| Categoria: Teologia

Por que Jesus Cristo falava em parábolas?

Se Jesus devia pregar o Evangelho da salvação, por que decidiu expor boa parte de seu ensinamento em forma de parábolas? Era conveniente que o Filho de Deus “escondesse” sua doutrina dos homens, aos quais veio trazer o conhecimento da verdade?

Lemos no Evangelho que Cristo ensinou algumas coisas privadamente a seus Apóstolos, mas ordenando-lhes que as pregassem depois publicamente: "O que eu vos digo na obscuridade, dizei-o às claras, e o que é dito ao ouvido, pregai-o sobre os telhados" ( Mt 10, 27).

Outras vezes, porém, o Senhor ensinou por meio de parábolas, que ele explicava depois aos seus discípulos, mas cujo sentido escapava à maior parte de seus ouvintes. Os próprios Apóstolos perguntaram ao Senhor a razão dessa maneira de pregar, e obtiveram uma resposta cuja interpretação exata é um tanto obscura e difícil:

"Chegando-se a ele os discípulos, disseram-lhe: 'Por que razão lhes falas por meio de parábolas?' Ele respondeu-lhes: 'Porque a vós é concedido conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é concedido. Porque ao que tem lhe será dado (ainda mais), e terá em abundância, mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo em parábolas, porque vendo não vêem, e ouvindo não ouvem nem entendem. E cumpre-se neles a profecia de Isaías (6,9-10), que diz: Ouvireis com os ouvidos, e não entendereis; olhareis com os vossos olhos, e não vereis. Porque o coração deste povo tornou-se insensível, os seus ouvidos tornaram-se duros, e fecharam os olhos, para não suceder que vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e entendam com o coração, e se convertam, e eu os sare" (Mt 13, 10-15).

Esta é uma das passagens evangélicas que mais fizeram suar os exegetas. Vejamos, pois, em síntese, a interpretação do Doutor Angélico ( S. Th. III, q. 42, a. 3):

Por três motivos uma doutrina pode permanecer oculta:

a) Pela intenção de quem ensina, que não quer comunicá-la a muitos, mas antes mantê-la oculta, seja por inveja e desejo de excelência, seja por tratar-se de uma doutrina errada ou imoral. É evidente que não foi este o caso de Nosso Senhor.

b) Porque se ensina a poucos. Tampouco este motivo diz respeito a Jesus Cristo, pois, como Ele mesmo disse a Pilatos, "Eu falei publicamente ao mundo; ensinei sempre na sinagoga e no templo, aonde concorrem todos os Judeus; nada disse em segredo" (Jo 18, 20). As mesmas instruções que o Senhor dava privadamente a seus Apóstolos deveriam depois ser pregadas publicamente (Mt 10, 27).

c) Pelo modo de ensinar. Dessa forma, Cristo ocultava algumas coisas às turbas quando lhes expunha em parábolas os mistérios que não eram capazes ou dignas de receber. No entanto, ainda lhes era melhor recebê-los assim e ouvir a doutrina espiritual sob o véu das parábolas que permanecer totalmente excluídas dela. E, além disso, o Senhor expunha a verdade clara e desnuda das parábolas aos discípulos, por meio dos quais ela haveria de chegar aos outros que fossem capazes de recebê-la.

Segundo esta interpretação do Doutor Angélico, a razão profunda da pregação em parábolas deve ser buscada em uma ação combinada da misericórdia e da justiça de Deus: "porque não eram capazes ou dignos" de receber abertamente a doutrina de Cristo.

