| Categorias: Sociedade, Política

Qual o problema de governantes sem filhos?

Não parece insignificante que os encarregados de velar pelo futuro da Europa sejam pessoas que decidiram permanecer estéreis.

Por Juan Manuel de Prada — Após a vitória de Macron na França, um amigo me convida a refletir sobre um fato de não pequena importância: trata-se de um governante sem filhos — de mais um governante europeu sem filhos —, assim como a alemã Angela Merkel, assim como a britânica Theresa May, assim como o holandês Mark Rutte, assim como o italiano Paolo Gentiloni, assim como o sueco Stefan Löfven, assim como o luxemburgûes Xavier Bettel, assim como muitos outros mandatários europeus, incluído o nobilíssimo Jean-Claude Juncker.

Poder chamar com plena propriedade a todas estas personagens uma récua de mulas nos causa, por certo, uma enorme satisfação; mas, além disso, resulta ser muito inquietante que os governantes europeus sejam em sua maioria "filhos sem filhos". Não parece insignificante que os encarregados de velar pelo futuro da Europa e assegurar o porvir de nossos filhos sejam pessoas que decidiram permanecer estéreis.

O pensamento político clássico, ao explicar as obrigações do príncipe com respeito aos súditos, comparava-as com as de um pai com respeito aos filhos. O príncipe estava obrigado a zelar pelos súditos com a mesma diligência exigida de um pai de família, defendendo-os ao ponto de derramar o próprio sangue; e os súditos, por sua vez, estavam obrigados a prestar-lhe a obediência afetuosa e leal que um bom filho deve a seu pai.

Este cuidado amoroso que o príncipe devia a seus súditos encontrava sua melhor escola na própria instituição monárquica, que não à toa se fundamentava na continuidade familiar. Sempre que o príncipe tinha um filho, seus súditos celebravam o acontecimento com alvoroço, pois, além de garantir um sucessor, assegurava o porvir dos filhos de seus súditos, aos quais não faltaria um outro príncipe que os protegesse.

Ora, os governos do nosso tempo já não se baseiam na continuidade familiar; no entanto, que os governantes tenham ou não filhos não é uma questão ociosa. Como escrevia o cronista Juan de Lucena, em louvor a Isabel, a Católica: "Em tudo o que os reis façam, seja bom ou mau, procuramos imitá-los. Quando jogava o rei, tínhamos todos o vício do jogo; agora, como estuda a rainha, tornamo-nos todos estudiosos".

Com efeito, em meio ao inverno demográfico que vem assolando a Europa, seria alentador que os europeus pudessem olhar no espelho de alguns governantes que, com seu exemplo, convidam à procriação.

Há algo de muito grave ocorrendo quando um continente que atravessa a etapa mais próspera de sua história, que dispõe de meios para combater doenças e prolongar a vida, que parece ter-se livrado da ameaça das guerras, pragas e catástrofes que, em outras épocas, dizimaram sua população, nega-se, apesar de tudo, a gerar descendência.

Algo muito grave está acontecendo quando cada vez mais europeus se recusam a criar uma nova geração (ao mesmo tempo em que clamam farisaicamente contra a invasão muçulmana) e, não satisfeitos com isso, elegem governantes que os ratificam nesta decisão suicida.

A Europa tornou-se vítima do que Solzhenitsyn chamava uma "sanha de automutilação": o umbiguismo consumista, o egoísmo parasitário, o tédio vital de um continente que se afoga na náusea de sua própria esterilidade mereciam, de fato, que os governasse esta récua de mulas. E poderíamos perguntar-nos também, à luz do pensamento político clássico, se os "filhos sem filhos" são mesmo os mais idôneos para assumir tarefas do governo, para oferecer seu cuidado amoroso e lutar pelo futuro de nossos filhos.

A Europa não apenas carece de recursos morais para manter sua civilização; ela nem sequer possui governantes que a estimulem a prolongar sua existência. Talvez tenha chegado a hora de fechar a banca e esperar que cheguem os bárbaros.

Fonte: Actuall | Tradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Como Ser Família

Já sou adulto, preciso obedecer aos meus pais?

O que muda no relacionamento com aqueles que nos deram a vida, depois que entramos na vida adulta? É o que Padre Paulo Ricardo responde em mais este vídeo especial.

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Dando continuidade ao nosso projeto especial para as famílias, falaremos, no conselho de hoje, sobre o respeito e a obediência devidos aos pais.

Logo abaixo dos primeiros mandamentos referentes ao amor de Deus, o quarto preceito do Decálogo nos manda "honrar pai e mãe". No texto que consta nas Sagradas Escrituras, esse imperativo é acompanhado de uma promessa: aquele que ama e reverencia os seus genitores será abençoado por Deus com uma longa vida sobre a terra.

Mas em que consiste, afinal, essa honra que devemos prestar aos nossos pais? Qual a medida da obediência que lhes devemos? Seria por acaso necessário que nos submetêssemos a eles em tudo? O que muda, por fim, em nossa relação com aqueles que nos deram a vida, quando entramos na vida adulta?

São as perguntas enviadas por Miguel, um de nossos leitores, e que Padre Paulo Ricardo se propõe a responder, de forma bem sintética, neste 3.º vídeo de nosso projeto #ComoSerFamilia.

