreditar em Jesus seria o modo como se obtém o pão que dá a verdadeira vida. Você não necessariamente está comendo pão de verdade.

Mas, mesmo nesta comparação inicial, a multidão começa a murmurar sobre este ensinamento: “Murmuravam então dele os judeus, porque dissera: ‘Eu sou o pão que desceu do céu’. E perguntavam: ‘Porventura não é ele Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe conhecemos? Como, pois, diz ele: Desci do céu?’” (v. 41-42).

Eles parecem não gostar de que Ele se chame de “pão vivo”, ou que diga que desceu do céu. No versículo 43, Jesus manda a eles que parem de murmurar. Depois, Ele reitera o que acabou de dizer: “Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer” (v. 48-50). Eis aqui, então, o segundo Eu sou.

Cristo usa a comparação do maná no deserto ao longo de todo este discurso, e é importante lembrar que as prefigurações do Antigo Testamento nunca são tão grandes quanto seus cumprimentos no Novo Testamento. Maria é maior do que Eva; o sacrifício de Cristo é maior que o de Abraão com Isaac; e o maná a ser dado por Cristo será maior que o maná recebido por Moisés no deserto. Não será simplesmente o mesmo maná.

É a partir do versículo 51 que a coisa começa a ficar realmente interessante, e é preciso tomá-lo palavra por palavra. Cristo reafirma imediatamente o que Ele acabou de dizer, e nos vemos diante do terceiro Eu sou: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo.”

Desta vez, Jesus é muito mais explícito: Ele diz a eles diretamente que sua carne é o pão do céu, o novo maná que dá vida ao mundo. Ainda acha que se trata apenas de uma analogia? A multidão certamente não pensava assim: “A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: ‘Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne?’” (v. 52).

Se era apenas uma analogia, por que a multidão achou difícil entender? Por que existe esse salto de “Dê-nos o pão!” para “O quê? Comer a sua carne?”? E por que Ele repetiria três vezes que Ele é o pão? A resposta a essas perguntas está nas palavras que Cristo usou e em como Ele foi direto.

De fato, há lugares em que Cristo usa hipérboles nos Evangelhos. Pense em Mt 5, 29, quando Ele diz ao povo que seria melhor arrancar o próprio olho do que permitir que ele nos faça pecar. Ninguém interpretou mal suas palavras, como se significassem que era necessário se mutilar. Ninguém saiu dizendo: “Este ensinamento é muito difícil; não posso seguir um homem que me pede isso”. Em Jo 6, porém, a linguagem usada e a reação da multidão mostram claramente que Cristo estava sendo literal, não hiperbólico ou metafórico.

Ao longo de todo esse capítulo, o verbo “comer” é usado 12 vezes para descrever o ato de comer maná no deserto, comer o pão da vida e comer a carne de Cristo. No texto grego original do Evangelho, até o versículo 54, o verbo era o mesmo: φάγω (phago), que significa “comer”: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia”. Mas, no versículo 55, quando a multidão já está confusa e murmurando, Cristo muda o verbo usado para τρώγω (trógó), que significa “roer, mascar ou triturar” — e que também é traduzido como “mastigar”.

Pense na sequência de eventos. Cristo diz à multidão, no versículo 51, que eles precisam “comer” sua carne. A multidão questiona isso diretamente no versículo 52 e, então, o que Jesus faz para responder à sua pergunta no versículo 54? Ele não diz: “Não, foi apenas uma analogia, você não vai realmente consumir minha carne”. Em vez disso, Ele desce o nível, muda o verbo e diz que, sim, você realmente precisa “roer” ou “mastigar” a carne dele. Aqui, Jesus vai além para garantir que sua mensagem não se perca na assembleia.

A outra palavra direta e provocativa que Cristo usa sete vezes neste capítulo é a palavra “carne”. Algumas traduções da Bíblia traduzem essa palavra como “corpo”, mas, se você ler, no grego, trata-se de σάρκα (sárka ou sarx), que se traduz literalmente como “carne” e que é a raiz da palavra grega para “carnívoro”: σαρκοβόρος (sarkovóros), enquanto a palavra grega genérica para “corpo” é σώμα (sóma).

