| Categoria: Sociedade

O que o Canadá tem a nos ensinar sobre o “casamento” homossexual?

Reconhecer como matrimônios legais as relações entre pessoas do mesmo sexo seria de fato um divisor de águas? Que impacto sobre a concepção comum de casamento e os costumes matrimoniais dos países teria esse reconhecimento?

Reconhecer como matrimônios legais as relações entre pessoas do mesmo sexo seria de fato um divisor de águas? Que impacto sobre a concepção comum de casamento e os costumes matrimoniais dos países teria esse reconhecimento?

As discussões a este respeito não têm poupado esforços. No entanto, a falta de experiência com o "casamento" homossexual no Brasil até o momento não nos dá nenhuma resposta concreta. É por isso razoável levar em consideração a experiência canadense, já que o Canadá foi o primeiro país a reconhecer legalmente, há dez anos, o "casamento" entre pessoas do mesmo sexo. Existem, é claro, sensíveis diferenças culturais e institucionais entre os dois países e, como sucede em todo e qualquer assunto público, tudo depende das ações dos protagonistas políticos e culturais de cada lugar. Isso significa, em outras palavras, que não é cem por cento seguro presumir que a experiência canadense se repetirá no Brasil; ela deveria, em todo caso, ser levada em conta. De fato, o que se tem passado no Canadá constitui a melhor evidência que temos à disposição sobre os impactos a curto prazo do "casamento" homossexual em uma sociedade democrática.

Qualquer pessoa interessada em avaliar o impacto do "casamento" homossexual na vida pública deveria investigar-lhe os efeitos de três pontos de vista:

  1. em primeiro lugar, no âmbito dos direitos humanos (incluídos aí os impactos sobre os direitos à liberdade de expressão, os direitos dos pais na educação pública e a autonomia das instituições religiosas);
  2. em segundo, da perspectiva aberta pelo "casamento" homossexual à possibilidade de se reconhecerem como matrimônios outros tipos de relacionamento como, por exemplo, a poligamia;
  3. por fim, no âmbito da prática social do casamento.

Impacto sobre os direitos humanos

No Canadá, o resultado formal das decisões judiciais (e da legislação consequente) que institucionalizaram o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi o mero reconhecimento governamental do relacionamento de tais pessoas como um verdadeiro matrimônio; os seus efeitos culturais e legais, no entanto, foram muito mais amplos. O que ocorreu de fato foi a adoção de uma nova "ortodoxia": as relações homossexuais equivalem agora, sem restrições, ao casamento tradicional e devem, portanto, ser tratadas em pé de igualdade com ele perante a lei e a sociedade.

Como consequência disso, quem quer que rejeite essa nova "ortodoxia" é considerado um intolerante, animosamente contrário a gays e lésbicas; qualquer expressão de desacordo com a ideia de "casamento" homossexual é qualificada automaticamente de "ódio" contra uma minoria sexual; despreza-se sem piscar como mero "pretexto" qualquer oposição razoável como, por exemplo, as que embasaram argumentos jurídicos segundo os quais o "casamento" homossexual é incompatível com uma concepção de matrimônio — chamada às vezes "concepção conjugal" — que responda à necessidade que têm as crianças de crescer dentro de uma união estável, fiel e permanente.

Quando se passa a ver na oposição ao "casamento" homossexual manifestações de intolerância e ódio, então se torna bastante difícil suportar por muito tempo as divergências. Foi assim que no Canadá se modificaram à pressa os termos de participação na vida pública. Foram os oficiais responsáveis pela celebração de uniões civis os primeiros a sentir a dureza da nova "ortodoxia"; muitas províncias recusaram-lhes o direito de objeção de consciência a presidir celebrações de casamentos homossexuais e obrigaram-nos a desligar-se de suas funções. Ao mesmo tempo, entidades religiosas como os Cavaleiros de Colombo foram multadas por se recusarem a disponibilizar suas dependências para festas de casamento.

O direito à liberdade de expressão

Os efeitos da nova "ortodoxia", porém, não se limitam ao número, relativamente pequeno, de pessoas em risco de ser obrigadas a auxiliar ou presidir a celebração de um casamento homossexual; a mudança, pelo contrário, tem atingido muitas pessoas, inclusive clérigos, que desejam tornar público o que pensam acerca da sexualidade humana.

Muito do que se podia opinar antes sobre o "casamento" homossexual, agora é arriscado dizê-lo; muitos dos que persistiram abertamente em discordar tornaram-se objeto de investigação de comissões de direitos humanos e, em alguns casos, foram até mesmos processados e levados a tribunais de direitos humanos. As pessoas carentes sem boa formação e afiliação institucional têm sido, de modo particular, alvos fáceis, já que as leis antidiscriminação nem sempre são aplicadas de maneira igualitária; algumas delas foram obrigadas a pagar multas, desculpar-se e nunca mais tocar no assunto em público outra vez. Entre os alvos contam-se pessoas que apenas escreveram cartas aos editores de um jornal local, além de ministros de pequenas congregações cristãs. Um bispo católico foi denunciado duas vezes — ambas as denúncias foram revogadas — devido a comentários feitos por ele numa circular sobre matrimônio.

Muitas cortes de revisão começaram a tomar as rédeas nas comissões e tribunais (sobretudo depois de alguns processos mal instruídos contra o jornalista Mark Steyn e a revista Maclean's em 2009), e vêm defendendo uma compreensão mais abrangente do direito à liberdade de expressão. Em resposta aos protestos públicos que se seguiram ao caso de Steyn e Maclean's, o Parlamento do Canadá revogou recentemente uma disposição da Comissão Canadense de Direitos Humanos que previa instrumentos legais contra os "discursos de ódio".

Como quer que seja, o custo despendido na luta contra a maquinaria dos direitos humanos continua gigantesco: só a revista Maclean's gastou centenas de milhares de dólares com taxas judiciais, nenhuma das quais lhe será devolvida pelas comissões, tribunais e denunciantes a que foram entregues. E casos como este podem levar até dez anos para ser resolvidos. Um pessoa comum, com poucos recursos e que porventura tenha chamado a atenção de uma comissão de direitos humanos, não tem a quem recorrer, nem mesmo às cortes de apelação; a alguém nestas condições resta apenas aceitar as advertências da comissão, pagar uma (relativamente) pequena multa e obedecer à orientação de ficar em silêncio para sempre. Enquanto estes instrumentos estiverem à disposição das comissões, das quais a nova ortodoxia não permite discordar, discutir publicamente a respeito do "casamento" homossexual significa expor-se ao perigo de ser condenado judicialmente.

Uma pressão semelhante sobre quem discorda pode ser, e é efetivamente exercida, por profissionais à frente de organizações como associações de bares, corpos docentes etc., que têm o poder jurídico de punir seus membros por condutas incompatíveis com a profissão. Manifestações de discordância com a razoabilidade de tornar institucional o "casamento" entre pessoas do mesmo sexo são entendidas por esses organismos como atos de discriminação ilegal, o que abre a possibilidade de censura profissional.

Os professores constituem, em particular, um grupo de risco e muito suscetível a medidas disciplinares; com efeito, mesmo os que se manifestam contra o "casamento" homossexual apenas fora de sala de aula são acusados de criar um ambiente hostil a alunos gays. Por já terem assimilado a nova "ortodoxia", a cujos olhos discordar do "casamento" homossexual é uma injusta discriminação que jamais se pode tolerar, outros grupos profissionais e associações de voluntariado vêm adotando políticas parecidas.

Os direitos dos pais na educação pública

A institucionalização do "casamento" homossexual mudou rápida e drasticamente os direitos parentais na educação pública. O debate sobre como abordar em classe o tema do "casamento" gay é muito parecido com a discussão sobre o papel da educação sexual nas escolas e as pretensões do governo de exercer sobre as crianças uma autoridade primária. A educação sexual, entretanto, foi sempre um assunto discreto, no sentido de que, por sua própria natureza, ele é incapaz de permear todo o currículo escolar; o "casamento" homossexual, por outro lado, é algo totalmente distinto.

