| Categoria: Espiritualidade

A fé católica não é autoajuda

O ser humano precisa de mais que arrepios e lágrimas para deixar-se pregar em uma cruz, para beijar leprosos ou para viver o celibato sacerdotal.

Há uma noção geral, nos dias de hoje, de que a fé religiosa seria apenas um sentimento. Daí que muitos pregadores, inclusive católicos, se esforcem amiúde para tocar os corações e arrancar lágrimas do público que devotamente acode às suas pregações, à procura de alguma solução para seus problemas, mais temporais que propriamente sagrados: a conta a pagar, o namoro que terminou, a inveja da vizinha, e por aí vai…

Esse tipo de vivência religiosa não deixa de gerar um problema: uma fé puramente sentimental, por mais "fervorosa" que seja, não exige obediência a qualquer revelação objetiva, dado que sua motivação parte propriamente de uma experiência particular, que pode variar segundo as diferentes condições e circunstâncias da pessoa. A consequência disso é lógica: se a fé é tão somente expressão de um sentimento ou de uma experiência íntima, como sugerem alguns teólogos modernos, então qualquer sentimento ou experiência religiosa são válidos. Como dizer, portanto, que o "batismo no Espírito Santo" é mais verdadeiro que as manifestações do terreiro de umbanda ou que as bênçãos de Alá?

Note-se, por isso, uma coisa: não é estranha a má vontade com que muitos olham para o fenômeno religioso, uma vez que ele se torna mais um delírio de mulheres apaixonadas do que atitude de gente sensata. O ser humano é por natureza um ser racional; ele naturalmente procura saber as causas dos fenômenos que se apresentam diante de seus olhos. Se a causa da fé é apenas um "um movimento do coração" — e não um dom gratuitamente dado por Deus, pelo qual o homem move racionalmente a sua vontade às verdades eternas —, iniciada está a marcha para o ateísmo, cujo primeiro passo foi dado 500 anos atrás por um monge agostiniano chamado Martinho Lutero.

Lutero foi quem primeiro mudou o conceito de fé, associando-o a "uma atitude interior" ou "disposição do sujeito", pela qual ele se relaciona subjetivamente com o conteúdo da Revelação. Em sua tradução da Carta aos Hebreus, o pai do protestantismo traduziu ὑπόστασις ("hipóstase") , o termo grego utilizado por São Paulo para definir a fé, por firmeza: "Fé é: permanecer firmes naquilo que se espera, estar convencidos daquilo que não se vê" (11, 1). Embora essa interpretação não seja de todo errada, ela não reflete o sentido mais profundo da palavra "hipóstase", tal como os Santos Padres e a Escolástica sempre a entenderam e ensinaram aos fiéis: "A fé não é só uma inclinação da pessoa para realidades que hão-de vir, mas estão ainda totalmente ausentes; ela dá-nos algo" [1].

Todavia, o subjetivismo de Lutero acabou prevalecendo na exegese bíblica, o que ocasionou, nos séculos seguintes, toda uma amálgama de heresias e contestações da Tradição, da Sagrada Escritura e do Magistério da Igreja, conforme denunciou São Pio X: "Neste caminho os protestantes deram o primeiro passo; os modernistas o segundo; pouco falta para o completo ateísmo" [2].

Qual seria, então, a definição correta de fé? Ora, o texto exato da Carta aos Hebreus é este: "A fé é 'hipóstase' das coisas que se esperam; prova das coisas que não se vêem". A palavra "hipóstase", aqui, quer dizer substância, isto é, "o que está debaixo". Esta é, portanto, a tradução correta do ensinamento de São Paulo, de acordo com os manuscritos da Igreja primitiva: " Est autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium". A fé, neste sentido, é algo mais que um sentimento; trata-se de um contato concreto e efetivo com as realidades divinas, uma relação com o ser, com a substância de Deus. E é por essa razão, ou seja, pela autoridade do ser de Deus, que o homem move racionalmente a sua vontade para o conteúdo das verdades reveladas.

O homem é movido pela fé porque ela o coloca efetivamente diante das maravilhas da eternidade, de modo que seu agir passa concretamente a ter outro fundamento. É por esse novo fundamento que tantos santos se entregaram ao martírio ou abandonaram todos os bens temporais para assumirem um estilo de vida totalmente austero. Ninguém pode mover-se a renúncias e sacrifícios tão eminentes apenas por um sentimento ou disposição interior. De fato, o ser humano precisa de mais que arrepios e lágrimas para deixar-se pregar em uma cruz, para beijar leprosos ou para viver o celibato sacerdotal.

Com efeito, pode-se enquadrar a fé dentro de um dos três gêneros de conhecimento humano. Há o conhecimento por meio da evidência direta, como também por meio de demonstração racional. A fé divina, por sua vez, pertence àquele conhecimento por testemunho de alguém; neste caso, o testemunho inequívoco da própria pessoa de Cristo. Pela evidência direta e por meio de demonstração racional, o homem consegue demonstrar a existência de Deus, como fizeram os primeiros filósofos pagãos ou mesmo cristãos na chamada Teodiceia. É preciso, no entanto, que Deus ilumine a razão humana a fim de que ela chegue àquele novo fundamento do Deus Uno e Trino e das "provas" de suas promessas: "Se alguém disser que a fé divina não se distingue do conhecimento natural de Deus e da moral, e que, portanto, para a fé divina não se requer que a verdade revelada seja crida por causa da autoridade de Deus que revela, seja anátema" [3].

Eis aí, portanto, o que devem fomentar os pregadores católicos. Eles devem ensinar os fiéis a pedirem o dom da fé divina, pela qual a experiência concreta com o fundamento de Deus torna-se acessível. É preciso buscar antes o Deus das consolações que as consolações de Deus. Se os santos choravam quando ouviam falar da Paixão de Cristo, não era simplesmente por um sentimento piedoso, mas pelo conhecimento fundamental de que as chicotadas contra o Salvador tinham como causa primeiríssima os pecados da humanidade.

Em última análise, a fé também é o início da vida eterna. Não é para espantar, portanto, que o inimigo de Deus queira iludir os cristãos, afastando-os da verdadeira fé e, por conseguinte, daquele fundamento, daquela substância que os leva a abandonar tudo pelo Reino dos Céus. Por isso, longe de buscar aplausos e lágrimas copiosas, o que o pregador católico deve colocar no coração dos fiéis é aquele desejo por um fundamento novo, incentivando-os a viverem inteiramente da graça, e não a partir de sentimentos, que são efêmeros. Foi esta experiência de fé verdadeira que arrancou Edith Stein do ateísmo e a colocou no Carmelo para tornar-se a mártir Santa Teresa Benedita da Cruz. Que teria acontecido se, em lugar do Livro da Vida, de Santa Teresa d'Ávila, a então Edith Stein houvesse lido alguns dos tantos livros de "autoajuda cristã" que circulam por aí?

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi (30 de novembro de 2007), n. 7.
  2. Papa São Pio X, Carta Encíclica Pascendi Dominici Gregis (8 de setembro de 1907).
  3. Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Dei Filius, Sobre a Fé, (24 de abril de 1870), cân. 2.

| Categorias: Doutrina, Igreja Católica

As pessoas mais difíceis de converter. Seria você uma delas?

