| Categoria: Virgem Maria

Coração Doloroso e Imaculado de Maria, rogai por nós!

“Cheia de graça” que era e com um coração ardente de amor, a Santa Virgem era capaz de ver o pecado nas almas culpadas assim como nós vemos as feridas purulentas em um corpo doente.

Por Reginald Garrigou-Lagrange — Diz-se que, quando pessoas consagradas a Deus, mas em estado de pecado mortal, aproximavam-se de Santa Catarina de Sena, ela via seus pecados e sentia uma tal náusea, que era obrigada a virar o rosto.

Por mais forte razão, a Santa Virgem via o pecado nas almas culpadas como nós vemos, nós, as feridas purulentas em um corpo doente. Ora, a plenitude de graça e de caridade, que não cessou de crescer nela desde sua imaculada conceição, aumentava proporcionalmente em seu coração a capacidade de sofrer do maior dos males. De fato, disto sofre-se tanto mais quanto mais se ama a Deus, Bem soberano, a quem ofende o pecado; e as almas, que o pecado mortal desvia de seu fim último e as torna dignas da morte eterna.

Maria, sobretudo, vê, sem ilusão possível, preparar-se e consumar-se o maior dos crimes: o deicídio; ela vê o paroxismo do ódio contra aquele que é a Luz, a mesma Bondade e Autor da salvação.

Para entrever o que foi o sofrimento de Maria, é preciso pensar em seu amor natural e sobrenatural, em seu amor teologal, por seu Filho único, não apenas amado, mas legitimamente adorado, a quem amava muito mais que a sua própria vida, posto que era seu Deus. Ela o concebera miraculosamente, o amava com um coração de Virgem, o mais puro, o mais tenro, o mais rico de caridade que jamais existiu, excetuado o coração do Salvador.

Ela sabia incomparavelmente melhor que nós a razão superior da crucifixão: a redenção das almas pecadoras; e, no mesmo instante, tornava-se, de modo mais profundo que nunca, a mãe espiritual destas almas por salvar.

Se Abraão sofreu de modo heróico ao preparar-se para imolar seu filho, não sofreu senão por algumas horas, e um anjo desceu do céu para impedir a imolação de Isaac. Ao contrário, desde as palavras do velho Simeão, Maria não cessará de oferecer aquele que devia ser Sacerdote e vítima e se oferecer com ele. Esta dolorosa oblação durará por anos e, se um anjo desceu do céu para parar a imolação de Isaac, nenhum desceu para impedir a de Jesus.

Donde a invocação "Coração doloroso e imaculado de Maria, rogai por nós". Nesta invocação, a palavra "imaculado" lembra o que Maria recebeu de Deus e "doloroso", tudo o que fez e tudo que sofreu com seu Filho, por Ele e n'Ele, para nossa salvação. Com Ele, mereceu, de um mérito de conveniência, não apenas a aplicação dos méritos do Salvador a tal ou tal alma, como Santa Mônica por Santo Agostinho, mas mereceu com o Redentor "a liberação do gênero humano" ou a redenção objetiva, donde o título de Corredentora, que lhe é mais e mais reconhecido pela Igreja.

Verdadeiramente, a plenitude de graça e de caridade aumenta consideravelmente nela a capacidade de sofrer do maior dos males. Ela, que deu à luz a seu Filho sem dor, dá à luz aos cristãos em meio aos maiores sofrimentos. Que preço pagou por nós? "Nós lhe custamos seu Filho único", diz Bossuet. "Era a vontade do Pai eterno fazer nascer filhos adotivos pela morte do Filho verdadeiro".


Extraído de "La Capacité de souffir du péché en Marie Immaculée",
in: Angelicum, vol. 31 (1954), fasc. 4, pp. 352-357.
Tradução para o português do site Permanência.

| Categoria: Espiritualidade

As lágrimas da Corredentora

Neste dia em que lembramos as aparições de Nossa Senhora em La Salette, recordemos também as lágrimas que derramou a Virgem das Dores enquanto pendia na Cruz o seu Filho muito amado.

Neste dia em que lembramos as aparições de Nossa Senhora em La Salette, recordemos também as lágrimas que derramou a Virgem das Dores " dum pendebat Filius", enquanto pendia na Cruz o seu Filho muito amado.

Ali, no madeiro bendito de que nos veio a salvação, duas almas santas se uniam em sacrifício: enquanto a carne de Cristo sofria a paixão, sua mãe padecia de compaixão; enquanto Jesus derramava propiciamente o seu sangue, Maria Santíssima deitava as suas lágrimas, chorando tudo o que nossa indiferença e dureza de coração nos tornam incapazes de chorar.

Ouçamos com atenção esta homilia do Padre Paulo Ricardo, proferida no último dia 15 de setembro, na Paróquia Cristo Rei, em Várzea Grande (MT), e aprendamos com a santíssima Mãe das Dores a chorar os nossos crimes, que tanto têm ofendido o coração de seu divino Filho.

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| Categoria: Como Ser Família

E quando os pais têm de enterrar seus filhos?

Os pais de Santa Teresinha perderam quatro filhos ao longo da vida. Com seu exemplo eles deixaram, a todos os que sofrem com a morte de seus entes queridos, uma bela lição de como enfrentar o luto e suportar a ausência dos que amamos.