Dado que um dos princípios da nova "ortodoxia" é a necessidade de tratar o "casamento" homossexual com o mesmo respeito com que tratamos o matrimônio tradicional, os seus proponentes têm se saído muito bem na hora de exigir que o "casamento" gay seja retratado positivamente em sala de aula. As reformas curriculares levadas a cabo em jurisdições como, por exemplo, a Colúmbia Britânica agora impedem os pais de exercer o seu poder de veto em matérias referentes a práticas educacionais controversas.

Os novos currículos estão permeados de referências positivas ao "casamento" gay, não em uma ou outra disciplina, senão em todas. Diante dessa artimanha, a única defesa que sobra aos pais é retirar de uma vez por todas a criança do sistema público de ensino. As cortes têm se mostrado muito pouco favoráveis às reclamações dos pais: se estes se estão apegando a fanatismos fora de moda, então as crianças serão obrigadas a carregar o fardo de uma "dissonância cognitiva", pois têm de aprender coisas conflitantes em casa e na escola, enquanto esta tenta sair vencedora.

As reformas, é claro, não foram vendidas ao público como uma maneira de implementar e reforçar a nova "ortodoxia"; ao contrário, a razão apresentada foi a urgência de combater o bullying, quer dizer, de promover a aceitação de jovens gays, lésbicas e crianças vindas de lares homossexuais.

É louvável querer acolher toda e qualquer pessoa; mas, independentemente do que se tenha dito, os meios escolhidos para alcançar esse objetivo constituem um grave atentado contra a família. Trata-se nada menos do que a doutrinação premeditada das crianças, sem embargo da oposição paterna, conduzidas a aceitar uma concepção de casamento que é fundamentalmente hostil ao que seus pais crêem ser bom para elas. Tudo isso subtrai aos pais o poder de transmitir aos filhos uma compreensão do matrimônio que lhes permita amadurecer e tornar-se adultos; já desde pequenas as crianças são ensinadas a desprezar a lógica do casamento e a entendê-lo como um simples meio de satisfazer o desejo que têm os adultos de encontrar um "parceiro" ou uma "companhia".

O direito de autonomia das instituições religiosas

Num primeiro momento, os clérigos e os centros religiosos pareciam de todo imunes à obrigação de aceitar ou celebrar "casamentos" homossexuais. Com efeito, esta foi a grande promessa da legislação pró-"casamento" gay: os clérigos continuariam a ter o direito a não celebrar um casamento que lhes ferisse as convicções religiosas; as casas de culto, por sua vez, não poderiam ser contratadas sem o consentimento de suas respectivas autoridades.

Deveria ter ficado claro desde o começo o quão estreitas eram estas garantias. Elas apenas impediam que clérigos fossem obrigados a celebrar cerimônias matrimoniais; o que elas não protegiam da vigilância das comissões de direitos humanos, como vimos acima, eram os sermões e as circulares pastorais. As congregações tornaram-se, pois, vulneráveis a intervenções judiciais caso se recusem a ceder seus espaços a casais do mesmo sexo que ali queiram celebrar seu "casamento"; o mesmo vale para toda organização que não deseje disponibilizar suas dependências para promover uma visão da sexualidade diametralmente oposta à defendida por ela.

As referidas garantias tampouco impedem que os governos municipal e provincial privem entidades religiosas de seus lucros por causa do que ensinam sobre o matrimônio. A Bill 13, por exemplo, o mesmo estatuto de Ontário que obriga colégios católicos a permitirem a abertura e manutenção de clubes gays, também proíbe que escolas públicas aluguem suas instalações a quem não concorda com o "código de conduta" exigido pela nova "ortodoxia". Ora, dado que muitas congregações cristãs de pequena proporção alugam auditórios escolares para realizar seus ofícios e cultos, é bastante fácil dar-se conta de sua vulnerabilidade.

Mudanças na concepção pública de matrimônio

Tem-se argumentado que, se o "casamento" gay é institucionalizado, então se devem aceitar também novas "categorias maritais", como a poligamia. A partir do momento em que abandonamos uma concepção conjugal do matrimônio e a substituímos por uma visão centrada na figura do "parceiro" adulto, então já não há nada mais em que nos possamos basear para resistir à expansão do estatuto de "matrimônio" a uniões poligâmicas e poliamoristas, por exemplo.

Noutras palavras, se o casamento se resume à satisfação de um desejo por "companhia", qualquer que seja ela, e se o desejo de alguns se estende a novos tipos de configuração familiar, com que direito lhes podemos negar a satisfação desse desejo? Não é aqui minha intenção tomar partido a esse respeito; pretendo tão-somente descrever como esta situação se desenvolveu no Canadá.

Uma conhecida comunidade polígama na Colúmbia Britânica esteve fortemente envolvida na promoção do "casamento" homossexual, e saiu a público para defender que não havia razão alguma que fundamentasse a atual criminalização da poligamia no Canadá. Dentre todas as cortes do país, somente um tribunal de primeira instância na Colúmbia Britânica pôs em juízo se a proibição da poligamia tem base na constituição nacional, e endereçou ao governo da província uma opinião prévia sobre o assunto.

A criminalização da poligamia foi mantida, mas sobre uma frágil base que a define em termos de contração múltipla e simultânea de vários casamentos civis. A corte, em todo caso, não abordou o fenômeno da celebração de múltiplas uniões estáveis. Por isso, as formas preponderantes de poligamia e poliamor até o momento não foram admitidas pelo direito canadense, mas nem uma nem outra encontram impedimentos na prática.

O que fica de lição é o seguinte: uma sociedade que institucionaliza o "casamento homossexual" não institucionaliza, necessariamente, a poligamia. O exemplo da Colúmbia Britânica, ainda assim, sugere que de uma à outra coisa basta um passo. Os argumentos brandidos pelos defensores da poligamia não explicam de forma convincente por que é discriminação negar às uniões homossexuais e lésbicas o rótulo de "matrimônio", mas não o seria negá-lo aos polígamos e poliamoristas. De fato, o veredito parece indicar que o problema reside no "preconceito" contra a poligamia e o poliamor, que não são um instituto jurídico estável.

O impacto na prática matrimonial

No que diz respeito à prática matrimonial, é ainda muito cedo para tirar conclusões. As informações colhidas no censo de 2011 mostram, em primeiro lugar, que o matrimônio está em decadência no Canadá, assim como em todo o resto do Ocidente; em segundo, que o "casamento" gay é, do ponto de vista estatístico, um fenômeno raro; e, por fim, que há muito poucos casais homossexuais (estejam ou não casados) que tenham crianças em casa.

Dentre os 6,29 milhões de matrimônios existentes no Canadá, aproximadamente 21.000 são homossexuais. Os casais do mesmo sexo, casados legalmente ou não, constituem 0,8% de todos os casais no país; 9,4% dos 65.575 de casais homossexuais (incluídos os casados civilmente e as uniões estáveis) têm crianças em casa, e 80% deles são formados por lésbicas. O Canadá deixou de contabilizar os divórcios a partir de 2008, e desde então não tem disponibilizado nenhuma informação sobre a incidência de divórcios na comunidade homossexual.

O que podemos deduzir de tudo isso é que o "casamento" gay, ao contrário do que previam os argumentos a seu favor, não tem revitalizado a cultura matrimonial no Canadá; tampouco existe, de qualquer modo, um censo ou banco de dados que forneça argumentos empíricos que permitam vincular a institucionalização do "casamento" homossexual à estabilidade matrimonial.

À falta de dados concretos (indisponíveis no Canadá) acerca das taxas de divórcios, só nos restam argumentos conceituais, que têm de ser avaliados por sua coerência. Neste caso, a experiência canadense não nos é de muita ajuda. E aqui podemos fazer-nos a pergunta: a institucionalização do "casamento" entre pessoas do mesmo sexo baseia-se numa concepção de matrimônio que prioriza a estabilidade, como o faz a concepção conjugal? Se a resposta for negativa, então podemos crer com tranquilidade que o "casamento" gay irá acelerar a aprovação cultural de uma concepção de matrimônio — o modelo do "parceiro" adulto — que vem fazendo muito mal à sociedade ao longo das últimas cinco décadas.