a) Em primeiro lugar, não eram capazes de receber abertamente essa doutrina por conta de seus prejulgamentos messiânicos, completamente opostos à realidade evangélica. Eles imaginavam um Messias em forma de rei temporal, forte e poderoso, que esmagaria todos os inimigos de Israel e os encheria de felicidades e prosperidades temporais. Frente a esta concepção, tão arraigada no povo, a doutrina evangélica, orientada inteiramente ao Reino dos Céus e ao desprezo das coisas da terra, era demasiado sublime e elevada para que pudessem captá-la exposta em toda a sua nudez. Cristo lhes dá o pão da verdade na forma que então podiam compreendê-la, deixando a seus discípulos o cuidado de expô-la com toda claridade à medida que fossem capazes de assimilá-la. Di-lo expressamente São Marcos (4, 33-34): "Assim lhes propunha a palavra com muitas parábolas como estas, segundo podiam entender. Não lhes falava sem parábolas; porém, tudo explicava em particular a seus discípulos".

b) Em segundo lugar, não eram dignos de recebê-la claramente por causa da sua obstinada incredulidade. Era um fato, como lamentava o próprio Cristo, que "vendo não veem e ouvindo não ouvem nem entendem". Os milagres estupendos com que o Cristo demonstrava, diante do povo, sua divina missão endureciam mais e mais os corações obstinados, até o ponto de atribuir os milagres ao poder de Belzebu (Lc 11, 15) ou de querer matar Lázaro, visto que, por motivo de sua ressurreição, muitos criam em Jesus (Jo 12, 10-11). Diante de tanta obstinação e malícia, a justiça de Deus tinha forçosamente que castigá-los, e por isso lhes anuncia a verdade de forma velada e misteriosa, a fim de que os homens de boa vontade tivessem as luzes suficientes para abraçar a verdade evangélica, e os rebeldes obstinados recebessem o justo castigo de sua maldade. Contudo, com relação a estes últimos brilha ainda de algum modo a misericórdia de Deus, porque, como adverte Santo Tomás, "ainda lhes era melhor receber a doutrina do reino de Deus sob o véu das parábolas que permanecer totalmente privados dela".


Não deixe de assistir, também, à nossa aula recente sobre o Sermão das Parábolas, no curso exclusivo "Os Evangelhos Sinóticos". Abaixo, um pequeno trecho deste material:


Essa interpretação explica a misteriosa passagem bíblica de forma discreta e razoável. Mas, em todo caso, seja como for, não se pode interpretar a pregação parabólica como uma restrição da vontade salvífica universal de Deus, que está clara e expressamente revelada na Sagrada Escritura. É-nos dito claramente que "Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade" ( 1Tm 2, 4); que "Deus não quer a morte do pecador, mas sim que se converta e viva" (Ez 18, 23); que Cristo "não veio chamar os justos, mas os pecadores à penitência" (Lc 5, 31); que Deus "prefere a misericórdia ao sacrifício" (Mt 9, 13) e outras muitas coisas do mesmo tipo. Deve-se interpretar as passagens obscuras da Sagrada Escritura pelas claras, e não o contrário. Trata-se de uma norma fundamental da hermenêutica bíblica.

*

Do livro Jesucristo y la vida cristiana, do Pe. Antonio Royo Marín,
Madrid: BAC, 1961, p. 286s. (Tradução, adaptação e grifos nossos.)

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O que foi a paixão de São José?

São José sabia que Maria, aquela mulher que ele mais amava, estava imersa num mistério, do qual ele não tinha sido chamado por Deus a participar.

Esta brevíssima explicação do Padre Paulo Ricardo sobre o que foi, por assim dizer, a paixão de São José, faz parte de aula recém-lançada de nosso curso "Aprenda a Ler a Bíblia".

Trata-se do vídeo de n.º 12, publicado semana passada. Ao comentar o nascimento de Jesus segundo o Evangelho de São Mateus, Padre Paulo enfrenta questões delicadas acerca da origem de Cristo. Diante da notícia de que Maria estava grávida, o que pensou José? Por que, antes da revelação do anjo, o santo Patriarca teve medo de recebê-la definitivamente como esposa?

Aproveite esta solenidade de São José para entender o pouco que as Escrituras falam sobre este silencioso varão que é, depois da Virgem Santíssima, o maior de todos os santos da Igreja.

| Categoria: Cursos

Venha estudar conosco "Os Evangelhos Sinóticos"!

