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Sete conselhos para enfrentar a morte e o luto de forma cristã
Espiritualidade

Sete conselhos para enfrentar
a morte e o luto de forma cristã

Sete conselhos para enfrentar a morte e o luto de forma cristã

Não adianta fugir ou mudar de assunto. Um dia, a morte chega para todos. Mas qual o sentido desse acontecimento? Como reagir diante de uma realidade tão dura e perturbadora?

Fábio AcuñaTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere3 de Julho de 2015Tempo de leitura: 8 minutos
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A morte assusta a todos nós. Diante dela, tomamos consciência de nossa fragilidade e, sem fé, podemos facilmente ser acometidos por incertezas, dúvidas e mal estar.

Muitas vezes, para fugir desse tema, dizemos que ainda nos falta muito tempo para esse dia, que não nos devemos preocupar com isso e, quando alguém nos lembra de nosso destino comum e inevitável, sempre tentamos dar um jeito de mudar de assunto.

Na verdade, o que precisamos fazer é entender o verdadeiro sentido da morte. Para isso, seguem alguns conselhos, que nos darão uma visão cristã desse acontecimento e uma ajuda para viver o luto em paz e com sabedoria.

1. Recorrer aos Sacramentos da Igreja

Ao se aproximar o momento de nossa partida deste mundo, devemos nos preparar, procurando livrar a nossa alma do pecado e de outros fardos que impedem a nossa união com Deus. Por isso, é muito importante receber a Unção dos Enfermos e, se possível, os sacramentos da Confissão e da Comunhão. Assim, quando a morte chegar, mais do que uma despedida, será ela um encontro com Cristo, que, como Bom Pastor, acompanha as Suas ovelhas na passagem para a vida eterna.

Se um ente querido ou um vizinho se encontra em perigo de morte – ou por velhice ou por alguma doença –, será de grande ajuda procurar ou avisar um sacerdote próximo para que visite o enfermo e este possa partir na graça de Deus. Não se pode deixar de chamar o padre por receio de que a sua visita passe uma "impressão errada" ou "apresse", por assim dizer, a morte da pessoa. A assistência espiritual do sacerdote é de grande conforto para todas as almas, seja qual for o seu destino. Na verdade, seria um grande mal que deixássemos de recorrer à Igreja nessas horas, pois estaríamos nos descuidando do bem mais valioso que possuimos: a nossa própria alma.

Por isso, lembremo-nos também de buscar viver sempre em comunhão com o Senhor. Cumpramos os Seus mandamentos e recebamos com frequência os sacramentos da Penitência e da Eucaristia, fazendo isso por amor a nosso Deus e considerando que a morte pode chegar quando menos esperamos.

2. Compreender que a morte nos liberta e nos faz entrar na vida eterna

"Intérprete autêntico das afirmações da Sagrada Escritura e da Tradição, o Magistério da Igreja ensina que a morte entrou no mundo por causa do pecado do homem. Embora o homem tivesse uma natureza mortal, Deus o destinava a não morrer. A morte foi, portanto, contrária aos desígnios de Deus Criador" [1]. Porém, quando Se fez homem para a nossa salvação, o Verbo de Deus experimentou em Sua própria carne a realidade dolorosa da morte, a fim de mudar em bênção o que era condenação..

A partir da Cruz e Ressurreição de Nosso Senhor, portanto, tudo muda de figura. A morte não é mais a triste descida do ser humano à mansão dos mortos, mas a entrada na vida eterna. Muitos protestantes, ao interpretar as Escrituras individualmente, terminam acreditando que as almas depois da morte ficam inconscientes e caem numa espécie de "sono" inconsciente. Esquecem-se que Jesus prometeu o Céu ao bom ladrão no mesmo dia em que este morreu (cf. Lc 23, 43), e que "está determinado que os homens morram uma só vez e depois vem o julgamento" (Hb 9, 27).

A Igreja, em conformidade com o testemunho das Escrituras e com o ensinamento dos primeiros cristãos [2], lembra que, na verdade, a nossa alma parte para o encontro com Deus imediatamente após a nossa morte corporal. Por isso, nós devemos vivê-la compreendendo que um ciclo terreno termina e se inicia o tempo da glória, ao lado de Deus e de Sua corte celestial. "Eu sou a ressurreição e a vida", disse Jesus. "Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim, jamais morrerá" (Jo 11, 25-26).

3. Conservar com amor e alegria a lembrança daqueles que partiram

Ainda que não estejam mais fisicamente conosco, todas as lições e momentos compartilhados com os nossos entes queridos vivem em nossos corações. Honremos sempre sua memória como um inestimável tesouro que nos acompanhará em nossa vida.

Mesmo que nos doa que alguém amado tenha partido e sintamos um vazio por sua perda, deve-se evitar cair em tristezas prolongadas. Primeiro, porque somos confortados pela esperança cristã de que quem creu e viveu no Senhor tem a vida eterna com Ele. Segundo, porque sabemos que quem se foi não gostaria de ver-nos assim. Se nos é difícil levantar-nos do luto, busquemos a ajuda de um sacerdote ou diretor espiritual para superar a dor. Será muito útil.

Também pode ser uma boa obra de caridade doar algumas (se não todas) roupas ou objetos que a pessoa usou a um abrigo ou casa de beneficência. Além de ser um sadio exercício de desapego, que nos pode ajudar a superar o luto causado pela perda, colocamos em prática a terceira obra de misericórdia temporal, que é "vestir os nus".

4. Auxiliar as famílias que perderam seus entes queridos

Quando perdem alguém, as pessoas geralmente se refugiam na solidão, no silêncio e no pranto, podendo experimentar falta de apetite e estresse ou mesmo entrar em depressão.

Como cristãos, o nosso dever é acompanhar, aconselhar e ajudar aqueles que perderam os seus entes queridos, fazendo com que se recordem deles com alegria e incentivando-os a ver na morte não um fim, mas uma permanência no amor de Deus, que tem preparado um lugar para cada um de nós.

