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Tanto faz a Europa ser cristã ou muçulmana?
Sociedade

Tanto faz a Europa
ser cristã ou muçulmana?

Tanto faz a Europa ser cristã ou muçulmana?

“Uma fé transcendente" qualquer seria o suficiente para salvar a Europa e, com ela, nossa civilização? Seriam por acaso todas as crenças religiosas iguais ou existem, pelo contrário, grandes diferenças entre elas?

William Kilpatrick,  Crisis MagazineTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Setembro de 2017
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"Se você quer saber como será o rosto da Europa daqui a cem anos, a não ser por um milagre, olhe para o rosto dos jovens imigrantes muçulmanos." Assim se pronunciou o Arcebispo da Filadélfia, Dom Charles Chaput, em uma recente conferência no Instituto Napa.

"O Islã tem futuro porque acredita nos filhos", ele disse. "Sem uma fé transcendente que faça a vida valer a pena, não há nenhuma razão para ter filhos."

Vamos parar aqui para fazer uma breve análise. A primeira coisa que merece um escrutínio é a previsão do tempo. De agora a cem anos é 2117. Muitos de nós não estaremos vivos por essa época, de modo que, para muitos, o problema parecerá menos urgente do que Dom Chaput talvez quisesse que ele parecesse. Um bom número de observadores do cenário europeu — como Thilo Sarrazin, Douglas Murray, Bruce Bawer e Mark Steyn — fazem projeções de que grande parte da Europa será islâmica dentro de três ou quatro décadas. E, se você perambulasse por acidente dentro das "zonas proibidas" de que Paris está cercada, você pensaria que "o rosto dos jovens imigrantes muçulmanos" já é, na verdade, o rosto da Europa.

À parte isso, Dom Chaput está basicamente correto a respeito da direção para a qual caminha a Europa. E ele está certo também em dizer que boa parte da culpa disso recai sobre todos aqueles europeus que relutam em ter filhos. A Europa está morrendo, diz ele, porque não há europeus o suficiente com os olhos voltados para o futuro.

Algumas observações que ele faz, no entanto, podem ser mal interpretadas. E, por conta do atual clima em que vive a Igreja, muitos católicos podem tirar conclusões erradas de suas afirmações. "O Islã tem futuro porque acredita nos filhos", ele diz. Além disso, "sem uma fé transcendente que faça a vida valer a pena, não há nenhuma razão para ter filhos."

O erro — fatal, na verdade — que muitos católicos cometem consiste numa dupla suposição: primeiro, que os muçulmanos acreditam nos filhos da mesma forma que os católicos fazem; e, segundo, que a "fé transcendente" dos muçulmanos é similar à fé transcendente dos católicos. Mas, se é assim — se os muçulmanos compartilham mais ou menos a mesma visão de educação e de transcendência que os católicos —, então não há por que se preocupar tanto com o futuro da Europa. Alguém poderia argumentar inclusive que a Europa estaria bem melhor nas mãos de pessoas tementes a Deus, cheias de fé e centradas na família, do que nas mãos dos secularistas pós-cristãos que agora detêm o poder no continente.

Eu não acredito que seja isso o que Dom Chaput tinha em mente. Em outro trecho de seu discurso, ele diz aos jovens "que se amem uns aos outros, que se casem, permaneçam fiéis, tenham muitos filhos e os eduquem para ser homens e mulheres de caráter cristão". No entanto, para um católico com certa mentalidade universalista, expressões como "caráter cristão" e "caráter islâmico" são praticamente intercambiáveis, assim como "valores da família cristã" e "valores da família muçulmana". Por isso, à guisa de esclarecimento, vamos olhar um pouco mais de perto para os valores da família islâmica e verificar a tese dos "pontos comuns" entre as duas religiões.

Um bom lugar para iniciarmos é o testemunho de Nonie Darwish — disponível em livro —, uma mulher que viveu por 30 anos no Egito, antes de se mudar para os Estados Unidos e se converter ao cristianismo. Ela confirma que "o Islã acredita nos filhos", mas não pela mesma razão que os cristãos. "No Islã, depois de acreditar em Alá, a prioridade número um para um crente muçulmano não é a família, mas o jihad", ela diz. "Em vários hadiths, Maomé sublinha que seus combatentes devem 'casar com mulheres prolíficas', a fim de que os muçulmanos superem em número seus inimigos."

Outros líderes muçulmanos já disseram coisas semelhantes. O presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, se gabava de "o ventre da mulher árabe" ser a sua "mais poderosa arma". O aiatolá Khomeini era da mesma ideia. "Um regime islâmico deve ser sério em todos os campos, inclusive o da reprodução", ele dizia. "Mais muçulmanos significam mais poder, mais muçulmanos significam mais soldados." Khomeini praticava o que ele pregava e, durante sua guerra com o Iraque, sacrificou as vidas de dezenas de milhares de crianças soldados, chegando a usá-las para desativar campos minados com seus corpos.