Há um ditado comum, repetido especialmente em momentos de luto, de que "os pais não deveriam enterrar seus filhos". Contrária à lógica da idade, a verdade é que, dado ninguém saber a hora de sua morte, não existe uma ordem convencional para que as coisas aconteçam. Filhos costumam enterrar os pais, é verdade, mas o contrário também procede, e as numerosas famílias de alguns anos atrás conheciam bem esses casos fortuitos. Em meio aos muitos filhos que tinham, era bastante recorrente que um ou dois viessem a falecer no meio do caminho, às vezes por alguma doença precoce, outras vezes por alguma fatalidade, dessas inerentes à condição humana.

O fato é que os filhos também morrem e, quando eles se vão, o que resta são a dor e o sofrimento aos pais, desolados por terem de sepultar aqueles que viram nascer e entrar no mundo.

Para você que lê este texto, esse fato talvez seja ou uma experiência de vida ou um medo presente, talvez seja o luto de algum amigo ou familiar, ou apenas a cena triste de algum filme ou tragédia da televisão. Independentemente do que seja, é importante que aprendamos a viver esses momentos com coragem — e é o que nos ensinam os santos e santas de Deus, quando também eles perdem os seus entes queridos.

O exemplo que trazemos neste texto é, novamente, o do casal São Luís e Santa Zélia Martin, que, antes de dar ao mundo Santa Teresinha do Menino Jesus, perderam não um nem dois, mas quatro filhos.

Quando o primeiro menino do casal nasceu, em 20 de setembro de 1866, Luís e Zélia já tinham quatro filhas: Maria, Paulina, Leônia e Helena. "Todas as noites", a pedido da mãe, "as mãos das pequenitas juntavam-se para pedir a São José um irmãozinho que oferecesse a Hóstia Santa e fosse para terras distantes evangelizar os pagãos" [1].

Pedido aceito e concedido, o menino ganhou o nome do pai de Jesus e foi chamado de José Maria Luís. Cerca de um mês depois, a mãe escrevia a seu irmão Isidoro, não cabendo em si de felicidade: "Nunca nenhum dos meus filhos, a não ser a Maria, nasceu tão bem. Se soubesses como gosto do meu Josezinho! Saiu-me a sorte grande, segundo creio!" [2]

Ao marido, ela revelava, com vaidade maternal: "Olha que mãozinhas tão bem feitas! Como há-de ser lindo quando subir ao altar ou ao púlpito!" [3]

A alegria da família, no entanto, não duraria muito tempo. Em 14 de fevereiro de 1867, com pouco menos de 6 meses e "em circunstâncias que ficaram ocultas", José seria o primeiro membro daquela virtuosa família no Céu. Para consolar a mãe, sua irmã visitandina enviava-lhe uma carta em que parafraseava o sofrimento do justo Jó:

"Como hei-de eu consolar-te, minha querida irmãzinha? Eu também tenho necessidade de consolação; toda eu tremo, e contudo sinto-me resignada com a vontade de Deus. Ele no-lo deu. Ele no-lo tirou; bendito seja o Seu santo nome! Esta manhã, na Sagrada Comunhão, pedi tanto a Nosso Senhor que não nos levasse aquele menino a quem, aliás, só queríamos criar para a Sua glória e para a conquista das almas! E pareceu-me ouvir interiormente esta resposta: que queria as primícias e que te daria mais tarde outro filho que havia de ser como nós desejamos." [4]

A "profecia" daquela religiosa, que sofria junto com a família, não tardaria a cumprir-se e, em 19 de dezembro do mesmo ano, nove meses depois de fazerem mais uma novena em honra a São José, nascia José Maria João Batista, vindo de um parto doloroso. "É muito forte e muito vivo", descrevia a mãe, "mas passei um mau bocado e a criança correu os maiores riscos. Sofri durante quatro horas dores tão violentas como nunca sentira. O pobrezinho estava quase asfixiado e o médico batizou-o antes de nascer" [5].

Só por esse relato já se percebe a principal preocupação que tinham São Luís e Santa Zélia Martin com os seus filhos. A morte natural precoce de alguns era para eles muito dolorosa, sem dúvida, mas assegurar o Céu era a prioridade absoluta daquele casal de profunda fé católica.

A triste sina do segundo José também não demoraria a manifestar-se, e a mãe bem o pressentia. Três meses de bronquite agravados por uma crise intestinal fariam aquela santa mulher suplicar para que o calvário do filho cessasse logo. Seu pedido foi atendido, como consta nesse bilhete, escrito por ela a 24 de agosto de 1868: "O meu querido Josezinho morreu-me nos braços esta manhã às sete horas; estava eu só com ele. Passou uma noite de cruel sofrimento e eu pedia, com lágrimas, que Nosso Senhor o levasse. Foi um alívio quando o vi dar o último suspiro."

Coroado com rosas brancas, deitado num caixãozinho, a mãe às vezes soluçava ao vê-lo: "Meu Deus! então há-de ir para debaixo da terra?! Mas, visto que assim o quereis, faça-se a Vossa vontade!"

Do mosteiro da Visitação vinham mais palavras de alento: "A medida das tuas alegrias há-de ser a que serviu para te medir as aflições. Acredita nisto sem a mais ligeira dúvida: agora semeias nas lágrimas, mas hás-de recolher na abundância da alegria do Senhor!" [6]

*

O golpe mais duro ainda estava por vir, no entanto. Luís e Zélia teriam de dar adeus a Heleninha, "a preferida de todas", que contava com apenas 5 anos de idade. A pequena faleceu de repente, a 22 de fevereiro de 1870, "após uma crise que só durou um dia e sem que o médico tivesse adivinhado a gravidade do mal" [7]. É da pena da própria santa que recolhemos este relato comovente de depois da sua morte:

"Olhava para ela, tristemente. Nos olhos embaciados já não havia vida e eu pus-me a chorar. Ela, então, rodeou-me o pescoço com os dois bracinhos e consolou-me o melhor que pôde. Durante esse dia dizia constantemente: Minha pobre mãezinha que esteve a chorar!' Passei a noite ao pé dela: noite muito má. De manhã perguntamos-lhe se queria tomar o caldo; disse que sim, mas que não o podia engolir. Contudo fez um grande esforço, dizendo-me: 'Se eu o tomar gostas-me mais?'

