| Categoria: Doutrina

A verdadeira razão pela qual católicos não podem ser maçons

Três séculos após a fundação da primeira Grande Loja Maçônica, os princípios dessa instituição continuam frontalmente incompatíveis com a doutrina católica.

Por Ed Condon [*] — O antagonismo recíproco entre a Igreja Católica e a Maçonaria está bem firmado e é de longa data. Durante a maior parte dos últimos 300 anos, as duas instituições têm sido reconhecidas, mesmo pela mentalidade secular, como implacavelmente opostas uma à outra. Em décadas recentes, a animosidade entre elas tem-se apagado da consciência pública em grande medida, devido ao menor envolvimento direto da Igreja em assuntos civis e à derrocada dramática da Maçonaria, tanto em números quanto em importância. Mas, por ocasião dos 300 anos da Maçonaria, vale a pena rever o que sempre esteve no "núcleo" da absoluta oposição da Igreja a esse grupo. Aparentemente, a Maçonaria pode não passar de um clube esotérico masculino, mas ela já foi, e continua sendo, um movimento filosófico altamente influente — e que impactou de modo dramático, ainda que sutil, a sociedade e a política modernas no Ocidente.

A história da Franco-maçonaria preenche, por si só, vastas páginas. A sua gradual transformação de guildas de pedreiros medievais em uma rede de sociedades secretas, com uma filosofia e um rito gnósticos próprios, pode ser lida com grande interesse. A versão mais recente da Franco-maçonaria teve início com a formação da Grande Loja da Inglaterra, em 1717, em um bar chamado Goose & Gridiron, próximo à Catedral londrina de São Paulo Apóstolo. Nos primeiros anos, antes que a Igreja fizesse qualquer pronunciamento formal sobre o assunto, muitos católicos já faziam parte da associação e a "diáspora" dos católicos e jacobitas ingleses foi crucial para espalhar a Franco-maçonaria na Europa continental. Ela chegou a se tornar, em alguns lugares, tão popular entre os católicos que o Rei Francisco I da Áustria serviu de protetor formal da instituição.

Mesmo assim, a Igreja se converteu na maior inimiga das lojas maçônicas. Entre o Papa Clemente XII, em 1738, e a promulgação do primeiro Código de Direito Canônico, em 1917, oito papas ao todo escreveram condenações explícitas à Franco-maçonaria. Todas previam a mais estrita pena eclesiástica para quem se associasse: excomunhão automática reservada à Sé Apostólica.

Mas o que a Igreja entendia, e entende hoje, por Franco-maçonaria? Que características fizeram com que ela merecesse uma tal condenação?

É comum ouvirmos dizer que a Igreja se opôs à Franco-maçonaria por causa do caráter supostamente revolucionário ou sedicioso das lojas. Está relativamente difundida a ideia de que as lojas maçônicas eram células essencialmente políticas para republicanos e outros reformistas, e a Igreja se opunha a elas para defender o velho regime absolutista, ao qual ela estava institucionalmente atrelada. No entanto, embora a sedição política eventualmente se sobressaísse na oposição da Igreja à Maçonaria, essa não era, em hipótese alguma, a razão originária de sua rejeição. O que Clemente XII denunciou originalmente não era uma sociedade republicana revolucionária, mas um grupo que propagava o indiferentismo religioso: a ideia de que todas as religiões (e nenhuma delas) têm igual validade, e que na Maçonaria estão todas unidas para servirem a um entendimento comum e mais elevado da virtude. Os católicos, como membros, deveriam colocar sua adesão à loja acima de sua pertença à Igreja. Em outras palavras, a proibição rigorosa da Igreja devia-se não a motivos políticos, mas ao cuidado com as almas.

Desde o princípio, a preocupação primária da Igreja foi a de que a Maçonaria submete a fé de um católico à da loja, obrigando-o a colocar uma fraternidade secularista fundamental acima da comunhão com a Igreja. A linguagem legal e as penalidades aplicadas nas condenações à Franco-maçonaria eram, na verdade, muito similares àquelas usadas na supressão dos albigenses: a Igreja vê a Franco-maçonaria como uma forma de heresia. Ainda que os próprios ritos maçônicos contenham um material considerável que pode ser chamado de herético — e até de explicitamente anticatólico, em alguns casos —, a Igreja sempre esteve muito mais preocupada com a filosofia geral da Franco-maçonaria do que com a ostentação de seus rituais.

Ao longo dos séculos XVIII e XIX, a Igreja Católica e o seu lugar de privilégio no governo e na sociedade de muitos países europeus tornaram-se objeto de crescente oposição secular e até mesmo de violência. Existem, é verdade, poucas evidências históricas — se é que as há — de que as lojas maçônicas tenham desempenhado um papel ativo no início da Revolução Francesa. De qualquer modo, a causa dos horrores anticlericais e anticatólicos da Revolução pode ser encontrada na mentalidade secularista descrita pelas várias bulas papais que condenam a Maçonaria. As sociedades maçônicas foram condenadas não porque pretendessem ameaçar as autoridades civis e eclesiásticas, mas porque uma tal ameaça, na verdade, constituía a consequência inevitável de sua existência e crescimento. A revolução era o sintoma, não a doença.

A coincidência de interesses entre Igreja e Estado, e o ataque a elas empreendido por sociedades secretas revolucionárias, foram mais claros nos Estados Papais da Península Itálica, onde a Igreja e o Estado eram uma só coisa. Assim que começou o século XIX, ganhou notoriedade uma imitação da Franco-maçonaria, de caráter revolucionário explícito e oposição declarada à Igreja: eles se chamavam de Carbonari ("carbonários", palavra italiana para "carvoeiros") e, em sua campanha por um governo constitucional secular, praticavam tanto o assassinato quanto a insurreição armada contra os vários governos da Península Itálica, sendo identificados como uma ameaça imediata à fé, aos Estados Papais e à própria pessoa do Pontífice Romano.

A ligação entre a ameaça passiva da filosofia secreta maçônica e a conspiração ativa da Carbonária foi explicada na Constituição Apostólica Ecclesiam a Jesu Christo, do Papa Pio VII, promulgada em 1821. Mesmo tratando e condenando a oposição aberta e declarada dos Carbonari à governança temporal dos Estados Papais, ainda assim era claro que a mais grave ameaça colocada por essas células violentamente revolucionárias era a sua filosofia secularista.

Ao longo de todas as várias condenações papais à Franco-maçonaria, mesmo quando as lojas financiavam ativamente campanhas militares contra o papa, como fizeram com a conquista de Garibaldi e a unificação da Itália, o que sempre constituiu a primeira objeção da Igreja à Loja foi a ameaça que ela representava à fé dos católicos e à liberdade da Igreja de agir em sociedade. O fato de os ensinamentos da Igreja serem minados nas lojas, e a sua autoridade em matéria de fé e moral ser questionada, era repetidamente descrito como uma conspiração contra a fé, tanto nos indivíduos quanto em sociedade.

Um cartum de 1891 mostra o Papa Leão XIII combatendo a Maçonaria.

Na encíclica Humanum Genus, o Papa Leão XIII descreveu a agenda maçônica como sendo a exclusão da Igreja da participação em assuntos públicos e a perda gradual de seus direitos como um membro institucional da sociedade. Durante o seu tempo como papa, Leão escreveu um grande número de condenações à Franco-maçonaria, tanto no âmbito pastoral quanto no âmbito legislativo. Ele sublinhou em detalhes o que a Igreja considerava ser a agenda maçônica, agenda esta que, lida com um olhar contemporâneo, ainda é de uma relevância surpreendente.

Ele se referiu especificamente ao objetivo de secularizar o Estado e a sociedade. Ressaltou em particular a exclusão do ensino religioso das escolas públicas e o conceito de que "o Estado, que deve ser absolutamente ateu, tem o inalienável direito e dever de formar o coração e os espíritos de seus cidadãos" ( Dall'Alto dell'Apostolico Seggio, n. 6). Também denunciou abertamente o desejo maçônico de tirar da Igreja qualquer forma de controle ou influência sobre escolas, hospitais, instituições de caridade públicas, universidades e qualquer outra associação que servisse ao bem comum. Também deu um destaque específico ao impulso maçônico de repensar o matrimônio como um mero contrato civil, promover o divórcio e apoiar a legalização do aborto.