De todos os livros do Novo Testamento, os Evangelhos são sem dúvida nenhuma os mais importantes. E é sobre eles que Padre Paulo Ricardo vai falar nas novas aulas de nosso curso bíblico!

Acabam de ser publicadas em nosso site a 6.ª e a 7.ª aula de nosso curso Aprenda a Ler a Bíblia. Depois de uma breve introdução às Sagradas Escrituras, Padre Paulo Ricardo passa a abordar, a partir de agora, o tema dos Evangelhos.

De todos os livros do Novo Testamento, os Evangelhos são sem dúvida nenhuma os mais importantes; constituem, de fato, a nossa principal fonte de conhecimento a respeito da pessoa, da vida e das obras de Jesus Cristo, Deus feito homem na plenitude dos tempos. Por isso, é imprescindível que o cristão os conheça a fundo e descubra, neles e por meio deles, a amar cada dia mais o Senhor.

A princípio, estudaremos os Evangelhos Sinóticos, escritos por São Mateus, São Marcos e São Lucas, e veremos quais são suas características fundamentais (6.ª aula); depois, Padre Paulo Ricardo fará uma exposição histórica do que os estudiosos das Escrituras têm chamado de "questão sinótica" (7.ª aula): afinal de contas, que relações os relatos de Marcos, Mateus e Lucas têm entre si? Há uma fonte primitiva e comum a todos eles? Quem teria copiado de quem?

Lembramos a todos os nossos visitantes que esse curso bíblico é um conteúdo exclusivo para os assinantes do site, que são parte ativa de nossa família. Por isso, se você ainda não colabora com o nosso apostolado, não perca mais tempo e faça já a sua inscrição! Com uma só assinatura, você tem acesso irrestrito a todo o nosso conteúdo!

Assista ao vídeo abaixo, contendo trechos da aula "Crer na Igreja para amar as Escrituras", e saiba o que o aguarda neste curso sobre as Sagradas Escrituras:

Deus o abençoe sempre!

| Categoria: Doutrina

Se Jesus é Deus, por que diz: “O Pai é maior do que eu”?

Como entender essa frase dita por Cristo durante o Seu testamento na Última Ceia?

Os católicos ouviram Jesus dizer, no Evangelho da Missa de ontem, a seguinte frase: "Vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu" (Jo 14, 28).

Um de nossos internautas nos pergunta como coadunar essa afirmação de Nosso Senhor com o Símbolo de Niceia, em que confessamos "um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai" [1]. Afinal, Jesus não é Deus? Por que diz, então, que o Pai é maior do que Ele?

Esta pergunta pode parecer pouco relevante para os homens de nosso século, mas não o era para Santo Atanásio de Alexandria, cuja memória a Igreja celebra no dia de hoje. Esse santo promoveu com tal valentia a verdade sobre a Pessoa de Cristo, que mereceu ser honrado pelos cristãos de todos os tempos e lugares como Doctor Incarnationis ("Doutor da Encarnação"). Para defender Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, contra os hereges arianos, Atanásio resistiu ao "mundo inteiro" de sua época, enfrentando por causa de sua fé católica o exílio e a perseguição.

Para conhecer melhor a história deste grande santo da Igreja Antiga, assista à nossa aula exclusiva "O Patriarca Invisível e a defesa da ortodoxia da fé".

