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Maria é toda poderosa junto de Deus

Assim quer Jesus honrar sua querida Mãe, que tanto o honrou em vida, prontamente concedendo-lhe tudo que pede ou deseja.

Por S. Afonso Maria de Ligório — Tão grande é o prestígio de uma mãe, que nunca pode tornar-se súdita de seu filho, ainda que seja monarca e tenha domínio sobre todas as pessoas do seu reino. É verdade, sentado agora à direita de Deus Pai, no céu, reina Jesus e tem supremo domínio sobre todas as criaturas e também sobre Maria. E o tem mesmo como homem, diz Santo Tomás, por causa da união hipostática com a pessoa do Verbo. Todavia, é também certo que nosso Redentor, quando vivia na terra, quis humilhar-se a ponto de ser submisso a Maria. "E lhes estava sujeito" (Lc 2, 51). Sim, desde que Jesus Cristo se dignou escolher Maria por Mãe, estava como Filho realmente obrigado a obedecer-lhe, diz S. Ambrósio. Os outros santos — reflete Ricardo de S. Lourenço — estavam unidos à vontade de Deus; mas teve Maria maior ventura. Pois não só foi submissa à vontade de Deus, mas também o Senhor se submeteu à sua vontade. Das outras virgens diz-se que "seguem o Cordeiro por toda parte". Porém, de Maria dizer se pode que o Cordeirinho de Deus a seguia, porque lhe foi submisso.

Daí concluímos que são as súplicas de Maria eficacíssimas para obterem tudo quanto ela pede, ainda que não possa dar ordens a seu Filho no céu. Pois os seus rogos sempre são rogos de Mãe. Tem Maria o grande privilégio de ser poderosíssima junto ao Filho, diz Conrado de Saxônia. E por quê? Justamente pela razão já apresentada, e que mais abaixo vamos examinar minuciosamente: porque as súplicas de Maria são súplicas de Mãe. De onde as palavras de S. Pedro Damião: A Virgem consegue quanto quer, no céu como na terra; até aos desesperados pode dar esperança de salvação. O Santo chama o Redentor de altar de misericórdia, onde os pecadores obtém de Deus a graça do perdão. A ele, Jesus, dirige-se Maria quando quer obter-nos alguma graça. O filho tanto aprecia, porém, os rogos de sua Mãe e tanto deseja ser-lhe agradável, que sua intercessão mais afigura uma ordem do que uma prece, e ela parece antes uma Rainha do que uma serva, remata o santo. Assim quer Jesus honrar sua querida Mãe, que tanto o honrou em vida, prontamente concedendo-lhe tudo que pede ou deseja. Belamente o exprime S. Germano nas suas palavras dirigidas à Virgem: Sois onipotente, ó Mãe de Deus, para salvar os pecadores; não precisais de recomendação alguma diante de Deus, pois que sois a Mãe da verdadeira vida.

Não receia S. Bernardino de Sena concordar com a sentença de que "ao império de Maria todos estão sujeitos, até o próprio Deus". Isto é, Deus lhe atende os rogos como se foram ordens. Exclama por isso Eádmero: Virgem, de tal modo vos elevou o Senhor, que podeis obter para vossos servos todas as graças possíveis; pois é onipotente vosso patrocínio, como assevera Cosmas de Jerusalém. Maria, sim, sois onipotente — acentua Ricardo de S. Lourenço; pois, que, conforme as leis, deve a rainha gozar dos mesmos privilégios que o rei. Por isso, colocou Deus toda a Igreja não só sob o patrocínio, senão também sob o império de Maria, observa S. Antonino.

Convindo portanto à mãe o mesmo império que ao filho, com razão Jesus, que é onipotente, tornou Maria toda poderosa. Contudo, sempre será verdade que o Filho é onipotente por natureza e a Mãe o é por graça. E isto se verifica, porque, quanto pede a Mãe, tudo lhe concede o Filho, como justamente foi revelado a S. Brígida. Ouviu ela Jesus dizer a Maria: Minha Mãe, já sabes quanto te quero; pede-me por isso o que quiseres, porque, seja qual for a tua petição, não pode deixar de ser de mim ouvida. E que bela razão alegou o Senhor! Minha Mãe, disse-lhe, nada me negavas na terra; é justo que nada eu te negue no céu. Diz-se que Maria é onipotente; mas é do modo que se pode entender de uma criatura, que não é capaz de atributo divino. Porque com seus rogos obtém tudo quanto quer, é ela, pois, onipotente.