É praticamente impossível ler esta agenda e não reconhecer nela a base de quase todo o nosso discurso político contemporâneo. O fato de muitos de nossos principais partidos políticos, se não todos, apoiarem tranquilamente essas ideias, e o próprio conceito de Estado secular e suas consequências sobre a sociedade ocidental, incluindo a pervasiva cultura do divórcio e a disponibilidade quase universal do aborto, tudo isso é uma vitória da agenda maçônica. E isso levanta questões canônicas muito sérias sobre a participação católica no atual processo político secular.

Ao longo de séculos de condenações papais à Franco-maçonaria, era normal que cada papa incluísse nomes de novas sociedades que compartilhavam da filosofia e da agenda maçônicas e que, por isso, também deveriam ser entendidas pelos católicos, nos termos da lei canônica, como "maçônicas". No século XX, isso chegou a incluir partidos políticos e movimentos como o comunismo.

Quando o Código de Direito Canônico foi reformado, após o Vaticano II, o cânon específico que proibia os católicos de aderirem a "seitas maçônicas" foi revisado. No novo código, promulgado em 1983 por São João Paulo II, a menção explícita à Franco-maçonaria foi retirada completamente. O novo cânon 1374 refere-se somente a associações "que maquine[m] contra a Igreja". Muitos entenderam essa mudança como um indicativo de que a Franco-maçonaria não mais era considerada má aos olhos da Igreja. Na verdade, os membros do comitê responsável pela reforma esclareceram que eles queriam se referir não apenas aos franco-maçons, mas a muitas outras organizações; a conspiração da agenda secularista maçônica tinha-se espalhado para tão além das lojas que continuar usando um termo abrangente como "maçônico" seria confuso. O então Cardeal Ratzinger emitiu um esclarecimento da nova lei em 1983, no qual deixou claro que o novo cânon havia sido formulado para encorajar uma interpretação e uma aplicação mais abrangentes.

Dado o entendimento cristalino, no ensinamento da Igreja, do que a conspiração ou a agenda maçônica incluem — a saber, o matrimônio como um mero contrato civil aberto ao divórcio à vontade; o aborto; a exclusão do ensino religioso das escolas públicas; a exclusão da Igreja do provimento de bem-estar social ou do controle de instituições de caridade —, parece-nos impossível não perguntar: quantos de nossos partidos políticos no Ocidente não estariam agora sob a proibição do cânon 1374? A resposta talvez não agrade muito aqueles que querem ver um fim para a chamada "guerra cultural" dentro da Igreja.

Mais recentemente, o Papa Francisco tem falado repetidas vezes de sua grave preocupação com uma infiltração maçônica na Cúria e em outras organizações católicas. Ao mesmo tempo, ele alertou contra a Igreja se tornar uma mera ONG em seus métodos e objetivos — perigo que vem diretamente dessa mentalidade secularista a que a Igreja sempre chamou "filosofia maçônica".

A infiltração maçônica na hierarquia e na Cúria tem sido tratada há muito tempo como uma espécie de versão católica do "bicho-papão" embaixo da cama, ou da paranoia macarthista com infiltrados comunistas. De fato, quando se conversa com pessoas que trabalham no Vaticano, rapidamente se descobre que, para cada dois ou três que riem dessa história, há pelo menos um que deparou diretamente com esse fato. Eu mesmo conheço pelo menos duas pessoas que, durante o tempo em que trabalharam em Roma, foram abordadas para se associarem. O papel das lojas maçônicas como ponto de encontros confidencial para pessoas com ideias e agendas heterodoxas mudou pouco desde a França pré-revolucionária até o Vaticano de hoje. 300 anos após a fundação da primeira Grande Loja Maçônica, o conflito entre a Igreja e a Franco-maçonaria nunca esteve tão vivo.

Fonte: Catholic Herald | Tradução: Equipe CNP

[*] Ed Condon é canonista e escreveu sua dissertação de doutorado sobre a história das sanções legais da Igreja contra os franco-maçons.

| Categoria: Sociedade

O que o Canadá tem a nos ensinar sobre o “casamento” homossexual?

Reconhecer como matrimônios legais as relações entre pessoas do mesmo sexo seria de fato um divisor de águas? Que impacto sobre a concepção comum de casamento e os costumes matrimoniais dos países teria esse reconhecimento?

Reconhecer como matrimônios legais as relações entre pessoas do mesmo sexo seria de fato um divisor de águas? Que impacto sobre a concepção comum de casamento e os costumes matrimoniais dos países teria esse reconhecimento?

As discussões a este respeito não têm poupado esforços. No entanto, a falta de experiência com o "casamento" homossexual no Brasil até o momento não nos dá nenhuma resposta concreta. É por isso razoável levar em consideração a experiência canadense, já que o Canadá foi o primeiro país a reconhecer legalmente, há dez anos, o "casamento" entre pessoas do mesmo sexo. Existem, é claro, sensíveis diferenças culturais e institucionais entre os dois países e, como sucede em todo e qualquer assunto público, tudo depende das ações dos protagonistas políticos e culturais de cada lugar. Isso significa, em outras palavras, que não é cem por cento seguro presumir que a experiência canadense se repetirá no Brasil; ela deveria, em todo caso, ser levada em conta. De fato, o que se tem passado no Canadá constitui a melhor evidência que temos à disposição sobre os impactos a curto prazo do "casamento" homossexual em uma sociedade democrática.

Qualquer pessoa interessada em avaliar o impacto do "casamento" homossexual na vida pública deveria investigar-lhe os efeitos de três pontos de vista:

  1. em primeiro lugar, no âmbito dos direitos humanos (incluídos aí os impactos sobre os direitos à liberdade de expressão, os direitos dos pais na educação pública e a autonomia das instituições religiosas);
  2. em segundo, da perspectiva aberta pelo "casamento" homossexual à possibilidade de se reconhecerem como matrimônios outros tipos de relacionamento como, por exemplo, a poligamia;
  3. por fim, no âmbito da prática social do casamento.

Impacto sobre os direitos humanos

No Canadá, o resultado formal das decisões judiciais (e da legislação consequente) que institucionalizaram o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi o mero reconhecimento governamental do relacionamento de tais pessoas como um verdadeiro matrimônio; os seus efeitos culturais e legais, no entanto, foram muito mais amplos. O que ocorreu de fato foi a adoção de uma nova "ortodoxia": as relações homossexuais equivalem agora, sem restrições, ao casamento tradicional e devem, portanto, ser tratadas em pé de igualdade com ele perante a lei e a sociedade.

Como consequência disso, quem quer que rejeite essa nova "ortodoxia" é considerado um intolerante, animosamente contrário a gays e lésbicas; qualquer expressão de desacordo com a ideia de "casamento" homossexual é qualificada automaticamente de "ódio" contra uma minoria sexual; despreza-se sem piscar como mero "pretexto" qualquer oposição razoável como, por exemplo, as que embasaram argumentos jurídicos segundo os quais o "casamento" homossexual é incompatível com uma concepção de matrimônio — chamada às vezes "concepção conjugal" — que responda à necessidade que têm as crianças de crescer dentro de uma união estável, fiel e permanente.

Quando se passa a ver na oposição ao "casamento" homossexual manifestações de intolerância e ódio, então se torna bastante difícil suportar por muito tempo as divergências. Foi assim que no Canadá se modificaram à pressa os termos de participação na vida pública. Foram os oficiais responsáveis pela celebração de uniões civis os primeiros a sentir a dureza da nova "ortodoxia"; muitas províncias recusaram-lhes o direito de objeção de consciência a presidir celebrações de casamentos homossexuais e obrigaram-nos a desligar-se de suas funções. Ao mesmo tempo, entidades religiosas como os Cavaleiros de Colombo foram multadas por se recusarem a disponibilizar suas dependências para festas de casamento.

O direito à liberdade de expressão

Os efeitos da nova "ortodoxia", porém, não se limitam ao número, relativamente pequeno, de pessoas em risco de ser obrigadas a auxiliar ou presidir a celebração de um casamento homossexual; a mudança, pelo contrário, tem atingido muitas pessoas, inclusive clérigos, que desejam tornar público o que pensam acerca da sexualidade humana.

Muito do que se podia opinar antes sobre o "casamento" homossexual, agora é arriscado dizê-lo; muitos dos que persistiram abertamente em discordar tornaram-se objeto de investigação de comissões de direitos humanos e, em alguns casos, foram até mesmos processados e levados a tribunais de direitos humanos. As pessoas carentes sem boa formação e afiliação institucional têm sido, de modo particular, alvos fáceis, já que as leis antidiscriminação nem sempre são aplicadas de maneira igualitária; algumas delas foram obrigadas a pagar multas, desculpar-se e nunca mais tocar no assunto em público outra vez. Entre os alvos contam-se pessoas que apenas escreveram cartas aos editores de um jornal local, além de ministros de pequenas congregações cristãs. Um bispo católico foi denunciado duas vezes — ambas as denúncias foram revogadas — devido a comentários feitos por ele numa circular sobre matrimônio.