Tomou-o todo, mas em seguida sofreu horrivelmente e não sabia o que havia de ser dela. Olhava para uma garrafa de remédio que o médico tinha receitado e queria tomá-lo, dizendo que, quando tivesse bebido tudo ficaria curada. Depois, pelas dez menos um quarto, disse-me: 'Sim, daqui a pouco vou ficar curada... sim, agora mesmo...' Neste instante, enquanto eu a amparava, a cabecinha tombou-lhe para o meu ombro, os olhos fecharam-se-lhe e daí a cinco minutos já não existia...

Senti uma impressão que nunca mais poderei esquecer; não contava com este desenlace repentino e o meu marido também não. Quando chegou a casa e viu a filhinha morta, desatou a soluçar, exclamando: 'Minha querida Helena! minha querida Helena!' Depois oferecemo-la ambos a Nosso Senhor... Antes do enterro passei a noite junto da minha querida filhinha que estava ainda mais bela depois de morta do que em vida. Fui eu que a amortalhei e pus no caixão: julguei que morria, mas não queria que outras mãos lhe mexessem." [8]

Ainda em carta à cunhada, um mês depois do acontecido, Santa Zélia revela toda a desolação de sua alma: "Garanto-te que não tenho nenhum apego à vida", ela escreve. "Tive muita pena dos meus dois rapazinhos, mas a perda desta causou-me ainda maior desgosto. Agora é que eu começava a apreciá-la, tão meiga, tão desenvolvida para a idade! Não se passa um minuto em que não me lembre dela." [9]

Da Visitação vinha, mais uma vez, uma carta de consolação: "O teu coração está como esmagado por uma prensa, mas pela tua conformidade com todas as vontades divinas, sai dele um bálsamo que consola o Coração de Deus" [10].

Ainda mais uma filha o casal veria morrer, e no mesmo ano: Maria Melânia Teresa faleceu sem completar ao menos dois meses de vida. Tendo dificuldades em encontrar uma ama de leite para a menina, Zélia confiou a pequena "a uma mulher que morava na Rua da Barra, em Alençon, e que iludiu vergonhosamente a sua confiança, deixando definhar" a menina [11]. Em vão o casal tentou encontrar uma nova ama e, no dia 8 de outubro de 1870, expirou a infante, para novo luto da família.

Os sofrimentos terríveis por que passou a família Martin nesse período seriam recompensados em 1873, com o nascimento de Teresa, a filha que maior glória trouxe à família.

Até lá, no entanto, foi necessário que tomassem com coragem a dolorosa cruz da morte, por mais pesada que lhes parecesse.

O que consolava o coração daqueles pais e o que pode e deve atenuar o luto de todos aqueles que perdem seus filhos ainda pequenos, é a esperança do Céu. O padre Stéphane Joseph Piat, biógrafo dos pais de Santa Teresinha, ao relatar todos esses fatos da vida do casal, diz que eles, "que conservavam gravadas na retina as feições queridas dos desaparecidos, consagravam-se aos que lhe ficavam, unindo, em magnífica solidariedade, a família terrena e a família que vivia no mundo melhor, sendo esta que protegia a outra" [12]. Assim, à pergunta de muitas famílias que sofrem tentando entender por que Deus leva tão cedo os seus pequeninos, a vida dos Martin talvez ofereça uma resposta, senão satisfatória, ao menos alentadora: essas coisas acontecem para adiantar as moradas de algumas famílias no Céu e fazer intercessores por aqueles que ficam.

Essa intercessão, porém, que faz parte da "comunhão dos santos" que é a Igreja, nada tem a ver com evocação dos mortos. Ninguém confunda a piedade desses pais com alguma prática espírita ou superstição pagã, condenadas por Deus já no Antigo Testamento. A devoção que faz Santa Zélia escrever linhas tão puras não é espírita, mas católica: trata-se não de ilusões reencarnacionistas ou de sessões "analgésicas" com o além, mas da fé e da esperança cristãs na vida eterna, as únicas que podem aliviar e confortar verdadeiramente.

Depois de perder os quatro filhos, é à sua cunhada que Zélia Martin revela o segredo para enfrentar bem a chegada da morte:

"Quando fechava os olhos dos meus filhinhos e os metia no caixão, experimentava uma grande dor, mas sempre conformada. Nunca lamentava os trabalhos e preocupações que tinha sofrido por eles. Muitas pessoas diziam-me: 'Mais valia não os ter tido'. Mas eu não podia suportar esta maneira de falar. Não pensava que os trabalhos e preocupações pudessem comparar-se com a felicidade eterna dos meus filhos. E depois, eu não os tinha perdido para sempre: a vida é curta e cheia de miséria e havemos de nos encontrar lá em cima." [13]