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| Categoria: Educação

Onde estamos errando com nossos filhos?

O juiz Antonin Scalia educou bem os seus nove filhos, mesmo vivendo em um ambiente saturado de imoralidade, como foram os anos da “revolução sexual”. O que ele fez que nós não estamos fazendo?

Por Equipe CNP — Antonin Scalia, o juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos que morreu na metade do mês de fevereiro, criou os nove filhos durante o período auge da Revolução Sexual, nas décadas de 1960 e 1970. Apesar dos tempos difíceis, o saldo final da educação que concedeu foi bem positivo: do casamento de Antonin e Maureen, saíram um sacerdote — o padre Paul Scalia — e 36 netos.

Esse expressivo número dá exemplo de que, mesmo em um mundo que perdeu tragicamente não só a fé em Cristo, como a própria concepção do que seja família, é possível dar aos nossos filhos uma educação católica de verdade — e ainda por cima colher, nas futuras gerações, os frutos da boa criação que receberam. A pergunta que fica é: como fazer isso? Como formar eficazmente as nossas crianças e impedir que elas sejam levadas pelas marés de novidade que arrastam o homem moderno?

Alguns fatos da vida dos Scalia podem ajudar a iluminar esse caminho e mostrar, ao mesmo tempo, onde exatamente estamos errando na educação dos nossos filhos.


A família Scalia apreciava a dádiva dos filhos, em primeiro lugar. Como eles mesmos admitem, em uma conhecida entrevista à jornalista Lesley Stahl, da CBS News: "Nós não tínhamos planejado ter nove filhos. Somos apenas bons e velhos católicos jogando o que se costumava chamar a 'roleta do Vaticano'". A jocosa expressão era usada por alguns para qualificar os métodos naturais de controle de natalidade, os únicos moralmente aceitos pela Igreja Católica. Como a relação dos dois estava sempre aberta a um novo filho — como é a prescrição do Papa Paulo VI na encíclica Humanae Vitae, de que "qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida" (n. 11) —, existia sempre o bendito "risco" (vamos chamar assim) de que viesse o segundo, o terceiro, o quarto... até que, enfim, eles chegassem aos nove.

Nove filhos, uma excelente família — mas certamente aparecerá alguém para chamar a família Scalia de "irresponsável". O que hoje em dia as pessoas chamam de irresponsabilidade, no entanto, é considerado pelo Autor Sagrado um grande dom: " Os filhos são a bênção do Senhor, o fruto das entranhas, sua dádiva. Como flechas que um guerreiro tem na mão, são os filhos de um casal de esposos jovens. Feliz aquele pai que com tais flechas consegue abastecer a sua aljava!" (Sl 126, 3-5). Como saímos disso para os mesquinhos pais de um filho só? Por que a mentalidade das famílias mudou tanto em tão pouco tempo, se até alguns anos atrás as famílias eram numerosas — e viam isso com bons olhos?

A resposta deve ser encontrada, sobretudo, na ilusão do dinheiro, porque a alegação que as pessoas hoje fazem para evitar filhos está sempre relacionada, direta ou indiretamente, a um problema material: um filho a mais é sempre "uma boca a mais", um item a mais no orçamento familiar. O parâmetro, a régua que os casais têm usado para medir as suas ações, está sempre guiada por essa lógica mesquinha, a qual, na verdade, denuncia a própria miséria moral em que estamos afundados. Afinal, se não temos nada mais a dar aos nossos filhos do que dinheiro, se essa é realmente a melhor coisa — ou, quem sabe, a única — que podemos passar às futuras gerações, enfim, "se é só para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, somos, dentre todos os homens, os mais dignos de lástima" (1 Cor 15, 19).

Não é verdade que o conforto e o dinheiro sejam o bem mais importante do matrimônio. A Igreja sempre ensinou, ao contrário, que a riqueza mais preciosa que um casal pode acumular são justamente os seus filhos! Foi o que disse o padre Paul Scalia, durante a Missa de Exéquias celebrada pela alma de seu pai, e é também o que ensinam o Papa Pio XI, na encíclica Casti Connubii — "Entre os benefícios do matrimônio ocupa o primeiro lugar a prole" (n. 12) —, o Concílio Vaticano II, na constituição Gaudium et Spes — "Os filhos são o dom mais excelente do Matrimônio" (n. 50) —, e o que confirmou o Papa Paulo VI, mesmo depois do Concílio. O próprio Jesus sugeriu o mesmo, quando disse: "Quem acolhe em meu nome uma destas crianças, a mim acolhe" (Mc 9, 37).

Ciente disso, a esposa e mãe de família Maureen Scalia não só zelou pela geração de seus filhos, mas também por sua educação — afinal, não basta simplesmente "pôr filhos no mundo", é preciso formá-los. Antonin considerava sua mulher "o produto da melhor decisão que havia feito em toda a sua vida". Foi ela quem criou os nove filhos do casal — admite o marido — "com mui pouca assistência" da parte dele. "E não há ninguém burro no grupo!", ele brincava. Também aqui é possível extrair uma grande lição dessa família: a de que as mulheres fazem muito bem quando decidem ficar em casa para cuidar de seus filhos. Sem dúvida, isso pressupõe também o compromisso e a dedicação dos homens de família em trazer o sustento para dentro de casa, porém nada justifica a "confusa ideia" feminista "de que as mulheres são livres quando servem seus empregadores, mas escravas quando ajudam os seus maridos".