Muitas cortes de revisão começaram a tomar as rédeas nas comissões e tribunais (sobretudo depois de alguns processos mal instruídos contra o jornalista Mark Steyn e a revista Maclean's em 2009), e vêm defendendo uma compreensão mais abrangente do direito à liberdade de expressão. Em resposta aos protestos públicos que se seguiram ao caso de Steyn e Maclean's, o Parlamento do Canadá revogou recentemente uma disposição da Comissão Canadense de Direitos Humanos que previa instrumentos legais contra os "discursos de ódio".

Como quer que seja, o custo despendido na luta contra a maquinaria dos direitos humanos continua gigantesco: só a revista Maclean's gastou centenas de milhares de dólares com taxas judiciais, nenhuma das quais lhe será devolvida pelas comissões, tribunais e denunciantes a que foram entregues. E casos como este podem levar até dez anos para ser resolvidos. Um pessoa comum, com poucos recursos e que porventura tenha chamado a atenção de uma comissão de direitos humanos, não tem a quem recorrer, nem mesmo às cortes de apelação; a alguém nestas condições resta apenas aceitar as advertências da comissão, pagar uma (relativamente) pequena multa e obedecer à orientação de ficar em silêncio para sempre. Enquanto estes instrumentos estiverem à disposição das comissões, das quais a nova ortodoxia não permite discordar, discutir publicamente a respeito do "casamento" homossexual significa expor-se ao perigo de ser condenado judicialmente.

Uma pressão semelhante sobre quem discorda pode ser, e é efetivamente exercida, por profissionais à frente de organizações como associações de bares, corpos docentes etc., que têm o poder jurídico de punir seus membros por condutas incompatíveis com a profissão. Manifestações de discordância com a razoabilidade de tornar institucional o "casamento" entre pessoas do mesmo sexo são entendidas por esses organismos como atos de discriminação ilegal, o que abre a possibilidade de censura profissional.

Os professores constituem, em particular, um grupo de risco e muito suscetível a medidas disciplinares; com efeito, mesmo os que se manifestam contra o "casamento" homossexual apenas fora de sala de aula são acusados de criar um ambiente hostil a alunos gays. Por já terem assimilado a nova "ortodoxia", a cujos olhos discordar do "casamento" homossexual é uma injusta discriminação que jamais se pode tolerar, outros grupos profissionais e associações de voluntariado vêm adotando políticas parecidas.

Os direitos dos pais na educação pública

A institucionalização do "casamento" homossexual mudou rápida e drasticamente os direitos parentais na educação pública. O debate sobre como abordar em classe o tema do "casamento" gay é muito parecido com a discussão sobre o papel da educação sexual nas escolas e as pretensões do governo de exercer sobre as crianças uma autoridade primária. A educação sexual, entretanto, foi sempre um assunto discreto, no sentido de que, por sua própria natureza, ele é incapaz de permear todo o currículo escolar; o "casamento" homossexual, por outro lado, é algo totalmente distinto.

Dado que um dos princípios da nova "ortodoxia" é a necessidade de tratar o "casamento" homossexual com o mesmo respeito com que tratamos o matrimônio tradicional, os seus proponentes têm se saído muito bem na hora de exigir que o "casamento" gay seja retratado positivamente em sala de aula. As reformas curriculares levadas a cabo em jurisdições como, por exemplo, a Colúmbia Britânica agora impedem os pais de exercer o seu poder de veto em matérias referentes a práticas educacionais controversas.

Os novos currículos estão permeados de referências positivas ao "casamento" gay, não em uma ou outra disciplina, senão em todas. Diante dessa artimanha, a única defesa que sobra aos pais é retirar de uma vez por todas a criança do sistema público de ensino. As cortes têm se mostrado muito pouco favoráveis às reclamações dos pais: se estes se estão apegando a fanatismos fora de moda, então as crianças serão obrigadas a carregar o fardo de uma "dissonância cognitiva", pois têm de aprender coisas conflitantes em casa e na escola, enquanto esta tenta sair vencedora.

As reformas, é claro, não foram vendidas ao público como uma maneira de implementar e reforçar a nova "ortodoxia"; ao contrário, a razão apresentada foi a urgência de combater o bullying, quer dizer, de promover a aceitação de jovens gays, lésbicas e crianças vindas de lares homossexuais.

É louvável querer acolher toda e qualquer pessoa; mas, independentemente do que se tenha dito, os meios escolhidos para alcançar esse objetivo constituem um grave atentado contra a família. Trata-se nada menos do que a doutrinação premeditada das crianças, sem embargo da oposição paterna, conduzidas a aceitar uma concepção de casamento que é fundamentalmente hostil ao que seus pais crêem ser bom para elas. Tudo isso subtrai aos pais o poder de transmitir aos filhos uma compreensão do matrimônio que lhes permita amadurecer e tornar-se adultos; já desde pequenas as crianças são ensinadas a desprezar a lógica do casamento e a entendê-lo como um simples meio de satisfazer o desejo que têm os adultos de encontrar um "parceiro" ou uma "companhia".

O direito de autonomia das instituições religiosas

Num primeiro momento, os clérigos e os centros religiosos pareciam de todo imunes à obrigação de aceitar ou celebrar "casamentos" homossexuais. Com efeito, esta foi a grande promessa da legislação pró-"casamento" gay: os clérigos continuariam a ter o direito a não celebrar um casamento que lhes ferisse as convicções religiosas; as casas de culto, por sua vez, não poderiam ser contratadas sem o consentimento de suas respectivas autoridades.

Deveria ter ficado claro desde o começo o quão estreitas eram estas garantias. Elas apenas impediam que clérigos fossem obrigados a celebrar cerimônias matrimoniais; o que elas não protegiam da vigilância das comissões de direitos humanos, como vimos acima, eram os sermões e as circulares pastorais. As congregações tornaram-se, pois, vulneráveis a intervenções judiciais caso se recusem a ceder seus espaços a casais do mesmo sexo que ali queiram celebrar seu "casamento"; o mesmo vale para toda organização que não deseje disponibilizar suas dependências para promover uma visão da sexualidade diametralmente oposta à defendida por ela.

As referidas garantias tampouco impedem que os governos municipal e provincial privem entidades religiosas de seus lucros por causa do que ensinam sobre o matrimônio. A Bill 13, por exemplo, o mesmo estatuto de Ontário que obriga colégios católicos a permitirem a abertura e manutenção de clubes gays, também proíbe que escolas públicas aluguem suas instalações a quem não concorda com o "código de conduta" exigido pela nova "ortodoxia". Ora, dado que muitas congregações cristãs de pequena proporção alugam auditórios escolares para realizar seus ofícios e cultos, é bastante fácil dar-se conta de sua vulnerabilidade.

Mudanças na concepção pública de matrimônio

Tem-se argumentado que, se o "casamento" gay é institucionalizado, então se devem aceitar também novas "categorias maritais", como a poligamia. A partir do momento em que abandonamos uma concepção conjugal do matrimônio e a substituímos por uma visão centrada na figura do "parceiro" adulto, então já não há nada mais em que nos possamos basear para resistir à expansão do estatuto de "matrimônio" a uniões poligâmicas e poliamoristas, por exemplo.

Noutras palavras, se o casamento se resume à satisfação de um desejo por "companhia", qualquer que seja ela, e se o desejo de alguns se estende a novos tipos de configuração familiar, com que direito lhes podemos negar a satisfação desse desejo? Não é aqui minha intenção tomar partido a esse respeito; pretendo tão-somente descrever como esta situação se desenvolveu no Canadá.

Uma conhecida comunidade polígama na Colúmbia Britânica esteve fortemente envolvida na promoção do "casamento" homossexual, e saiu a público para defender que não havia razão alguma que fundamentasse a atual criminalização da poligamia no Canadá. Dentre todas as cortes do país, somente um tribunal de primeira instância na Colúmbia Britânica pôs em juízo se a proibição da poligamia tem base na constituição nacional, e endereçou ao governo da província uma opinião prévia sobre o assunto.