Com sobras de razão, portanto, ó excelsa advogada nossa, vos diz S. Bernardo: Tudo se faz, se vós o quereis. Basta a vossa vontade para que tudo se faça. Quereis elevar a uma alta santidade o mais abjeto dos pecadores? Em vossa vontade está o fazê-lo. De Eádmero são estas palavras: Senhora, basta-vos querer a nossa salvação e nós não podemos perecer. S. Alberto Magno põe na boca de Maria palavras semelhantes: Devo ser rogada, para que queira; porque o que eu quero é necessário que se faça.


Da obra Glórias de Maria (I, 6), de Santo Afonso Maria de Ligório,
3. ed. Aparecida: Santuário, 1989, pp. 151-153.

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Ninguém se salva a não ser por meio de Maria

Jesus foi o fruto de Maria, como diz Santa Isabel. Quem quer o fruto deve também querer a árvore. Quem, pois, quer a Jesus, deve procurar Maria; e quem acha Maria, certamente acha também Jesus.

Por Santo Afonso Maria de Ligório — Uma sentença de S. Bernardo diz: Cooperaram para nossa ruína um homem e uma mulher. Convinha, pois, que outro homem e outra mulher cooperassem para nossa reparação. E estes foram Jesus e Maria, sua Mãe. Não há dúvida, diz o Santo, Jesus Cristo, só, foi suficientíssimo para remir-nos. Mais conveniente era, entretanto, que para nossa reparação servissem ambos os sexos, assim como haviam cooperado ambos para nossa ruína. Pelo que S. Alberto chamou a Maria cooperadora da redenção. A própria Virgem revelou a S. Brígida que assim como Adão e Eva por um pomo venderam o mundo, assim também ela e seu Filho com um coração o resgataram. Do nada pôde Deus criar o mundo, observa S. Anselmo, mas não quis repará-lo sem a cooperação de Maria.

De três modos, explica o Padre Suárez, cooperou a divina Mãe para a nossa salvação. Primeiro, merecendo com merecimento de côngruo a Encarnação do Verbo. Segundo, rogando muito a Deus por nós, enquanto esteve no mundo. Terceiro, sacrificando com boa vontade a Deus a vida do Filho para nossa salvação. Tendo, pois, Maria cooperado para a redenção com tanto amor pelos homens e tanto zelo pela glória divina, com razão determinou o Senhor que todos nos salvemos por intermédio de sua intercessão.

Maria é chamada cooperadora de nossa justificação, diz Bernardino de Busti, porque Deus lhe entregou as graças todas que nos quer dispensar. Por isso, no dizer de S. Bernardo, todas as gerações, passadas, presentes e futuras, devem considerar Maria como medianeira e advogada da salvação de todos os séculos.

Garante-nos Jesus Cristo que ninguém pode vir a ele, a não ser que o Pai o traga. "Ninguém pode vir a mim, se o Pai não o atrair" (Jo 6, 44). O mesmo também, no sentir de Ricardo de S. Lourenço, diz Jesus de sua Mãe. Ninguém pode vir a mim, se minha Mãe o não atrair com suas preces. Jesus foi o fruto de Maria, como diz S. Isabel (Lc 1, 42). Quem quer o fruto deve também querer a árvore. Quem, pois, quer a Jesus, deve procurar Maria; e quem acha Maria, certamente acha também Jesus. Vendo Isabel a Santíssima Virgem que a fora visitar em sua casa, e não sabendo como lhe agradecer, exclamou cheia de humildade: E donde a mim esta dita, que venha visitar-me a Mãe do meu Senhor? (Lc 1, 43). Mas como assim pergunta? Não sabia já Isabel que não só Maria, como também Jesus tinha vindo a sua casa? Por que, pois, se declara indigna de receber a Mãe, em vez de confessar-se indigna de ver o Filho vir a seu encontro? Ah! é porque bem entendia a Santa que Maria vem sempre com Jesus e que, portanto, lhe bastava agradecer à Mãe sem nomear o Filho.