Por Bradley Miller | Fonte: The Public Discourse | Tradução e adaptação: Equipe CNP

P. S.: Devido à sua extensão, quase todas as referências da matéria foram omitidas na versão aqui apresentada. Basta clicar aqui para acessá-las na íntegra.

| Categoria: Santos & Mártires

O milagre eucarístico de Santa Clara de Assis

Por que Santa Clara costuma ser retratada, nas obras de arte, com uma custódia ou um cibório em suas mãos?

Santa Clara de Assis (1193-1253) escutou a voz de Cristo durante um momento dramático e turbulento da história da Itália — no período em que o ambicioso imperador germânico, Frederico II, estava empenhado em conquistar a Sicília e a Itália, além de Roma e dos Estados Pontifícios. Seus esforços, somados à ação de seu exército, foram a causa de um antagonismo radical entre o seu império e o papado, gerando uma grande confusão na Igreja da Itália.

Durante o ano de 1244, a armada de Frederico assolou o vale do Spoleto, que era parte do patrimônio da Santa Sé. Seus soldados avançaram então em direção a Assis, mas eles se aproximaram primeiro do convento de São Damião, que ficava a meio caminho. Quando os soldados escalaram os muros e estavam prestes a invadir o claustro, as irmãs do convento acorreram apressadas para junto de sua já debilitada fundadora, Santa Clara, a qual lhes assegurou que Nosso Senhor as salvaria.

Ajudada pelas irmãs, Santa Clara dirigiu-se para a entrada do convento, levando consigo uma pequena caixa de marfim em que estava guardado o sacratíssimo Corpo de Cristo. Prostrando-se diante dele, a santa clamou em alta voz: " É do vosso agrado, meu Deus, entregar às mãos destas feras as filhas indefesas que eu nutri no vosso amor? Suplico-vos que protejais estas a quem eu já não sou mais capaz de proteger". Da hóstia ouviu-se sair a voz como de uma criança, dizendo: "Ter-vos-ei sempre sob meus cuidados".

Assim que os soldados viram o Santíssimo Sacramento, um pânico tomou-os de súbito e imediatamente os fez correr em retirada. É por causa deste episódio que Santa Clara costuma ser retratada com uma custódia ou um cibório em mãos. Clara mandou que, enquanto estivesse viva, as irmãs nunca mencionassem com ninguém esse fato.

O imperador Frederico II, causa de todos estes tumultos, aparentemente se reconciliou com a Igreja, já que sua tumba pode ser vista na catedral de Palermo. Manfredo, um dos filhos do imperador, escreveu a seu meio-irmão que, "transido de arrependimento em seu leito de morte, nosso pai submeteu-se como bom católico à sua Mãe, a Sacrossanta Igreja de Roma".

Como São Francisco de Assis, Santa Clara foi muito solícita em providenciar belos adornos para as igrejas. Uma de suas irmãs, Francesca, disse que Clara confeccionou quase uma centena de corporais do mais fino material para várias igrejas. Esta mesma irmã relata ainda ter visto certa vez uma linda criança na hóstia que Clara estava prestes a comungar; ela viu esta mesma criança em outra ocasião repousando no coração de Clara e cobrindo-a com asas luminosas.


Trecho adaptado da obra Eucharistic Miracles, de Joan Carroll Cruz,
Carolina do Norte: TAN Books, 2010, pp. 271-272.

| Categorias: Espiritualidade, Santos & Mártires

Santa Clara, a virgem esposa de Cristo

Como experimentou Santa Clara, a união com o Corpo de Jesus alcança plenamente o sentido tanto espiritual quanto existencial da pessoa humana.

Santa Clara é popularmente conhecida pela sua pobreza evangélica e fidelidade à Ordem fundada por seu amigo e pai espiritual, São Francisco de Assis. Também é costume invocá-la para trazer o Sol em dias muito chuvosos. Há um outro aspecto da religiosidade dessa santa, no entanto, que passa quase despercebido pelas pregações a seu respeito: o seu matrimônio espiritual com Cristo.

Clara tinha um jeito todo particular de se dirigir a Jesus. Em uma carta à sua amiga Santa Inês de Praga, por exemplo, pode-se notar com que amor e confiança a discípula de Francisco vivia sua vocação esponsal. " Amando-o, és casta, tocando-o, serás pura, deixando-te possuir por Ele, és virgem" [1]. São palavras mesmo espetaculares — possivelmente escandalosas para alguns —, que revelam, por um lado, a ternura própria das esposas a seus esposos e, por outro, o amor esponsal de Jesus, o noivo das almas, que, embora "possuindo" o corpo de sua amada, não o agride nem viola sua dignidade. Ao contrário, na união com o Corpo de Jesus alcança-se plenamente o sentido tanto espiritual quanto existencial da pessoa humana, como pôde experimentar Santa Clara e inúmeros outros santos.

É preciso distinguir, é claro, o matrimônio espiritual do matrimônio comum entre um homem e uma mulher. Este, apesar da sacramentalidade, envolve certamente a relação carnal e consiste em algo terreno, que não terá continuidade no Céu. Aquele, por sua vez, diz respeito a uma realidade da vida de oração, em cujo grau máximo de união com Deus ocorre uma espécie de "matrimônio" espiritual pela comunhão total da alma do orante com a Pessoa de Nosso Senhor. É desse último que Santa Clara fala em suas cartas e outros escritos místicos e ao qual foi totalmente fiel até o termo de sua vida neste mundo.

O Papa Bento XVI, em uma de suas catequeses, recorda que, assim "como Clara e as suas companheiras, inúmeras mulheres ao longo da história ficaram fascinadas pelo amor a Cristo que, na beleza da sua Pessoa divina, enche o seu coração". Elas se apaixonaram por um homem que, de maneira especial, olhou-as em sua profundidade, sabendo acolhê-las e protegê-las das ciladas do mundo. O amor esponsal de Jesus tem a virtude de revelar às almas o seu conteúdo mais sagrado. Foi esse amor, aliás, o que redimiu Santa Maria Madalena de suas impurezas para torná-la um vaso puro e cristalino, como insistem alguns autores espirituais. Dela, São Francisco de Sales testemunha: "Não lhe é dado o nome de virgem, mas a verdade é que o merece pela perfeita pureza em que viveu depois da conversão" [2].

Note-se, por isso, que Clara não estava exagerando nem sendo audaciosa ao apresentar a pureza do amor esponsal de Jesus. De fato, Ele não só não agride como também restaura o que foi agredido pela violência do pecado.

A cultura contemporânea, na contramão do que propõe a espiritualidade cristã, dissemina exatamente o oposto do amor restaurador. Trata-se, ao contrário, de impor uma lascividade agressiva tanto às mulheres quanto aos homens, que os reduz a animais dominados pelos instintos e pelas paixões. Isso gera a insegurança afetiva, os desarranjos familiares, a opressão de um sexo sobre o outro, as ideologias de gênero e por aí vai. Na verdade, tanto as mulheres vão perdendo a sua natural feminilidade, para se adaptarem aos estereótipos da moda, quanto os homens se tornam menos viris, desorientados pela propaganda gay e antimasculina. As famílias não têm mais pai nem mãe, e por isso delegam suas responsabilidades ao Estado usurpador e autoritário.

Como seria bom se homens e mulheres, de acordo com a vocação específica de cada um, se espelhassem no amor esponsal entre Jesus e suas almas esposas. Tal esforço tornaria os namoros mais castos e os casamentos menos conflituosos, pois nem esposa nem esposo procurariam apenas um corpo para ser usado e descartado, mas uma pessoa com quem pudessem compartilhar toda a existência sem correr o risco de uma separação. A alegria de um matrimônio depende da maneira e da ordem em que a família ama a Deus e a si mesma.