Ao morrerem aqueles que amamos, saibamos, como souberam Santa Zélia e São Luís, que não perdemos as pessoas para sempre. "A vida é curta e cheia de miséria e havemos de nos encontrar lá em cima" — de uma vez por todas —, com a graça de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Stéphane Joseph Piat, História de uma Família. 3.ª ed. Braga: Apostolado da Imprensa, p. 71.
  2. Carta da Senhora Martin ao irmão, de 18 de novembro de 1866. In: Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 71.
  3. Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 71.
  4. Ibid., p. 72.
  5. Carta da Senhora Martin ao irmão e à cunhada, de 21 de dezembro de 1867. In: Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 73.
  6. Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 74.
  7. Ibid., p. 82.
  8. Carta da Senhora Martin ao irmão e à cunhada, de 24 de fevereiro de 1870. In: Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 83.
  9. Carta da Senhora Martin à cunhada, de 27 de março de 1870. In: Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 84.
  10. Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 84.
  11. Ibid., p. 89.
  12. Ibid., p. 85.
  13. Carta da Senhora Martin à cunhada, de 17 de outubro de 1871. In: Stéphane Joseph Piat, op. cit., p. 91.

| Categoria: Espiritualidade

Jesus deseja ser consolado por você

Hoje em dia, com tantos ataques à dignidade de Deus, é urgente reaprendermos as práticas reparadoras para consolarmos o Coração de Cristo.

Ainda sobre a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Seu Preciosíssimo Sangue, é preciso tratar agora da necessária reparação às ofensas cometidas contra a honra de Nosso Senhor.

Infelizmente, embora faça parte da Tradição cristã, a prática da reparação não está mais na moda; pouquíssimas homilias ou pregações são dedicadas a esse tema tão importante para o crescimento na fé. Não são poucos, aliás, os que reprovam os sacrifícios de expiação e consolação, sentenciando-os ao passado medieval. Se a misericórdia de Deus é infinita, argumentam, não há por que fazer atos de reparação e desagravo, uma vez que nenhuma falta humana seria grande o suficiente para ofender o Coração de Jesus; afinal, Ele mesmo declarou: "Quero misericórdia e não sacrifício" (Mt 9, 13).

Outros ainda insistem que, tendo Cristo derramado Seu sangue até a última gota no dia da Paixão, as penitências já não fariam sentido e acabariam atentando contra o único e verdadeiro sacrifício redentor, pois insinuariam, de certo modo, uma insuficiência na Paixão de Cristo pela salvação dos pecadores.

É comum que, diante desse quadro de objeções aparentemente sensatas às práticas de reparação, o fiel leigo — ou mesmo sacerdote — sinta-se dissuadido a realizar qualquer obra de amor pela conversão dos pecadores, pelas almas do purgatório e, mais importante ainda, em desagravo aos ataques contra a dignidade de Deus. Acontece que a história dos santos, inclusive de santos doutores, como Tomás de Aquino e Agostinho, é tão fortemente marcada pelos sacrifícios e por atos de desagravo a Nosso Senhor que não há teologia neste mundo que possa impugnar ou relativizar a sua importância.

De qualquer modo, vale a pena esclarecer o equívoco daqueles que se opõem aos atos de reparação, a fim de que não reste qualquer dúvida sobre o assunto.

De fato, a misericórdia de Deus é infinita e cobre uma multidão de pecados. Falta nenhuma é capaz de superar o tamanho desse amor. Contudo, esse mesmo Deus, infinito em sua bondade, quis estabelecer uma relação com Sua criatura, quis tornar-se sua família e seu amigo. Ele não é um deus longínquo ou uma divindade pagã alheia às necessidades de suas criaturas, como acreditavam as antigas civilizações. Deus nos amou por primeiro, estabeleceu como que uma pedagogia, manifestando-se por meio de inúmeros profetas, até a plenitude dos tempos, quando enviou seu Filho unigênito, para que n'Ele todas as coisas fossem recapituladas (cf. Hb 1, 1-2).

Entende-se, pois, que Ele nos ama como amigo e que, por isso, somos chamados a dar uma resposta de amor, porque "a caridade é amizade do homem com Deus" [1]. Somente por meio dessa resposta o homem se realiza enquanto pessoa humana e torna-se aquilo que é chamado a ser. O desprezo pelo sagrado, porém, destrói a vocação e ratifica uma indiferença com relação Àquele de quem recebemos tudo.

Ora, se a amizade é o meio pelo qual Deus decidiu nos salvar, é óbvio que aqueles que O recusam põem em xeque a própria salvação, e não por uma limitação da misericórdia divina, que é infinita, mas por uma escolha trágica do indivíduo. Essa escolha, no entanto, pode ser atenuada justamente pela reparação que os irmãos desses infelizes oferecem a Deus, repetindo as palavras de Cristo na cruz: "Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34).

Ademais, Cristo mesmo desejou os nossos sacrifícios pela redenção da humanidade ao fundar Sua Igreja como membro de Seu Corpo. Esse corpo místico também é objeto da Paixão, como atestam estas palavras de São Paulo: "Completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja" (Cl 1, 24). Quando meditamos os sofrimentos de São Pio de Pietrelcina, cujas mãos se dignaram experimentar as próprias chagas do Senhor, ou as humilhações de Santa Bernadette, que teve de escutar da Madre Superiora que "não servia para nada", não há como não perceber a presença viva e atuante de Jesus carregando o madeiro até o calvário, pois, como diz São Paulo, "à medida que os sofrimentos de Cristo crescem para nós, cresce também a nossa consolação por Cristo" (2 Cor 1, 5).

Note-se ainda o episódio do Horto das Oliveiras (cf. Mc 14, 32s). O mesmo Jesus, que tantas vezes se retirou para orar sozinho no deserto, aparece assustado, com Sua alma triste até a morte e com o desejo de ser consolado por Seus discípulos. Não se trata de uma carência afetiva, é certo, mas de um grande mistério: o Deus que se fez homem completo para redimir os demais e ensiná-los o caminho para o verdadeiro amor. Na Cruz se espelham todas as dores da humanidade. Portanto, a reparação às ofensas contra Jesus também nos une aos padecimentos de todo o gênero humano: "Ele nos consola em todas as nossas aflições, para que, com a consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que se acham em toda e qualquer aflição" (2 Cor 1, 4). Quem ousaria pensar numa escola de amor melhor e mais eficaz do que essa?