No livro dos Provérbios (31, 14), diz-se da mulher prudente: Fez-se como a nau do negociante, que traz de longe o seu pão. Maria foi esta ditosa nau, que do céu nos trouxe Jesus Cristo, pão vivo descido do céu para dar-nos a vida eterna, como ele diz: Eu sou o pão vivo, que desci do céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente (Jo 6, 51). Daí conclui Ricardo de S. Lourenço que no mar deste mundo todos se perdem, quantos não se tiverem recolhido a esta nau, isto é, que não forem protegidos de Maria. Sempre, portanto, continua ele, que estivermos em perigo de nos perdermos pelas tentações ou paixões desta vida: urge recorrer a Maria, clamando: Depressa, Senhora, ajudai-nos, salvai-nos, se não quereis ver-nos perdidos. E note-se aqui, de passagem, que o sobredito autor não se faz escrúpulo de dizer a Maria: Salvai-nos que perecemos! Não imita, por conseguinte, o autor mencionado no parágrafo anterior, o qual nos proíbe que peçamos à Virgem salvação, porquanto no seu parecer só de Deus devemos esperá-la. Bem pode um condenado à morte dizer a algum valido do rei que o salve, pedindo ao príncipe indulto para a sua vida. Mas por que então não poderemos nós dizer à Mãe de Deus que nos salve, impetrando-nos a graça da vida eterna? S. João Damasceno sem dificuldade dizia à Virgem Santíssima: Rainha pura e imaculada, salvai-me, livrai-me da condenação eterna! S. Boaventura saúda-a como "salvação dos que a invocam". A Santa Igreja aprova o chamar-lhe "saúde dos enfermos". E teremos nós escrúpulos de pedir-lhes que nos salve, quando um escritor afirma que ninguém se salva senão por ela? E já antes deles, S. Germano afirmou "que ninguém se salva a não ser por meio de Maria".


Da obra Glórias de Maria (I, 5), de Santo Afonso Maria de Ligório,
3. ed. Aparecida: Santuário, 1989, pp. 141-143.

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Coração Doloroso e Imaculado de Maria, rogai por nós!

“Cheia de graça” que era e com um coração ardente de amor, a Santa Virgem era capaz de ver o pecado nas almas culpadas assim como nós vemos as feridas purulentas em um corpo doente.

Por Reginald Garrigou-Lagrange — Diz-se que, quando pessoas consagradas a Deus, mas em estado de pecado mortal, aproximavam-se de Santa Catarina de Sena, ela via seus pecados e sentia uma tal náusea, que era obrigada a virar o rosto.

Por mais forte razão, a Santa Virgem via o pecado nas almas culpadas como nós vemos, nós, as feridas purulentas em um corpo doente. Ora, a plenitude de graça e de caridade, que não cessou de crescer nela desde sua imaculada conceição, aumentava proporcionalmente em seu coração a capacidade de sofrer do maior dos males. De fato, disto sofre-se tanto mais quanto mais se ama a Deus, Bem soberano, a quem ofende o pecado; e as almas, que o pecado mortal desvia de seu fim último e as torna dignas da morte eterna.

Maria, sobretudo, vê, sem ilusão possível, preparar-se e consumar-se o maior dos crimes: o deicídio; ela vê o paroxismo do ódio contra aquele que é a Luz, a mesma Bondade e Autor da salvação.

Para entrever o que foi o sofrimento de Maria, é preciso pensar em seu amor natural e sobrenatural, em seu amor teologal, por seu Filho único, não apenas amado, mas legitimamente adorado, a quem amava muito mais que a sua própria vida, posto que era seu Deus. Ela o concebera miraculosamente, o amava com um coração de Virgem, o mais puro, o mais tenro, o mais rico de caridade que jamais existiu, excetuado o coração do Salvador.

Ela sabia incomparavelmente melhor que nós a razão superior da crucifixão: a redenção das almas pecadoras; e, no mesmo instante, tornava-se, de modo mais profundo que nunca, a mãe espiritual destas almas por salvar.

Se Abraão sofreu de modo heróico ao preparar-se para imolar seu filho, não sofreu senão por algumas horas, e um anjo desceu do céu para impedir a imolação de Isaac. Ao contrário, desde as palavras do velho Simeão, Maria não cessará de oferecer aquele que devia ser Sacerdote e vítima e se oferecer com ele. Esta dolorosa oblação durará por anos e, se um anjo desceu do céu para parar a imolação de Isaac, nenhum desceu para impedir a de Jesus.