Esta matéria é sobre um tipo difícil de converter, que acha que conhece a Cristo, que já vive o Evangelho e que já está bom o suficiente para ir para o Céu. Seria você, por acaso, uma dessas pessoas?

As pessoas mais difíceis de converter não são os que estão no mundo, mas os próprios católicos.

Ninguém se escandalize com isso, porque essa situação já foi denunciada várias vezes por pregadores de outros séculos. O pe. António Vieira, por exemplo, dizia que, "antigamente, batizavam-se os que eram convertidos; hoje, é preciso converter os que são batizados". Se a situação era assim no seu tempo, o século XVII, quanto mais em nossa época, em que a TV, a Internet e os meios de comunicação de uma forma geral são os maiores responsáveis por "formar" (ou deformar) as mentes das pessoas! Nunca foi tão fácil ser mundano, render-se aos encantamentos do mundo e esquecer-se de Deus, de nossa alma e das verdades eternas!

No entanto, este que é um verdadeiro drama — o de perder a Deus pelo pecado e deixar escapar pelas mãos a própria salvação — só é vivido verdadeiramente por quem tem fé. Aqueles que não a têm já estão entregues, rendidos, derrotados. E é deles principalmente que falamos quando nos referimos às pessoas mais difíceis de converter. É a católicos sem fé que queremos atingir com estas linhas.

Cumpre dizer, antes de mais nada, que não queremos pintar um quadro horrendo para os outros, enquanto mascaramos a nossa própria condição. Nossa santificação, o trabalho de nossa conversão, não é, evidentemente, obra de um dia ou de uma semana. Nós, que caminhamos por este vale de lágrimas, devemos estar sempre conscientes de que a presença da Santíssima Trindade em nós, pela graça, vai encerrada "em vasos de barro, para que todos reconheçam que este poder extraordinário vem de Deus e não de nós" (2Cor 4, 7). Não é nossa pretensão criar uma "casta" de iluminados dentro da Igreja, nem instituir algum tipo de "alfândega" para limitar as pessoas que atravessam a soleira de nossos templos. Essa exortação é mais um "convite à penitência comum", pois é assim que deve ser a correção fraterna feita a pecadores por… pecadores [1]. Em outras palavras, Cristo veio ao mundo para salvar os delinquentes e nós somos os primeiros deles (cf. 1Tm 1, 15)!

Partamos, porém, sem mais delongas, a uma breve descrição de como vive a maior parte de nossos autodenominados católicos.

Crêem eles, porventura? Talvez nos artigos do Creio, se tomados de modo simples; desdobrado o conteúdo que ali se encontra, certamente encontraremos muitos negando, por exemplo, a existência dos demônios ou da condenação eterna. Eles certamente não se negarão a repetir os artigos do Creio, um por um, quando se levantarem no domingo, durante a Missa, para rezá-lo; mas é que eles vão à Missa com tanta irregularidade, que muitas vezes sequer se dão conta de que estão tropeçando em uma e outra parte da oração.

Mas o que acontece quando alguém lhe mostra que faltar à Missa aos domingos é pecado mortal? E que é preciso confessar-se, portanto, antes de aproximar-se novamente da Sagrada Comunhão? Neste momento, o tipo a que nos referimos imediatamente desconversa, dá de ombros, tenta dizer alguma coisa para se desculpar e leva a sua vida do mesmo jeito, como se nada estivesse acontecendo. No próximo domingo em que for à Missa, talvez daí a um mês — ou mesmo durante a semana, quando sentir vontade —, ele entrará tranquilamente na procissão para receber Jesus Eucarístico, sem nenhum escrúpulo ou remorso de consciência.

Esse exemplo é ainda muito simples, porque faz referência apenas ao preceito dominical. Se fosse tratado, no entanto, o problema do sexto mandamento, certamente a resistência seria ainda maior. Onde já se viu não poder comungar, por exemplo, quem usa anticoncepcionais? Ou quem dorme com o namorado ou a namorada? Ou quem assiste a vídeos pornográficos ou cai no pecado da masturbação? Ou até, e aqui se rasgam definitivamente as vestes, quem consente em maus pensamentos e já pratica o adultério com os outros no coração?

Esse tipo, porém, é empedernido, é teimoso. Quer participar das cerimônias católicas, mas sem levar muito a sério a Igreja da qual diz fazer parte. Quer ser ativo na liturgia, participar das pastorais e dos movimentos, mas isso é o bastante. Ele traça uma linha para demarcar o limite da sua entrega: até aqui eu vou, até aqui eu sou católico, até aqui eu obedeço à Igreja. Ir além — ele já estabeleceu, ex cathedra, em sua mente — é "moralismo", "radicalismo", "extremismo".

Por que é tão difícil mudar a cabeça de pessoas assim, é muitíssimo fácil de perceber. Diferentemente de quem vive no mundo, despreocupado de tudo e desligado de qualquer prática religiosa, esse tipo de católico acha que conhece a Cristo, acha que já vive o Evangelho, acha que já está bom o suficiente para ir para o Céu. Se estivesse fora, assumisse a sua ignorância e entrasse na Igreja com a intenção de aprender e reformar as próprias opiniões, certamente produziria muito mais frutos do que no atual estado em que se acha.

Muito apropriadas nesse sentido são as palavras do bem-aventurado John Henry Newman, durante um discurso a pessoas de várias religiões:

"Ninguém deveria entrar na Igreja sem o firme propósito de aceitar a sua palavra em todas as matérias de doutrina e moral, e isso por ela vir diretamente do Deus da Verdade. Tu deves enfrentar a matéria e calcular os gastos (cf. Lc 14, 28). Se não te aproximas com esse espírito, tu sequer deverias aproximar-te: grandes e pequenos, instruídos e ignorantes, todos devem vir para aprender. Se tens essa disposição, dificilmente algo dará errado, pois tens uma boa base; do contrário, se vens com qualquer outra intenção, é melhor que esperes até que te tenhas livrado dela. Tu deves vir à Igreja, eu te digo, para aprender; deves vir, não para trazeres a ela tuas próprias noções, mas com a intenção de ser sempre um aprendiz; deves vir com a intenção de tomá-la como parte de tua herança e de jamais apartar-te dela. Não venhas como para um experimento; não venhas como para arrumar assentos em uma capela, ou bilhetes para uma conferência; vem a ela como para tua casa, para a escola de tua alma, para a Mãe dos Santos e vestíbulo dos céus." [2]

A recomendação que o Cardeal Newman faz em seu discurso é importante porque lembra que existe, na Igreja Católica, uma identidade substancialmente diferente do protestantismo, religião muito comum na Inglaterra de sua época (e, agora, cada vez mais, também no Brasil). Enquanto entre os protestantes cada cristão é, por assim dizer, o seu próprio papa, a única e verdadeira Igreja de Cristo é una. Isso significa que um católico, quando crê, não é no que quer, mas no que recebeu de outrem; quando leva uma vida moral, não é com base em suas próprias ideias, mas nos ensinamentos de uma autoridade; quando reza, não é conforme a sua cabeça, mas de acordo com o modo como Deus mesmo manifestou que quer ser cultuado. Nós não inventamos a nossa própria religião; vivemos (ou melhor, esforçamo-nos por viver) a religião que Deus mesmo instituiu.