O fato de as mulheres terem "conquistado" o mercado de trabalho, como se diz, também configurou um fator decisivo para a redução do número de filhos por família em todo o mundo. Isso enfraquece dramaticamente os laços familiares e torna a comunidade familiar uma presa fácil para as ideologias externas. Os filhos de Antonin Scalia, pasmem, frequentaram escolas públicas e, "certamente, cresceram envolvidos por uma cultura que não dava suporte aos nossos valores". O que os salvou, então? "Fomos ajudados pelo fato de que éramos uma família muito grande", ele diz. Famílias numerosas são núcleos fortes e robustos; famílias pequenas são facilmente fagocitadas pelo mundo. Quanto mais crianças, portanto, tanto melhor.

A família Scalia educava com a fé e com o exemplo, em segundo lugar. Em artigo publicado em The Washington Post, Christopher Scalia, o oitavo filho do casal, dá um comovente testemunho de seu pai:

"Ele nos levava à Missa todo domingo. Trazia consigo o seu já gasto Missal Romano, com as páginas enrugadas por causa da água benta e cheias de cartões de oração de décadas. Seu comportamento durante a Missa não era sempre contido. Se ele discordava de uma posição do padre durante o sermão, ele se inclinava, olhava para minha mãe e franzia a testa ou balançava a cabeça. Assim ele demonstrava o seu desacordo com a homilia. Por outro lado, se gostava de um sermão, ele depois dizia o quanto ao sacerdote. Todos nós víamos quão importante era a Missa para ele, com seus olhos fechados e a cabeça abaixada enquanto se aprofundava na oração durante a consagração e após a Comunhão."

Esse pequeno relato do filho mais novo do casal é bastante revelador. Antonin Scalia não concordava com tudo o que ouvia quando ia à igreja. Ainda que Christopher não tenha dado detalhes do que fazia seu pai menear a cabeça enquanto sentava no banco da paróquia, ele certamente não é o único de nós a discordar do que escuta durante as homilias dominicais. Isso é para nós um testemunho da sua . Antonin estava convencido do poder dos Sacramentos, independentemente dos erros ou possíveis escorregões dos ministros da Igreja. Estava convicto da verdade da fé católica, mesmo quando os seus pregadores falhavam em demonstrar a sua grandeza. Estava na Missa todos os domingos por causa de Cristo presente na Comunhão, e não por causa dos homens.

Os seus filhos, vendo o comportamento do pai, seguiram o seu exemplo e, por terem recebido uma sólida formação religiosa, não desertaram nos momentos de crise. Mais do que isso, eles mesmos parecem ter repetido em suas respectivas famílias aquilo que viram acontecer em casa. Pressupondo que, com exceção de Paul, todos os outros Scalia se casaram, temos 8 matrimônios e 36 filhos, uma média de 4 a 5 filhos por casal. Ninguém pretende elevar a família Scalia aos altares, mas, em uma sociedade que se limita a um casal de filhos por casal e basta, o exemplo deles é realmente admirável.

Novamente, como eles conseguiram isso?

A família Scala era intransigente nos costumes, em último lugar. Em um período em que todos começaram a abandonar os trajes mais sociais para usar calça jeans, a família Scalia resistiu bravamente. Eugene, o filho mais velho, conta que "levou um tempo" para que seus pais finalmente os deixassem usar jeans na escola. "Nós dizíamos, 'Está todo mundo usando jeans', e eles diziam, 'Por que você quer ser como todo mundo?'".

Hoje, o nível de decadência das roupas está bem além do normal. O jeans já não satisfaz, o clima é tropical e as alfaiatarias têm que cortar as pernas das calças. Tome-se como exemploa notícia de meninas fazendo protestos para usarem "shortinho" no colégio. Qual é o argumento da vez? A resistência a este ente abstrato e desconhecido chamado "machismo" — mais uma variante da agressiva "luta dos sexos" que está por toda parte. O que essas adolescentes falham em perceber — e, juntamente com elas, as suas mães — é que usar uma roupa decente, cobrir com modéstia o corpo feminino, é uma forma de elas mesmas se protegerem! É verdade que o modo masculino de olhar para as mulheres precisa mudar, mas esse não é, nem de longe, o único aspecto do problema da objetificação da mulher: também elas são responsáveis pela imagem que passam para os outros. Certamente, ninguém se resume à roupa que veste, mas também a veste constitui parte importante do que uma pessoa é. No mais, Santo Tomás de Aquino fala sobre isso com propriedade em sua Suma Teológica.

Para não permitir que os seus filhos fossem arrastados pelas modas do momento, Antonin Scalia criou em sua casa uma cultura própria. "A primeira coisa que você precisa ensinar aos seus filhos é o que os meus pais costumavam me dizer o tempo todo: 'Você não é todo mundo. Nós temos as nossas próprias regras e elas não são as mesmas do mundo em muitos aspectos, e quanto mais cedo você aprender isso, tanto melhor.'", ele diz.