É possível agora entender o que Jesus pretendia ensinar quando disse não querer "sacrifício", mas "misericórdia". O sacrifício ao qual Ele se referia era aquele baseado unicamente na lei; tratava-se de um ato legalista. As penitências reparadoras, por outro lado, têm como gênese o amor verdadeiro à Pessoa de Jesus, como explica o Papa Pio XI: "Quando a caridade dos fiéis se entibia, a caridade de Deus se apresenta para ser honrada com culto especial" [2]. A misericórdia não contraria as penitências, antes as incentiva.

A Igreja aprovou, ao longo de sua história, os mais variados tipos de mortificação e penitência, desde o jejum à abstinência de carne nas sextas-feiras. Algumas almas mais generosas, como São João Maria Vianney, São Josemaria Escrivá, São João Paulo II etc., não tiveram medo de dormir no chão — para experimentarem a frieza do calabouço onde Cristo ficou preso —, de flagelar-se com a disciplina — para sentirem os chicotes rasgarem as costas de Jesus —, ou de usar o cilício, para se unirem à Paixão redentora que foi coroada de espinhos. Existem, além disso, as práticas espirituais das "comunhões reparadoras" ou da chamada "hora santa" e também as sempre recomendáveis obras de misericórdia: dar de comer aos pobres, visitar os doentes, vestir os nus, dar bom conselho etc.

Recorde-se, porém, que a melhor prática de reparação às ofensas contra Deus é aquela em que nossa vontade é contrariada para conformar-se amorosamente à vontade do Criador, pois "quanto mais perfeitamente corresponda ao sacrifício do Senhor nossa oblação e sacrifício [...], tantos mais abundantes frutos de propiciação e de expiação para nós e para os demais perceberíamos" [3]. Neste sentido, que grande ocasião é o nosso cotidiano, cheio de contratempos e de frustrações, para amar e consolar o Coração de Jesus.

Nossa época exige dramaticamente atos de reparação às ofensas cometidas todos os dias contra o dulcíssimo Coração de Jesus. Isso ficou claro nas inúmeras aparições de Maria no último século e, em especial, na mensagem de Fátima, cujo centenário se aproxima. Naquela ocasião, Maria Santíssima escolheu três inocentes crianças para sofrerem pela conversão dos pecadores. Que testemunho belíssimo deram Lúcia, Jacinta e Francisco ao nosso século, que perde mais tempo cuidando do corpo em academias e clínicas de estética do que com a alma. Loucos! São João Maria Vianney mesmo disse que se as pessoas condenadas tivessem ao menos um segundo para poderem livrar-se do fogo eterno, o inferno estaria vazio. Ah, se os homens usassem o tempo que têm disponível para amar a Deus. Mas, desgraçadamente, esse tempo é gasto com bobagens, blasfêmias, pornografia e outras monstruosidades.

É tempo de misericórdia, proclamou o Papa Francisco. É tempo de dobrarmos nossos joelhos no chão, batermos no peito e clamarmos: "Miserere nobis, Domine, quia peccatores sumus — Tende piedade de nós, Senhor, porque somos pecadores".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 23, a. 1
  2. Pio XI, Carta Encíclica Miserentissimus Redemptor (8 de maio de 1928), n. 2.
  3. Ibid., n. 8.

| Categoria: Santos & Mártires

Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus

Nesta pregação, conheça o caminho que produziu a primeira santa brasileira e que todos nós devemos trilhar para chegarmos à glória do Céu.

A Igreja celebra hoje, dia 9 de julho, a memória de Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus. Mesmo tendo nascido na Europa, foi no Brasil que Amábile Lúcia Visintainer se santificou, entregando a sua vida em sacrifício de amor a Deus e ao próximo.

Em homilia feita esta manhã na Paróquia Cristo Rei, de Várzea Grande (MT), Padre Paulo Ricardo conta brevemente a história dessa religiosa e revela o segredo de sua santidade, implícito em seu próprio nome religioso. Afinal, o que a agonia de Cristo tem a ver com os nossos sofrimentos? Como podemos aproveitar as dores e as misérias deste mundo para crescer em Deus?

Escute esta pregação e conheça o caminho que santificou a primeira santa brasileira e que todos nós devemos trilhar para chegarmos à glória do Céu:

Para fazer download desta homilia, basta clicar aqui.

| Categoria: Santos & Mártires

Rita de Cássia, uma história de amor através do sofrimento

A história da famosa Santa Rita de Cássia mostra que, realmente, “fora da Cruz, não existe outra escada por onde subir ao Céu”.

O corpo incorrupto de Santa Rita de Cássia é um dos casos mais célebres da história da Igreja. Ela morreu em 1457, mas até hoje, quem quer que visite a pequena comuna de Cássia, no interior da Itália, ficará impressionado em encontrar os restos mortais dessa santa mulher, ainda bem preservados no interior de uma urna dourada de cristal.