A criminalização da poligamia foi mantida, mas sobre uma frágil base que a define em termos de contração múltipla e simultânea de vários casamentos civis. A corte, em todo caso, não abordou o fenômeno da celebração de múltiplas uniões estáveis. Por isso, as formas preponderantes de poligamia e poliamor até o momento não foram admitidas pelo direito canadense, mas nem uma nem outra encontram impedimentos na prática.

O que fica de lição é o seguinte: uma sociedade que institucionaliza o "casamento homossexual" não institucionaliza, necessariamente, a poligamia. O exemplo da Colúmbia Britânica, ainda assim, sugere que de uma à outra coisa basta um passo. Os argumentos brandidos pelos defensores da poligamia não explicam de forma convincente por que é discriminação negar às uniões homossexuais e lésbicas o rótulo de "matrimônio", mas não o seria negá-lo aos polígamos e poliamoristas. De fato, o veredito parece indicar que o problema reside no "preconceito" contra a poligamia e o poliamor, que não são um instituto jurídico estável.

O impacto na prática matrimonial

No que diz respeito à prática matrimonial, é ainda muito cedo para tirar conclusões. As informações colhidas no censo de 2011 mostram, em primeiro lugar, que o matrimônio está em decadência no Canadá, assim como em todo o resto do Ocidente; em segundo, que o "casamento" gay é, do ponto de vista estatístico, um fenômeno raro; e, por fim, que há muito poucos casais homossexuais (estejam ou não casados) que tenham crianças em casa.

Dentre os 6,29 milhões de matrimônios existentes no Canadá, aproximadamente 21.000 são homossexuais. Os casais do mesmo sexo, casados legalmente ou não, constituem 0,8% de todos os casais no país; 9,4% dos 65.575 de casais homossexuais (incluídos os casados civilmente e as uniões estáveis) têm crianças em casa, e 80% deles são formados por lésbicas. O Canadá deixou de contabilizar os divórcios a partir de 2008, e desde então não tem disponibilizado nenhuma informação sobre a incidência de divórcios na comunidade homossexual.

O que podemos deduzir de tudo isso é que o "casamento" gay, ao contrário do que previam os argumentos a seu favor, não tem revitalizado a cultura matrimonial no Canadá; tampouco existe, de qualquer modo, um censo ou banco de dados que forneça argumentos empíricos que permitam vincular a institucionalização do "casamento" homossexual à estabilidade matrimonial.

À falta de dados concretos (indisponíveis no Canadá) acerca das taxas de divórcios, só nos restam argumentos conceituais, que têm de ser avaliados por sua coerência. Neste caso, a experiência canadense não nos é de muita ajuda. E aqui podemos fazer-nos a pergunta: a institucionalização do "casamento" entre pessoas do mesmo sexo baseia-se numa concepção de matrimônio que prioriza a estabilidade, como o faz a concepção conjugal? Se a resposta for negativa, então podemos crer com tranquilidade que o "casamento" gay irá acelerar a aprovação cultural de uma concepção de matrimônio — o modelo do "parceiro" adulto — que vem fazendo muito mal à sociedade ao longo das últimas cinco décadas.

Por Bradley Miller | Fonte: The Public Discourse | Tradução e adaptação: Equipe CNP

P. S.: Devido à sua extensão, quase todas as referências da matéria foram omitidas na versão aqui apresentada. Basta clicar aqui para acessá-las na íntegra.

| Categoria: Espiritualidade

A Lua é só mais um pedaço de terra

Apartado do Evangelho e da verdade, iludido pela secularização e pelo indiferentismo, o Ocidente cruzou a fronteira do espaço para conseguir apenas mais um pedaço de terra. O homem foi até a Lua, mas não conseguiu entrar em seu coração.

O Ofício das Leituras para a memória litúrgica de São Maximiliano Maria Kolbe — mártir religioso, vítima da perseguição nazista — propõe à meditação dos sacerdotes e fiéis que costumam rezá-lo uma importante reflexão. Nesse texto, São Maximiliano fala com tristeza da "doença quase epidêmica que se chama indiferentismo, que se propaga de várias formas", "não só entre os leigos mas também entre os religiosos" [1].

Para responder imediatamente ao problema observado, o santo pede aos católicos uma atenção especial à salvação das almas, a primeira e mais importante das missões da Igreja. "Como a glória de Deus resplandece principalmente na salvação das almas", explica São Maximiliano, "o desejo mais elevado da vida apostólica será procurar a salvação e santificação do maior número possível" [2].

De fato, o indiferentismo religioso, joio que tem minado a educação católica, está na raiz do processo de secularização pelo qual passa o Ocidente. No campo estritamente laical, tal fenômeno se percebe pela exclusão cada vez mais frequente da religião em questões como direitos humanos, por exemplo, sobre as quais a opinião do Magistério parece não valer nada. Também a moda e o estilo de vida denotam esse desprezo pelas virtudes cristãs. Mas é no campo religioso, o qual deveria oferecer uma resistência varonil a esse relativismo da fé, que o indiferentismo tem fincado raízes profundas, perturbando a identidade tanto dos sacerdotes quanto dos fiéis leigos ou religiosos.

Por conta de uma má teologia e compreensão do Concílio Vaticano II, muitas casas de formação sacerdotal e religiosa desenvolveram uma verdadeira "missão às avessas", cujo ideal primário não é a salvação das almas, mas assuntos de ordem temporal, como casa e moradia, saúde e emprego, educação e política — coisas importantes, é óbvio, mas que não constituem o cerne da tarefa da Igreja. Do Corpo de Cristo o povo espera uma libertação para além das questões salariais e empregatícias, para além das fronteiras da técnica. Isso se revela claramente no Brasil, onde muitas pessoas já saíram da linha da pobreza e, ainda assim, continuam a sofrer com a miséria do pecado.

Em uma importante conferência para membros do movimento Comunhão e Libertação, em 1990, o então Cardeal Ratzinger demonstrou, com certa dose de ironia, como a ênfase na realização dos desejos materiais ilude o homem e o afasta da sua verdadeira libertação pessoal:

O pensamento moderno nos fechou cada vez mais no cárcere do positivismo, condenando-nos ao pragmatismo. Este sabe alcançar muitas coisas, sabe viajar à Lua e mesmo mais longe, por espaços incomensuráveis. Não obstante, permanecemos sempre no mesmo lugar, porque não ultrapassamos a verdadeira fronteira do quantitativo e do factível. Alberto Camus descreve o absurdo desta forma de liberdade na figura do imperador Calígula. Este tinha tudo à disposição; entretanto, tudo, para ele, era pouco. Em seu louco desejo de ter sempre mais, e coisas cada vez maiores, ele grita: Quero a Lua; dai-me a Lua. Hoje podemos mais ou menos ter a Lua, mas se não se abrem as fronteiras entre terra e céu, entre Deus e o mundo, a Lua será apenas um pedaço a mais da Terra e o termos chegado lá não nos aproxima um passo sequer da liberdade e da plenitude tão almejadas. (grifos nossos) [3]

As palavras de Ratzinger escandalizam. E não é mesmo isso, uma escravização pelo fascínio da técnica, o que tem ocorrido em nossa sociedade? Apartado do Evangelho e da verdade, iludido pela secularização e pelo indiferentismo, o Ocidente cruzou a fronteira do espaço para conseguir apenas mais um pedaço de terra. Mas o homem continua angustiado por não saber o sentido de sua existência, por não saber de onde veio nem para onde vai, por não saber quem é e quem deve ser no seu breve tempo de existência. O homem foi até a Lua, mas não conseguiu entrar em seu coração.

A Igreja, com seus sacramentos, é o único "meio de transporte" que pode conduzir o ser humano até o seu coração, onde habita a Trindade Divina. Não há nada de errado em lutar por terra, casa e moradia. A Igreja só não pode esquecer, pondera Ratzinger, que a libertação fundamental "consiste em nos manter dentro do horizonte do eterno e em fazer-nos sair dos limites de nosso saber e de nosso poder" [4]. Se o homem precisa de fé para manter-se homem, "a própria fé, em toda a sua grandeza e amplitude, é sempre a reforma essencial de que precisamos" [5].