Esta é, sem dúvida, uma noção fundamental a passar para os nossos filhos nos dias de hoje: a de que eles não são como os outros, de que são diferentes e, por isso, devem realmente se comportar de maneira diferente. Eles estão no mundo, mas, assim como os cristãos de outras épocas, não pertencem a ele — são cidadãos do Céu. Nós todos, também dentro do matrimônio, somos chamados a ser sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13-16). Se o sal perder o seu sabor, não haverá com o que salgarmos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Testemunhos

'Hoje eu retirei o meu DIU'

Como um casal saiu da maior rede de abortos dos Estados Unidos para entrar no mundo fantástico da moral cristã e da Igreja Católica

Desde que minha esposa e eu começamos a namorar, ela sempre usou algum tipo de contracepção. Ela pulava de método em método, mudando com muita frequência. Usou de tudo, do anel ao injetável, do preservativo ao DIU (dispositivo intrauterino). Mesmo depois que nos casamos, tinha sempre algum tipo de "prevenção" no meio. Foi só depois que Abby deixou a Planned Parenthood e que fomos confrontados por novas informações sobre contracepção, que começamos a olhar um pouco mais a fundo para as nossas próprias responsabilidades reprodutivas. Ambos tínhamos caminhos diferentes para a nossa vida sem o controle de natalidade. Mas acabamos chegando a um acordo, e nunca esquecerei o momento em que Abby disse: "Hoje eu retirei o meu DIU".

Por oito anos minha esposa esteve envolvida na indústria de aborto e controle de natalidade, trabalhando na Planned Parenthood. Ela não só estava vendendo o produto, como também era uma cliente. Quando o assunto era controle de natalidade, eu deixava a decisão para ela. A Planned Parenthood e outras traficantes de pílulas adoram gritar: "É uma escolha da mulher!" Pois bem, esse era o dogma ao qual tínhamos aderido naquele momento. Eu pensava estar ajudando ao deixar que ela tomasse as decisões por ela – e, em última instância, por nossa família. É claro que eu estava chateado por não termos mais filhos, mas, naquela hora, a carreira dela parecia ser mais importante. Nós tínhamos um filho e isso parecia ser o suficiente.

Quando Abby finalmente deixou a Planned Parenthood em 2009, nós dois não tínhamos qualquer problema que fosse com anticoncepcionais. Iria levar algum tempo para que os nossos argumentos em defesa da contracepção fossem desmontados. Com a saída dela da Planned Parenthood, ambos deixamos de defender o aborto para nos tornarmos pró-vidas de carteirinha. Então, eu pensava que qualquer coisa era possível.

Tudo começa com a nossa recém-descoberta religião

Pessoas de várias crenças e ideias chegam de diferentes maneiras ao Planejamento Familiar Natural (NFP, em inglês). Muitos o utilizam porque é saudável e respeita o funcionamento natural do corpo da mulher. Abby e eu fomos apresentados ao NFP na igreja, e as nossas razões para usá-lo incluíam razões religiosas, além das relativas à saúde.

Considerando que quase todo novo amigo que fizemos depois da conversão de Abby era católico, não demorou muito para que começássemos a frequentar regularmente as Missas dominicais. E era exatamente ali onde precisávamos estar. Quem imaginou que poderíamos aprender sobre contracepção e um pouco de biologia reprodutiva indo à igreja? Depois de alguns meses assistindo regularmente à Missa, nós decidimos começar o Rito de Iniciação Cristã para Adultos (RCIA, em inglês). Queríamos ao menos aprender sobre a Igreja Católica e descobrir se fazer parte dela era o melhor para nós.

Em nossa primeira aula, deram-nos uma Bíblia, uma cópia do Catecismo e uma edição do livro "Teologia do Corpo para Iniciantes", de Christopher West.

Para mim, tudo começou com esse livro. Eu não tenho o costume de simplesmente pegar um livro e começar a ler. Mas, dessa vez, por alguma razão, eu o fiz. Não vou entrar em cada detalhe sobre o livro, que abrange um vasto material. Todavia, no momento em que terminei de ler, eu sabia que queria me tornar católico e estava 100% de acordo com o ensinamento católico sobre a contracepção. Tudo o que a Igreja ensinava simplesmente fazia todo o sentido para mim. Não foram só os aspectos religiosos que me chamaram a atenção. Eu estava mais impressionado em olhar o design natural dos nossos corpos e o que eles significavam. Nós fomos feitos para reproduzir. Isso requer um homem e uma mulher juntos no ato sexual. É verdade que o sexo faz sentir prazer e todas aquelas coisas boas, mas se você retira o seu propósito e reduz tudo ao orgasmo, ele se torna um ato bem egoísta, ao invés de ser um ato de amor do qual pode sair uma nova vida. A fim de que os nossos corpos e de que o sexo cumpram o seu propósito natural, a relação sexual deve ter, ao mesmo tempo, o prazer e a abertura à reprodução. Deixo Christopher West dizer isso melhor:

"Quando divorciamos o sexo de sua natural orientação a uma nova vida, o que resta para evitar que se justifiquem todos e quaisquer meios para atingir o clímax sexual? Quando esterilizamos o sexo, nós desorientamos essencialmente o ato. Ele não aponta mais para a necessidade do casamento e o crescimento de uma família. O nome do jogo se torna procurar libido para a própria satisfação e, então, a relação natural e vaginal é tratada como uma entre um milhão e uma formas de conseguir prazer sexual. Quando separamos o sexo de sua consequência mais natural, inevitavelmente perdemos a nossa bússola moral."