Ser católico exige, portanto, em primeiríssimo lugar, uma autêntica mudança de mentalidade. Sem isso, não estaremos seguindo a Igreja, mas tão somente o nosso próprio "eu", como diz Santo Tomás de Aquino:

"É claro que quem adere à doutrina da Igreja como à regra infalível, dá seu assentimento a tudo o que a Igreja ensina. Ao contrário, se do que ela ensina, aceitasse como lhe apraz, umas coisas e não outras, já não aderiria à doutrina da Igreja como regra infalível, mas à própria vontade." [3]

Se a Igreja lhe diz, por exemplo, com a sua autoridade dada pelo próprio Cristo (cf. Mt 16, 18), que tal coisa é pecado, e você, ao invés de acatar, desconversa, diz que "não é bem assim" e tenta se justificar, é muito triste dizê-lo, mas seu catolicismo é superficial, não passa de um verniz, de uma fachada. Você não acredita na Igreja, mas em você mesmo. Sua opinião conta muito mais que a religião a qual você diz seguir. Seria muito mais honesto abandonar de vez essa peça farsesca que você encena e procurar a igreja protestante mais próxima e que mais se adequa aos seus gostos e posições.

Abra os olhos de uma vez por todas, pare de tentar mentir para si mesmo e de ficar se defendendo com insultos. Não chame os outros de "moralistas" só porque não compartilham do "código moral" inventado por você; não chame os outros de "radicais" só porque não são superficiais como você; não chame os outros de "extremistas" só porque você se contenta com uma vida morna e levada de qualquer modo. Converta-se, mude de mentalidade e honre as águas do santo Batismo com que a Igreja o banhou! Foi a ela, afinal, não a você, que Cristo confiou as chaves do Reino dos céus.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 33, a. 5.
  2. John Henry Newman, Faith and Doubt. In: Discourses to Mixed Congregations, p. 231.
  3. Suma Teológica, II-II, q. 5, a. 3.

| Categorias: Sociedade, Espiritualidade

“O satanismo aumenta porque se reza pouco”, diz exorcista

O satanismo está em alta. A razão, para este exorcista da Itália, é que “abandonamos a fé, as pessoas rezam pouco e de forma errada, muitas vezes”.

O satanismo está aumentando. A razão? "Abandonamos a fé, as pessoas rezam pouco e de forma errada, muitas vezes". As palavras de alerta são do padre italiano Ermes Macchioni, exorcista da diocese de Reggio Emilia, em entrevista a La Fede Quotidiana.

O sacerdote afirma que "o satanismo, com as consequências terríveis que traz consigo, efetivamente está em crescimento, e isso deveria levar-nos a fazer um exame de consciência":

"Cada vez mais, parece que perdemos a fé, a sociedade vive de modo pagão e podemos dizer que está em curso uma tentativa, ainda que difusa, de eliminar Deus da vida pública para substituí-lo pelo próprio 'eu'. Hoje o ser humano se sente autorreferencial, pensa que não precisa de Deus. Tudo isso leva a formas de idolatria, como o dinheiro, o sucesso, o poder custe o que custar, o sexo desordenado e contra o projeto de Deus, a pornografia... Além disso, reza-se muito pouco e mal ainda por cima."

Mas por que se reza mal? O padre Ermes explica que tem notado muitas "adaptações pessoais" às orações. "Cada um acrescenta, retira e coloca o que bem entender", muitas vezes "sem levar em consideração a rica bagagem da Igreja e da sua Tradição".

A declaração desse exorcista faz-nos lembrar um adágio antigo, que vemos repetido no Catecismo da Igreja Católica (§ 1124), segundo o qual "lex orandi, lex credendi", isto é, "a lei da oração é a lei da fé". A liturgia católica, os sacramentos que celebramos, todos eles estão de acordo, adequam-se, por assim dizer, àquilo em que cremos — em atenção especial Àquele em quem cremos, "que não se engana nem nos pode enganar". Os fiéis, por sua vez, são chamados a aderir a essa fé, renunciando às suas opiniões privadas, aos seus gostos pessoais, a fim de entrar na unidade da Igreja. E isso transforma — ou pelo menos deveria transformar — todo o modo como eles rezam.

O que se percebe com muita frequência, no entanto, é justamente o que afirma o pe. Macchioni: as pessoas têm substituído Deus por uma religião "autorreferencial", na qual o objeto de suas preocupações, em última instância, são elas mesmas. Levamos as nossas vidas de maneira muito despreocupada, fazendo pouco caso dos Mandamentos, dos Sacramentos e do próximo, e gastamos todo o tempo que possuímos pensando só em nós mesmos. Quando as coisas começam a não dar certo, é então que nos voltamos para Deus. Mas seria por acaso essa "conversão" para chorarmos os nossos pecados? Para traçarmos um projeto de mudança de vida? Para nos comprometermos de verdade com Deus e com a sua Igreja? Não, de modo nenhum! Voltamo-nos para Deus... tão somente a fim de que Ele nos sirva. Nossa fé não é a Fé da Igreja, com "f" maiúsculo, virtude sobrenatural infundida por Deus em nossas almas. Cremos sim, mas em nós mesmos. Dizemo-nos cristãos, mas seguimos, na verdade, a religião do próprio "eu". Rezamos o "Pai nosso", mas é da boca para fora que dizemos: "Seja feita a vossa vontade", já que é a nossa vontade própria o que queremos ver satisfeita.

O que isso tem a ver com o aumento do satanismo? A resposta é: tudo! Todas as vezes, de fato, que o verdadeiro Deus é substituído em nossos corações, é em direção ao seu inimigo que caminham as nossas almas. Vale a pena lembrar, nesse sentido, uma lição de Santo Tomás de Aquino, na qual ele explica por que Satanás é cabeça de todos os maus, assim como Cristo é cabeça da Igreja:

"Cabe ao que governa conduzir os governados a seu fim. O fim do demônio é fazer a criatura racional voltar as costas para Deus. Por isso, desde o princípio, tentou remover o homem da obediência ao mandamento divino. Voltar as costas para Deus tem razão de fim enquanto é desejado sob a aparência de liberdade, segundo Jr 2, 20: 'Há muito quebraste teu jugo, rompeste teus laços, dizendo: Não servirei'. Portanto, enquanto pelo pecado alguns são levados a esse fim, incidem sob o regime e governo do demônio. E por isso ele é chamado sua cabeça."