Donde a invocação "Coração doloroso e imaculado de Maria, rogai por nós". Nesta invocação, a palavra "imaculado" lembra o que Maria recebeu de Deus e "doloroso", tudo o que fez e tudo que sofreu com seu Filho, por Ele e n'Ele, para nossa salvação. Com Ele, mereceu, de um mérito de conveniência, não apenas a aplicação dos méritos do Salvador a tal ou tal alma, como Santa Mônica por Santo Agostinho, mas mereceu com o Redentor "a liberação do gênero humano" ou a redenção objetiva, donde o título de Corredentora, que lhe é mais e mais reconhecido pela Igreja.

Verdadeiramente, a plenitude de graça e de caridade aumenta consideravelmente nela a capacidade de sofrer do maior dos males. Ela, que deu à luz a seu Filho sem dor, dá à luz aos cristãos em meio aos maiores sofrimentos. Que preço pagou por nós? "Nós lhe custamos seu Filho único", diz Bossuet. "Era a vontade do Pai eterno fazer nascer filhos adotivos pela morte do Filho verdadeiro".


Extraído de "La Capacité de souffir du péché en Marie Immaculée",
in: Angelicum, vol. 31 (1954), fasc. 4, pp. 352-357.
Tradução para o português do site Permanência.

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As condições para o triunfo do Imaculado Coração de Maria

O triunfo do Imaculado Coração de Maria depende de nossa conversão pessoal e de uma vida íntima de oração com Deus.

Apenas quatro meses nos separam do grande centenário da primeira aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima. E é claro que, nesta ocasião, o coração dos católicos não poderia deixar de palpitar de alegria pela expectativa de que o "triunfo do Imaculado Coração de Maria" finalmente aconteça. Em que pese todas as más notícias deste começo de ano — atentados terroristas, massacres e genocídios —, a esperança nas promessas da Senhora de Fátima permite-nos saborear a paz dos santos mesmo nos momentos de amargura.

Que o Coração Imaculado de Maria triunfe sobre todo mal. É isso o que deseja qualquer católico. Todavia, a mensagem de Fátima não diz respeito somente a uma vitória de Nossa Senhora sobre as hostes infernais. Para que essa vitória ocorra, explica a Virgem, o homem deve voltar-se para o mundo interior, numa verdadeira atitude de conversão, e parar de ofender a Deus com seus pecados. Deve, aliás, rezar diariamente o santo terço e fazer as comunhões reparadoras aos cinco primeiros sábados. Em suma, a humanidade tem de procurar viver para o Céu, cumprindo as suas promessas batismais. Essas são as condições para que o mal caia e o bem triunfe.

Uma meditação sincera sobre tais pedidos da Virgem leva-nos a concluir que sua mensagem não é um conjunto de previsões sobre um futuro sombrio, como poderiam pensar alguns curiosos; ela é uma "exortação à oração como caminho para a 'salvação das almas'", um caminho que se faz também pela penitência e pela conversão [1]. E talvez seja por isso que as aparições de Fátima despertam tanto incômodo em alguns ambientes, pois falam de uma realidade que já não parece tão interessante, uma realidade aparentemente já superada, a saber, a "salvação das almas". Infelizmente, é preciso reconhecer que a paz que muitos procuram atualmente é uma paz de ordem material e imediata, que não exige sacrifícios nem renúncias. Mas esse tipo de paz definitivamente não é a paz cristã, tampouco é a paz pregada pela Virgem Maria aos três pastorinhos.

De fato, nenhuma paz é verdadeira se não nasce de uma entrega essencialmente amorosa. Quem vive buscando o bem-estar neste mundo acaba provocando o mal-estar próprio e de seus irmãos, já que uma vida cujo objetivo final não é o Céu torna-se, aos poucos, um projeto em que o pecado não é só uma opção, mas um caminho. Isso pode ser visto no dia a dia de qualquer pessoa.

"Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele mesmo é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?". Ao atenderem a esse convite da Virgem Maria, Lúcia, Jacinta e Francisco anteciparam em suas vidas aquele "triunfo" do qual falávamos anteriormente. Eles ofertaram-se amorosamente em sacrifício de expiação pela conversão dos pecadores. Neste sentido, a paz se tornou uma realidade tanto para eles quanto para aqueles que eram objetos de sua caridade ardente. Nós precisamente fomos beneficiados com o amor dessas crianças, que hoje intercedem do Céu por nós. É assim que devem triunfar os Corações de Jesus e de Maria. Trata-se do cumprimento daquilo que dizia São Pedro em uma de suas cartas: "Antes de tudo, mantende entre vós uma ardente caridade, porque a caridade cobre a multidão dos pecados" (1 Pe 4, 8).

Eis, então, as três condições para o triunfo do Imaculado Coração de Maria: oração, penitência e apostolado. Uma é necessariamente consequência da outra. Quem reza, ou seja, tem intimidade com a pessoa de Cristo, vai querer mudar seu estilo de vida e, por meio dessa mudança, conquistará outros para o caminho de Jesus. Mas tudo começa com a oração, momento em que o homem se desarma perante Deus e coloca-se à sua escuta. A oração é um diálogo com Deus, "é a hora das intimidades santas e das resoluções firmes" [2].

A oração, por outro lado, não é simplesmente um palavreado piedoso. Como explicou Bento XVI certa vez, "sabemos que a oração não se deve dar por certa: é preciso aprender a rezar, quase adquirindo esta arte sempre de novo" [3]. Isso nos ensina também o exemplo dos santos, sobretudo dos três videntes de Fátima, que tiveram de entrar na "escola da oração", cuja professora era a própria Virgem Maria. Eles aprenderam a guardar o próprio coração das perturbações do mundo para ouvirem a voz suave de Deus, que se escuta na brisa. Quiçá nós também tenhamos essa vigilância, "uma vigilância interior do coração que, na maior parte do tempo, não possuímos por causa da forte pressão das realidades externas e das imagens e preocupações que enchem a alma" [4].

"Oh! Se também tu, ao menos neste dia que te é dado, conhecesses o que te pode trazer a paz!", lamentou-se Jesus sobre Jerusalém (Lc 19, 42). Em verdade, esse lamento também está sobre nós que, buscando a paz fora da oração, refugiamo-nos em falsos acordos e falsas seguranças. Mas, em Fátima, Maria nos mostrou mais uma vez o caminho para a paz. Aproveitemos, portanto, a grande oportunidade deste Ano Mariano para redescobrirmos os frutos da oração cristã e, assim, apressarmos "o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima" [5].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Card. Joseph Ratzinger, Comentário teológico da Mensagem de Fátima, ano 2000.
  2. São Josemaria Escrivá, Sulco, n. 457.
  3. Papa Bento XVI, Audiência Geral, 4 de maio de 2011.
  4. Card. Joseph Ratzinger, Comentário teológico da Mensagem de Fátima, ano 2000.
  5. Papa Bento XVI, Homilia, 13 de maio de 2010.

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Aparecida, uma devoção genuinamente popular

Nossa Senhora da Conceição Aparecida é um farol luminoso sobre a altíssima vocação do povo brasileiro: a vocação à santidade.

No chamado prólogo do Evangelho de São João, o apóstolo amado faz a seguinte afirmação acerca dos seguidores de Cristo: "Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus" (Jo 1, 12-13). Nestas palavras acertadas do evangelista, alguns teólogos viram, com razão, o fundamento para a fé na virgindade perpétua de Maria e na sua imaculada conceição [1]. De fato, Jesus, o primogênito de Deus, não nasceu do sangue de Maria, nem da vontade de sua carne, mas sim de um desígnio todo espiritual da vontade salvífica de Deus.

A piedade popular, "verdadeira expressão da atividade missionária espontânea do povo de Deus", soube acolher esses privilégios de Nossa Senhora, celebrando-os, ao longo da história da Igreja, de modos variados e singelos [2]. No Brasil, isso se torna particularmente evidente no belíssimo testemunho dos romeiros de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, título concedido à pequena imagem milagrosa da Virgem Maria, cujo tricentenário de sua descoberta por três simples pescadores, em 1717, comemora-se neste ano. Com essa santa devoção, os brasileiros exprimem a sua total confiança na intercessão da Virgem Santíssima, de quem o povo desta terra é especial devedor.