Peçamos a intercessão de Santa Clara de Assis neste dia para que ela, amparada em seu Amado Esposo, limpe o céu nublado que turva a visão das famílias e as impede de ver a luz restauradora do amor de Cristo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Santa Clara, Primeira Carta: FF, 2862.
  2. São Francisco de Sales, X, 86. Sermão no dia de Santa Maria Madalena.

| Categoria: Fé e Razão

Jesus não existiu, foi casado e teve filhos

Os “estudiosos” ainda não se decidiram se Jesus não existiu ou se foi casado e teve filhos. Para o efeito que eles pretendem alcançar, porém, nada disso realmente importa. Qualquer hipótese é aceitável, desde que diga o contrário do que está na Bíblia.

De tempos a tempos, depara-se-nos a notícia de que Jesus de Nazaré não existiu. A fonte da "boa-nova" é sempre algum estudo histórico seríssimo, que só a censura eclesiástica e os escrúpulos para com o sentimento religioso do povo puderam reprimir durante os últimos dois milénios. No entanto, já aprendi com a experiência destas coisas a suspender a minha opinião sobre estes estudos, pelo menos até que a maior parte dos que murmuram sobre eles, bem como a maior parte daqueles que os fazem, consiga decidir definitivamente se Jesus deveras não existiu ou se foi casado e teve filhos.

A impressão que fica é que qualquer hipótese é aceitável desde que diga o contrário do relato evangélico, ora afirmando que Jesus não existiu, ora atribuindo-lhe uma existência inusitada. Talvez um dia os cépticos venham a descobrir que estas teorias não passam pelo crivo do cepticismo e que a hipótese mais parcimoniosa é, afinal, a de que Jesus existiu, não casou, teve um ministério público nas cidades da Palestina, foi crucificado entre salteadores, morreu, e na manhã de Domingo o túmulo em que o haviam depositado estava vazio.

É claro que existem algumas boas razões para não acreditar nos estudos que concluem pela inexistência de Jesus e a maior razão entre elas é o facto de as testemunhas oculares estarem perfeitamente convencidas do contrário, o que é um aspecto que nenhum historiador digno do nome pode ignorar. Contudo, uma vez que os académicos que negam a existência do humilde carpinteiro de Nazaré parecem apostados em negligenciar essas testemunhas por terem acreditado no que viram, há que citar-lhes as palavras de outros que puderam informar-se razoavelmente sobre os acontecimentos, embora não fossem cristãos. A investigação dos relatos judaicos e pagãos da época, escritos por homens que não tinham o menor interesse em favorecer com as suas palavras a pregação cristã nascente, confirma notavelmente a narrativa ortodoxa da vida de Jesus de Nazaré.

A ajudar a nossa pesquisa, o historiador Lawrence Mykytiuk publicou recentemente um artigo em que sintetiza as informações sobre a vida de Jesus contidas nas principais fontes pagãs e judaicas. Mykytiuk nomeia vários autores antigos, mas é suficiente por agora concentrarmos a atenção em apenas três fontes — o pagão Tácito, o judeu Josefo e os escritos rabínicos dos primeiros séculos da era cristã.

Tácito é um formidável historiador da vida em Roma no primeiro século depois de Cristo. Era um homem de grande reputação entre os seus contemporâneos que foi procônsul na Turquia e senador em Roma. É no seu trabalho mais extenso, os Anais, posto por escrito no início do segundo século, no capítulo XV, 44, que Tácito fala de Cristo. As breves palavras que escreve sobre Jesus aparecem a propósito da perseguição que o imperador Nero moveu contra os cristãos. O parágrafo que redigiu, marcado por um laivo de desprezo pela «letal superstição» cristã, menciona Cristo - «Christus» - como fundador desse «mal». Esse homem, proveniente da Judeia, conta-nos Tácito, foi executado no tempo do imperador Tibério, às ordens do procurador Pôncio Pilatos. Este extraordinário pedaço de literatura antiga não apenas confirma a existência do fundador da nova religião, o Cristo, como confirma a narrativa da sua morte e o tempo em que ocorreram os eventos da vida de Jesus, algures entre os anos 26 e 36 da era cristã, o período em que Pôncio Pilatos foi procurador da Judeia enquanto Tibério era imperador.

O sacerdote hebraico, Flávio Josefo, que foi deportado para Roma por ocasião da revolta judaica contra Roma, iniciada em 66 d.C., é vulgarmente citado na presente questão por causa do que escreveu sobre Jesus no décimo oitavo livro das suas Antiguidades Judaicas, excerto que é conhecido pelos historiadores como Testimonium Flavianum. Outra referência que fez a Jesus, no vigésimo livro daquela obra, mais discreta e muito menos conteste, costuma passar despercebida. Esta menção está inserida na narrativa da sentença de morte de Tiago, proferida pelo sumo sacerdote Ananias. Tiago era um nome muito comum na época e Josefo precisou de distinguir claramente a pessoa de quem estava a falar naquele trecho. Então, associou o nome de Tiago a outro nome, que, aparentemente, o tornaria claramente reconhecível, o nome do seu primo Jesus.

Porém, como o nome Jesus era também de uso frequente naquela época, Josefo diferenciou a pessoa a que se referia escrevendo que era aquele a quem chamavam o Messias, ou, em latim, «Christus». A menção incidental de Jesus, servindo apenas a função de identificar Tiago, só faz sentido se tratar de alguém que realmente existiu e que poderia ser um ponto de referência para os leitores da época. Josefo parece considerar que a mera indicação do parentesco com Jesus para distinguir Tiago é bastante, o que sugere, como hipótese mais provável, que Jesus já deveria ser conhecido do leitor por alguma menção feita anteriormente na obra — ao que tudo indica, o célebre passo do décimo oitavo livro. Este excerto, que confirma, entre outros aspectos, a história do julgamento e crucificação de Jesus, merece considerações mais demoradas, para as quais devolvo o leitor ao artigo de Mykytiuk.

O testemunho que mais me impressiona sobre Jesus é aquele que é dado pelos seus inimigos. Aqueles contemporâneos do primeiro século a quem Jesus foi mais incómodo seriam aqueles que teriam todo o interesse em contar a verdade sobre o mito de Jesus, mito que seria singularmente frágil, uma vez que os cristãos pregavam que o seu mestre havia tido um ministério público nas cidades da Galileia. No entanto, não o fizeram. As autoridades judaicas da época e as tradições rabínicas falavam de Jesus como se ele tivesse realmente existido e chegaram mesmo a voltar contra o Nazareno os estranhos acontecimentos da sua vida, tal como já o haviam feito antes, quando disseram que era pelo poder do príncipe dos demónios que Ele expulsava os demónios. Pergunto-me se não seria poupar dores de cabeça e arrelias ter logo dito que ele não existira — a não ser que dizê-lo fosse um perfeito disparate; a não ser que Ele tivesse mesmo existido.

Como nota Mykytiuk, a esmagadora maioria dos historiadores não questiona a existência de Jesus — as vozes que bradam no deserto para a negar, quaisquer que sejam os motivos pelos quais o fazem, não o fazem, certamente, por motivos científicos.

É óbvio que estas fontes vêm trazer um grande reforço à tese de que Jesus foi casado e teve filhos, uma vez que existiu para o efeito. Talvez seja de esperar, portanto, um consenso entre os autores de estudos sobre de que maneira é que a Bíblia há-de estar errada.

Por Hugo Monteiro Dantas | Fonte: Senza Pagare | Destaques por Equipe CNP

| Categoria: Espiritualidade

Três meios para chegar à verdadeira humildade

A humildade é como o cimento que sustenta a base de um edifício; sem ela, é impossível manter-se de pé na vida espiritual.

Um dos obstáculos mais graves à vida de oração é a soberba. Esse vício, definido pelos manuais de ascética como um apetite desordenado pela própria excelência, costuma aparecer muito entre os principiantes na intimidade com Deus. O demônio os incita a um falso fervor tão grande a ponto de eles se acharem melhores e superiores aos outros. E, quando veem essa suposta superioridade ameaçada pela virtude de um amigo ou pessoa qualquer, não perdem a oportunidade para murmurar contra seus êxitos e obras.

