Na história da Igreja, muitos mártires morreram pela fé. A começar por Santo Estêvão, o protomártir logo após a Ressurreição, eles foram os primeiros a serem lembrados, venerados por seu testemunho público e elevados ao altar com o título de santos. Houve também aqueles que negaram a fé sob pressão. Eles foram esquecidos e enterrados na escuridão da história.

O mundo moderno tem um problema com os mártires. As pessoas não são capazes de entender a glória do testemunho deles por Cristo. O homem moderno preferiria, ao invés, tentar encontrar alguma justificativa por trás da angustiante decisão daqueles que negaram a fé.

Tal é o caso do último filme de Martin Scorsese, Silence ("Silêncio", no Brasil). Trata-se de uma história sobre essa segunda categoria de não-mártires — de quem Nosso Senhor disse: "Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus" (Mt 10, 33).

Curiosamente, críticas recentes de "Silêncio" foram negativas — mesmo vindas da mídia liberal e hostil à Igreja. O consenso é que a tentativa de Scorsese, de propor para a admiração geral alguém que publicamente negou a sua fé, foi um fracasso.

Talvez seja porque a natureza humana considera tais renúncias detestáveis. Mesmo o talento do diretor, os efeitos especiais de Hollywood e a publicidade midiática não puderam superar esse fato. A tentativa ardilosa de Scorsese de justificar seu protagonista atormentado mostrou-se entediante e pouco convincente.

A "autoridade docente" de Hollywood

"Silêncio" é baseado em um romance de 1966 de mesmo nome, escrito pelo autor japonês Shusaku Endo. O enredo gira em torno de um personagem fictício: um padre jesuíta português do século XVII, no Japão, na época de uma violenta perseguição anticatólica. O filme representa um "conflito de fé", no qual o padre deve escolher entre a sua fé e as vidas de seu rebanho. Diante de sua provação, ele se depara com o silêncio de Deus às suas súplicas, de onde vem o título do filme. Finalmente, Cristo mesmo supostamente rompe o silêncio, dizendo-lhe interiormente que deve negar a fé, passando por cima de sua imagem a fim de salvar seu rebanho.

Uma história tão superficial e contrária a todo o ensinamento da Igreja normalmente não representaria nenhuma ameaça aos católicos que são firmes na fé. Entretanto, Hollywood tem tragicamente assumido o papel de uma autoridade docente para incontáveis católicos. Portanto, a principal lição ensinada pelo filme — que a negação pública da fé pode ser justificada algumas vezes e até ser desejada por Deus — realmente oferece um perigo a muitos não-catequizados, os quais podem vir a confundir o script de Hollywood com as Escrituras. Qualquer silêncio a respeito de "Silêncio" pode ser mal interpretado como um consentimento.

Não que seja o caso de rever o filme ou explorar os seus complexos enredos e subenredos. Tais filmes não apresentam, na verdade, nada de novo; não passam de meios para reafirmar certas premissas falsas que minam a fé. É de longe muito melhor responder às próprias premissas falsas, especialmente no modo como elas são aplicadas à lamentável incompreensão de martírio que tem a modernidade.

O martírio como uma derrota

A primeira falsa premissa é a concepção moderna de que a vida é o valor supremo. Essa é uma premissa terrível, pois, se não há nenhum valor pelo qual valha a pena morrer, então não há nenhuma razão real pela qual valha a pena viver. Em um mundo materialista que adora a vida e seus prazeres, o martírio representa fracasso. Aqueles que renunciam a fé e o martírio são vencedores. Aqueles que não o fazem são perdedores.

A mensagem de contos fictícios como "Silêncio" é de que a vida é para ser adorada a tal ponto que até mesmo Deus deve fazer-se cúmplice em inspirar a apostasia que salva a vida dos fiéis. Entretanto, narrativas assim são realmente fictícias; elas ignoram a realidade histórica do que aconteceu.

O registro histórico

O registro histórico dos mártires japoneses é um dos mais gloriosos na história da Igreja. Trata-se de uma ardente reprimenda ao mundo moderno por sua "idolatrização" da vida. Dezenas de milhares sofreram ou morreram nas mãos de cruéis executores. Se histórias são necessárias para inspirar autores, deixem-nos falarem da coragem, do heroísmo e da perseverança destes mártires japoneses, jovens e anciãos, homens e mulheres, religiosos e seculares, que alegremente deram suas vidas por Cristo e ganharam para si mesmos a coroa da glória eterna. Se vilões precisam ser encontrados nessas histórias, deixem-nos serem encontrados nos cruéis governadores e juízes que condenaram os cristãos à morte.

Em 1776, Santo Afonso de Ligório escreveu o livro Vitória dos Mártires, o qual contém uma longa seção destinada a contar incríveis histórias sobre os mártires japoneses. Ele fala, por exemplo, de uma cristã japonesa chamada Úrsula, que, ao ver seu marido e dois filhos martirizados, exclamou: "Louvado sejais, ó meu Deus, por me terdes tornado digna de estar aqui neste sacrifício! Concedei-me agora a graça de tomar parte em sua glória". Ela e sua filha mais nova foram decapitadas.

De fato, qualquer padre que salvasse a vida de suas ovelhas renunciando sua fé seria desprezado pelos fiéis japoneses, tanto por sua negação, quanto por ter privado seu rebanho da coroa do martírio.

Se há algum silêncio no "Silêncio" de Scorsese, é o silêncio que ignora a intrépida coragem e a alegria sobrenatural encontrada nos mártires e missionários japoneses, cujo testemunho era tão superior a ponto de seus inimigos serem vencidos por seus argumentos e resolverem matá-los. O martírio desses homens não foi a sua derrota, foi a sua vitória.

