Os primeiros cristãos tiveram de enfrentar as mais terríveis tribulações para defender a fé em Jesus Cristo. Foram provados até o limite das próprias forças, ora pela truculência do Estado — o qual via naquela nova religião uma eminente ameaça —, ora pelas condições de vida — fome, doenças etc. É possível enxergar essa realidade nas cartas de São Paulo, nas quais o apóstolo das gentes exorta a comunidade a manter-se sempre alegre, mesmo nos momentos de crise e instabilidade (cf. Fp 4, 4). Ele aconselhava: "Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças" (Fp 4, 6) E assim faziam os fiéis, seguindo as recomendações apostólicas. Mantinham-se firmes na Palavra de Deus, no anúncio da Boa-Nova e na caridade fraterna. Essas foram as armas dos cristãos que derrubaram o Império Romano e tornaram o nome de Cristo conhecido em toda a terra.

É verdade, porém, que muitos desanimaram frente aos desafios. Nem todos puderam suportar a opressão das perseguições e o peso da cruz. Acabaram por capitular. Essa fraqueza, naturalmente, deveu-se a dois motivos bem óbvios: uma fé imatura e a falta de confiança na graça de Deus. Ninguém, a não ser o próprio Cristo, pode suportar sozinho o peso dos pecados do mundo. E mesmo Jesus teve de passar por uma noite escura no jardim, apoiado pelos anjos, antes que derramasse seu sangue no madeiro (cf. Lc 22, 43). O pelagianismo — que, infelizmente, ainda cerra fileiras em muitas de nossas igrejas — é um erro grosseiro [1]. Em que pese sua qualidade musical, Renato Russo não é um bom conselheiro. Confiar em si mesmo é coisa de loucos. Os manicômios — para lembrar uma anedota de G.K. Chesterton — estão cheios de pessoas que acreditam em si mesmas.

Um cristão, portanto, necessita de amadurecer sua fé se quiser sobreviver às ondas agitadas que constantemente chacoalham a Barca de Pedro. Esse processo de amadurecimento, por outro lado, deve estar enraizado na grande herança apostólica da Igreja. Em nossos dias, costuma-se considerar madura a fé que se adapta ao sabor das novas ideias, das circunstâncias impostas pelo mundo moderno. Isso não pode ser considerado um amadurecimento. Isso se chama apostasia. Como explicou certa vez o Cardeal Joseph Ratzinger, "'adulta' não é uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é uma fé profundamente radicada na amizade com Cristo" [2]. Jesus deixou-nos os sacramentos justamente para que fôssemos santificados. A Eucaristia e a Confissão, sobretudo, foram os dois pilares da vida dos grandes santos da história. Não podemos relativizar essa herança, como se se tratasse de algo opcional. Os sacramentos são imprescindíveis. Acaso não está escrito: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos" (Jo 6, 53)? Fé adulta é a do homem que constrói sua casa sobre a rocha firme (cf. Mt 7, 24-25). Nenhuma ventania pode derrubá-la. Essa rocha nada mais é que a economia sacramental.

Quem se entrega à graça de Deus, por conseguinte, sabe lidar com os tempos de provação. Não luta com suas próprias forças. Torna-se um instrumento da providência divina. Infelizmente, muitos ainda vivem a ilusão de um cristianismo sem cruz. Não se enganem. Jesus alertou-nos claramente sobre a perseguição que haveríamos de sofrer: "Se o mundo vos odeia, sabei que me odiou a mim antes que a vós" (Jo 15, 18). E é a certeza desse repúdio do mundo à Palavra de Deus que não nos deixa sucumbir, pois bem-aventurados são aqueles que sofrem perseguição pelo nome de Jesus (cf. Mt 5, 10).

Existe uma cena belíssima na versão cinematográfica de O Senhor dos Anéis, que nos auxilia a compreender por que não podemos desistir, mesmo quando tudo parece fadado ao desastre. Trata-se de um diálogo entre Frodo e Sam, os dois hobbits protagonistas da história. Frodo, fatigado pelo peso do anel e angustiado com o cenário de destruição à sua volta, murmura ao amigo, Sam, dizendo que não é capaz de continuar a missão. Sam, compadecido, responde a Frodo que compreende suas limitações, pois, na verdade, eles nem deveriam estar naquele lugar. Tudo era uma grande injustiça. "Mas estamos", prossegue o parceiro de Frodo. E ele continua assim:

— É como nas grandes histórias, senhor Frodo. As que tinham mesmo importância. Eram repletas de escuridão e perigo. E, às vezes, você não queria saber o fim, porque como podiam ter um final feliz? Como podia o mundo voltar a ser o que era depois de tanto mal? Mas, no fim, é só uma coisa passageira. Essa sombra. Até a escuridão tem de passar. Um novo dia virá. E, quando o Sol brilhar, brilhará ainda mais forte. Eram essas as histórias que ficavam na lembrança, que significavam algo. Mesmo que você fosse pequeno o bastante para entender por quê. Mas acho, senhor Frodo, que eu entendo, sim. Agora eu sei. As pessoas dessas histórias tinham várias oportunidades de voltar atrás, mas não voltavam. Elas seguiam em frente, porque tinham no que se agarrar.