Para responder a dúvida de nosso internauta, vamos recorrer à brilhante explicação de Santo Tomás de Aquino:

"A partir desta passagem Ário insultou a fé dizendo ser o Pai maior do que o Filho, erro que é refutado, todavia, pelas próprias palavras do Senhor. A afirmação 'o Pai é maior do que eu' só pode ser entendida, de fato, a partir do que Ele disse antes: 'vou para o Pai' . Ora, o Filho não vai ao Pai nem vem a nós enquanto Filho de Deus, porque, como tal, sempre existiu com o Pai desde toda a eternidade: 'No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus' (Jo 1, 1). Assim, Ele só pode dizer que vai para o Pai segundo a Sua natureza humana. Quando Ele declara, portanto, 'o Pai é maior do que eu', não o diz enquanto Filho de Deus, mas enquanto filho do homem, segundo o qual não só é menor que o Pai e o Espírito Santo, mas que os próprios anjos: 'Jesus, a quem Deus tornou pouco inferior aos anjos, nós o vemos coroado de glória e honra, por ter sofrido a morte' (Hb 2, 9). Do mesmo modo Ele estava sujeito também aos homens, sabidamente aos Seus pais, como se lê em Lc 2, 51. Assim, portanto, Ele é menor que o Pai segundo a humanidade, mas igual a Ele segundo a divindade: 'Ele, existindo em forma divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo' (Fl 2, 6-7)."

"É possível dizer ainda, com Santo Hilário, que também segundo a divindade o Pai é maior que o Filho, ainda que o Filho lhe seja igual, não menor [2]. Porque o Pai é maior do que o Filho não em potestade, eternidade ou magnitude, mas em autoridade de doador ou de princípio. Porque o Pai nada recebeu de outro, mas o Filho, como se disse, recebeu do Pai a natureza por uma geração eterna. O Pai é maior, portanto, porque dá; e o Filho não é menor, mas igual, porque tudo o que o Pai possui, Ele também o recebeu: 'Deu-lhe o nome que está acima de todo nome' (Fl 2, 9)." [3]

As colocações do Doutor Angélico são bem claras, mas, se você ainda ficou um pouco confuso, não deixe de conferir o nosso curso "Por que não sou protestante", durante o qual Padre Paulo desenvolve algumas importantes noções de Cristologia, que certamente esclarecerão as suas dúvidas.

Clique aqui para acessar as aulas do nosso curso exclusivo "Por que não sou protestante".

Por fim, cabe fazer um último adendo, a respeito da interpretação correta das Escrituras, de acordo com o Magistério da Igreja. É o próprio São Pedro quem afirma que existem "algumas coisas difíceis" na Bíblia, trechos que são deformados por "homens sem instrução e vacilantes", "para a sua própria perdição" (2 Pd 3, 16). Nos primeiros tempos da Igreja, Ário usou o versículo acima, do Evangelho de São João, para dizer que Jesus não passava de uma "criatura do Pai", que Ele não era Deus. Hoje, muitos de nós corremos risco semelhante: o de interpretar as Escrituras para confirmar os nossos próprios gostos ou opiniões.

Para não corrermos esse risco, basta que nos mantenhamos fiéis ao que a Igreja sempre ensinou pela boca de seus santos e doutores. Quando ficarmos em dúvida a respeito de algum trecho da Bíblia, não caiamos na presunção de interpretar aquela passagem por nós mesmos, como se os livros sagrados fossem "de interpretação pessoal" (2 Pd 1, 20). Sejamos humildes e procuremos a autoridade da Igreja, de um Santo Agostinho, de um São Jerônimo, de um Santo Tomás de Aquino… Na doutrina desses homens sábios temos um terreno sólido em que construir a casa da nossa fé.

Que Santo Atanásio nos ajude a conservar o Credo Apostólico íntegro e puro, tal como ele mesmo o guardou.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. I Concílio de Nicéia, Símbolo niceno (19 de junho de 325): DH 125.
  2. De Trin., 9, 54 (PL 10, 324B).
  3. Comentário ao Evangelho de São João, XIV, 8, n. 1970-1971.

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Uma resposta católica a uma polêmica protestante

O sentido das Escrituras só pode ser esclarecido pela interpretação autorizada do Magistério da Igreja.

