| Categoria: Sociedade

Tanto faz a Europa ser cristã ou muçulmana?

“Uma fé transcendente” qualquer seria o suficiente para salvar a Europa e, com ela, nossa civilização? Seriam por acaso todas as crenças religiosas iguais ou existem, pelo contrário, grandes diferenças entre elas?

Por William Kilpatrick — "Se você quer saber como será o rosto da Europa daqui a cem anos, a não ser por um milagre, olhe para o rosto dos jovens imigrantes muçulmanos." Assim se pronunciou o Arcebispo da Filadélfia, Dom Charles Chaput, em uma recente conferência no Instituto Napa.

"O Islã tem futuro porque acredita nos filhos", ele disse. "Sem uma fé transcendente que faça a vida valer a pena, não há nenhuma razão para ter filhos."

Vamos parar aqui para fazer uma breve análise. A primeira coisa que merece um escrutínio é a previsão do tempo. De agora a cem anos é 2117. Muitos de nós não estaremos vivos por essa época, de modo que, para muitos, o problema parecerá menos urgente do que Dom Chaput talvez quisesse que ele parecesse. Um bom número de observadores do cenário europeu — como Thilo Sarrazin, Douglas Murray, Bruce Bawer e Mark Steyn — fazem projeções de que grande parte da Europa será islâmica dentro de três ou quatro décadas. E, se você perambulasse por acidente dentro das "zonas proibidas" de que Paris está cercada, você pensaria que "o rosto dos jovens imigrantes muçulmanos" já é, na verdade, o rosto da Europa.

À parte isso, Dom Chaput está basicamente correto a respeito da direção para a qual caminha a Europa. E ele está certo também em dizer que boa parte da culpa disso recai sobre todos aqueles europeus que relutam em ter filhos. A Europa está morrendo, diz ele, porque não há europeus o suficiente com os olhos voltados para o futuro.

Algumas observações que ele faz, no entanto, podem ser mal interpretadas. E, por conta do atual clima em que vive a Igreja, muitos católicos podem tirar conclusões erradas de suas afirmações. "O Islã tem futuro porque acredita nos filhos", ele diz. Além disso, "sem uma fé transcendente que faça a vida valer a pena, não há nenhuma razão para ter filhos."

O erro — fatal, na verdade — que muitos católicos cometem consiste numa dupla suposição: primeiro, que os muçulmanos acreditam nos filhos da mesma forma que os católicos fazem; e, segundo, que a "fé transcendente" dos muçulmanos é similar à fé transcendente dos católicos. Mas, se é assim — se os muçulmanos compartilham mais ou menos a mesma visão de educação e de transcendência que os católicos —, então não há por que se preocupar tanto com o futuro da Europa. Alguém poderia argumentar inclusive que a Europa estaria bem melhor nas mãos de pessoas tementes a Deus, cheias de fé e centradas na família, do que nas mãos dos secularistas pós-cristãos que agora detêm o poder no continente.

Eu não acredito que seja isso o que Dom Chaput tinha em mente. Em outro trecho de seu discurso, ele diz aos jovens "que se amem uns aos outros, que se casem, permaneçam fiéis, tenham muitos filhos e os eduquem para ser homens e mulheres de caráter cristão". No entanto, para um católico com certa mentalidade universalista, expressões como "caráter cristão" e "caráter islâmico" são praticamente intercambiáveis, assim como "valores da família cristã" e "valores da família muçulmana". Por isso, à guisa de esclarecimento, vamos olhar um pouco mais de perto para os valores da família islâmica e verificar a tese dos "pontos comuns" entre as duas religiões.

Um bom lugar para iniciarmos é o testemunho de Nonie Darwish — disponível em livro —, uma mulher que viveu por 30 anos no Egito, antes de se mudar para os Estados Unidos e se converter ao cristianismo. Ela confirma que "o Islã acredita nos filhos", mas não pela mesma razão que os cristãos. "No Islã, depois de acreditar em Alá, a prioridade número um para um crente muçulmano não é a família, mas o jihad", ela diz. "Em vários hadiths, Maomé sublinha que seus combatentes devem 'casar com mulheres prolíficas', a fim de que os muçulmanos superem em número seus inimigos."

Outros líderes muçulmanos já disseram coisas semelhantes. O presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, se gabava de "o ventre da mulher árabe" ser a sua "mais poderosa arma". O aiatolá Khomeini era da mesma ideia. "Um regime islâmico deve ser sério em todos os campos, inclusive o da reprodução", ele dizia. "Mais muçulmanos significam mais poder, mais muçulmanos significam mais soldados." Khomeini praticava o que ele pregava e, durante sua guerra com o Iraque, sacrificou as vidas de dezenas de milhares de crianças soldados, chegando a usá-las para desativar campos minados com seus corpos.

A visão cristã a respeito dos filhos é de que eles são preciosos aos olhos de Deus — importantes em si mesmos, e não apenas como forragem para canhões e minas inimigas. A visão islâmica, ao contrário, é utilitarista. Filhos são importantes porque eles servem ao jihad. Não estou dizendo, evidentemente, que todo muçulmano pensa dessa forma. O fato, porém, de muitos muçulmanos serem capazes de transcender essa visão limitada de sua prole não prova nada a respeito do Islã; simplesmente nos diz que eles são humanos.