A visão cristã a respeito dos filhos é de que eles são preciosos aos olhos de Deus — importantes em si mesmos, e não apenas como forragem para canhões e minas inimigas. A visão islâmica, ao contrário, é utilitarista. Filhos são importantes porque eles servem ao jihad. Não estou dizendo, evidentemente, que todo muçulmano pensa dessa forma. O fato, porém, de muitos muçulmanos serem capazes de transcender essa visão limitada de sua prole não prova nada a respeito do Islã; simplesmente nos diz que eles são humanos.

O amor não está ausente em famílias muçulmanas, mas, de acordo com Darwish, a honra familiar é um valor muito mais importante que o amor. Uma filha muçulmana que não se veste apropriadamente, ou que anda com más companhias, corre o risco de ser agredida ou mesmo morta pelo pecado de trazer vergonha para a honra familiar. Uma mãe e esposa muçulmana está sob o mesmo risco. No filme O Apedrejamento de Soraya M., de 2008, baseado em uma história real, são o pai e os filhos que lhe atiram as primeiras pedras.

Cena do filme "O Apedrejamento de Soraya M.", de 2008, baseado em uma história real.

Por outro lado, um garoto ou garota que é muçulmano observante traz honra para sua família. Infelizmente, de acordo com Darwish, o único ato mais sagrado de adoração no Islã é o martírio pelo jihad. Como consequência, há um forte incentivo para uma família muçulmana educar um mártir, porque seu sacrifício redundará grandemente na honra familiar. Isso ajuda a explicar a propensão que têm os palestinos de treinar os seus filhos para aceitarem que o martírio (preferencialmente aquele que se alcança matando judeus) é o mais alto chamado da vida. "Meu filho, o homem-bomba" é o equivalente palestino para "meu filho, o doutor" [1].

Assim, talvez não seja muito prudente da parte dos católicos acharem conforto na afirmação de Dom Chaput de que "o Islã tem futuro porque acredita nos filhos". O Islã também acredita que uma das vias mais seguras de se alcançar o paraíso é abreviando as vidas dos infiéis. Quando a mãe do terrorista Omar al-Abed, de 19 anos, descobriu que seu filho tinha degolado até a morte três membros de uma família israelita e ferido um quarto, ela exclamou: "Alá seja louvado, estou orgulhosa de meu filho. Que Alá tenha se agradado de seu sacrifício."

Se você é tentado a pensar que isso é uma aberração, considere que a mãe de Omar tem uma razão a mais para estar orgulhosa de seu filho. Como um escritor coloca, "sob o programa do governo palestino de recompensar os que perpetram atos terroristas — por vezes chamado de programa pay-to-slay, isto é, 'pagar para matar' —, conta-se que a família de al-Abed recebia um salário mensal vitalício de mais de 3,1 mil dólares do governo palestino, como uma forma de 'agradecimento' pelos assassinatos" de Halamish.

Isso nos leva de volta ao comentário de Dom Chaput sobre a importância de "uma fé transcendente que faça a vida valer a pena". Seriam por acaso todas as crenças transcendentes iguais — ou existem grandes diferenças entre elas? Práticas como a violência para vingar a honra familiar ou o programa "pagar para matar" sugerem que o deus transcendente do Islã não é o mesmo Deus transcendente dos cristãos. A começar pelo fato de que aquele não é um pai — a ideia de um Deus que é pai, na verdade, é repugnante ao islamismo oficial, e aqueles que dizem que Deus tem um filho são tidos como amaldiçoados. O problema é que, se não existe nenhum Pai celestial, tampouco existe algum modelo eterno que devamos seguir, de misericórdia, amor e comprometimento para com nossos pais terrenos. Aparentemente, famílias desordenadas são o preço que os muçulmanos teriam de pagar por sua visão limitada do transcendente.

Por seu próprio bem e pelo bem de seus filhos, os católicos precisam superar a ideia de que o Islã e a religião católica compartilham os mesmos valores fundamentais. O Islã supostamente pertence à tradição da fé abraâmica, mas, de acordo com essa tradição, Deus impediu Abraão de sacrificar o seu filho. Na tradição islâmica, porém, os pais podem sacrificar suas filhas pela honra familiar, ou sacrificar seus filhos pelo jihad — tudo na esperança de que a vontade de Alá será satisfeita.

Quanto aos filhos e às filhas dos "infiéis", não espere que um futuro brilhante esteja reservado para eles, caso "o rosto dos jovens imigrantes muçulmanos" venha realmente a tornar-se o rosto da Europa. Tampouco espere que tenhamos um século ainda a fim de nos prepararmos para essa "mudança de rosto".

Notas

  1. Mas não são também os mártires cristãos cultuados com grandes honras pela Igreja Católica? Sim, é verdade, mas o mártir cristão, que deve escolher, numa situação a qual ele não procurou, entre manter a sua vida natural e renegar a fé, perdendo a vida sobrenatural, difere completamente do "mártir" muçulmano, que procura diretamente a sua morte (suicídio) e ainda a de outros (homicídio). São conceitos de martírio completamente avessos um ao outro.