Peçamos, portanto, a São Maximiliano e à Virgem Santíssima, nossa Mãe e Auxiliadora, a graça de uma fé renovada contra o indiferentismo e o relativismo de nossos dias.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Das Cartas de São Maximiliano Maria Kolbe (O. Joachim Roman Bar, O.F.M. Conv., ed. Wybór Pism, Warszawa, 1973, 41-42; 226).
  2. Ibidem.
  3. Joseph Ratzinger, Compreender a Igreja hoje: vocação para a comunhão. 3.ª ed., Petrópolis: Editora Vozes, 2006, pp. 80-81.
  4. Ibidem.
  5. Ibidem.

| Categoria: Santos & Mártires

O milagre eucarístico de Santa Clara de Assis

Por que Santa Clara costuma ser retratada, nas obras de arte, com uma custódia ou um cibório em suas mãos?

Santa Clara de Assis (1193-1253) escutou a voz de Cristo durante um momento dramático e turbulento da história da Itália — no período em que o ambicioso imperador germânico, Frederico II, estava empenhado em conquistar a Sicília e a Itália, além de Roma e dos Estados Pontifícios. Seus esforços, somados à ação de seu exército, foram a causa de um antagonismo radical entre o seu império e o papado, gerando uma grande confusão na Igreja da Itália.

Durante o ano de 1244, a armada de Frederico assolou o vale do Spoleto, que era parte do patrimônio da Santa Sé. Seus soldados avançaram então em direção a Assis, mas eles se aproximaram primeiro do convento de São Damião, que ficava a meio caminho. Quando os soldados escalaram os muros e estavam prestes a invadir o claustro, as irmãs do convento acorreram apressadas para junto de sua já debilitada fundadora, Santa Clara, a qual lhes assegurou que Nosso Senhor as salvaria.

Ajudada pelas irmãs, Santa Clara dirigiu-se para a entrada do convento, levando consigo uma pequena caixa de marfim em que estava guardado o sacratíssimo Corpo de Cristo. Prostrando-se diante dele, a santa clamou em alta voz: " É do vosso agrado, meu Deus, entregar às mãos destas feras as filhas indefesas que eu nutri no vosso amor? Suplico-vos que protejais estas a quem eu já não sou mais capaz de proteger". Da hóstia ouviu-se sair a voz como de uma criança, dizendo: "Ter-vos-ei sempre sob meus cuidados".

Assim que os soldados viram o Santíssimo Sacramento, um pânico tomou-os de súbito e imediatamente os fez correr em retirada. É por causa deste episódio que Santa Clara costuma ser retratada com uma custódia ou um cibório em mãos. Clara mandou que, enquanto estivesse viva, as irmãs nunca mencionassem com ninguém esse fato.

O imperador Frederico II, causa de todos estes tumultos, aparentemente se reconciliou com a Igreja, já que sua tumba pode ser vista na catedral de Palermo. Manfredo, um dos filhos do imperador, escreveu a seu meio-irmão que, "transido de arrependimento em seu leito de morte, nosso pai submeteu-se como bom católico à sua Mãe, a Sacrossanta Igreja de Roma".

Como São Francisco de Assis, Santa Clara foi muito solícita em providenciar belos adornos para as igrejas. Uma de suas irmãs, Francesca, disse que Clara confeccionou quase uma centena de corporais do mais fino material para várias igrejas. Esta mesma irmã relata ainda ter visto certa vez uma linda criança na hóstia que Clara estava prestes a comungar; ela viu esta mesma criança em outra ocasião repousando no coração de Clara e cobrindo-a com asas luminosas.


Trecho adaptado da obra Eucharistic Miracles, de Joan Carroll Cruz,
Carolina do Norte: TAN Books, 2010, pp. 271-272.

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Santa Clara, a virgem esposa de Cristo

Como experimentou Santa Clara, a união com o Corpo de Jesus alcança plenamente o sentido tanto espiritual quanto existencial da pessoa humana.

Santa Clara é popularmente conhecida pela sua pobreza evangélica e fidelidade à Ordem fundada por seu amigo e pai espiritual, São Francisco de Assis. Também é costume invocá-la para trazer o Sol em dias muito chuvosos. Há um outro aspecto da religiosidade dessa santa, no entanto, que passa quase despercebido pelas pregações a seu respeito: o seu matrimônio espiritual com Cristo.

Clara tinha um jeito todo particular de se dirigir a Jesus. Em uma carta à sua amiga Santa Inês de Praga, por exemplo, pode-se notar com que amor e confiança a discípula de Francisco vivia sua vocação esponsal. " Amando-o, és casta, tocando-o, serás pura, deixando-te possuir por Ele, és virgem" [1]. São palavras mesmo espetaculares — possivelmente escandalosas para alguns —, que revelam, por um lado, a ternura própria das esposas a seus esposos e, por outro, o amor esponsal de Jesus, o noivo das almas, que, embora "possuindo" o corpo de sua amada, não o agride nem viola sua dignidade. Ao contrário, na união com o Corpo de Jesus alcança-se plenamente o sentido tanto espiritual quanto existencial da pessoa humana, como pôde experimentar Santa Clara e inúmeros outros santos.

É preciso distinguir, é claro, o matrimônio espiritual do matrimônio comum entre um homem e uma mulher. Este, apesar da sacramentalidade, envolve certamente a relação carnal e consiste em algo terreno, que não terá continuidade no Céu. Aquele, por sua vez, diz respeito a uma realidade da vida de oração, em cujo grau máximo de união com Deus ocorre uma espécie de "matrimônio" espiritual pela comunhão total da alma do orante com a Pessoa de Nosso Senhor. É desse último que Santa Clara fala em suas cartas e outros escritos místicos e ao qual foi totalmente fiel até o termo de sua vida neste mundo.

O Papa Bento XVI, em uma de suas catequeses, recorda que, assim "como Clara e as suas companheiras, inúmeras mulheres ao longo da história ficaram fascinadas pelo amor a Cristo que, na beleza da sua Pessoa divina, enche o seu coração". Elas se apaixonaram por um homem que, de maneira especial, olhou-as em sua profundidade, sabendo acolhê-las e protegê-las das ciladas do mundo. O amor esponsal de Jesus tem a virtude de revelar às almas o seu conteúdo mais sagrado. Foi esse amor, aliás, o que redimiu Santa Maria Madalena de suas impurezas para torná-la um vaso puro e cristalino, como insistem alguns autores espirituais. Dela, São Francisco de Sales testemunha: "Não lhe é dado o nome de virgem, mas a verdade é que o merece pela perfeita pureza em que viveu depois da conversão" [2].

Note-se, por isso, que Clara não estava exagerando nem sendo audaciosa ao apresentar a pureza do amor esponsal de Jesus. De fato, Ele não só não agride como também restaura o que foi agredido pela violência do pecado.

A cultura contemporânea, na contramão do que propõe a espiritualidade cristã, dissemina exatamente o oposto do amor restaurador. Trata-se, ao contrário, de impor uma lascividade agressiva tanto às mulheres quanto aos homens, que os reduz a animais dominados pelos instintos e pelas paixões. Isso gera a insegurança afetiva, os desarranjos familiares, a opressão de um sexo sobre o outro, as ideologias de gênero e por aí vai. Na verdade, tanto as mulheres vão perdendo a sua natural feminilidade, para se adaptarem aos estereótipos da moda, quanto os homens se tornam menos viris, desorientados pela propaganda gay e antimasculina. As famílias não têm mais pai nem mãe, e por isso delegam suas responsabilidades ao Estado usurpador e autoritário.

Como seria bom se homens e mulheres, de acordo com a vocação específica de cada um, se espelhassem no amor esponsal entre Jesus e suas almas esposas. Tal esforço tornaria os namoros mais castos e os casamentos menos conflituosos, pois nem esposa nem esposo procurariam apenas um corpo para ser usado e descartado, mas uma pessoa com quem pudessem compartilhar toda a existência sem correr o risco de uma separação. A alegria de um matrimônio depende da maneira e da ordem em que a família ama a Deus e a si mesma.

Peçamos a intercessão de Santa Clara de Assis neste dia para que ela, amparada em seu Amado Esposo, limpe o céu nublado que turva a visão das famílias e as impede de ver a luz restauradora do amor de Cristo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Santa Clara, Primeira Carta: FF, 2862.
  2. São Francisco de Sales, X, 86. Sermão no dia de Santa Maria Madalena.

| Categoria: Fé e Razão

Jesus não existiu, foi casado e teve filhos

Os “estudiosos” ainda não se decidiram se Jesus não existiu ou se foi casado e teve filhos. Para o efeito que eles pretendem alcançar, porém, nada disso realmente importa. Qualquer hipótese é aceitável, desde que diga o contrário do que está na Bíblia.