"Consolar os aflitos" também é uma obra de misericórdia, recomendada pelas próprias Escrituras: "Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram" (Rm 12, 15). Além disso, a solidariedade com quem sofre é um grande remédio para aliviar também as nossas dores. Quando nos voltamos às necessidades dos outros, somos capazes de ver a mão de Deus que levanta o próximo por meio de nós. Quem, como o bom samaritano (cf. Lc 10, 30-37), cuida das misérias alheias, tem suas próprias misérias pensadas por Nosso Senhor, que é o Bom Samaritano por excelência.

5. Evitar brigas por causa de dinheiro ou herança

É possível que a pessoa falecida tenha deixado alguns bens que tocam aos filhos e parentes mais próximos. Tudo tem seu tempo apropriado e é lamentável ver famílias que, antes mesmo da morte da pessoa, brigam por causa de bens materiais; irmãos que, ao invés de se unirem, nem sequer conversam mais um com o outro, por conta de interesses.

Ante a tentação de acirrar os ânimos por causa de heranças terrenas, vale ter diante dos olhos a única herança imperecível, a qual – como ensina São Gregório Magno – "não diminui com o crescimento do número de herdeiros". "Se ressuscitastes com Cristo – exorta São Paulo –, buscai as coisas do alto, onde Cristo está entronizado à direita de Deus; cuidai das coisas do alto, não do que é da terra" (Cl 3, 1-2).

6. Evitar cair em práticas espíritas ou supersticiosas para mitigar a dor

Algumas empresas, no afã de lucrar com a dor alheia, oferecem rituais funerários absolutamente incompatíveis com a fé cristã. São práticas como semear uma árvore com os restos mortais da pessoa, jogar as suas cinzas em um lago para perpetuar a sua memória, ou mesmo domesticar um animalzinho com o nome do parente falecido, relacionando-o com a crença na reencarnação.

O Catecismo da Igreja Católica é bem claro ao ensinar que não existe reencarnação:

"A morte é o fim da peregrinação terrena do homem, do tempo de graça e misericórdia que Deus lhe oferece para realizar a sua vida terrena segundo o plano divino e para decidir o seu destino último. Quando acabar a nossa vida sobre a terra, que é só uma, não voltaremos a outras vidas terrenas. 'Os homens morrem uma só vez' (Hb 9, 27). Não existe 'reencarnação' depois da morte." [3]

Por isso, não é nada aconselhável, a quem perdeu os seus entes queridos, que saia à procura de "comunicações do além" em casas espíritas ou ambientes parecidos. A dor não nos pode fazer desviar de nossa fé! Nossa confiança deve estar sempre colocada em Deus e em Suas promessas. É a Sua graça que nos ajudará a continuar, não as falsas mensagens de doutrinas abertamente contrárias à doutrina de Cristo.

7. Rezar pelo descanso eterno daqueles que partiram

A maior obra de amor que podemos realizar por nossos entes queridos é oferecer orações por eles. Como diz Santa Teresinha do Menino Jesus, "pensar em uma pessoa que se ama é rezar por ela" [4].

No Brasil, há o piedoso costume de se honrar as almas dos falecidos com a conhecida "Missa de sétimo dia". O Catecismo ensina que, "desde os primeiros tempos, a Igreja honrou a memória dos defuntos, oferecendo sufrágios em seu favor, particularmente o Sacrifício eucarístico para que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus" [5]. Por isso, não importa o quanto tempo tenha passado, é sempre recomendado oferecer muitas Missas pelas almas dos fiéis falecidos, além de Terços, jejuns e toda espécie de orações.

Também não se pode esquecer o motivo de todas essas práticas. Os católicos rezam por seus mortos porque acreditam na verdade do purgatório. A Igreja não é composta apenas pelos cristãos que vivem neste mundo (Igreja militante), mas está unida aos santos, no Céu (Igreja triunfante), e às almas que se purificam de seus pecados, no purgatório (Igreja padecente). Por essa união mística – que a Igreja chama de "comunhão dos santos" –, as nossas preces e súplicas pelos falecidos têm valor diante de Deus e fazem entrar no Céu aqueles que amamos e que partiram desta vida.

Um dia, será a nossa vez de nos juntarmos à corte celeste e às almas de nossos entes queridos. Por isso, estejamos sempre preparados para a nossa morte e para nosso encontro definitivo com Deus. É verdade que ninguém pode ter certeza absoluta da própria salvação [6]. Se, porém, vivermos uma vida de virtudes e de oração, ao fim de nossas existências poderemos dizer, com São Paulo: "Chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Desde agora, está reservada para mim a coroa da justiça que o Senhor, o juiz justo, me dará naquele dia, não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua manifestação" (2 Tm 4, 6-8).

Referências

  1. Catecismo da Igreja Católica, 1008.
  2. Cf. Papa São Clemente, Primeira Carta aos Coríntios, 56 (PG 1, 321-324); Santo Inácio de Antioquia, Carta aos Tralianos, 13 (PG 5, 799); São Policarpo de Esmirna, Carta aos Filipenses, 9 (PG 5, 1019).Moralia in Iob, V, 86 (PL 75, 729).
  3. Catecismo da Igreja Católica, 1013.
  4. Cartas, 225 (2 de maio de 1897).
  5. Catecismo da Igreja Católica, 1032.
  6. Cf. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 112, a. 5.

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Indulgências “pro defunctis” prorrogadas devido à COVID-19
Igreja Católica

Indulgências “pro defunctis”
prorrogadas devido à COVID-19

Indulgências “pro defunctis” prorrogadas devido à COVID-19

Neste ano, devido à pandemia do novo coronavírus, as indulgências plenárias pelos fiéis defuntos, que normalmente se ganham nos oito primeiros dias de novembro, poderão lucrar-se ao longo de todo o mês das almas.