A devoção à Mãe Aparecida é genuinamente popular. Ela não se origina em uma aparição mística de Maria, como em Lourdes ou em Fátima, mas do amor e da confiança filial de pobres devotos. Como expressou-se o papa São João Paulo II na sua primeira visita ao Brasil, "os templos materiais aqui erguidos são sempre obra e símbolo da fé do povo brasileiro e do seu amor para com a Santíssima Virgem" [3]. Não se trata de uma demonstração ostentosa de poder; trata-se, antes, de uma resposta ao auxílio perpétuo da Virgem Maria a esta nação.

E é desse testemunho de fidelidade que se pode colher a mensagem de Nossa Senhora ao Brasil. Embora ela não tenha se manifestado por meio de uma visão mística, manifestou-se, porém, nos inúmeros favores que há 300 anos ela concede aos seus filhos brasileiros. Isso exige, por sua vez, uma atitude de conversão e de penitência, como nas outras devoções marianas. Em Fátima ou em Aparecida, o papel da Virgem Maria na Igreja sempre será o de cooperadora na salvação dos homens; ela "nos aponta as vias da Salvação, vias que convergem todas para Cristo, seu Filho, e para a sua obra redentora" [4].

A Igreja sempre entendeu a piedade popular como "uma certa sede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar" [5]. Aí está a razão de a Virgem Santíssima apresentar-se no Brasil por meio da imagem que hoje veneramos. Ela quis despertar no peito do próprio camponês essa sede mais intensa, essa consciência de que, sem a presença de Cristo em nossas vidas, nada podemos fazer, senão pecar e destruir. Nossa Senhora da Conceição Aparecida é um farol luminoso sobre a altíssima vocação do povo brasileiro: a vocação à santidade.

Com efeito, não podemos deixar de mencionar os inúmeros perigos que rondam a fé do povo brasileiro e põem em xeque essa sua vocação à santidade. De muitos modos, o inimigo de Jesus e de Maria procura falsear a genuína fé católica, promovendo sincretismos nocivos, que descaracterizam o verdadeiro culto mariano. Ao mesmo tempo, o avanço agressivo das seitas procura afugentar os fiéis do colo de Maria, conduzindo-os a uma falsa teologia da prosperidade, que barateia o Evangelho de Cristo com promessas de bem-estar econômico. Foi pensando nisso que São João Paulo II chamou a atenção dos bispos para protegerem a piedade popular dos brasileiro: "Estou certo de que os Pastores da Igreja saberão respeitar esse traço peculiar, cultivá-lo e ajudá-lo a encontrar a melhor expressão, a fim de realizar o lema: chegar 'a Jesus por Maria'" [6].

Desde o início da devoção à Mãe Aparecida, o traço característico mais marcante dos romeiros era a recitação conjunta do rosário. Do mais simples ao mais nobre, todos se curvavam perante a imperatriz do Brasil para rezar piedosamente o Santo Terço. Nas aparições em Lourdes e em Fátima, por sua vez, é justamente a récita diária do Rosário a oração recomendada pela Virgem aos pequenos videntes. Percebe-se, portanto, o quão necessária é essa oração tradicional para a conversão das almas. Nossa Senhora não insistiria tanto neste ponto se não fosse algo de especial importância. Nesta ocasião dos 300 anos, temos de repetir a súplica do papa São João Paulo II: "Quem dera renascesse o belo costume – outrora tão difundido, hoje ainda presente em algumas famílias brasileiras – da reza do terço em família" [7].

Ninguém pode negar o estado de calamidade no qual se encontra o Brasil. É chegada a hora, destarte, de voltarmos nossos olhares para a Senhora Aparecida e suplicarmos a tão urgente conversão de nosso país. Ela também deseja que seu Coração Imaculado triunfe nestas terras de Santa Cruz!

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Cf. Introdução ao Evangelho de São João. BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Santos Evangelhos. Trad. de José A. Marques. Braga: Edições Theologica, 1985.
  2. Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 24 de nov. 2013, n. 122.
  3. São João Paulo II, Homilia, 4 de jul. 1980.
  4. Ibidem.
  5. Papa Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, 8 de dez. 1975, n. 48.
  6. São João Paulo II, Homilia, 4 de jul. 1980.
  7. Ibidem.