Cristo diz, portanto, que sua “carne” deve ser “mastigada”, e a multidão acha isso difícil de aceitar: “Muitos dos seus discípulos, ouvindo-o, disseram: ‘Isto é muito duro! Quem o pode admitir?’” (v. 60).

E aqui eles realmente deixam de seguir a Cristo: “Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele” (v. 66).

Ao ler Jo 6, portanto, fica claro que a multidão, que ouviu pessoalmente o discurso do pão da vida, entendeu o que Cristo estava dizendo: Ele havia dito que é preciso consumir sua verdadeira carne. Por qual outro motivo eles teriam ido embora? E, se eles entenderam mal, por que Jesus não tentou esclarecê-los e impedi-los de ir embora por causa de um mal-entendido? Eles sabiam exatamente o que Ele queria dizer, assim como todos os primeiros cristãos que escreveram sobre esse assunto.

Os escritos dos primeiros Padres da Igreja apoiam fortemente a interpretação católica. Irineu, Justino Mártir, Inácio de Antioquia e Clemente de Alexandria, todos eles escreveram sobre isso no séc. II; Orígenes, Hipólito e Tertuliano escreveram sobre isso no III; e a lista dos primeiros cristãos que acreditavam no ensinamento de Cristo sobre consumir a sua carne continua indefinidamente. Afora os Apóstolos, esses homens eram os que sabiam melhor o que Jesus queria dizer em Jo 6, e eles teriam agido rápido para corrigir quaisquer mal-entendidos ou heresias decorrentes de uma interpretação errada. Aqui estão apenas algumas citações dos primeiros Padres cristãos: 

Como podia o Senhor, se fosse Filho de outro pai, confessar com justiça, ao tomar um pão desta condição, que é conforme a nós, que ele é o seu corpo, e confirmar que a mistura do cálice era o seu sangue? (Irineu, Contra as Heresias IV, 33, 2: PG 7, 1073 [189 d.C.]).

Considerai porém os que opinam de outro modo sobre a graça de Jesus Cristo, aquela que veio até vós: como são contrários aos pensamentos de Deus… Eles se abstêm da Eucaristia e da oração porque não confessam que a Eucaristia é a carne do nosso Salvador Jesus Cristo, a qual padeceu por nossos pecados e que o Pai, por sua benignidade, ressuscitou. Aqueles pois que contradizem este dom de Deus morrem altercando (Inácio de Antioquia, Carta aos Esmirniotas VI, 2–VII, 1: PG 5, 711-714 [110 d.C.]).

Assim pois como o pão e o vinho da Eucaristia, antes da invocação santa da adorável Trindade, eram puro pão e vinho, feita porém a invocação, o pão torna-se o corpo de Cristo, e o vinho, o sangue de Cristo (Cirilo de Jerusalém, Catequeses Mistagógicas XIX, 7: PG 33, 1071 [350 d.C.]).

Tinha-vos prometido aos que fostes batizados um sermão em que explicasse o sacramento da mesa do Senhor… Aquele pão que vedes no altar, santificado pela palavra de Deus, é o corpo de Cristo. Aquele cálice, antes, o que contém o cálice, santificado pela palavra de Deus, é o sangue de Cristo (Santo Agostinho, Serm. 227 [411 d.C.]).

Muitos dirão que grande parte deste artigo é irrelevante porque Cristo provavelmente não falou grego; logo, seria inútil analisar um texto nessa língua. Mas, se tivermos fé em que os escritores dos Evangelhos foram inspirados pelo Espírito Santo, podemos olhar para as nuances e especificidades da língua em que eles escreveram e saber, com confiança, que o seu texto representa as palavras que Cristo usou em aramaico ou hebraico. 

Além disso, o texto em grego não constitui a argumentação inteira, nem tampouco são distinções insignificantes o que ele apresenta, como expus várias vezes através do argumento Eu sou, da crença dos primeiros cristãos, e do fato de as pessoas, nos dias de Jesus, terem se afastado por acharem o seu ensinamento difícil — o que não teria acontecido se ele tivesse empregado apenas uma linguagem simbólica.