Santa SéTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere26 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 3 minutos
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DECRETO

Neste ano, por causa da pandemia da doença de COVID-19,
as indulgências plenárias pelos fiéis defuntos
prorrogam-se por todo o mês de novembro,
comutadas as condições e obras pias, em vista da segurança do povo cristão

Chegaram há pouco a esta Penitenciaria Apostólica muitas súplicas da parte de sagrados pastores, pelas quais se pedia que neste ano, por causa da pandemia da doença de COVID-19, se comutassem as obras para lucrar as indulgências plenárias aplicáveis somente às almas do Purgatório, segundo a norma do Manual de Indulgências (conc. 29, §1). Por isso, a mesma Penitenciaria Apostólica, por especial mandado do SS. Padre, o Papa Francisco, de bom grado determinou e deliberou, para evitar aglomerações, proibidas ou ao menos desaconselhadas em algumas nações e territórios, que neste ano: 

a) A indulgência plenária para os que piedosamente visitarem cemitérios e, ainda que apenas mentalmente, rezarem pelos defuntos — limitada, segundo a norma, apenas aos oito primeiros dias de novembro —, possa, para comodidade dos fiéis, ser transferida dentro do mês de novembro para outro período de até oito dias, ainda que descontínuos, de livre escolha de cada fiel;

b) A indulgência plenária do dia 2 de novembro, na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, para os que piedosamente visitarem uma igreja ou oratório e ali recitarem um Pai-nosso e um Creio, possa ser transferida não somente para o domingo anterior ou posterior ou para o dia da solenidade de Todos os Santos, mas também para outro dia, dentro do mês de novembro, de livre escolha de cada fiel; 

Os idosos, os doentes e os que, por causa grave, não podem sair de casa (v.gr., por força de decretos que proíbam os fiéis de se reunirem nos lugares sagrados), poderão lucrar a indulgência plenária, desde que, unindo-se em ânimo e voto aos que fizerem as piedosas visitas de que se falou acima, tendo detestado os próprios pecados e feito a intenção de cumprir, assim que possível, as três condições de costume (confissão sacramental, comunhão eucarística e oração pelas intenções do sumo Pontífice), recitem diante de qualquer imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo ou da Bem-aventurada Virgem Maria piedosas preces pelos defuntos (v.gr., as Laudes e as Vésperas do Ofício dos defuntos, o Rosário mariano, a coroa da Divina Misericórdia, e outras preces pelos defuntos mais caras aos fiéis), ou leiam, a título de leitura espiritual, o Evangelho da Liturgia dos defuntos, ou realizem uma obra de misericórdia, entregando a Deus clemente suas dores ou os incômodos da própria vida.

A fim, pois, de tornar mais fácil, por caridade pastoral, o acesso ao perdão divino, alcançável pelas chaves da Igreja, esta Penitenciaria roga insistentemente que os sacerdotes legitimamente facultados, de ânimo pronto e generoso, celebrem a Penitência e administrem a sagrada comunhão aos doentes.

No entanto, no que diz respeito às condições espirituais para lucrar plenamente a indulgência, está sempre em vigor a Nota desta Penitenciaria Apostólica sobre a celebração do sacramento da Reconciliação em tempos de pandemia da doença de COVID-19.

Por último, uma vez que as almas do Purgatório são ajudadas pelos sufrágios dos fiéis, sobretudo pelo santo sacrifício do Altar (cf. Concílio de Trento, sess. 25.ª, Decreto sobre o Purgatório), roga-se insistentemente a todos os sacerdotes que, no dia da Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, celebrem a Missa três vezes, segundo a norma da Constituição Apostólica “Incruentum Altaris”, do Papa Bento XV, de venerável memória, do dia 10 ago. 1915.

Valerá o presente Decreto por todo o mês de novembro, não obstante quaisquer disposições em contrário.

Dado em Roma, nas dependências da Penitenciaria Apostólica, no dia 22 de outubro de 2020, na memória de S. João Paulo II.

Maurus Card. Piacenza
Penitenciário-Mor

Christophorus Nykiel
Regente

Notas

  • Esta tradução foi feita por nossa equipe a partir do original latino do decreto da Penitenciaria Apostólica, tornado disponível pelo site do Boletim da Sala da Imprensa da Santa Sé. Não se trata, portanto, da tradução oficial do documento.

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São João Paulo II conhecia os perigos de uma antropologia ruim
Sociedade

São João Paulo II conhecia
os perigos de uma antropologia ruim

São João Paulo II conhecia os perigos de uma antropologia ruim

O marxismo e o socialismo são falhos não porque seus ideais sejam muito elevados, mas porque eles se baseiam numa visão de pessoa humana que é deficiente, inadequada e, sobretudo, perigosa. São João Paulo II sabia muito bem disso.

Steve GreeneTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 6 minutos
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Pesquisas mostrando que a maioria dos jovens americanos da geração do milênio (millennials) é simpática ao socialismo têm gerado preocupações ou esperanças, a depender de quem é o alvo da pergunta. Mas, independentemente do que o mundo secular pensa, os católicos não podem afirmar esse erro. Marxismo e socialismo são essencialmente falhos não porque seus ideais são muito elevados, mas porque se baseiam numa antropologia (ou visão da pessoa humana) deficiente.     

Talvez nenhuma pessoa tenha compreendido tão bem as consequências terríveis da antropologia marxista quanto São João Paulo II. O jovem Karol cresceu numa Polônia governada sucessivamente pelas tiranias da Alemanha nazista e do império comunista russo. Portanto, viu de perto o poder destrutivo de ideias terríveis. Ele perdeu amigos de infância judeus sob a ocupação nazista, e quando era um jovem seminarista, ajudou a liderar uma resistência pacífica contra os soviéticos ao preservar as tradições polonesas por meio do estudo e de um grupo de artistas clandestino.