Assim, para que o satanismo cresça no mundo, não é necessário — como muitos poderiam pensar — filiar-se a uma seita demoníaca e prestar culto aberto e declarado ao príncipe das trevas. Nós sabemos que, infelizmente, existem muitas pessoas que fazem isso, mas elas definitivamente não constituem a maioria do mundo — e estão longe de sê-lo. O problema maior são aquelas pessoas que foram batizadas, sentam-se nos bancos de nossas igrejas (às vezes, participam da Missa todos os domingos até!), mas têm vendidas as suas almas, pelo pecado mortal, ao inimigo de Deus. A expressão pode assustar, mas é exatamente isso o que diz Santo Tomás, quando comenta a petição dominical "Não nos deixeis cair em tentação": "Ser tentado é humano", ele diz, "mas consentir é ter parte com o diabo."

Sempre portanto que, dando ouvidos aos apelos de nossa carne, cedemos àquele pecado de impureza na Internet, cobiçamos a mulher que está caminhando na rua, odiamos o próximo com olhares fulminantes, palavras e até agressões, é o reino de Satanás que vem a nós, e é para o inferno que se encaminha a nossa alma, caso não nos arrependamos e não procuremos depressa o sacramento da Confissão. A razão disso é bem simples: Deus e o diabo não podem conviver juntos na mesma casa, ou, para utilizar a linguagem do Evangelho, "ninguém pode servir a dois senhores" (Mt 6, 24).

Há muitos todavia que lêem estas linhas — e Deus queira que não seja você uma dessas pessoas —, para as quais tudo o que aqui vai escrito não passa de "letra morta". No fundo de seus corações, esses indivíduos já declararam a Deus o seu "Não servirei". No começo, elas até se incomodavam com uma ou outra coisa errada que, sabendo ser má, se envergonhavam de cometer e de contar a alguém que praticaram. Depois, no entanto, adquirido o mau hábito, elas não só começaram a dormir tranquilamente em seus pecados, como passaram a incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo, numa tentativa patética de apagar de suas consciências o peso enorme que carregam todos aqueles que vivem sob o jugo do demônio.

Lá no fundo, no entanto, elas sabem que estão procurando a felicidade onde ela não existe; sabem que serão em vão todos os seus esforços para se verem livres de Deus. Dentro de seus corações permanece o chamado de Cristo à sua alma, silencioso mas audível, convidando-as à conversão e a uma autêntica mudança de vida.

Sim, é possível mudar de vida e, com a graça de Deus, começar tudo de novo! Se você ainda não tem vida de oração, comece agora mesmo a cultivá-la, pedindo Àquele que é todo-poderoso as graças necessárias para levar, de agora em diante, uma vida totalmente diferente da que você tem levado até este momento. Se as suas orações até aqui têm sido tão somente pedidos fúteis de riquezas, conforto e felicidade passageira neste mundo, mude o foco da sua oração e comece a rezar bem! Deus quer atender às nossas orações, mas Ele, muito mais do que nós, sabe o que nos é conveniente e não nos dará senão o que nos ajudar a conseguir a nossa eterna salvação. Peçamos insistentemente a Ele, portanto: "Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu", pois só assim conseguiremos opor resistência ao terrível avanço do mal que vemos no mundo.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Virgem Maria

Aparições Marianas: o que são e qual o seu papel na vida cristã?

Embora não façam parte do “depósito da fé”, as aparições marianas reconhecidas pela Igreja constituem um chamado sobrenatural à conversão e à santificação pessoais

O mês de maio é tradicionalmente dedicado a uma meditação mais fervorosa sobre os mistérios da Virgem Maria e do papel que ela ocupa na Igreja como mãe e advogada dos cristãos. Romarias, orações comunitárias do Santo Terço, novenas, Missas e outras manifestações de piedade para com a Mãe de Deus costumam acontecer em vários lugares. Trata-se de um carinho todo filial que os católicos procuram ofertar à Virgem, aquela que nos trouxe a salvação, a "Mãe de meu Senhor", como diria Santa Isabel (cf. Lc 1, 43).

Maio é também o mês em que nossos olhares se voltam para a cidade de Fátima, em Portugal, onde há quase cem anos a Virgem Maria aparecia a três criancinhas, os videntes Francisco, Jacinta e Lúcia, pedindo-lhes que rezassem pela conversão dos pecadores e pelo triunfo de Seu Imaculado Coração. Ainda hoje, os famosos segredos de Fátima são causa de muita especulação e curiosidade dentro e fora da Igreja.

A pergunta que queremos responder hoje, no entanto, é esta: de que maneira os fiéis católicos podem prestar maiores homenagens à Virgem Santíssima, a partir de aparições como as de Fátima e tantas outras já testemunhadas na história da Igreja?

O papel e o limite das "revelações privadas"

Os eventos de Fátima, assim como as demais aparições da Virgem Maria, pertencem àquele gênero de revelações que a Igreja chama de "privadas". Na definição de alguns teólogos, essas revelações consistem em uma "manifestação visível de um ser cuja visão naquele lugar ou naquele momento é inusitada e inexplicável segundo o curso natural das coisas" [1]. Uma vez que não fazem parte do depósito da fé, nenhum católico é obrigado a aceitá-las com o obséquio da fé, embora sejamos docilmente convidados a "discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja". Como resume o Catecismo, o papel delas "não é 'aperfeiçoar' ou 'completar' a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época da história" [2].

É preciso que todos os fiéis tenham muito claras essas noções, a fim de que não caiam ingenuamente em radicalismos e falsos messianismos, como sói acontecer em muitas ocasiões. A credulidade excessiva em muitas "profecias" e "revelações" — que, aliás, nem sequer foram ainda reconhecidas pela Igreja — pode incorrer num grave pecado contra a fé, conforme o que já alertava São João: "Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas se levantaram no mundo" (1 Jo 4, 1).

A Igreja age com salutar prudência todas as vezes que uma "revelação privada" surge. Essa atitude se justifica por razões teológicas e pastorais. Imaginem como seria danoso a uma comunidade descobrir, após grandes manifestações de adesão, que uma determinada "revelação" ou "mensagem celestial" não passava de charlatanismo. Ou ainda as consequências nocivas que tais "revelações" podem acarretar à obediência e à credibilidade da Igreja — especialmente por causa da grande repercussão que esses assuntos ganham pelos meios de comunicação —, quando pretendem "ultrapassar ou corrigir a Revelação de que Cristo é a plenitude" [3].

No que precisa crer o fiel católico? Na Revelação de Deus, encerrada com a morte do último apóstolo, e transmitida pela Igreja, quer por via oral, quer por escrito. Assim se expressou o Sagrado Concílio Vaticano I:

Deve-se, pois, crer com fé divina e católica todas as coisas que estão contidas na Palavra de Deus escrita ou transmitida pela Tradição, e que, pela Igreja, quer em declaração solene, quer pelo Magistério ordinário e universal, nos são propostas a ser cridas como reveladas por Deus [4].

Isso significa que o objeto material da fé católica corresponde àquilo que está exposto nas Sagradas Escrituras, nos símbolos apostólicos — os doze artigos do Credo — e no ensinamento perene da Igreja. Duas são as fontes da divina Revelação: a Tradição e as Sagradas Escrituras. Ambas constituem o depósito da fé, cuja tutela e interpretação são de responsabilidade do Magistério da Igreja.