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Tolkien e os católicos inteligentes
Igreja Católica

Tolkien e os católicos inteligentes

Tolkien e os católicos inteligentes

O catolicismo é o pai da alta cultura e não há religião no mundo que tenha entre os seus adeptos mentes tão brilhantes, que souberam converter estudo em oração, como a Igreja Católica.

Equipe Christo Nihil Praeponere12 de Janeiro de 2018
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Quando C. S. Lewis conheceu J. R. R. Tolkien durante uma reunião na Universidade de Oxford, a 11 de maio de 1926, o autor de As Crônicas de Nárnia ainda era agnóstico e não considerava o cristianismo puro e simples. Ao contrário, Lewis desprezava a religião e, para ele, parecia absurdo que Tolkien fosse um homem tão inteligente e, ao mesmo tempo, um católico devoto.

O preconceito de Lewis contra o cristianismo — e particularmente contra a Igreja Católica — era algo bastante comum naquela época, sobretudo entre intelectuais ingleses. Famosos foram os debates entre H. G. Wells e G. K. Chesterton acerca da razoabilidade do credo cristão e de como a ortodoxia católica está na vanguarda das ciências e da filosofia. Embora o Iluminismo tenha espalhado uma visão obscurantista da cristandade, o fato é que a Igreja Católica fundou a civilização ocidental e lançou as bases do progresso científico atual.

C. S. Lewis, o autor de “As Crônicas de Nárnia”.

A versão iluminista da história prevaleceu, entretanto, fazendo com que o cristianismo fosse visto como uma tolice. Para Lewis, esse preconceito só desapareceu pela proximidade com Tolkien, que jamais se envergonhou da própria fé nem tentou se adequar a discursos laicistas para manter-se na universidade. Tolkien falava abertamente da Igreja em suas conferências, demonstrando, com argumentos e eloquência, por que a doutrina de Jesus Cristo é a verdadeira religião.

A vida intelectual de J. R. R. Tolkien é uma pedra de tropeço para quem não acredita em fé e razão. Desde muito cedo, o autor de O Senhor dos Anéis demonstrou habilidades para a carreira acadêmica, e sua mãe, Mabel, fez o possível para assegurar-lhe uma educação decente, que o capacitasse para a entrada na universidade. Quando, mais tarde, Tolkien teve de escolher entre a paixão e os estudos, aceitou o sacrifício de ficar três anos longe da namorada, Edith Bratt, para conseguir dedicar-se à faculdade.

Na academia, Tolkien logo se destacou pela qualidade de suas aulas e pela simplicidade com que tratava os demais professores e estudantes. “Havia um senso de civilização, uma lucidez cativante e uma sofisticação”, disse um de seus alunos, o escritor Desmond Albrow, sobre as lições do professor. Na verdade, Tolkien encarnava as suas leituras de maneira exuberante, como se estivesse em um teatro, levando a plateia a viver os dramas dos personagens. Era algo memorável.

É claro que toda essa vivacidade não passaria despercebida aos olhos de Lewis, que, diante daquele “estranho paradoxo” — um católico inteligente?! —, acabou obrigado a questionar-se sobre os fundamentos do cristianismo. Tolkien, aliás, sentiu-se particularmente responsável pela conversão do amigo, motivo pelo qual se reuniram várias vezes em pubs, para longas tertúlias sobre a autenticidade da vida de Cristo. Lewis, enfim, descobriu que Jesus não era apenas uma lenda do passado, mas uma Pessoa viva que transformou as verdades dos mitos em carne e História.

O caso de J. R. R. Tolkien não é um ponto fora da curva na história da Igreja, mas apenas um entre tantos na longa tradição cristã, que vai de Agostinho e Tomás de Aquino a nomes mais recentes como G. K. Chesterton, Edith Stein, Léon Bloy e Dietrich von Hildebrand. No Brasil do século XX, por exemplo, merecem destaque padre Leonel Franca e Gustavo Corção, que produziram obras de grande proveito intelectual e religioso.

Todos levaram a sério o que São Josemaria Escrivá ensinava acerca do estudo: “Se tens de servir a Deus com a tua inteligência, para ti estudar é uma obrigação grave” (Caminho, n. 336). Ademais, os católicos estão obrigados ao estudo porque por ele, diz Santo Tomás, “o homem aproxima-se o mais possível da semelhança de Deus, o qual fez todas as coisas sabiamente” (Suma Contra os Gentios, II, 1).

Não é surpresa alguma, portanto, que entre os intelectuais mais importantes da sociedade estejam católicos piedosos. C. S. Lewis teve a chance de descobrir isso de uma maneira excepcional. De fato, o catolicismo é o pai da alta cultura e não há religião no mundo que tenha entre os seus adeptos mentes tão brilhantes, que souberam converter estudo em oração, como a Igreja Católica.