Talentoso filósofo e sacerdote católico, Wojtyla trouxe uma dimensão única à contemplação dos horrores do século XX, que causaram a morte de dezenas de milhões de pessoas. E quando se tornou Papa João Paulo II, sua dolorosa experiência e seus estudos iluminaram seja a sua contemplação diuturna do mistério do amor e da personalidade humanas, seja o ensino magisterial que surgiu dessa contemplação. 

Em outras palavras, a experiência de João Paulo II o tornou imune às alegações de que o socialismo é o caminho para a justiça e a paz. O que no papel parece um paraíso é na prática terreno fértil para monstros

São João Paulo II, que estudou filosofia por toda a vida, concentrou seu trabalho acadêmico no desenvolvimento de um sólido personalismo — a visão de que a pessoa humana é a chave para destravar e compreender os mistérios mais profundos da realidade. Criada homem e mulher à imagem e semelhança de Deus e dotada de intelecto e vontade para conhecer a verdade e escolher o bem, a pessoa humana é, na visão de João Paulo II, a porta pela qual podemos entrar tanto na contemplação da Santíssima Trindade quanto na reta ordenação de todas as sociedades humanas.

Em contrapartida, Marx via a pessoa humana como mero acidente material — um resultado aleatório e involuntário de forças físicas cegas que operam num universo desprovido do divino. Para Marx e seu parceiro de conspiração, Friedrich Engels, a revolução socialista se baseia na crença de que o homem é um produto das forças socioeconômicas que o circundam, e que ele se desenvolve de forma mais adequada como peça produtiva de um coletivo mais amplo. Não se trata de um indivíduo, mas de uma matéria a ser transformada em algo que possa ser útil ao Estado e garantir a igualdade econômica e a utopia imaginada pelos fundadores do socialismo.

Chega a ser um eufemismo grosseiro considerar essa ideia de humanidade deficiente, inadequada e (já que ideias têm consequências) perigosa.

Tendo vivido e sofrido em dois sucessivos regimes socialistas, São João Paulo II não encontrou dificuldades para identificar os erros e mentiras delas. Sua experiência o levou a pensar de modo mais profundo e claro sobre a verdade da pessoa humana, e então ensiná-la e pregá-la com eloquência e poder singulares.

As reflexões de João Paulo sobre a “antropologia adequada” da Igreja — uma verdadeira e completa compreensão da origem, natureza e destino da pessoa humana — perpassam boa parte de sua obra, mas talvez sejam apresentadas de modo mais completo e convincente em sua obra magna sobre o amor e a personalidade humana: a Teologia do Corpo. Esse trabalho é composto por suas catequeses profundamente contemplativas sobre a verdade da pessoa humana, partindo do coração e da mente da Igreja, e talvez forneça o antídoto mais forte ao socialismo e às diversas outras antropologias deletérias disponíveis em nossa cultura, cada vez mais pós-cristã.  

Para São João Paulo II, uma pessoa humana jamais poderia ser — como Marx propôs — apenas um produto aleatório e involuntário de forças cegas da física e da evolução, o qual só serviria para ser transformado numa engrenagem útil no maquinário de um Estado coletivista. Cada pessoa é um dom, uma expressão singular e irrepetível do amor vivificador do Deus trinitário. Cada vida humana é uma aventura permeada de sentido, propósito e dignidade, uma história de amor única com origem e destino divinos.

O socialismo sempre propôs que o cidadão existe para o Estado; um ser humano é uma coisa a ser usada para o bem do Estado e como extensão de seu poder e prosperidade. Mas Karol Wojtyla viveu sob os efeitos desumanizadores dessa infame visão da pessoa humana; ele conheceu suas consequências destruidoras. Em vez disso, São João Paulo II propôs novamente a profunda e transformadora verdade de que toda pessoa humana é literalmente amada desde a eternidade em sua existência, e que cada um de nós é infinitamente precioso para Deus. Somos criados em comunhão e solidariedade com outros, e ao Estado cabe manter e defender a identidade e a dignidade de cada pessoa (ambas são dons divinos), em vez de determiná-las. O socialismo afirma que a pessoa existe para o Estado, e o catolicismo afirma que o Estado existe para a pessoa.

Na ideologia socialista, o valor de um ser humano só é determinado pelo que ele tem a oferecer ao Estado. Para João Paulo II, cada pessoa humana é insubstituível, indispensável e tem valor infinito, independentemente de suas capacidades, de sua produtividade ou contribuição material. Ele sabia por fé, razão e experiência que toda vez que o cálculo do valor de uma pessoa é feito por outros seres humanos, os direitos fundamentais dela são ameaçados. Se é o Estado que concede dignidade e direitos às pessoas, ele também pode negá-los ou retirá-los.

Também é interessante observar as razões que sempre levaram os regimes socialistas e comunistas a promover o ateísmo e a supressão da fé cristã. O socialismo é, de fato, a deificação do Estado; essa ideologia o põe acima de todos os outros compromissos e comunidades, exigindo adesão absoluta a suas ordens e prioridades. Para Marx e seus protegidos, todas as outras comunidades e compromissos humanos — com Deus, com o cônjuge, com a família e com a Igreja — devem ser eliminados da sociedade para dar prioridade ao Estado todo-poderoso. Para os socialistas, cada homem é propriedade do Estado coletivista. 

Aqui novamente São João Paulo II enxergou com uma clareza aguda a ameaça que a verdadeira antropologia cristã representava para o projeto marxista. Na tradição católica, a pessoa, a família e a fé são todas comunidades e compromissos que existem antes do Estado, tanto em termos cronológicos como segundo a ordem natural das coisas. Deus criou pessoas, o matrimônio e a família como meios naturais por meio dos quais novas pessoas passam a existir, são amadas e formadas. O Estado, por outro lado, é um construto humano, uma realidade temporária pela qual as pessoas passam em sua estrada rumo à vida que virá.