Então, ali estava eu, com uma perspectiva completamente nova sobre sexo, casamento, Igreja e vida em geral. Eu estava muito animado para destrinchar o ensinamento católico e aprender mais, mas meu próximo desafio seria fazer Abby pular a bordo do mesmo trem comigo. Essa era a prioridade número 1...

Mas, no fim das contas, isso nem foi um grande desafio. No primeiro domingo depois de terminada a leitura do livro, estávamos na Missa. Eu estava achando tudo bastante normal na celebração, mas, ao meu lado, no decorrer da liturgia, Abby passava por uma grande conversão e mudança de filosofia. Eu não sabia no momento, mas Abby passou a Missa inteira olhando todas as famílias e todas as crianças sentadas ao seu redor. Ela percebeu, então, que queria que a nossa família crescesse, e a única coisa que ela podia pensar era: "Eu preciso tirar esse DIU de dentro de mim!"

Naquela tarde, quando chegamos em casa após a Missa, Abby me disse que queria tirar o DIU. Minha primeira resposta foi: "Sério? Você tem certeza?" Abby: "Certeza absoluta. Eu quero isso fora de mim amanhã, o mais depressa possível."

Ótimo! Eu não ia mais precisar convencê-la a livrar-se do controle de natalidade. Ela chegou lá por conta própria. Chega a ser engraçado como nós tivemos estradas completamente diferentes para chegar exatamente ao mesmo destino. Estávamos ambos no mesmo barco e sequer sabíamos.

No dia seguinte, Abby telefonou para a sua médica e disse a ela que queria tirar o DIU. Eis como foi a conversa:

Abby: Oi. Eu preciso ter o meu DIU retirado hoje mesmo.
Recepcionista: Está tendo algum problema?
Abby: Não. Só preciso tirá-lo imediatamente.
Recepcionista: Ok, podemos ver você em três semanas.
Abby: Não, nada bom. Preciso falar com uma enfermeira.

Enfermeira: Oi. Você quer tirar o seu DIU?
Abby: Sim. Não estou tendo nenhum problema, mas preciso que ele seja tirado hoje.
Enfermeira: Bem, não temos nenhuma consulta disponível para hoje. Podemos ver você em algumas semanas.
Abby: Escute, eu sei como retirar essa coisa. Ou a médica tira isso hoje ou eu mesma tiro. Tem que ser hoje.
Enfermeira: Você pode vir à 1 da tarde hoje?
Abby: Vejo você, então.

Assim que Abby teve o DIU retirado, toda conversa que tínhamos sobre aumentar a nossa família era empolgante e uma grande injeção de ânimo em nosso matrimônio. Só a ideia de ter mais filhos já fez com que nos aproximássemos um do outro. O sexo se tornou cheio de significado. Nossa fé se tornou mais profunda. Não houve fogos de artifício ou uma festa para celebrar nossa decisão de abandonar a contracepção, mas posso dizer que isso colocou o nosso casamento em um belo caminho, em uma direção completamente nova.

O que aconteceu a partir disso...

As coisas não se tornaram mais fáceis depois que decidimos ter mais filhos. Uma vez retirado o DIU, passamos por um ano de infertilidade – menos do que muitos casais que sabíamos que usavam contraceptivos hormonais e de outros tipos. Nós aceitamos que talvez não teríamos mais filhos, embora fosse algo difícil de engolir. Mas, depois de muito trabalho entre Abby e sua médica, conseguimos conceber nosso segundo bebê... o primeiro de 3 bonitos garotos. Alex, Luke e Carter vieram um após o outro, em três anos consecutivos. Esses garotos são a prova para nós de que estar no plano de Deus e abertos à vida é a melhor vida para se viver. Agora, usamos o NFP (Planejamento Familiar Natural) e ele funciona muito bem para nós.

Se não tivéssemos passado por esse um ano de infertilidade, eu não sei se teríamos estudado sobre o NFP. Não sei se teríamos aprendido tanto sobre fertilidade e a ordem natural do sexo. Durante esse período, também aprendemos muito mais sobre os outros efeitos colaterais do controle hormonal de nascimentos.

Como agora, em nosso casamento, nós não usamos nenhum produto químico ou látex. Nós temos uma relação sexual saudável, natural e aberta à vida. Ambos entendemos que a fertilidade dela é nossa e nós trabalhamos nisso juntos. A boa notícia é que o NFP nos aproximou enquanto casal. Nada jamais vai se intrometer entre minha esposa e eu em nosso leito de novo. Talvez os nossos filhos de 2 anos e 1 ano e meio, mas nada além disso!

Por Doug Johnson | Tradução e adaptação: Christo Nihil Praeponere

| Categoria: Sociedade

Quatro conselhos dos santos para a educação dos seus filhos

Vão aqui quatro preciosos conselhos dos santos para a educação dos seus filhos. Nem todas são exortações muito agradáveis aos ouvidos, mas com certeza todas serão de grande valor para a sua família.