Prestem atenção! É preciso pôr um fim nesta polêmica — muito mal fundamentada, aliás — de que a Igreja Católica não possui base bíblica. Essa conversa sem pé nem cabeça, forjada por Martinho Lutero e repisada ainda hoje pelos seus seguidores, já vai longe demais. O cristianismo, dissemos aqui várias vezes, não é a religião do livro, mas de toda a Palavra de Deus. A insistência dos protestantes no dogma da Sola Scriptura, esse, sim, sem qualquer respaldo dos autores sagrados (cf. 2 Ts 2, 15), só consegue produzir ainda mais desconfiança sobre a fé cristã, seja em relação ao catolicismo, seja ao protestantismo. Que tipo de pessoa, hoje em dia, acreditará numa Igreja que prega uma enormidade de conceitos desarticulados, sem a devida consideração pelo contexto cultural e pelos gêneros literários? Que tipo de pessoa se deixará convencer pelos ensinamentos cristãos, quando os próprios cristãos, fazendo mau uso das Escrituras, dividem-se em não se sabe quantas denominações?

A memorização de alguns versículos bíblicos nunca deu, nem dará, o direito a um cidadão qualquer de fundar uma igreja. Não faz muito tempo surgiu na internet um vídeo de um pastor que incentivava o adultério por não saber distinguir entre o adjetivo "adúltera" e o verbo "adultera". Isso se deve não somente a uma dificuldade de interpretação de texto. O problema é mais grave. Chesterton estava certo ao afirmar que "a Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo" [1]. Lógico. Quando as Sagradas Escrituras são retiradas de seu contexto eclesial, um texto alegórico passa-se facilmente por histórico e vice-versa. Perde-se o referencial. Que garante a autenticidade dos quatro evangelhos senão o testemunho da Igreja? Como se prova que o Evangelho segundo São Lucas é verdadeiro e o Evangelho segundo Maria Madalena não? Os protestantes — assim como muitos católicos que se deixam levar por aquela famosa pergunta: "Onde está na Bíblia?" — precisam aprender que a Bíblia não caiu do céu. 300 anos antes da definição do Cânon, já existia uma única Igrejacatólica apostólica romana, para deixar claro — governada por bispos, sob a autoridade do Romano Pontífice. Já existia um Magistério antes mesmo que Constantino soubesse soletrar Roma. E é precisamente desse Magistério, cuja autoridade os protestantes adoram tomar para si, que podemos haurir a veracidade do Antigo e do Novo Testamento (cf. 1 Tm 3,15). Negá-lo equivale a negar as próprias Escrituras.

Celebramos nestes dias a Solenidade de Pentecostes. É também a festa da manifestação da Igreja. Os apóstolos, reunidos com Maria, a Mãe de Jesus — como faz notar São Lucas —, rezam no Cenáculo, pedindo a Deus a vinda do Espírito Santo. O Texto Sagrado autoriza-nos a fazer um paralelo muito pertinente com a visita da Virgem Maria à sua prima Isabel. O hagiógrafo diz: "Apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo" ( Lc 1, 41). É uma espécie de pentecostes antecipado. O cumprimento de Maria suscita, por assim dizer, a descida do Espírito Santo, que diz pela boca de Isabel: "Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?" (Lc 1, 43). Desde o começo, Deus mostra-se, de certo modo, dócil à Virgem Maria. Esta cena vai se repetir nas bodas de Caná, quando o Filho antecipa o início de seu ministério conforme o pedido da mãe (cf. Jo 2, 1-11), e, finalmente, em Pentecostes, quando os apóstolos, unidos à intercessão d'Ela, são inflamados pelas línguas de fogo que caem do céu (cf. At 1, 13-14). A Igreja já nasce mariana. Nasce pela intercessão da Virgem Santíssima. Como se pode constatar, a acusação de que o culto à Nossa Senhora não faz parte do cristianismo é simplesmente ridícula. Na verdade, trata-se de uma blasfêmia — e das mais grosseiras —, porque é o próprio Espírito Santo quem o aprova. Ele diz por Isabel: "Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!" (Lc 1, 45).