A ênfase na alternativa católica à antropologia socialista é apenas uma parcela do legado vivo de São João Paulo II. Ao longo de seu ministério como sacerdote, bispo e Papa, ele proclamou e defendeu a dignidade e o valor únicos e irrepetíveis de cada pessoa humana, e jamais se esqueceu dos horrores perpetrados pelos socialistas da Alemanha nazista e da Rússia soviética. Quando garoto, Karol Wojtyla sobreviveu ao terror da ocupação socialista. Como Papa, o grande São João Paulo combateu o erro da antropologia socialista com a verdade, a bondade e a beleza da fé católica.   

Papa São João Paulo II,
rogai por nós!

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O que é o pecado do respeito humano?
Doutrina

O que é o pecado
do respeito humano?

O que é o pecado do respeito humano?

De certo ângulo, o “respeito humano” parece uma coisa boa. Afinal, devemos respeitar, honrar e valorizar-nos uns aos outros. O problema é quando nos preocupamos mais com o que as pessoas pensam de nós do que com a vontade de Deus a nosso respeito.

Mons. Charles PopeTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere22 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 7 minutos
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De certo ângulo, o “respeito humano” parece uma coisa boa. Afinal, devemos respeitar, honrar e valorizar-nos uns aos outros. O que, então, significa o pecado do respeito humano? É aquele pecado em que tememos o homem mais do que a Deus; estamos mais preocupados com o que as pessoas pensam de nós do que com o que Deus pensa de nós. Este é um medo profano e pecaminoso, que está na raiz de muitos de nossos pecados, tanto de obras quanto de omissão.

Consideremos alguns exemplos:

  • Um homem se dirige a um grupo de colegas de trabalho que estão falando sobre o chefe e também, de forma inadequada, sobre algumas mulheres do escritório. Ele sabe que os comentários depreciativos sobre o chefe são injustos ou até mesmo falsos. Ele também sabe que falar sobre as mulheres do escritório usando imagens sexuais grosseiras e referências lascivas é errado. Mas, por querer “se encaixar”, ele entra na conversa e participa do que sabe que está errado. Ele ri das piadas inapropriadas e não tenta dirigir a conversa em uma direção mais apropriada. Ele faz isso porque tem medo de ser rejeitado e está mais preocupado com o que seus colegas de trabalho pensam dele do que com o que Deus pensa dele. Ele teme o homem mais do que a Deus. O fato de Deus estar descontente com suas ações é menos importante do que qualquer colega.
  • Uma jovem mulher sabe que sexo antes do casamento é errado e desagradável a Deus. No entanto, ela já namorou vários homens e dormiu com a maioria deles. Ela faz isso, em parte, porque teme ser rejeitada. Talvez, se ela não ceder aos desejos dos rapazes que namora, eles a rejeitem e ela fique sozinha. Ela acha que uma mulher “tem que fazer isso” para ser popular e desejável. Ela teme o homem mais do que a Deus. O que os outros pensam é mais importante para ela do que o que Deus pensa. Ela pode muito bem minimizar a importância de seu pecado dizendo a si mesma: “Bem, Deus entende”. Mas, ao mesmo tempo, maximiza a importância de acabar desagradando a homens fracos e falíveis, pensando que desagradá-los seria uma catástrofe. Ela respeita — isto é, teme — o homem mais do que a Deus.
  • Um padre de uma paróquia tem um mandato de Deus e da Igreja para pregar em seu nome, mas ele reluta em pregar as coisas “difíceis”. Afinal, falar de coisas como aborto, fornicação, divórcio, contracepção, homossexualidade e eutanásia deixa algumas pessoas chateadas. Ele teme isso, tem medo de ofender as pessoas, tem medo de ser mal interpretado. Uma vez, quando falou sobre o aborto (porque o bispo mandara), alguns paroquianos vieram até ele e disseram que ele não deveria trazer política para o púlpito. Certa feita, quando pregou sobre o problema do divórcio (o tema do Evangelho daquele dia), uma mulher (divorciada) se aproximou dele após a Missa dizendo que se sentia magoada e “excluída”. Experiências como essas levaram o padre a “jogar com segurança”. Ele sempre começa a homilia com uma piada e as pessoas parecem amá-lo por isso. Ele escolhe pregar apenas sobre abstrações e generalidades. Ele exorta as pessoas a serem um pouco mais gentis, um pouco mais generosas, mas evita ser específico. Ele faz isso porque teme mais o homem do que a Deus. Que Deus possa ficar triste por seu povo não estar ouvindo a verdade sobre questões morais importantes ou recebendo instrução adequada é um medo vago e distante para esse sacerdote; mas uma pessoa levantando a sobrancelha ao que ele diz é o suficiente para lhe amargar a semana inteira. Por isso, ele fica em silêncio como profeta, e passa a agradar as pessoas. Ele respeita — teme — o homem mais do que a Deus. 
  • Uma mãe sabe que deve criar seus filhos no temor do Senhor e educá-los de maneira piedosa, mas, oh! os protestos quando ela os manda fazer as tarefas, ou ir para a cama, ou fazer o dever de casa! É ruim suportar a raiva e a decepção deles. Ela também se lembra de como seus pais foram severos e de como ela jurou que seria mais amigável com os próprios filhos. Então, aos poucos, ela vai deixando sua autoridade diminuir, e os filhos, na maioria das vezes, conseguem o que querem. O marido não tem pulso firme e quer ser visto como um “cara legal” pelos filhos e amigos. A insistência de Deus na oração, disciplina e respeito pelos mais velhos dá lugar ao que os filhos desejam. O mais velho, adolescente, não quer mais ir à Missa. Mas, afinal, “você não pode impor a religião às crianças”, pensam. Aqui também os pais temem mais os filhos do que a Deus. Têm mais respeito pelos filhos do que por Deus.