A Igreja recomenda vivamente às vítimas desse mal o remédio da humildade. Em seus manuais, o Padre Antonio Royo Marín trata-a como "uma virtude derivada da temperança, que nos inclina a coibir ou moderar o desordenado apetite da própria excelência, dando-nos o justo conhecimento de nossa pequenez e miséria principalmente com relação a Deus" [1]. Embora não seja a maior de todas as virtudes, ela é fundamental para o progresso na santidade, pois coloca o sujeito no caminho da verdade e da justiça.

É humilde, portanto, aquele que tem conhecimento pleno de si mesmo e sabe perfeitamente que dele não pode sair nada de bom, a não ser que Deus o permita. "A verdade nos autoriza ver e admirar os bens naturais e sobrenaturais que Deus quis depositar em nós; mas a justiça nos obriga a glorificar não a beleza de uma paisagem contemplada em uma pintura, e sim o artista que a pintou", exemplifica o Padre Royo Marín [2]. Pode-se pensar também no testemunho do então Cardeal Joseph Ratzinger, ao apresentar-se pela primeira vez como Papa na sacada da Basílica de São Pedro: um "pobre e humilde servo da vinha do Senhor", que se sentia consolado por considerar que "Deus sabe trabalhar com instrumentos insuficientes".

A humildade é necessária sobretudo para remover os obstáculos naturais à graça: " Deus resiste aos soberbos, mas concede a graça aos humildes" (Tg 4, 6). De fato, Santa Teresa tem razão quando compara essa virtude ao cimento que sustenta todo o edifício espiritual. Por isso, sem desconsiderar o seu grau de dificuldade, os aspirantes à santidade devem se esforçar por serem humildes, andando sempre pelas vias da verdade e da justiça.

O Padre Royo Marín indica três principais "meios para se chegar à verdadeira humildade". Ei-los abaixo.

1. Pedir incessantemente a Deus

Como todo dom de Deus, a humildade também é uma graça que somente Ele pode conceder aos que a desejam e lha suplicam. Há uma ladainha escrita pelo Cardeal Merry del Val, Secretário de Estado de São Pio X, que pode ser recitada todos os dias nesta intenção:

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-me.
Do desejo de ser estimado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser amado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser conhecido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser honrado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser louvado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser preferido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser consultado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, ó Jesus.

Do receio de ser humilhado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser desprezado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de sofrer repulsas, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser caluniado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser esquecido, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser ridicularizado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser infamado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser objeto de suspeita, livrai-me, ó Jesus.

Que os outros sejam amados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros sejam estimados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam elevar-se na opinião do mundo, e que eu possa ser diminuído, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser escolhidos e eu posto de lado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser louvados e eu desprezado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser preferidos a mim em todas as coisas, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser mais santos do que eu, embora me torne o mais santo quanto me for possível, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

2. Pôr os olhos em Jesus Cristo, modelo incomparável de humildade

O Padre Royo Marín recorda que foi o próprio Cristo quem "nos convidou a pôr os olhos n'Ele, quando nos disse com tanta suavidade e doçura: 'sede discípulos meus, porque sou manso e humilde de coração' ( Mt 11, 29)" [3]. Desse modo, o grande teólogo da vida interior indica quatro pontos sobre Cristo como temas para nossa meditação:

  1. a vida oculta, quando Ele se humilhou no seio da Virgem Maria e se fez Filho de um simples carpinteiro;
  2. a vida pública, com sua dedicação aos pobres e serviço aos mais simples;
  3. a paixão, ocasião em que lavou os pés dos discípulos e deixou-se ser humilhado e açoitado pela nossa salvação; e
  4. a Eucaristia, ápice de sua entrega com o ocultamento também da natureza humana, e por todas as descortesias e ofensas que aceita no Sacrário.

3. Esforçar-se por imitar Maria, Rainha dos humildes

Finalmente, o Padre Royo Marín recorda o modelo daquela que sempre se considerou a pobre e humilde escrava do Senhor. "Apenas fala, não chama a atenção em nada, se dedica às tarefas mais próprias de uma mulher no pobre casebre de Nazaré, aparece no calvário como mãe do grande fracassado…" Estas são apenas algumas das características lembradas pelo padre para apresentar a humildade de Nossa Senhora. Assim, afirma que "sob seu olhar maternal a alma há de praticar a humildade de coração para com Deus, para com o próximo e para consigo mesma" [4].

Essas são dicas valiosas do Padre Royo Marín que devem urgentemente ser colocadas em prática por todo fiel cristão. O orgulho, mais do que os pecados contra a castidade, ofendem diretamente o Coração de Jesus, pois demonstram uma atitude de altivez em relação à Providência divina. Lembrem-se que o demônio não pecou contra o sexto mandamento, mas contra o primeiro. De nada adianta ser puro como um anjo, mas soberbo como um diabo [5].

Busquemos, portanto, a humildade para que todas as nossas outras virtudes brilhem ainda mais pela graça de Deus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Notas e Referências

  1. A. Royo Marín, Ser ou Não Ser Santo: Eis a Questão. Trad. port. de Ricardo Harada. Campinas: Ecclesiae, 2016, p. 274.
  2. Id., p. 277.
  3. Id., 280.
  4. Id., 283.
  5. Vale a pena destacar que, embora a Virgem de Fátima tenha alertado com especial atenção contra os "pecados da carne" — e o próprio Santo Tomás reconheça "que o diabo alegra-se muito com a luxúria porque este pecado é de adesão extrema", sendo "difícil ao homem livrar-se dele" (S. Th. I-II, q. 73, a. 5, ad 2) — é a soberba, e não a impureza sexual, o mais grave de todos os pecados (cf. S. Th., II-II, q. 162, a. 5).

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O que diz a Igreja sobre a comunicação com os mortos?

Nós, cristãos católicos, acreditamos na imortalidade da alma e professamos nossa fé “na comunhão dos santos”. Não seria possível, então, que os falecidos se comunicassem conosco?

Por Dom Frei Boaventura Kloppenburg — Nós cristãos católicos admitimos e proclamamos a imortalidade da alma. Cremos na sua sobrevivência consciente logo depois da separação do corpo pela morte. Acreditamos que as almas dos falecidos continuam solidárias com os que ainda vivemos nesta peregrinação terrestre. Professamos nossa fé na comunhão dos santos. Podemos comunicar-nos com os falecidos mediante a oração invocativa.

Não seria possível, então, que os falecidos também se comunicassem conosco?

A doutrina cristã sobre a comunhão dos santos se refere à comunicação mútua de bens espirituais, no plano inteiramente imperceptível da fé. É certo que a Bíblia menciona várias vezes aparições perceptíveis de espíritos do além. Assim o evangelista Lucas nos relata que "o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria. Entrando na casa onde ela estava, disse-lhe: Alegra-te, cheia de graça, o Senhor é contigo" (Lc 1, 26-28). Jesus ressuscitado apareceu a Saulo a caminho de Damasco e falou com ele (cf. At 9). A Igreja aprovou aparições de Nossa Senhora em Lourdes e em Fátima.

Trata-se, nestes casos, evidentemente, de comunicações perceptíveis vindas do além. A fé cristã, por conseguinte, admite não somente a mera possibilidade de comunicações sensíveis, mas afirma fatos reais deste tipo de trato entre o além e o aquém.

Não devemos, porém, esquecer que Lucas nos informa que o Anjo "foi enviado por Deus". Quem negará a Deus todo-poderoso a capacidade de enviar-nos seus mensageiros?

Quando Deus manda, a iniciativa é sua; e a conseqüente manifestação do além toma para nós um caráter espontâneo.