No caso dos dogmas, por sua vez, somos obrigados a acolhê-los diligentemente porque, ao contrário dos protestantes, nossa fé não se fundamenta em juízos particulares, mas no juízo dos pastores, que são assistidos pelo poder do Espírito Santo e, que, portanto, não se enganam. Conforme explica o padre Royo Marín, "isso se dá porque não podemos ter certeza de que conhecemos e acolhemos o autêntico testemunho de Deus a não ser pela luz profética (que ilumina somente aqueles que recebem diretamente a divina revelação) ou pela proposição infalível da Igreja" [5]. Essas proposições podem manifestar-se de dois modos: por uma declaração solene de um Papa ou de um Concílio — a chamada declaração ex cathedra — ou por meio do Magistério ordinário e universal — ou seja, o ensinamento comum feito pelo Papa e pelos bispos reunidos a ele daquilo que é a fé de sempre da Igreja: "quod ubique, quod semper, quod ab omnibus — o que [foi crido] em todo lugar, sempre e por todos", diria São Vicente Lérins [6].

Com relação à Virgem Maria, quatro dogmas já foram solenemente proclamados: a Maternidade Divina, a Virgindade Perpétua, a Imaculada Conceição e a Assunção. Ao fiel católico já não é permitido questionar nenhum desses dogmas, sob pena de cair em graves heresias, porque "recusar fé a uma só doutrina da Igreja é não possuir fé" [7]. Existem, por outro lado, as piedosas opiniões, que nada mais são do que "uma verdade admitida pela Igreja desde tempo imemorial, mas ainda não declarada como revelada por Deus" [8]. É o caso da "mediação universal" de Maria e da sua "corredenção".

Como discernir as aparições marianas

Aparição de Nossa Senhora a São Tiago Maior, por Francisco Goya.

A primeira aparição mariana de que se tem notícia é a de Zaragoza, Espanha, ainda nos tempos apostólicos. Os relatos dão conta de que Nossa Senhora aparecera a São Tiago para confortá-lo acerca da conversão dos espanhóis, que se mostrava muito difícil. Essa aparição deu origem ao título de Nossa Senhora do Pilar, proclamada padroeira da Espanha.

Basicamente, as aparições marianas sempre tiveram uma conotação apologética. Na maior parte de suas mensagens, a Virgem pede por uma conversão dos costumes e pela reparação às ofensas contra Seu Filho Jesus, num contexto em que algum artigo da sã doutrina cristã se encontra visivelmente ameaçado. Como citamos anteriormente, o papel das "revelações privadas", quando verdadeiras, é fazer com que o depósito da fé seja acolhido e vivido "mais plenamente, numa determinada época da história". Não se trata de uma nova revelação ou dogma, mas de um incentivo a uma vida mais coerente com o Evangelho revelado. É por isso que a Igreja também alerta para o risco daquele racionalismo crítico que faz "duvidar até das revelações privadas aprovadas pela Igreja [...], que, sem pertencer ao depósito da revelação nem ser objeto de fé divina, seria presunçoso e temerário rechaçar" [9].

Com o decorrer dos séculos e a repercussão que esse tipo de fenômeno costuma ter, sobretudo com a participação dos meios de comunicação, a Santa Sé decidiu elencar alguns requisitos básicos para o reto discernimento das aparições, que levam em consideração aspectos positivos e negativos, "a fim de que a devoção suscitada entre os fiéis por acontecimentos deste tipo possa manifestar-se no respeito da plena comunhão com a Igreja e dar frutos, dos quais a própria Igreja possa discernir em seguida a verdadeira natureza dos acontecimentos" [10]. Ei-los aqui:

Quando a Autoridade eclesiástica for informada sobre uma presumível aparição ou revelação, será sua tarefa:

a) em primeiro lugar, julgar sobre o fato segundo critérios positivos e negativos (cf. infra, n. I);

b) em seguida, se este exame chegar a uma conclusão favorável, permitir algumas manifestações públicas de culto ou de devoção, prosseguindo na vigilância sobre elas com grande prudência (isto equivale à fórmula: «pro nunc nihil obstare»);

c) finalmente, à luz do tempo transcorrido e da experiência, com especial relação à fecundidade dos frutos espirituais gerados pela nova devoção, expressar um juízo de veritate et supernaturalitate, se o caso o exigir. [11]

É fundamental que haja o devido respeito a essas normas para que não se crie o risco de divisão no seio da comunidade. De fato, o diabo pode muito bem aproveitar-se da inocência de alguns fiéis, como já aconteceu inúmeras vezes, inculcando-lhes falsas mensagens celestiais, que perturbam a ordem do culto a Deus. Além disso, os videntes não são pessoas infalíveis, de modo que as mensagens que eles recebem correm o risco de se confundirem com os seus próprios pensamentos. É a autoridade da Igreja que pode julgar com segurança esses fatos.

No final do século XIX e início do século XX, Maria visitou-nos com espantosa regularidade. Medalha Milagrosa, La Salette, Lourdes e Fátima constituem como que o ápice dessas visitas, cuja mensagem era uma só: reparação e conversão. Os frutos benéficos produzidos por essas mesmas aparições ainda hoje podem ser vistos e colhidos, de tal forma que os próprios Romanos Pontífices se referem a eles em suas exortações e programas de pontificado. É, portanto, muito salutar que os fiéis abram os ouvidos ao testemunho das aparições marianas, segundo o critério da Madre Igreja, com vistas para uma autêntica renovação dos costumes e um vigoroso crescimento na fé.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. LAURENTIN, René, "Aparições - II Parte: Aspectos Históricos", in DE FIORES, Stefano e MEO, Salvatore (org.). Dicionário de Mariologia. São Paulo: Paulus, 1995, p. 116.
  2. Catecismo da Igreja Católica, n. 67.
  3. Idem.
  4. Concílio Vaticano I, Const. Dogm. Dei Filius c. 3: Denz. 1792.
  5. MARÍN, Antonio Royo. A Fé da Igreja: Em que deve crer o cristão de hoje. Campinas: Ecclesiae, Edições Cristo Rei, 2015, p. 69.
  6. Commonitorium, II.
  7. SPIRAGO, Francisco. Catecismo Católico Popular, vol. I. 3a. ed. Lisboa: União Gráfica, 1938, p. 74.
  8. Ibidem, p. 59.
  9. MARÍN, op. cit., p. 126.
  10. Congregação para a Doutrina da Fé, Normas para proceder no discernimento de presumíveis aparições e revelações (25 de fevereiro de 1978), n. 2.
  11. Idem.

| Categoria: Teologia

Ou Jesus é Deus ou não é nada

Jesus não foi um homem que "pretendeu" ser Deus, mas o Verbo que se fez carne e veio morar entre nós

Os cristãos confessam, desde sempre, que Jesus Cristo é Deus. São João escreve que a Palavra, que "estava junto de Deus" e "era Deus" ( Jo 1, 1), "se fez carne e veio morar entre nós" (Jo 1, 14). São numerosos os discursos de Cristo em que Ele deixa claro ser muito mais que um simples homem – todo o Evangelho de São João está permeado de declarações desse teor –, sendo este o motivo alegado pelos judeus para condená-Lo à morte: "Não queremos te apedrejar por causa de uma obra boa, mas por causa da blasfêmia. Tu, sendo apenas um homem, pretendes ser Deus" (Jo 10, 33).