Eis alguns exemplos do pecado do respeito humano. Isso está profundamente presente em nossa natureza ferida e leva a muitos outros pecados. Muitas pessoas estão desesperadas por atenção, respeito, aceitação e aprovação de outros. Muitas delas, porém (até mesmo religiosos praticantes), relutam em se preocupar com o que Deus pensa deles ou se Ele aprova seu comportamento.

Deus tem uma solução direta para isso: devemos temê-lo, e a ninguém mais. Há um velho ditado que diz: “Se eu me ajoelhar diante de Deus, poderei estar de pé diante de qualquer homem”. É mais fácil temer (respeitar) um só do que muitos. Quanto mais aprendemos a temer (respeitar) a Deus, menos nos preocupamos com o que os outros pensam. Este não é um convite para se tornar um sociopata, que não se importa com o que os outros pensam. Devemos ser educados, cuidar de nós mesmos e não provocar brigas intencionalmente. Mas, no fim das contas, somos instruídos pelo Senhor a nos libertar do terrível medo daquilo que os outros pensam.

Dizer que essa é uma solução simples refere-se mais à sua descrição que à sua execução. Porque, com efeito, não é fácil livrar-se desse impulso tão profundo; na verdade, leva a vida toda. O primeiro passo para a cura é admitir que temos um problema. Então, começamos a vê-lo como realmente é, entender seus movimentos e permitir que o Senhor nos liberte continuamente.

Sejamos também claros: o temor do Senhor aconselhado aqui não é um temor servil e acovardado. Se, porém, isso é tudo o que uma pessoa pode dar agora, é melhor do que não ter medo algum! A verdadeira finalidade é termos um temor filial de Deus, temendo ofendê-lo porque o amamos. Este tipo de medo do Senhor nos mantém deslumbrados. Trata-se de ter uma reverência a Ele, enraizada em um profundo amor e gratidão. Por causa desse amor e gratidão, tememos ofendê-lo mais do que ofender a qualquer outro [1].

Talvez algumas citações da Escritura, que tratam de vários aspectos do problema do respeito humano e do remédio do santo temor, sejam uma conclusão adequada para esta reflexão:

  • “Pelo temor do Senhor evita-se o mal” (Pr 16, 6).
  • “Que teu coração não inveje os pecadores, mas permaneça sempre no temor do Senhor” (Pr 23, 17).
  • Vale mais o pouco com o temor do Senhor que um grande tesouro com a inquietação” (Pv 15, 16).
  • “O seu temor, sempre presente aos vossos olhos, vos preserve de pecar” (Ex 20, 20).
  • “Terrível sois, quem vos poderá resistir, diante do furor de vossa cólera” (Sl 75, 8).
  • “Terrível é Deus na assembleia dos santos, maior e mais tremendo que todos os que o cercam” (Sl 88, 8).
  • “Eu, que me tinha deitado e adormecido, levanto-me, porque o Senhor me sustenta. Nada temo diante desta multidão de povo, que de todos os lados se dirige contra mim” (Sl 3, 6s).
  • “Eu lhes darei um só coração e um mesmo destino, a fim de que sempre me reverenciem, para o seu próprio bem e de seus descendentes” (Jr 32, 39).
  • “Aproximaram-se dele e disseram-lhe: ‘Mestre, sabemos que és sincero e que não lisonjeias a ninguém; porque não olhas para as aparências dos homens, mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade’” (Mc 12, 14).
  • Ai de vós, quando vos louvarem os homens, porque assim faziam os pais deles aos falsos profetas!” (Lc 6, 26).
  • “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na sua glória, na glória de seu Pai e dos santos anjos” (Lc 9, 26).
  • “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena” (Mt 10, 28).
  • Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Como, porém, não sois do mundo, mas do mundo vos escolhi, por isso o mundo vos odeia” (Jo 15, 18s).
  • “A mim pouco se me dá ser julgado por vós ou por tribunal humano, pois nem eu me julgo a mim mesmo. De nada me acusa a consciência; contudo, nem por isso sou justificado. Meu juiz é o Senhor” (1Cor 4, 3s).
  • “De ora em diante ninguém me moleste, porque trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6, 17).
  • “Compenetrados do temor do Senhor, procuramos persuadir os homens. Estamos a descoberto aos o­lhos de Deus, e espero que o estejamos também ante as vossas consciências” (2Cor 5, 11).

Notas

  1. A teologia católica costuma distinguir duas classes de temor: a) o chamado temor servil, pelo qual se teme a Deus como a quem pune ou inflige uma pena devida a uma culpa atual; b) e o chamado temor filial, pelo qual se teme a Deus como Pai, a quem não se quer ofender ou desagradar pela culpa, seja atual ou possível. Daí se vê que, se o temor servil se refere a Deus enquanto princípio ativo da pena, o filial a Ele se refere como termo do qual se teme separar por qualquer culpa (cf. S. Tomás de Aquino, STh II-II 19, 5 ad 2). — É também doutrina católica, fundada no ensinamento explícito tanto da S. Escritura quanto do Magistério eclesiástico, que o temor, seja servil ou filial, tem por raiz ou causa própria os atos elícitos da : “Também os demônios creem e tremem” (Tg 2, 19). E a razão disso é a seguinte: o movimento de temor é causado no apetite inferior ou superior pela apreensão sensitiva ou intelectiva de um mal iminente ao qual não se pode facilmente resistir; ora, a fé produz em quem crê a apreensão intelectiva de um mal divino iminente ao qual não se pode facilmente resistir (no caso do temor servil, apreende-se o mal de pena enquanto há de ser infligido por Deus ofendido; no caso do filial, apreende-se o mal que é separar-se de Deus como Pai pela culpa); logo, a fé causa o temor de Deus em quem crê (cf. Pe. Santiago Ramírez, De fide, §§678.681ss). — Donde se segue que o melhor meio de crescer no temor de Deus é por atos frequentes de fé: “A fé ensina aos fiéis no que propriamente consiste o pecado e como ele é, propriamente, uma ofensa a Deus; ensina também que Deus é justíssimo e preparado para punir com penas proporcionais os pecados mortais das criaturas. Estas penas são tanto de dano quanto de sentido, ambas de certo modo infinitas. E porque a fé ensina também que Deus é onipotente e, consequentemente, que ninguém pode fugir das mãos dele, segue-se no pecador a representação de um mal infinito que não pode ser evitado enquanto permanece o pecado, e por isso naturalmente causa em quem crê o temor deste mal, segundo aquilo: ‘É horrendo cair nas mãos do Deus vivo’ (Hb 10, 31)” (Id., ibid.) (Nota da Equipe CNP).
  2. A pintura acima é um detalhe de “A Segunda Negação de São Pedro”, por James Tissot.