“Como poderão os filhos ser bons, se os pais não prestam? Só por milagre". Com essa frase, Santo Afonso de Ligório resume a grave responsabilidade dos pais na formação da consciência de seus filhos. Como ensinou Nosso Senhor, pelos seus frutos os conhecereis. São muitíssimos os nomes de santos que tiveram pais ou mães igualmente virtuosos: Santo Agostinho e Santa Mônica, São Gregório Magno e Santa Sílvia, Santa Catarina da Suécia e Santa Brígida… e a lista se estende. São verdadeiramente almas gigantes, que só puderam se elevar porque receberam uma educação exemplar de seus pais.

Vão aqui quatro conselhos dos santos para você educar os seus filhos. Nem todas são exortações muito agradáveis aos ouvidos, mas, com certeza todas serão de grande valor para a sua família.

1. Ser obediente a Deus

Se queremos saber mandar, temos primeiro de saber obedecer, procurando impor-nos mais com o amor do que com o temor." (São João Bosco[1])

Antes de impor a autoridade sobre os filhos, é preciso lembrar que há uma autoridade à qual todos os homens devem obedecer. Tanto maior será o respeito dos filhos por seus pais, quanto maior for o respeito destes ao Pai dos céus. O filho que vê o pai trabalhando, tratando com respeito a sua mulher, cuidando das necessidades da casa e rezando - em suma, cumprindo o seu dever de cristão e pai de família -, não só será dócil às suas instruções, como seguirá o seu exemplo, ao crescer. Portanto, em primeiro lugar, o Reino de Deus, isto é, o cumprimento da Palavra. As outras coisas virão por acréscimo.

2. Corrigir por amor, não por ira

Tome-se como regra nunca pôr as mãos num filho enquanto dura a ira ou cólera; espere-se até que se tenha aquietado por completo." (Santo Afonso de Ligório[2])
“Quando, porém, se tornarem necessárias medidas repressivas, e consequentemente a mudança de sistema, uma vez que certas índoles só com o rigor se podem dominar, cumpre fazê-lo de tal maneira que não apareça o mínimo sinal de paixão." (São João Bosco [3])

Os conselhos de Santo Afonso e São João Bosco são o mesmo conselho do Autor Sagrado: “Vós, pais, não provoqueis revolta nos vossos filhos" (Ef 6, 4). Se é verdade que, como adverte o Livro dos Provérbios, “quem poupa a vara, odeia seu filho" (13, 24), também é verdade que toda correção deve ser feita de modo racional e equilibrado, inspirada pelo amor, não pela ira. Caso contrário, também a criança aprende a irar-se, sem que mude de comportamento. Aqui, é importante evitar não só as agressões físicas, mas também os gritos e as palavras exasperadas, que mais servem para intimidar as pessoas que para melhorar o seu caráter.

3. Dar bom exemplo

Os pais estão igualmente obrigados a dar bom exemplo a seus filhos. Estes, principalmente quando pequenos, imitam tudo o que veem, com a agravante de seguirem mais facilmente ao mal, ao qual nos sentimos inclinados por natureza, que o bem, que contraria nossas inclinações perversas. Como poderão os filhos comportar-se irrepreensivelmente, se ouvirem seus pais blasfemar a miúdo, falar mal do próximo, injuriá-lo e desejar-lhe mal, prometer vingar-se, conversar sobre coisas indecentes e defender máximas ímpias, como estas: Deus não é tão severo como dizem os Padres; ele é indulgente com certos pecados, etc.? O que se tornará a filha que ouve sua mãe dizer: É preciso deixar-se ver no mundo e não se enclausurar como uma freira em casa? Que bem se pode esperar dos filhos que veem o pai o dia inteiro sentado na taberna e, depois, chegar bêbado a casa, ou então visitar casas suspeitas, confessando-se uma só vez no ano ou só muito raramente? S. Tomás diz que tais pais, de certo modo, obrigam seus filhos a pecar." (Santo Afonso de Ligório[4])

As palavras de Santo Afonso são suficientemente claras. Aqueles que dão mau exemplo de vida, “de certo modo, os obrigam seus filhos a pecar". Se essa sentença é verdade para o mal, também o é para o bem. Pais que vivem uma vida de oração e virtudes excitarão o coração de seus filhos para o serviço de Deus e das almas. O casal de beatos Luís Martin e Zélia Guérin educou tão bem suas cinco filhas, que todas elas se tornaram religiosas, entre elas Santa Teresinha do Menino Jesus, que é doutora da Igreja.

O pai que, lendo essas linhas, lamentou não ter dado uma boa educação a seus filhos - pois não tinha conhecido Nosso Senhor quando começou a sua família - deve, antes, louvar a Deus pelo conhecimento que agora tem e ainda pode dar a seus filhos, por meio de conselhos. É preciso, agora, buscar a conversão da própria família, sobretudo com uma vida de muita oração e penitência, evitando inquietações e escrúpulos desnecessários, afinal, Deus não nos pede conta daquilo que ignoramos. Uma vez conscientes da Sua vontade, todavia, é importante trabalhar com temor e tremor na própria salvação e na dos outros, sabendo que a quem muito foi dado, muito será cobrado.