Se você ler o capítulo 6 de João, usar uma ferramenta tão básica como o Google Tradutor e estudar qualquer escrito dos primeiros cristãos sobre o assunto, perceberá que o ensinamento católico quanto à presença real de Cristo na Eucaristia é inegável e vem diretamente das Escrituras.

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As páginas com sangue e as Hóstias incorruptas de Siena
Fé e Razão

As páginas com sangue
e as Hóstias incorruptas de Siena

As páginas com sangue e as Hóstias incorruptas de Siena

Páginas de breviário ensanguentadas e Hóstias consagradas incorruptas: conheça a história impressionante destes dois milagres eucarísticos que aconteceram em Siena, na Itália, um em 1330 e outro em 1730.

Joan Carroll CruzTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere29 de Julho de 2021Tempo de leitura: 11 minutos
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A cidade de Siena, que se tornou famosa por Santa Catarina e São Bernardino, foi escolhida para não um, mas dois milagres eucarísticos. O primeiro ocorreu em 1330 e o segundo exatamente 400 anos depois, em 1730. Há uma grande coleção de documentos atestando os detalhes de ambos os milagres. O primeiro foi um milagre cruento, o segundo incruento. Ambos estão ainda preservados e permanecem sendo objeto de grande interesse e devoção.

O milagre de 1330 refere-se a um padre de Siena que tinha sob seus cuidados os fiéis de uma vila na periferia da cidade. Um agricultor da vila ficou gravemente doente e mandou chamar o padre. Com grande pressa, o padre retirou uma Hóstia consagrada do sacrário, mas, em vez de colocá-la em uma teca, inseriu a Hóstia entre as páginas do breviário.

Depois que as orações foram recitadas, o padre abriu o breviário para dar a Hóstia ao homem doente, mas descobriu, para seu espanto, que a Hóstia estava ensanguentada e quase derretida. Sem dizer nada, ele fechou o livro e retornou para Siena. Diz-se que nem o agricultor nem ninguém na casa estava ciente do milagre ocorrido naquele momento.

Num estado de profundo remorso, o padre foi para o Mosteiro de Santo Agostinho, onde contou os detalhes do milagre ao padre Simão Fidati, um homem de profunda espiritualidade, que era também um célebre orador. (Após sua morte, o padre Simão foi beatificado pelo Papa Gregório XVI, que aprovou um Ofício e uma Missa em sua memória.)

O sacerdote mostrou ao padre Simão as duas páginas manchadas com o sangue da Hóstia, e confiou o  breviário aos seus cuidados. Após receber a absolvição pela maneira pecaminosa com que tratou a Hóstia consagrada, o padre afastou-se da história do milagre, que continuou com o padre Simão.

Após um tempo, o padre Simão removeu uma das páginas ensanguentadas e fez dela um presente para seus confrades, os padres agostinianos em Perúgia. Esse presente, infelizmente, foi perdido em 1866 durante a supressão das Ordens religiosas.

A segunda página estava dentro de um vaso de prata e, durante outro período de agitação, foi levada para Cássia, a cidade natal do padre Simão, onde incitou uma ardente devoção entre os padres, fiéis e autoridades civis. Os registros da cidade de 1387, que são mantidos na Câmara Municipal de Cássia, dão os detalhes de uma festa anual de Corpus Domini (“Corpo do Senhor”). Durante esta celebração, o prefeito e os membros do Conselho, junto com a população em geral, foram instruídos a reunir-se na igreja para honrar a venerável relíquia com uma procissão e uma Missa solene. Para esta observância, a cidade deveria fornecer uma vela de 10 libras às suas próprias custas.

Relicário do milagre eucarístico de Siena e Cássia, presente na Basílica de Santa Rita.

O milagre foi também honrado pelo Papa Bonifácio IX, que oficialmente aprovou a veneração concedida à relíquia numa bula datada de 10 de janeiro de 1401. Sua Santidade concedeu generosamente a Indulgência da Porciúncula para todos os que visitassem a Igreja de Santo Agostinho na festa de Corpus Christi.