Bem outra é a situação quando a iniciativa é nossa, querendo nós provocar alguma conversação com entidade do além. Quem pretende provocar a manifestação de algum falecido para dele receber mensagem ou notícia pratica um ato chamado pelos antigos de necromancia, expressão que vem do grego nekrós = falecido e mantéia = adivinhação. E quem intenta comunicar-se com o além com o fim de colocá-lo a serviço do homem realiza um ato já conhecido pelos antigos como magia. Quando a esperada ação da evocada entidade do além é a favor do homem ou para o bem, chama-se magia branca, mas será sempre "magia". E se for para o mal, será magia negra ou malefício, feitiçaria, bruxaria.

Tais comunicações provocadas do além, seja na forma de necromancia, seja na de magia (branca ou negra, pouco importa), são conhecidas também como evocação. Há diferença fundamental entre invocação e evocação: esta sempre pretende uma comunicação perceptível provocada por iniciativa do homem; aquela é apenas uma forma de prece ou súplica.

É evidente que a invocação é um ato bom e cristão, expressão da comunhão dos santos.

Mas que dizer da evocação?

Para esta pergunta recebemos da revelação divina resposta clara e insistente:

  • Êxodo 22, 17: "Não deixarás viver os feiticeiros". Aqui, a palavra "feiticeiros" engloba todos aqueles que praticam qualquer tipo de evocação: necromantes e magos, sem excluir os que se entregam à magia branca. Deviam ser condenados à morte.
  • Levítico 19, 31: "Não vos voltareis para os necromantes nem consultareis os adivinhos, pois eles vos contaminariam. Eu sou Iahweh, vosso Deus".
  • Levítico 20, 6: "Aquele que recorrer aos necromantes e aos adivinhos para ter comunicação com eles, voltar-me-ei contra esse homem e o exterminarei do meio de seu povo". Portanto são condenados também aqueles que simplesmente consultam os necromantes.
  • Levítico 20, 27: "O homem ou a mulher que entre vós forem necromantes ou adivinhos serão mortos; serão apedrejados, e o seu sangue cairá sobre eles".
  • Deuteronômio 18, 10-14: "Que em teu meio não se encontre alguém que faça presságio, oráculos, adivinhação ou magia, ou que pratique encantamentos, que interrogue espíritos ou adivinhos, ou evoque os mortos, pois quem pratica essas coisas é abominável a Iahweh, e é por causa dessas abominações que Iahweh teu Deus os desalojará em teu favor. Tu serás íntegro para com Iahweh teu Deus. Eis que as nações que vais conquistar ouvem oráculos e adivinhos. Quanto a ti, isso não te é permitido por Iahweh teu Deus".
  • 2 Reis 17, 17, enumerando as infidelidades de Israel, pelos quais foi castigado: "... Praticaram a adivinhação e a feitiçaria e venderam-se para fazer o mal na presença de Iahweh, provocando sua ira. Então Iahweh irritou-se sobremaneira contra Israel e arrojou-o para longe de sua face…"
  • 2 Reis 21, 6: descrição dos crimes do rei Manassés: "Praticou encantamentos e a adivinhação, estabeleceu necromantes e adivinhos e multiplicou as ações que Iahweh considera más, provocando assim a sua ira".
  • Isaías 8, 19-20: o profeta se levanta contra aqueles que dizem: "Consultai os necromantes e os adivinhos que sussurram e murmuram".
  • Destaque especial merece a consulta do rei Saul à necromante de Endor, narrada em 1 Samuel 28, 3-25. Estando em dificuldades na guerra contra os filisteus, e sem saber o que fazer, o rei Saul disse aos seus servos: "Buscai-me uma necromante para que eu lhe fale e a consulte". Informaram-lhe os servos que havia uma na localidade de Endor, ao sul do monte Tabor. Saul então disfarçou-se e, de noite, acompanhado de dois homens, foi à casa da necromante (os espíritas diriam "médium") e lhe pediu para evocar o falecido Samuel. Segundo o texto, Samuel de fato compareceu e disse a Saul: "Por que perturbas o meu repouso, evocando-me?" Saul respondeu: "É que estou em grandes angústias. Os filisteus guerreiam contra mim, Deus se afastou de mim, não me responde mais. Então vim te chamar para que me digas o que tenho que fazer". Respondeu Samuel: "Por que me consultas, se Iahweh se afastou de ti e se tomou teu adversário?" E lhe anunciou os castigos de Deus.
  • Em Eclesiástico 46, 20 lemos a respeito deste caso de evocação: "Mesmo depois de morrer, (Samuel) profetizou, anunciou ao rei (Saul) seu fim, do seio da terra elevou sua voz para profetizar, para apagar a iniqüidade do povo". Segundo os textos citados, parece que se deve admitir que o falecido Samuel, evocado pela necromante de Endor, realmente compareceu. Todo o contexto, todavia, deixa evidente que se trata de caso excepcional, sendo a evocação não a causa, mas a ocasião aproveitada por Deus para autorizar o comparecimento do falecido profeta e anunciar os castigos ao rei desobediente e infiel. Deste episódio singular não se pode inferir que nos outros casos os necromantes e magos conseguissem de fato fazer comparecer os falecidos evocados.
  • Aliás, em 1 Crônicas 10, 13-14, somos assim informados acerca do fim do rei: "Saul pereceu por se ter mostrado infiel para com Iahweh, não seguira a palavra de Iahweh e, além disso, interrogara e consultara uma necromante. Não consultou a Iahweh, que o fez perecer e transferiu a realeza a Davi, filho de Jessé".

Clara, repetida, enérgica e severíssima é, pois, a proibição divina de evocar os falecidos. E este mandamento divino não foi revogado na Nova Aliança. Eis alguns exemplos:

  • Em Atos 13, 6-12, Paulo e Barnabé encontram em Patos um judeu "mago e falso profeta", que se opunha à missão apostólica dos dois. Paulo, repleto do Espírito Santo, lhe disse: "Filho do diabo, cheio de toda a falsidade e malícia, inimigo de toda justiça, não cessas de perverter os retos caminhos do Senhor? Eis que agora o Senhor faz pesar sobre ti a sua mão".
  • Em Atos 16, 16-18, Paulo, estando em Filipos, dá com uma jovem escrava "que tinha um espírito de adivinhação e obtinha para seus amos muito lucro, por meio de oráculos". Paulo disse ao espírito que estava na jovem: "Eu te ordeno em nome de Jesus Cristo: sai desta mulher!" E o espírito saiu no mesmo instante.
  • Em Atos 19, 11-20 descreve-se a atividade e a pregação de Paulo em Éfeso, com este resultado: "Muitos daqueles que haviam crido vinham-se confessar e revelar suas práticas. Grande número dos que se haviam dado à magia amontoavam os seus livros e os queimavam em presença de todos. E estimaram o valor deles em cinqüenta mil peças de prata". Deviam ser muitos os livros de magia! O fato de eles queimarem estes livros só se explica se admitirmos que o Apóstolo falou fortemente contra as práticas da magia.
  • Na carta aos Gálatas (5, 20-21) declara o mesmo Apóstolo que os que praticam a magia "não herdarão o Reino de Deus".
  • E São João, no Apocalipse, revela que a porção dos magos se encontra no lago ardente de fogo e enxofre (21, 8); e que, na hora do julgamento, os magos ficarão de fora da Cidade Eterna (22, 15).

Posteriormente, a Igreja sempre se manteve fiel a esta rigorosa interdição divina de evocar os falecidos. No último Concílio, o Vaticano II, em 1964, a Constituição Lumen Gentium, temendo que a doutrina sobre nossa comunicação espiritual com os falecidos pudesse dar azo a interpretações do tipo espiritista, acrescentou ao texto do n. 49 a nota n. 2 (no site do Vaticano, n. 147), "contra qualquer forma de evocação dos espíritos", coisa que, esclareceu a comissão teológica responsável pela redação do texto, nada tem a ver com a "sobrenatural comunhão dos santos". A comissão definiu então mais claramente o que se proibia: "A evocação pela qual se pretende provocar, por meios humanos, uma comunicação perceptível com os espíritos ou as almas separadas, com o fim de obter mensagens ou outros tipos de auxílio".