Se, naquela época, até quem não seguia Nosso Senhor tinha clara consciência da grandeza do que Ele anunciava, hoje, muitos – atribuindo a si o apelido de "cristãos" – têm advogado, covardemente, uma "terceira opção": ao invés de rejeitar ou aceitar de vez a mensagem do Evangelho, recorrem a uma leitura distorcida das Escrituras, reduzindo a figura de Jesus à de "um grande profeta, um mestre de sabedoria, um modelo de justiça" [1], cujas máximas valeriam, no máximo, como "guias motivacionais". Para essas pessoas, a Bíblia não é o livro que traz a revelação de Deus, mas tão somente um "manual de autoajuda"; e a Igreja não é um edifício espiritual, mas uma construção puramente material, voltada apenas aos cuidados e necessidades deste mundo.

Antes de mais nada, importa denunciar o grave equívoco desse ponto de vista, que não pode ser aceito sem se cometer um grande e grave atentado à razão. Se Jesus não é "o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" ( Jo 1, 29), nem "o pão que desceu do céu" e que dá a vida eterna (Jo 6, 41), nem "a porta das ovelhas" (Jo 10, 7) – realidades que ninguém usaria senão para se referir à divindade –, então, ou é um mentiroso, que queria enganar os outros, ou um louco, que não sabia sequer quem ele mesmo era. Ora, que grandeza pode haver na mentira e na loucura? Ou Jesus é Deus, ou não é nada. Et tertium non datur [2].

É preciso reconhecer, porém, como é cômodo relegar Nosso Senhor à posição de "apenas um homem". Se é assim, as suas palavras realmente não vinculam, nem obrigam ninguém a nada; são apenas reflexões morais e sociais, como as de qualquer pensador antigo. Daria no mesmo, então, citar Confúcio, Dalai Lama, Buda, Chico Xavier ou Jesus Cristo. Afinal, se são todos homens, com igual tratamento deveriam ser acolhidas suas mensagens: como palavras humanas.

A prática da Igreja primitiva, no entanto, atesta: os discípulos sempre creram que pregavam uma doutrina autenticamente divina. Em carta a Tessalônica, por exemplo, o Apóstolo agradece a Deus "sem cessar, porque, ao receberdes a palavra de Deus que ouvistes de nós, vós a recebestes não como palavra humana, mas como o que ela de fato é: palavra de Deus, que age em vós que acreditais" (1 Ts 2, 13). Tanto ontem, como hoje, a fé católica não mudou. Diante das vozes enganadoras que pretendem reduzir a imagem de Cristo à de um chefe religioso qualquer, urge dizer "não": a boa-nova do Evangelho não é "palavra humana", mas, verdadeiramente, "palavra de Deus".

Foi o que disse o Cardeal Joseph Ratzinger – depois, Papa Bento XVI –, na virada do novo milênio, quando publicou a declaração Dominus Iesus, "sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja". Em 2000 – ou, "em pleno século XXI", diriam os mais escandalizados –, a Igreja recordava que "os homens (...) só poderão entrar em comunhão com Deus através de Cristo" [3]. À época, os meios de comunicação "rasgaram as vestes", acusando São João Paulo II e o Vaticano de arrogância e intolerância religiosa. É que, com a Dominus Iesus, a Igreja denunciava taxativamente as opiniões mundanas a respeito de Jesus, das quais a mídia moderna se faz porta-voz tão ardorosa:

"Na reflexão teológica contemporânea é frequente fazer-se uma aproximação de Jesus de Nazaré, considerando-o uma figura histórica especial, finita e reveladora do divino de modo não exclusivo, mas complementar a outras presenças reveladoras e salvíficas. O Infinito, o Absoluto, o Mistério último de Deus manifestar-se-ia assim à humanidade de muitas formas e em muitas figuras históricas: Jesus de Nazaré seria uma delas." [4]

Nesse sentido, a fé católica é profundamente intolerante, sobretudo, porque é fiel à palavra de Cristo, que não temeu apontar a si mesmo como "o caminho, a verdade e a vida", fora do qual ninguém pode ir ao Pai ( Jo 14, 6). Essa expressão - dita pelo mesmo Jesus que perdoou os pecadores arrependidos, curou os doentes e saciou os pobres - mostra como a misericórdia divina está profundamente unida à verdade da Sua mensagem, que repele todo erro, toda mentira… e toda falsa religião.

Ao argumento dos judeus de que Jesus, sendo apenas um homem, se fazia Deus, a Igreja responde, em consonância com dois mil anos de Tradição e Magistério: Jesus não foi um homem que pretendeu ser Deus. Ao contrário, Ele foi Deus, que, não se apegando ciosamente à natureza divina, "despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano" (Fl 2, 7). Eis o que creem os cristãos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Papa Francisco, Angelus, 24 de agosto de 2014
  2. Sobre isso, cf. RC 221: Como provar que Jesus é Deus?
  3. Dominus Iesus, 12
  4. Ibidem, 9

| Categoria: Espiritualidade

O que os hobbits têm a ensinar-nos

A julgar pelo processo de desmoralização por que passa a sociedade brasileira, em que o vício e a maldade se arvoram em grandes virtudes, a leitura de "O Hobbit" não é somente um entretenimento, mas um verdadeiro exorcismo.

Há quem diga que o mundo está dividido entre aqueles que leram O Hobbit e O Senhor dos Anéis e aqueles que ainda não leram. Além de seu grande valor literário, a obra-prima de J. R. R. Tolkien tem o mérito de nos colocar diante dos grandes mistérios e dramas do ser humano. O Hobbit e O Senhor dos Anéis nos fazem penetrar no âmago de nossa alma. Não é à toa que, desde o seu lançamento, em 1937, o livro tenha se tornado um best-seller instantâneo, cativando públicos desde a mais tenra idade. E com a volta dos hobbits para os cinemas, após quase 10 anos da estreia de O Senhor dos Anéis, temos mais uma vez a chance de refletirmos sobre a nossa existência e vida interior.