Em 7 de junho de 1408, o Papa Gregório XII aprovou a continuidade da devoção da relíquia e acrescentou outras indulgências para aqueles que visitassem a igreja na qual ela foi mantida. A relíquia foi também honrada pelos Papas Sisto IV, Inocêncio XIII, Clemente XII e Pio VII.

Em 1962, houve um exame completo da relíquia. As dimensões do papel manchado de sangue são de 52 por 44mm; o diâmetro da mancha de sangue é de 40mm. A coloração da mancha foi descrita como marrom clara, mas, quando vista através de lentes de ampliação, a cor parecia mais vermelha, enquanto partículas de sangue coagulado foram claramente identificadas. Essa condição ainda se mantém.

Outro fenômeno existe naquela mancha: quando vista por uma lente mais fraca, revela a imagem de perfil de um homem que está visivelmente triste. A mesma imagem pode ser vista nas fotografias da mancha.

Em 1930, um congresso eucarístico foi realizado em Cássia, coincidindo com o sexto centenário de acontecimento do milagre. Para esse evento, foi abençoado um novo relicário.

Assim, estão contidas na venerável Basílica de Santa Rita de Cássia três relíquias sagradas: o corpo incorrupto de Santa Rita, os ossos do Beato Simão Fidati e a relíquia do milagre eucarístico de 1330, que tem sido preservada por mais de 650 anos.


O segundo milagre eucarístico de Siena tem origem no século XIII, quando ritos e festividades especiais foram introduzidas em honra à Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria. Aquelas observâncias tornaram-se tradicionais e ainda eram realizadas na época do milagre. Foi então em 14 de agosto de 1730, durante as devoções da vigília da festa, enquanto a maioria da população sienense e o clero da cidade compareciam aos ritos, que ladrões entraram na deserta igreja de São Francisco. Aproveitando a ausência dos frades, eles foram para a capela, onde era mantido o Santíssimo Sacramento, arrombaram o sacrário e levaram consigo o cibório de ouro que continha as Hóstias consagradas.

O furto só foi descoberto na manhã seguinte, quando o padre abriu o sacrário para a Comunhão, durante a Missa. Depois, um paroquiano encontrou a tampa do cibório jogada na rua e a suspeita do sacrilégio foi confirmada. A angústia dos paroquianos forçou o cancelamento das tradicionais festividades de Nossa Senhora da Assunção. O arcebispo ordenou que se fizessem orações públicas de reparação, enquanto as autoridades civis iniciaram uma busca pelas Hóstias consagradas e pelos delinquentes que as haviam raptado.

Dois dias depois, em 17 de agosto, enquanto rezava na igreja de Santa Maria de Provenzano, a atenção de um padre voltou-se para algo branco que saía da caixa de ofertas anexa ao reclinatório. Percebendo que aquilo era uma Hóstia, ele informou os outros padres da igreja, que, por sua vez, notificaram o arcebispo e os frades da Igreja de São Francisco.

Quando a caixa de ofertas foi aberta, na presença do padre local e dos representantes do arcebispo, um grande número de Hóstias foi encontrado, algumas delas suspensas por teias de aranha. As Hóstias foram comparadas com algumas não consagradas usadas na igreja de São Francisco, e provou-se que eram exatamente do mesmo tamanho e tinham a mesma marca das fôrmas em que foram assadas. O número de Hóstias correspondia exatamente ao número que os frades franciscanos estimavam estar no cibório — 348 inteiras e seis metades.

Como a caixa de ofertas era aberta só uma vez no ano, as Hóstias ficaram cobertas com a poeira e os detritos que se haviam juntado no lugar. Depois de serem cuidadosamente limpas pelos padres, elas ficaram fechadas num cibório e guardadas dentro do sacrário do altar principal da Igreja de Santa Maria. No dia seguinte, na presença de uma grande multidão de habitantes da cidade, o arcebispo Alessandro Zondadari carregou as Hóstias consagradas em procissão solene até a Igreja de São Francisco.