O amor não está ausente em famílias muçulmanas, mas, de acordo com Darwish, a honra familiar é um valor muito mais importante que o amor. Uma filha muçulmana que não se veste apropriadamente, ou que anda com más companhias, corre o risco de ser agredida ou mesmo morta pelo pecado de trazer vergonha para a honra familiar. Uma mãe e esposa muçulmana está sob o mesmo risco. No filme O Apedrejamento de Soraya M., de 2008, baseado em uma história real, são o pai e os filhos que lhe atiram as primeiras pedras.

Por outro lado, um garoto ou garota que é muçulmano observante traz honra para sua família. Infelizmente, de acordo com Darwish, o único ato mais sagrado de adoração no Islã é o martírio pelo jihad. Como consequência, há um forte incentivo para uma família muçulmana educar um mártir, porque seu sacrifício redundará grandemente na honra familiar. Isso ajuda a explicar a propensão que têm os palestinos de treinar os seus filhos para aceitarem que o martírio (preferencialmente aquele que se alcança matando judeus) é o mais alto chamado da vida. "Meu filho, o homem-bomba" é o equivalente palestino para "meu filho, o doutor" [1].

Assim, talvez não seja muito prudente da parte dos católicos acharem conforto na afirmação de Dom Chaput de que "o Islã tem futuro porque acredita nos filhos". O Islã também acredita que uma das vias mais seguras de se alcançar o paraíso é abreviando as vidas dos infiéis. Quando a mãe do terrorista Omar al-Abed, de 19 anos, descobriu que seu filho tinha degolado até a morte três membros de uma família israelita e ferido um quarto, ela exclamou: "Alá seja louvado, estou orgulhosa de meu filho. Que Alá tenha se agradado de seu sacrifício."

Se você é tentado a pensar que isso é uma aberração, considere que a mãe de Omar tem uma razão a mais para estar orgulhosa de seu filho. Como um escritor coloca, "sob o programa do governo palestino de recompensar os que perpetram atos terroristas — por vezes chamado de programa pay-to-slay, isto é, 'pagar para matar' —, conta-se que a família de al-Abed recebia um salário mensal vitalício de mais de 3,1 mil dólares do governo palestino, como uma forma de 'agradecimento' pelos assassinatos" de Halamish.

Isso nos leva de volta ao comentário de Dom Chaput sobre a importância de "uma fé transcendente que faça a vida valer a pena". Seriam por acaso todas as crenças transcendentes iguais — ou existem grandes diferenças entre elas? Práticas como a violência para vingar a honra familiar ou o programa "pagar para matar" sugerem que o deus transcendente do Islã não é o mesmo Deus transcendente dos cristãos. A começar pelo fato de que aquele não é um pai — a ideia de um Deus que é pai, na verdade, é repugnante ao islamismo oficial, e aqueles que dizem que Deus tem um filho são tidos como amaldiçoados. O problema é que, se não existe nenhum Pai celestial, tampouco existe algum modelo eterno que devamos seguir, de misericórdia, amor e comprometimento para com nossos pais terrenos. Aparentemente, famílias desordenadas são o preço que os muçulmanos teriam de pagar por sua visão limitada do transcendente.

Por seu próprio bem e pelo bem de seus filhos, os católicos precisam superar a ideia de que o Islã e a religião católica compartilham os mesmos valores fundamentais. O Islã supostamente pertence à tradição da fé abraâmica, mas, de acordo com essa tradição, Deus impediu Abraão de sacrificar o seu filho. Na tradição islâmica, porém, os pais podem sacrificar suas filhas pela honra familiar, ou sacrificar seus filhos pelo jihad — tudo na esperança de que a vontade de Alá será satisfeita.

Quanto aos filhos e às filhas dos "infiéis", não espere que um futuro brilhante esteja reservado para eles, caso "o rosto dos jovens imigrantes muçulmanos" venha realmente a tornar-se o rosto da Europa. Tampouco espere que tenhamos um século ainda a fim de nos prepararmos para "mudança de rosto".

Fonte: Crisis Magazine | Tradução e adaptação: Equipe CNP

Notas

  1. Mas não são também os mártires cristãos cultuados com grandes honras pela Igreja Católica? Sim, é verdade, mas o mártir cristão, que deve escolher, numa situação a qual ele não procurou, entre manter a sua vida natural e renegar a fé, perdendo a vida sobrenatural, difere completamente do "mártir" muçulmano, que procura diretamente a sua morte (suicídio) e ainda a de outros (homicídio). São conceitos de martírio completamente avessos um ao outro.

Atenção: Os comentários devem ser respeitosos e relacionados estritamente ao assunto do post. Toda polêmica será prontamente banida. Todos os comentários são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, de maneira alguma, a posição do site padrepauloricardo.org. Reservamo-nos o direito de excluir qualquer comentário que julgarmos inoportuno ou que não esteja de acordo com a política do site.