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Milagre de Hiroshima: uma lição do Santo Rosário aos que temem uma guerra nuclear
Testemunhos

Milagre de Hiroshima:
uma lição do Santo Rosário
aos que temem uma guerra nuclear

Milagre de Hiroshima: uma lição do Santo Rosário aos que temem uma guerra nuclear

Durante a Segunda Guerra Mundial, a providência divina iria se encarregar de mostrar como a mensagem de Fátima estava correta e a Liga das Nações estava errada sobre o modo de alcançar a paz.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Janeiro de 2018
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“A guerra vai acabar, mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior” [1], avisou a Virgem Maria aos três videntes de Fátima, no dia 13 de junho de 1917.

Em 1939, fatalmente, o mundo testemunhou a triste sina predita por Nossa Senhora, com um conflito bélico que levou milhões de pessoas à morte. A tentação do poder quase transformou o século XX no “século do nada”, e, mesmo depois de tantos anos, ainda hoje o medo de um conflito nuclear ameaça a tranquilidade dos povos e é tema de discussões acaloradas entre os chefes de Estado.

Para estabelecer a paz no mundo, Nossa Senhora recomendou o remédio da oração e da penitência. A essência da mensagem de Fátima, como de todas as outras mensagens marianas, é a expiação dos pecados cometidos contra o Sagrado Coração de Jesus.

“Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?” [2], perguntou a Virgem Santíssima a Jacinta, Francisco e Lúcia, na tarde de 13 de maio de 1917. Ao chamado do Céu os pastorinhos responderam prontamente com um: “Sim, queremos”. Dali em diante, as três crianças dariam provas de uma santidade incontestável, seja pela fidelidade à récita do Rosário, seja pelas severas mortificações a que se submeteriam, causando vergonha a muitos adultos.

O mundo pagão, no entanto, preferiu a “segurança” dos acordos políticos às Ave-Marias do Terço. A Liga das Nações, criada em 1919 pelos países vencedores da guerra, surgiu com o objetivo de assegurar a paz mundial por meio de sanções e decretos diplomáticos.

Mas a agressividade da Segunda Guerra Mundial e as loucuras dos regimes totalitários provaram que o homem necessita de muito mais que memorandos para ordenar as suas paixões. A Liga das Nações mostrou-se um completo fracasso, cedendo lugar à Organização das Nações Unidas (ONU), que hoje corre o risco de cometer o mesmo erro de sua predecessora, pela insistência em uma política anticristã e avessa à soberania dos Estados.

Sua Santidade, o Papa Pio XI.

Na encíclica Ubi Arcano Dei Consilio, a primeira de seu pontificado, o Papa Pio XI alertou para uma “paz ilusória, escrita apenas no papel”, que é incapaz de reavivar sentimentos nobres na alma dos homens. Para estabelecer a paz, o Papa insistiu na mesma recomendação da Virgem Maria: o retorno à fé cristã e uma vida de piedade sincera, tendo por finalidade instaurar o reino de Cristo entre os homens. Durante a Segunda Guerra Mundial, a providência divina iria se encarregar de mostrar como a mensagem de Fátima e a encíclica de Pio XI estavam corretas e a Liga das Nações estava errada.

No dia 6 de agosto de 1945, data em que a Igreja celebrava a festa da Transfiguração, os Estados Unidos da América, sob a liderança do presidente Harry Truman, lançaram sobre a cidade japonesa de Hiroshima a primeira bomba atômica da história, causando uma destruição sem precedentes e a morte instantânea de 80 mil pessoas número que chegaria mais tarde a 140 mil, dado o efeito da radiação.

Dias depois, foi a vez de Nagasaki sofrer as consequências da nova arma. Curiosamente, as duas cidades abrigavam a maior parte dos católicos japoneses, após décadas de perseguição e sobrevida na clandestinidade. “Nós certamente podemos supor que as bombas atômicas não foram lançadas por acaso. A questão é, portanto, inevitável: por que estas cidades do Japão foram escolhidas para o abate?”, questionou o Cardeal Giacomo Biffi em seu livro de memórias.

Na verdade, as atas da Comissão do Alvo mostram que as condições geográficas pesaram muito mais para a escolha que qualquer religiosidade das cidades — Hiroshima e Nagasaki seriam um local com maior chances de destruição. Nagasaki, aliás, nem era considerada uma opção nas primeiras reuniões. Em todo caso, a tragédia matou dois terços dos católicos no Japão.

No centro de Hiroshima, onde caiu a primeira bomba atômica, vivia um grupo de oito padres jesuítas, que há anos fazia pastoral no Japão. A explosão da Little Boy devia ter arrasado a comunidade desses sacerdotes, assim como arrasou mais de dois terços dos edifícios da cidade. Mas, milagrosamente, nem o edifício nem os padres sofreram qualquer efeito da bomba.

Quando os médicos os avaliaram e descobriram que não havia qualquer contaminação em seus organismos, os jesuítas encontraram uma única explicação para o fenômeno. “Nós sobrevivemos”, explicou o pe. Hubert Schiffer, “porque estávamos vivendo a mensagem de Fátima: rezávamos o Rosário diariamente, naquela casa”. Todos os oito membros da Companhia de Jesus viveram até meados da década de 1970, sem qualquer prejuízo pela radiação da arma.