Ao longo dos dois séculos seguintes, as pessoas por vezes se perguntavam por que as Hóstias não foram consumidas por um padre durante a Missa, já que seria esse o procedimento normal a se tomar. Visto que não há uma resposta definitiva, há duas teorias. Uma explicação é que as multidões de pessoas tanto de Siena quanto das cidades vizinhas ficaram reunidas na igreja para oferecer orações de reparação diante das partículas consagradas, forçando os padres a conservá-las por um tempo. Também é possível que os padres não as tivessem consumido devido à sujeira que as envolvia. Embora as Hóstias estivessem superficialmente limpas depois de serem descobertas, elas ainda retinham uma grande quantidade de sujeira. Nesses casos, não é necessário consumir as Hóstias consagradas; é permitido que elas sejam deixadas para se deteriorar naturalmente, até o momento em que não haja mais a presença real de Cristo.

Para espanto do clero, as Hóstias não se deterioraram, mas permaneceram conservadas e com um aroma agradável. Com o passar do tempo, os franciscanos conventuais ficaram convencidos de que se tratava de um milagre contínuo de preservação.

Cinquenta anos depois da recuperação das Hóstias roubadas, uma investigação oficial foi conduzida para averiguar a autenticidade do milagre. O Superior Geral da Ordem Franciscana, frei Carlo Vipera, examinou as Hóstias em 14 de abril de 1780 e, ao provar uma delas, achou-a fresca e incorrupta. Como várias Hóstias haviam sido distribuídas durante os anos anteriores, o Superior Geral ordenou que as 230 partículas restantes fossem colocadas em um novo cibório e proibiu a distribuição posterior.

Uma investigação mais detalhada aconteceu em 1789 pelo arcebispo de Siena, Tibério Borghese, com certo número de teólogos e dignatários. Após examinar as Hóstias sob um microscópio, a comissão declarou que elas estavam perfeitamente intactas e não apresentavam sinal de deterioração. Os três franciscanos que estavam presentes na investigação anterior, de 1780, foram questionados sob juramento pelo arcebispo. Foi reafirmado que as Hóstias submetidas a exame eram as mesmas roubadas em 1730.

Como um teste para confirmar ainda mais a autenticidade do milagre, o arcebispo, durante este exame de 1789, ordenou que várias hóstias não consagradas fossem colocadas em uma caixa fechada e mantidas trancadas na chancelaria. Dez anos depois, elas foram examinadas e encontravam-se não apenas desfiguradas, mas também murchas. Em 1850, 61 anos depois de terem sido colocadas em uma caixa fechada, aquelas hóstias não consagradas foram encontradas reduzidas a partículas de uma cor amarela escura, enquanto as Hóstias consagradas permaneceram com seu frescor original.

Outros exames foram feitos ao longo dos anos, sendo o mais significativo em 1914, empreendido sob a autoridade do Papa São Pio X. Para essa investigação, o arcebispo selecionou um distinto grupo de investigadores, que incluía cientistas e professores de Siena e Pisa, bem como teólogos e oficiais da Igreja.

Testes de ácido e amido realizados num dos fragmentos indicou um teor normal de amido. As conclusões alcançadas pelo teste de microscópio indicaram que as Hóstias haviam sido feitas com farinha de trigo peneirada grosseiramente, a qual foi considerada bem preservada.

A comissão concordou em que o pão ázimo, preparado em ambiente esterilizado e mantido em um recipiente fechado, limpo e asséptico, poderia ser conservado por um tempo extremamente longo. O pão ázimo preparado de modo normal e exposto ao ar e à atividade de microorganismos poderia permanecer intacto por não mais que alguns anos. Mas as Hóstias em questão foram preparadas sem precauções científicas e mantidas sob condições ordinárias, que deveriam ter causado a sua deterioração há mais de um século. A comissão concluiu que a preservação era extraordinária: …e la scienza stessa che proclama qui lo straordinario

O professor Siro Grimaldi, professor de química na Universidade de Siena e diretor do Laboratório Municipal de Química, bem como titular de vários outros cargos distintos na mesma área, foi em 1914 o químico examinador chefe das partículas sagradas. Depois, ele fez afirmações consistentes em relação à natureza miraculosa das Hóstias e escreveu um livro sobre elas, intitulado Uno Scienziato Adora (“Um cientista adora”, sem tradução portuguesa). Em 1914, ele declarou:

As partículas sagradas de pão ázimo representam um exemplo de perfeita preservação… um fenômeno singular que contraria a lei natural da conservação do material orgânico. Esse é um fato único nos anais da ciência.