O Concílio Vaticano II nos remete então a vários documentos anteriores da Santa Sé (já no dia 27 de setembro de 1258 o papa Alexandre IV falara disso), principalmente à declaração de 4 de agosto de 1856 (cf. Denz. 2823-2825) e à resposta de 24 de abril de 1917 (cf. Denz. 3642). Na declaração de 4 de agosto de 1856, precisamente quando Allan Kardec se iniciava no espiritismo, era repetida a proibição de "evocar as almas dos mortos e pretender receber suas respostas". No documento de 24 de abril de 1917 se declarava ilícito "assistir a sessões ou manifestações espiritistas, sejam elas realizadas ou não com o auxílio de um médium, com ou sem hipnotismo, sejam quais forem estas sessões ou manifestações, mesmo que aparentemente simulem honestidade ou piedade; quer interrogando almas ou espíritos, ou ouvindo-lhes as respostas, quer assistindo a elas com o pretexto tácito ou expresso de não querer ter qualquer relação com espíritos malignos".

No dia 31 de março de 1892 a Santa Sé publicou sua resposta oficial a um caso imaginado de evocação no qual as circunstâncias descritas eram as mais favoráveis. Eis a exposição do caso, a pergunta e a resposta:

"Tito, depois de excluir qualquer comunicação com o mau espírito, tem o costume de evocar as almas dos defuntos. Costuma proceder da seguinte maneira: Quando está só, sem outra preparação, dirige uma prece ao príncipe da milícia celeste a fim de obter dele o poder de comunicar-se com o espírito de determinada pessoa. Espera algum tempo; depois, enquanto conserva a mão pronta para escrever, sente um impulso que lhe dá a certeza da presença do espírito. Expõe então as coisas que deseja saber e sua mão escreve as respostas a estas questões. Tais respostas concordam inteiramente com a fé católica e a doutrina da Igreja acerca da vida futura. Geralmente elas falam sobre o estado em que se encontra a alma do tal falecido, pedem sufrágios etc. É lícito proceder desta maneira?" — A resposta oficial, aprovada pelo papa Leão XIII, foi categórica: " O que foi exposto não é permitido".


Transcrito e levemente adaptado do livro " Espiritismo, orientação para católicos",
de Dom Frei Boaventura Kloppenburg (Loyola), pp. 26-27.

| Categoria: Espiritualidade

Um puxão de orelhas nos católicos sonolentos

“Onde falta vontade enérgica, não há homem perfeito”. Escutem os católicos sonolentos que esperam sentados a vinda da Terra Prometida.

Pelágio foi um monge católico, oriundo da Bretanha e contemporâneo de Santo Agostinho, que defendia a autossuficiência da natureza humana em relação à luta contra o pecado. Segundo ele, o homem não precisaria do auxílio da graça para ser santo, mas apenas de uma força de vontade e fidelidade ao exemplo de Cristo na Cruz. Isso, por si só, bastaria para que qualquer cristão alcançasse as mais altas moradas do Castelo Interior.

Apesar de condenada pelo XV Sínodo de Cartago, em 418, essa heresia, chamada posteriormente de pelagianismo, suscitou ainda outros defensores nos anos seguintes. Um deles, João Cassiano, desenvolveu uma espécie de "semipelagianismo", defendendo a primazia da ação humana sobre a intervenção divina, isto é, a graça pode auxiliar o gênero humano no cultivo das virtudes, mas a iniciativa é sempre do homem. O Magistério da Igreja precisou intervir outra vez, e, em 526, as doutrinas de Cassiano também foram condenadas e consideradas heréticas pelo colégio episcopal.

Passados tantos anos desde a condenação do pelagianismo e do semipelagianismo, a doutrina da Igreja tem consciência bem sólida da necessidade da graça para o bom desempenho humano não só em assuntos espirituais como em qualquer outro campo em que o homem possa intervir. De fato, não há nada que o ser humano faça de bom que não tenha como origem e termo a Providência divina. Mutatis mutandis, um político precisa tanto da graça sobrenatural para tomar decisões corretas quanto um sacerdote para administrar sua paróquia. Não é preciso muita teologia para perceber como a classe política brasileira está, no sentido exato da palavra, desgraçada.

Não restam dúvidas, portanto, de que o pelagianismo é um erro. Existe, por outro lado — e é para isso que se deve chamar atenção, pois, em parte, disto depende a vitória dos que desejam a santidade —, um perigo de ordem psicológica puramente natural para o cristianismo, como explica o padre Royo Marín, que é a falta de energia de caráter, ou seja, o desejo insuficiente e moroso de busca pela união de amor com Deus [1]. O sujeito quer ser santo, mas não coopera efetivamente com Deus nesse processo, impedindo-O de atuar livremente em sua natureza. Trata-se, portanto, de uma falta de disposição para corresponder às inúmeras iniciativas e inspirações divinas do Senhor.

Notem que esse comportamento é, por assim dizer, quase a antítese do pelagianismo: neste se rejeita a graça por conta de uma soberba, isto é, querer conquistar o Céu pelas próprias forças; naquele se rejeita a graça porque não se tem entusiasmo nem determinação para empreender uma empresa tão grande quanto a perfeição cristã. Em suma, esses pobres covardes acham que a santidade é para apenas alguns eleitos de Deus que nasceram imaculados e que, se acaso Deus os quiser santos, Ele os fará sem qualquer cooperação humana.

Ora, Pelágio estava mesmo errado quando defendeu a autossuficiência para a perfeição cristã. Mas a condenação da Igreja às suas doutrinas não inclui, de maneira alguma, aquela vibração interior do cristão que se deixa generosamente mover por Deus. "Onde falta vontade enérgica", diz o padre Royo Marín, "não há homem perfeito" [2]. A graça, portanto, ainda supõe a natureza, elevando-a, aperfeiçoando-a e colocando-a a seu serviço. Vale lembrar que o mesmo São Paulo que se regozija em suas fraquezas porque lhe basta a graça de Deus, é o São Paulo que compara a vida cristã a uma corrida, na qual se corre por uma coroa incorruptível ( 1Cor 9, 24). Como nos esportes, atividade que exige garra, disciplina e determinação, também a vida de oração necessita dessa disposição interior do homem.

Em uma radiomensagem de 1942, com um tom bastante enfático e varonil, como costumam ser as exortações de um bom pai de família, o então Sumo Pontífice Pio XII convocou o orbe católico a uma nova cruzada pela restauração da sociedade que, já naquela época, definhava sob os erros políticos e filosóficos da moda:

O preceito da hora presente não é lamento, mas ação; não lamento sobre o que foi ou o que é, mas reconstrução do que surgirá e deve surgir para o bem da sociedade. Pertence aos membros melhores e mais escolhidos da cristandade, penetrados por um entusiasmo de cruzados, reunirem-se em espírito de verdade, de justiça e de amor, ao grito de "Deus o quer", prontos a servir, a sacrificar-se, como os antigos cruzados. Se então se tratava da libertação da terra santificada pela vida do Verbo de Deus encarnado, hoje trata-se, se assim podemos falar, de uma nova travessia, superando o mar dos erros do dia e do tempo, para libertar a terra santa espiritual, destinada a ser a base e o fundamento das normas e leis imutáveis para as construções sociais de interna e sólida consistência.

Atenção para estas palavras: a nova cruzada " pertence aos membros melhores e mais escolhidos da cristandade". O atleta que deseja ser membro da seleção principal de seu time, deve, como manda o treinador, submeter-se a uma pesada e constante série de exercícios e dieta rigorosa, a fim de que seu corpo esteja melhor preparado para a disputa. Também no combate espiritual só resistem os mais bem preparados, os melhores e mais empenhados da milícia de Deus. Daí a ênfase de Pio XII. Seu discurso, mais do que retórica apaixonada, é um apelo à vivacidade, um puxão de orelhas nos católicos sonolentos que esperam sentados a vinda da Terra Prometida.