Uma porção de outros textos bíblicos poderiam ser elencados aqui para respaldar o uso de imagens, a intercessão dos santos, o primado petrino, o celibato clerical etc. Não é nosso objetivo, porém, iniciar um debate deste gênero. Mesmo porque esses temas já foram tratados exaustivamente em outras oportunidades, e de maneira muito mais articulada. Além disso, os protestantes poderiam facilmente apresentar uma outra porção de versículos que, aparentemente, refutariam nossa posição, como sói acontecer quando nos arriscamos a seguir pela falsa premissa da Sola Scriptura. Ora, é exatamente este equívoco que pretendemos desfazer. A Bíblia não é a premissa fundamental porque ela mesma possui argumentos aparentemente contraditórios. É a interpretação autorizada da Igreja que a ilumina e revela a intenção de cada autor sagrado. Como uma criança diante de dois brinquedos a escolher — a comparação é do padre Lima Vaz —, o cristão escolhe não apenas um dos artigos da fé, mas ambos; vê universalmente, pois católico, aceita o todo [2].

Entendam uma coisa. Não existe Bíblia sem Igreja. Sacra Scriptura principalius est in corde Ecclesiae quam in materialibus instrumentis scripta, dizem os Santos Padres. Ou seja, a Sagrada Escritura está escrita no coração da Igreja, mais do que em instrumentos materiais. E isso por uma razão muito simples: Jesus se encarnou, não se encadernou. A Igreja, por sua vez, guiada pelo Espírito Santo, perpetua-se na história e dá continuidade a essa encarnação. Não nos esqueçamos: Ela é o Corpo de Cristo. Quem a nega, destarte, nega o próprio Cristo, pois não é possível aceitar a cabeça sem o corpo (cf. Mt 10, 40). Alguns contestam: "Ah, mas os bispos cometem muitos pecados". E daí? Cristo assegurou a infalibilidade da Igreja. Nada disse sobre a impecabilidade de seus pastores. Uma coisa nada tem que ver com a outra. Se aceitamos que a Igreja erra nos juízos de fé, a própria veracidade das Escrituras é posta em xeque. Dan Brown ganha muitas razões para apontar o dedo em nossas caras. As coisas mudam de rumo somente se acolhemos a Tradição, na certeza de que a promessa de Cristo sobre a incorruptibilidade da Igreja é verdadeira — non praevalebunt (cf. Mt 16, 18).

Que fique claro: não pretendemos com isso ofender nossos irmãos protestantes. A Igreja, vale lembrar, admite, em várias circunstâncias — mas sobretudo na defesa da dignidade do homem —, a colaboração "com outras Igrejas cristãs, comunidades e grupos religiosos, a fim de ensinar e promover" o conteúdo moral e social do Evangelho [3]. Apenas desejamos esclarecer alguns pontos de discordâncias que, as mais das vezes, só contribuem para aumentar as divisões e, pior, para a difusão do indiferentismo religioso.

Um pouco de bom senso e humildade nunca fez mal a ninguém. Cristo deixou-nos a Igreja e seus sacramentos para a santificação de nossas almas. Não podemos, a pretexto de uma interpretação particular da Bíblia, relativizar tudo isso (cf. 2 Pd 1, 20). É pecado. É temerário. Sem a Igreja, a Bíblia vira letra morta. Ou aceitamos o Magistério, ou perdemos as Sagradas Escrituras. Tertium non datur.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Capítulo Why I am a catholic publicado no livro The Thing (1929), sem tradução no Brasil. Fonte: Sociedade Chesterton Brasil.
  2. VAZ, Henrique C. de Lima. Ontologia e história: escritos de filosofia VI. 2 ed. São Paulo: Edições Loyola, 2012, pág. 31.
  3. Pornografia e violência nas comunicações sociais: uma resposta pastoral, n. 29.