Em 1922, outra investigação foi conduzida — esta na presença do Cardeal Giovanni Tacci, que foi acompanhado pelo arcebispo de Siena e pelos bispos de Montepulciano, Foligno e Grosseto. Mais uma vez, os resultados foram os mesmos: as Hóstias tinham o sabor de pão ázimo, eram de composição feculenta e estavam completamente preservadas.

Em 1950, as Hóstias milagrosas foram tiradas do velho cibório e colocadas em um mais ornamentado e suntuoso, que chamou a atenção de outro ladrão. Por isso, apesar das precauções do clero, outro roubo sacrílego ocorreu na noite de 5 de agosto de 1951. Dessa vez, o ladrão foi atencioso o suficiente para pegar apenas o cibório e deixar as Hóstias em um canto do sacrário. Depois de contar as 133 partículas, o próprio arcebispo as selou num cibório de prata. Mais tarde, depois de serem fotografadas, elas foram colocadas em um recipiente ornamentado que substituiu o que havia sido roubado.

Relicário contendo as Hóstias milagrosas de Siena.

As Hóstias miraculosamente preservadas são expostas publicamente em várias ocasiões, mas especialmente no dia 17 de cada mês, em que se comemora o dia no qual elas foram encontradas após o primeiro roubo, em 1730. Na solenidade de Corpus Christi, as Hóstias sagradas são colocadas em seu ostensório processional e carregadas triunfantemente em procissão, saindo da igreja e passando pelas ruas da cidade — uma observância da qual participa toda a população.

Um dentre muitos visitantes distintos que adoraram as Hóstias foi São João Bosco. Elas também foram veneradas pelo Papa João XXIII, que assinou o livro de visitantes em 29 de maio de 1954, quando ainda era Patriarca de Veneza. E, embora não tenham visitado as Hóstias milagrosas, os Papas São Pio X, Bento XV, Pio XI e Pio XII emitiram declarações de profundo respeito e admiração a elas.

Com voz unânime, os fiéis, padres, bispos, cardeais e Papas maravilharam-se e adoraram as Hóstias sagradas, reconhecendo nelas um milagre permanente e, ao mesmo tempo, completo e perfeito, que tem durado mais de 250 anos.

Por este milagre as Hóstias permaneceram inteiras e brilhantes, e mantiveram o cheiro característico de pão ázimo. Uma vez que elas estão em perfeito estado de conservação, mantendo as aparências de pão, a Igreja Católica assegura-nos que, embora tenham sido consagradas em 1730, estas partículas eucarísticas são ainda, real e verdadeiramente, o Corpo de Cristo. As Hóstias milagrosas têm sido estimadas e veneradas na Basílica de São Francisco, em Siena, por mais de 250 anos.

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A história de Santo Apolinário
Santos & Mártires

A história de
Santo Apolinário

A história de Santo Apolinário

Neste breve relato biográfico, conheça a vida do bispo Santo Apolinário, que foi enviado a Ravena por ninguém menos que o príncipe dos Apóstolos, São Pedro, a fim de anunciar o nome de Jesus aos incrédulos, operando inúmeros milagres.

Beato Tiago de VarazzeTradução: Hilário Franco Jr./Equipe Christo Nihil Praeponere23 de Julho de 2021Tempo de leitura: 5 minutos
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A história abaixo, assim como muitas outras extraídas da Legenda Áurea, não constitui um “artigo de fé católica” [1]. É preciso saber colher, em meio aos floreios do autor medieval, as lições espirituais que também os católicos de gerações passadas colheram ao ler linhas como essas. É válido notar, de qualquer modo, que o livro chama-se “legenda” não por ser uma coleção de mitos ou contos de fantasia; a expressão vem do verbo latino lego, “ler”, e significa simplesmente “coisas a serem lidas”. 