Não é pelagianismo levar uma vida regrada segundo as tradicionais práticas de mortificação e ascese. "Com uma vontade enérgica pode-se chegar à plena possessão de si mesmo, ao domínio e emancipação das paixões, à plena liberação das malsãs influências exteriores" [3]. Se a primeira condição para a santidade é o acolhimento humilde das iniciativas de Deus, a segunda é essa resposta generosa que remove todos os obstáculos de ordem natural à graça santificante. Para ser inteiramente santo, é preciso ser homem por inteiro.

A exortação de Pio XII é atualíssima e precisa, mais que em tempos passados, ser correspondida pelos católicos. Contra a armadilha de uma falsa misericórdia, que amolece o caráter e suga a energia dos bons combatentes de Cristo, deve-se levantar uma nova Igreja Militante, de cujo exemplo de santidade e amor ao Evangelho emanem raios de luz sobre as trevas deste século. Que o Ano Santo de Nossa Senhora apresse logo o surgimento e triunfo dessa nova cristandade.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. A. Royo Marín, Ser ou Não Ser Santo: Eis a Questão. Trad. port. de Ricardo Harada. Campinas: Ecclesiae, 2016, p. 41.
  2. Id., p. 42.
  3. Id., ibid.

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Filhos são um dom de Deus, não um “direito”

Por trás da mentalidade que justifica os métodos reprodutivos condenados pela moral cristã está um erro tão básico quanto funesto: conceber o filho, não como um dom de Deus, mas como um direito e uma “commodity” a ser produzida e comercializada.

Por Leila Miller — Em nossa sociedade, os adultos têm "descoberto" e se arrogado novos "direitos" num ritmo assustador, e isto em detrimento dos verdadeiros direitos — inclusive os das crianças. Depois de ler há alguns anos o seguinte parágrafo do Catecismo, decidi pôr fim às minhas buscas. Eu nunca mais o esqueci, talvez porque a cultura em que vivemos o tenha esquecido completamente:

O filho não é algo devido, mas um dom. O "dom mais excelente do matrimônio" é uma pessoa humana. O filho não pode ser considerado como objeto de propriedade, a que conduziria o reconhecimento de um pretenso "direito ao filho". Nesse campo, somente o filho possui verdadeiros direitos: o "de ser fruto do ato específico do amor conjugal de seus pais, e também o direito de ser respeitado como pessoa desde o momento de sua concepção" (CIC 2378).

A Igreja está dizendo aos adultos: vocês não têm direito a um filho. Vocês têm um direito natural e de origem divina a muitas coisas, mas um filho não é uma delas.

E por quê? Porque a criança é um dom, um presente.

Talvez já tenhamos ouvido esta frase cá e lá, mas será que a entendemos de fato? Pensemos na natureza de todo e qualquer dom — trata-se de algo que, em si mesmo, nunca é "devido". Um dom é algo entregue livre e voluntariamente pelo doador; nunca é exigido nem reivindicado. Não podemos forçar quem quer que seja a dar-nos um presente, porque neste caso ele já não seria mais um presente.

A partir do momento em que um adulto acredita que ter um filho é um "direito" seu, a criança passar a ser vista como objeto de uma prestação que tem de ser satisfeita, quaisquer que sejam os meios necessários para isso. Tratar-se-ia de uma questão de justiça, uma vez que temos direito aos nossos direitos!

Mas quando nossas ideias chegam a este patamar (e isto aconteceu em nossa cultura), começamos a justificar os meios de "conseguir" o filho que nos é devido; a criança é agora uma commodity a ser produzida e adquirida. Além disso, visto que um filho é "considerado um objeto de propriedade", como diz a Igreja, tornam-se permitidas todas as formas de injustiça praticadas contra as crianças. Afinal de contas, o que é que fazemos com nossa propiedade? Ora, tudo o que quisermos: comprar, vender, manipular, dispor etc. Uma propriedade não tem absolutamente direito a nada.

Ainda assim, a Igreja diz às crianças: vocês têm o direito de nascer do ato conjugal daqueles que são seus pais. Vocês, crianças, são as únicas que "possuem verdadeiros direitos" nesse campo da existência humana.

Apesar das opiniões que por aí circulam, toda criança tem o direito natural e primordial de ser concebida a partir de um ato de amor entre seu pai e sua mãe, unidos em matrimônio. Fechemos os ouvidos ao murmúrio que nos rodeia, à falsa promessa de que "você pode ter tudo o que quiser". Não percamos de vista qual era o projeto originário de Deus, "no princípio", para o casamento e a família — a criança é fruto da união de seus pais em uma só carne. Esse projeto não foi alterado.

Ora, uma vez que a criança tem direito a ser o "fruto do ato específico do amor conjugal de seus pais", técnicas reprodutivas como, por exemplo, a FIV (fecundação in vitro), a doação de esperma e as chamadas "barrigas de aluguel" são sempre moralmente reprováveis. A advogada pró-vida Dorinda Bordlee, do Bioethics Defense Fund (Fundo de Defesa Bioética), chama a estes procedimentos "tráfico de reprodução humana": negociam-se contratos e investem-se vultosas somas de dinheiro para comprar gametas humanos. A concepção de uma criança é posta literalmente na mão de terceiros, e as mães e pais biológicos são alugados, comprados e vendidos como simples "partes" de um corpo.

Esta é uma verdade que nem todos estão dispostos a ouvir. Afinal, o que poderia haver de errado com o desejo de ter um filho, sobretudo quando se trata de casais inférteis e de boa vontade que, desesperados por trazer um bebê para casa, não têm a intenção nem de descartar os embriões "excedentes" durante um ciclo de FIV nem de "reduzir seletivamente" (ou seja, abortar) uma ou mais crianças, já que muitas são implantadas? A resposta é que não há nada de errado com o desejo em si. O desejo de um marido e uma mulher de ter um filho é bom e santo. Mas a boa intenção deles não justifica o uso de meios maus (cf. CIC 1750-1761).

A infertilidade é, de fato, uma cruz pesada, e os casais inférteis podem, sem dúvida nenhuma, servir-se de todas as tecnologias reprodutivas moralmente aceitáveis à disposição para tratar ou curar sua infertilidade, a fim de conceberem e criarem uma criança de modo natural. Aqui se incluem, por exemplo, as terapias hormonais e os fármacos que estimulam a ovulação ou facilitam a implantação do embrião. Há ainda as terapias holísticas (como a NaPro Technology), voltadas para a cura dos problemas de saúde responsáveis pela infertilidade, algo que as técnicas de reprodução artificial são incapazes de fazer.

Uma bela opção para os casais que ou não podem conceber, mesmo depois de um tratamento, ou que preferem renunciar a métodos terapêuticos é a adoção. Mas alguém poderia objetar: acaso a adoção não trata a criança como um "direito", e não como um dom? E o que pensar do fato de um filho adotado não ficar sob os cuidados do casal que o concebeu? Em primeiro lugar, precisamos ter em mente que a adoção se ordena, antes de tudo, a suprir as necessidades da criança, e não a satisfazer os desejos dos adultos (embora, é claro, isso possa ser uma feliz consequência). A adoção, portanto, consiste em recuperar o que a criança perdeu. É ela que possui aqui os direitos, não os adultos.

De acordo com o Catecismo, o outro direito fundamental de que a criança é titular é o de "ser respeitada como pessoa desde o momento de sua concepção". O "dom mais excelente do matrimônio", uma nova pessoa humana, é uma vida sagrada e inviolável, como todos nós o somos. Toda criança concebida vem ao mundo para amar e ser amada, e nunca, evidentemente, para ser morta. Esta realidade afirma e protege não somente a dignidade da criança, mas também a dignidade de toda pessoa, assim como a do matrimônio.

A criação e as leis de Deus são belas porque formam uma tapeçaria de verdades. Talvez fiquemos confusos e perdidos em uma cultura relativista e consequencialista; mas, quando voltamos à razão, quando esclarecemos nossas ideias e abrimos nosso coração para os primeiros princípios, todas as coisas vão para os seus devidos lugares e nos tornamos capazes de enxergar a beleza do perfeito projeto de Deus.

Fonte: Catholic.com | Tradução e adaptação: Equipe CNP