No final da década de 1990, a franquia American Pie fez sucesso no cinema ao retratar a história de cinco adolescentes que queriam perder a virgindade antes de entrar na faculdade. De acordo com o filme, a maior preocupação de um adolescente não seria a de ser uma pessoa virtuosa, mas a de ter um “desempenho absurdo” na cama.

Apesar de o filme ser mera ficção, muitos jovens, e inclusive adultos, vivem como os personagens de American Pie e consideram a relação sexual a mais importante das inclinações humanas. É como se o sexo, por si mesmo, fosse o único caminho para a felicidade, de modo que, sem ele, ninguém pudesse realizar-se ou sobreviver dignamente. Assim, esses jovens saem entregando os seus corpos a qualquer um, como loucos dispostos a tudo para se livrarem da pecha de “virgenzinhos”.

Mas a vida real nada tem a ver com o mundo “fantástico” e super erotizado de filmes como American Pie — em cujo roteiro os jovens se assemelham a animais no cio, completamente incapazes de controlar o próprio instinto —, e as preocupações da juventude deveriam ser maiores que a de uma simples relação sexual antes da graduação. Os desafios da vida exigem maturidade e caráter bem formados para que tanto o homem quanto a mulher superem as situações de conflito, incerteza, sofrimento e provação às quais serão submetidos diariamente. E, diante desses desafios, pouco importa a “performance” sexual. Na verdade, ela é totalmente irrelevante.

É por isso que a Igreja insiste tanto na necessidade da pureza. Ela sabe que o sexo, quando é vivido de forma desordenada, prejudica o juízo do homem, levando-o, como ensina Santo Tomás, “a concentrar o seu afeto sobretudo nas coisas corpóreas” [1]. De fato, a luxúria provoca uma verdadeira “cegueira da mente”, que torna o ser humano incapaz de abrir-se para os bens espirituais. Daí o porquê de muitos rapazes e moças se submeterem a situações as mais ridículas — senão bestiais — simplesmente para se deleitarem por alguns minutos nos prazeres da carne. De um ponto de vista racional, eles não diferem nem um pouco de um cão ou de um macaco.

A Igreja, por sua vez, tem o dever de despertar essas consciências e encaminhá-las para o verdadeiro sentido da vida. No vídeo a seguir, Padre Paulo Ricardo fala com toda clareza acerca do ensinamento de Cristo de que “todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração” (Mt 5, 28):

Se, por um lado, as suas palavras podem chocar, por outro, elas expõem a crueza do pecado contra a castidade que, no fundo, esconde uma enorme perversidade e egoísmo. Trata-se, em última análise, de um desprezo pela alma da outra pessoa e de uma renúncia ao imperativo do amor. Um homem que cobiça descaradamente os seios de uma mulher não está interessado nela como pessoa única e valiosa em si mesma; o que ele quer é simplesmente levá-la para um quarto de motel, e só.

A famosa atriz Grace Kelly, durante o seu casamento com o príncipe Rainier III, de Mônaco, em 1956.

Naturalmente, o sexo é uma inclinação do homem e está destinado à procriação e à união do casal. Neste sentido, ensina o Papa Pio XII, “a virtude da castidade não exige de nós que nos tornemos insensíveis ao estímulo da concupiscência, mas que o subordinemos à razão e à lei da graça” [2], a fim de que essa potência do corpo seja orientada pelo amor. É claro que um homem pode sentir-se atraído por uma mulher e vice-versa. Essa atração, aliás, faz parte da dinâmica do amor. Por isso, o sexo, longe de conduzir ao pecado, deveria ser motivo de glória e louvor a Deus, pois traduz a capacidade que o homem e a mulher têm de ser pais e, portanto, cocriadores. O sexo é uma criação de Deus, não do diabo.

A Igreja não tem dificuldade nenhuma em falar sobre a sexualidade humana. Para isso, o próprio São João Paulo II desenvolveu uma teologia do corpo, que reconhece no Matrimônio a graça da sexualidade e da complementaridade dos sexos, algo visível, sobretudo, na relação carnal entre um homem e uma mulher: “Exatamente por serem homem e mulher, cada um é dado ao outro como sujeito único e irrepetível, como ‘eu’, como pessoa” [3].

É, portanto, falsa a acusação de que o cristianismo prega a castração e demoniza a intimidade dos casais, como se tudo fosse pecado e obra do demônio. Ao contrário, é dentro da espiritualidade cristã que o sexo é mais exaltado — e, inclusive, mais prazeroso —, porque, no Matrimônio, os esposos são livres para se entregarem de corpo e alma um ao outro, ao passo que nos relacionamentos extraconjugais sempre há um “perigo”: seja a doença, a traição ou o filho indesejado.

Não há dúvidas de que o sexo fora do casamento é uma imoralidade, marcada pelos prazeres venéreos que embotam a mente e desumanizam a intimidade conjugal. Por isso Jesus foi tão radical nessa matéria, e a Igreja, mantendo-se fiel a seu Esposo, exorta os cristãos a viverem de maneira casta e pura.

Além de ordenar nossos instintos, a virtude da pureza é, para as mulheres, uma espécie de “matrimônio espiritual da alma com Cristo” e, para os homens, sinal de conformidade à vontade de Jesus, que, como Cordeiro santo, sacrificou a sua carne virgem no altar do Senhor, pela salvação de sua esposa, a Igreja. Acima de tudo, a “pureza de coração” dá testemunho “de que o domínio do espírito sobre o corpo é efeito da ajuda divina e sinal de sólida virtude” [4].

É fácil perder a virgindade. O filme American Pie não passa de uma ilusão boboca, que retrata os jovens como pervertidos sexuais e, desculpem-nos a franqueza, retardados mentais. Difícil mesmo é amar e ser fiel à sua esposa “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, como os grandes homens santos fizeram: São Luís Martin, São Thomas More e, sobretudo, São José. Isso, sim, requer um “desempenho absurdo”, por assim dizer, que só se adquire por meio das virtudes e da oração diante do Senhor, o qual apenas os puros de coração podem ver e ouvir. A castidade, sim, é um grande desafio!