Numerosos eventos aconteceram ligados a essas relíquias. Só "no momento de sua entrada no Céu, a cela em que ela se encontrava ficou repleta de um perfume extraordinário, uma luz espantosa emanou do estigma que ela tinha na testa e conta-se que os sinos da cidade foram tocados alegremente pelos anjos". Os fenômenos odoríferos e muitos outros milagres fizeram as autoridades civis e eclesiásticas "instalarem as suas relíquias em um lugar acessível aos peregrinos que visitavam continuamente o seu túmulo". Antes de sua beatificação, em 1627, "o corpo foi cuidadosamente examinado e achado perfeitamente como no dia de sua morte, com a pele apresentando ainda a sua cor natural" [1], fato que salta aos olhos principalmente porque o seu corpo nunca tinha sido adequadamente sepultado, no correr de mais de 150 anos.

O reconhecimento de sua santidade, no entanto, não provém necessariamente da incorrupção de seu corpo. Há inúmeros homens e mulheres canonizados pela Igreja cujos restos mortais passaram por um processo natural de decomposição, sem que houvesse quaisquer acontecimentos extraordinários. Por isso, é preciso dizer que, ainda que o corpo de Santa Rita de Cássia não fosse encontrado incorrupto, ela seria canonizada por sua vida e pelo grande amor com que serviu a Deus.

De fato, Santa Rita é conhecida no mundo inteiro como "a santa das causas impossíveis" — e sua história não deixa de atestar a verdade do título que recebeu de seus devotos. Tendo casado muito cedo e meio que a contragosto, Rita sofreu muito com o temperamento violento e tempestuoso do marido, mas, graças ao fervor de suas orações e penitências, viu a graça divina agir sobre Paolo Ferdinando, pouco antes de seu assassinato, motivado por razões políticas. Os seus dois filhos juraram vingar a morte do pai, mas a mãe se prostrou novamente diante de Deus, dizendo que preferia ver os dois filhos mortos antes que que chegassem a cometer esse crime.

Sem dúvida, essas são palavras difíceis de serem pronunciadas por uma mãe, mas não para uma mulher convicta da eternidade e do valor da alma de seus filhos. Rita sabia que este mundo não era a "última palavra": sabia que, para além desta vida terrena, existia uma vida eterna futura, ou de glória ou de perdição, e que seria muito melhor para os seus filhos uma existência curta nesta terra que uma vida eterna sem Deus no inferno.

A exemplo de Santa Mônica, Rita foi atendida em suas preces e viu os seus filhos morrerem não só livres da culpa do homicídio, mas também do ódio e do rancor que eles nutriam em relação aos assassinos de Paolo Ferdinando. Os dois morreram perdoando os inimigos de seu pai. O que parecia humanamente impossível, Rita o alcançou pela força de suas orações.

Só por essa história belíssima — que muitos gostariam de ter repetida em suas famílias, vendo-as convertidas a Deus — a sua vida já mereceria um filme.

Rita, porém, depois de viver em plenitude o sacramento do Matrimônio, não deixando que se perdesse nenhum dos que lhe tinham sido confiados (cf. Jo 18, 9), decide entrar para a vida religiosa, a fim de celebrar aquele casamento definitivo com o Esposo de todas as almas que vivem neste mundo: Jesus Cristo. Aí, mesmo neste caminho tão belo de entrega a Deus, não é menor o sofrimento que a espera: primeiro, para conseguir entrar no Convento das Irmãs Agostinianas de Cássia, cuja regra impedia o ingresso de mulheres viúvas (outro impossível que ela superou com o auxílio de Deus); depois, para lidar com uma ferida supurante e malcheirosa, que fê-la viver os últimos 15 anos de sua vida em absoluto recolhimento (após a sua morte, foi dessa mesma ferida que emanou aquela luz gloriosa de que falamos).

A história de Santa Rita de Cássia é, em suma, uma história de amor a Deus através do sofrimento. Todos aqueles que querem ser verdadeiros devotos desta santa mulher devem trilhar a mesma via que ela: uns na vida matrimonial e outros na vida celibatária, mas todos no mesmo caminho do Calvário, porque, como dizia outra piedosa mulher, Santa Rosa de Lima, "fora da Cruz, não existe outra escada por onde subir ao Céu" [2].

Que o Espírito Santo nos ajude a transformar todos os nossos sofrimentos em atos de caridade; a converter toda a nossa dor em verdadeiro amor.

Santa Rita de Cássia,
rogai por nós!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Sugestões

Referências

  1. CRUZ, Joan Carroll. The Incorruptibles. Charlotte: TAN Books, 2012, p. 102.
  2. HANSEN, P. Vita mirabilis (...) venerabilis sororis Rosae de sancta Maria Limensis. Roma, 1664, p. 137.

| Categoria: Testemunhos

A paixão de Madre Angélica

A religiosa e fundadora da EWTN viveu dores “excruciantes” nos dias anteriores à sua morte, de acordo com o capelão do grupo, padre Joseph Wolfe.

Um jargão muito usado pelos defensores da eutanásia é o chamado direito de "morrer com dignidade". Para eles, a vida só vale a pena quando é isenta de qualquer tipo de fadiga ou incômodo, e, portanto, se padecemos de alguma doença grave ou incurável, é nosso direito recorrer ao suicídio — embora não usem essa palavra — a fim de evitarmos o sofrimento.

É claro que essa mentalidade materialista, que infelizmente contaminou alguns cristãos mundo afora, nada tem que ver com o cristianismo e a verdadeira dignidade humana. Trata-se, antes, de uma atitude egoísta e anti-humana, em nome da qual muitas injustiças já foram cometidas ao longo da história: eugenia, campos de concentração, esterilização em massa etc. A vida humana encontra sua dignidade justamente quando está aberta ao amor, este dom que se expressa sobretudo na capacidade de sofrer pelos irmãos, em especial, pelos mais indefesos. Isso é que nos torna humanos e dignos de viver.