O Hobbit é o primeiro livro da saga de elfos, anões, magos e outras criaturas estranhas inventados pelo escritor e filólogo Sir John Ronald Reuel Tolkien. A obra - que, assim como em O Senhor dos Anéis, se passa na Terra Média - mistura elementos da mitologia nórdica e greco-romana com a doutrina moral cristã. Apesar do título, o grande protagonista da história é a providência divina, que age silenciosamente em cada acontecimento. Embora não seja mencionado sequer uma vez, Deus está presente o tempo todo, como numa "brisa leve". E isso fica evidente desde os primeiros capítulos, em que o pequeno Bilbo Bolseiro se deixa persuadir pelo convite do mago cinzento Gandalf, partindo para uma aventura perigosa ao lado de anões e outros seres fantásticos. Como no chamado da vocação cristã, no início da jornada do hobbit Bilbo está "o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo." 01

Na mitologia de Tolkien, hobbits são criaturas pequenas muito parecidas com os seres humanos, embora "com cerca de metade de nossa altura, e menores que os anões barbados" 02. Eles andam descalços, têm pés grandes e peludos, mas não possuem barba. Bilbo Bolseiro, o hobbit da história, é um tipo incrivelmente pacato e discreto, considerado pelos de sua vizinhança como alguém muito respeitável, sobretudo porque nunca havia se metido em aventuras ou, como nos conta o narrador, "feito qualquer coisa inesperada"03. A sua casa era uma toca bastante confortável, com adegas, quartos e cozinhas, onde Bilbo habitualmente se assentava para fumar seus cachimbos. Não existiam novidades na vida daquele hobbit; "você podia saber o que um Bolseiro diria sobre qualquer assunto sem ter o trabalho de perguntar a ele"04. Isso tudo só havia de mudar no momento em que Gandalf o convidasse para participar de uma jornada, a fim de libertar o ouro dos anões, aprisionado pelo terrível dragão Smaug.

Ao longo da narrativa, Tolkien traça um quadro de evolução do caráter do personagem, que culminará numa grande renúncia para Bilbo Bolseiro; uma renúncia que desencadeará uma série de acontecimentos inesperados, mas invisivelmente ordenados para o bem. O motor principal das forças do mal na história, que é nada mais que o orgulho e a avareza, acaba por ser vencido pela "humildade das menores criaturas desse mundo imaginário (os hobbits), cuja vida simples e marcada pela firmeza de carácter será o elemento explicativo da vitória do Bem contra Mal" 05. Nisso se desenvolve também, mesmo que de longe, a doutrina da comunhão dos santos. Os personagens que compõem a história são como que peças de uma grande engrenagem; há uma conexão entre seus atos, sejam eles vis ou bons, que influenciam de maneira decisiva no encaminhamento do mundo. Percebe-se, então, aquela providência divina mencionada anteriormente. Mesmo no momento mais trágico da história, ela consegue recolher aspectos bons de cada um, fazendo com que daquele grande mal saia um bem ainda maior.

A jornada do hobbit Bilbo Bolseiro pode ser devidamente interpretada como a jornada dos cristãos. Bilbo, um sujeito de hábitos previsíveis e calculados, de repente se lança a uma expedição duvidosa, acompanhado por um grupo de anões rabugentos e por um mago cheio de mistérios, sem garantias sólidas de que voltará vivo ou de que terá uma recompensa. Lança-se, porém, com uma certeza a princípio imatura, a qual poderíamos chamar de fé, que, vez ou outra, irá titubear frente aos desafios e às circunstâncias difíceis. Muitas vezes, o pequeno aventureiro se pegará lembrando de "sua terra, de coisas seguras e confortáveis, e a pequena toca de hobbit" 06. Mas o impulso da amizade e a graça de uma ação silenciosa, por assim dizer, o levará a renunciar a si mesmo, tomando para si a missão de lutar por seus amigos, mesmo que estes falhem e duvidem dele. Bilbo é tomado por uma firme decisão; uma decisão profunda que diz respeito a toda a estrutura da vida. Trata-se de uma história fascinante, na qual os limites da existência e as fraquezas dos companheiros - os pecados e defeitos da humanidade - são compensados pela confiança num bem maior - "ou seja, o Deus que está voltado para mim, uma certeza sobre a qual posso fundar minha vida, com a qual posso viver e morrer."07

Como foi dito pelo Padre Paulo Ricardo na aula sobre "O Senhor dos Anéis", não importa tanto o que você fará com esses livros, mas o que esses livros farão com você 08. A bem da verdade, julgando pelo processo de desmoralização pelo qual a sociedade passa, em que o vício e a maldade se arvoram em grandes virtudes, ao ponto de o público brasileiro fazer campanha por um "beijo gay" na novela, a leitura de O Hobbit não é somente um entretenimento; é um exorcismo. Tolkien, quando deu vida aos seres estranhos - mas não menos fantásticos - da Terra Média, talvez não pretendesse provocar o leitor em seus aspectos psicológicos e éticos, talvez não quisesse nos ensinar sobre pecado, paixão, morte e ressurreição - "Quis fazer isso para minha própria satisfação, e tinha alguma esperança de que outras pessoas ficassem interessadas nesse trabalho", escreveu Tolkien, certa vez.09 -, mas o fato é que o que vai em obras como O Hobbit, O Senhor dos Anéis e outros similares pode ser ainda mais evangélico que muita homilia. "E é justamente por ter assumido esses valores básicos, intrínsecos ao Cristianismo" - diz o especialista na literatura de Tolkien, Ives Gandra Martins Filho -, "que (J. R. R. Tolkien) conseguiu produzir uma obra de valor perene e de atractivo universal"10.

Os mitos têm a função de nos ensinar valores universais, transmitindo também o gosto pelo maravilhamento que há no mistério do mundo. Não é de pouca monta que outro escritor inglês tenha dado a um dos seus livros mais famosos um capítulo dedicado à "Ética da elfolândia". Em Ortodoxia, G. K. Chesterton diz que os contos de fadas lhe deram duas convicções: "primeiro, de que o mundo é um lugar fantástico e surpreendente; segundo, de que diante dessa loucura e prazer nós deveríamos ser modestos e submetermo-nos às estranhas limitações de uma bondade tão estranha." 11 De fato, a poesia dos elfos de Valfenda é um santo remédio contra o racionalismo dos romances modernos: "A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim"12. E é por isso que a leitura da obra de Tolkien constitui-se num elemento de razoabilidade e sanidade.

Em verdade, a história de um autêntico cristão é "a história de como um bolseiro teve uma aventura, e se viu fazendo e dizendo coisas totalmente inesperadas. Ele pode ter perdido o respeito dos seus vizinhos, mas ganhou - bem, vocês vão ver se ele ganhou alguma coisa no final." 13

Por Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 18: AAS 98 (2006), n. 1
  2. TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. 5ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012, p. 2
  3. Ibidem, p. 2
  4. Ibidem, p. 2
  5. MARTINS FILHO, Ives Gandra. O Mundo do Sr. dos Anéis: Vida e Obra de J.R.R. Tolkien. Portugal: Publicações Europa-América, 2003, p. 19
  6. TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. 5ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012
  7. RATZINGER, Joseph. O Sal da Terra: o cristianismo e a Igreja Católica no sécula XXI: um diálogo com Peter Seewald / Joseph Ratzinger. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2005
  8. O Senhor dos Anéis
  9. TOLKIEN, J.R.R. O Senhor dos Anéis. 6ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012, p. XIII
  10. MARTINS FILHO, Ives Gandra. O Mundo do Sr. dos Anéis: Vida e Obra de J.R.R. Tolkien. Portugal: Publicações Europa-América, 2003, p. 20
  11. CHESTERTON, Gilbert Keith. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, p. 97
  12. Ibidem, p. 30
  13. TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. 5ª Edição. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012, p. 2

| Categoria: Igreja Católica

Sem verdade, a fé não salva

A encíclica Lumen Fidei reforça a luta de Bento XVI contra o relativismo e coloca-nos diante da indissociável relação entre a fé e a verdade.