De tempos a tempos, depara-se-nos a notícia de que Jesus de Nazaré não existiu. A fonte da "boa-nova" é sempre algum estudo histórico seríssimo, que só a censura eclesiástica e os escrúpulos para com o sentimento religioso do povo puderam reprimir durante os últimos dois milénios. No entanto, já aprendi com a experiência destas coisas a suspender a minha opinião sobre estes estudos, pelo menos até que a maior parte dos que murmuram sobre eles, bem como a maior parte daqueles que os fazem, consiga decidir definitivamente se Jesus deveras não existiu ou se foi casado e teve filhos.

A impressão que fica é que qualquer hipótese é aceitável desde que diga o contrário do relato evangélico, ora afirmando que Jesus não existiu, ora atribuindo-lhe uma existência inusitada. Talvez um dia os cépticos venham a descobrir que estas teorias não passam pelo crivo do cepticismo e que a hipótese mais parcimoniosa é, afinal, a de que Jesus existiu, não casou, teve um ministério público nas cidades da Palestina, foi crucificado entre salteadores, morreu, e na manhã de Domingo o túmulo em que o haviam depositado estava vazio.

É claro que existem algumas boas razões para não acreditar nos estudos que concluem pela inexistência de Jesus e a maior razão entre elas é o facto de as testemunhas oculares estarem perfeitamente convencidas do contrário, o que é um aspecto que nenhum historiador digno do nome pode ignorar. Contudo, uma vez que os académicos que negam a existência do humilde carpinteiro de Nazaré parecem apostados em negligenciar essas testemunhas por terem acreditado no que viram, há que citar-lhes as palavras de outros que puderam informar-se razoavelmente sobre os acontecimentos, embora não fossem cristãos. A investigação dos relatos judaicos e pagãos da época, escritos por homens que não tinham o menor interesse em favorecer com as suas palavras a pregação cristã nascente, confirma notavelmente a narrativa ortodoxa da vida de Jesus de Nazaré.

A ajudar a nossa pesquisa, o historiador Lawrence Mykytiuk publicou recentemente um artigo em que sintetiza as informações sobre a vida de Jesus contidas nas principais fontes pagãs e judaicas. Mykytiuk nomeia vários autores antigos, mas é suficiente por agora concentrarmos a atenção em apenas três fontes — o pagão Tácito, o judeu Josefo e os escritos rabínicos dos primeiros séculos da era cristã.

Tácito é um formidável historiador da vida em Roma no primeiro século depois de Cristo. Era um homem de grande reputação entre os seus contemporâneos que foi procônsul na Turquia e senador em Roma. É no seu trabalho mais extenso, os Anais, posto por escrito no início do segundo século, no capítulo XV, 44, que Tácito fala de Cristo. As breves palavras que escreve sobre Jesus aparecem a propósito da perseguição que o imperador Nero moveu contra os cristãos. O parágrafo que redigiu, marcado por um laivo de desprezo pela «letal superstição» cristã, menciona Cristo - «Christus» - como fundador desse «mal». Esse homem, proveniente da Judeia, conta-nos Tácito, foi executado no tempo do imperador Tibério, às ordens do procurador Pôncio Pilatos. Este extraordinário pedaço de literatura antiga não apenas confirma a existência do fundador da nova religião, o Cristo, como confirma a narrativa da sua morte e o tempo em que ocorreram os eventos da vida de Jesus, algures entre os anos 26 e 36 da era cristã, o período em que Pôncio Pilatos foi procurador da Judeia enquanto Tibério era imperador.

O sacerdote hebraico, Flávio Josefo, que foi deportado para Roma por ocasião da revolta judaica contra Roma, iniciada em 66 d.C., é vulgarmente citado na presente questão por causa do que escreveu sobre Jesus no décimo oitavo livro das suas Antiguidades Judaicas, excerto que é conhecido pelos historiadores como Testimonium Flavianum. Outra referência que fez a Jesus, no vigésimo livro daquela obra, mais discreta e muito menos conteste, costuma passar despercebida. Esta menção está inserida na narrativa da sentença de morte de Tiago, proferida pelo sumo sacerdote Ananias. Tiago era um nome muito comum na época e Josefo precisou de distinguir claramente a pessoa de quem estava a falar naquele trecho. Então, associou o nome de Tiago a outro nome, que, aparentemente, o tornaria claramente reconhecível, o nome do seu primo Jesus.

Porém, como o nome Jesus era também de uso frequente naquela época, Josefo diferenciou a pessoa a que se referia escrevendo que era aquele a quem chamavam o Messias, ou, em latim, «Christus». A menção incidental de Jesus, servindo apenas a função de identificar Tiago, só faz sentido se tratar de alguém que realmente existiu e que poderia ser um ponto de referência para os leitores da época. Josefo parece considerar que a mera indicação do parentesco com Jesus para distinguir Tiago é bastante, o que sugere, como hipótese mais provável, que Jesus já deveria ser conhecido do leitor por alguma menção feita anteriormente na obra — ao que tudo indica, o célebre passo do décimo oitavo livro. Este excerto, que confirma, entre outros aspectos, a história do julgamento e crucificação de Jesus, merece considerações mais demoradas, para as quais devolvo o leitor ao artigo de Mykytiuk.

O testemunho que mais me impressiona sobre Jesus é aquele que é dado pelos seus inimigos. Aqueles contemporâneos do primeiro século a quem Jesus foi mais incómodo seriam aqueles que teriam todo o interesse em contar a verdade sobre o mito de Jesus, mito que seria singularmente frágil, uma vez que os cristãos pregavam que o seu mestre havia tido um ministério público nas cidades da Galileia. No entanto, não o fizeram. As autoridades judaicas da época e as tradições rabínicas falavam de Jesus como se ele tivesse realmente existido e chegaram mesmo a voltar contra o Nazareno os estranhos acontecimentos da sua vida, tal como já o haviam feito antes, quando disseram que era pelo poder do príncipe dos demónios que Ele expulsava os demónios. Pergunto-me se não seria poupar dores de cabeça e arrelias ter logo dito que ele não existira — a não ser que dizê-lo fosse um perfeito disparate; a não ser que Ele tivesse mesmo existido.

Como nota Mykytiuk, a esmagadora maioria dos historiadores não questiona a existência de Jesus — as vozes que bradam no deserto para a negar, quaisquer que sejam os motivos pelos quais o fazem, não o fazem, certamente, por motivos científicos.

É óbvio que estas fontes vêm trazer um grande reforço à tese de que Jesus foi casado e teve filhos, uma vez que existiu para o efeito. Talvez seja de esperar, portanto, um consenso entre os autores de estudos sobre de que maneira é que a Bíblia há-de estar errada.

Por Hugo Monteiro Dantas | Fonte: Senza Pagare | Destaques por Equipe CNP

| Categoria: Espiritualidade

Três meios para chegar à verdadeira humildade

A humildade é como o cimento que sustenta a base de um edifício; sem ela, é impossível manter-se de pé na vida espiritual.

Um dos obstáculos mais graves à vida de oração é a soberba. Esse vício, definido pelos manuais de ascética como um apetite desordenado pela própria excelência, costuma aparecer muito entre os principiantes na intimidade com Deus. O demônio os incita a um falso fervor tão grande a ponto de eles se acharem melhores e superiores aos outros. E, quando veem essa suposta superioridade ameaçada pela virtude de um amigo ou pessoa qualquer, não perdem a oportunidade para murmurar contra seus êxitos e obras.

A Igreja recomenda vivamente às vítimas desse mal o remédio da humildade. Em seus manuais, o Padre Antonio Royo Marín trata-a como "uma virtude derivada da temperança, que nos inclina a coibir ou moderar o desordenado apetite da própria excelência, dando-nos o justo conhecimento de nossa pequenez e miséria principalmente com relação a Deus" [1]. Embora não seja a maior de todas as virtudes, ela é fundamental para o progresso na santidade, pois coloca o sujeito no caminho da verdade e da justiça.

É humilde, portanto, aquele que tem conhecimento pleno de si mesmo e sabe perfeitamente que dele não pode sair nada de bom, a não ser que Deus o permita. "A verdade nos autoriza ver e admirar os bens naturais e sobrenaturais que Deus quis depositar em nós; mas a justiça nos obriga a glorificar não a beleza de uma paisagem contemplada em uma pintura, e sim o artista que a pintou", exemplifica o Padre Royo Marín [2]. Pode-se pensar também no testemunho do então Cardeal Joseph Ratzinger, ao apresentar-se pela primeira vez como Papa na sacada da Basílica de São Pedro: um "pobre e humilde servo da vinha do Senhor", que se sentia consolado por considerar que "Deus sabe trabalhar com instrumentos insuficientes".