Quando a bomba explodiu, os padres Hugo Lassalle, então superior dos jesuítas no Japão, Hubert Schiffer, Wilhelm Kleinsorge e Hubert Cieslik, estavam na casa paroquial da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, enquanto os demais estavam nos arredores da paróquia. Um deles celebrava a Missa e os outros tomavam café. O templo foi um dos únicos edifícios que ficaram de pé após a explosão. O padre Schiffer relatou toda a história no livro, em inglês, “O Rosário de Hiroshima”.

Em Nagasaki, algo semelhante ocorreu com os frades franciscanos de São Maximiliano Kolbe, conhecidos por sua intensa devoção mariana. Antes da guerra, São Maximiliano havia decidido fundar seu convento em uma região de Nagasaki diferente da que lhe tinham proposto inicialmente.

Quando a bomba caiu, a 9 de agosto de 1945, o convento foi protegido da explosão pela intervenção de uma montanha que existia naquelas proximidades, de modo que, tanto em Hiroshima quanto em Nagasaki, podemos ver a mão protetora de Maria, agindo em favor daqueles que se dispuseram a viver a sua promessa em Fátima.

Nagasaki após a bomba, 9 de agosto de 1945.

Outro fato curioso sobre o “milagre de Hiroshima” é que a visão que os moradores tiveram segundos após a explosão da bomba atômica foi semelhante ao “Milagre do Sol”, realizado pela Virgem Maria na última aparição de Fátima, a 13 de outubro de 1917. Depois de ter confidenciado várias profecias aos três pastorinhos, Nossa Senhora fez o Sol bailar no céu e se precipitar sobre a terra, na presença de 70 mil pessoas. Conforme relatos dos sobreviventes de Hiroshima, a explosão da Little Boy causou um brilho tão forte, que parecia que o Sol havia caído sobre a Terra. A própria data da explosão, 6 de agosto, coincide com a festa litúrgica da Transfiguração do Senhor, quando Jesus se transfigurou na frente dos discípulos, tornando seu rosto resplandecente como o Sol e suas vestes brancas como a luz (cf. Mt 17, 2).

O que os acordos políticos da Liga das Nações não conseguiram fazer, afinal, as Comunhões reparadoras e as piedosas Ave-Marias do Rosário de oito jesuítas fizeram. Foram as orações e a fidelidade à mensagem de Fátima que salvaram aqueles pobres sacerdotes, não a paz ilusória dos papéis. Esse testemunho eloquente do poder da oração só mostra que a resposta para a violência no mundo está mais na cruz de Cristo que nas recomendações da ONU, essa organização globalista que se revela cada vez mais autoritária e anticristã.

Por fim o meu Imaculado Coração triunfará” [3], profetizou a Virgem Maria cem anos atrás. Que, a exemplo dos oito padres jesuítas de Hiroshima, os cristãos de hoje vivam logo esse triunfo.

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Um exemplo de Tolkien para os rapazes que querem namorar
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Um exemplo de Tolkien para
os rapazes que querem namorar

Um exemplo de Tolkien para os rapazes que querem namorar

Antes de ser o senhor da fantasia, Tolkien foi, primeiro, senhor de si mesmo. E isso faz toda a diferença para quem deseja amar de verdade, até as últimas consequências.

Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Janeiro de 2018
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O namoro é um tempo exigente. Os jovens precisam controlar as paixões para viver um relacionamento casto e sincero, sobretudo agora que os modelos de namoro não propõem virtudes e estimulam os casais à sexualidade desregrada, como se fossem coisas descartáveis.

Infelizmente, a castidade é uma virtude fora de moda. E talvez por isso seja oportuno exaltar a nobreza de um homem que, embora não esteja na fila para a canonização, soube, apoiado em sua fé católica, esperar e respeitar a sua namorada e futura esposa por longos três anos. Falamos de John Ronald Reuel Tolkien, o autor das consagradas obras de ficção O Senhor dos Anéis e O Hobbit.

Tolkien ficou órfão muito cedo; ele e o irmão Hillary praticamente não conheceram o pai, Arthur, que morreu por conta de uma febre reumática, quando trabalhava na África do Sul. Após a morte do marido, dona Mabel Tolkien aproximou-se da Igreja Católica, onde encontrou forças e segurança para continuar a educar os filhos.

No Oratório de Birmingham, fundado em 1859 pelo Cardeal Newman, Mabel conheceu o padre Francis Morgan, um sacerdote zeloso em quem ela encontraria também um amigo fiel, especialmente durante o tempo de sua enfermidade. Para que não voltassem ao anglicanismo, religião de seus familiares, Mabel confiou os filhos ao padre Francis antes de morrer, desejando que os educasse na fé católica e preparasse para a universidade.