Ademais, os sofrimentos podem adquirir uma dimensão humana ainda mais especial se vistos com os olhos da fé. Vejamos o exemplo de Madre Angélica. Mesmo nos instantes finais de sua vida, ela continuou a ensinar o catolicismo com o mesmo vigor pelo qual se tornou conhecida, mas desta vez, através do significado redentor do sofrimento. Como descreveu padre Joseph Wolfe, capelão da EWTN, durante um sermão em memória da fundadora da mesma TV católica, cujo falecimento noticiamos aqui, Madre Angélica viveu instantes de profunda agonia até o Domingo de Páscoa.

"Era Sexta-feira Santa… Madre Angélica começou a chorar compulsivamente logo pela manhã por causa das dores que estava vivendo… Era possível ouvi-la pelos corredores", contou o sacerdote. De acordo com padre Wolfe, Madre Angélica havia dado instruções aos seus cuidadores para que não lhe dessem qualquer tipo de analgésico, pois ela queria oferecer suas dores finais a Jesus. "A maioria de nós não pensaria desse jeito. Nós pensaríamos: 'Tire-me daqui…'. O que se vê nesta imagem [de Madre Angélica] é o amor de Deus", enfatizou.

A atitude de Madre Angélica está em profunda sintonia com os ensinamentos de São Paulo, cuja pregação sempre viu nos sofrimentos um meio pelo qual os cristãos poderiam participar com Cristo em Sua ação redentora. Lemos isso claramente neste trecho da carta do apóstolo aos fiéis de Colossas: "Completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja" (1, 24). Neste sentido, os católicos lidam com as contrariedades da vida não somente como algo a ser pacientemente suportado, mas como algo que, quando amorosamente unido a Cristo, ajuda a salvar o mundo. Como se pode notar, o modo de sofrer dos cristãos é diametralmente oposto ao dos masoquistas, que se automutilam simplesmente por prazer desordenado, ao passo que os cristãos aceitam o sofrimento por amor ao próximo.

Madre Angélica morreu com 92 anos após um longo período de doença, incluindo dois derrames em 2001, que tornaram difícil para ela falar e forçaram-na a usar um tapa olho sobre seu olho esquerdo. Ela também experimentou o sofrimento em sua juventude quando um acidente envolvendo uma máquina industrial deixou-a usando muletas. Em seu sermão, Padre Wolfe explicou que Madre Angélica queria que cada dia fosse "um ato a mais de sofrimento por Deus". "Este é o grande poder na Terra, o amor a Deus que vem a nós em Nosso Senhor Jesus Cristo. Isto foi algo que Madre Angélica entendeu. Ela queria amá-lO de volta. Isso foi sua vida toda", esclareceu o capelão da EWTN. Pouco antes de morrer, contou padre Wolfe, Madre Angélica viveu dores excruciantes, isto é, próprias da cruz.

Os relatos de Padre Joseph Wolfe sobre as horas finais de Madre Angélica podem trazer à memória de muitos a morte de São João Paulo II. Por causa de seu ofício público, todos foram testemunhas da grande dor pelo qual o santo pontífice teve de passar antes do fatídico 2 de abril de 2005. Na verdade, tanto Madre Angélica como São João Paulo II, aproveitando o que disse um de seus amigos mais íntimos, deram um testemunho para o mundo do que é verdadeiramente "morrer com dignidade". Aliás, é da pena do Papa Wojtyla estas palavras cortantes sobre o valor salvífico do sofrimento [1]:

Ainda que São Paulo tenha escrito na Carta aos Romanos que "toda a criação tem gemido e sofrido as dores do parto, até ao presente", e ainda que os sofrimentos do mundo dos animais sejam bem conhecidos e estejam próximos ao homem, aquilo que nós exprimimos com a palavra "sofrimento" parece entender particularmente algo essencial à natureza humana. É algo tão profundo como o homem, precisamente porque manifesta a seu modo aquela profundidade que é própria do homem e, a seu modo, a supera. O sofrimento parece pertencer à transcendência do homem; é um daqueles pontos em que o homem está, em certo sentido, "destinado" a superar-se a si mesmo; e é chamado de modo misterioso a fazê-lo.

O Papa é muito claro: o sofrimento é algo essencial à natureza humana. Isso não significa, atenção, que devamos nos conformar com as dificuldades, numa atitude de passividade e indiferença. Como o próprio São João Paulo II afirma, a existência do sofrimento em nossas vidas é um chamado à "transcendência", ou seja, a buscar caminhos de superação pessoal como também comunitária, encontrando no sofrimento que faz parte da vida um significado para além das circunstâncias pessoais e sociais do momento, como fez, por exemplo, o psicólogo Viktor Frankl, durante seu exílio no campo de concentração. Foi através da dor terrível que viveu naquele lugar que Frankl pôde descobrir o "sentido da vida", por assim dizer, e desenvolver uma belíssima abordagem psicológica para a compreensão do ser humano: a Logoterapia. Se Frankl fosse um adepto da "eutanásia", não teria nos agraciado com sua grande descoberta.

Na doutrina cristã, ainda mais, o sofrimento é a porta de acesso ao grande amor de Deus por nós. É a via da cruz, a via da nossa salvação. Imitemos, portanto, o testemunho de Madre Angélica e de tantos santos que, abraçando suas cruzes e vivendo a paixão de Cristo em suas vidas, corredimiram a humanidade, unidos ao inesgotável amor de Jesus.

Com informações de LifeSiteNews.com | Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referência

  1. São João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici doloris (11 de fevereiro de 1984), n. 2.

| Categoria: Espiritualidade

Cuidado se você não sofre tentações!