A humildade é necessária sobretudo para remover os obstáculos naturais à graça: " Deus resiste aos soberbos, mas concede a graça aos humildes" (Tg 4, 6). De fato, Santa Teresa tem razão quando compara essa virtude ao cimento que sustenta todo o edifício espiritual. Por isso, sem desconsiderar o seu grau de dificuldade, os aspirantes à santidade devem se esforçar por serem humildes, andando sempre pelas vias da verdade e da justiça.

O Padre Royo Marín indica três principais "meios para se chegar à verdadeira humildade". Ei-los abaixo.

1. Pedir incessantemente a Deus

Como todo dom de Deus, a humildade também é uma graça que somente Ele pode conceder aos que a desejam e lha suplicam. Há uma ladainha escrita pelo Cardeal Merry del Val, Secretário de Estado de São Pio X, que pode ser recitada todos os dias nesta intenção:

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-me.
Do desejo de ser estimado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser amado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser conhecido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser honrado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser louvado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser preferido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser consultado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser humilhado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser desprezado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de sofrer repulsas, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser caluniado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser esquecido, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser ridicularizado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser infamado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser objeto de suspeita, livrai-me, ó Jesus.

Que os outros sejam amados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros sejam estimados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam elevar-se na opinião do mundo, e que eu possa ser diminuído, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser escolhidos e eu posto de lado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser louvados e eu desprezado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser preferidos a mim em todas as coisas, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser mais santos do que eu, embora me torne o mais santo quanto me for possível, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

2. Pôr os olhos em Jesus Cristo, modelo incomparável de humildade

O Padre Royo Marín recorda que foi o próprio Cristo quem "nos convidou a pôr os olhos n'Ele, quando nos disse com tanta suavidade e doçura: 'sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração' ( Mt 11, 29)" [3]. Desse modo, o grande teólogo da vida interior indica quatro pontos sobre Cristo como temas para nossa meditação:

  1. a vida oculta, quando Ele se humilhou no seio da Virgem Maria e se fez Filho de um simples carpinteiro;
  2. a vida pública, com sua dedicação aos pobres e serviço aos mais simples;
  3. a paixão, ocasião em que lavou os pés dos discípulos e deixou-se ser humilhado e açoitado pela nossa salvação; e
  4. a Eucaristia, ápice de sua entrega com o ocultamento também da natureza humana, e por todas as descortesias e ofensas que aceita no Sacrário.

3. Esforçar-se por imitar Maria, Rainha dos humildes

Finalmente, o Padre Royo Marín recorda o modelo daquela que sempre se considerou a pobre e humilde escrava do Senhor. "Apenas fala, não chama a atenção em nada, se dedica às tarefas mais próprias de uma mulher no pobre casebre de Nazaré, aparece no calvário como mãe do grande fracassado…" Estas são apenas algumas das características lembradas pelo padre para apresentar a humildade de Nossa Senhora. Assim, afirma que "sob seu olhar maternal a alma há de praticar a humildade de coração para com Deus, para com o próximo e para consigo mesma" [4].

Essas são dicas valiosas do Padre Royo Marín que devem urgentemente ser colocadas em prática por todo fiel cristão. O orgulho, mais do que os pecados contra a castidade, ofendem diretamente o Coração de Jesus, pois demonstram uma atitude de altivez em relação à Providência divina. Lembrem-se que o demônio não pecou contra o sexto mandamento, mas contra o primeiro. De nada adianta ser puro como um anjo, mas soberbo como um diabo [5].

Busquemos, portanto, a humildade para que todas as nossas outras virtudes brilhem ainda mais pela graça de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e Referências

  1. A. Royo Marín, Ser ou Não Ser Santo: Eis a Questão. Trad. port. de Ricardo Harada. Campinas: Ecclesiae, 2016, p. 274.
  2. Id., p. 277.
  3. Id., 280.
  4. Id., 283.
  5. Vale a pena destacar que, embora a Virgem de Fátima tenha alertado com especial atenção contra os "pecados da carne" — e o próprio Santo Tomás reconheça "que o diabo alegra-se muito com a luxúria porque este pecado é de adesão extrema", sendo "difícil ao homem livrar-se dele" (S. Th. I-II, q. 73, a. 5, ad 2) — é a soberba, e não a impureza sexual, o mais grave de todos os pecados (cf. S. Th., II-II, q. 162, a. 5).

| Categoria: Doutrina

O que diz a Igreja sobre a comunicação com os mortos?

Nós, cristãos católicos, acreditamos na imortalidade da alma e professamos nossa fé “na comunhão dos santos”. Não seria possível, então, que os falecidos se comunicassem conosco?

Por Dom Frei Boaventura Kloppenburg — Nós cristãos católicos admitimos e proclamamos a imortalidade da alma. Cremos na sua sobrevivência consciente logo depois da separação do corpo pela morte. Acreditamos que as almas dos falecidos continuam solidárias com os que ainda vivemos nesta peregrinação terrestre. Professamos nossa fé na comunhão dos santos. Podemos comunicar-nos com os falecidos mediante a oração invocativa.

Não seria possível, então, que os falecidos também se comunicassem conosco?

A doutrina cristã sobre a comunhão dos santos se refere à comunicação mútua de bens espirituais, no plano inteiramente imperceptível da fé. É certo que a Bíblia menciona várias vezes aparições perceptíveis de espíritos do além. Assim o evangelista Lucas nos relata que "o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. Entrando na casa onde ela estava, disse-lhe: Alegra-te, cheia de graça, o Senhor é contigo" (Lc 1, 26-28). Jesus ressuscitado apareceu a Saulo a caminho de Damasco e falou com ele (cf. At 9). A Igreja aprovou aparições de Nossa Senhora em Lourdes e em Fátima.

Trata-se, nestes casos, evidentemente, de comunicações perceptíveis vindas do além. A fé cristã, por conseguinte, admite não somente a mera possibilidade de comunicações sensíveis, mas afirma fatos reais deste tipo de trato entre o além e o aquém.

Não devemos, porém, esquecer que Lucas nos informa que o Anjo "foi enviado por Deus". Quem negará a Deus todo-poderoso a capacidade de enviar-nos seus mensageiros?

Quando Deus manda, a iniciativa é sua; e a conseqüente manifestação do além toma para nós um caráter espontâneo.

Bem outra é a situação quando a iniciativa é nossa, querendo nós provocar alguma conversação com entidade do além. Quem pretende provocar a manifestação de algum falecido para dele receber mensagem ou notícia pratica um ato chamado pelos antigos de necromancia, expressão que vem do grego nekrós = falecido e mantéia = adivinhação. E quem intenta comunicar-se com o além com o fim de colocá-lo a serviço do homem realiza um ato já conhecido pelos antigos como magia. Quando a esperada ação da evocada entidade do além é a favor do homem ou para o bem, chama-se magia branca, mas será sempre "magia". E se for para o mal, será magia negra ou malefício, feitiçaria, bruxaria.

Tais comunicações provocadas do além, seja na forma de necromancia, seja na de magia (branca ou negra, pouco importa), são conhecidas também como evocação. Há diferença fundamental entre invocação e evocação: esta sempre pretende uma comunicação perceptível provocada por iniciativa do homem; aquela é apenas uma forma de prece ou súplica.

É evidente que a invocação é um ato bom e cristão, expressão da comunhão dos santos.

Mas que dizer da evocação?