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O que são as “virtudes teologais”?
Doutrina

O que são as “virtudes teologais”?

O que são as “virtudes teologais”?

Ao ser justificado por Deus, o homem recebe de uma só vez, com a remissão de seus pecados, três dons infusos que a tradição católica, amparada na Sagrada Escritura, identifica como “virtudes teologais”. O que são elas?

Equipe Christo Nihil Praeponere21 de Outubro de 2020Tempo de leitura: 4 minutos
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Antes de estudarmos as chamadas virtudes teologais, é necessário considerar primeiro duas coisas: (I) os diversos modos de significá-las, ou seja, os distintos nomes por que são conhecidas, (II) e a realidade significada por tais nomes.

I. Nome. — Quanto aos modos de significação, deve-se saber que as virtudes teologais costumam ser designadas de duas maneiras: 1) em geral (lato sensu), por referência quer ao sujeito, quer à causa, quer ao meio por que são conhecidas, e 2) em particular (stricto sensu), em função do objeto ou da forma própria de cada uma delas. Assim:

1) Em geral ou em sentido amplo, as virtudes teologais podem ser designadas como:

  • Virtudes católicas, em razão de seu sujeito, por serem próprias do fiel cristão;
  • Virtudes infusas, em razão de sua causa, que é Deus pela graça;
  • Virtudes teológicas, em razão do meio por que são conhecidas, que é a divina revelação.

2) Em sentido estrito, as virtudes teologais costumam ser designadas em função de sua forma ou objeto próprio, e por isso se distinguem em:

  • , cujo objeto é a Verdade primeira dita ou comunicada;
  • Esperança, cujo objeto é a suma Bondade enquanto bem para nós [1];
  • Caridade, cujo objeto é a suma Bondade enquanto bem em si mesmo.

II. Realidade. — Quanto às realidades significadas por tais nomes, cumpre saber o seguinte: 1) se existem (an sint); 2) o que são (quid sint); 3) por que e como se dividem; 4) e que tipo de ordem se pode estabelecer entre elas. Assim:

1) É de fé que existem virtudes teologais, ao modo de hábitos operativos infusos, responsáveis por nos unirem a Deus, nosso fim último sobrenatural. A Igreja, com efeito, o ensinou em uma multidão de documentos ao longo dos séculos [2].

2) É doutrina certa que estes hábitos versam sobre o fim, que é Deus em si mesmo, e por isso se distinguem das virtudes morais infusas, que têm por objeto os meios, isto é, as criaturas. No entanto, é possível que essa doutrina seja ao menos próxima da fé, em virtude do teor das palavras de Bento XII na Constituição “Benedictus Deus” [3].

3) Há três virtudes teologais por cujos atos nos unimos a Deus [4], já que são três os principais atos de nossas duas potências espirituais, o intelecto e a vontade:

  • A fé, que é um hábito do intelecto, nos une a Deus pelo ato de entendimento (intelligere), por anuência às verdades reveladas.
  • Na vontade radicam outros dois hábitos: α) a esperança, cujo ato é querer (velle) ou aspirar a Deus como bem sumamente árduo, mas possível; β) e a caridade, cujo ato é propriamente o amor a este bem. A esperança, portanto, se distingue da caridade como o movimento em direção ao fim (motus in finem) se distingue da conformidade do apetite com o fim (coaptatio ad finem) [5].

4) Por último, entre as três virtudes teologais se pode distinguir uma dupla ordem: a) uma ordem de prioridade ou geração, fundada nos atos próprios de cada uma delas por analogia com os atos correspondentes das potências em que radicam; b) e uma ordem de perfeição ou dignidade, fundada no aspecto formal sob o qual atingem o seu objeto, isto é, Deus em si mesmo [6]. Nesse sentido:

  • Na ordem da geração, primeiro vem a fé, depois a esperança e por último a caridade, assim como primeiro é o conhecimento, depois a volição imperfeita (ou tendencial) e por último a volição perfeita (conformativa ou fruitiva). Com efeito, assim como a vontade só pode apetecer e chegar à posse do bem, se lho apresentar antes o intelecto (nihil volitum nisi præcognitum), do mesmo modo a esperança só pode querer e a caridade só pode amar a Deus se ele for conhecido pela fé.
  • Na ordem da perfeição, primeiro vem a caridade, que tem a Deus por objeto enquanto bem divino a ser amado em si mesmo com amor de benevolência; depois vem a fé, que tem a Deus por objeto enquanto verdade divina a ser conhecida sob a luz da graça; e por último vem a esperança, que tem a Deus por objeto enquanto bem divino a ser apetecido com amor de concupiscência.

Ora, dado que um ato é tanto mais meritório quanto mais perfeita é a virtude de que é ato [7], pode-se estabelecer um terceiro critério de ordenação entre as virtudes teologais, também do ângulo da perfeição. Assim, a virtude mais perfeita de todas é a caridade, cujo ato é o amor a Deus em si mesmo, ao passo que a esperança é agora mais perfeita do que a , já que a esperança de certa forma direciona ou move os nossos afetos a Deus, enquanto pela fé é Deus quem passa a estar presente em nós ao modo de objeto conhecido (cf. STh I-II 68, 8 c.).