Padre Francis cuidou dos meninos Tolkien como um pai. Ele os educou com afeto e presença, ensinando-lhes desde muito cedo o caminho das virtudes e o amor a Nosso Senhor Jesus Cristo. Anos mais tarde, Tolkien escreveria a um de seus filhos dizendo: “Apaixonei-me pelo Santíssimo Sacramento desde o começo e pela misericórdia de Deus nunca me afastei dele outra vez”.

Na verdade, Tolkien amou e respeitou padre Francis, principalmente porque aquele sacerdote era a primeira figura paterna com que ele e o irmão tiveram contato. E essa relação se mostrou ainda mais verdadeira quando padre Francis teve de aplicar o rigor da disciplina sobre o jovem Tolkien, para assegurar-lhe o futuro que sua mãe, dona Mabel, havia sonhado.

Tolkien tinha 18 anos e se preparava para um exame de admissão à Universidade de Oxford quando se sentiu atraído por uma jovem da vizinhança chamada Edith Bratt. Os dois começaram a sair juntos e logo o que era apenas uma amizade se transformou em romance. Tolkien e Edith tinham histórias parecidas — ambos eram órfãos e tiveram de se mudar várias vezes —, o que fazia da relação deles algo mais apaixonante.

Mas não pensem os apressados que era um namoro escandaloso. Era mesmo um romance às antigas, com direito a conversas à janela, enquanto o resto da casa dormia, e passeios de bicicleta pelos bosques da cidade, onde paravam à beira de um lago para falar sobre os seus sonhos. Além disso, Tolkien havia aprendido a tratar as mulheres com respeito e delicadeza, como um verdadeiro cavalheiro deve fazer.

O romance seguiu firme até a novidade chegar aos ouvidos de padre Francis. Como havia prometido a dona Mabel, padre Francis deveria garantir a carreira acadêmica tanto de John quanto de Arthur. E isso significava trabalho duro e fuga de qualquer distração.

A advertência não tardou. Tolkien foi proibido de aproximar-se de Edith novamente. A notícia foi um golpe para o casal, e Tolkien acabou implorando pelo relacionamento, dizendo ao seu tutor que ele e Edith estavam mesmo apaixonados. O sacerdote, então, deu-lhe um ultimato: acabar com o namoro e, se depois de três anos, quando Tolkien já fosse maior de idade, os dois ainda sentissem interesse um pelo outro, poderiam reatar a relação.

Apesar de doloroso, o pedido de padre Francis deveria ser atendido por Tolkien, que entendia as razões de seu tutor e sabia que aquilo era o certo a se fazer. Os exames para Oxford eram dificílimos, e ele precisava do máximo de atenção naquele momento. De fato, o namoro podia distraí-lo. Tolkien decidiu afastar-se de Edith e meter-se de cabeça nos estudos, a fim de conseguir a tão sonhada bolsa universitária. Mas se Tolkien, de um lado, estava certo de que devia obedecer ao padre, o seu coração, de outro, ainda suspirava por Edith, o que significava uma chance para os dois. Eles acabaram se encontrando de novo.

A família de Edith resolveu enviá-la para morar em outra cidade, onde pudesse desenvolver melhor seus estudos. A notícia pegou o casal de surpresa e, assim, Tolkien e Edith marcaram um último encontro, onde ambos juraram fidelidade por aqueles três anos que passariam longe; Tolkien deu uma joia para Edith como sinal de sua promessa e presente de aniversário. Ela presenteou-o com uma caneta. Quando soube do encontro, padre Francis ficou profundamente magoado e tomou uma decisão duríssima: Tolkien não só foi proibido de se encontrar com Edith como agora estava proibido de escrever-lhe. Ele teria de aguentar os próximos três anos sem sequer falar com Edith.

Essa provação, porém, serviu para forjar o caráter de Tolkien, tornando-o um homem forte e responsável. Na faculdade, o jovem logo se destacou tanto pela inteligência e dedicação com que desenvolvia suas tarefas quanto pela firmeza moral nos costumes que havia adquirido. Embora os tempos fossem outros, longe da decadência de hoje, muitos estudantes daquela época já se envolviam com bebidas, drogas e sexo. Tolkien, por outro lado, manteve distância de tudo isso. O máximo que fazia era sair com amigos para beber cerveja e fumar charutos, o que era um hábito perfeitamente aceitável na sociedade inglesa.

De resto, o coração do futuro senhor das fantasias ainda pertencia a Edith Bratt.

J. R. R. Tolkien e Edith Bratt se casaram em 1916 e tiveram quatro filhos.

Tolkien completou 21 anos em 1913 e, na véspera de seu aniversário, escreveu para Edith, reafirmando sua fidelidade e desejo de casar-se com ela. A resposta que Tolkien esperava, entretanto, não foi animadora; Edith havia noivado com um rapaz chamado George Field. Por um momento, as esperanças de Tolkien desapareceram.