Atos sem significado

Uma segunda premissa é a de que atos externos não têm significado algum. Eles significam o que quer que uma pessoa determine que eles sejam. Uma premissa assim é típica do pensamento pós-moderno, que "desconstrói" atos de seu significado e contexto naturais.

Portanto, qualquer benefício ou inspiração pode justificar um ato que significa a negação da fé, já que atos não têm nenhum significado fixo. De fato, o enredo do filme mascara a negação pública com a boa intenção do protagonista de preocupar-se com a segurança de seu rebanho.

Novamente, isso mostra uma profunda incompreensão da ideia de martírio. A palavra martírio significa "testemunha" — uma manifestação externa da fé aos outros. A interpretação pós-moderna do dilema do martírio questiona a noção de que possa haver testemunhas tão convictas das verdades da religião católica a ponto de elas sofrerem felizes a morte ao invés de negarem a fé. A "metanarrativa" dos grandes feitos dos mártires não é mais válida. Mesmo a ideia de verdade é relativa. Tudo deve ser reduzido ao nível da experiência pessoal.

E, outra vez, tal interpretação vai contra a realidade histórica que foi centrada na noção de verdade objetiva. Aqueles que perseguiram a Igreja odiavam a verdade e a lei moral ensinadas por Cristo e pela Igreja. Eles odiavam especialmente o testemunho público dado pelos cristãos porque seu testemunho denunciavam os seus pecados e fraquezas. Tudo o que eles pediam de suas vítimas era algum sinal público de negação. Por essa razão, perseguidores frequentemente forçavam cristãos a negarem sua fé ao invés de tirarem suas vidas.

Historicamente, essa é a razão por que aqueles que perseguem a Igreja sempre querem oferecer honrarias, postos e benefícios àqueles que renunciam a fé. Eles sempre darão aos cristãos uma desculpa para deixarem de ser testemunhas. Isso inclui aquelas "boas intenções" a fim de diminuir o sofrimento da família, dos parentes e dos fiéis cristãos. No entanto, isso é apenas um pretexto. O que eles querem destruir, na verdade, é o testemunho que os assombra e os chama à virtude. Eles querem cristãos renegados para fazerem suas negações públicas e, assim, desencorajarem o testemunho de outros.

Felizmente, seus esforços são sempre frustrados pela constância dos fiéis cristãos que levam outros à conversão. Eles não entendem que "o sangue dos mártires é semente para novos cristãos", como dizia Tertuliano.

O deus do silêncio

A última falsa premissa vem de uma compreensão naturalista do mundo, em que as pessoas não compreendem o modo como Deus trabalha nas almas. O mundo secular pensa que a posição natural de Deus seja a do silêncio. Quando os escritores seculares são forçados a imaginar a ação de Deus sobre seus personagens, eles a retratam como uma questão puramente pessoal, baseada em sentimentos e emoções inconsistentes e distantes da lógica da lei divina.

Essa é, talvez, a maior incompreensão da fé. Os autores modernos criaram o seu próprio "deus" do silêncio, com crentes fora da vida da graça.

Uma combinação assim leva a representações absurdas como as de "Silêncio". O martírio não pode ser baseado em emoções ou sentimentos, já que envolve o sacrifício do maior dom natural que o homem possui — a vida. Isso é algo tão difícil que está acima das forças do ser humano. O martírio requer a graça, que ilumina o intelecto e fortalece a vontade. Só assim os cristãos podem fazer o que está acima de sua natureza humana. A graça de Deus nunca permitiria que uma pessoa negasse a Cristo diante dos homens.

O martírio, fruto da graça

É por isso que Santo Afonso declara ser uma questão de fé que "os mártires devem suas coroas ao poder da graça que receberam de Jesus Cristo; por Ele é que receberam a força para desprezar toda promessa e ameaça dos tiranos e suportar todos os tormentos até que tenham feito um sacrifício completo de suas vidas".

Ademais, Santo Agostinho declara que os méritos dos mártires provêm dos efeitos da graça de Deus e da cooperação deles com essa graça.

Em outras palavras, Deus não pode silenciar-se face ao martírio, como afirma o "Silêncio" de Scorcese. Sua justiça não permitirá a uma pessoa ser tentada além dos limites de sua capacidade. Ele está intimamente unido àqueles que enfrentam o martírio. Ele lhes dá a graça que é uma participação em sua própria vida divina. Enfrentar o martírio sem a graça é impossível. Ainda que Deus permita desafios, Ele nunca está em silêncio.

Os católicos não podem ficar em silêncio

E é por isso que os católicos não podem se silenciar diante desse filme. A produção de Scorsese é uma trágica negação da graça de Deus em um mundo urgentemente necessitado dela. Nestes dias em que católicos estão sendo martirizados, nós precisamos saber que Deus nunca fica em silêncio. Os mártires nunca estarão em uma situação em que Deus trai a si mesmo. Ele sempre estará com eles quando necessário.

A visão de mundo secular é estreita e asfixiante, mas, infelizmente, é a que prevalece hoje em dia. A obsessão com o "eu" permeia a cultura até a exclusão de Deus. Não é de se admirar que muitos pensem haver "silêncio" do outro lado do martírio. Isso se deve em grande parte ao fato de essas pessoas viverem, em suas próprias vidas, um grande vazio existencial. Elas simplesmente não conseguem acreditar na ação de Deus e da Sua graça.

Em meio à frenética intemperança dos nossos tempos, as multidões agitadas ironicamente não buscam Deus onde Ele sempre pode ser encontrado — no silêncio de suas próprias almas.

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