E porque é para serem lidas que as divulgamos, convencidos de que não é justo sonegar aos católicos de agora esses piedosos relatos da vida dos santos, só porque não se adequam aos critérios atuais de historiografia

Não nos esqueçamos que o primeiro a realizar milagres foi Jesus de Nazaré; os Evangelhos, que contam inúmeros de seus prodígios, foram escritos muito tempo antes da Legenda Áurea; e nenhum dos seus milagres têm algo a temer ante a moderna “crítica científica”. Além do mais, Ele mesmo disse, de seus discípulos, que fariam obras muito maiores que as que Ele realizou (cf. Jo 14, 12).

Além do mais, Santo Apolinário foi, segundo a Tradição, discípulo de ninguém menos que São Pedro, chefe dos Apóstolos. Estamos falando, portanto, de um contemporâneo dos primeiros seguidores de Nosso Senhor.

Sua memória deixou de pertencer ao Calendário Romano Geral com a reforma litúrgica do Papa Paulo VI, ficando reservada apenas aos calendários particulares. A razão é que, apesar da antiguidade de seu culto, Apolinário não era considerado hoje um santo de “importância universal” [2]. Por meio de um decreto de 18 de dezembro de 2001, no entanto, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos [3], este santo voltou a ocupar lugar no Calendário Romano Geral, no dia 20 de julho.


Apolinário deriva de pollens, “poderoso”, e de ares, “virtude”, significando “poderoso em virtude”; ou pode derivar de pollo, “admirável”, e de naris, que pode ser entendido como “discrição”, significando “homem de admirável discrição”; ou pode derivar de a, “sem”, de polluo, “manchar”, e de ares, “virtude”, e assim equivaleria a “virtuoso sem mancha de vícios”.

Apolinário, discípulo de Pedro, foi por ele enviado de Roma a Ravena, onde curou a esposa de um tribuno e batizou-a juntamente com o marido e a família. Quando isso fez, foi denunciado ao juiz, este ordenou que Apolinário fosse levado ao templo de Júpiter para ali sacrificar. Como ele dissesse aos sacerdotes que seria melhor dar aos pobres o ouro e a prata pendurados diante dos ídolos, em vez de ali permanecerem diante dos demônios, foi agarrado, espancado a pauladas e deixado semivivo; mas alguns discípulos o levaram até a casa de uma viúva, onde ficou sete meses em recuperação. 

“Apoteose de Santo Apolinário”, por Guercino.

Dali partiu para a cidade de Classe a fim de curar um mudo de nobre ascendência. Quando ele entrou na casa, uma jovem possessa por um espírito imundo exclamou, dizendo: “Sai daqui, servo de Deus, senão te farei ser expulso da cidade de pés e mãos amarrados”. Apolinário, reprendendo-a, forçou imediatamente o demônio a sair. Como, pois, tivesse invocado sobre o mudo o nome do Senhor e este fosse curado, mais de quinhentos homens acreditaram.

Os pagãos, por sua vez, o proibiram, espancado a pauladas, de pronunciar o nome de Jesus. Ele, porém, lançado ao chão, clamava: “Ele é o verdadeiro Deus!” Então os pagãos lhe tiraram os calçados e o fizeram ficar de pé sobre brasas; mas, como ele continuasse a pregar a Cristo sem cessar, o lançaram fora da cidade.

Naquela época, Rufo, um patrício de Ravena, estava com a filha enferma e mandou chamar Apolinário para curá-la. Tão-logo ele entrou na casa, a menina morreu. Então Rufo lhe disse: “Oxalá não tivesses entrado em minha casa. Os deuses ficaram muito irados e não quiseram curar minha filha. Que lhe poderá fazer tu?” Apolinário respondeu: “Não temas. Jura-me que, se a jovem ressuscitar, não lhe proibirás de modo algum seguir seu Criador”. Rufo jurou, Apolinário fez uma oração, e a jovem ressuscitou e, proclamando o nome de Cristo, recebeu com a mãe e uma multidão o batismo e permaneceu virgem.