Para esta pergunta recebemos da revelação divina resposta clara e insistente:

  • Êxodo 22, 17: "Não deixarás viver os feiticeiros". Aqui, a palavra "feiticeiros" engloba todos aqueles que praticam qualquer tipo de evocação: necromantes e magos, sem excluir os que se entregam à magia branca. Deviam ser condenados à morte.
  • Levítico 19, 31: "Não vos voltareis para os necromantes nem consultareis os adivinhos, pois eles vos contaminariam. Eu sou Iahweh, vosso Deus".
  • Levítico 20, 6: "Aquele que recorrer aos necromantes e aos adivinhos para ter comunicação com eles, voltar-me-ei contra esse homem e o exterminarei do meio de seu povo". Portanto são condenados também aqueles que simplesmente consultam os necromantes.
  • Levítico 20, 27: "O homem ou a mulher que entre vós forem necromantes ou adivinhos serão mortos; serão apedrejados, e o seu sangue cairá sobre eles".
  • Deuteronômio 18, 10-14: "Que em teu meio não se encontre alguém que faça presságio, oráculos, adivinhação ou magia, ou que pratique encantamentos, que interrogue espíritos ou adivinhos, ou evoque os mortos, pois quem pratica essas coisas é abominável a Iahweh, e é por causa dessas abominações que Iahweh teu Deus os desalojará em teu favor. Tu serás íntegro para com Iahweh teu Deus. Eis que as nações que vais conquistar ouvem oráculos e adivinhos. Quanto a ti, isso não te é permitido por Iahweh teu Deus".
  • 2 Reis 17, 17, enumerando as infidelidades de Israel, pelos quais foi castigado: "... Praticaram a adivinhação e a feitiçaria e venderam-se para fazer o mal na presença de Iahweh, provocando sua ira. Então Iahweh irritou-se sobremaneira contra Israel e arrojou-o para longe de sua face…"
  • 2 Reis 21, 6: descrição dos crimes do rei Manassés: "Praticou encantamentos e a adivinhação, estabeleceu necromantes e adivinhos e multiplicou as ações que Iahweh considera más, provocando assim a sua ira".
  • Isaías 8, 19-20: o profeta se levanta contra aqueles que dizem: "Consultai os necromantes e os adivinhos que sussurram e murmuram".
  • Destaque especial merece a consulta do rei Saul à necromante de Endor, narrada em 1 Samuel 28, 3-25. Estando em dificuldades na guerra contra os filisteus, e sem saber o que fazer, o rei Saul disse aos seus servos: "Buscai-me uma necromante para que eu lhe fale e a consulte". Informaram-lhe os servos que havia uma na localidade de Endor, ao sul do monte Tabor. Saul então disfarçou-se e, de noite, acompanhado de dois homens, foi à casa da necromante (os espíritas diriam "médium") e lhe pediu para evocar o falecido Samuel. Segundo o texto, Samuel de fato compareceu e disse a Saul: "Por que perturbas o meu repouso, evocando-me?" Saul respondeu: "É que estou em grandes angústias. Os filisteus guerreiam contra mim, Deus se afastou de mim, não me responde mais. Então vim te chamar para que me digas o que tenho que fazer". Respondeu Samuel: "Por que me consultas, se Iahweh se afastou de ti e se tomou teu adversário?" E lhe anunciou os castigos de Deus.
  • Em Eclesiástico 46, 20 lemos a respeito deste caso de evocação: "Mesmo depois de morrer, (Samuel) profetizou, anunciou ao rei (Saul) seu fim, do seio da terra elevou sua voz para profetizar, para apagar a iniqüidade do povo". Segundo os textos citados, parece que se deve admitir que o falecido Samuel, evocado pela necromante de Endor, realmente compareceu. Todo o contexto, todavia, deixa evidente que se trata de caso excepcional, sendo a evocação não a causa, mas a ocasião aproveitada por Deus para autorizar o comparecimento do falecido profeta e anunciar os castigos ao rei desobediente e infiel. Deste episódio singular não se pode inferir que nos outros casos os necromantes e magos conseguissem de fato fazer comparecer os falecidos evocados.
  • Aliás, em 1 Crônicas 10, 13-14, somos assim informados acerca do fim do rei: "Saul pereceu por se ter mostrado infiel para com Iahweh, não seguira a palavra de Iahweh e, além disso, interrogara e consultara uma necromante. Não consultou a Iahweh, que o fez perecer e transferiu a realeza a Davi, filho de Jessé".

Clara, repetida, enérgica e severíssima é, pois, a proibição divina de evocar os falecidos. E este mandamento divino não foi revogado na Nova Aliança. Eis alguns exemplos:

  • Em Atos 13, 6-12, Paulo e Barnabé encontram em Patos um judeu "mago e falso profeta", que se opunha à missão apostólica dos dois. Paulo, repleto do Espírito Santo, lhe disse: "Filho do diabo, cheio de toda a falsidade e malícia, inimigo de toda justiça, não cessas de perverter os retos caminhos do Senhor? Eis que agora o Senhor faz pesar sobre ti a sua mão".
  • Em Atos 16, 16-18, Paulo, estando em Filipos, dá com uma jovem escrava "que tinha um espírito de adivinhação e obtinha para seus amos muito lucro, por meio de oráculos". Paulo disse ao espírito que estava na jovem: "Eu te ordeno em nome de Jesus Cristo: sai desta mulher!" E o espírito saiu no mesmo instante.
  • Em Atos 19, 11-20 descreve-se a atividade e a pregação de Paulo em Éfeso, com este resultado: "Muitos daqueles que haviam crido vinham-se confessar e revelar suas práticas. Grande número dos que se haviam dado à magia amontoavam os seus livros e os queimavam em presença de todos. E estimaram o valor deles em cinqüenta mil peças de prata". Deviam ser muitos os livros de magia! O fato de eles queimarem estes livros só se explica se admitirmos que o Apóstolo falou fortemente contra as práticas da magia.
  • Na carta aos Gálatas (5, 20-21) declara o mesmo Apóstolo que os que praticam a magia "não herdarão o Reino de Deus".
  • E São João, no Apocalipse, revela que a porção dos magos se encontra no lago ardente de fogo e enxofre (21, 8); e que, na hora do julgamento, os magos ficarão de fora da Cidade Eterna (22, 15).

Posteriormente, a Igreja sempre se manteve fiel a esta rigorosa interdição divina de evocar os falecidos. No último Concílio, o Vaticano II, em 1964, a Constituição Lumen Gentium, temendo que a doutrina sobre nossa comunicação espiritual com os falecidos pudesse dar azo a interpretações do tipo espiritista, acrescentou ao texto do n. 49 a nota n. 2 (no site do Vaticano, n. 147), "contra qualquer forma de evocação dos espíritos", coisa que, esclareceu a comissão teológica responsável pela redação do texto, nada tem a ver com a "sobrenatural comunhão dos santos". A comissão definiu então mais claramente o que se proibia: "A evocação pela qual se pretende provocar, por meios humanos, uma comunicação perceptível com os espíritos ou as almas separadas, com o fim de obter mensagens ou outros tipos de auxílio".

O Concílio Vaticano II nos remete então a vários documentos anteriores da Santa Sé (já no dia 27 de setembro de 1258 o papa Alexandre IV falara disso), principalmente à declaração de 4 de agosto de 1856 (cf. Denz. 2823-2825) e à resposta de 24 de abril de 1917 (cf. Denz. 3642). Na declaração de 4 de agosto de 1856, precisamente quando Allan Kardec se iniciava no espiritismo, era repetida a proibição de "evocar as almas dos mortos e pretender receber suas respostas". No documento de 24 de abril de 1917 se declarava ilícito "assistir a sessões ou manifestações espiritistas, sejam elas realizadas ou não com o auxílio de um médium, com ou sem hipnotismo, sejam quais forem estas sessões ou manifestações, mesmo que aparentemente simulem honestidade ou piedade; quer interrogando almas ou espíritos, ou ouvindo-lhes as respostas, quer assistindo a elas com o pretexto tácito ou expresso de não querer ter qualquer relação com espíritos malignos".

No dia 31 de março de 1892 a Santa Sé publicou sua resposta oficial a um caso imaginado de evocação no qual as circunstâncias descritas eram as mais favoráveis. Eis a exposição do caso, a pergunta e a resposta:

"Tito, depois de excluir qualquer comunicação com o mau espírito, tem o costume de evocar as almas dos defuntos. Costuma proceder da seguinte maneira: Quando está só, sem outra preparação, dirige uma prece ao príncipe da milícia celeste a fim de obter dele o poder de comunicar-se com o espírito de determinada pessoa. Espera algum tempo; depois, enquanto conserva a mão pronta para escrever, sente um impulso que lhe dá a certeza da presença do espírito. Expõe então as coisas que deseja saber e sua mão escreve as respostas a estas questões. Tais respostas concordam inteiramente com a fé católica e a doutrina da Igreja acerca da vida futura. Geralmente elas falam sobre o estado em que se encontra a alma do tal falecido, pedem sufrágios etc. É lícito proceder desta maneira?" — A resposta oficial, aprovada pelo papa Leão XIII, foi categórica: " O que foi exposto não é permitido".


Transcrito e levemente adaptado do livro " Espiritismo, orientação para católicos",
de Dom Frei Boaventura Kloppenburg (Loyola), pp. 26-27.