4. Agir com prudência e vigilância

“Os pais são os culpados, pois quando se trata de seus cavalos, eles mandam aos cavalariços que cuidem bem deles, e não deixam que cresçam sem serem domados, e desde cedo põem neles freio e outros arreios. Mas quando se trata de seus filhos jovens, deixam-nos soltos por todas as partes durante muito tempo, e assim perdem a castidade, se mancham com desonestidades e jogos, e desperdiçam o tempo com espetáculos imorais. (...)Cuidamos mais de nossos asnos e de nossos cavalos, do que de nossos filhos. O que possui uma mula, se preocupa em encontrar um bom cuidador, que não seja nem rude, nem desonesto, nem ébrio, mas um homem que conheça bem o seu ofício. Todavia, quando se trata de procurar um professor para a alma da criança, contratamos o primeiro que aparece. E, no entanto, não há arte superior a esta. O que é comparável à arte de formar uma alma, de plasmar a inteligência e o espírito de um jovem? Quem professa esta ciência deve proceder com mais cuidado que um pintor ou um escultor ao realizar sua obra." (São João Crisóstomo[5])

São João Crisóstomo viveu no século IV, mas esse conselho é válido sobretudo para os nossos tempos, em que as crianças são entregues a um sistema educacional corrompido, muitas vezes com a displicência dos pais, que querem passar toda a sua responsabilidade de educá-las para o Estado.

“Quando se trata de procurar um professor para a alma da criança, contratamos o primeiro que aparece". Essa sentença convida todos os pais a um exame de consciência: como me relaciono com a escola dos meus filhos? Sei ou procuro saber o que os professores estão passando para eles, quais livros estão sendo usados para a sua instrução e como é o ambiente em que convivem? Em casa, deixo os meus filhos jovens “soltos por todas as partes", deixando que façam o que querem, sem freios e sem disciplina? Converso com eles com frequência, agindo verdadeiramente como pai? O exame deve incluir, evidentemente, o propósito de agir com mais pulso e cuidado na orientação da prole.

É preciso empregar muita diligência nesses exames, pois, como diz Santa Teresinha do Menino Jesus, as crianças “são como uma cera mole sobre a qual se pode depositar tanto as impressões das virtudes como do mal", e os primeiros responsáveis por moldar essas pequenas almas são justamente os pais. A santa religiosa de Lisieux exclamava: “Ah! quantas almas chegariam à santidade se fossem bem dirigidas!..." [6]

Lembremo-nos sempre que Deus pedirá conta daquilo que fizemos com as almas de nossos filhos e peçamos a Sua graça para imitarmos a Sagrada Família de Nazaré, na qual Nosso Senhor cresceu, rodeado de carinho, atenção e amor.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Recomendação

Referências

  1. São João Bosco, Circular sobre os Castigos, 1.
  2. Pe. Saint-Omer, C.Ss.R. (org.), Escola da Perfeição Cristã, p. 161.
  3. São João Bosco, Circular sobre os Castigos, 1.
  4. Pe. Saint-Omer, C.Ss.R. (org.), Escola da Perfeição Cristã, p. 161.
  5. São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São Mateus, LIX, 7.
  6. Santa Teresinha do Menino Jesus, Manuscrito A, 52v-53r.

| Categorias: Pró-Vida, Sociedade

Minha Bela Mulher: comercial tailandês destaca a grandeza da maternidade

Três mulheres de vida aparentemente ordinária transformam-se em testemunhos a partir da doação e do sacrifício da maternidade.

Uma série de comerciais produzidos pela empresa Wacoal chamou a atenção por dar valor à autêntica beleza feminina: aquela que vem de suas virtudes. O projeto tailandês – de nome “Minha Bela Mulher" – traz à luz a história de três mulheres reais, que abandonaram reputação, carreira e a própria integridade para se doarem a outras pessoas, fazendo da máxima do Evangelho: “o que perder a sua vida (...), irá salvá-la" (Mc 8, 35) um verdadeiro propósito de vida.

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As histórias exibidas são contadas por pessoas próximas a elas: um esposo, um empregador e um amigo. As três, de aspectos físicos aparentemente ordinários, têm em comum o fato de terem aceitado renunciar e sacrificar a si mesmas para exercer o dom da maternidade – o que torna as suas vidas realmente extraordinárias.

As propagandas de Wacoal – uma empresa de lingeries – vão na contramão das peças publicitárias modernas, que tendem à vulgarização do corpo feminino e ao menosprezo da identidade de mãe, a qual toda mulher é chamada a assumir. Como ensina Dom Aquino Corrêa:

“A mulher não é apenas uma formosa estátua de carne. Tem outras belezas muito mais excelentes e nobres: a beleza da sua inteligência, a beleza dos seus sentimentos e, sobretudo, a beleza da sua virtude e do seu caráter"[1].

Em uma sociedade onde a beleza física acaba mais valorizada do que a beautiful inside [“beleza de dentro"], são dignos de aplausos não só os exemplos dessas nobres mulheres, como a coragem dos publicitários que produziram esses vídeos. Eles não temeram nadar contra a corrente e expuseram ao mundo um grande testemunho de humanidade.