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A Bíblia leva-nos a Roma

Ao deixar-se conduzir pela Igreja, santos de todos os séculos puderam descobrir suas vocações na prática da leitura orante das Sagradas Escrituras

A prática da Lectio Divina é uma das devoções mais presentes na vida dos santos. Por meio da meditação das Sagradas Escrituras, eles foram capazes de encontrar a face de Jesus, que se revela a cada versículo lido. É por isso que, querendo esmiuçar o valor dos Textos Sacros, São Jerônimo dizia a seus fiéis: “A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo" [1]. Quem se põe a escutar a Palavra, escuta, pois, a própria voz de Deus; faz como reza o salmista: “É tua face, Senhor, que eu procuro" (cf. Sl 27, 8-9).

Diferentemente do que acusam os protestantes, a Igreja sempre incentivou a leitura das páginas sagradas. Ao mesmo tempo, os santos padres nunca deixaram de insistir numa leitura dentro da « tradição viva de toda a Igreja». Essa preocupação se deve ao fato de que também a Bíblia, quando mal interpretada, pode conduzir o homem ao erro. Que foram as tentações de Cristo no deserto senão “tentações bíblicas"? Desafiou Satanás: “Se és o Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: 'Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; eles te protegerão com as mãos'" (cf. Sl 90, 11). Quando se perde a dimensão eclesiológica das Sagradas Escrituras, perde-se, por conseguinte, o próprio sentido das Escrituras, pois não seria possível crer em suas palavras se a isso não nos levasse a autoridade da Igreja [2].

Assim se justifica a luta do Magistério contra a doutrina luterana da Sola Scriptura (Somente a Escritura). Trata-se de uma defesa do sentido autêntico da Bíblia, de uma defesa contra reducionismos baratos, manipulações desonestas, fundamentalismos agressivos, que, no mais das vezes, levam grande parte dos cristãos à perda da fé, como também muitos céticos e pagãos a recusarem os ensinamentos evangélicos. Por outro lado, a prática da Lectio Divina, isto é, a leitura das Sagradas Escrituras realizada sob a luz da Tradição, longe de induzir os fiéis a falsas devoções, abre-lhes um caminho seguro para o encontro com Cristo. Isso porque, como definiam os Padres, “a Sagrada Escritura está escrita no coração da Igreja, mais do que em instrumentos materiais" — «Sacra Scriptura principalius est in corde Ecclesiae quam in materialibus instrumentis scripta». A religião cristã não é a religião do livro mas da Palavra, que é Jesus. Essa Palavra, por sua vez, confiou seu depositum fidei, quer por meio do testemunho oral, quer por meio do testemunho escrito, à tutela de sua Igreja.

Santos de todos os séculos experimentaram essa verdade, descobrindo suas vocações no seio da Igreja orante e intérprete fiel da Revelação [3]:

[...] Certamente não é por acaso que as grandes espiritualidades, que marcaram a história da Igreja, nasceram de uma explícita referência à Escritura. Penso, por exemplo, em Santo Antão Abade, que se decide ao ouvir esta palavra de Cristo: «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro no céus; depois, vem e segue-Me» (Mt 19, 21).

Igualmente sugestivo é São Basílio Magno, quando, na sua obra Moralia, se interroga: «O que é próprio da fé? Certeza plena e segura da verdade das palavras inspiradas por Deus. (…) O que é próprio do fiel? Com tal certeza plena, conformar-se com o significado das palavras da Escritura, sem ousar tirar nem acrescentar seja o que for». São Bento, na sua Regra, remete para a Escritura como «norma retíssima para a vida do homem».

São Francisco de Assis – escreve Tomás de Celano – «ao ouvir que os discípulos de Cristo não devem possuir ouro, nem prata, nem dinheiro, não devem trazer alforge, nem pão, nem cajado para o caminho, não devem ter vários pares de calçado, nem duas túnicas, (…) logo exclamou, transbordando de Espírito Santo: Com todo o coração isto quero, isto peço, isto anseio realizar!».