Mas, a 8 de janeiro do mesmo ano, ele tomou um trem em direção à cidade em que Edith morava, decidido a recuperá-la. Os dois se encontraram ali mesmo na estação de trem e conversaram por um bom tempo até que ela percebesse que Tolkien, de fato, ainda a amava. Edith rompeu o noivado e, finalmente, Tolkien e ela puderam retomar o namoro.

J. R. R. Tolkien e Edith Bratt se casaram em 1916 e tiveram quatro filhos. Os dois, infelizmente, não foram uma segunda versão de Santa Zélia e São Luís Martin, mas viveram um matrimônio profundamente católico, marcado pela fidelidade e pelo compromisso.

Apesar das guerras e do trabalho, Tolkien foi um marido atencioso e um pai presente, algo realmente notável em comparação com a vida de outros intelectuais que, para se dedicarem a suas obras, abandonaram esposas e filhos. Tolkien, ao contrário, amou a mulher e por ela soube preservar-se durante três anos de provação, pelo que se demonstra que a castidade não é uma virtude de eunucos ou frígidos, mas de quem está disposto a amar até as últimas consequências. Antes de ser o senhor da fantasia, Tolkien foi, primeiro, senhor de si mesmo.

Referências

  • Michael White. J. R. R. Tolkien: O Senhor da Fantasia (Trad. de Bruno Dorigatti). Darkside. 2013.

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A maçã envenenada da ideologia feminista
Sociedade

A maçã envenenada
da ideologia feminista

A maçã envenenada da ideologia feminista

A primeira e talvez a segunda onda do feminismo até podem ter sido construídas sobre ideias nobres, mas a corrente atual é movida por nada menos do que a inveja.

Carrie Gress,  National Catholic RegisterTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere8 de Janeiro de 2018
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“Branca de Neve”, “Cinderela”, “A Pequena Sereia”, “Rapunzel”, “A Bela Adormecida” são histórias que povoam há séculos a imaginação das meninas. Popularizadas pelas produções da Disney, versões diferentes desses contos de fadas, particularmente da Cinderela, têm cruzado as divisas das culturas e do tempo.

Todas essas histórias fantásticas seguem um roteiro parecido. Geralmente há uma mulher mais velha — que pode ser uma mãe, uma bruxa ou uma rainha —, em uma posição confortavelmente superior, até alguém ameaçar o seu lugar por ser, por exemplo, “a mais bela de todas as mulheres” [1]. A jovem donzela precisa ser detida a qualquer custo. A partir disso, os contos de fadas se desenrolam rumo a um desfecho comum: as coisas não se dão bem para a bruxa má, e a jovem donzela e seu príncipe vivem felizes para sempre.

Há muitas lições que podem ser extraídas desses contos de fadas, mas a primeira delas diz respeito ao vício atemporal da inveja. Embora pareçam equivaler-se, ter inveja e sentir ciúmes são, na verdade, duas coisas bem diferentes uma da outra [2]. A inveja eleva o ciúme de uma pessoa a um novo patamar, como se quem possuísse o objeto de seus desejos, ou fosse um obstáculo para alcançá-lo, estivesse roubando algo dela. Não sem razão a palavra inveja vem do latim invidere, que significa, literalmente, olhar para o outro com um “olho mau”, cheio de ódio e de malícia. Ela alimenta o impulso de destruir o próximo.

Embora seja um pecado capital tanto para homens quanto para mulheres, a inveja parece estar profundamente enraizada no coração feminino, desde o tempo de Eva. Até mesmo no Jardim do Éden é possível ver a inveja em ação. A serpente, ao tentar a primeira mulher com o fruto da árvore do bem e do mal, procura ao mesmo tempo colocá-la contra Deus, como se Ele estivesse retendo algo bom e que certamente era de seu direito. “Oh, não! — tornou a serpente — vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3, 4-5).

O que acontece, então, se tomarmos este vício atemporal da inveja e o aplicarmos a nossa própria cultura? Existe por acaso uma conexão?

Sim, ela existe, mas o lugar em que se sobressai pode parecer inesperado para muitos: trata-se do feminismo radical. A primeira e talvez a segunda onda do feminismo até podem ter sido construídas sobre ideias nobres, mas a corrente atual é movida por nada menos do que a inveja.

Nós vemos a inveja atuando, primeiro e sobretudo, na relação que as mulheres chegam a manter com os próprios filhos. A ideologia por trás da liberação do aborto é de que “as mulheres precisam tocar suas vidas”. A vida de uma criança seria uma ameaça ao sucesso e à felicidade de sua mãe. Assim como em Branca de Neve, aqui também um ser humano a desabrochar é detido (literalmente envenenado, muitas vezes) e destinado a dormir um sono profundo (só que, desta vez, sem jamais poder acordar). Como as pessoas são capazes de exultar com um ato de tamanha destruição, ou chamar de “empoderamento” ao ato de contar a história dos próprios abortos na internet (como pretende um movimento recente nos Estados Unidos, chamado Shout Your Abortion)?