Daí dizer S. Paulo, em 1Cor 13, 13, que a caridade, das três virtudes teologais, é a maior, pois ela não só se especifica por um objeto formal, de certo ângulo, mais excelente como também aperfeiçoa os atos das outras duas, tornando-os meritórios, por certo influxo informativo, da vida eterna [8].

Notas

  1. Na verdade, embora a esperança se refira, sim, a Deus sob a razão de bem divino nosso (amável, portanto, com amor de concupiscência), o seu objeto formal próprio é a onipotência divina auxiliante, na medida em que conota a misericórdia e a fidelidade de Deus para conosco. Em outras palavras, o que desejamos ou aquilo a que tendemos pelo ato de esperança teologal é Deus enquanto bem ausente, futuro e sumamente árduo, mas alcançável com o auxílio de sua onipotência, auxílio que ele mesmo nos prometeu: “Na esperan­ça da vida eterna prometida em tempos longínquos por Deus veraz e fiel” (Tt 1, 2); “Ante a promessa de Deus”, Abraão “não vacilou, não desconfiou […]. Estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera” (Rm 4, 20s).
  2. Cf., entre outros, Inocêncio III, Carta “Maiores Ecclesiæ causas”, de 1201 (DH 780s); Concílio de Vienne, Constituição “Fidei catholicæ”, de 6 mai. 1312 (DH 904); Concílio de Trento, Sessão 6.ª, de 13 jan. 1547, “Decreto sobre a justificação”, cap. 7 (DH 1530s); Concílio Vaticano I, Constituição “Dei Filius”, de 24 abr. 1870, cap. 3 (DH 3008); Catecismo Romano, II, cap. 2, n. 50: “A graça […] é acompanhada pelo sublime cortejo de todas as virtudes, que Deus infunde na alma juntamente com a graça”.
  3. Diz pois o sumo Pontífice que a “visão da essência divina e a sua fruição fazem cessar nelas”, isto é, nas almas dos bem-aventurados, “os atos de fé e de esperança, enquanto a fé e a esperança são propriamente virtudes teologais” (DH 1001), quer dizer, na medida em que são virtudes que têm a Deus em si mesmo como objeto próprio, mas enquanto Verdade não vista (fé) e Bem ainda não possuído (esperança).
  4. A divisão tripartite das virtudes teologais é ponto pacífico e absolutamente certo, embora, ao que tudo indica, não tenha sido nunca objeto de uma definição expressa e solene do Magistério eclesiástico. Mas o fato de a Igreja nunca ter definido que existem três, e somente três, virtudes teologais não nos autoriza a supor que existam outras além delas. Com efeito, assim como não admitimos em Deus mais do que três pessoas, por não nos ter sido revelada nenhuma outra, nem reconhecemos, pela mesma razão, mais do que sete sacramentos da nova Lei, tampouco devemos admitir mais do que as três virtudes teologais de que nos falam as fontes da revelação: “Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade: as três” (1Cor 13, 13).
  5. Eis o que ensina o Doutor Angélico a esse respeito: “A vontade se ordena a um fim quanto ao movimento de intenção, a ele tendendo como a algo possível de conseguir, o que compete à esperança, e quanto a certa união espiritual, pela qual é, de certo modo, transformada em tal fim, o que se dá pela caridade. Com efeito, o apetite de cada coisa naturalmente se move e tende a um fim que lhe é conatural, e este movimento provém de certa conformidade da coisa com o seu fim” (STh I-II 62, 3 c.). — É evidente, porém, que essa conformidade ou união espiritual que a caridade importa com seu fim, isto é, com Deus, difere segundo o estado, porquanto uma é a conformidade que se pode ter in via (onde amamos e possuímos a Deus, mas apenas de certo modo e  imperfeitamente) e outra é a conformidade que se pode ter in patria (onde os bem-aventurados amam a Deus e o possuem perfeitamente, cada um segundo a própria capacidade ou potência dilectiva). Com efeito, “diz-se que algo é amado na medida em que o apetite do amante está para ele como para o seu bem. Logo, a relação ou conformidade mesma do apetite a algo como ao seu bem chama-se amor. Ora, tudo o que se ordena a algo como ao seu bem de certo modo o tem presente e unido a si segundo certa semelhança, ao menos de proporção, assim como a forma está de certo modo na matéria, enquanto tem aptidão e ordem a ela” (In De divinis nom. c. 4, l. 9).
  6. Não se pode, evidentemente, estabelecer um critério de ordenação entre elas a partir da pura e simples razão de “hábito” (quoad ipsos habitus), uma vez que Deus infunde juntas as três virtudes teologais ao justificar o ímpio: “Hæc omnia simul infusa accipit homo […]: fidem, spem et caritatem” (Concílio de Trento, loc. cit.).
  7. Cf. S. Tomás de Aquino, Quodlib. 6, 6 c.: “[…] um ato pode dizer-se mais meritório duplamente. De um modo, pelo gênero da obra; e assim é mais meritório o ato que é de uma virtude mais excelente (v.gr., é mais meritório, em si, um ato de religião que um de beneficência) […]. De outro modo, pode um ato dizer-se mais meritório por proceder de maior caridade, embora ela seja menor (isto é, menos meritório em si) por seu gênero (v.gr., pode ser mais meritório um ato de beneficência imperado por caridade mais intensa que um realizado apenas por religião)”; STh II-II 88, 6 c.: “É melhor e mais meritória a obra de uma virtude mais nobre. Por isso, o ato de uma virtude inferior é melhor e mais meritório quando é imperado por uma virtude superior, cujo ato se realiza por império, assim como o ato de fé ou de esperança é melhor se for imperado pela caridade”.
  8. Este artigo é uma adaptação resumida e, em alguns pontos, ampliada de Pe. Santiago Ramírez, De fide divina. Salamanca: San Esteban, 1994, pp. 4-11, nn. 6-18.

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