Quando o César soube disso, escreveu ao prefeito do pretório que forçasse Apolinário a sacrificar ou que o mandasse para o exílio. O prefeito, não podendo forçá-lo a sacrificar, fê-lo espancar a pauladas e mandou que o torturassem estendido no potro. Como ele continuasse a pregar o Senhor, o prefeito mandou que jogassem água fervendo sobre as feridas e o mandassem para o exílio preso a pesadas correntes.

Vendo tanta impiedade, de ânimo exaltado, os cristãos lançaram-se sobre os pagãos e mataram mais de duzentos dentre eles. Vendo isso, o prefeito se escondeu e ordenou que prendessem Apolinário num cárcere estreitíssimo; depois mandou levá-lo, acorrentado a três clérigos, a um navio que os conduziria ao exílio. Houve uma tempestade, da qual escaparam apenas ele, dois clérigos e dois soldados, a quem batizou.

Depois voltou a Ravena, foi preso novamente pelos pagãos e conduzido ao templo de Apolo, cuja estátua amaldiçoou, e ela subitamente veio abaixo. Vendo isso, os pontífices o levaram diante do juiz Tauro, juiz este que, porque Apolinário lhe devolvera a vista a um filho cego, acreditou e por quatro anos o manteve em uma propriedade sua.

Depois disso, como os pontífices o acusassem diante de Vespasiano, mandou Vespasiano que todos os que ofendessem os deuses ou sacrificassem ou fossem expulsos da cidade, pois “não é justo”, dizia, “que vinguemos os deuses; eles mesmos poderão vingar-se de seus inimigos, se ficarem irados”.

Então, o patrício Demóstenes não conseguiu fazer Apolinário sacrificar e o entregou a um centurião que já era cristão, o qual lhe rogou que se refugiasse numa aldeia de leprosos, onde poderia viver longe do furor dos gentios. Mas a multidão que o perseguia alcançou-o e o espancou durante muito tempo, deixando-o quase morto. Ali sobreviveu por ainda sete dias e, tendo instruído os discípulos, entregou o espírito e foi honradamente sepultado na época de Vespasiano, que começou a reinar por volta do ano 70 do Senhor.

Sobre este mártir diz Santo Ambrósio:

Apolinário, digníssimo bispo, foi enviado pelo príncipe dos Apóstolos, Pedro, a Ravena para anunciar o nome de Jesus aos incrédulos. Enquanto ali fez admiráveis sinais de virtudes para os seus, que acreditavam em Cristo, foi muitas vezes açoitado e teve o corpo já senil submetido pelos ímpios a horrendas torturas. Mas para que os fiéis não vacilassem vendo-lhe os sofrimentos, pela virtude do Senhor Jesus Cristo aperfeiçoou os sinais apostólicos: após os tormentos, ressuscitou uma menina morta, devolveu a vista a um cego e restaurou a voz a um mudo, livrou uma mulher possessa pelo demônio, limpou o contágio de um leproso, curou membros dissolutos por uma doença pestífera, fez ruir junto com o templo a imagem de um ídolo. Oh, digníssimo pontífice, merecedor de admiração, que com dignidade de pontífice mereceu receber o poder apostólico! Ó fortíssimo atleta de Cristo, que, já resfriando o calor da idade, em meio às penas, pregou constantemente a Jesus Cristo, redentor do mundo!

Referências

  1. O texto acima é uma tradução (adaptada aqui e ali pela Equipe CNP) do capítulo 92 da Legenda Áurea (São Paulo: Cia. das Letras, 2003, pp. 555-557).
  2. Cf. Calendarium Romanum. Typis Polyglottis Vaticanis, 1969, p. 131.
  3. Cf. Notitiae 432-433, vol. 39, 2002, pp. 313-314. (Agradecemos a um leitor pela vigilância e observação. Nesse mesmo decreto, juntamente com S. Apolinário, resgataram seu lugar nos livros litúrgicos reformados as festas dos Santíssimos Nomes de Jesus e Maria, em 3 de janeiro e 12 de setembro, respectivamente, e a grande S. Catarina de Alexandria, em 25 de novembro.)

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