Scott Hahn, ex-pastor protestante, também experimentou essa verdade, assim como os santos, quando se decidiu por uma escuta da Palavra de Deus, alicerçada na grande Tradição da Igreja. Em seu comovente testemunho de conversão à fé católica, ele e sua mulher, Kimberly Hahn, contam como foram surpreendidos pela fé bíblica da Igreja, sobretudo na Santa Missa [4]:

[...] Então, subitamente, compreendi que era ali o lugar da Bíblia. Aquele era o ambiente no qual esta preciosa herança de família devia ser lida, proclamada e explicada. Depois passamos à liturgia Eucarística, onde todas as minhas afirmações sobre a Aliança encontravam o seu lugar.

Hahn foi um ferrenho opositor do catolicismo durante anos. Como pastor de linha calvinista, ele pregava “que a Missa católica era o maior sacrilégio que um homem podia cometer" [5]. Essa convicção o motivava a converter o maior número de católicos possível, a fim de retirá-los da idolatria. Seus estudos teológicos, por conseguinte, tinham por objetivo principal refutar cada ensinamento católico, mormente a divina liturgia, a autoridade do papa e a devoção à Virgem Santíssima. Nada que a Igreja Católica ensinasse poderia ser considerado bíblico.

Em 1979, poucos meses após a visita de João Paulo II aos Estados Unidos, Kimberly Hahn apresentou ao marido o livro “Sexo e a aliança matrimonial", de John Kippley, que versava sobre a moral católica e a contracepção. A coerência dos argumentos era tão eloquente, que o casal, embora não admitindo ainda a verdade católica, viu-se obrigado a abandonar os métodos anticoncepcionais. Esse foi o primeiro passo para a reviravolta. Scott Hahn descobrira uma nova maneira de enxergar a Aliança de Deus: ela não era apenas um contrato; Deus queria uma família.

Após o episódio, Scott Hahn deu início a um estudo para fundamentar biblicamente as teses da Sola Fide — doutrina protestante que nega o valor meritório das boas obras — e da Sola Scriptura. Ora, a Sola Fide e a Sola Scriptura são como que duas colunas do protestantismo. Toda a fé protestante tem como ponto de partida esses dois preceitos básicos. A sua fundamentação era, portanto, imprescindível para o pastor. Mas qual não foi sua surpresa ao descobrir que ambas as teses luteranas não possuíam nenhum respaldo das Sagradas Escrituras. De fato, a Igreja Católica estava certa! Com efeito, conforme Scott Hahn se aprofundava em seus estudos, um a um iam caindo os dogmas do protestantismo: a proibição do batismo de crianças, a negação das imagens, o repúdio ao culto mariano etc. Scott iniciava o caminho para a Igreja.

Scott Hanh converteu-se à Igreja Católica na páscoa de 1986, mesmo sob forte oposição de amigos e familiares. Anos mais tarde, seria a vez de sua mulher, Kimberly, buscar a comunhão com a Igreja de Cristo, pedindo o batismo e os demais sacramentos da iniciação cristã. Hoje, ambos ministram palestras em todo o mundo, a fim de esclarecer os fundamentos bíblicos da Igreja Católica, bem como a riqueza de sua liturgia. Graças à sua história de conversão, Scott é considerado o “Martinho Lutero às avessas". Ele descobriu que também a Bíblia leva-nos a Roma.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências:

  1. São Jerónimo, Commentarii in Isaiam, Prologus: CCL 73, 1 (PL 24, 17).
  2. Expressão de Santo Agostinho: «Ego vero Evangelio non crederem, nisi me catholicae Ecclesiae commoveret auctoritas» – «Quanto a mim, não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja católica». Contra Epistulam Manichaei quam vocant fundamenti 5. 6: CSEL 25,197 (PL 42, 176).
  3. Bento XVI, Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini (30 de setembro de 2010), n. 48
  4. HAHN; HAHN; Scott; Kimberly. Todos os caminhos levam a Roma - o nosso precurso até o catolicismo. Portugal: Diel, 2013, pág. 118.
  5. Ibidem.