São melhores as amarguras e as provações da batalha, que preparam o Céu, à paz e à tranquilidade deste mundo, que pavimentam a estrada para o inferno.

Uma famosa oração, atribuída a Santo Agostinho, e rezada por quem se prepara para a Santa Escravidão a Nossa Senhora, possui uma frase digna de profunda meditação: “Ó Jesus, anátema seja quem não Vos ama. Aquele que não Vos ama seja repleto de amarguras.”

Mas, desde quando os santos rezam a Deus pedindo que as pessoas fiquem amarguradas?

Qual é, afinal, o sentido dessas palavras de Agostinho, aparentemente tão severas?

O desejo desse doutor da Igreja é bem simples: que os homens amem a Deus!

E ninguém pense que se trata de uma petição qualquer. As palavras de Agostinho – que não fazem mais que ecoar as do próprio Cristo no Pai Nosso – são a coisa mais importante e valiosa que se pode pronunciar em favor daqueles que se ama. Pois, que bem maior podemos dar aos que amamos, senão Deus mesmo, o único que pode trazer felicidade ao nosso coração? Nenhum bem deste mundo pode saciar a nossa alma e, ainda que pudesse, a morte o levaria embora e o tiraria de nossas mãos... Deus, ao contrário, não só alegra os Seus nesta vida, como lhes reserva uma eternidade ao Seu lado.

A condição para gozar dessa bem-aventurança eterna é uma só: amar a Deus. Por isso, diz São Paulo: "Para aqueles que O amam, Deus preparou coisas que nenhum olho viu, nem ouvido ouviu e nem coração jamais pressentiu" (1 Cor 2, 9).

São muitas, todavia, as coisas que nos afastam dessa divina recompensa, e uma delas são as falsas alegrias do mundo, que substituem o lugar de Deus e nos fazem esquecer d'Ele.

É por isso que, no decorrer de nossa vida, somos assaltados por tantas dificuldades, tristezas, perdas e acidentes – aquilo que as pessoas comumente chamam de "desgraças", embora a única verdadeira desgraça nesta e na outra vida seja estar afastado de Deus. Todas essas coisas, se vivemos na graça da amizade com Cristo, não devem nos preocupar, já que "tudo concorre para o bem dos que O amam" (Rm 8, 28). Mas, se, ao contrário, vivemos na desgraça do pecado, sem desejo de nos emendarmos e mudarmos de vida, tudo o que nos acontece serve-nos como castigo.

Não nos impressionemos! Embora isso não se ouça mais dos púlpitos de nossas igrejas e certos pregadores cheguem a dizer o contrário, é verdade que Deus castiga. Às vezes, Ele permite que os males desta vida nos visitem, não por ódio ou maldade, mas justamente porque Ele nos ama e quer a nossa salvação! Afinal, qual é o pai que, vendo o seu filho afastar-se e correr velozmente em direção ao abismo, não prefere que ele se acidente, a vê-lo precipitar-se no fosso? Qual é o pai que, vendo o seu filho destruir-se no mundo das drogas, não procura intervir de alguma forma, mesmo que o remédio às vezes lhe doa?

É por isso que Santo Agostinho reza pedindo: "Aquele que não Vos ama seja repleto de amarguras."

Sim, Senhor, que sejamos repletos de amarguras, enquanto não Vos amarmos por inteiro! Que sejamos repletos de angústias e tristezas, só para que procuremos a única e verdadeira alegria de nossa alma, que sois Vós! Que percamos o que for preciso, só para ganhar a única e verdadeira riqueza, que sois Vós! Que morramos para este mundo e percamos a própria saúde, só para ganhar a única e verdadeira vida, que sois Vós!

E assim, em coro, unamo-nos a Santo Agostinho e a todos os santos de Deus, em ação de graças pelas cruzes e sofrimentos que nos visitam e nos convidam à conversão. Alegremo-nos verdadeiramente com as santas amarguras que o Senhor nos manda, porque também elas são um sinal do Seu grande amor por nós.

Ao contrário, comecemos a preocupar-nos quando, mesmo em nossa infidelidade e impenitência, tudo estiver aparentemente tranquilo e estivermos levando uma vida pacífica e confortável, sem as provações de Deus – nem as tentações do demônio [*]. É o terrível sinal de que já fomos comprados pelo mal e que, por isso, nem mesmo o diabo precisa nos tentar mais.

"Cuidado se você não sofre tentações!", advertia o Santo Cura de Ars. "Talvez você ache que as pessoas que são mais tentadas, são indubitavelmente, os beberrões, os provocadores de escândalos, as pessoas imodestas e sem vergonha que deitam e rolam na sujeira e na miséria do pecado mortal, que se enveredam por toda espécie de maus caminhos. Não, meu caro irmão! Não são essas pessoas!"

"As pessoas mais tentadas – continua São João Maria Vianney – são aquelas que estão prontas, com a graça de Deus, a sacrificar tudo pela salvação de suas pobres almas, que renunciam a todas as coisas que a maioria das pessoas buscam ansiosamente. E não é um demônio só que as tenta, mas milhões de demônios procuram armar-lhes ciladas."

Prefiramos, pois, as amarguras e tentações da batalha, que preparam o Céu, à paz e à tranquilidade deste mundo, pois são elas que pavimentam a estrada para o inferno.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

* Para uma distinção teológica entre as "provações", que vêm de Deus, e as "tentações", que vêm do demônio, vale a pena ler o Comentário de Santo Tomás de Aquino ao Pai Nosso, n. 78-80, tratado do qual, aliás, se pode tirar grande proveito espiritual.