— Em que nós nos agarramos, Sam?, pergunta Frodo.

— No bem que existe neste mundo, senhor Frodo, pelo qual vale a pena lutar —, explica Sam, levantando o pequeno hobbit abatido.

Em sua literatura, J.R.R Tolkien trabalha com o conceito de eucatástrofe, uma espécie de catástrofe às avessas, isto é, aquilo de bom e redentor que ocorre quando tudo parece destruído. Os amantes da obra de Tolkien sabem que seus livros estão permeados pela profunda espiritualidade católica do autor. Como disse Sam a Frodo, existe uma bondade neste mundo pela qual vale a pena lutar. Essa bondade consiste na origem divina do cosmos. Toda a criação, em especial o ser humano, reflete a beleza e a graça de Deus. E ainda que o pecado a tenha maculado, no final, como ensina o Catecismo, haverá "uma vitória de Deus sobre o último desencadear do mal, que fará descer do céu a sua Esposa" [3]. Isso é eucatástrofe. No final, como aconteceu há dois mil anos, Deus sempre vence. Evidentemente, a grande eucatástrofe da história da humanidade aconteceu com a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

De fato, vivemos, em nossa sociedade, um clima de confusão desnorteadora, o qual pode, de certo modo, nos induzir a um pessimismo. Tantas notícias ruins sobre a moral social, sobre a família e a própria Igreja contribuem para isso em grande escala. O cristão, porém, não pode deixar-se prender por esses desafios, já que sua esperança abre uma visão para além das nuvens negras que cobrem o céu. A esperança cristã nunca decepciona porque não se fundamenta em um futuro utópico, mas na providência divina que cerca seus filhos de carinho e proteção, como diz o salmista (cf. Sl 124, 2). A eucatástrofe diz respeito ao cristianismo justamente por isso. Embora o homem contribua de alguma maneira para a ação de Deus, Ele age livremente e tem a posse da última palavra. Neste sentido, é oportuno meditarmos o testemunho do mártir vietnamita Paulo Le-Bao-Thin, no qual, diz Bento XVI, é "clara esta transformação do sofrimento mediante a força da esperança que provém da fé" [4]:

Eu, Paulo, prisioneiro pelo nome de Cristo, quero falar-vos das tribulações que suporto cada dia, para que, inflamados no amor de Deus, comigo louveis o Senhor, porque é eterna a sua misericórdia ( Sal136/135). Este cárcere é realmente a imagem do inferno eterno: além de suplícios de todo o gênero, tais como algemas, grilhões, cadeias de ferro, tenho de suportar o ódio, as agressões, calúnias, palavras indecorosas, repreensões, maldades, juramentos falsos, e, além disso, as angústias e a tristeza. Mas Deus, que outrora libertou os três jovens da fornalha ardente, está sempre comigo e libertou-me destas tribulações, convertendo-as em suave doçura, porque é eterna a sua misericórdia. Imerso nestes tormentos, que costumam aterrorizar os outros, pela graça de Deus sinto-me alegre e contente, porque não estou só, mas estou com Cristo.

[...] Como posso eu suportar este espetáculo, ao ver todos os dias os imperadores, mandarins e seus guardas blasfemar o vosso santo nome, Senhor, que estais sentado sobre os Querubins (cf. Sal 80/79, 2) e os Serafins? Vede como a vossa cruz é calcada aos pés dos pagãos! Onde está a vossa glória? Ao ver tudo isto, sinto inflamar-se o meu coração no vosso amor e prefiro ser dilacerado e morrer em testemunho da vossa infinita bondade. Mostrai, Senhor, o vosso poder, salvai-me e amparai-me, para que na minha fraqueza se manifeste a vossa força e seja glorificada diante dos gentios [...] Ouvindo tudo isto, caríssimos irmãos, tende coragem e alegrai-vos, dai graças eternamente a Deus, de quem procedem todos os bens, bendizei comigo ao Senhor, porque é eterna a sua misericórdia [...] Escrevo todas estas coisas, para que estejam unidas a vossa e a minha fé. No meio da tempestade, lanço a âncora que me permitirá subir até ao trono de Deus: a esperança viva que está no meu coração.

A pergunta agora é: Quando soar a última trombeta, de que lado estaremos, dos vitoriosos ou dos derrotados? A fé católica exige uma tomada de posição, pois "o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam" (Mt 11, 12). Temos de fugir, a todo custo, da blasfema presunção de achar que não é preciso lutar, porque, afinal de contas, Deus sempre vence. Sobre os presunçosos recai a mesma censura do profeta Mardoqueu à rainha Ester: "Se te calares agora, o socorro e a libertação virão aos judeus de outra parte; mas tu e a casa de teu pai perecereis" (Est 4, 14). A indolência, como ensina Padre Paulo Ricardo em outro vídeo, é um pecado gravíssimo.

Peçamos à Virgem Santíssima, Ela que foi o auxílio fiel de tantos cristãos ao longo destes 21 séculos de eucatástrofes, a fortaleza para suportarmos os desafios e a graça para caminharmos, sem descanso, rumo à Jerusalém Celeste.