Na sequência das encíclicas de Bento XVI sobre as virtudes teologais, a carta Lumen Fidei trouxe a novidade da eleição do Papa Francisco, cujas impressões pastorais complementaram mais esta obra-prima do Papa Ratzinger.

Em sua rica produção teológica e nos documentos de seu Magistério ordinário, Bento XVI fez linha de frente contra o que chamou, na homilia durante a Missa pro eligendo Romano Pontifice, em 2005, de a "ditadura do relativismo". Tratava-se de uma expressão nova para um problema antigo: a questão da verdade que vinha sendo relegada ao campo privado, aos sentimentos e emoções do indivíduo. O homem não seria mais responsável por buscar a Verdade, mas por criar a sua própria verdade.

Não é nem preciso dizer o quanto isto é prejudicial para a saúde da fé cristã, de cuja essência brota a missão irrenunciável de evangelizar e, portanto, de conhecer e anunciar a Verdade. Como exemplo, basta mostrar o testemunho de um Santo Agostinho. Se Agostinho fosse como o homem de nosso século e acreditasse na farsa do relativismo, jamais se converteria ao Cristianismo. Afinal, se o "certo" e o "errado" são meras construções pessoais, qual a diferença entre continuar no maniqueísmo e ser batizado na Igreja? O Agostinho que suspirava pela Verdade em suas Confissões – "Ó verdade, verdade! Quão intimamente suspiravam por ti as fibras da minha alma" (III, 6, 10), escrevia – só era capaz de fazê-lo porque sabia que a Verdade não é algo que se inventa, mas algo que se recebe.

"Sem verdade, a fé não salva, não torna seguro os nossos passos": eis o ensinamento do Papa Francisco em sua primeira encíclica. A fé sem verdade "seria uma linda fábula" ou "um sentimento bom que consola e afaga", mas não uma realidade capaz de envolver a vida do homem e transformá-lo por completo. Ao contrário, sabemos que não se pode dissociar a fé da verdade, bem como – lembrando o ensinamento de Bento XVI na Caritas in Veritate (n. 3) – "só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida".

Por que insistir nestas lições? Porque vivemos – diz o Papa Francisco – uma "crise de verdade". O perigo que aqui reside, além do desprezo da verdade, é de quando o homem alça a esta categoria aquilo que é mau e perverso. Então, como diz o profeta Isaías, "ao mal chamam bem, e ao bem, mal, (...) mudam as trevas em luz e a luz em trevas, (...) tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce" (5, 20). O assassínio voluntário de fetos é transformado em direito, a perversão de nossas crianças com manuais recheados de linguagem e imagens promíscuas é chamada de "educação", a destruição da família é institucionalizada... E ai de quem discordar desta maldita inversão de valores! – é "quadrado" e quer "impor" às outras pessoas a "sua" verdade.

Mas trata-se de – mais uma – acusação injusta. Afinal, na lógica do Evangelho, não são as pessoas que impõem a verdade, mas é ela mesmo que, "tal como o amor, (...) de certa forma impõe-se ao ser humano"1. Mais do que o homem se decidir por Cristo, é Cristo quem se decide pelo homem – e ama-o a ponto de entregar-lhe a Sua vida.

Diante de Cristo, que disse ser "o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14, 6), várias atitudes são possíveis, menos a indiferença. Diante do Amor que se fez carne, da Verdade que impele, é possível dizer "sim" e deixar-se tomar por Sua beleza, bem como é possível dizer "não", vivendo a esquizofrenia de uma vida desobediente e arredia de Deus. Vencida a ignorância, porém, não é possível esconder-se, nem furtar-se à presença ofuscante da lumen fidei – a luz da fé.

Por: Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Encíclica Caritas in Veritate, n. 34

| Categorias: Espiritualidade, Santos & Mártires

A fé, fundamento de nossa existência

A coragem dos mártires e o destemor dos missionários são o maior exemplo de como a fé, longe de ser "o ópio do povo", é capaz de conferir à vida "um novo fundamento"

O autor da Carta aos Hebreus concebe a fé como "substância das coisas que se esperam; prova das coisas que não se veem" (11, 1). É uma definição que destoa muito das formulações modernas, tendentes a olhar para a fé como para um ato irracional, meramente subjetivo, fruto do sentimentalismo ou das instabilidades humanas – ou mesmo para um mero ato da vontade, sem alteração concreta em nossa vida ou transformação efetiva das realidades sociais.

Ao contrário, Santo Tomás de Aquino, confirmando as palavras da Escritura, explica que "o começo das coisas que esperamos está em nós pelo assentimento de fé, que encerra em sua substância todas as coisas esperadas. Esperamos, de fato, ser felizes pela visão imediata da verdade, à qual nós aderimos agora pela fé" (Summa Theologiae, II-IIae., q. 4, a. 1). O Papa Bento XVI, comentando este ensinamento do Doutor Angélico, afirma, em sua encíclica Spe Salvi, que "a fé não é só uma inclinação da pessoa para realidades que hão de vir, mas estão ainda totalmente ausentes; ela dá-nos algo".

A fé dá-nos algo. A esperança de fruir das coisas que não se veem "derrama-se" na história, diz o Papa. O maior exemplo disto é o testemunho de fidelidade dos mártires e a coragem incansável dos missionários, que não pouparam - e não poupam - esforços para atravessar grandes porções de terra e cumprir o mandato de Cristo: anunciar a Palavra a todos os povos (cf. Mt 28, 19). Eles são fortificados pela fé que não esmorece e pela esperança que não decepciona: a estrutura de suas vidas é completamente modificada pelo Evangelho, a ponto de, por ele, não temerem derramar seu próprio sangue ou renunciar a todos os confortos de uma vida abastada.

Neste sentido, a relação que se estabelece entre a esperança cristã e a nossa vida é precisamente o contrário do que pensava Karl Marx. Para este, a "superestrutura" – as ideias e princípios morais que regem a sociedade – seria apenas uma invenção para legitimar condições socioeconômicas injustas – o que ele chamou de "infraestrutura". Daqui a relativização da verdade - que seria concebida unicamente para enganar ou, para usar um termo marxista, "alienar" as pessoas - e a crítica à religião como sendo "o ópio do povo". Ao contrário, Bento XVI indica que, na vida dos cristãos, o alicerce é a fé e esta, por sua vez, modifica total e profundamente sua existência. "A fé confere à vida uma nova base, um novo fundamento, sobre o qual o homem pode se apoiar, e, consequentemente, o fundamento habitual, ou seja, a confiança na riqueza material, relativiza-se".

Para quem crê em Jesus e está incorporado na Igreja, o materialismo histórico não é só uma resposta insuficiente, mas também profundamente falsa. Se fosse verdadeiro, toda a história do Cristianismo, com seus apóstolos, mártires e santos, não faria sentido algum. E a nossa fé e esperança seriam vãs.

Por: Equipe Christo Nihil Praeponere