Ao final das peças, a frase “Todas as mulheres foram criadas para ser belas" lembra que a beleza verdadeira é atingível. Cooperando com a graça de Deus, toda mulher pode elevar-se e ascender de fato aos céus, tomando como exemplo máximo a bem-aventurada Virgem Maria. Permanecem válidas ainda hoje as sábias palavras de São Pedro às mulheres: “ Não seja o vosso adorno o que aparece externamente: cabelos trançados, ornamentos de ouro, vestidos elegantes; mas tende aquele ornato interior e oculto do coração, a pureza incorruptível de um espírito suave e pacífico, o que é tão precioso aos olhos de Deus" (1 Pd 3, 3-4).

Por Equipe Christo Nihil Praeponere | Informações: LifeSiteNews.com

Referência

  1. Dom Aquino Corrêa. Concursos de beleza, 27 de dezembro de 1930. In Discursos (v. II, t. II). pp. 68-69. Brasília, 1985.

| Categoria: Sociedade

Sacrifício, o real significado do Matrimônio

Quem se une em matrimônio deve amar o outro “como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”.

Sacrifício, o verdadeiro significado do Matrimônio

O motivo de muitos casamentos não "funcionarem", por assim dizer, reside na esperança que os esposos não poucas vezes depositam no lugar errado. Muitas pessoas têm se unido com a finalidade de satisfazer a si mesmas. Assim, quando surgem as primeiras dificuldades, os primeiros desarranjos, o casal entra em crise e quer se separar. Trata-se, sem dúvida, de um problema de fé. A pessoa crê firmemente que se casou para "ser feliz". Assim, se o seu cônjuge não passa de um obstáculo no caminho rumo a esta "felicidade egoísta", nada resta senão descartar de modo definitivo esta pessoa – como se descarta um objeto mesmo.

Neste conflito, sequer os filhos constituem um empecilho para que os pais se divorciem. Afinal, se o que importa é a felicidade deles, o importante são eles, nada mais. Não é que os pais que se divorciam não se preocupem com seus filhos. É que eles estão muito preocupados consigo mesmos para pensar em outra coisa que não seja... eles mesmos.

O verdadeiro amor é totalmente o contrário deste anseio desordenado de autossatisfação. Ensina São Josemaría Escrivá:

"Às vezes, fala-se do amor como se fosse um impulso para a satisfação própria, ou um simples recurso para completarmos em moldes egoístas a nossa personalidade. E não é assim: amor verdadeiro é sair de si mesmo, entregar-se. O amor traz consigo a alegria, mas é uma alegria com as raízes em forma de cruz. Enquanto estivermos na terra e não tivermos chegado à plenitude da vida futura, não pode haver amor verdadeiro sem a experiência do sacrifício, da dor. Uma dor que se saboreia, que é amável, que é fonte de íntima alegria, mas que é dor real, porque supõe vencer o egoísmo e tomar o amor como regra de todas e cada uma de nossas ações."01

Uma das passagens divinamente inspiradas mais belas é aquela em que São Paulo compara o vínculo conjugal ao amor de Cristo pela Igreja. "As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o salvador" (Ef 5, 22-23), diz o Apóstolo. "Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela" (5, 25).

"Como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela". E como Cristo amou a Igreja? "Tendo amado os seus que estavam no mundo", diz São João, "amou-os até o fim" (Jo 13, 1): não só até o fim de sua vida, mas "até o cume de toda a possibilidade de amor (...), até à extrema exigência imposta pelo amor"02. No altar do Calvário, consuma-se o sacrifício de uma vida inteira doada por amor: a entrega de Jesus pelos Seus, pela Igreja. É, sem dúvida, um amor alegre, mas revela-se "em forma de cruz".

No altar do leito conjugal e da convivência diária, do mesmo modo, consuma-se outro sacrifício de amor: a entrega matrimonial. Esta também é uma bela oferta, que "traz consigo a alegria", mas, sem dúvida, não é fácil de ser feita. Assim como foi difícil para Jesus encarar o sofrimento da Cruz, nesta vida, os filhos de Deus que se unem em matrimônio também são chamados a entrar no Getsêmani. No horto das Oliveiras, há quase dois mil anos, Jesus "entrou em agonia (...) e seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra" (Lc 22, 44). No vale de lágrimas que é o mundo, hoje, os casais são chamados a doar as suas vidas, renunciando a si mesmos em prol do outro e dos seus filhos.

O matrimônio não foi feito para que um indivíduo se faça feliz. Ele foi concebido para que o homem e a mulher, fazendo-se instrumentos do amor divino, daquele amor com que Cristo amou a Sua Igreja, façam-se felizes, um ao outro. O casamento cristão não foi instituído para o egoísmo, mas para a formação da família, pela qual os pais devem se gastar, dia após dia, como Jesus se gastou pelos Seus.

Que os casais não percam de mente estas palavras, que devem moldar a verdadeira paternidade: "Não pode haver amor verdadeiro sem a experiência do sacrifício".

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. É Cristo que passa, n. 43
  2. Aos Sacerdotes, filhos prediletos de Nossa Senhora. Movimento Sacerdotal Mariano. 25ª ed. brasileira. p. 774.