E quanto aos homens? Eles geralmente não são retratados como vilões nos contos de fadas, mas a versão contemporânea da trama tem os colocado no centro das atenções. As mulheres decretaram que só serão felizes se levarem a mesma vida que os homens levam. A atitude delas em relação a seus pares revelam as marcas destrutivas e depreciativas da inveja. As mulheres não abraçam mais o bem que os homens têm a oferecer à sociedade; antes, vêem-no como um mal que tem de ser eliminado. Os importantes instintos de proteção e responsabilidade que desde sempre impulsionaram os homens à grandeza foram reduzidos à categoria de “machismo”. O mantra feminista, nas entrelinhas, é: “Homens, ainda que nós queiramos ser como vocês, vocês devem mudar.” Todos os dias nós vemos o veneno da inveja sendo destilado em direção aos homens, particularmente nos comerciais ubíquos de TV, onde todos eles agem de modo atrapalhado, até que uma sábia mulher venha em socorro deles.

E como as feministas tratam aquelas mulheres que não abraçam seus ideais? Mulheres que escolheram ter muitos filhos e/ou preferiram a família à própria carreira são frequentemente tidas como idiotas, “parideiras”, pessoas que preferiram ficar “presas” em casa, ao invés de gozarem da liberdade que vem com a independência e autonomia financeiras. Assim o movimento feminista alimenta a “estranha ideia de que as mulheres são livres quando servem os seus empregadores, mas escravas quando ajudam os seus maridos” [3].

Infelizmente, as mulheres cristãs não estão imunes à destruição ideológica do feminismo radical, que está praticamente onipresente em nossa cultura. Ao longo dos anos, estas pelo menos têm mostrado possuir uma capacidade profunda de ajudar e encorajar outras mulheres — virtudes que são difíceis de viver e até mesmo de ter em alta conta, quando a cultura, de uma maneira geral, apresenta o ciúme e a inveja como “virtudes” indispensáveis para sobreviver econômica e socialmente.

Mas como podemos combater este velho pecado de Eva?

Primeiro, é importante termos consciência da inveja e das múltiplas formas sob as quais ela se apresenta no mundo à nossa volta. O mais importante de tudo, porém, é olharmos para nossos próprios corações, onde este pecado muitas vezes se esconde, permeando nossas palavras, atos… e omissões.

Em segundo lugar, podemos consultar esses velhos contos de fadas à procura de ajuda. A mulher invejosa preza pelo próprio status, esteja ele em sua juventude, em sua riqueza, em seu poder ou em sua influência (ou mesmo em tudo isso junto). Todos esses aspectos materiais, no entanto, não cobrem por completo o que significa ser uma mulher de Deus. Há uma camada mais profunda de vida para as mulheres, camada a qual nós perdemos de vista em nossa própria cultura. Trata-se de maturidade e de sabedoria. Esses atributos não aparecem simplesmente com o passar dos anos, mas devem ser adquiridos por meio de atos deliberados de esforço para conquistar as virtudes da humildade, da paciência, da confiança, da pureza etc.

A chave para isso está na consciência profunda de que Deus é nosso Pai, cuida com carinho de cada um de nós e tudo o que nos acontece faz parte de sua vontade providente. Quando descobrimos que “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8, 28) e rejeitamos a mentira de que estaríamos órfãos neste mundo, então a inveja passa a não ter mais lugar em nossas vidas. Um espírito de gratidão por esse relacionamento com nosso Criador e por todos os dons que recebemos, por mais pequenos e insignificantes que pareçam, é o que precisamos para dissipar o veneno da inveja.

Como todo bom conto de fadas, nós sabemos que, no fim, a beleza, o bem, a verdade e a honestidade verdadeiras não podem ser vencidos, mas tão somente escondidos ou desprezados. Um dia, a fantasia da ideologia feminista finalmente virá abaixo e será revelado, então, aquilo que ela realmente é: uma grande e espalhafatosa mentira.

Notas

  1. A expressão “fairest of them all”, aqui traduzida ao pé da letra, faz referência à frase com que a personagem da madrasta má se dirigia ao espelho mágico na história da Branca de Neve: “Mirror, mirror on the wall, who’s the fairest of them all?” (“Espelho, espelho na parede, quem é a mais bela de todas?”, literalmente). Na versão portuguesa desse conto de fadas, a frase que ficou famosa e mais sonora em nosso idioma foi: “Espelho, espelho meu, existe alguém neste mundo mais bonita do que eu?”.
  2. Essa diferença é cuidadosamente explicada na Suma Teológica: enquanto os ciúmes (zelus, em latim) são considerados pelo Aquinate simples efeitos do amor (cf. I-II, q. 28, a. 4), pelo que vão abordados no tratado sobre as paixões, a inveja é sempre má e pecaminosa (cf. II-II, q. 36, a. 2), constando da seção da Suma que trata sobre a moral.
  3. Trata-se de uma frase, famosa, de G. K. Chesterton, já usada inúmeras vezes em outros textos nossos. Tomamos a liberdade de acrescentá-la aqui, a fim de enriquecer a matéria e completar a linha de raciocínio de sua autora.

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